Mãe, voltei!


partir. – Sim, Nina. Venha, Índio, vamos nos preparar



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Mãe, Voltei! Osmar Barbosa
Eustaquio

partir.
– Sim, Nina. Venha, Índio, vamos nos preparar.


Nina  chega  à  beira  do  rio  e  vê  Débora  sentada,  perdida  em  seus
pensamentos,  colocando  pequenas  folhas  para  boiar  na  fraca  correnteza  do
pequeno riacho que corta a aldeia.
– Débora?
– Oi Nina, sente-se!
– Desculpe-me incomodá-la, mas precisamos partir – diz Nina sentando-
se ao lado de Débora.
– Eu estava aqui pensando no meu filho. Sabe, Nina, estou mais tranquila
agora.  Agora  começo  a  compreender  muitas  coisas  dentro  de  mim.  A
saudade do Allan me dilacera o coração. Jurei que encontraria o meu filho
onde  ele  estivesse.  Fico  feliz  por  não  tê-lo  encontrado  no  Umbral.  Espero
que ele esteja num lugar como este aqui. Um lugar lindo, com pessoas belas.
Não quero ser um peso para vocês. Se nossa busca tiver que terminar, não se
preocupe comigo. Aprendi a te respeitar e amar. Sabe, Nina, existem poucas
pessoas  como  você,  aliás,  como  vocês,  espíritos  amigos  que  estão  aqui
somente com a intenção de me ajudar. Eu estava me lembrando de quando o
Allan  nasceu:  ele  ali  no  meu  colo  tão  dependente  de  mim,  tão  frágil.  Seu
cheiro, seu choro. Uma vida sobre a minha responsabilidade, tão dependente
de mim. Não sei se fiz a coisa certa. Eu deveria, talvez, ter ficado no interior
onde meus pais ainda vivem, lá a violência é menor. Talvez eu seja a maior
culpada por tudo o que aconteceu com meu filho, Nina.
– Você acha mesmo que errou?
– Às vezes me sinto culpada.
–  Guarde  em  seu  coração  esse  ensinamento:  não  cai  uma  folha  de  uma
árvore sem que Deus permita. Deus conhece Seus filhos como ninguém. Tudo
o  que  plantamos,  colhemos.  Assim,  não  se  culpe  e  não  pense  no  que  você
poderia ter feito. Faça hoje o que você deseja que seja seu amanhã.
– Obrigada, Nina. Obrigada!


– Sei que é difícil. Ele sabe que é difícil, por isso tudo o que Ele criou
está interligado e se ajuda mutuamente. O Universo inteiro está se ajudando.
O  mal  só  existe  para  que  nós  não  nos  esqueçamos  de  fazer  o  bem.  Agora
vamos, porque os meninos estão nos esperando.
– Para onde vamos agora?
–  Débora,  reviramos  todo  o  Umbral  e  o  Allan  não  veio  para  cá;  agora
vamos  visitar  algumas  colônias  espirituais.  Vamos  procurá-lo,  e  se  Deus
permitir, vamos encontrá-lo.
– Vamos, Nina. Vamos logo, estou morrendo de saudades de meu filho.
Mas antes quero lhe contar um segredo.
– Conte.
– Nina, pode parecer bobagem o que vou dizer.
– Diga, Débora.
– Não sei se devo.
– Deixe de bobagens, estamos já há alguns dias juntas. Pode confiar em
mim.
–  Nina,  parece  bobagem,  mas  o  Allan  tem  um  cheiro  que  só  ele  tem.
Sinto  que  ainda  vou  senti-lo  pelo  cheiro.  Sinto  a  todo  momento  que  o
encontrarei. Sabe, parece estranho o que vou falar, mas fico tentando sentir o
cheiro do meu filho. Filhos têm cheiro, Nina.
–  Eu  sei,  eu  também  sinto  saudades  das  crianças  lá  da  minha  colônia.
Realmente crianças têm um cheiro muito próprio.
– Fico com a sensação de que vou sentir meu filho pelo nariz. Estranho
isso, não é?
– Sim, isso é estranho.


– Parece coisa da minha cabeça, mas quando pego essas indiazinhas no
colo fico a cheirá-las para ver se encontro o cheiro do meu bebê.
– Deus vai lhe permitir encontrar-se com o Allan. Agora vamos.
– Sim, Nina – diz Débora se levantando.
Assim, Nina, Débora, Felipe e o Índio deixam os portões do Umbral e se
dirigem à colônia espiritual chamada Colônia da Regeneração.




A
Colônia da Regeneração
Colônia  da  Regeneração  trabalha  na  recuperação  de  espíritos
que foram mutilados e sofreram algum tipo de acidente no qual
perderam  partes  do  corpo  enquanto  estavam  encarnados.  A
mutilação física atinge o perispírito, que é o nosso corpo espiritual, aquele
que  levamos  para  o  mundo  espiritual  para  podermos  ser  reconhecidos  por
nossos familiares e amigos que foram antes de nós. Todos nós temos o poder
de,  fluidicamente,  condensarmos  esses  fluidos  e  levar  conosco  essa  forma
física  que  muito  nos  será  útil  na  erraticidade.  Além  de  proceder  com  os
atendimentos  fluídicos  concentrados,  terapias.  Tudo  com  o  intuito  de
renovação do perispírito.
Nina,  Felipe  e  Débora  são  recebidos  por  Marcondes,  que  é  um  dos
espíritos responsáveis por Regeneração. É ele quem coordena e fiscaliza a
chegada de novos pacientes que serão tratados nesta colônia.
Nina, Felipe e os demais chegam à colônia em um veículo que flutua e os
leva até o portão de entrada principal da colônia. Débora está admirada com
tanta tecnologia e beleza. Enquanto o veículo transita por uma estrada virtual
ela admira a paisagem colorida e bela. É como estar andando de avião, mas
está  em  um  trem  sem  trilhos  e  rodas  e  extremamente  silencioso.  Todas  as
paredes  do  veículo  são  de  vidro  transparente,  inclusive  o  teto,  permitindo
aos ocupantes admirar a beleza do lugar e a viagem.
– Nossa, Nina, que lugar lindo!


