Meu chefe é um algoritmo: um novo instrumento de opressão ou mecanismo de libertaçÃO? My boss is an algorithm: a new instrument of oppression or mechanism of liberation?


A INVASÃO DOS ALGORITMOS: OS DESAFIOS DAS NOVAS FORMAS DE TRABALHO NO MERCADO DIGITAL



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2. A INVASÃO DOS ALGORITMOS: OS DESAFIOS DAS NOVAS FORMAS DE TRABALHO NO MERCADO DIGITAL
“O chefe do futuro vai ser um algoritmo? O uso de inteligência artificial e robótica, que já está presente em sistemas de comunicação e segurança, operações bancárias e até decisões judiciais, chega às relações trabalhistas”. Foi dessa maneira que a jornalista Michele Loureiro (2019), da revista InfoMoney, retratou a realidade de 600 mil motoristas da empresa Uber, no Brasil, que são controlados por algoritmos, ou seja, a equipe não é coordenada por uma pessoa física, e sim por um algoritmo que acompanha o desempenho dos motoristas, coletando dados por meio de um aplicativo.

Com o advento da primeira e da segunda Revolução Industrial4, não era possível imaginar que apenas uma máquina seria capaz de gerenciar uma imensa equipe de trabalhadores, atribuindo funções, avaliando o desempenho, podendo, inclusive, decidir o valor da remuneração e demitir o trabalhador. Hoje, no auge da quarta Revolução Industrial, essa realidade não só é possível, como está presente em empresas como o Uber e Youtube5, que utilizam os algoritmos para “chefiar suas equipes” (LOUREIRO, 2019).

Mas o que são algoritmos? Sabe-se que, atualmente, os algoritmos estão presentes no dia-a-dia da sociedade, nos celulares, computadores, carros, casas, empresas, entre outros. Dessa maneira, para falar sobre algoritmos, é necessário que se entenda como funcionam e de que maneira afetam o cotidiano das pessoas.

As novas tecnologias digitais, baseadas no computador, nos softwares e nas redes (que surgiram com o advento da terceira revolução industrial), estão se tornando cada dia mais sofisticadas e integradas (tendo em vista a interação entre os domínios físicos, digitais e biológicos), causando rupturas com a revolução tecnológica e dando início à quarta Revolução Industrial6, que é marcada, principalmente, pela velocidade das inovações (SCHWAB, 2016).

Segundo Rodríguez (2018), Inteligência Artificial é a inteligência das máquinas, ou seja, trata-se de uma máquina inteligente, baseada em sistemas tecnológicos que se utilizam de algoritmos para dar resposta a uma pergunta ou identificar possíveis soluções a um problema. Pode-se dizer que a IA está presente em diversos locais, como carros automatizados, assistentes virtuais, softwares, criação de novos medicamentos, entre outros, e está constantemente transformando a vida em sociedade.

Note-se, ainda, que a IA utiliza os algoritmos para realizar as funções para as quais foram destinadas. Os algoritmos são sistemas lógicos tão antigos quanto a matemática, que com o desenvolvimento dos computadores durante a terceira Revolução Industrial, tiveram como objetivo criar rotinas para as respectivas máquinas trabalharem (PIERRO, 2018). Nesse sentido, Pedro Domingos (2017) afirma que:


Um algoritmo é uma sequência de instruções que informa ao computador o que ele deve fazer. Os computadores são compostos por bilhões de minúsculas chaves chamadas transistores, e os algoritmos ligam e desligam essas chaves bilhões de vezes por segundo. O algoritmo mais simples é: gire a chave. O estado um transistor contém um único bit de informação: um, se o transistor estiver ativado, e zero, se estiver desativado. Um único bit em algum local dos computadores de um banco informa se nossa conta tem ou não saldo. Outro bit dos computadores da administração da previdência social informa se estamos vivos ou mortos. O segundo algoritmo mais simples é: combine dois bits. Claude Shannon conhecido como o pai da teoria da informação, foi a primeira pessoa a entender que os transistores fazem, quando ligam e desligam em resposta a outros transistores, chama-se raciocínio.
Em síntese, os programadores inserem os dados no computador e o algoritmo processa essas informações, gerando um resultado.

No campo da IA, existem os algoritmos de aprendizado (também chamados de machine learning), que criam outros algoritmos. Pedro Domingos (2017) os equipara à agricultura, isto é, os algoritmos de aprendizado são as sementes, os dados são o solo, e o especialista é o fazendeiro que planta, irriga, fertiliza o solo e tem atenção com a integridade dos frutos. Dessa forma, quanto mais dados alimentarem a máquina, mais ela aprende.

Os algoritmos de aprendizado, devido a sua funcionalidade e custo reduzido7, estão sendo utilizados com maior frequência pelas empresas, pois a ampla quantidade de dados e informações constantes na internet e que alimentam as suas bases de dados, permitem que as decisões sejam tomadas em um curto espaço de tempo e com maior precisão, sem que seja necessária a intervenção humana. Observa-se, assim, que o aprendizado da máquina e a necessidade de diminuir os custos, começam a afetar as estruturas empresariais, com a criação de novos empresários e, consequentemente, modificando as relações de trabalho. As empresas estão organizando sua estrutura pela lógica algorítmica, de maneira que os trabalhadores devem seguir os regulamentos e protocolos estabelecidos pela objetivo negocial da instituição, ou seja, “a própria estrutura transforma os trabalhadores em algoritmos que respondem a impulsos e, assim os controla segundo seus objetivos lucrativos” (RIEMENSCHNEIDER; MUCELIN, 2019, p. 74).

Este novo modelo de organização empresarial recebe o nome crowdsourcing, e se utiliza das plataformas digitais para o fim de conectar pessoas com os mesmos interesses, de um lado aquelas interessadas em prestar o serviço e, de outro lado, os consumidores interessados na prestação do serviço oferecido, como, por exemplo, o Uber (NUNES; GONÇALVES, 2018). Essa nova estrutura empresarial concede ao trabalhador uma parcela de autonomia, que é mitigada em razão da lógica algorítmica, ou seja, o trabalhador ao invés de seguir ordens do empregador (pessoa física), passa a seguir regras de programação, cujos algoritmos podem ser a qualquer momento modificados (RIEMENSCHNEIDER; MUCELIN, 2019). O empregador, dessa forma, passa a ser o algoritmo da plataforma digital a qual o trabalhador está vinculado8.

Além disso, nesse modelo de organização empresarial, os trabalhadores ganham nova denominação, isto é, passam a ser chamados de parceiros, pois trabalham numa economia colaborativa, fundamentada na “sustentabilidade, cooperação social, igualdade, pertencimento comunitário, democracia, compartilhamento, independência, entre outros” (NUNES; GONÇALVES, 2018, p. 78).

Assim, conforme será analisado no capítulo subsequente, a nova organização empresarial, fundamentada em algoritmos e plataformas digitais, vem transformando as relações de trabalho, trazendo consequências ao sistema de proteção do trabalho e à saúde do trabalhador.





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