Memórias da formação e identidade do Jardim Acrópole e Jardim Solitude em Curitiba, ao redor do Colégio Santa Rosa, a partir da década de 1970


 Implementação do projeto e trabalho prático



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3 Implementação do projeto e trabalho prático 

 

 

Começamos nosso Projeto em sala de aula, expondo aos estudantes do nono 



ano sobre a justificativa, a problematização e as  etapas de ações do  mesmo. Logo 

de início, há certa empolgação e até algumas sugestões. 

Passamos  então, junto com os referidos estudantes, à visualização  do filme: 

Narradores  de  Javé.  Eliane  Caffé.  Lumière  e  Riofilme.  Brasil:  2003.  Dando 

sequência a uma reflexão e análise sobre a história local, núcleo deste Projeto.  

 

O uso do cinema em sala de aula seja sistemático e coerente, o que implica 



que os filmes tenham ligação clara e que seu planejamento obedeça a uma 

escolha voltada para os interesses da disciplina, levando em conta a cultura 

geral e audiovisual dos estudantes e o lugar que o filme ocupa na história e 

linguagem cinematográficas. (Dalla Costa, 2011, p.57) 

 

 

As  reações,  ao  assistir  o  Filme  acima  citado,  são,  por  vezes,  muito 



semelhantes  entre  os  estudantes,  até  mesmo  encontram  dificuldades  em  perceber 

as diversas intenções, tanto do Filme em si, quanto em relação ao Projeto. Levamos 

em consideração a  maior frequência de opinião entre os participantes, como segue 

abaixo. 


Em relação ao que chama a atenção no filme, destaque-se: as situações mais 

cômicas;  o  ideia  de  escrever  a  história  do  lugar  para  ajudar  a  provar  que  aquela  

cidade  com  seu  povo  existem  e  que  não  podem  ser  destruídos;  as  histórias  que 

cada  personagem  entrevistado  relata  é  que  a  cidade  está  prestes  a  ser  inundada 

pelas águas. 

Consideraram  como  líder  na  história  o  personagem  que  ficou  incumbido  de 

escrever  a  história  do  local;  dois  outros  senhores  que  tentavam  ajudar  a  pequena 

cidade;  e  a  presença  de  mulheres  como  líderes  quando  estas  se  manifestavam  e 

falavam relatando suas versões das origens da cidade.  



Portanto, o personagem que mais se destaca é o escritor, responsável em por 

no  papel  a  memória  dos  habitantes.  Ele  se  torna  uma  pessoa  importante  porque 

escreve  um  documento  para  provar  a  existência  e  para  a  posteridade.  Percebem 

que ele sempre recomeça seu trabalho na tentativa de salvar a cidade. Entretanto, o 

escritor  completava  os  relatos  com  mentiras  e  falsidades.  Era  complicado  escrever 

os relatos, mas era o que tinham e precisavam partir deles mesmos. 

Os  participantes  percebem  que  cada  contador  tinha  uma  visão  diferente  um 

do outro, tornando o trabalho do escritor mais complexo, o que o fazia desanimar da 

árdua  tarefa.  Mas  aquele  trabalho  era  importante,  porque  estava  em  jogo  a 

destruição  de  suas  casas  e  de  suas  vidas;  abandonar  suas  raízes  e    recomeçar  a 

vida  em  outro  lugar.  Perder  tudo  isto  em  nome  do  progresso  e  do  comércio.    Esta 

última ideia, os estudantes puderam perceber em relação às suas próprias histórias 

de migrantes, lembrando seus ancestrais que tiveram de sair, por exemplo, do Norte 

do  Paraná,  porque  perderam  tudo  e  tinham  que  lutar  para  sobreviver,  encontrando 

certa  solução  na  região,  da  Capital,  mas  como  no  filme  encontraram  violências, 

mentiras, manifestações e bagunças.  

Justifica-se  a  importância  de  reflexões  a  partir  de  filmes  como  este,  porque 

relevam  a  necessidade  de  compreender  aspectos  históricos,  aspectos  sociais 

direitos  e  deveres,  movimentos  de  emancipação  para  melhorias  urbanas. 



Despertando  ações  e  conceitos  mais  críticos  que  podem  levar  à  uma  melhor 

satisfação em viver em um determinado local, valorizando-o, como este ao redor do 

Colégio  Estadual  Santa  Rosa.  Alguns  estudantes  reconhecem  como  líder  a  própria 

população  quando  manifesta  suas  necessidades  e  preocupações,  outros 

consideram liderança certos políticos eleitos e conhecidos popularmente. 

A  ideia  de  fazer  um  filme  sobre  a  própria  história  do  lugar  é  bem  aceita, 

alegando  que  o  povo  tem  muitas  histórias  para  ser  ensinadas,  contadas  e 

conhecidas, com orgulho mostrar nossa arte, personagens e desbravadores; mostrar 

como  ela  é  e  sem  preconceitos.  Até  mesmo  porque  muitos  vieram  morar  nesta 

região,  segundo  opiniões  dos  estudantes,  por  ser  um  bom  lugar,  calmo,  certa 

qualidade de vida e também porque há progresso na região. 

Outro  aspecto  de  reflexão  é  que  perceberam  que  na  cidade  havia  somente 

uma  pessoa  alfabetizada.  Isto  mostra  a  preocupação  dos  nossos  estudantes  em 

pelo  menos  ter  domínio  de  uma  estrutura  básica  de  educação,  mas  que  nosso 

Colégio já tem oferecido há mais de trinta anos. 

E  desta  forma,  nesta  estratégia  de  ação  sobre  a  exibição  do  Filme, 

percebemos  a  importância  de  sua  própria  história,  onde  muitos  acontecimentos 

– 

alguns vistos como lendas  -  estão ainda escondidos, mas   que   podem  esclarecer 



algumas  situações, decisões  e realidades. E também, que a história não é somente 

aquelas contadas nas grandes obras, mas também aquelas que as pessoas comuns 

sabem e ainda estão guardadas, com toda autenticidade, em suas memórias.     

 

 



A  visita  ao  Museu  Paranaense  teve  como  efeito  refletir  sobre  as  possíveis 

culturas existentes nas regiões onde os estudantes moram hoje, ou seja, ao redor do 




Colégio. Não vimos nítidas relações, entretanto pudemos construir uma ideia sobre a 

vida  que  dá  continuidade  pelos  menos  em  relação  à  natureza,  alimentação  e  vida 

comunitária  e  social.  Não  temos  mais  indígenas  originais  que  moram  na  região 

acima citada atualmente, mas constantemente ouvimos referências ao seu modo de 

vida e que foram nossos predecessores no lugar. No Museu, observaram  também, 

os    aspectos  que  fazem  parte  da  experiência  da  formação  de  um  território  físico  e 

cultural.  

Entretanto, a visita ao  Museu é  uma  experiência para conhecer as raízes  da 

vida dos que agora fazem parte ativamente da sociedade atual. Perceberam, através 

de  um  olhar  crítico,  o  quanto  é  importante  às  experiências  cotidianas  que 

realizamos. Também os estudantes observaram que ali, naquela visita, se tratava de 

uma  prática  didático-pedagógico  de  ensino-aprendizagem,  em  grupo,  numa  forma   

descontraída, mas sem deixar de lado o critério científico da pesquisa e da visita que 

perpassa  tanto  o  objetivo  do  Museu  quanto  o  nosso.  Vale  lembrar  que  o  que  mais 

procuramos nesta visita, foram as referências da cultura indígena, uma vez que  na 

região  citada  não   há referências de notáveis  mobilizações econômicas  ou outras 

manifestações sociais ligadas à cultura não indígena ou escravista. 

