Mãe, voltei!



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Mãe, Voltei! Osmar Barbosa
Eustaquio
Deus  de  amor  e  bondade,  dai-nos  a  permissão  de  auxiliar  nossa
querida irmã Débora que precisa de paz, luz e sabedoria para regressar à
sua  vida  diária.  Permita-nos,  Senhor,  alegrar-lhe  os  dias,  dar-lhe  a
esperança de encontrar-se com seu filho Allan, e, acima de tudo, encha-lhe
o coração de esperança e felicidade.
Que Sua bondade se estenda sobre os familiares e que o amor divino
seja o condutor da existência corpórea.
Graças te damos, oh Senhor de Luz.
Amém.
Todos  se  entreolham,  se  abraçam  em  luz  e  agradecem  a  Daniel  a  linda
prece.
– Agora, meninos, voltem ao trabalho – diz Daniel.
– Sim, Daniel – diz Felipe.
Nina agradece e ambos saem, dirigindo-se rumo ao hospital.
Daniel vai à enfermaria onde está Débora.



N
Começar de novo
ina e Felipe chegam ao hospital e vão direto para o leito onde
Débora está. É uma pequena sala onde só há três leitos. Débora
está deitada e inconsciente em um deles. Logo Nina se aproxima
e estende as mãos sobre o corpo fraco e debilitado da pobre jovem.
Felipe se coloca ao lado de Nina e a auxilia na energização.
Débora,  que  está  na  colônia,  dorme  em  sono  profundo  quando  Daniel
estende  suas  mãos  sobre  ela.  Ela  está  ligada  ao  seu  corpo  físico  por
pequenos laços fluídicos que a mantêm viva naquele hospital.
– Tudo há de se cumprir – diz Daniel falando baixinho nos ouvidos de
Débora.
No  hospital,  o  doutor  Leônidas  se  aproxima  do  leito  para  examinar
Débora, acompanhado da enfermeira Josi.
– Então doutor, essa aí vai conseguir sobreviver?
– Acho que o pior já passou, seu quadro clínico está melhorando a cada
dia, vamos reduzir a medicação e esperar o resultado.
– Sim, senhor – diz Josi.
– Ministre este medicamento – diz o médico, escrevendo no prontuário
de Débora.
– Sim, senhor, pode deixar, doutor.


– Amanhã eu volto para ver o resultado. Se Deus permitir, ela vai estar
melhor – diz o médico.
– Sim, senhor – diz Josi, cobrindo o corpo de Débora com um lençol.
Nina olha para Felipe e diz:
–  Felipe,  vamos  aumentar  a  dose  fluídica  sobre  Débora  para  que  o
medicamento faça efeito mais rápido.
– Podemos fazer isso?
– Sim, Daniel me permitiu.
– Sim, Nina, então vamos fazer isso.
Assim Nina e Felipe intensificam os passes fluídicos e Débora começa a
melhorar ainda mais rápido.
Após seis dias, Débora acorda do coma. Fraca e confusa, ela acorda em
um  momento  em  que  não  há  ninguém  no  CTI.  Seus  pensamentos  estão
confusos. Ela relembra a viagem com os espíritos. Lembra-se das paisagens
lindas,  dos  campos  verdes,  das  nuvens  de  cor  lilás.  Seu  pensamento  está
confuso. Ela adormece novamente.
Às seis da manhã, em nova visita, o doutor Leônidas constata a melhora
da paciente e tenta acordá-la.
– Débora, Débora! – diz baixinho o médico.
Débora resmunga.
Pedro, o enfermeiro do plantão, se aproxima de Débora e a chama.
– Débora!
Abrindo os olhos, Débora responde.
– Sim.
– Bom dia!


– Bom dia, quem é você?
–  Meu  nome  é  Pedro,  sou  seu  enfermeiro  hoje;  e  esse  é  seu  médico,  o
doutor Leônidas.
Débora vira o rosto e vê o médico ao seu lado.
– Sinto-me fraca, doutor – diz Débora olhando para o médico.
–  Isso  é  normal.  Vou  lhe  passar  uma  medicação  e  logo,  logo  você  vai
melhorar.  Hoje  vou  pedir  ao  Pedro  que  traga  uma  sopinha  para  você
começar  a  comer,  e  assim  que  conseguir  se  alimentar  vai  se  sentir  bem
melhor.
– Quero lhe pedir desculpas, doutor, por dar tanto trabalho.
– Não pense nisso, Débora. Fique quieta. Agora cuide-se e se alimente,
isso  é  muito  importante  para  você  se  recuperar  rapidamente  e  logo  voltar
para casa.
Obrigada, doutor – diz Débora.
– Vou buscar o medicamento que o médico indicou e trazer-lhe um prato
com sopa – diz Pedro.
– Obrigada, Pedro.
Nina e Felipe chegam ao leito e começam a ministrar um passe.
–  Venha,  Pedro.  Vamos,  que  vou  lhe  passar  a  medicação  que  terá  que
aplicar em Débora – diz o médico.
– Vamos sim, doutor.
– Espere que já volto, Débora – diz Pedro, preocupado.
– Sim, pode deixar.
Pedro  vai  até  a  cozinha  e  pega  uma  tigela  com  sopa  e  o  medicamento
indicado para Débora.


