Memória da folia: aos portelenses!



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MEMÓRIA DA FOLIA: AOS PORTELENSES!

Luis Carlos Magalhães foi à pré-estréia do filme 'O Mistério do Samba', sobre a Velha Guarda da Portela, e conta o que viu lá...

Luis Carlos Magalhães

O dia online / 18/07/2008

É um filme que vou guardar por toda minha vida...

É preciso que tenhamos a clareza de que quem viveu e acompanha, nesses últimos 30 anos, a formação e a carreira da Velha Guarda da Portela está vivendo um momento da arte popular que jamais se repetirá em nenhum outro momento futuro.

Por mais que o samba se renove, por mais que com o tempo o próprio grupo substitua suas perdas, por melhor que sejam seus novos integrantes, nada se compara a suas formações iniciais.

O filme teve o mérito, ou a ventura, de se ter iniciado quando o grupo ainda contava com dois de seus membros impagáveis, inesquecíveis, talentosíssimos e mais representativos: Jair do Cavaquinho e Argemiro Patrocínio.

Tal fato já seria bastante para tornar o filme um documento histórico. Um registro de valor inestimável para a história musical do povo brasileiro.

E mais...muito mais...

O que esperar de um filme cuja proposta é registrar o valor e a singularidade desse grupo que inaugurou uma nova forma de cultuar, cultivar e preservar a melhor memória do samba brasileiro, dando o exemplo a ser seguido por suas co-irmãs?

Que tratamento, que abordagem dar a algo tão forte, a pessoas tão incomuns, a um conteúdo tão “sagrado”?

E aí a palavra chave é “captação”. Ou seja, a dificuldade da empreitada, a arte do projeto, está em deixar os sambistas à vontade, tal como de fato são, com sensibilidade bastante para identificar o que são e como são individualmente e como grupo.

Tarefa difícil? Se é...

Ainda bem que qualquer um de nós sabe ”... que se for falar da Portela...” um dia, ou um filme é pouco para terminar.

Mas o filme faz tanto isso, é tudo tão natural, tudo rola tão sereno que parece coisa de câmera escondida. Por conhecer bem os personagens posso afirmar que Seu Jair e Seu Argemiro eram assim mesmo. Casquinha é assim, Casimiro é assim... todo mundo é como está no filme.

Deixo como exemplo maior a cena em que Casemiro amacia o couro de sua cuíca com a cerveja do copo de Cabelinho (era do Cabelinho?), cena captada por uma câmera esperta, atenta, sensível, numa tomada saborosa, sem destaque, sem floreio, apenas um gesto a mais, comum entre tantos de uma roda de samba.

Outro exemplo?

A cena da casa de Seu Manacéa quando seus guardados eram revirados. Áurea Maria, sua filha e sucessora na Velha Guarda, anuncia que achou em uma fita cassete o que julgava ser o primeiro samba de seu pai. E D. Neném firme:” - não é não!” E Áurea tenta emendar e diz que aquele samba fora composto para ela, D. Nenén. E ela, mais firme ainda: “- Não foi, não. Foi para a outra”.

Era uma antiga namorada de Seu Manacéa que morava na rua B, atual Rua Ernesto Lobão, paralela à Rua Dutra e Melo onde a família está até hoje. Mas “tava” brava, a tia.

Mais exemplos?

O registro do jeito inimitável de dançar de Seu Jair, um tesouro da cultura portelense, nunca antes registrado, pelo menos que eu tenha visto, e o jeito “moleque”, “safado” de Seu Argemiro igualmente por mim nunca visto em imagens.

E assim todos vão sendo “captados” em seu cotidiano, sua espontaneidade, com destaque, insisto, para Seu Jair, Seu Argemiro e D. Neném certamente em grande medida em razão de os dois primeiros não estarem mais conosco e pelo fato de D. Neném ser a mais idosa entre todos os participantes do filme. Mas a verdade é que os três são um show á parte.

As “meninas” todas muito bem, com destaque para tia Eunice diante de uma platéia de meninos portelenses ensinando-os a dançar o “miudinho”, fazendo tradição.

A narrativa é conduzida por Marisa Monte, ora entrevistando um aqui, outro ali, com ênfase em Paulinho da Viola que teve a honra e o mérito de ter reunido o grupo pela primeira vez no disco “Portela passado de glória: a Velha Guarda da Portela”, de 1970, da RGE.

Paulinho fala, canta, conta tudo orgulhoso, com olhos brilhando. E vai ainda nos brindar com um dos melhores registros do filme que é sua aparição na TV em 1980 dançando o “miudinho”, rigorosamente trajado.

Outro grande momento a resposta de Seu Argemiro a Vinícius de Moraes e Chico Buarque quando é desafiado a compor ali, “na hora”, um samba sobre...uma garrafa. E quando, depois, canta o samba que compôs mais tarde para eles.

E os sambas seguem em linha comovente, como “O Mundo é Assim” cantado por Marisa Monte e Paulinho da Viola, de autoria de Alvaiade.

Um samba irretocável, sábio, um samba com a melhor marca portelense, mostrando o ciclo da vida, descrevendo a vida a par com a natureza, mostrando o dia a cada dia se renovando e ele envelhecendo a cada dia, a cada mês. Vendo o mundo, a vida por ele passar todos os dias, enquanto ele passa pela vida uma única vez.

E a gente fica sem saber se é mais comovente que “Sentimento”, de Mijinha, irmão de seu Manacéa, cantado por um jovem e “pintoso” Monarco em cenas de 1975 do tão importante programa Ensaio da TVE; ou que “A Saudade Me traz”, de Seu Argemiro e Alberto Lonato, que tantas e tantas vezes ouvi logo ao chegar em casa.

E aí dá para sentir a importância da tarefa de escolher, entre tanta preciosidade. Que músicas mostrar de forma a registrar a insuperável qualidade de uma formidável geração de compositores? Certamente uma ou outra ali poderia ter sido incluída, mas o que está lá foi muito bem realizado cumprindo o objetivo de juntar tanta beleza com tanta representatividade no conjunto de uma obra portentosa e inesgotável.

Claro que, como eu, muitos de vocês aí desse lado já ouviram aquilo tudo, as músicas, as histórias. Mas tudo é tão bom de ser visto, há momentos tão comoventes que cheguei a sentir “dez merrés” de inveja daqueles portelenses mais distantes, paulistas (e são tantos!), gaúchos, paraenses que terão, com o filme, o contato pela primeira vez com aquele mundo fascinante.

Fico me imaginando ouvindo aquilo tudo pela primeira vez, conhecendo um a um, ouvir falar de Paulo, suas fotos. Conhecer por dentro a “Portelinha” e ficar imaginando como, em dias de glória, a Portela pôde caber toda ali dentro.

Sentir vontade de entrar nela, ficar ali olhando aquelas paredes, aquele chão, tentar perceber, imaginar tanto de tão emocionante e glorioso se passou ali dentro. Quantas vésperas de carnavais vitoriosos. Sentir que a Portela é tão grande, tão forte capaz de gerar um filme tão denso, tão belo, tratando tão pouco, quase nada, de carnaval e de desfiles.

Tal fato se deu quando Seu Jair contou que, no começo de tudo, a Portela em lugar de bateria tinha um grupo de instrumentos de sopro; e foi dando, um a um, o nome dos que tocavam. Você sabia dessa? E não se falou mais de carnaval, nem de desfiles.

A Portela é carnaval, sim, é desfile, sim, mas é muito mais que isso. O filme não deixa dúvidas, mas não deixa mesmo...

Para não dizer que gostei de tudo, lamento que o filme tenha deixado escapar a oportunidade de colher o depoimento de Davi do Pandeiro, membro da Velha Guarda e também, tal como Casquinha e Casemiro, remanescente do grupo “Mensageiros do Samba”, liderado por Candeia e formado pelos três citados e mais Picolino, Bubu, Arlindão Cruz e Jorge do Violão.

Não fossem tão jovens à época esses sambistas poderiam bem ser considerados precursores da velha Guarda musical da Portela. E a voz de Davi do Pandeiro não foi ouvida no filme, uma pena.

Da mesma forma a oportunidade escapada de se fazer referência a Cristina Buarque, figura ab-so-lu-ta-men-te fundamental nessa história toda.

Por fim a satisfação de registrar o momento “cara-do-filme”, o momento máximo da informalidade, do acaso, do astral do clima da fita. Um momento tão formidável que não faltarão aqueles que o imaginará previamente ensaiado.

Tudo se passa em um local onde a Velha guarda toca e canta; um bar, um armazém, não lembro, ali mesmo em Oswaldo Cruz. Eis que surge passando por ali pela calçada uma senhora vinda das compras, com sacolas cheias nas duas mãos. Aí se dá a cena: Ela ouve o samba, pára, vê, sem soltar as bolsas, dá uma sambada estilosa, meio miudinho-meio sapateado, no melhor estilo “das antigas”, tudo isso por um brevíssimo segundo. E aí pára de sambar, “cai na real”, retoma seu rumo e segue para seus afazeres do dia: a cara do filme (se é que foi acaso mesmo; mas, se não foi, valeu a criatividade...).

Nem sei quando vai estrear o filme. Todo sambista deve ir ver, todo portelense já deve ir se preparando.

Eu quero ver de novo. Um dia, à noite, tranqüilo, sem a correria de hoje. Vou comprar 200 gr. de amendoim-dragé, da Copenhague, como nos velhos tempos. Depois, quando sair, vou comprar o DVD e levar para casa.

Vou guardá-lo junto com aquele bonezinho branco que seu Argemiro usa no filme e que ganhei de sua família no dia tão triste de sua morte. Vou guardá-los...p’ra toda vida.

Em tempo: Só agora vi que nem citei a belíssima participação de Zeca Pagodinho, com maneiríssimas interpretações e depoimentos. E também não citei o registro do desfile da Portela em 1960, pode?

SUGESTÃO PARA OUVIR

Samba: Retumbante Vitória (O Passado da Portela);

Autor: Monarco (1° samba por ele composto para a Portela/1953);

Voz: Ventura (mestre de canto dos primeitos desfiles da Portela);

Disco: Escola de samba Portela-Musidisc;

Produção: Haroldo Costa.

RETUMBANTE VITÓRIA

Um dia

um portelense de outrora



transbordante de alegria

proferiu


em linhas de um samba comovente

que deixou muita saudade na gente

quero referir-me àquele “avante”

frase bem interessante

Quando o ideal é conquistar

vitória retumbante

alegrando a mocidade

com palavras que ficaram na memória

o passado da Portela

é repleto de vitórias

o que nos leva é a fé

que encoraja e conduz

portelense de verdade

que defende Oswaldo Cruz



* Luis Carlos Magalhães é pesquisador de carnaval


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