O objetivo da visita é compreender, de forma geral, a formação, a evolução do 

desenvolvimento e a memória de um grupo social dentro de vários aspectos. Assim 

como,  compreender  a  ideia  de  construção  da  vida  social,  observar  a  atuação  dos 

sujeitos 

– líderes ou não, dominantes ou dominados, tendo em vista o abrir caminho 

na  elaboração  do  nosso  Projeto.  Neste  sentido,  colaboraram  a  contento  na 

disciplina, na percepção de que se tratava de uma memória história. 

 

Consideramos  a  memória  não  como  algo  imitável  e  repetitivo,  mas  como 



uma  possibilidade  de  reflexão  sobre  o  passado  através  de  sua 

representação  no  momento  presente.  Assim,  a  constituição  de  uma 

memória  está  intimamente  relacionada  com  as  transferências  que  o 

presente lhe confere na reelaboração do passado.” (Bittencourt (org.), 2005, 

p.107)  

 

 



 

Todo  o  tempo  lhes  era  lembrado  os  aspectos  das  possíveis  transformações 

em  vários  domínios.  Nelas,  podem-se  confirmar  as  contribuições  legadas  à 

sociedade,  que  foram  acumuladas  nas  diferentes  épocas  até  o  momento  presente. 

Ainda que  na nossa região seja difícil notar vestígios da cultura indígena. Sobre as 

transformações:  

 

Da  mesma  forma  que  se  diz,  genericamente,  que  o  homem  transforma  a 



natureza se transforma, podemos constatar que o indivíduo, ao produzir um 

objeto, transforma uma matéria que se torna coisa através da sua atividade, 

e pela própria atividade desenvolvida ele, indivíduo, se transforma.”  

...  a  importância  vital  do  trabalho  humano,  pois  é  através  dele  que  nos 

objetivamos  socialmente,  e  é  também  através  dele  que  nos  modificamos 

continuamente, ou seja, nos produzimos, nos realizamos. (Lane, 2006, p.59) 




Assim,  em  se  tratando  de  transformações,  ou  seja,  aquilo  que  se  realiza  no 

trabalho, faz  parte dos problemas sociais  e também  das preocupações dos nossos 

estudantes, giram  em torno do trabalho, então  é necessário ressaltar numa visita a 

um museu as diversas fontes de atividades, das quais, o homem tomou posse e fez 

desenvolver sua região. É claro, que também sua identidade pessoal e social,   tem 

parte preponderante em suas ações. Então, é um conjunto de ações que leva a uma 

evolução  da  história  de  um  lugar  como  este  em  que  está  inserida  a  região  do 

Colégio Estadual Santa Rosa.  

 

 

Segue  as  descrições  dos  estudantes  durante  a  visita,  sobre  o  que  puderam 



observar,  quanto  à  cultura  dos  indígenas,  que  são  curiosas  e  que  ao  longo  das 

vitrinas  demonstravam  certo  nível  de  compreensão  em  relação  às  diversas 

transformações e diferentes hábitos. 

Aquilo  que  desperta  a  atenção  dos  estudantes  foram  os  alargadores  bocais 

(hoje  nas  orelhas!);  ossos  humanos;  as  panelas,  os  casamentos  muito  “cedo”;  as 

pinturas  nos  corpos  (as  tatuagens  de  hoje!);  os  rituais  de  passagem  do  período  de 

infância para o de adulto; rituais sagrados e também por acreditarem na ‘presença’ 

dos seus antepassados. Diante destas situações, os estudantes  fazem comentários 

aprovando ou não esta ou aquela situação. 

No  decorrer  da  visita,  os  estudantes  foram  imaginando  o  cotidiano  dos 

indígenas  repleto  de  costumes  e  de  rituais,  felizes,  pelados,  muitas  danças,  caças, 

cultivo  da  terra,  pessoas  saudáveis,  responsáveis,  respeito  mútuo,  trabalhadores, 

‘pessoas  de  bem’,  os  rituais  noturnos,  humor.  Mas,  para  alguns  estudantes, 

consideraram difícil se verem 

nesta cultura “antiga”. Mas, é neste último aspecto que 

observamos o interessante  modo de ressaltar que o mundo está continuamente em 

transformação, lembrando como seria nossa região num tempo  passado e notar as 

modificações ocorridas motivadas pela presença humana. 

