Mãe, voltei!



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Mãe, Voltei! Osmar Barbosa
Eustaquio

participar desse evento.
– Mamãe, você mesma me ensinou a não mentir.
– Mas isso não é uma mentira.
–  É  sim,  mamãe.  Eu  nem  me  lembro  do  rosto  do  meu  pai.  Não  tenho
nenhuma foto com ele. Não o vejo desde que era bem pequeno.
Débora  deixa  o  que  está  fazendo  e  se  aproxima  de  Allan,  secando  as
mãos  em  um  pano  de  prato.  Ajoelhando-se  perto  do  menino,  sussurra
docemente palavras carinhosas muito próximas ao seu filho.
– Meu amor, seu pai nunca quis saber de você. Você, embora tenha seu
pai vivo, é órfão de pai. Infelizmente, João Carlos só esteve um momento em
minha vida e não quer saber de você. Eu mesma já liguei para ele diversas
vezes e tentei pedir que viesse ver você, mas ele não atende ao telefone. E
quando  atende,  sempre  inventa  uma  desculpa.  Eu  até  mandei  recado  pela
Regina,  irmã  dele,  e  sua  tia,  mas  ele  disse  que  era  para  eu  e  você  nos
esquecermos dele. Quando lhe proponho que diga essas coisas na escola é
porque não quero ver você sofrendo. Mas você tem razão, diga a verdade.
Diga que você tem pai sim, mas que ele não quer saber de você. Você ainda


é  uma  criança.  O  tempo  é  o  melhor  remédio  para  todas  as  dores,
principalmente para a dor da separação, filho.
– É por isso que eu te amo todos os dias, mamãe – diz Allan abraçando
Débora.
– Por quê? – pergunta ela.
– Porque você é doce como uma uva e quente como o sol do verão.
– De onde você tirou isso, garoto?
–  Estamos  estudando  poema  lá  na  escola.  Eu  até  fiz  um  para  você.  Na
verdade, eu tinha feito um para o papai, mas como você mesma diz, é melhor
esquecer essa história.
– Me mostre então seu poema. Declame-o para mim.
– Não posso, mamãe. É surpresa.
– Sério?
– Sim, ainda não posso declamar o poema que fiz para você e para o meu
pai. Vou transformá-lo em versos só para você – diz Allan, emocionado.
– Te amo, filho! – diz Débora.
– Eu também, mamãe.
– Agora, me deixe terminar o jantar. Está com fome?
– Morrendo...
– Vá tomar seu banho, que o jantar já vai ser servido.
– Está bem, mamãe.
Allan  dirige-se  ao  banheiro  para  tomar  seu  banho.  Débora  sente  um
aperto no peito, algo estranho. Ela se apoia na pia e passa o pano no rosto.
Sente algo muito estranho. Uma dor lhe sai de dentro, rasgando-lhe a alma.


Um pensamento invade seu ser, uma sensação ruim. “Algo vai acontecer ao
Allan”, pensa ela.
– Allan! – grita ela.
– Sim, mãe!
– Venha logo jantar.
–  Já  vou,  mamãe.  Acabei  de  entrar  no  banho.  Espere  aí!  Já  estou
terminando.
Débora  sente  uma  enorme  vontade  de  abraçar  seu  filho.  Sem  que
perceba, espíritos de luz estão à sua volta. Uma jovem menina se aproxima
de Débora e lhe impõe as mãos, dando-lhe um passe fluídico que lhe acalma
o ser.
Outro espírito assiste a tudo bloqueando a porta de entrada da cozinha. O
ambiente se enche de luz e Débora finalmente se acalma.
Aproximando-se de Débora, a menina anjo lhe diz palavras de conforto
ao ouvido. Débora ouve sua voz íntima lhe dizendo para se acalmar.
– Pare de pensar coisas negativas, Débora! Isso é coisa de sua cabeça.
Deus cuida de todos os Seus filhos – ouve ela a sua voz intuída pelo anjo de
luz.
– É isso. Isso é coisa da minha cabeça. Mas essa sensação ruim que às
vezes sinto... Meu Deus, cuide bem do meu filho para que nada de mal lhe
aconteça! – diz Débora, se acalmando.
Logo  Débora  senta-se  na  cadeira  da  pequena  mesa  da  cozinha  que
acabara de arrumar, enquanto seus pensamentos são intuídos pelos espíritos
amigos.
– Vem logo, menino, a comida já está servida e vai esfriar.
– Tô indo, mãe – diz Allan, chegando ao ambiente.


–  Vem  cá,  me  deixa  dar  um  chamego  nesse  moleque  cheiroso  –  diz
Débora, puxando Allan pelo braço e lhe agarrando.
– Mãe, me deixa comer!
– Não, primeiro quero sentir seu cheiro.
– Meu cheiro é de sabonete.
– Eu quero assim mesmo, meu amor.
– Às vezes você é grudenta, mãe – diz Allan.
– Mães são grudentas, meu amor. E filhos têm um cheiro especial que só
as mães conhecem.
– Agora me deixa comer, estou morrendo de fome – diz Allan.
– Senta aqui ao meu lado – diz Débora, puxando uma cadeira.
Allan senta-se ao lado da mãe, que se põe a colocar seu prato de comida.
Eles comem feijão, arroz, batatas fritas e bife, comida predileta de Allan.
– Está boa a comida?
– Não existe comida melhor no mundo! – diz Allan.
– Que bom que você gosta da minha comida!
Eu amo a sua comida, mamãe.
– Assim que acabar de comer, coloque uma camisa, o tempo parece que
vai virar. E não se esqueça de escovar os dentes.
– É... Está estranho, não é, mãe?
– Sim, acho que vamos ter um temporal.
– Mãe, deixa eu contar uma coisa: você se lembra de que lhe falei que
estamos organizando um evento na escola?
– Sim, dos versos...