Logo ele está de volta ao leito da paciente.
Carinhosamente  Pedro  alimenta  Débora  sem  perceber  que  em  seu
coração  algo  acontece.  O  olhar  de  Débora,  embora  debilitado,  mexe
profundamente com seus sentimentos.
Débora  também  percebe  algo  diferente  no  olhar  daquele  belo  rapaz
moreno,  de  barba  cerrada,  corpo  musculoso,  sorriso  farto,  olhos  castanho-
claros, dentes brancos e muita simpatia no falar.
Após três dias, Débora recebe alta do CTI e é levada para a enfermaria
onde divide o quarto com mais duas mulheres.
Quieta  e  fechada,  Débora  pouco  conversa.  Se  sente  bem,  embora  com
alguma dificuldade de locomoção. A saudade de Allan lhe tortura todos os
dias.
Josi é quem está de plantão e atende a um chamado de Débora.
– Mandou me chamar, Débora?
– Sim. Desculpe-me, mas preciso falar com o doutor Leônidas.
– Ele é quem vai passar visita hoje à tarde. É só você esperar.
– Obrigada, enfermeira.
– De nada, amiga. Agora procure se alimentar bem para logo voltar para
casa.
– Posso lhe fazer outra pergunta?
– Sim, claro que sim.
– Você não vai ficar chateada comigo?
– Depende da pergunta, não é?
– É sobre o Pedro.
– Pedro, o enfermeiro?


– Sim, ele mesmo.
– Sobre ele você pode perguntar o que quiser. Ele é meu amigo.
– Quem bom!
– O que você quer saber sobre ele?
– Ele é casado, tem esposa, namorada, alguma coisa assim?
– Não, amiga, ele não tem ninguém. Está interessada nele?
– Não, não é nada disso. É que ele me parece uma pessoa triste.
– Deixa de conversa-fiada, Débora, foi só você melhorar um pouquinho
e já está interessada no meu amigo.
Débora fica envergonhada.
– Deixa de ser boba, mulher. Ele é um partidão mesmo.
– Perdoe-me, enfermeira. Qual é o seu nome?
– Josi, Débora, Josi. E pode deixar que eu não vou falar nada com ele,
fique tranquila.
– Obrigada – diz Débora.
– Amanhã é o plantão dele.
– Obrigada, Josi.
– Olha, o seu médico tirou quase toda a sua medicação. Aproveita logo
para conhecer melhor o Pedro, pois já, já ele vai lhe dar alta.
– Você acha?
–  Sim,  você  já  está  bem  melhor.  Agora  é  fisioterapia  e  exercício  para
tudo voltar ao normal.
– Tomara! Ainda sinto uma fraqueza enorme.


– Isso é normal para quem ficou em estado de coma. Logo seu organismo
vai reagir e você terá uma vida normal.
– Taí uma coisa que eu não queria.
– O que, mulher?
– Uma vida normal.
– Por quê?
–  Vida  normal  seria  eu  voltar  para  casa  e  o  meu  Allan  estar  me
esperando. Mas eu sei que isso não vai acontecer.
–  Débora,  você  ainda  é  jovem  e  tem  muita  vida  pela  frente.  Procure
seguir em frente.
– Vou tentar, vou tentar. Prometo.
– E você vai conseguir, tenho certeza.
– Obrigada por suas palavras, Josi.
– De nada, amiga. Agora descanse.
– Obrigada.
Ao sair da enfermaria Josi vai até a cantina para lanchar. Ela pede seu
lanche e senta-se à única mesa que fica próxima à porta de saída da cantina.
Logo ela é surpreendida com a presença de Pedro.
– Olha quem está aqui! Não morre tão cedo!
– Oi, Josi! – diz Pedro se aproximando.
– Sente-se aqui, que tenho uma coisa para lhe contar.
–  Sério?  Mas  hoje  é  minha  folga,  só  passei  aqui  para  pegar  minha
jaqueta que estava no meu armário. Já olhou lá fora? O mundo vai acabar em
água.


–  É,  está  chovendo  muito  mesmo,  mas  sente-se  aqui,  quero  lhe  contar
uma coisa.
– Rapidinho, por favor! – diz Pedro sentando-se à mesa.
– Sabe aquela menina que saiu do coma, a Débora?
– Sim, claro que sei.
– Eu não devia lhe contar, vai parecer fofoca, mas não é.
– O que houve?
– A Débora está muito interessada em você.
– Quem lhe disse isso?
– Ela, ora!
– Como assim?
–  Ela  aproveitou  que  eu  estava  cuidando  dela  e  começou  a  me  fazer
perguntas sobre você.
– Perguntar não quer dizer que está interessada.
–  Meu  amigo,  uma  mulher  conhece  perfeitamente  outra  mulher.  Nós,
mulheres, entendemos bem dessas coisas.
– Bobagem, Josi!
– E você, gostou dela?
– Para ser sincero sim, achei Débora uma mulher muito interessante.
– Que bom! Então corre, porque acho que ela vai ter alta amanhã.
– Mas ela ainda está muito debilitada.
– O caso dela agora é fisioterápico.
– Sabe que sou fisioterapeuta também, não é? – diz Pedro.


–  Taí  uma  boa  oportunidade  para  você  se  aproximar  ainda  mais  dela.
Ofereça seus serviços.
– Ela já deve ter alguém para assisti-la.
–  Tenta,  homem,  tenta!  Não  custa  nada  falar.  Se  você  quiser  eu  mesma
falo.
– Amanhã falo com ela. Pode deixar. Por acaso, posso ir agora?
– Pode sim, amigo. Boa sorte, meu amigo!
– Obrigado – diz Pedro beijando a face de Josi e saindo.
Pedro  sai  de  perto  de  Josi,  mas  seus  pensamentos  estão  mesmo  é  em
Débora. Ele não sabe explicar, mas algo mexe muito com seus sentimentos
quando o assunto é Débora.




P
Quando a vida te escolhe
edro  chega  ao  quarto  de  Débora,  acompanhado  do  doutor
Leônidas.
– Bom dia, Débora!
– Bom dia, doutor!
– Como se sente hoje?
– Bem, muito bem; tirando a fraqueza das pernas estou bem!
– Pois hoje é o seu grande dia, vou lhe dar alta.
– Está bem, doutor.
– Você vai precisar de um fisioterapeuta. Conhece algum?
– Não, senhor.
O coração de Pedro dispara. Ele toma coragem e diz:
– Ela já tem um sim, doutor, ela já tem um fisioterapeuta.
– Como assim – diz Débora.
– Tem ou não tem um fisioterapeuta, senhora Débora? – insiste
o médico.
– Eu não tenho não, doutor.
– Eu vou cuidar de você, Débora – diz Pedro.


– Por acaso você é fisioterapeuta?
– Sim, doutor Leônidas, sou formado e exerço a fisioterapia em minhas
folgas aqui do hospital.
– Olha que boa notícia, Débora; você vai continuar sendo assistida pelo
Pedro.
– Mas eu não tenho condições de pagar por esse tratamento.
– Eu não estou lhe cobrando nada, Débora – diz Pedro.
– Mas...
– Deixe de bobagens, menina! Se ele está se oferecendo para cuidar de
você, aceite e pronto – diz o médico.
– Sim, Débora, aceite e pronto – diz Pedro.
– Está bem então – diz Débora sentindo uma alegria no coração.
– Vou lhe dar alta logo depois do almoço, assim avise a seus familiares
para virem buscá-la.
– Eu não tenho família aqui, doutor.
– Tem sim, Débora, tomei a liberdade de ligar para a sua mãe e ela está
chegando  ainda  hoje.  Assim  que  ela  chegar  você  pode  ir  para  casa  –  diz
Pedro.
–  Obrigada,  doutor.  Mas  como  vocês  conseguiram  o  telefone  da  minha
mãe?
– Sua mãe ficou um bom tempo ao seu lado enquanto você estava no CTI
desacordada.  Acontece  que  ela  teve  que  voltar  para  sua  cidade  natal  para
resolver um pequeno problema com a sua irmã mais nova. Mas segundo ela
me falou, elas já estão no ônibus a caminho do hospital. Logo, logo estarão
aqui – diz Pedro.


– Obrigada por me ajudar, Pedro – diz Débora.
– De nada. Agora vou providenciar sua alta e assim que sua mãe chegar
eu lhe aviso e levamos você para casa.
– Obrigada, doutor Leônidas, pela paciência e ajuda que me deram.
– De nada, Débora. Agora vê se toma juízo e não atente mais contra a sua
vida.
– Sabe, doutor, enquanto eu estava em coma tive uns sonhos esquisitos,
porém muito reais.
– Que tipo de sonho?
– Sonhei que estava viajando em um trem sem trilhos. Engraçado, esse
trem não fazia barulho e me levava a diversas cidades, onde eu procurava
pelo meu filho.
– Olha que legal! – diz Pedro.
– Mas o que aconteceu em seu sonho? – pergunta Leônidas.
–  Não  me  lembro  de  muitas  coisas.  Mas  uma  menina  linda  de  cabelos
ruivos  era  quem  me  auxiliava  na  viagem,  ela  e  o  namorado  dela.  E  ainda
tinha um índio que seguia sempre na frente nos protegendo.
– Esses sonhos são normais quando o paciente fica muito tempo em coma
– diz o médico.
– Mas o que mais me impressiona é que eram sonhos muito reais.
– Você já ouviu falar de espiritismo? – pergunta o médico.
– Sim, uma vez fui a um centro espírita.
–  Então,  quando  você  estiver  melhor,  procure  uma  boa  casa  espírita  e
tente saber as respostas para esses sonhos. Aproveite e tente saber notícias
de seu filho também.


– Como assim, doutor?
– Existem determinadas casas espíritas que realizam um trabalho muito
bonito, chamado cartas consoladoras.
– Nossa, o que será isso?! – diz Débora.
–  São  mensagens  que  os  que  foram  na  nossa  frente  escrevem  para
consolar nossos corações. Eles falam sobre a vida após a morte.
– O senhor é espírita, doutor? – pergunta Pedro.
– Sim, com muito orgulho, sou espírita.
– E onde fica o centro espírita que o senhor frequenta?
–  Fica  perto  de  minha  casa.  Se  quiser  visitar  é  só  me  avisar  que  lhe
passo o endereço.
– Quem sabe um dia, não é, doutor – diz Pedro.
– Pois eu gostaria de saber o endereço, doutor, quem sabe o Allan não
escreve uma cartinha para mim?
– Vou deixar o endereço e o telefone junto com a receita dos remédios
que você ainda vai precisar tomar. E não se esqueça que daqui quinze dias
terá  que  voltar  aqui  para  eu  poder  examiná-la.  Agora  espere  por  seus
familiares e você já pode ir para casa. Combine com o Pedro a fisioterapia.
E  se  precisar  de  mais  alguma  coisa,  o  meu  telefone  particular  vai  estar
também na receitinha que deixarei para você.
– Obrigada, doutor. Você é um anjo que apareceu em mina vida. Como
aquela menina ruiva.
– De nada, Débora. Só quero lembrar-lhe uma coisa.
– Sim, doutor, pode falar.


– Nunca mais faça o que você fez. Tentar contra a própria vida contraria
muito o nosso Pai.
– Pode deixar, doutor. Prometi ao Allan que eu o encontraria onde quer
que  ele  estivesse.  Mas  vou  esperar.  Quando  eu  morrer,  procuro  pelo  meu
filho na eternidade.
– Isso, faça isso. Ore muito a Deus e aos bons espíritos para que você
possa encontrar-se com seu filho na eternidade.
Pedro ouve tudo calado.
– Mais uma vez, obrigada por tudo, doutor.
– Cuide-se – diz Leônidas se afastando.
Nina e Felipe chegam novamente ao quarto e o ambiente logo se enche
de luz.
– Olha, Nina, como ela está bem.
– Sim, ela está ótima; agora é só se cuidar e tudo vai se cumprir.
Tudo o que, Nina? O que você está sabendo que eu não sei?
– Vamos acompanhar de perto agora tudo o que vai acontecer – diz Nina
olhando fixamente para Felipe.
– Ai meu Deus, lá vem encrenca! – diz Felipe, preocupado.
Nina sorri.
Pedro  aproxima-se  de  Débora  para  arrumar  sua  cama.  E  Débora  puxa
conversa.
– Então, além de enfermeiro, você é fisioterapeuta?
– Sim, sou enfermeiro e fisioterapeuta.
–  Olha,  vou  logo  avisando:  não  tenho  condições  de  pagar  por  seus
serviços.


– E quem é que está lhe cobrando alguma coisa aqui?
– Eu não sei se devo aceitar sua ajuda.
– Desde o dia em que entrei no CTI e vi você, algo muito forte aconteceu
dentro de mim – diz Pedro olhando fixamente para Débora.
– Como assim?
–  Não  sei  lhe  explicar,  Débora,  mas  parece  que  eu  já  a  conhecia  de
algum  lugar;  estranhamente  uma  enorme  onda  de  calor  aqueceu  o  meu
coração.
– Você está me cantando, é isso?
–  Se  você  acha  que  é  uma  cantada,  encare  como  uma  cantada.  Eu
simplesmente  estou  abrindo  meu  coração  para  você.  Coisa  que  não  faço
normalmente.
–  Lindas  as  suas  palavras,  Pedro.  Mas  estou  no  leito  de  um  hospital  e
preciso colocar o meu juízo em dia – diz Débora.
– Perdoe-me, Débora.
– Não, não me peça perdão. Não é isso. É que ainda estou confusa.
– Sem problemas. Vou cuidar da papelada da sua alta. Daqui a pouco eu
volto para lhe preparar a saída.
– Perdoe-me, Pedro, por favor!
– Sem problemas, eu já disse. Vou à enfermaria resolver algumas coisas.
Assim que sua mãe chegar, libero você para sair.
– Obrigada, Pedro.
– De nada – diz o rapaz se afastando.
Débora  demora  a  perceber  que  Pedro  está  totalmente  apaixonado  por
ela. Seus pensamentos agora refletem o amor que está presente entre os dois.


Ela  fica  feliz  e  resolve  ajeitar  os  cabelos.  Pede  emprestado  à  paciente  ao
lado seu batom e se prepara para deixar o hospital.
Em  seu  peito  há  um  misto  de  alegria  e  amor.  Afinal,  a  vida  recomeça
quando ela sai daquele hospital. Mas a saudade de Allan ainda é latente em
seu coração.
Pedro volta ao quarto com um envelope branco nas mãos.
– Débora!
– Sim.
– Vejo que já está arrumada.
– Você não disse que eu tenho que ir embora?
– Infelizmente, sim – diz Pedro.
– Brincadeira de mau gosto, Pedro.
–  Não  é  verdade,  vou  sentir  falta  da  minha  paciente  predileta  –  diz  o
rapaz.
– Você não disse que vai ser o meu fisioterapeuta?
– Sim, eu sou seu fisioterapeuta. E aqui está a receita dos remédios que
você ainda precisa tomar. Você me aceita como seu fisioterapeuta?
– Sim, claro que sim! – diz Débora com um sorriso no rosto.
– Nossa, que bom!
–  Pois  bem,  continuaremos  a  nos  ver  então.  Obrigada!  –  diz  Débora
pegando o envelope.
–  Ainda  bem  que  você  aceitou  os  meus  serviços.  Eu  já  estava  ficando
desesperado.
Os olhares se encontram, encantados com o amor.


– Podemos ir?
– Sim, sua mãe e sua irmã estão lá fora esperando por você.
– Elas vieram?
– Sim.
– Nossa, que saudade de minha mãe e minha irmã! Meu pai não veio?
– Eu não sei lhe informar. Sua mãe foi quem me procurou para avisar que
já estavam esperando por você. Pude ver que ela estava acompanhada de sua
irmã que conheci agora.
– Não vejo a hora de abraçar minha mãe.
– Vamos, elas estão na portaria esperando.
–  Vamos  sim.  Tchau,  meninas,  melhoras  para  vocês  –  diz  Débora  se
despedindo das demais pacientes da enfermaria.
– Débora, sente-se aqui – diz Pedro indicando-lhe uma cadeira de rodas.
– Obrigada, Pedro.
Ao chegarem à porta de saída, Marilza e Solange esperam ansiosas por
Débora que alegre e feliz abraça carinhosamente sua mãe e sua irmã.
– Mãe! – diz Débora abraçando sua mãe. – Perdoe-me!
–  Minha  filha,  Deus  é  muito  maior  que  nossas  dores  –  diz  Marilza
abraçando a filha.
– Solange, você já está uma mocinha. Olha como está grande!
– Sim, uma mocinha, mas sem nenhum juízo – diz Marilza.
– O que houve, mamãe?
– Depois eu conto. Agora vamos para casa. Eu já deixei tudo preparado
para o seu retorno.


– Obrigada, mamãe, você não precisava ter se preocupado.
– Venha, Solange – diz Marilza.
– Esperem... Pedro, Pedro.
Pedro se vira e olha para Débora.
– Toma – diz ela mostrando um pequeno pedaço de papel preso entre os
dedos da mão esquerda.
Pedro se aproxima e pega o papel.
– Me liga. Olha, obrigada por tudo.
Pedro sorri e olha para Débora com ternura.
– Venham, meninas, vamos embora – diz Débora.
Um táxi já esperava e logo elas chegam à humilde casa.
Débora  para  no  portão  e  senta-se  na  calçada.  Ela  não  tem  forças  para
seguir em frente. Marilza senta-se ao lado da filha.
– Tenha coragem, meu amor. Nós também demoramos a aceitar a partida
do  Allan.  Não  está  sendo  fácil  para  ninguém  de  nossa  família.  Seu  pai  só
chora a perda do neto, ele não se conforma.
– Mãe, quando eu estava em coma no hospital, conheci uma menina em
meus sonhos, e me lembro de suas palavras. Só não me recordo o nome dela.
E ela me dizia que tudo tem um propósito em nossa vida. Perco as forças ao
encarar minhas realidades, porque elas estão mortas dentro de mim. Mas a fé
e a certeza de que nada termina me trazem a coragem de que necessito para
seguir em frente.
– Isso, minha filha, isso mesmo. Pense desta forma.
–  Minha  querida  mãezinha,  eu  já  passei  por  muita  coisa  ruim  quando
decidi deixar sua casa na pequena cidade em que vivíamos e vim encarar a


vida  na  cidade  grande.  Aqui  é  lobo  comendo  lobo.  As  pessoas  são  frias  e
insensíveis.  Principalmente  com  as  pessoas  que  vivem  em  comunidades
carentes  como  essa  em  que  vivo.  Mas  tenho  dignidade.  E  isso  me  faz
diferente  dentre  muitos  daqueles  que  esbanjam  dinheiro,  mas  que  não  têm
caráter. Só parei aqui porque foi aqui uma das últimas vezes em que sentei
com o Allan e ficamos juntinhos nos amando. Posso ainda sentir seu cheiro.
Lágrimas  escorrem  no  rosto  de  Débora.  Delicadamente  Marilza  enxuga
as lágrimas da filha com os dois polegares.
– Não chore, minha filha, não chore!
– Não são lágrimas de dor, mamãe. São lágrimas da ausência que esse
menino me traz, são lágrimas de um vazio aqui dentro do meu peito que sei,
jamais será preenchido. Eu e o Allan éramos cúmplices de uma vida. Agora
fica esse vazio.
– Deus vai lhe dar as repostas, minha filha, confie.
–  Eu  sei,  eu  sei.  Vamos,  vamos  entrar  em  casa  –  diz  Débora  se
levantando.
Fraca,  chorando  e  muito  triste,  Débora  entra  em  casa  e  repara  que  os
móveis foram trocados de lugar. O armário onde estavam as roupas de Allan
foi substituído por outro de cor branca. Débora não pergunta nada sobre as
coisas de Allan. Ela se deita na cama e pede para ficar sozinha. Luana, sua
amiga e vizinha que se dirigia ao quarto, é abordada por Marilza que pede a
ela  que  volte  depois,  no  que  é  prontamente  atendida.  Alguns  vizinhos
curiosos  ficam  em  frente  à  casa  de  Débora  conversando.  Marilza  fecha  a
porta e atende ao pedido da filha, que deseja ficar sozinha.
Solange vai até a cozinha e senta-se à mesa de jantar. Sua mãe senta-se
na outra extremidade da mesa.
– Ela me parece bem, não é, mãe?


– Sim. Sua irmã sempre foi uma mulher determinada. Espero que ela se
recupere logo para que eu possa conversar com ela sobre você.
– Você tem certeza que o melhor para mim é isso?
– Sim. Não tenho dúvida de que o melhor para você é que fique morando
aqui até que tudo termine. Além de que, ela vai precisar de companhia e seu
pai nada ficará sabendo da lambança que você fez.
– Então eu vou ficar aqui com ela pelo resto da minha vida.
– Isso quem vai decidir é Débora. Com a morte do Allan ela realmente
vai  precisar  de  companhia.  Mas  quem  decide  quanto  tempo  você  vai  ficar
aqui é ela.
Conversa logo com ela, mamãe.
–  Tenha  calma,  Solange,  vou  preparar  o  jantar.  E  depois  da  janta  eu
converso com ela.
– Está bem, mamãe.
– Vou pegar as batatas para você descascar, enquanto preparo o arroz e o
feijão. Sua irmã precisa se alimentar muito bem.
– Está bem – diz Solange.
Débora deita-se e dorme.
Após algumas horas ela é acordada por Marilza.
– Filha, filha, acorda!
– Oi mãe!
– Levante-se, venha jantar. Preparei uma comidinha especial para você.
Débora se levanta.
– Vou sim, só me deixa lavar o rosto.


– Estarei esperando por você na mesa de jantar.
– Eu vou, mãe.
Todos se sentam e começam a comer.
– Como está sua fraqueza? – pergunta Solange.
– Estou melhor – diz Débora.
– Débora, tenho um assunto muito importante para tratar com você.
– O que houve, mamãe?
– Sua irmã arrumou um baita problema para todos lá em casa.
– O que você aprontou, Solange?
– Ela está grávida – diz Marilza.
– Como assim, grávida?
– Sua irmã se envolveu com um rapaz lá na fazenda do senhor Nelson e
olha aí o resultado.
– Menina, por que você não se cuidou? – pergunta Débora.
– Porque ela nunca teve juízo. Veja só, uma menina com dezesseis anos e
grávida. Se seu pai sabe disso ele me mata – diz Marilza.
– Meu Deus! Com quantos meses você está de gravidez?
– Três meses. Acabou de fazer – diz Marilza.
– Nem tem barriga ainda.
– Ainda bem. Se seu pai descobre isso...
– E o que você precisa que eu faça, mamãe? – diz Débora.
– Vou dizer ao seu pai que você está muito debilitada e que estou com
medo de deixar você sozinha e você cometer suicídio. Vou dizer a ele que a
Solange  vai  ficar  morando  aqui  com  você  por  um  tempo  até  que  você  se


