Memória do futuro: “tempo de esperança e de renovação” Guardiões do tempo: cuidando do futuro



Baixar 229.8 Kb.
Pdf preview
Página1/12
Encontro05.02.2021
Tamanho229.8 Kb.
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12




Memória do futuro: “tempo de esperança e de renovação” 

 

 

4.1 

Guardiões do tempo: cuidando do futuro 

 

 



Nas sociedades tradicionais, o velho é aquele que guarda em sua memória as 

tradições e os conselhos necessários para que o passado sempre permaneça vivo no 

presente, interligando o ontem e o hoje: 

 

O velho, de um lado, busca a confirmação do que passou com seus coetâneos, em 



testemunhos escritos ou orais, investiga, pesquisa, confronta esse tesouro de que é 

guardião. Do outro lado, recupera o tempo que correu e aquelas coisas que quando 

perdemos nos sentimos diminuir e morrer.

132


 

 

 



Recuperando esse papel de guardião da tradição, no conto “Chuva: a 

abensonhada”

133

,  Mia Couto resgata os fatos da própria história de Moçambique, 



mesclando-os com as crenças do povo. Para relatar essas crenças, o escritor cria a 

personagem Tia Tristereza, uma senhora idosa, conhecedora das verdades populares e 

da forma como são divulgadas em seu país. Mesmo sendo uma mulher já em idade 

avançada, seu envelhecimento é visto como fonte de sabedoria. A concepção de 

velhice, então, reveste-se de respeito, pois a velhice conduziria à sabedoria e ligaria o 

passado e o presente. 

 

A velhice, segundo essa visão de mundo, se encontrava relacionada, portanto, à 



noção de força vital e era, por isso, uma etapa prestigiada da existência humana. O 

envelhecimento e a juventude eram dicotomizados, pelo contrário, faziam ambos 

parte da “cosmicização” do existir e podiam ser comparados às árvores frondosas que 

se despojavam de suas folhas e tornavam a se recobrir de verde, todos os anos.

134

 

 



 

 

Além de sofrer por causa das guerras, Moçambique teve de enfrentar os 



problemas climáticos, como a seca, fazendo com que a fome e a miséria crescessem 

                                                           

132

 BOSI, Ecléa, Memória e sociedade: lembranças de velhos, p. 74. 



133

 COUTO, Mia, Estórias abensonhadas, p. 43. 

134

 SECCO, Carmen Lucia Tindó, Além da idade da razão: longevidade e saber na ficção brasileira, 



p. 11. 

PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0115391/CA




 

47

avassaladoramente. Logo, o povo clamava pela chegada da chuva, questionando a 



possibilidade de um recomeço e acreditando que esta só chegaria quando a guerra 

acabasse, pedindo aos deuses, em “rezas e cerimônias oferecidas aos 

antepassados”

135


, o fim da seca. Quando a chuva chega, é “cantarosa e abençoada”.  

Mia Couto, então, inicia o conto, caracterizando esta chuva tão esperada, criando um 

neologismo através da aglutinação de dois termos: abençoar e sonhada. O autor sela 

um acordo entre os acontecimentos e a sabedoria tradicional, pois a palavra 

abensonhada do título do livro Estórias abensonhadas relaciona-se à chuva que chega 

depois de um longo período de seca e ao fim da guerra. 

 

Há esse enorme desafio no meu país de que a terra se reconcilie consigo própria, e eu 



escrevi um livro que se chama Estórias Abensonhadas. Esse termo abensonhadas 

surgiu no dia em que Moçambique, depois desse tempo amargo de guerra, conquistou 

a paz. Foi assinado o acordo de paz, e eu pensava que ia encontrar as pessoas 

festejando na rua, porque havia uma imensa alegria escondida por trás daquele 

acontecimento oficial. Mas ninguém saiu para a rua. Uma semana depois, sim, as 

pessoas saíram para a rua porque choveu. Então, eu vi que a mesma razão que ditava 

a guerra, que eram os antepassados, os deuses antepassados estavam zangados com 

os homens, esses mesmos deuses tinham aprisionado as chuvas. E o fato de eles 

terem liberado a chuva , agora significava que sim, que era verdade a notícia de paz; 

vinha não pelo rádio, não pelo jornal, mas pela própria chuva. Daí a chuva ser tida 

como abençoada, como sonhada, como abensonhada.

136


 

 

 

 Nesse conto, o autor reconstrói, brilhantemente, a paisagem de seu país antes 

e depois da chegada da chuva. Antes, “a terra perfumejante semelha a mulher em 

véspera de carícia, [...] o céu olhava o sucessivo falecimento da terra, e em espelho, 

se via morrer”

137

. Entretanto, quando a chuva cai “o chão, esse indigente indígena, vai 



ganhando variedades de belezas.”

138


 

Mia Couto, através da personagem Tia Tristereza, ressalta a importância dos 

indivíduos mais idosos para a sociedade africana em geral, pois no conto é ela que 

detém as certezas sobre o mundo: 

 

                                                           



135

 Ibid., p. 44. 

136

 COUTO,Mia, Literatura e poder na África lusófona, p. 62. 



137

 COUTO, Mia, Estórias abensonhadas, p. 43. 

138

 Ibid., p. 43. 



PUC-Rio - Certificação Digital Nº 0115391/CA


 

48

— Nossa terra estava cheia do sangue. Hoje, está ser limpa, faz conta é essa roupa 



que lavei. Mas  nem agora, desculpe o favor, nem agora o senhor dá vez a este seu 

fato?


139

 

 



 

Essas certezas dão aos velhos a sabedoria necessária para que se entendam 

determinados mistérios. É o que acontece com Tia Tristereza que, mesmo diante dos 

temores do narrador que temia a chuva excessiva, pondera e demonstra sua sapiência, 

afirmando: 

 



Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   12


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal