Mãe, voltei!



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Mãe, Voltei! Osmar Barbosa
Eustaquio
Ainda que a vida me mostre escuridão, há uma luz que nunca vai se apagar
em mim.
Osmar Barbosa




D
A vida em outra vida
ébora acorda atordoada e confusa. Parece que dorme acordada.
O lugar é escuro. Uma chuva fina molha seu corpo, jogado ao
chão  lamacento.  Alguns  espíritos  estão  à  sua  volta  olhando-a
fixamente. Ela então se assusta com aqueles espíritos.
– Meu Deus, que lugar é esse?! Onde estou? Socorro!
Tenta se levantar, mas suas pernas estão fracas. Sua mente está confusa,
seu corpo está molhado. Ela sente frio.
“O  que  faço  aqui?”,  pergunta  a  si  mesma,  evitando  olhar  para  os
espíritos que estão em vigília.
– Deus, me ajude! – diz ela.
Débora deixa seu corpo cair ao lembrar-se da morte de Allan. Logo, ela
se lembra dos comprimidos e da promessa que fez a si mesma.
–  Deus,  será  que  eu  morri?...  Eu  vou  te  achar  onde  você  estiver,  meu
filho – diz Débora, chorando.
–  Acordou,  desgraçada?  –  diz  uma  mulher  negra  se  aproximando.  –
Acordou, sua vagabunda, miserável! – insiste a mulher.
–  Sai  para  lá  moça,  não  a  conheço!  Com  quem  você  pensa  que  está
falando? – diz Débora.
– Com você mesma, sua suicida desgraçada.


–  Eu  não  me  suicidei,  simplesmente  estou  atrás  do  meu  filho  que  foi
covardemente assassinado lá no morro.
– Filhos assassinados não vêm para cá não, minha senhora. Só vêm para
cá porcos e gente imunda como você – insiste a mulher.
– Por que você está me tratando assim? Eu não lhe conheço e ainda por
cima não lhe fiz nada.
– Porque você tirou o que ninguém pode tirar. Você atentou contra a lei
maior.  Você  tentou  contra  a  sua  própria  vida.  Você  tentou  contra  a
oportunidade que lhe foi oferecida.
– O que foi que tirei?
Sua vida, sua vaca! Sua vida – diz outra mulher se aproximando.
– A vida é minha e faço dela o que quiser – diz Débora.
– Tudo bem, a vida é sua e blábláblá, sem problemas. Você só não vai
ficar aqui entre nós. Você entendeu? Vá para o inferno, sua desgraçada – diz
a mulher se aproximando de Débora.
Assustada  e  com  medo,  Débora  fica  de  pé.  Suas  pernas  ainda  estão
fracas e ela bamboleia sobre o frágil corpo.
Os espíritos riem de Débora.
– Vai logo embora daqui, sua porca imunda – insiste a negra.
Débora se põe a caminhar com muita dificuldade em direção a um vale
onde há árvores tortas e muita névoa. Ela está no portão de entrada do Vale
dos Suicidas.
Uma forte luz aparece e assusta a todos os que estão à sua volta.
Os espíritos que lá vivem já estão acostumados a essas visitas.


– Olha, lá vem aqueles espíritos de luz de novo – diz a negra, afastando-
se rapidamente de Débora e da luz.
Débora  leva  as  mãos  ao  rosto  como  se  protegesse  da  intensa
luminosidade que lhe ofusca a visão.
Nina e Felipe, auxiliados por um índio de estatura física enorme, surgem
e se aproximam de Débora.
– Olá, minha irmã! – diz Nina abrindo os braços e se dirigindo a Débora,
carinhosamente.
Assustada,  fraca  e  afoita,  Débora  se  aproxima  de  Nina  e  se  joga  nos
braços dela.
Débora começa a chorar, arrependida de sua atitude.
– Tenha calma! – diz Felipe, se aproximando.
– Quem são vocês?
– Somos seus amigos do mundo espiritual. Viemos aqui para lhe ajudar.
– Vocês vieram me ajudar?! Então me ajudem achar meu filho, o Allan!
Vocês são os meus anjos da guarda?
Se isso nos for permitido, sim, iremos lhe ajudar – diz Nina.
– Nós não somos seus anjos da guarda – diz Felipe.
– Que lugar maldito é esse? O que vim fazer aqui? Por que fui trazida
para cá? Será que eu morri? – pergunta Débora.
–  Acalme-se,  Débora,  vou  lhe  explicar  como  são  as  coisas  por  aqui.
Vamos nos sentar, por favor – diz Nina.
Todos se sentam sobre um gramado amarelado e marrom às margens de
um caminho que leva a uma grande muralha.
Nina então começa a falar.


– Você não se lembra da palestra que ouviu no centro espírita, Débora?
O sentido da vida é a evolução. Como nos disse nosso querido irmão Jesus –
diz Nina.
–  Creia,  teus  tesouros  estão  onde  está  o  teu  coração  –  diz  Felipe
completando o ensinamento.
–  Nessa  longa  viagem  de  aperfeiçoamento  encontramos  diversas
estações, Débora, uma delas é o Umbral – diz o Índio, se aproximando.
Nina prossegue explicando a Débora o que é o Umbral.
–  Débora,  o  Umbral  funciona  como  região  destinada  a  esgotamento  de
resíduos  mentais,  aquilo  que  juntamos  em  nosso  consciente  e  inconsciente,
entende?  O  Umbral  é  uma  espécie  de  zona  purgatorial,  onde  se  queima  o
material  deteriorado  das  ilusões  que  adquirimos  por  termos  atacado  e
menosprezado  o  sublime  ensejo  de  uma  existência  terrena.  Tudo  aquilo  de
inútil.  Tudo  o  que  nós  juntamos  para  o  nada.  Aquilo  que  nos  distancia  do
objetivo maior da Criação.
– Sim, Nina, estou entendendo – diz Débora.
– Sente-se aqui, por favor, Débora, mais perto de mim – sugere Nina.
– Sim – diz Débora sendo apoiada por Felipe, para sentar-se sobre uma
pedra mais próxima de Nina.
O  Índio  então  acende  uma  pequena  fogueira  para  iluminar  e  aquecer  o
sombrio e frio lugar.
Posso continuar, Débora?
– Sim, Nina, por favor!
– Você está se sentindo melhor? – pergunta Felipe.
– Sim, sinto uma paz inexplicável dentro de mim – diz Débora.
Nina então prossegue:


–  Débora,  vou  lhe  dar  alguns  exemplos  de  porque  somos  trazidos  para
cá: a vingança, o ódio, a inveja, o rancor, a raiva, o orgulho, a soberba, a
vaidade,  o  ciúme,  os  vícios,  a  avareza  etc.  são  os  sentimentos  que  trazem
para  cá  aqueles  que  se  habituam  a  conviver  com  eles.  O  exercício  destes
sentimentos impregna a alma que precisa ser depurada para seguir em frente.
As almas impregnadas com esses sentimentos se encontram intoxicadas e
necessitam  de  um  expurgo,  necessitam  de  uma  limpeza,  um  afastamento
dessas  que  são  as  piores  energias  que  estão  condensadas  em  nosso  ser.
Todas as pessoas se atraem por afinidades e semelhanças.
Isto  acontece  na  Terra  e  no  mundo  espiritual.  Não  tenha  dúvida  disso!
Desta  forma,  todas  as  pessoas  com  sede  de  vingança  e  ódio  acabam  se
atraindo para localizações comuns do outro lado da vida. Exatamente como é
aqui.  Deus  é  justo,  lembre-se  sempre  disso.  Você  está  compreendendo,
Débora?
– Sim, Nina.
– Posso prosseguir?
– Sim, claro.
–  Então  vamos  lá:  juntas,  as  forças  mentais  dessas  pessoas  acabam
construindo  todo  o  ambiente.  Fica  fácil  perceber  que  um  local  repleto  de
pessoas emocionalmente desequilibradas que estão unidas pelo pensamento
não é um local bonito e agradável, não é mesmo?
– Sem dúvida – diz Débora.
Nina prossegue:
– Dessa forma o Umbral nada mais é do que o reflexo dos pensamentos,
desejos  e  vontades  de  inúmeras  pessoas  semelhantes  naqueles  sentimentos
negativos  que  acabo  de  listar  acima.  Estes  sentimentos  intoxicam  a  alma  e


dificultam ou impedem que essas almas recebam ajuda de parentes, amigos,
espíritos superiores e tudo mais.
– Então, por que você veio me ajudar?
– Na verdade, estávamos em sua casa na hora em que você decidiu pôr
fim à sua vida.
– E vocês não fizeram nada?
– Fizemos sim, fizemos muito por você. Você não se lembra agora, mas
nós ficamos falando ao seu ouvido. Não faça isso! Não faça isso!
– Eu não me lembro.
– Pois é assim mesmo.
– Por que vocês estão me ajudando? Eu não me lembro de ter conhecido
vocês, e tampouco que vocês sejam meus familiares.
– Na hora certa nós iremos revelar porque estamos ao seu lado.
– Sem problemas – diz Débora.
–  Podemos  continuar  a  lhe  explicar  o  que  é  isso  aqui?  –  diz  Felipe  se
levantando.
– Perdoem-me – diz Débora.
Nina prossegue então.
–  Na  Terra  só  é  possível  ajudar  as  pessoas  que  querem  receber  ajuda,
que aceitam ajuda; e para ser ajudado, você precisa primeiro reconhecer seu
erro, conhecer-se a si mesmo. Aqui, no outro lado da vida, é a mesma coisa,
Débora. Se você sofre por ter dentro de si o sentimento de vingança, só pode
ser  curada  deste  sofrimento  se  conseguir  perceber  que  precisa  de  ajuda  e
aceitar essa ajuda. Somente nesta situação é que você consegue ser ajudada a
sair das zonas umbralinas.


– Eu quero a ajuda de vocês. Reconheço que não devia atentar contra a
minha própria vida. Eu errei – diz Débora.
– Nem tudo está perdido, confie em mim – diz Nina.
– Mas esse lugar é ainda pior do que você imagina, Débora – diz o Índio.
– Gente, esse lugar é horroroso mesmo! Isso aqui é o inferno? Por que
Deus permite que exista um lugar como esse? Foi Deus quem fez isso aqui?
– Débora, Deus nos permite tudo, Ele nos deu o livre-arbítrio. Lembre-
se sempre disso quando você pensar em Deus. Você já ouviu falar sobre isso
lá no centro espírita, não ouviu?
– Sim, o palestrante me explicou o que é livre-arbítrio.
– Pois bem. O homem tem total liberdade para fazer tudo de ruim ou tudo
de bom. Não é assim na Terra? Você pode fazer o que quiser. Você pode ser
um anjo em pessoa, mas também pode ser um demônio, não é assim aqui? –
diz Nina.
– Sim, somos livres – diz Débora.
–  Débora,  quando  o  homem  faz  ou  constrói  algo  de  ruim  acaba  se
prejudicando com isso, e aos poucos, com o passar de anos ou séculos, vai
aprendendo  que  o  único  caminho  para  a  libertação  do  sofrimento  e  da
felicidade plena é a prática do bem.
As  vidas  na  Terra  e  no  Umbral  funcionam  como  grandes  escolas  onde
aprendemos no amor ou na dor. Ninguém vai para o Umbral por castigo, o
espírito vai para o lugar que melhor se adapta à sua vibração espiritual do
momento.
– Entendi, Nina. Agora compreendo por que vim parar aqui.
– Débora, quando o espírito deseja melhorar, existe quem o ajude, não
tenha dúvida disso. Quando o espírito não deseja melhorar, ele fica no lugar


em  que  escolheu,  é  assim  o  Umbral,  é  assim  a  vida.  Todos  que  sofrem  no
Umbral,  desejando  ou  não,  um  dia  serão  resgatados  por  espíritos  do  bem,
assim  como  nós,  e  serão  levados  para  tratamento  em  colônias  espirituais,
para que melhorem e possam viver em planos de vibrações superiores.
– O que é isso?
– Isso o quê?
– Essa tal de colônia espiritual?
–  São  cidades  de  apoio  e  ajuda  para  todos  os  que  desencarnam  –  diz
Nina.
– Como assim?
– Tenha paciência que logo, logo você vai saber o que são as colônias
espirituais.
–  Deixe-me  terminar  de  lhe  explicar  umas  coisas  básicas,  antes  de
seguirmos para o próximo ponto – diz Nina.
– Perdoem-me minha angústia – diz Débora.
–  Fique  tranquila,  compreendemos  o  que  está  acontecendo  com  você
neste momento – diz Felipe.
–  Débora,  deixe-me  lhe  ensinar  uma  coisa:  os  planos  de  Deus  são
convergentes,  ou  seja,  tudo  converge  para  cima,  onde  estão  a  pureza  e  a
excelsa existência.
– Então, por que esses espíritos permanecem aqui, Nina?
– Existem muitos que ficam no Umbral por livre e espontânea vontade,
aproveitando-se  do  poder  e  dos  benefícios  que  acreditam  ter  em  seus
mundos. Assim como na Terra, onde um traficante de drogas, por exemplo,
sabe e tem consciência do mal que faz, porém aceita viver dessa forma. A
diferença no Umbral é que se tem a consciência da vida eterna e você pode


ficar ou não nessa condição. Isso só depende de sua vontade. Na verdade,
muitos espíritos não querem evoluir.
– Agradeço a vocês por estarem me ajudando – diz Débora, emocionada.
–  E  espero  sinceramente  que  eu  não  esteja  atrapalhando  vocês.  Quero
aprender muito sobre tudo isso que vocês estão me explicando.
– Estamos aqui para isso, Débora – diz o Índio.
– Esta muralha ao nosso lado... Que lugar é esse?
– Aqui é a entrada do Vale dos Suicidas. Este é um lugar muito visitado
por espíritos bons, assim como nós.
– Por quê? – pergunta Débora, curiosa.
–  Aqui  é  onde  vivem  muitos  espíritos,  os  que  mais  recebem  orações
vindas da Terra. Por isso é que constantemente eles são visitados por amigos
de luz.
– Entendi – diz Débora.
–  Nossa  missão  nesse  lugar  é  tentar  resgatar  aqueles  que  desejam  sair
daqui  por  terem  se  arrependido  com  sinceridade  do  que  fizeram.  Os
espíritos  ruins  fazem  suas  visitas  para  se  divertirem,  para  zombarem  ou
maltratarem inimigos que aqui se encontram em desespero.
Felipe interrompe dizendo:
– Existem ainda, Débora, algumas poucas cidades de drogados de porte
grande  aqui  no  Umbral.  Realizam-se  lá  grandes  festas  e  são  cidades
extremamente movimentadas – completa Felipe.
– Não podemos nos esquecer disso – adverte o Índio.
– Nina, por que essa chuva não para?
– Responda para ela, por favor, amigo Índio.


– Com prazer, Nina. – Grandes tempestades de chuva e raios ocorrem a
todo  tempo  no  Umbral,  Débora.  Essas  tempestades  têm  importante  função
aqui.
– Como assim?
–  É  por  meio  delas  que  se  conseguem  limpar  os  excessos  de  energias
negativas  acumuladas  no  solo  e  no  ar,  tornando  o  ambiente  menos
insuportável  aos  seus  habitantes.  Daí  porque  o  Umbral  e  é  um  lugar
lamacento.
– Perdoem-me, mas por que vocês estão me explicando tudo isso?
– É para que você saiba a dimensão do problema que teremos pela frente
– diz Nina.
– Tenho medo desse lugar... – diz Débora.
– Como assim? Você não quer achar seu filho, o Allan? – insiste Felipe.
– Sim, foi por isso que cometi essa loucura.
– Então, como é que nós poderemos procurá-lo sem você saber onde está
se metendo?
– Nós teremos que visitar todos esses lugares?
– Sim, Débora, nós não sabemos onde ele está.
–  Mas  vocês  são  espíritos  iluminados!  Como  assim,  não  sabem?!  –
pergunta Débora.
– Ué, por que deveríamos saber onde está seu filho? Já não lhe expliquei
que as coisas aqui se assemelham às de lá?
– Sim, você me disse isso, Nina.
–  Então,  se  as  coisas  se  assemelham,  nós,  mesmo  com  toda  a  nossa
experiência,  sabedoria  e  luminosidade,  nem  tudo  sabemos.  Muito  menos


onde está um menino que morreu assassinado – completa Felipe.
– Meu Deus! – diz Débora, levando a mão direita sobre a boca.
O que houve, Débora?
– Nada, só fiquei mais confusa ainda. Pensei que havia anjos aqui e que
esses anjos trabalhassem para nos ajudar. Anjos de Deus, sabe? É que anjos,
assim como vocês, sabem de tudo.
– Sim, nós sabemos e existem sim anjos de Deus espalhados entre nós.
Daniel mesmo é um anjo de Deus.
– Quem é Daniel?
– É o presidente da nossa colônia. Foi ele quem nos pediu para ajudar
você.
– Como assim, me ajudar?
– Débora, existe uma coisa que você tem que aprender logo.
– O que é?
– Regras. Regras. Aqui há regras que têm que ser respeitadas e seguidas.
Nós não sabemos de tudo. Ninguém sabe de tudo. Nem aqui e muito menos
quando estamos encarnados. Ele é que sabe de tudo. Só Deus sabe de tudo.
–  Tudo  bem.  Eu  sempre  fui  uma  pessoa  cumpridora  de  regras  –  diz
Débora – e já entendi. – Deus sabe e cuida de tudo, é isso?
– Sim, nós compreendemos algumas coisas, mas ainda não sabemos de
tudo.
–  Entendi,  Nina.  Posso  compreender  que  os  mistérios  de  Deus  estão
guardados com Ele. Eu só quero achar meu filho, só isso. Eu vou seguir as
regras. É só vocês me explicarem o que devo fazer, que farei com amor em
meu coração.


– Agora as coisas estão ficando melhores – diz Felipe.
– Eu não concordo – diz o Índio.
– Por que o senhor não concorda? – pergunta Débora.
– Porque você deixou de cumprir a regra básica da vida, Débora.
– Qual, seu Índio?
– Não cometer suicídio. Não atentar contra a própria vida.
Débora  se  cala  e  seus  olhos  ficam  marejados.  Nina  percebe  o
arrependimento e a tristeza que invadiram o coração de Débora.
– E você poderia deixar de ser rude com as pessoas não é, amigo Índio?
diz Nina, aproximando-se de Débora e abraçando-a.
–  Não  fui  rude,  simplesmente  falei  o  que  realmente  aconteceu.  As
pessoas  têm  que  aprender  que  nós  somos  espíritos  em  todos  os  lugares;  o
fato  de  estarmos  desencarnados  há  muito  tempo  não  nos  qualifica  para
sabermos das coisas. Muitas das pessoas se decepcionam com o espiritismo,
porque acham que nós sabemos tudo. Entram nas casas espíritas preocupadas
em  adivinhar  seu  futuro.  Imagina  se  nós,  espíritos,  soubéssemos  do  futuro
não estaríamos aqui perdendo tempo buscando nossa evolução. Sabemos que
é evoluindo que aprendemos, e é evoluindo que descobrimos novos mundos,
novas  coisas,  novas  formas  de  existência,  enfim,  novidade  só  se  consegue
evoluindo e trabalhando muito.
–  Olha,  moço,  estou  muito  arrependida  do  que  fiz.  Eu  nem  sequer
acompanhei o enterro do meu filho. Não sei onde ele está e já compreendi
que  minha  condição  atual  não  me  permitirá  encontrar  com  ele.  Fiz  o  que
ninguém pode ou deve fazer. Eu nunca fui a um centro espírita, exceto aquela
vez que fui limpar e ajudar minha amiga.
– O que você nem desconfiava é que naquele dia nós a levamos lá para
lhe preparar para o que iria acontecer – diz Felipe.