Questionados sobre o que permanece da cultura indígena nos tempos atuais,  

afirmaram    sobre    os    alargadores,  “piercings”,    brincos,    alimentação,  pinturas  no 

corpo 

–  as  tatuagens  modernas!,  a  caça  (mas  que  hoje  é  crime!,    o  artesanato. 



Entretanto,  alguns  estudantes  apontam  que  esta    referida  cultura  já  não  existe  nos 

dias atuais, e que  isto pode ser dado pela falta de interesse ou pelo pouco que se 

estuda  e  se  publica  acerca  do  assunto.  Falar  sobre  nossas  raízes  ainda  pode  ser 

uma barreira à construção nossa própria cultura.  

Sobre  as  diferenças  entre  o  “tempo  dos  indígenas  e  o  nosso”  apontam,  por 

exemplo,  que  as  crianças  aprendiam  a  caçar  e  que  não  havia  escolas;  eram  mais 

dependentes  do  grupo  para  o  viver  cotidiano;  agora  não  tem  mais  indígenas  na 

região;  usamos  vestuários;  não  usamos  mais  objetos  de  palhas  como  eles  faziam; 

se  adaptaram  às  novas  tecnologias;  nosso  alimento  é  industrializado;  dispomos  de 

transportes  automotores  para  locomoções;  as  moradias  e  a  língua  são  diferentes. 

Mas,  notaram  também  que  não  se  atribui  mais  valor  e  importância  à  cultura 

indígena, até mesmo porque, não vemos sua presença e participação na vida social.     

As  mudanças  em  termos  gerais,  segundo  os  nossos  visitantes,  ocorreram 

devido  ao  surgimento  de  novos  aspectos  de  vida;  certos  avanços  do 




desenvolvimento como o crescimento de empresas, da população não indígena, da 

tecnologia 

– que nos torna mais dependentes dela; pela  ganância  de  fazendeiros;  

dos    maus    tratos  que    sofreram;  influências    negativas;  adaptações    culturais  que 

foram obrigados a fazer  por causa dos colonizadores.  Alguns estudantes ponderam 

que as mudanças são necessárias, porque nosso mundo 

não poderia  ficar “daquele 

jeito” e que temos que ter estudos, mais conforto, bons empregos. 

Assim, nossa intenção de despertar interesse às nossas raízes ou o modo de 

viver,  que  nos  precederam  é  modesta  e  seriamente  refletida,  além  disso,  observar 

como  tiramos  proveito  do  que  temos  e  somos  hoje,  procurando  valorizar  nossa 

cultura.  Por  isso,  a  visita  aos  Museus  pode  contribuir  na  construção  pessoal    e  

social de uma região, conhecendo a história, em si, como seus próprios alicerces. 

 

 



 

Outra  ação  do  grupo  foi  contatar  com  moradores  da  região,  de  preferência 

com  antigos  moradores,  procurando  saber  deles  fatos,  acontecimentos,  histórias  e 

até  mesmo  lendas  que  aprenderam  através  do  ouvir  falar,  no  caso,  de  seus 

parentes,  amigos  e  vizinhos.  Chegamos  a  nos  prepararmos  com  perguntas,  mas  o 

melhor é que as pessoas que conseguimos encontrar gostavam de contar o que se 

lembravam. 

Muitas  personagens  guardam  importantes  acontecimentos  que  fornecem 

pistas para um melhor entendimento de sua história, como fotos antigas, objetos de 

recordação  de  momentos do cotidiano ou de situações  marcantes, instrumentos de 

trabalho, etc. 