recupere. E então ela poderá voltar para casa. Daí você arruma alguém para
ficar com essa criança. Isso tem que ser bem feito, ninguém pode saber que
Solange teve um filho. Entendeu?
– Entendi, mamãe, mas é seu neto ou, sei lá, sua neta que vai nascer – diz
Débora.
– Netos são aqueles que nascem de casamentos. É assim que nós fomos
criados  lá  no  interior.  Eu  já  perdi  você  para  a  vida.  Seu  pai  não  vai  se
conformar  em  perder  Solange.  Você  sabe  como  ele  é  agarrado  com  a  sua
irmã. Se ele souber disso estamos ferradas.
– Está bem, mamãe, eu não vou discutir com você mais uma vez. Deixe a
Solange comigo. Eu cuido dela e depois, se for o caso, cuido do bebê.
–  Não,  eu  não  quero  que  você  cuide  dessa  criança.  Ela  é  fruto  de  um
pecado que sua irmã fez questão de cometer. Isso é uma desonra para a nossa
família lá em nossa cidade. Essa criança não pode aparecer nunca.
–  Está  bem,  mamãe,  está  bem.  Fique  tranquila,  Solange,  vou  arrumar
alguém para adotar seu bebê. Tenho uma amiga que vai me ajudar. Mas eu
poderia ficar com ele?
– Eu não quero essa criança na família, Débora, você entendeu?
– Ok,  mamãe,  sem  problemas  –  diz  Débora.  –  E  você,  Solange,  o  que
acha disso tudo?
– Cometi esse erro. Mamãe tem razão, essa criança não pode aparecer.
– Mas é seu filho.
–  É  sim,  é  meu  filho,  mas  não  vou  estragar  minha  juventude  com  uma
criança. Eu ainda sou muito nova. Tenho muita coisa pela frente.
– Ok. Se é isso que vocês decidiram, quem sou eu para questionar? – diz
Débora, irritada.


– Você pode fazer isso por nós?
–  Posso  sim,  mamãe,  vou  ajudar  você  e  Solange,  embora  eu  ache  que
isso está muito errado.
– É o que decidimos. E lembre-se: seu pai não pode saber de nada.
– Sem problemas, mamãe, sem problemas.
– Outra coisa: assim que essa criança nascer, e você a der para alguém,
não diga que Solange é a mãe. E vá lá em casa para visitar seu pai.
– Pode deixar, mamãe, pode deixar – diz Débora, contrariada. – Agora
se me permitem, vou deitar, estou com aquela fraqueza nas pernas.
– Venha, filha, venha deitar – diz Marilza, auxiliando Débora a andar.
Após um mês Marilza viaja de volta para casa e deixa Solange sob os
cuidados de Débora.


D
O destino
ébora está na cozinha preparando o café da manhã, quando seu
telefone celular toca.
– Alô!
– Alô, quem está falando?
– Seu fisioterapeuta.
– Oi, Pedro!
– Você não vai fazer a fisioterapia?
– Me desculpe não ter ligado, mas me sinto envergonhada.
– Deixe de bobagens, Débora. Olha, estou perto da sua casa; posso dar
uma passadinha aí para começar seu tratamento?
– Como assim, perto da minha casa?
– Eu dei uma carona para sua mãe quando você estava no hospital, por
isso sei onde você mora.
– Meu Deus! Você sabe onde moro?
– Sim. Posso passar aí?
– Pode.
– Então, põe água no fogo para o café, que já estou chegando.


– O café já está pronto, seu bobo.
– Oba! Até já.
– Beijos.
– Para você também.
Solange se aproxima e pergunta:
– Quem era ao telefone, maninha?
–  O  Pedro.  Ele  vai  passar  aqui  para  começar  meu  tratamento
fisioterápico.
– Ele é um gato, não é?
–  Menina,  você  mal  acabou  de  arrumar  um  problema,  já  quer  arrumar
outro?
–  brincando. Mas olha, é um partidão para você.
– Olha o respeito, Solange, olha o respeito!
– Não está mais aqui quem falou...
– Pegue a toalha e me ajude a arrumar a mesa.
– Está bem.
Após vinte minutos...
– Bom dia, meninas!
– Bom dia, Pedro – diz Solange, animada.
– Bom dia, Débora.
– Bom dia, Pedro.
– Como está a minha paciente?
– Estou melhorando a cada dia.