– Na verdade, estamos estudando muito, e além dos poetas brasileiros,
também  estamos  estudando  nossa  música,  artes  em  geral,  história  natural  e
antropologia.  A  professora  nos  deu  a  ideia  de  fazermos  um  passeio  até  o
museu da Quinta da Boa Vista. Na verdade, é para passarmos o dia lá nos
divertindo e aprendendo. Eu posso ir?
– Claro, filho! Claro que sim. Quando será?
– No próximo mês.
– Tem que pagar alguma coisa?
– Não, mãe. Ela conseguiu com uma instituição de caridade o transporte
e o lanche para toda a nossa turma.
– Olha que bom, ainda tem muita gente boa neste mundo,  filho?
– Sim, é o pessoal de uma instituição que ajuda muita gente.
– Que bom, filho! Finalmente você vai conhecer um lugar muito legal.
– Você conhece o museu, mamãe?
– Sim, estive lá uma única vez, e é realmente muito legal.
– Ah, entendi – diz Allan.
–  Então,  quando  acabar  de  comer,  vou  pegar  a  autorização  que  está  na
minha  mochila  para  você  assinar  –  diz  Allan,  abocanhando  um  pedaço  de
bife.
–  bom, filho.
– Outra coisa, mamãe...
– Sim.
– ... meu aniversário está se aproximando, você sabe, ?
– Sim, meu amor, no mês que vem você faz quinze anos.  ficando um
rapazinho.


– Pensei em convidar alguns amigos para comermos uma pizza aqui em
casa, o que você acha?
– Sem problemas, você só não pode convidar muita gente; nosso barraco
é pequeno, você sabe, ?
– Sim, mãe. Serão só alguns amigos da minha sala de aula.
–  Fique  à  vontade,  só  me  avise  quantos  são  para  que  eu  possa  me
organizar.
– Está bem, mamãe. Te amo!
– Eu também, filho. Agora termine de jantar e vá escovar os dentes.
Pode deixar, “dona Débora” – diz Allan, sorrindo.



A
O encontro
llan acorda mais cedo, e após tomar seu banho, senta-se à beira
da cama para conversar com Débora que ainda está deitada.
– Bom dia, mamãe!
– Você já está arrumado?
– Sim, hoje é o dia do passeio no museu, lembra?
– Sim, claro que sim. Poxa, quase esqueci.
– Temos que chegar um pouco mais cedo para não perder o ônibus.
–  Eu  já  fiz  seu  café  e  preparei  um  sanduíche  que  coloquei  em  sua
mochila, tem vinte reais em sua carteira; se você sentir fome, compre alguma
coisa lá.
– Pode deixar, mamãe.
– Outra coisa: a que horas vocês vão voltar?
– Chegaremos à tarde, acredito que lá pelas três horas.
– Você sabe que eu não vou estar em casa, ?
– Sim, mãe, fique tranquila; eu vou ficar aqui na vila com meus amigos.
– Está bem. Sabe que não pode ir para o lado de lá, ? – diz Débora,
apontando para o outro lado da comunidade que infelizmente é dominada por
traficantes de drogas.


– Sei sim, mamãe, não vou para o lado de lá. Pode deixar!
–  Então  vá  e  aproveite  para  aprender  bastante  coisa,  depois  me  conta
como foi.
– Tchau, mãe. Te amo!
Após tomar seu café e comer um pedaço de pão, Allan deixa sua casa e
segue para a escola; logo se encontra com seus amigos e professores e todos
seguem felizes para o passeio escolar.
Após  algumas  horas  no  trânsito  finalmente  eles  chegam  ao  museu  e
começam o passeio.
João Carlos e seu amigo Neto estão realizando obras de manutenção no
lugar.  Neto  logo  percebe  a  comitiva  de  crianças  e  professores  se
aproximando do local em que estão e comenta:
– Olha lá, João, são crianças da comunidade em que você morava.
– É, são mesmo! São da escola lá da comunidade.
– Quem sabe seu filho não está no meio dessa turma!
–  Mesmo  que  esteja,  nunca  vi  a  cara  desse  garoto.  Nem  sei  como  ele
possa estar agora. Faz uns oito anos que não vejo o menino.
– Eu tinha me esquecido desse detalhe – diz Neto.
– São crianças bonitas, olhe aquela menina ali, de cabelos negros.
– Sim, são bonitos e estão todos bem vestidos, nem parece que moram
em lugar tão pobre.
Allan  e  Vinícius  se  aproximam  de  João  Carlos  e  Neto,  seu  auxiliar,  na
empreitada.
– Moço, onde fica o museu? – pergunta Allan a seu pai.