O exercício da memória é indispensável.  

 

a  evidência  oral  pode  conseguir  algo  mais  penetrante  e  mais  fundamental 



para  a  história.  Enquanto  os  historiadores  estudam  os  atores  da  história  a 

distância,  a  caracterização  que  fazem  de  suas  vidas,  opiniões  e  ações 

sempre  estará  sujeita  a  ser  descrições  defeituosas,  projeções  da 

experiência e da imaginação do próprio historiador: uma forma de erudita de 

ficção. A evidência oral, transformando os “objetos” de estudo em “sujeitos”, 

contribui  para  uma  história  que  não  só  é  mais  rica,  mais  viva  e  mais 

comovente, mas também mais verdadeira. (Thompson, p.137)  

 

Muitos  hábitos  e  aspectos  da  vida  cotidiana,  seja  familiar  ou  social,  



constituem  um    arquivo  de    informações  e  dados  muito  impressionante,  que 

finalmente  são  contados  como  indispensáveis  para  a  sobrevivência.  Por  exemplo: 

um  determinado  tipo  de  postura  social,  rituais  alimentares  e  religiosos,  a 

escolarização, o vestuário, etc. 

 

Todas  estas  transformações  vão  se  perpetuando  na  região  e  vão  norteando 



os que chegam e os que nascem ali, formando assim não somente memórias de um 

passado,  mas  se  transformam  em  normas  gerais  e  guias  de  conduta  e  de 

pensamento. Também, só se torna memória aquilo, que de uma forma ou  de outra, 

provoca reações e sentimentos válidos e que fornecem conteúdos para até mesmo. 




Ouvindo várias e diferentes memórias, que são esquecidas e silenciadas por 

parte  da  informação  oficial,  cria-se  um  universo  diferente  da  história,  onde  os 

indivíduos  comuns  são  partícipes  da  formação  coletiva  de  uma  história  ideológica, 

vital numa organização social, que vive o presente, mas que também projeta o seu 

futuro. 

Esta  disponibilidade  de  simplesmente  sentar  e  ouvir  o  que  o  outro  tem  a 

disser  nem  sempre  é  fácil  para  os  estudantes.  Contudo,  ainda  existem  alguns  que 

gostam de prestar atenção, admiram-se das condições do  passado, e sorri quando 

alguma situação jocosa aparece em meio às dificuldades. 

Passamos  a  descrever  o  que  nos  contaram,  sempre  no  período  entre  as 

décadas de 1970 e 1980, onde o lugar começou a se organizar e existir como uma 

área de moradias. 

 Certa uma ocasião numa roda de conversa com quatro moradores antigos do 

local  e  mais  oito  dos  estudantes,  por  exemplo,  uma  senhora  nos  contou  com  certa 

emoção que quando chegou à Região em l975 em plena vigorosa geada e três anos 

depois  assistiu  a  paisagem  coberta  de  neve,  isto  a  surpreendeu  porque  vinha  do 

norte quente do Estado. Assim a conversa foi melhorando e as lembranças vinham. 

Onde  é  o  atual  “Acrópole”,  era  conhecida  como  Vila  Santa  Rosa,  área  de 

propriedade  da  Família  Franco,  entre  os  anos  1970-80.  No  início  era  um  grande 

banhado;  em  1967  havia  um  só  morador,  mais  tarde  cerca  de  seis  moradias  já  se 

via,  sem  constituir  ruas  traçadas.  O  transporte  público  vinha  até  onde  é  hoje  a 

‘fábrica da Coca-Cola’ (em 1969 esta empresa ainda não havia sido fundada), cerca 

de quarenta minutos andando a pé, nos carreiros. Este percurso era feito para quem 

ia  trabalhar  mais  no  centro  da  cidade.  Entretanto,  havia  rumor

es  que  “tarados” 

corriam  atrás  das  pessoas,  então  tinham  muito  medo  de  passar  por  ali,  mas  era 

preciso. 

Neste mesmo período as escolas mais perto eram o Colégio Senhorinha e o 

Julio Mesquita, depois o Colégio Nilo Brandão. Os que frequentavam estes Colégios 

reclamavam que o orvalho que caia durante a noite molhava toda a roupa e sapato, 

não havia ruas.  O que é hoje o Colégio Santa Rosa, iniciou-se com duas salas de 

aulas,  por  volta  de  1977,  com  material  pré-montado,  destinado  ao  ensino 

fundamental 

– alfabetização para crianças pequenas. 

O Colégio Santa Rosa só foi construído através de abaixo assinado, cuja líder 

estava conosco na conversa. Assim como um posto de saúde e da creche. O grupo 

concordou quando alguém disse que o “povo do Acrópole sempre teve mais atitude, 

corria mais atrás das coisas”. 

Alguém  se  lembrou  do  “Pilão  de  Pedra”,  apelido  dado  ao  velho  ônibus  que 

passava  pela  BR  277,  ligando  da  Rodoviária  Antiga  de  Curitiba  a  Paranaguá, 

enquanto percorria a via ia produzindo um ruído que se escutava de longe como se 

fosse  as  rodas  batendo  nas  pedras  da  estrada.  Ele  passava  duas  vezes  por  dia, 

07h30 e 12 horas. 

Um senhor que participava da nossa conversa, relatou que o Rio Atuba, nesta 

região, não existia lá pelos anos 1970. Foi um novo traçado de águas para desviar o 

excesso  de  esgoto  que  era  despejado  no  Rio  Iguaçu.  Aliás,  neste  último  rio,  as 




mulheres  chegaram  a  lavar  roupas.  As  cavas  dali  já  eram  exploradas.  Ele  lembrou 

também que em 1967 deu uma enorme enchente alagando tudo por ali. 

Os  novos  morador

es  chegavam  à  Região  com  suas  mudanças  “puxadas  a 

caroça” (assim mesmo!), segundo o mesmo senhor referido acima. 

Uma  boa  lenda  circulava  na  região  e  que  até  hoje  é  lembrada  pelos  mais 

velhos,  sobre  a  aparição  do  “cachorro  mole”,  que  seria  um  cachorro  branco  sem 

osso, que corria atrás do último da fila nos carreiros, na ocasião da ida à Missa do 

Galo 

–  a  meia-noite,  no  Convento  das  freiras,  onde  hoje  é  o  Conjunto  Mercúrio. 



Estava  ligado  também  às  mortes  ocorridas  na  BR,  quando  não  havia  passarelas. 

Mesmo  com  a  primeira,  talvez  pouco  segura  e  sem  grades,  tem  notícias  que 

pessoas  bêbadas  que  se  desequilibravam,  caindo  de  sua  altura  sobre  o  asfalto  da 

Rodovia.  Neste  Convento  várias  mulheres  trabalharam  na  confecção  de  doce  de 

banana. 

O  povo  criou  também  a  figura  de  um  lobisomem,  cujo  personagem  era  um 

homem morador da vizinhança. 

A  presença  de  dois  missionários  e  do  Padre  Figueiredo  foi  importante  no 

início  do  desenvolvimento  da  Região.  Causa  emoção  quando  algumas  moradores  

que  estavam  na  nossa  conversa  se  lembraram  que  este  padre  usava  o  som  do 

autofalante para, por volta das onze horas, chamar os fiéis.    

Foi  uma  recordação  divertida  quando  se  referiram  ao  ‘Baile  do  Casica’,  em 

uma  casa  perto  a  atual  passarela  sobre  a  BR  277.  Era  um  lugar  de  lazer  e  de 

namorar  daquele  momento,  frequentado  pela  moçada  do  lugar  e  que  até  era  um 

lugar bem familiar.  