– Tudo por aqui é muito bonito, Débora. Vá se acostumando – diz Felipe,
ao se aproximar.
– Eu nunca poderia imaginar que as coisas fossem assim.
–  Quando  estamos  encarnados  somos  cobertos  pelo  véu  da  ignorância.
Isso  ocorre  para  que  possamos  buscar  compreender  nossas  lutas  diárias  e
superá-las de forma evolutiva.
– Interessante! – diz Débora.
–  Suas  lutas  diárias  são  necessárias  para  que  possas  tornar-se  um
espírito melhor – diz Marcondes, abrindo os braços para abraçar Nina.
– Olá, meu nobre amigo! – diz Nina, retribuindo o abraço.
Felipe se aproxima e abraça Marcondes mesmo sem Nina ter se afastado.
– Abraços triplos são ótimos – diz o amigo, sorrindo.
– Venha, Débora, junte-se a nós neste caloroso abraço.
Acanhada e sem jeito, Débora se aproxima e é puxada por Felipe para o
fraterno abraço feliz.
– Que bom tê-los aqui! – diz Marcondes.
– Viemos à procura de um menino, filho de Débora.
– Qual é nome dele, Felipe?
– Allan, senhor, Allan com dois eles – diz Débora, nervosa.
–  Vamos  até  minha  sala,  que  irei  olhar  no  prontuário  dos  últimos  que
chegaram aqui – sugere Marcondes. – Ele desencarnou mutilado?
– Não – diz Nina.
– Mas é como se fosse, senhor. Ele levou um tiro na cabeça.


– Sim, tiros são mutilações que precisam ser tratadas – diz Marcondes,
gentilmente.
– Venham, vamos até minha sala.
– Sim, vamos – diz Nina.
– E então, como estão as coisas em Amor e Caridade, Nina?
– Muito trabalho.
– E aqui em Regeneração, como estão as coisas? – pergunta Felipe.
–  Muito  trabalho,  meu  amigo;  como  sabes,  o  planeta  está  se
transformando, e nós aqui trabalhando dobrado.
– Lá em Amor e Caridade não é diferente – diz o Índio.
Pare de reclamar, amigo Índio – diz Marcondes.
– Não estou reclamando, é que estamos sobrecarregados mesmo.
– É verdade – diz Felipe.
– Mas todos nós fomos avisados pelo grande Arquiteto que este momento
seria  de  muito  trabalho,  mas  que  depois  colheríamos  os  louros  de  nossa
vitória – diz Nina.
– Sim, colheremos com certeza. Nada aqui falha, tudo tem seu momento
certo para acontecer – diz Felipe.
Após  caminhar,  o  grupo  adentra  um  enorme  galpão,  muito  claro
iluminado por luzes verdes e outras violetas.
–  Venha,  Nina,  venham  até  minha  sala,  amigos  –  diz  Marcondes
permanecendo  de  pé  e  indicando  uma  porta  branca  de  uns  dois  metros  de
largura por uns cinco de altura.
– Nossa, como é linda a sua sala, Marcondes! – diz Nina.


– Recebi a recompensa na reforma estrutural da colônia, e esta é minha
nova sala.
– Parabéns! – diz Felipe.
– Obrigado, amigo. Mas venham, sentem-se.
A  sala  tem  aproximadamente  trinta  metros  quadrados.  As  paredes  são
pintadas de branco, combinando com os tapetes da mesma cor; e as poltronas
são  de  cor  lilás.  A  mesa  onde  Marcondes  despacha  tem  aproximadamente
cinco  metros  de  comprimento  por  dois  de  largura.  Há  plantas  com  flores
amarelas e roxas que perfumam o ambiente.
– Lindo esse lugar! – diz Débora.
– Gostou?
– Sim. É muito lindo.
– Sente-se aqui, por favor, Débora – diz Marcondes, indicando-lhe uma
cadeira.
Todos se sentam. Marcondes, por meio de um aparelho colocado sobre
sua mesa, chama seu auxiliar.
– Sebastian, você pode vir até a minha sala, por favor?
– Sim, já estou indo – responde a misteriosa voz.
Logo  o  dono  da  voz  misteriosa  adentra  o  ambiente,  cumprimentando  a
todos.  Alto,  moreno  de  olhos  azuis,  muito  bem  vestido,  Sebastian  é  gentil
com todos.
– Boa tarde!
– Boa tarde – respondem Nina, Felipe e os demais.
–  Sebastian,  a  senhora  Débora  foi  trazida  por  Nina,  porque  ela  está  à
procura de seu filho, Allan. Por acaso o filho dela está em nossa colônia?


Deu entrada aqui algum menino que desencarnou, baleado na cabeça?
– Infelizmente não. Ele não está aqui, Marcondes.
Débora fica frustrada com a informação.
– Nina, como podes ver, o menino não está aqui, infelizmente.
Débora coloca as mãos sobre o rosto e começa a chorar. Nina se levanta
e vai ao encontro dela.
– Não chore, Débora. O fato de Allan não estar aqui não modifica nada.
Vamos continuar a procurá-lo em outras colônias – diz Nina, carinhosamente.
– Perdoem-me minha fraqueza – diz Débora em lágrimas.
– Nós compreendemos sua situação – diz Marcondes.
–  Prometi  a  meu  filho  que  o  encontraria  onde  quer  que  ele  estivesse.
Tenho vergonha de incomodá-los com a minha dor.
– Não se sinta assim. Deixe-me lhe ensinar uma coisa – diz Marcondes
levantando-se.  –  Nada  acontece  sem  a  permissão  do  Criador.  Se  Nina,
Felipe  e  os  demais  estão  envolvidos  nessa  missão  é  porque  Ele  permitiu.
Tudo  está  alinhado  por  Sua  vontade.  Tenha  calma,  fé  e  esperança,  logo
acharás seu menino e tudo se esclarecerá.
– Obrigada, senhor – diz Débora.
– Obrigada, Marcondes – diz Nina.
– Obrigado por suas palavras, amigo – diz Felipe.
– Agora é melhor irmos embora, pois ainda temos muitas colônias para
visitar e encontrar o menino – diz o Índio.
– Tens razão, Índio – diz Nina, se levantando.
Débora  se  levanta,  e  com  as  mãos  enxuga  as  lágrimas  que  cobrem  seu
rosto e se apresenta disposta a seguir em frente.


Todos se levantam e se dirigem até a estação, acompanhados pelo amigo
Marcondes, que gentilmente caminha ao lado deles. A estação está lotada de
espíritos. Os veículos de transporte não param de chegar e sair trazendo e
levando espíritos trabalhadores da linda colônia chamada Regeneração.
– Querido amigo, obrigado por sua ajuda – diz Nina.
– Estarei sempre aqui lhe esperando para mais visitas, Nina.
– Obrigado, Marcondes – diz Felipe.
– De nada, amigo.
– Obrigada, senhor – diz Débora.
– Espero que encontre logo seu menino.
– Eu vou encontrá-lo, como prometi.
– Para onde vocês vão agora, Nina?
– Vamos para a Colônia Amigos da Dor, quem sabe o Allan não esteja
lá?
– Boa sorte, amigos!
Marcondes se despede acenando com as mãos, enquanto todos entram no
veículo de transporte.




Colônia Amigos da Dor
– Falta muito para chegar a essa tal colônia? – pergunta Débora.
–  Vamos  visitar  a  Colônia  Amigos  da  Dor.  Esse  é  o  nome  dessa  tal
colônia.
– Desculpe-me, Nina.
– Por nada, Débora.
– Nina, será que lá eu consigo curar essa dor que rasga meu peito? Essa
dor que está me destruindo?
–  Não  é  bem  esse  o  objetivo  desta  colônia,  vamos  lá  procurar  pelo
Allan.
– Que tipo de colônia é essa?
–  Essa  é  uma  das  mais  antigas  colônias  sobre  o  orbe  terreno.  Eles
socorrem  pessoas  em  igrejas,  asilos,  orfanatos  e  muitos  lugares  ligados  à
Igreja.
– Quase nem agradeci ao Marcondes a gentileza de me receber com tanto
amor e carinho – diz Débora.
– Muito gentil o Marcondes – diz Felipe.
– Sim, ele é um anjo – diz Nina.
– Como assim, anjo? – pergunta Débora, assustada.


– Anjo no sentido de bondade, Débora – diz Felipe.
– Ah, sim, perdoem-me! Pensei que ele era um anjo com asas.
Todos riem.
– Venham – diz Nina.
Todos  se  acomodam  e  o  veículo  de  transporte  começa  a  se  locomover
em direção à colônia solicitada.
– Nina, será que meu filho está nessa colônia?
– Não sei. Sinceramente acho que não, mas temos que ir até lá, preciso
ver uma velha amiga. Acho que ela pode nos dar uma dica de onde o Allan
possa estar.
– Por quê? – pergunta Débora.
– Como sabes, é na idade madura que passamos a compreender melhor
as coisas da vida. Essa colônia, além de tantos outros atendimentos, também
é especializada em atender aos idosos. Acredito que lá teremos informações
valiosas sobre o paradeiro de Allan.
– Explique melhor a ela, Nina, como trabalha a Colônia Amigos da Dor,
onde fica etc. – sugere Felipe.
–  A  Colônia  Amigos  da  Dor  encontra-se  no  norte  de  Minas  Gerais  e
extremo  sul  da  Bahia.  Sua  especialidade  é  realizar  o  socorro  a  recém--
desencarnados. Os espíritos servidores dessa colônia prestam atendimento e
amparo  em  igrejas,  santas  casas  de  misericórdia,  orfanatos,  centros  de
atendimento ao idoso, asilos e centros geriátricos, além de orfanatos. É uma
das mais antigas colônias em terras brasileiras – diz Nina, pacientemente.
A viagem é divertida e bela.
Após algum tempo eles finalmente chegam à colônia e são recebidos por
Lucília, sua dirigente e responsável.


– Nossa, a cada colônia que visito fico mais admirada com a beleza! –
diz Débora, encantada com o lugar.
–  Lembra-se  de  que  lhe  falei  para  preparar-se  para  ver  coisas
inimagináveis?
– Sim, me lembro, Nina. Eu só não imaginava que era tão lindo assim.
De  pé  na  estação  uma  linda  senhora  de  cabelos  brancos,  vestindo  uma
túnica branca com detalhes em azul-claro e dourado espera pelos viajantes
com as mãos unidas sobre o peito num sinal de alegria e fé.
– Olhem, Lucília nos espera! – diz Nina, feliz.
Nina desce correndo do veículo e corre para abraçar a amiga anciã que a
espera.
Lucília  é  uma  senhora  de  uns  sessenta  e  cinco  anos  aproximadamente.
Cabelos brancos, um lindo sorriso e muito meiga e carinhosa com todos.
– Oi, minha menina! – diz a carinhosa amiga.
–  Nossa,  quanta  saudade  de  você,  Lucília!  –  diz  Nina  abraçando
fortemente a amiga.
– Eu também, meu doce! Como estão as coisas em Amor e Caridade?
– Tudo bem. Eu vim até aqui para lhe apresentar uma amiga que precisa
de seus conselhos.
– É aquela menina ali?
– Sim. Venha até aqui, Débora, por favor!
Débora  se  aproxima  de  Lucília,  que  carinhosamente  a  envolve  em  um
caloroso abraço.
– Estás à procura de seu filho?


– Sim, minha senhora. Como a senhora sabe meu nome e sobre a procura
do meu filho?
– Daniel me falou – diz Lucília.
Débora olha assustada para Nina que, com um gesto de mão, manda que
siga os conselhos de Lucília.
–  Vamos  caminhar,  minha  menina?  Quero  lhe  mostrar  nossa  colônia.
Pode ser?
– Sim, se a senhora não se importa... – diz Débora.
– Nina, vou caminhar e conversar com a Débora. Mas antes, venha até
aqui, Felipe, quero lhe abraçar.
– Claro, Lucília! – diz Felipe, se aproximando.
– Lindo esse rapaz – diz a amiga.
– É verdade – diz Nina, orgulhosa.
– Estou muito feliz em tê-los aqui.
– Nós é que agradecemos essa oportunidade – diz Felipe.
Após abraçar Felipe, Lucília pega gentilmente no braço de Débora e a
convida a caminhar. O Índio assiste a tudo de longe.
–  Crianças,  me  esperem  na  enfermaria  número  dois.  Volto  logo  –  diz
Lucília, se afastando.
– Sim, vamos para lá – diz Nina.
Após alguns metros caminhando, Lucília puxa assunto com Débora.
– Há quanto tempo seu filho desencarnou?
– Acho que há três dias, senhora.
– Tire-o “senhora”, por favor.


– Perdoe-me – diz Débora.
– E ele morreu de quê?
– Uma bala perdida.
– Não existem balas perdidas. Existem balas à procura do alvo.
– Como assim?
– Nada acontece sem a permissão de Deus. Já lhe explicaram isso?
– Sim, Nina já me falou sobre isso.
– Então a bala, supostamente perdida, estava à procura de seu filho.
– É muito difícil para mim acreditar nisso.
– Eu compreendo, quando cheguei aqui demorei também a compreender
as coisas dEle.
– Não consigo aceitar a morte do meu filho. Acho que Deus não foi justo
comigo. Ele era um menino tão bom, estudioso, meigo, chegou até a fazer um
poema para mim.
Débora começa a chorar.
– Não chore, menina. Me fale mais de seu filho.
–  Ele  nasceu  de  um  romance  que  tive  com  um  rapaz,  meio  sem  querer,
mas eu o assumi e criava-o com todo o amor que tenho dentro de mim. Ele é
meu melhor amigo, meu companheiro, parceiro; enfim, tudo o que Deus tinha
de bom para colocar em alguém, Ele colocou em Allan.
– E você acha mesmo que esse Deus que lhe brindou com um menino de
ouro seria capaz de matá-lo?
–  Eu  já  compreendi  que  ele  não  morreu.  Eu  só  quero  achá-lo  e  poder
abraçá-lo novamente. Dizer a ele que não tive culpa e que eu o amo muito,
muito mesmo. Sabe, minha vida não tem sentido sem ele.


– As almas combinam a viver experiências evolutivas. Eu mesma fui mãe
de três meninos e duas meninas.
– Nossa, sério?
– Sim, meus cinco filhos hoje são meus auxiliares aqui na colônia.
– Então é isso que quero. Eu quero encontrar o Allan e ficar ao lado dele
para sempre. A senhora entende?
– Sim, entendo, mas o tempo de Deus é um pouquinho diferente do nosso
tempo.
– Eu não consigo acalmar meu coração. Peço até perdão a Deus por ser
assim. Mas não dá, eu preciso do meu filho.
– Olhe para aquelas árvores ali – diz Lucília.
– Sim, são lindas.
– Está vendo?
– Sim, estou vendo aquelas árvores altas e outras pequenas ao lado.
–  As  árvores  altas  são  as  árvores  adultas;  as  pequenas,  ao  lado,  são
filhas das maiores.
– Sim, estou compreendendo.
– Observe que as árvores adultas, antes de serem adultas, foram árvores
pequenas, foram filhas.
– Sim, nascer, morrer e seguir, é isso?
–  Sim,  querida,  ainda  bem  que  você  percebeu  logo  no  início.  Nascer,
morrer, renascer e progredir sempre, essa é a lei.
– Quer dizer que todos nós vamos renascer ao lado de nossos queridos?
– Exatamente como as árvores. Nascemos sempre próximos dos nossos
queridos para poder nos auxiliar mutuamente em nossa evolução.


– Quer dizer que o Allan pode nascer de meu ventre de novo?
– Sim, é isso. Se for de seu merecimento, ele volta aos seus braços.
– Mas como, se nem marido eu tenho? Eu não me casei.
–  Ele  providencia  tudo.  Não  se  desespere.  Se  você  não  encontrar  com
seu filho aqui no mundo espiritual, ele vai achar você.
– Lucília, o Allan está aqui?
– Não, ele não está em nossa colônia. Não desanime, continue a procurá-
lo. Eu vou orar a Deus para que vocês se encontrem.
– Você vai fazer isso por mim?
– Sim, afinal você é amiga da Nina e eu a amo muito.
– Obrigada então por seus conselhos e suas palavras. Estou a cada dia
mais calma.
– Agora vamos nos encontrar com Nina e Felipe para vocês seguirem em
sua busca. Não se esqueça das minhas palavras.
– Quais são as palavras que eu devo guardar?
– Se você não encontrar seu filho, ele certamente encontrará você.
–  Deus  seja  louvado  e  ouça  suas  palavras!  –  diz  Débora  abraçando
Lucília.
– Olhe, lá estão eles, venha – diz Lucília dirigindo-se à enfermaria.
Há  várias  enfermarias  em  Amigos  da  Dor.  Milhares  de  espíritos
trabalham  auxiliando  os  desencarnados.  Todos  têm  um  sorriso  no  rosto.
Todos são felizes na Colônia Amigos da Dor.
Após se despedirem carinhosamente de Lucília, Nina, Felipe, Débora e o
Índio deixam o lugar, levados pelo veículo de transporte.
Nina senta-se ao lado de Débora e puxa conversa.


– O que Lucília lhe disse, Débora?
– Disse-me lindas palavras. Ela é um anjo, não é, Nina?
– É como se fosse. Na verdade, as colônias são dirigidas por espíritos
que já alcançaram um estágio muito alto na escala evolutiva.
– Existe uma escala evolutiva?
– Não é bem uma regra nem uma escala.
– Como é, então?
–  Nós,  espíritos,  estamos  predestinados  a  evoluir.  Por  meio  das
encarnações sucessivas, vamos nos melhorando e atingindo assim patamares
evolutivos  que  ainda  não  compreendemos.  Quando  atingimos  determinados
valores espirituais somos convidados a cuidar dos espíritos que estão nesta
busca evolutiva, entende?
– Sim, entendo. É como se fosse uma escola, à medida que aprendemos
podemos ensinar.
– Muito bem, Débora, é isso – diz Nina, sorrindo.
– Olha gente, que lindo! – diz Débora olhando para fora.
Uma chuva de asteroides cobre todo o céu lindo e azul onde o veículo
transita.
– Sim, Ele é perfeito – diz Nina.
– O que é isso, Nina? – pergunta Débora, deslumbrada com a imagem.
– Chuva de estrelas.
– Nossa, como é lindo!
–  Na  verdade,  são  milhares  de  meteoros  que  surgiram  após  uma
explosão.  E  ficam  vagando  pelo  espaço  como  chuva  de  luz.  Pequenos  e
grandes pedaços clareiam o céu escuro dos planetas distantes.


– Gente, mas são milhares! – diz Débora.
– Milhares não, Débora, milhões! – corrige Felipe.
– Nina, para onde estamos indo agora?
– Estamos indo para a Colônia Redenção.
– Será que, finalmente, acharemos o Allan?
– Não sei, mas vamos tentar – diz Nina.



Colônia Redenção
– Olhe, Débora, essa é a nossa próxima parada.
– Que lugar lindo!
– Essa é a Colônia Redenção – diz Felipe.
– E para que ela serve? Qual é o trabalho feito aqui?
– Explica para ela, Nina, por favor – pede Felipe.
– O melhor disso tudo é que você já compreendeu que cada colônia tem
uma finalidade, um objetivo. Que bom, Débora! Fico muito feliz.
– Isso eu já pude observar, Nina, agora começo a compreender algumas
coisas de Deus. Agora compreendo que nada se perde, tudo está interligado.
Quando  deixamos  a  vida  corpórea  podemos,  sim,  ser  úteis  às  coisas  de
Deus. Embora não esteja me sentindo morta, não sei bem explicar o que está
acontecendo comigo.
Nina e Felipe se entreolham. E Felipe diz:
– Que bom, não é, Nina?
– Sim, que bom, Débora! – diz Nina aproximando-se de Débora. – Mas
deixe-me  lhe  explicar  um  pouco  sobre  essa  colônia.  Débora,  essa  colônia
realiza  um  grande  trabalho  em  laboratório  fluídico  por  intermédio  de  seus
socorristas  na  Terra.  Aqui,  se  trabalham  as  formas  fluídicas  que  são
utilizadas  sobre  o  orbe  terreno.  Essa  colônia  é  uma  grande  referência  no


mundo  espiritual.  Foi  aqui  que  quase  tudo  começou,  há  arquivos  das  mais
lindas  histórias  e  exemplos  de  amor  que  o  mundo  espiritual  já  viu,
começando pela história de Jesus em cenas vivas. Tudo na Criação parte do
princípio fluídico. Tudo na Criação passa por aqui.
– Quer dizer que a primeira coisa a ser criada foram os fluidos?
–  Exatamente,  Débora,  exatamente.  Tudo  começou  com  a  criação  dos
fluidos  que  ao  se  condensarem  e  se  misturarem  criaram  formas  animando
todas  as  coisas  que  existem;  assim,  tudo  o  que  você  vê,  toca  ou  sente  e
percebe, partiu do princípio fluídico criado por Deus.
– Nossa, que coisa interessante! – diz Débora.
–  Apesar  de  viver  em  uma  comunidade  humilde  e  ser  uma  pessoa
humilde, você consegue compreender tudo o que está vendo e sentindo aqui,
não é, Débora? – diz Felipe.
– Não tinha me atentado para isso – diz Débora, surpresa.
– Quando estamos na condição espiritual, que é seu caso agora, juntamos
tudo  o  que  já  aprendemos  nas  existências  anteriores.  E  assim  conseguimos
viver melhor aqui no mundo espiritual. Somos a soma de tudo aquilo que já
experimentamos.
– Mas eu não me lembro de nenhuma vida anterior.
–  Você  ainda  não  se  lembra.  E  isso  é  porque  ainda  não  chegou  a  hora
certa de lembrar-se. Quando for o momento oportuno, recordará de todas as
suas vidas anteriores, ou melhor dizendo: você vai se recordar de todas as
coisas que lhe ajudaram a chegar ao estado em que se encontra agora.
– Não sei se quero me lembrar de minhas vidas passadas, Nina.
– Por quê?


– Na verdade, tenho medo de me lembrar de coisas horríveis pelas quais
eu possa ter passado ou até mesmo que eu tenha praticado para chegar até
aqui.
– As coisas terríveis não nos são úteis. E delas não nos recordaremos.
– Como assim, Nina?
– Só trazemos para a existência atual as boas lembranças. Coisas que nos
foram  úteis  para  nossa  evolução.  Existem  experiências  que  são
desnecessárias, e estas são esquecidas.
– Quer dizer que o Allan não vai se lembrar que foi assassinado?
–  Se  isso  lhe  for  útil  ele  recordará,  mas  se  nada  acrescentar  à  sua
evolução ele não se lembrará.
– Quer dizer que se alguém me matou ou me feriu gravemente me levando
à morte eu não vou me lembrar?
– Primeiramente, a morte não existe. Segundo, se alguém lhe fez algum
mal é porque lhe foi permitido fazer-lhe o mal. Às vezes, o que achamos que
é  mal,  na  verdade,  é  um  ajuste  de  nossa  existência  anterior.  Um  acerto  de
contas, se assim podemos dizer...
– Justiça divina...
– Boa, Felipe. Justiça divina – diz Nina.
– Estou começando a me animar com a morte – diz Débora.
Todos riem.
– Do que é que vocês estão rindo?
– Você é engraçada, Débora – diz o Índio.
– Mas estou falando sério. Agora, por exemplo, me sinto mais viva do
que  nunca.  Sinto  minhas  pernas,  meus  braços,  minha  língua,  minha  cabeça,


enfim, sinto meu corpo todo. Como se eu estivesse viva. Logo, o que achava
que era morte não existe. Então, por que me preocupar tanto com a vida?
– É por meio da vida que você alcança lugares melhores aqui, Débora. É
somente vivendo encarnados que adquirimos créditos para desfrutarmos de
uma  existência  plena.  A  encarnação  é,  na  verdade,  a  grande  escola  que
aperfeiçoa o espírito.
– Ah, então é por isso que o Umbral está cheio de gente sofrendo.
– Isso, menina! O Umbral é o lugar onde ninguém quer viver. Lá, ficam
todos  aqueles  que  pecaram  contra  a  própria  vida.  Ou  que  se  utilizaram  da
oportunidade da encarnação para produzirem o mal. É um filtro depurador.
– Assim como eu.
– Mais ou menos – diz Nina.
– Mas eu tomei remédios para morrer. E morri; ou será que não morri?
– Depois lhe explico essa parte – diz Nina, colocando o braço sobre o
ombro de Débora, convidando-a a sair do veículo.
– Venha, Débora, vamos procurar pelo Douglas.
– Quem é esse Douglas?
– É o meu amigo dessa colônia. É ele que nos espera – diz Felipe.
– Nossa, quero ser como vocês! – diz Débora, feliz.
– Por que, Débora?
– Vocês têm amigos em todos os lugares.
(Risos)
– Vou lhe ensinar outra coisa, Débora.
– Diga, Nina.


– Nós, filhos do Criador, temos uma existência infinita pela frente. Aqui
não contamos anos e tampouco fazemos aniversário. Tempos? Não contamos,
somos eternos. Por isso temos tantos amigos espalhados pelos quatro cantos
deste planeta.
– Nossa, não vejo a hora de contar tudo isso para o Allan.
– Se tudo der certo, em breve você poderá contar tudo isso ao seu filho.
–  Sabe,  Nina,  estou  muito  mais  calma.  Agora  posso  compreender  que
existe um Deus que tem muito amor para me dar. Começo a me achar egoísta.
– Por quê?
– Por que querer o Allan só para mim? Por que não reparti-lo com Deus?
– Você já repartiu seu filho com Deus quando gerou-o em seu ventre e o
amou, acima de tudo.
– Você acha?
– Sim, Deus é amor. E é pelo amor que nos aproximamos dEle. É pelo
amor  que  você  sente  pelo  seu  filho  que  estamos  aqui.  E  se  Ele  assim
permitir, em breve nós o encontraremos e terminaremos essa missão.
–  Não  sei  por  que  vocês  apareceram  na  minha  vida,  mas  quero  lhes
agradecer por tudo – diz Débora abraçando Nina.
– Nós é que agradecemos essa oportunidade evolutiva – diz o Índio.
– Venha, Felipe, vamos procurar pelo Douglas.
– Sim, vamos.
Nina,  Felipe,  Débora  e  o  Índio  seguem  caminhando  pelo  lindo  campo
florido  em  direção  ao  edifício  central  onde  ficam  as  enfermarias,  os
laboratórios e a administração da colônia.


Após  a  reunião  com  Douglas  e  demais  dirigentes,  desapontados,  eles
voltam  ao  veículo  de  transporte  e  decidem  se  dirigir  para  a  Colônia
Espiritual Amor e Caridade.



D
Colônia Espiritual Amor e Caridade
ébora está sentada à janela do veículo, e seus pensamentos se
perdem na beleza do lugar. Cores, aves, nuvens com tons lilás e
violeta cercam toda a Colônia Amor e Caridade. Seu peito se
enche de esperança quando se aproximam do lugar e ela pode ver centenas
de crianças brincando nos parques espalhados pela colônia.
Uma empolgação invade seu coração e a certeza de que seu sofrimento
está chegando ao fim.
– Nina, essa é sua colônia?
– Sim, Débora, essa é a Colônia Amor e Caridade.
– Ela é linda como todas as outras. Mas tem algo de diferente.
– Sim, aqui temos muitas crianças.
– Exatamente isso que pude observar. Muitas crianças! Por que somente
aqui eu vi crianças?
–  É  nossa  especialidade.  Aqui  em  Amor  e  Caridade  recebemos  as
crianças vítimas de câncer que desencarnam nos hospitais do Brasil.
– Nossa! Que legal!
– Sim, a Colônia Amor e Caridade é muito legal!
– Nina, por acaso vocês não recebem baleados?


(Risos)
–  Débora,  só  mesmo  você  para  fazer  piada  com  a  sua  dor  –  diz  Nina,
sorrindo.
–  Estou  brincando,  me  sinto  bem  aqui.  Sei  lá,  sinto  uma  paz  enorme
invadindo meu peito.
–  Vou  levar  você  a  uma  de  nossas  enfermarias  para  ver  as  crianças,
depois você pode descansar um pouco.
– É, Nina, acho que é disso que estou precisando: descansar...
– Já estamos nos aproximando da estação de desembarque. Felipe, você
pode levar Débora para uma de nossas enfermarias para ela descansar?
– Claro que sim, Nina.
– Você não vai ficar comigo, Nina?
– Não, Débora, vou procurar por nosso dirigente para saber notícias de
Allan  e  logo  depois  vou  à  enfermaria  falar  com  você.  Assim  que  terminar
meu assunto com ele, procuro por você, pode deixar.
– Estou sonolenta mesmo, embora curiosa. Será que o Allan está aqui?!
– Não, aqui tenho certeza que ele não está. Se tivesse vindo para cá, não
teríamos  tido  todo  esse  trabalho  de  procurá-lo  pelas  colônias  que  já
visitamos. Mas tenho esperanças de que Daniel saiba alguma coisa.
– Quem é esse Daniel?
– É o presidente de nossa colônia.
– Ah, desculpe, você já havia me falado.
– Sem problemas.
– Nina, posso lhe pedir uma coisa?
– Sim, Débora.


– Posso descansar primeiro e depois ver as crianças? É que estou muito
cansada, me sinto sonolenta.
– Vá com o Felipe e descanse. Depois eu mesma levo você para ver as
crianças.
– Obrigada, Nina.
O veículo estaciona na estação.
– Agora vá com o Felipe e descanse. Índio, obrigada mais uma vez – diz
Nina, afastando-se do grupo.
– De nada, Nina, quando precisar é só chamar – diz o Índio.
– Ei, você não vai se despedir de mim? – diz Débora.
– Ainda não, senhora. Nos veremos em breve.
–  bem, Nina. Mesmo assim, obrigada por tudo, amigo Índio.
– De nada, senhora – diz o Índio se afastando do grupo.
Felipe  leva  Débora  para  repousar  em  um  dos  leitos  da  enfermaria
número três, enquanto Nina se dirige apressadamente ao gabinete de Daniel.
Após  caminhar  alguns  minutos,  Nina  chega  ao  prédio  onde  Daniel
despacha durante todo o tempo. Ela é recebida pelo assessor de Daniel e seu
melhor amigo, o Marques.
– Oi, Marques!
– Oi, Nina! Tudo bem? Que saudades!
– Sim. O Daniel está aí? Ah, perdoe-me, Marques, mas eu também estava
com saudades de você.
– Sim, ele está. Você quer falar com ele?
– Gostaria, se for possível.