–  Fica  naquela  direção,  está  vendo  aquele  prédio  lá  embaixo?  –  diz
João, apontando com o indicador.
– Sim, senhor.
– É lá o museu.
– Obrigado, senhor – diz Allan, se afastando.
Algo  acontece  dentro  do  peito  de  João,  ele  sente  uma  angústia  nunca
antes  sentida.  Neto  percebe  que  o  amigo  não  está  bem  e  se  aproxima  para
ampará-lo.
O que houve, homem?
–  Não  sei,  não  estou  me  sentindo  bem  –  diz  João  amparando-se  no
amigo.
Allan olha para trás e vê que João está se sentindo mal. Imediatamente
ele volta e corre em direção a João querendo auxiliá-lo.
Neto e Allan amparam João, que se sente mal.
– Menino, corre lá no posto médico e peça ajuda, por favor!
– Onde é que fica isso, senhor? – pergunta Allan.
–  Naquela  direção  –  diz  Neto,  mostrando  o  caminho  a  Allan  que
imediatamente corre para pedir ajuda.
Logo Allan e uma ambulância chegam ao lugar onde João está deitado,
rodeado de curiosos.
Allan se aproxima enquanto os primeiros socorros são prestados.
João  é  colocado  em  uma  maca  para  ser  transferido  para  um  hospital.
Allan se aproxima para olhar o mais novo amigo.
–  Menino,  obrigado  por  você  ter  me  ajudado  –  diz  João,  meio
inconsciente.


– De nada, senhor.
– Qual é seu nome, meu rapaz?
– Me chamo Allan.
Imediatamente João desmaia com a emoção de ouvir o nome do menino.
Ele pensa que Allan pode ser o seu filho.
Imediatamente  os  enfermeiros  colocam  João  na  ambulância,  que  sai
rapidamente levando para o hospital o paciente João.
– Ei, menino! – diz Neto.
– Sim – diz Allan se aproximando.
– Qual é mesmo seu nome?
– Allan, senhor.
– Me perdoe perguntar, mas quem são seus pais?
– Minha mãe se chama Débora.
– E seu pai?
– Meu pai se chama João Carlos, mas eu não o conheço, ele me deixou
quando eu ainda era bem pequeno.
Neto fica gelado e sem ação. Pensa que não tem o direito de revelar o
ocorrido e se cala.
– Parabéns por você ter ajudado o meu amigo!
– O que houve com ele, senhor?
– Eu não sei – diz Neto.
– Ele não vai morrer não, ?
– Não, acho que foi só um mal-estar, apenas isso.


– Que bom, me dá licença, senhor! Agora tenho que me encontrar com os
professores.
– Vai rapaz, e mais uma vez obrigado.
– De nada, senhor.
Neto é amigo de João há muitos anos; eles trabalham na mesma empresa.
Embora  distante,  sempre  que  pode  e  tem  oportunidade  João  pergunta  por
Débora e Allan. Quis o destino que eles se encontrassem novamente, agora
em situação bem diferente. Neto fica impressionado com os acontecimentos
e pede licença ao supervisor da obra para ir até o hospital saber notícias do
amigo.
Após terminar o passeio todos se dirigem de volta à comunidade em que
moram. Allan chega à sua casa, e após tomar banho fica brincando com os
amigos nas ruas próximas. Logo Débora o encontra e ambos se dirigem para
o descanso do dia.
– Oi, filho!
– Oi, mãe!
– Como foi o passeio?
–  Foi  legal,  muito  legal.  Conheci  e  aprendi  coisas  incríveis.  Sabe,
mamãe, agora eu quero visitar outros museus e conhecer um pouco mais de
nossa  história.  Lá,  não  tinha  muitos  poetas,  mas  vou  descobrir  onde  eles
ficam, e se você puder, me leva,  mãe?
–  Sim.  Descubra,  que  eu  levo  você,  filho.  Mas  me  conte,  você  gostou
mesmo da Quinta da Boa Vista?
– Amei, mamãe, amei!
– Que bom, meu filho! Que bom que você gostou!


–  Mãe,  você  sabia  que  as  pessoas  passam  o  dia  lá  na  Quinta  da  Boa
Vista?
– Sim, meu filho! Eu mesma já fui lá uma vez, como lhe disse!
– Com quem você foi?
– A única vez foi com seu pai, quando ainda éramos namorados.
– Eu gostei muito de lá.
– Que bom, filho! Você lanchou?
– Sim, comi o sanduíche que você me fez. Mas a escola também levou
lanche para todos nós.
– Ah, que bom! Então você não está com fome.
– Agora estou, sim.
Vamos para casa, que vou preparar um lanche.
– Vamos, mamãe.
Após alguns metros...
– Mãe.
– Sim.
– Aconteceu uma coisa muito estranha hoje lá no passeio.
– O que houve?
– Um homem passou mal e eu ajudei a socorrê-lo.
– É, meu filho, que legal!
– Sim, eu pedi uma informação a ele, daí quando eu ia me afastando ele
começou a passar mal e pediu a minha ajuda.
– E o que você fez?


– Chamei os bombeiros, que vieram com uma ambulância e socorreram-
no.
– Muito bem, Allan! Parabéns!
– Mas eu achei uma coisa muito estranha com aquele moço.
– O que você achou estranho?
– Sei lá, algo que não sei explicar.
– Como assim, Allan? Tente me explicar.
– O rosto dele.
– O que você viu no rosto dele?
– Me pareceu familiar, sei lá. Parece que eu o conheço de algum lugar.
–  Quem  sabe  você  não  conhece  mesmo,  ?  Afinal,  vivemos  em  uma
comunidade onde há milhares de moradores.
– É, pode ser isso, pode ser que ele seja morador daqui ou que eu já o
tenha visto em algum lugar.
– Deve ser isso, meu amor.
– Mas o estranho é que não consigo esquecer o rosto dele. Isso é que está
me deixando encucado.
– Ele lhe fez alguma coisa?
– Não, mãe, claro que não! Ele simplesmente passou mal na minha frente
e me pediu ajuda, foi só isso.
– Você deve ter ficado impressionado com a situação, logo isso passa.
– É... isso passa – diz Allan.
Agora vamos, você deve estar morrendo de fome.
– Estou mesmo.



A luz divina
– Bom dia, Allan! – diz Débora acordando o menino.
– Puxa, mãe, estou tão cansado hoje! Eu posso faltar à aula?
–  Claro  que  não,  seu  preguiçoso.  Levanta  logo.  Eu  já  estou  pronta  e
esperando você.
Allan se levanta contrariado e troca de roupa para seguir junto com sua
mãe para a escola.
– Você já está pronto, Allan?
– Sim, mamãe, só me falta escovar os dentes.
– Deixa-me dizer-lhe uma coisa – diz Débora, aproximando-se da porta
do banheiro onde Allan põe cuidadosamente a pasta na escova.
– Hã! – balbucia o menino.
– Hoje vou chegar um pouco mais tarde em casa. Vou trabalhar na casa
da  dona  Vera  durante  todo  o  dia,  e  à  noite  ela  me  pediu  para  servir  seus
convidados; é que haverá uma reunião no centro espírita a que ela pertence.
Ela vai inaugurar um espaço na rua dela. É uma reunião de espiritismo, não
sei a que horas vai acabar, mas ela me prometeu uma carona até aqui perto
de casa. Disse que tem uma amiga que pode me dar a carona. Quando você
chegar da escola não quero que fique na rua. Venha para casa. A janta já está
pronta dentro da geladeira. É só esquentar e comer.


–  bom, mãe. Fique tranquila.
– Você ouviu bem o que eu lhe disse? Não quero você na rua, ouviu?
– Ouvi, mamãe, ouvi. É por causa dos tiros?
– É claro , Allan! Todos os dias agora a polícia sobe o morro metendo
bala nesses desocupados que nada têm a perder.
– É, mamãe, infelizmente a coisa está cada dia pior aqui. Eu sonho me
tornar engenheiro, ganhar muito dinheiro e tirar você daqui.
– Deus vai me permitir juntar um pouco mais de dinheiro e logo sairemos
daqui,  meu  filho.  E  quanto  a  ser  engenheiro,  saiba  que  para  isso  você  tem
que estudar bastante.
– Mamãe, esses marginais não mexem com a gente.
–  O  problema  não  são  os  moradores  daqui,  o  problema  é  quando  a
polícia vem aqui.
– Mãe, é só a gente não ficar de bobeira que tudo vai ficar bem. Agora
vamos, que eu já estou atrasado para a escola.
– Vamos! – diz Débora.
Após deixar Allan na porta da escola, Débora pega o ônibus que a deixa
próximo à casa de Vera.
– Bom dia, dona Vera!
– Bom dia, Débora! E por favor, não me chame de dona. Eu já lhe pedi
isso várias vezes.
(Risos)
– Desculpe-me, senhora.
– Também não me chame de senhora. Chame-me de Vera, é o suficiente.
–  bom, Vera.


– Olha, Débora, limpe a casa e organize-se para hoje à noite. Como eu já
havia conversado com você, preciso servir os convidados na inauguração da
casa espírita. E conto com você para me auxiliar.
– Pode deixar. Pode contar comigo. Eu já deixei tudo organizado com o
Allan em casa.
– E como está ele?
– A cada dia mais lindo.
–  Realmente,  seu  filho  é  lindo  –  diz  Vera.  –  Você  trouxe  o  avental  que
pedi?
– Sim.
–  Eu  vou  ao  mercado  comprar  algumas  bebidas  e  legumes,  mais  tarde
conversaremos sobre seu pagamento.
– Sim, sem problemas, Vera.
– Até logo, Débora!
– Pode deixar que quando você chegar vai estar tudo organizado e bem
limpinho.
–  Quando  eu  chegar  nós  vamos  lá  na  casa  espírita  fazer  a  limpeza  e
preparar tudo para o encontro de hoje à noite.
– Está bem, Vera, vou ficar esperando por você.
O  dia  passa  rapidamente  e  Vera  recebe  os  convidados  especiais  na
inauguração  da  pequena,  mas  confortável  casa  espírita,  a  única  do  bairro
nobre na Zona Sul do Rio de Janeiro.
Débora, arrumada com um lindo avental azul-claro, serve os convidados
antes da palestra inicial.