–  Ué,  mas  o  Índio  acabou  de  dizer  que  vocês  não  sabem  do  futuro!  –
exclama Débora.
– Sim, nós realmente não sabemos do futuro – diz Nina.
– Então como é que vocês sabiam o que ia acontecer com o Allan?
– À medida que evoluímos, mais informações nos são passadas. Quando
atingimos certo grau evolutivo somos convidados a auxiliar os encarnados e
os  desencarnados.  Aqui  só  se  evolui  trabalhando  muito.  Lembrem-se,  as
coisas são sempre bem parecidas aqui e lá.
– Como assim, Nina?
–  Quando  você  está  encarnado,  só  consegue  realizar  suas  conquistas
pessoais  se  esforçando  e  lutando  muito,  não  é  isso?  Tipo  se  deseja  um
melhor salário, terá que se esforçar, estudar, fazer faculdade etc. Se quer ter
um carro novo, terá que juntar dinheiro e fazer sacrifícios para realizar seu
sonho, não é assim?
– Sim, é assim – diz Débora.
– Aqui não é diferente, à medida que você evolui, mais informações lhe
são  passadas.  À  medida  que  você  estuda,  se  dedica,  vence  seus  defeitos,
supera  os  desafios  e  aceita  com  humildade,  tudo  fica  mais  claro,  tudo  fica
mais fácil.
– Agora entendi – diz Débora.
–  Que  bom  que  você  compreendeu!  Assim  são  as  coisas  de  Deus,
lembre-se sempre: Ele é justo e bom.
– Quer dizer que o fato de eu estar aqui tem um objetivo evolutivo para
mim?
– Sim, Débora, não existem acasos.
– Estou muito arrependida do que fiz. E quero lhes agradecer a ajuda.


– Mas é por isso que estamos aqui – diz Felipe.
–  Sim,  Débora,  o  seu  arrependimento  sincero  nos  permitiu  estar  aqui
para lhe auxiliar a encontrar o Allan.
– Quer dizer que vamos encontrá-lo?
– Vamos procurá-lo – diz Nina.
Débora sorri.
– Nossa, que alegria! Obrigada, Deus! – diz ela, emocionada.
– Deus é amor, Débora, amor – diz Nina.
–  Agora  vamos  começar  logo  a  procurar  esse  garoto  –  diz  o  Índio
levantando-se.  Afinal,  se  ele  não  estiver  aqui,  temos  que  ir  a  algumas
centenas de colônias para procurá-lo.
– Sim, vamos – diz Felipe.
Nina,  Felipe,  o  amigo  Índio  e  Débora  começam  a  busca  por  Allan  no
Umbral.