– Vamos começar seu tratamento e logo você estará apta a voltar à sua
vida normal.
– Perdoe-me por não ter ligado. É que me senti envergonhada.
–  Deixa  de  bobagens.  Vamos  tomar  o  café  e  começar  logo  esse
tratamento. Afinal, tenho plantão ainda hoje e alguns clientes para atender.
– Venha, entre, sente-se – diz Débora mostrando uma cadeira na mesa de
jantar.
Pedro  senta-se,  toma  um  café  e  realiza  o  primeiro  atendimento
fisioterápico em Débora na cama de casal dela.
Após algum tempo...
– Pronto, terminei!
– Obrigada, Pedro.
– Você se sente melhor agora?
– Sim, essa perna ainda estava meio bamba; agora posso senti-la melhor.
– Acredito que com mais algumas massagens e drenagens, você poderá
retomar sua vida normal.
– Não tenho palavras para lhe agradecer, Pedro.
– Posso lhe pedir uma coisa – diz o rapaz aproximando-se de Débora.
Envergonhada, ela diz:
– Claro que sim.
Pedro acaricia o rosto de Débora e aproxima seus lábios aos dela.
Sem resistir, Débora cede a um beijo apaixonado.
Seus corpos se encontram em um caloroso abraço.
– Sempre sonhei com isso – diz Pedro.


– Perdoe-me – diz Débora.
–  Nunca  havia  sentido  nada  do  que  sinto  agora  dentro  de  mim.  Parece
que  há  uma  chama  acesa  querendo  destruir  meu  coração  –  diz  Pedro,
apaixonado.
– Não sei por que, mas quando acordei do coma, meu coração procurava
por algo que agora sei que encontrei.
– Não fale muito, beije-me – diz o jovem apaixonado.
Solange, ao perceber o clima de amor que envolveu todo o ambiente, sai
para dar uma volta na rua.
Após seis meses Débora aceita o pedido de casamento de Pedro e eles
decidem  morar  juntos.  Débora  então  sai  da  comunidade  e  vai  morar  no
apartamento alugado de Pedro na zona oeste da cidade.
Solange  está  perto  de  ter  seu  bebê,  quando  o  assunto  de  novo  volta  à
mesa de jantar da família.
– Solange, amanhã quando sairmos da consulta com o seu médico, vamos
até a casa de Vera, aquela amiga minha que lhe falei. Eu já liguei para ela
para  tratarmos  do  assunto  do  seu  filho.  Ela  me  pediu  que  fôssemos  até  o
centro espírita conversar com a psicóloga que atende gratuitamente lá.
– Você falou com ela que temos que dar o bebê para alguém?
– Sim, falei.
– Vocês estão certos que vão fazer isso? – diz Pedro.
– Foi o que a mamãe nos pediu para fazer, Pedro – diz Débora.
– Olha, não tenho nada com isso, mas sinceramente acho uma estupidez
sem tamanho. A Débora está tentando engravidar há uns três meses. E você
querendo dar essa criança?
– Foi o que a minha mãe determinou, Pedro – diz Solange.


– Falando nisso, você já pegou o resultado de seu espermograma, Pedro?
– diz Débora.
Vou pegar hoje, amor.
– Meu Deus, espero que esteja tudo bem.
– Vai estar, amor, pode confiar – diz Pedro.
– Pedro, já cansei de falar sobre isso com a Solange. Poderíamos ficar
com  essa  criança,  mas  conhecendo  a  dona  Marilza  como  conheço,  minha
vida  se  transformaria  em  um  inferno  sem  precedentes.  Mamãe  é  daquelas
mães tradicionais. Eu mesma, quando decidi sair de casa para tentar minha
vida, sofri horrores com ela e papai que só melhoraram quando levei o Allan
para  eles  conhecerem.  O  meu  amado  filho  conquistou  o  coração  de  papai,
daí  dona  Marilza  ficou  mais  calma.  O  melhor  a  fazer  mesmo  é  doar  essa
criança. A Vera me falou que eles têm pessoas ricas loucas para terem um
filho e que isso é fácil para ela resolver. Além de tudo, o pai dessa criança
pode querer cobrar sua presença e isso será a ruína de nossa família.
– Vocês já sabem a minha opinião, não é? Não toco mais neste assunto –
diz Pedro, irritado.
– Vamos fazer assim: eu vou com a Solange até a consulta dela, depois
passo  no  centro  espírita.  À  tarde  podemos  nos  encontrar  para  lanchar  no

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