Todos  estão  alegres  e  felizes  com  o  acontecimento.  Débora  se  sente
acolhida e feliz no ambiente de harmonia e amor. Dentro de si ela se sente
surpresa,  pois  consegue  ver  que  tudo  o  que  lhe  haviam  falado  sobre
espiritismo cai por água abaixo, quando percebe a gentileza e o amor com
que todos a tratam. Ela se sente feliz.
O  palestrante  convidado  acaba  de  chegar.  Homem  renomado  e  um  dos
divulgadores mais importantes da doutrina dos espíritos, recebe o carinho e
as  homenagens  de  todos  os  presentes.  Humildemente,  o  senhor  de
aproximadamente  setenta  anos  toma  Débora  pelas  mãos  e  agradece  a
gentileza quando ela lhe serve um pequeno sanduíche natural feito por Vera e
ela durante o dia.
Todos estão emocionados com a ilustre presença.
O médium palestrante se põe de pé e convida todos a se sentarem para
que possa proferir algumas palavras.
Débora,  então,  pega  e  pequena  bandeja  que  serve  aos  convidados  e
começa  a  se  retirar  em  direção  à  cozinha,  quando  é  questionada  pelo
convidado especial, que fala ao microfone:
– Senhorita, onde é que você pensa que vai?
Vou para a cozinha, senhor – diz ela, humildemente.
–  Então  hoje  faremos  a  primeira  palestra  espírita  na  cozinha  de  um
centro espírita – diz o humilde palestrante.
Todos riem.
Débora fica encabulada e com muita vergonha, afinal ela é o centro das
atenções.
Humildemente, mais uma vez, o jovem senhor se encaminha em direção a
ela e a convida a sentar-se ao seu lado.


– Senhor, eu lhe agradeço o convite, mas não sou espírita – diz Débora.
– Jesus não pregava nos templos e tampouco só para cristãos. A palavra
de  Deus  só  é  útil  quando  se  coloca  ao  dispor  dos  mais  humildes.  Se  a
senhorita não se importa, gostaria que fosse minha convidada desta noite –
disse o palestrante.
Vera  olha  seriamente  para  Débora  como  se  lhe  advertisse  para  não
recusar o convite.
Todos se calam e sentam-se para ouvir o ensinamento do grande orador.
Envergonhada,  Débora  senta-se  ao  lado  do  palestrante  depois  de  ter
entregue  a  bandeja  que  estava  em  suas  mãos  a  Vera,  que  rapidamente  a
encaminhou para a cozinha, auxiliada por Magali que assistia a tudo muito
impressionada.
O nobre convidado começa a falar:
–  Jesus  pregava  aonde  suas  palavras  podiam  alcançar  aqueles  mais
necessitados de conforto e ensinamentos em seus corações. É entre os mais
humildes que encontramos o verdadeiro amor. É entre os mais necessitados
de  luz  que  devemos  pregar.  Em  uma  casa  como  esta,  se  não  for  permitido
pregar  para  você,  menina,  não  terá  sentido  ter  sido  criada.  Pois  aonde  há
trevas  é  que  devemos  espalhar  a  luz.  Aonde  há  ignorantes  é  que  devemos
evangelizar.  Nós,  espíritas,  somos  semeeiros.  Aquilo  que  espalhamos  se
reverte  em  luz  em  nosso  caminhar.  Se  me  permites,  sente-se  aqui  ao  meu
lado, pois tenho algumas coisas para lhe ensinar.
Imediatamente  Vera  se  aproxima  e,  tomando  as  mãos  de  Débora,  a
conduz a sentar-se ao lado do ilustre médium e palestrante.
Acanhada e sem muito jeito, Débora aceita o convite e senta-se ao lado
do orador que começa sua palestra.
– Boa noite a todos! Encarnados e desencarnados!


Todos já se encontram sentados e em silêncio.
– Todos nós estamos aqui neste plano espiritual por algum motivo. Como
todos sabem, não há acasos nas coisas de Deus. Participamos de encontros e
desencontros, de chegadas e partidas. Um filho, um pai, um irmão, uma irmã,
um familiar, está ligado a nós por algum motivo. Todos nós estamos ligados
uns  aos  outros  por  algum  motivo.  O  seu  problema  não  está  na  casa  do
vizinho,  muito  embora  os  vizinhos  façam  parte  de  sua  evolução.  Seu
problema está dentro do seu lar. É lá que estão os ajustes. É lá que tens que
superar  as  diferenças  e  divergências  diárias.  Somos  todos  guiados  e
orientados por espíritos amigos, quando de boas ações e bons pensamentos
desfrutamos. Tudo o que desejas será seu se assim lhe for de merecimento e
permitido.  Quando  teus  pensamentos  estão  em  perfeita  harmonia,  assim
também estará a tua vida. És reflexo de tuas ações e atitudes. O universo está
e estará sempre conspirando para a tua felicidade. Quando desarmonizas a
tua  mente  logo  tudo  se  reflete  em  tua  vida.  É  assim  que  evoluímos.  É  por
meio das conquistas que trabalhamos o nosso ego e por meio das perdas que
aprendemos  a  sermos  mais  humildes.  A  humildade  é  o  atalho  para  a
felicidade plena. Ele quer que seja assim. Ele desejou que tudo seja assim, e
assim será por toda a eternidade.
Somos  sabedores  das  dores  que  causamos  em  nós  mesmos  quando
atentamos contra as coisas de Deus. Se tu tens uma vida, essa vida lhe foi
concedida pelo amor divino, e contra ela tu não podes atentar. Se tens saúde,
agradeças; se perdes um ente querido, saiba que não há perdas para um Deus
de amor. A vida é eterna, temos que acreditar que quem vos criou não vos
criou para morrer, se assim o fosse ele não poderia ser chamado Deus.
O  que  há  são  separações  momentâneas,  temporárias.  Separações
necessárias  ao  equilíbrio  de  todos.  A  dor  da  distância,  a  saudade,  nos
amadurece  e  nos  faz  refletir  as  coisas  de  Deus.  Existe  sim  a  continuidade.
Tudo  se  recria,  tudo  se  reinventa,  tudo  é  eterno,  nada  se  perde.  No  mundo