A
A busca no Umbral
pós  caminharem  por  dois  dias  entre  os  núcleos  do  Umbral  à
procura de Allan, Débora se sente desanimada e triste.
– Nina, será que o Allan está aqui mesmo?
–  Sinceramente,  acho  que  não,  mas  como  não  sabemos  onde  ele  se
encontra, temos que procurá-lo por todas as colônias.
–  Ouvi  o  Índio  falar  quando  estávamos  para  começar  nossa  busca  que
existem milhares de colônias... Como assim?
–  No  Brasil  não  existem  milhares,  milhares  existem  no  planeta  Terra.
Cada  país  tem  seus  núcleos  assistencialistas,  onde  todos  os  espíritos  que
desencarnam são acolhidos e auxiliados.
– Sei, Deus é amor. Isso você já me ensinou, Nina.
–  Isso  mesmo.  Sendo  Ele  amor,  todos  os  Seus  filhos  estão  assistidos
onde quer que se encontrem. Não há nenhum desencarne sem auxílio.
– Aqui no Brasil há quantas colônias?
–  Algumas  dezenas  –  diz  Nina,  desconversando.  –  Agora  vamos  até  o
portão  principal  no  lado  sul  do  Umbral.  Tenho  uns  amigos  lá  e  vou  pedir-
lhes informações sobre o Allan.
– Vamos – diz Débora.
– Vamos gente, vamos até o lado sul – diz Débora, animada.


Felipe, o Índio e o Negro, que se juntou ao grupo, seguem caminhando
pelas ruas enlameadas do Umbral.
Espere aqui, Nina – diz o Índio, pedindo a todos que parem.
– Venha, Débora, vamos nos esconder atrás daqueles arbustos – sugere
Nina.
– O que será que houve?
–  Não  questione,  obedeça  –  diz  Felipe,  puxando-as  pelo  braço  e  se
escondendo atrás de uns troncos retorcidos e secos caídos no chão.
Nina, Débora e Felipe ficam em silêncio escondidos enquanto o Índio e
o Negro ficam no meio da estrada à espera de uma comitiva de espíritos que
se aproxima.
– Alto aí, amigos! – diz o Negro.
Um  grupo  de  aproximadamente  trinta  homens,  mulheres  e  crianças  se
aproxima e para perto do Índio.
– Olá, amigo! – diz o líder do grupo, descendo de seu cavalo.
– Não queremos encrenca – diz o Índio.
– Nós só queremos passar, se o senhor permitir. Eu me chamo Alonso e
estamos em paz.
– Podem seguir, sem problemas. Mas que mal lhe pergunte, amigo, aonde
vocês pretendem chegar?
–  Estamos  fugindo  de  um  grupo  de  rapazes  que  estão  saqueando  as
aldeias ao norte.
– E vocês permitiram isso?
–  Eles  são  muitos,  são  recém-chegados  a  essas  bandas.  Não  queremos
confusão e preferimos fugir.


– Por que não pediram ajuda aos líderes do Umbral?
–  Como  dissemos,  amigo,  não  queremos  confusão,  estamos  muito
próximos de nosso resgate.
–  Está  bem  então,  amigo.  Podem  seguir  –  diz  o  Índio  se  afastando  e
abrindo o caminho para a pequena caravana.
Nina observa tudo, escondida com Débora e Felipe.
– Nina, quem são eles?
–  São  espíritos  que  estão  muito  próximos  de  serem  resgatados  aqui  do
Umbral.
– Como você sabe disso?
– Olhe fixamente para suas auras e você poderá perceber que elas estão
ficando  um  pouco  mais  claras.  Isso  indica  que  estão  próximos  de  serem
resgatados.
– É verdade. Quando fixo o olhar percebo que elas estão se modificando.
Mas por que ficaram aqui? Mulheres, crianças? Como assim?
–  Eu  não  sei  o  motivo,  provavelmente  eles  cometeram  o  mesmo  erro
juntos, e assim são mantidos até que tudo se cumpra.
– Entendo. Só não entendi a parte das crianças.
– O que você não entendeu? – pergunta o Índio, se aproximando.
– Nina estava me explicando que esse grupo de espíritos que acabou de
passar  são  espíritos  que  estão  a  caminho  do  resgate.  Eu  entendi  bem  essa
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