– Venha, eu a acompanho até seu gabinete.
Nina  e  Marques  se  dirigem  à  sala  de  Daniel.  Delicadamente  Marques
bate à porta pedindo permissão para entrar.
– Entrem Marques e Nina!
Nina entra na frente e logo se dirige para falar com Daniel.
Boa tarde, Daniel!
– Olá, Nina, sente-se, por favor!
Nina  senta-se  em  uma  confortável  cadeira  branca  colocada  à  frente  do
respeitado mentor.
– Como foi sua experiência nas colônias visitadas?
–  Muito  gratificante,  Daniel.  Como  sempre,  somos  bem  recebidos  nas
colônias irmãs aqui do Brasil.
–  Somos  sempre  bem  recebidos  em  todas  as  colônias  do  orbe,  Nina  –
afirma o sábio Daniel.
– É muito bom experimentar tudo isso – afirma a jovem.
– O que lhe traz aqui?
– Eu, Felipe e o Índio levamos Débora para algumas colônias para ver
se encontramos seu filho, o Allan, mas confesso que não sei onde o menino
está. Gostaria muito que você me ajudasse a encontrá-lo.
–  Vou  pedir  ao  Marques  que  faça  uma  busca  em  todas  as  colônias
possíveis.  Tenho  certeza  que  isso  vai  lhe  ajudar.  Agora  vá  descansar  um
pouco. Assim que tiver alguma notícia, eu lhe chamo.
– Nossa, obrigada, Daniel!
– De nada, Nina. Agora vá. As crianças estão saudosas.
– Obrigada, querido mentor – diz Nina levantando-se e saindo da sala.


Daniel  volta  a  seus  afazeres  enquanto  Débora  dorme  se  recuperando.
Nina e Felipe voltam às suas rotinas diárias em Amor e Caridade.
Após dois dias Daniel chama Nina e Felipe para uma conversa sobre o
paradeiro de Allan.
Apressadamente Nina chega ao gabinete do mentor.
– Oi, Daniel, você mandou me chamar?
– Sim, Nina. Como está Felipe? – diz Daniel de pé.
– Bem, Daniel, muito bem!
– Sente-se – convida Daniel, indicando duas cadeiras colocadas à frente
de sua mesa.
Todos se sentam.
– Nina, o Marques fez a busca solicitada para descobrir o paradeiro do
menino Allan. Não obtivemos respostas satisfatórias até o momento.
– Meu Deus! Como assim, ainda não o encontraram? – diz Nina.
– Existem mistérios que até mesmo os espíritos mais evoluídos ainda não
sabem responder, Nina – diz Daniel.
– Perdão, Daniel.
– Não há o que perdoar.
– Mas Daniel, que mistério é esse? – pergunta Felipe.
–  Não  existe  mistério  algum,  Felipe.  Simplesmente  ainda  não  tenho  a
resposta apropriada para vocês, é só isso – diz Daniel.
– Perdoe-me, Daniel – diz Felipe.
– Olha, tenho uma nova missão para vocês.
– Diga, Daniel – responde Felipe.


– Como pudemos acompanhar até agora, o corpo de Débora está sendo
mantido por aparelhos lá no hospital. Ela ainda não está morta. Seu espírito
está tendo essa oportunidade evolutiva a nosso lado. Laços fluídicos ainda a
mantêm  ligada  a  seu  corpo,  por  esse  motivo  ela  se  sente  tão  cansada  e
precisa  de  descanso  para  se  refazer.  O  pessoal  da  enfermaria  número  três
está fazendo sua parte.
– Sim – diz Nina.
–  E  como  todos  nós  sabemos,  enquanto  o  corpo  se  mantém  vivo  o
espírito se mantém ligado a ele por pequenos laços fluídicos. Mas é chegado
o momento de interferirmos para que esses laços não se percam, pois para
tudo existe um tempo hábil.
– Sim, Daniel, sabemos disso. Ela não pode ficar tanto tempo afastada de
seu corpo.
–  Pois  bem,  Nina  e  Felipe,  prestem  muita  atenção,  por  favor:  Débora
está pagando um preço muito alto por ter tentado contra a sua própria vida.
Nós sabemos que quando o espírito tenta tirar sua vida ele tem que ajustar-se
e  arcar  com  as  consequências  de  seu  ato.  Somos  nós  os  responsáveis  por
todas  as  nossas  atitudes,  atos  e  por  nossos  pensamentos.  Débora  é  um  ser
muito  especial  para  nós  aqui  da  colônia.  Embora  vocês  ainda  não  saibam,
ela está em missão com o espírito do menino Allan; portanto, eles precisam
cumprir  o  que  está  determinado,  o  que  eles  mesmos  combinaram.  Vocês
receberão  as  instruções  que  lhes  serão  passadas  pelo  Marques  de  como
deverão proceder daqui por diante.
– Faremos o que for necessário para ajudar Débora e o Allan – diz Nina.
–  Tenho  certeza  disso,  Nina.  Agora  vocês  precisarão  voltar  até  o
hospital  onde  Débora  está  internada  e  aplicar-lhe  passes  fluídicos.  Eu
mesmo  vou  até  a  enfermaria  prepará-la  para  a  sua  volta  ao  corpo  físico.