Outra  opção  de  baile  e  de  paqueras  era  o  “Furabucho”,  onde  mais  tarde 

funcionou a loja do Dudeque. Mas pelo nome é possível perceber que era um lugar 

aonde às vezes chegavam a sérios desentendimentos entre seus frequentadores. 

No  período  do  Natal  não  comprovam  pinheiros,  mas  iam  buscar  barba  de 

velho que só dava em uma velha árvore, era divertido. 

Um espaço social, de esporte, de passeios e de encontros foi inaugurado na 

década de 1980, o conhecido “Peladeiro”, local com vários campos de futebol. Até 

hoje  é  frequentado  com  torneios  do  esporte,  nos  finais  de  semanas.  Infelizmente 

abriga  falta  de  segurança.  Conta-se  que  uma  escultura  de  ferro  que  marcava  o  tal 

espaço foi levada pelo povo; um ato de vandalismo ateou fogo na sede de madeira. 

Ali  se  disputava  partidas  de  futebol  com  vários  times  populares,  dentre  eles  o 

“Tapioca” – masculino e o feminino “As Belas e as Feras”. Uma parte do espaço está 

reservada  à  arena  do  beisebol,  frequentada  quase  que  exclusivamente  por 

japoneses, mas se abre no contra turno para as crianças da Região.   

Ainda  na  década  de  1980,  o  povo  da  Região  assistiu,  assustado,  a  ação  de 

polícias  contra  os  ocupantes  de  terra  que  procuravam  se  instalar  ali.  Segundo 

relatos, a Cavalaria e cães  policiais  estiveram  presentes  pressionando as pessoas, 

que  sem  forças  para  se  defender  e  com  alguns  feridos,  desocuparam  a  área.  Este 

fato causou-lhes muito medo e angustia, porque lembrava um campo de guerra com 

um terrível fim para todos. 



Nesta  Região,  estas  e  outras  histórias  são  importantes.  Aqui  não  houve 

nenhum  acontecimento  que  virou  notícia  com  grande  repercussão,  estes  tímidos 

fatos  é  que  começam  a  dar  vida, valorização,  um  lento  processo  de  urbanização  e 

esperança  aos  seus  moradores.  Estes  atuais  moradores,  guardam  uma  imensa 

nostalgia  de  sua  terra  natal  e  até  mesmo  da  vida  que  se  inicia  neste  novo  lugar. 

Estão certos de que não querem mais sofrimentos, querem usufruir do conforto que 

a vida moderna oferece.  

Na  Semana  Cultural  que  o  Colégio  organizou  neste  ano,  um  grupo  de 

estudantes  do  nono  ano  do  Ensino  Fundamental,  que  participavam  deste  Projeto, 

concordaram  em  apresentar  aspectos  da  “História  da  Nossa  Vida”,  apresentaram 

itens  das  várias  etapas  do  crescimento  humano,  desde  a  vida  uterina  até  as 

realizações  profissionais,  passando  pelas  experiências  na  vida  de  estudante,  do 

significado  de  ser  pai  e  ser  mãe;  trazendo  aspectos  positivos  e  pelas  agruras  de 

cada  momento da vida.  Assim, puderam fazer  analogias  entre certas situações  do 

desenvolvimento da região com a evolução de sua própria vida pessoal. Perceberam 

que cada história individual pode contribuir todo na vida social.  

Nesta  referida  Semana  os  estudantes  perceberam  que  a  partir  de  uma  boa 

organização dos eventos tem-se a oportunidade de compreender melhor a evolução 

dos  acontecimentos  históricos,  sociais  e  das  transformações  ou  mudanças  na 

própria vida pessoal e familiar dos envolvidos da Região.  

Elaboraram  cartazes,  pequenas  maquetes,  vídeos  e  textos  para  comunicar 

suas pesquisas e temas aos visitantes, mostrando assim, uma boa autoestima, com 

orgulho por estar dominando um assunto. Não deixaram de lembrar a importância da 

educação recebida na família, da necessidade de ser comunicativo e sociável.  

 

 


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