espiritual existem cidades, vilas, casas, bairros, teatros, cinemas, enfim, tudo
o  que  for  necessário  para  tua  continuidade  evolutiva;  creia,  isto  é
verdadeiro.  Muitos  me  perguntam:  então  por  que  ninguém  voltou  para
contar? Olha, se todos tivessem a certeza de que a vida continua, na primeira
dificuldade todos meteriam uma bala na cabeça, nas primeiras dificuldades
cometeriam suicídio. Imagine perder um filho, perder um pai, uma mãe, um
irmão. Imagine se todos aqui presentes tivessem a certeza da eternidade; no
primeiro  momento  de  saudade,  logo  meteriam  uma  bala  na  cabeça,  ou  se
jogariam  de  um  prédio.  A  dúvida  é  o  elemento  mantenedor  da  vida.  A
incerteza  é  necessária  à  preservação  da  vida.  Todos  nós  temos  dentro  do
peito uma enorme dúvida, mas todos nós também temos uma enorme certeza;
não  devemos  atentar  contra  a  própria  vida.  E  é  isso  que  nos  mantém
evoluindo, pois a dor é um dos instrumentos da evolução.
Quando  deixarmos  nosso  corpo  físico,  continuaremos  como  somos  em
nossa essência. Aquilo que construímos diariamente ao suor de nossas dores
jamais se perderá. Tudo o que aprendes te será útil na vida eterna. As coisas
boas ficam gravadas em nosso ser, as ruins são esquecidas e apagadas, pois
que não servem para nada na erraticidade.
Existem,  como  disse,  cidades,  lugares  em  outras  dimensões,  em  outras
galáxias,  em  outros  mundos  que  chamamos  de  mundos  paralelos  ou
dimensões  paralelas.  Acredite,  existe  isto  sim.  Logo,  todos  nos
encontraremos nas vidas que se seguem para o objetivo maior. A evolução
plena.
Todos  assistem  à  palestra  sem  piscar.  Débora  assiste  a  tudo  muito
assustada.  As  palavras  daquele  senhor  parecem  penetrar-lhe  a  alma,  e  ela
fica quieta, sentada e reflexiva. Ela se lembra da dor que às vezes sente. Ela
se lembra dos pensamentos negativos relacionados ao seu filho.
Vários mentores espirituais chegam ao ambiente, que se torna ainda mais
sereno e calmo.


Alguns  espíritos  são  trazidos  por  amigos  da  espiritualidade  para
assistirem  à  palestra  e  recuperarem  o  tempo  perdido  nas  encarnações
anteriores.  Alguns  chegam  assustados,  outros  são  familiares  dos  que  estão
naquele exato momento assistindo à palestra. A emoção toma conto do lugar.
Algumas pessoas começam a chorar sem saber por quê.
Logo, aqueles parentes que são trazidos são levados até as fileiras e lhes
soa permitido abraçar seus familiares.
Mães  abraçam  filhos.  Filhos  abraçam  mães.  Irmãos  abraçam  irmãs.
Todos estão extremamente emocionados.
O palestrante percebe a chegada de espíritos de luz e se emociona. Mas
se mantém focado na palestra proferida com amor.
Lucas,  um  dos  espíritos  iluminados  que  chegam  ao  centro  espírita,  traz
consigo uma mãe que veio abraçar sua filha enquanto todos prestam atenção
à palestra.
Noeli  se  aproxima  de  sua  filha,  ajoelha-se  e  abraça  carinhosamente
Lucimar,  que  percebe  algo  diferente  em  seu  coração  e  começa,  junto  com
Noeli, a chorar.
Logo  Lucas,  aproximando-se  de  ambas,  estende  suas  mãos,  irradiando
feixes de luz para abrandar os corações saudosos e em dor.
– Não chores, Noeli – diz o iluminado Lucas.
– A saudade que tenho em especial desta filha é muito grande. Oh, meu
Deus, permita que minha amada filha continue a frequentar este lugar de luz e
que esta luz entre em seu ser, tornando-a um espírito iluminado.
– Que assim seja! – diz Lucas.
– Irmão Lucas, ore por minha filha.