Intua os médicos a reduzirem a medicação forçando a volta de Débora. Ela
tem que sair do coma.
– Então ela não vai desencarnar?
–  Não,  Nina,  Débora  vai  sair  do  coma  e  terá  uma  nova  oportunidade.
Tudo o que ela viveu nesses dias com vocês, todas as experiências, já estão
introduzidas  no  seu  subconsciente  e  ela  vai  se  lembrar  de  algumas  coisas,
como  se  fosse  um  sonho;  isso  lhe  fará  modificações  que  lhe  serão  muito
úteis. Espero que ela viva uma vida de bondade e amor, sem a companhia do
menino Allan.
–  O  tempo  que  ela  ficou  em  coma  lhe  trará  algum  problema  físico,
Daniel?
– Nada relevante. Ela será assistida e ajudada.
– Está bem, Daniel; são essas as recomendações?
– Sim, Felipe.
– Estamos aqui para auxiliar – diz Nina.
– Obrigado.
–  Daniel,  me  perdoe,  mas  só  para  que  eu  me  tranquilize,  em  quantas
colônias o Marques procurou pelo Allan?
– Em todas onde ele pudesse estar, Nina.
– Você pode nos dar os nomes, Daniel? Claro, se você não se incomodar.
– Sim, Felipe, claro que sim. Anota aí! Colônia Arco-Íris; Colônia Raios
do Amanhecer; Colônia Bom Retiro; Colônia Padre Chico; Colônia da Praia;
Colônia  Nova  Esperança;  Colônia  das  Águas;  Colônia  Morada  do  Sol;
Colônia  das  Flores,  nossa  coirmã;  Colônia  Gramado,  e  seus  núcleos  de
atendimento  socorristas,  entre  eles  as  colônias  “Das  Orquídeas”;
“Girassóis”; “Do Guaíba” e “Estrela D’alva”; Colônia das Rosas; Colônia


Estudo e Vida; Colônia das Violetas; Colônia do Sol Nascente; Colônia do
Abacateiro;  Colônia  do  Rouxinol;  e  Colônia  do  Moscoso.  Além  dessas,  é
claro,  ele  pediu  informações  a  outras  colônias.  Ele  visitou  a  Colônia
Socorrista  Moradia;  Colônia  Campo  da  Paz;  Casa  Transitória  de  Fabiano;
Colônia  da  Música;  Colônia  Espiritual  de  Eurípedes  Barsanulfo;  Colônia
Alvorada Nova; Colônia Casa do Escritor; Colônia Triângulo Rosa e Cruz;
Sanatório  Esperança  Moradias;  Colônia  Porto  da  Paz;  Instituto  de
Confraternização  Espírito  Meimei;  Colônia  A  Cruzada;  Colônia
Gordemônio;  Colônia  da  Redenção;  Colônia  Amor  e  Luz  e  algumas  outras
que vocês ainda não tiveram a oportunidade de conhecer. Sem falar daquelas
que vocês visitaram.
– Caramba, ele trabalhou bastante, não é?
–  Marques  tem  seus  auxiliares,  assim  como  vocês;  e  além  de  tudo  as
colônias estão interligadas assim como as cidades do mundo material – diz
Daniel.
– Daniel, posso lhe fazer outra pergunta?
– Sim, Nina, claro que sim!
– O fato de termos feito toda essa viagem com Débora à procura de seu
filho  durante  seu  estado  de  coma  é  algo  que  eu  ainda  não  havia
experimentado. Qual o objetivo disso?
– Débora, como todos sabem, passa por uma prova muito difícil; se nós
não  tivéssemos  feito  tudo  isso  que  fizemos  não  teríamos  introduzido  essa
experiência  no  seu  subconsciente,  provavelmente  ela  tentaria  novamente  o
suicídio.  A  misericórdia  divina  nos  permitiu  auxiliá-la  neste  momento  tão
complicado de sua encarnação atual.
–  Quer  dizer  que  quando  encarnados,  as  experiências  vividas  fora  do
corpo, nos sonhos, nas visões etc., têm relevância na existência atual?


–  Já  não  dissemos  que  nós,  os  espíritos,  influenciamos  muito  os
encarnados mesmo sem que eles percebam?
– Sim, sabemos disso – diz Felipe.
– Pois bem, podemos influenciar muito mais do que eles podem perceber
ou imaginar.
–  Ainda  bem  que  nós  só  utilizamos  a  influência  para  enriquecer  os
espíritos em sofrimento – diz Nina.
–  Sim,  minha  querida,  nós,  de  Amor  e  Caridade,  além  de  ajudarmos
aqueles  que  chegam  aqui  em  dor,  auxiliamos  aos  encarnados  em
pensamentos. Somos responsáveis por tudo aquilo que semeamos, inclusive
os pensamentos. Muitas vezes a influência muda destinos.
– Glória a Deus! – diz Nina.
–  Sim,  graças  ao  Senhor  que  permite  que  auxiliemos  a  todos  os
necessitados – diz Felipe.
– Obrigada pela paciência, Daniel.
– De nada, Nina. Agora se preparem e sigam as recomendações que lhes
dei.
– Daniel, posso lhe pedir outra coisa?
– Sim, Nina.
– Você pode fazer uma prece para a Débora? Mas antes, tem uma coisa
que muito despertou minha curiosidade.
– O que foi, Nina?
– Aquele encontro do Allan com seu pai no passeio da escola... Qual foi
o motivo daquele encontro?


–  Quem  pediu  socorro  para  João  Carlos?  Quem  foi  que  saiu  correndo
para chamar a ambulância?
– O menino, ora! – diz Felipe.
– Ajustes, Felipe, ajustes – diz Daniel.
– Mas que tipo de ajuste, Daniel?
– Por vezes precisamos ajustar pequenas diferenças que foram deixadas
para  trás  na  existência  anterior.  O  menino  Allan  simplesmente  retribuiu  o
gesto  de  amor  e  bondade  que  João  Carlos  lhe  fez  ao  dar-lhe  aquela
existência, afinal foi ele quem forneceu os elementos que proporcionaram a
vida de Allan. Se João não tivesse tido um romance com Débora, Allan não
existiria.
– Quer dizer que foi um ajuste de contas?
– Sim, Nina, um simples gesto de amor e caridade que salvou a vida de
João.
– Vai entender! – diz Felipe.
– Felipe, há muitos mistérios que nós ainda não entendemos – diz Daniel.
– Do alto de sua luz ainda existem coisas que você não sabe, Daniel?
– Muitas coisas, Nina. Pois acima de mim existem espíritos ainda mais
iluminados.
– Isso só nos mostra o quanto ainda temos que trabalhar, não é, Nina?
– Sim, Felipe, ainda temos um longo caminho pela frente.
–  Não  desanimem.  Existem  milhões  de  espíritos  em  condição  muito
inferior à de vocês.
– Ah, isso é verdade – diz Felipe.
– Daniel, você pode fazer a oração que lhe pedi? – diz Nina.


– Claro que sim, vamos orar...
Nina, Felipe e Daniel ficam de pé e se dão as mãos.
Daniel fecha os olhos e começa a proferir uma linda prece:

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