Mãe, voltei!



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Mãe, Voltei! Osmar Barbosa
Eustaquio
shopping, o que vocês acham?
– Combinado – diz Pedro.
– Combinado – confirma Solange.
Após a consulta médica, Solange e Débora se dirigem ao centro espírita
para tratar do assunto da adoção. O parto está muito perto.
Vera  recebe  Débora  com  carinho  e  ternura.  Solange  se  sente  acolhida,
tudo é confortante no centro espírita.


– Olá, Débora!
– Oi, Vera, como vai?
– Estou muito bem e você?
– Estamos todos bem.
– Entrem – diz Vera indicando uma sala confortável onde Jeane, sentada,
espera por ambas.
– Essa é a doutora Jeane, nossa psicóloga voluntária de hoje.
– Bom dia, Jeane! – diz Débora.
– Sentem-se, meninas.
Após  sentarem,  Jeane  oferece  um  copo  com  água  a  ambas,  o  que  é  de
pronto aceito.
– Então a menina quer doar a criança que vai nascer. É isso?
–  Sim,  Jeane,  minha  família  é  um  pouco  complicada  e  minha  mãe  não
quer essa criança na família.
– Compreendo. Qual o sexo da criança?
– Não sabemos, fizemos questão de não saber para não criarmos laços
sentimentais – diz Solange.
– Compreendo.
– Vera, explique-lhes a visão espírita da adoção, por favor.
– Vocês querem saber?
–  Sim,  Vera,  queremos  saber.  Porque  aquela  palestra  a  que  assisti  na
última vez em que estive aqui me ajudou muito a compreender as coisas que
aconteceram comigo. Embora eu tenha me desesperado e tentado resolver de
outra  forma,  agora  compreendo  melhor  tudo  o  que  aquele  palestrante
maravilhoso falou.


–  Então  prestem  muita  atenção:  pela  visão  espírita,  todos  nós  somos
adotados.  Porque  o  único  Pai  legítimo  é  Deus.  Os  pais  da  Terra  não  SÃO
nossos pais, eles ESTÃO nossos pais. Porque a cada encarnação, em cada
existência, nós mudamos de pais consanguíneos, mas em todas elas Deus é
sempre  o  mesmo  Pai.  Mas,  para  entendermos  melhor  a  existência  desta
experiência  na  vida  de  muitos  pais,  é  necessário  analisá-la  sob  a  óptica
espírita, sob a luz da reencarnação. Vocês estão entendendo?
– Sim, Vera, pode continuar – diz Débora.
–  Prosseguindo:  a  formação  de  um  lar  é  um  planejamento  que  se
desenvolve no mundo espiritual. Sabemos que nada ocorre por acaso. Assim
como filhos biológicos, filhos adotivos também são companheiros de vidas
passadas.  E  nossa  vida  de  hoje  é  resultado  do  que  angariamos  para  nós
mesmos, no passado. Surge, então, a indagação: “se são velhos conhecidos e
deverão  se  encontrar  no  mesmo  lar,  por  que  já  não  nasceram  como  filhos
naturais”? Não é mesmo?
– Sim, fica essa dúvida – diz Débora.
– Na literatura espírita, Débora, encontramos vários casos de filhos que,
em função do orgulho, do egoísmo e da vaidade, se tornaram tiranos de seus
pais, escravizando-os aos seus caprichos e pagando com ingratidão e dor a
ternura e zelo paternos. De retorno à Pátria Espiritual (ao desencarnarem),
ao despertarem-lhes a consciência e entenderem a gravidade de suas faltas,
passam  a  trabalhar  para  recuperarem  o  tempo  perdido  e  se  reconciliarem
com aqueles a quem lesaram afetivamente.
Isso explica muitas maldades, não é? – diz Solange.
– Sim, Solange. Por favor, prossiga Vera.
–  Assim,  reencontram  aqueles  mesmos  pais  a  quem  não  valorizaram,
para devolver-lhes a afeição machucada, resgatando o carinho, o amor e a
ternura  de  ontem.  Porque  a  lei  é  a  de  Causa  e  Efeito.  Não  aproveitada  à


convivência com pais amorosos e desvelada, é da Lei Divina que retomem o
contato com eles como filhos de outros pais chegando-lhes aos braços pelas
vias da adoção. Vocês estão compreendendo?
– Sim.
– Então aos pais cabe o trabalho de orientar estes filhos e conduzi-los ao
caminho do bem, independentemente de serem filhos consanguíneos ou não.
A  responsabilidade  de  pais  permanece  a  mesma.  Recebendo  eles  no  lar  a
abençoada  experiência  da  adoção,  Deus  sinaliza  aos  cônjuges  estar
confiando  em  sua  capacidade  de  amar  e  ensinar,  perdoar  e  auxiliar  aos
companheiros que retornam para hoje valorizarem o desvelo e atenção que
ontem  não  souberam  fazer.  Trazem  no  coração  desequilíbrios  de  outros
tempos  ou  arrependimento  doloroso  para  a  solução  dos  quais  pedem,  ao
reencarnarem, a ajuda daqueles que os acolhem, não como filhos do corpo,
mas  sim  filhos  do  coração.  Allan  Kardec  elucida:  “Não  são  os  da
consanguinidade os verdadeiros laços de família e sim os da simpatia e da
comunhão de ideias”.
– Então, quero aproveitar esse ensinamento que você está nos passando e
lhe perguntar uma coisa.
– Pergunte, Débora.
– Posso?
– Claro que sim.
– Devemos esconder de filhos adotivos que eles são adotivos?
– Olha, Débora, um dos maiores erros que alguns pais adotivos cometem
é  esconder  a  verdade  aos  seus  filhos.  É  importante,  desde  cedo,  não
esconder  a  verdade.  Às  vezes,  o  fazem  por  amor,  já  que  os  consideram
totalmente  como  filhos;  outras,  o  fazem  por  medo  de  perder  a  afeição  e  o
carinho deles. Quando os filhos adotivos crescem, aprendendo no lar valores
morais elevados, sentem-se mais amados por entenderem que o são, não por