– Olha, Noeli, sua filha foi trazida aqui hoje, porque suas preces foram
ouvidas. E ainda por cima, lhe foi permitido este encontro. A justiça divina
está  presente  a  todo  o  momento  em  nossas  vidas.  Na  vida  terrena  ela  está
ainda mais presente, pois quando encarnados, nós somos cobertos pelo véu
das incertezas. Isso é o que nos faz seguir em frente. Sua filha recebe hoje
uma linda e generosa oportunidade, vamos nos manter em oração para que
ela  seja  forte  em  seu  propósito  religioso  e  que  nunca  desista  de  auxiliar  a
seu  semelhante,  e  finalmente  que  ela  consiga  vencer  as  vaidades  e  os
desafios que toda fé necessita para se fortalecer.
–  Que  assim  seja,  meu  querido  Lucas.  Eu  tenho  muito  a  agradecer  aos
nossos amigos superiores que me permitiram estar neste encontro de luz.
O palestrante pede a todos que se levantem para proferirem, juntos, uma
prece.
Os espíritos de luz se aproximam do convidado e estendem-lhe as mãos.
Todos ficam de pé. A prece começa:
Senhor Deus, estamos aqui hoje reunidos em Seu nome.
Venho  Lhe  pedir  que  emoldure  as  paredes  deste  humilde  templo  com
luzes de misericórdia e amor. Peço-Lhe que permitas aos espíritos de luz que
tomem  este  lugar  para  si,  e  que  aqui  seja  estabelecida  uma  seara  do  bem
onde  a  vaidade,  o  orgulho  e  a  intolerância  jamais  consigam  adentrar  o
pensamento e as atitudes dos membros e representantes desta que é uma casa
de amor.
Lembro-me  de  Seus  ensinamentos  que  nos  foram  trazidos  por  nosso
amado  irmão  Jesus.  Lembro  a  todos  aqueles  que  assumem  a
responsabilidade  de  serem  representantes  da  caridade  que  nosso  querido
irmão se valeu da pobreza e da simplicidade para atingir milhões de almas.
As  portas  desta  casa  hoje  se  abrem  para  que  a  luz  que  está  neste
momento  dentro  dela  irradie-se,  atingindo  almas  aflitas,  corações


angustiados e todos aqueles que necessitam de compreensão, luz, paz e amor.
Hoje eu declaro, em nome de Jesus, inaugurada mais uma seara de amor
e  caridade.  Jesus,  eu  lhe  peço  que  esses  irmãos  de  luz  que  se  encontram
presentes continuem a reger e iluminar as mentes que darão continuidade a
esta que é, sem dúvida, uma casa de amor.
Meus  irmãos  e  minhas  irmãs,  a  responsabilidade  depositada  sobre
vossos ombros hoje é tamanha. Não se brinca com espíritos, muito menos se
brinca  com  sentimentos.  Muitos  são  aqueles  que,  despreparados,  tentam
estabelecer  casas  espíritas  cheias  de  amor,  mas  sem  o  conteúdo  mais
importante para o sucesso da caridade.
Uma casa espírita precisa de três coisas para atender aos propósitos de
Deus.
A  primeira  é  a  sinceridade;  a  segunda,  a  transformação  moral  de  seus
representantes e frequentadores; e a terceira é a mais importante de todas, o
amor.
Sem  amor  nada  somos,  sem  amor  nada  conquistamos,  sem  amor  não
vamos  a  lugar  nenhum.  Sem  amor  somos  potes  vazios,  somos  ostras  sem
cascas, somos corpos vazios.
O amor é o objetivo maior desta encarnação, viemos aqui para aprender
a amar; viemos aqui, porque o amor é o único sentimento que nos aproximará
de nosso Pai.
Que Deus abençoe esta casa! Que Deus lhes permita a caridade.
Termino minhas palavras com o maior de todos os ensinamentos que nos
foi  trazido  pelo  nosso  querido  mestre  Jesus,  o  ensinamento  de  todo
trabalhador espírita.
Quando, em Mateus 11:28-30 Jesus nos diz


“Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos
aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso
e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque o meu
jugo é suave, e meu fardo é leve”,
Ele quer nos dizer para deixarmos sempre a porta da casa espírita aberta
para que aqueles que estão cansados e sobrecarregados possam encontrar o
alívio de que tanto necessitam para suas vidas. Ele nos pede para tomarmos
Sua palavra e explicá-la de forma clara e objetiva, sem dogmas, alegorias e
rituais desnecessários à evangelização de todos e por fim, Ele nos pede que
sejamos  humildes,  pois  é  pela  humildade  que  encontraremos  o  repouso  de
nossa  luta,  a  paz  de  nossa  alma  e  a  compreensão  da  verdadeira  luz  da
verdade.
Todos  aplaudem  ao  orador,  emocionados.  Débora  sente  novamente  um
aperto no peito. Aquele que ela está acostumada a sentir quando está perto
de Allan. Isso a deixa incomodada.
O orador se aproxima de Débora e lhe abraça dizendo:
– Não se turbe o vosso coração, credes que há muitas moradas na casa
do  Pai.  Você  vai  passar  por  uma  prova  muito  grande,  não  desista.  Siga
sempre com Jesus em seu coração. A vida não termina com esta vida.
Débora, emocionada e chorando, abraça o querido palestrante.
É  uma  mistura  de  sentimentos.  Saudade  dos  pais,  saudade  do  filho  e  o
medo de que algo de ruim lhe aconteça.
Vera se aproxima e abraça Débora, carinhosamente.
Todos se abraçam, e oficialmente aquela casa espírita é inaugurada.
Após o coquetel, todos voltam felizes para suas casas.
Débora é levada por Julia, vice-presidente da mais nova casa espírita. E
finalmente chega em casa.


Antes de dormir, Débora fica refletindo sobre as palavras daquele velho
e sábio senhor.
“Que homem sábio!”, pensa ela.