terem  nascido  de  seus  pais,  mas  sim  frutos  de  afeição  sincera  e  real,  e
passam a entender que são filhos queridos do coração.
– Eu acho que temos que falar sempre a verdade – diz Jeane.
– Revelar-lhes a verdade somente na idade adulta é destruir-lhes todas
as alegrias vividas, é alterar-lhes a condição de filhos queridos em órfãos
asilados  à  guisa  de  pena  e  compaixão.  Nós  não  devemos  traumatizá-los,
livrando-os  do  risco  de  perderem  a  oportunidade  de  aprendi zado  hoje.
Chico  Xavier,  quando  psicografou  com  André  Luiz,  nos  traz  o  se guinte
ensinamento:
“Filhos adotivos, quando crescem ignorando a verdade, costumam trazer
enormes  complicações,  principalmente  quando  ouvem  esclarecimentos  de
outras pessoas”, identicamente ao que ocorre em relação aos nossos filhos
biológicos, buscar o diálogo franco e sincero, com base no respeito mútuo,
sob a luz da orientação cristã de conduta. Pais que conversam com os filhos
fortalecem os laços afetivos, tornando a questão da adoção coisa secundária.
Recebendo em nossa jornada terrena a oportunidade de ter em nosso lar um
filho  adotivo,  guardemos  no  coração  a  certeza  de  que  Jesus  está  nos
confiando  à  responsabilidade  sagrada  de  superar  o  próprio  orgulho  e
vaidade,  amando  verdadeira  e  desinteressadamente  a  criatura  de  Deus
confiada  em  trabalho  de  educação  e  amparo.  E,  ajudando-o  a  superar  suas
próprias mazelas, amanhã poderá retornar ao seio daqueles que o amam na
posição de filho legítimo.
– Por que a senhora está nos explicando tudo isso? – pergunta Solange.
–  Porque  você  quer  dar  seu  bebê.  E  não  é  justo  que  eu  deixe  de  lhe
explicar as consequências deste ato. Esse bebê pode ser um espírito que está
vindo para resgatar algum débito com você, Solange. A forma como ele foi
gerado  não  importa,  o  que  importa  é  que  esse  espírito  está  tendo  agora  a
oportunidade de estar ao seu lado. Como expliquei acima, tudo na vida dessa
criança  será  diferente  do  que  o  mundo  espiritual  possa  ter  planejado  para


ela. É justo que você fique sabendo que esse bebê pode ter sido gerado em
seu ventre para cumprir algum resgate com você ou simplesmente você tenha
sido usada para oportunizar alguém a receber essa criança.
– Em suma, o que queremos deixar bem claro é que você pode ter sido
um instrumento ou você é o instrumento.
– Como assim? – pergunta Solange?
–  Os  espíritos  estão  todos  interligados  na  evolução.  Uns  são  algozes;
outros, heróis. Assim toda a humanidade evolui. Esse bebê pode ser seu ou
simplesmente você foi usada para dar esse bebê a alguém.
– O que nós queremos é lhe instruir dentro do espiritismo para, se algum
dia  você  se  arrepender,  não  se  sentir  enganada.  Por  isso  estamos  lhe
explicando um pouquinho sobre adotados e adoção – diz Jeane.
– Sinceramente agradeço sua preocupação, mas não me sinto mãe desta
criança;  alguma  coisa  dentro  de  mim  me  diz  que  esse  bebê  não  é  meu.
Alguma  coisa  dentro  de  mim  diz  que  eu  tenho  que  dar  essa  criança  para
alguém.  Quando  a  minha  família  decidiu  doar  essa  criança  para  alguém,
confesso, me senti muito aliviada. Essa criança não é minha – diz Solange.
– Isso já foi decidido em nossa família – diz Débora. – Embora eu me
sinta a pior pessoa do mundo.
– Não se sinta, Débora – diz Jeane.
–  Me  sinto  sim,  tanta  gente  querendo  ter  um  filho  e  minha  família  me
obrigando a entregar essa criança para alguém que nem mesmo sei quem é.
Eu perdi meu filho e a dor ainda é latente dentro de mim.
– Débora, tudo na lei de Deus tem um motivo – diz Vera.
– Infelizmente essa decisão não é minha – diz Débora, triste.


– Bom, se está decidido, faremos assim: quando a criança nascer você
me  liga,  Débora,  que  vou  até  o  hospital  para  buscá-la.  Não  há  mais  o  que
dizer. Vou providenciar toda a papelada e arrumar alguém para a adoção.
–  Agradeço  muito  o  seu  carinho  e  preocupação,  Vera,  mas  essa  é  a
decisão da minha irmã e nós devemos respeitá-la, infelizmente.
Sem problemas, minha amiga.
Solange assiste a tudo calada.
Débora  se  levanta,  olha  para  o  relógio  e  percebe  que  já  está  atrasada
para o encontro com Pedro.
–  Vera,  obrigada  pelo  carinho  e  atenção,  mas  tenho  que  ir,  temos  um
encontro  com  meu  marido.  Vamos,  Solange,  estamos  atrasadas.  O  Pedro  já
deve estar no shopping nos esperando. Obrigada, Jeane.
– Vamos – diz Solange se levantando da cadeira com muita dificuldade.
Após  se  despedirem  e  deixarem  tudo  combinado,  Débora  e  Solange  se
dirigem ao encontro com Pedro.



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