D
A vida que segue
ébora se dirige ao quarto de Allan e já o encontra acordado. Ela
estranha o menino estar reflexivo.
– Bom dia, meu amor!
– Bom dia, mamãe!
– Já trocou de roupa tão cedo? Por que está com essa cara?
– Hoje, quero chegar cedo à escola, tenho que realizar uma tarefa com
meus colegas. E ela é muito importante para mim.
– Do que se trata?
– Temos que fazer um trabalho de história para entregar ainda hoje.
– Que bom, filho! Vou me trocar e deixo você na escola.
–  bom, mamãe.
–  Sábado  será  seu  aniversário,  você  quer  fazer  alguma  coisa  em
especial?
– Vou a uma pizzaria com meus colegas, combinamos lanchar lá e depois
voltaremos para casa, vamos assistir a um filme aqui. A Michele vai trazer o
aparelho de DVD e os filmes.
– Qual é o presente que você quer? Afinal, são quinze anos, e eu quero
lhe dar o melhor presente do mundo, embora, como você sabe, nós não temos


muito dinheiro.
– Ah, mamãe, não precisa se preocupar com isso. Guarde seu dinheiro
para  no  Natal,  poderemos  ir  visitar  o  vovô  e  a  vovó,  estou  com  muita
saudade deles e da minha tia.
– É isso que você prefere?
– Sim, mãe. É isso que eu gostaria de ganhar de presente de aniversário.
– Está bom, meu filho, então ficamos combinados assim: eu vou guardar
nosso dinheiro para passarmos o Natal com seus avós.
– Ótimo então, mamãe. Obrigado!
–  Te  amo,  Allan.  Mas  vou  comprar  uma  roupa  nova  para  você  usar  no
sábado.
–   bom,  mamãe.  Eu  também  te  amo.  Agora  tenho  que  ir,  já  estou  me
atrasado.
– Espere-me, vamos juntos – diz Débora, pegando sua bolsa e fechando a
janela da pequena casa.
Após deixar Allan na porta da escola, Débora segue para mais um dia de
trabalho em sua rotina de diarista. Depois de se despedir de Allan e entrar
no ônibus, Débora sente aquele aperto no peito; algo parece não estar bem
dentro dela. Ela então se lembra das palavras do palestrante da casa espírita
que  dizia  não  existir  acasos  nas  coisas  de  Deus.  Mas  essa  angústia,  o  que
será?  Como  explicar  essa  dor  que  invade  seu  peito?  De  onde  vem  essa
angústia?
A  paisagem  se  perde  em  seu  olhar,  e  Débora  fica  triste.  Algo  não  está
bem.
Logo ela chega à casa de Vera.
– Bom dia, Vera!


– Bom dia, Débora, como vai?
– Eu estou bem e a senhora?
– Estou ótima, mas combinamos de não me chamar de senhora, lembra-
se?
– Sim, perdoe-me – diz Débora.
– Como está o Allan?
–  Está  bem  e  feliz.  No  próximo  sábado  ele  vai  fazer  quinze  anos.  Está
ficando um rapazinho.
–  Parabéns!  Você  realmente  é  uma  pessoa  que  muito  me  surpreende.
Criou sozinha o seu filho, que é um belo rapaz.
– Obrigada, Vera. Obrigada!
– Como ele está na escola?
–  É  um  dos  melhores  alunos.  Ele  tira  excelentes  notas  em  todas  as
matérias.
– Que bom, e o que ele sonha fazer? Que faculdade?
– Ele gosta muito de coisas relacionadas a obras. Parece com o pai.
– E o pai dele tem procurado vocês?
– Nunca mais vi aquele homem. Nem sequer quer saber do menino.
– Um dia as coisas se encaixam. É assim mesmo.
– Eu já nem ligo mais. Ele é que de vez em quando pergunta pelo pai.
Dia desses ao fazer um passeio da escola, acho que ele encontrou o pai dele.
– Eles se falaram?
– Nada. O Allan nem sequer conhece a cara do pai.
– Então por que você acha que era o pai dele?


– Algo dentro de mim me disse que eles se encontraram. Coisa de mãe,
você sabe.
– Sim, nós, mães, temos essa coisa de pressentimento – diz Vera.
– Vou confessar uma coisa a você: hoje mesmo, quando eu estava vindo
para cá, senti uma angústia que vem me acompanhando já faz algum tempo.
Sabe, uma coisa estranha dentro de mim.
–  Nós,  espíritas,  explicamos  isso  como  mediunidade.  O  médium  tem  o
poder  de  pressentir  os  acontecimentos;  na  verdade,  isso  é  um  tipo  dentre
vários tipos de mediunidade. Podemos pressentir as coisas, sejam elas boas
ou ruins.
– Deus me livre, Vera, ser isso aí!
– Não estou dizendo que você é médium, mesmo porque eu não tenho o
dom de saber quem é ou não médium.
– Ainda bem – diz Débora.
– Mas você deveria fazer um tratamento espiritual. Isso pode ser alguma
companhia indesejável que está lhe atormentando.
–  Não,  eu  não  sinto  nada  demais,  só  essa  angústia.  E  normalmente  ela
acontece quando o Allan sai de perto de mim. Estranho isso.
– Realmente é muito estranho.
– O papo está bom, mas tenho muito trabalho pela frente. Com licença,
Vera.
– Vai, sim. Depois do almoço vamos até a casa espírita. Você pode me
ajudar a limpar lá hoje?
– Sim, claro. Depois que eu terminar a faxina, podemos ir para lá – diz
Débora.
– Combinado. Quando você terminar nós iremos.


– Até.
– Até, Débora.
Vera torna a procurar por Débora, insistindo para elas irem limpar a casa
espírita.
– Débora, terminou? – pergunta Vera.
– Sim, peraí, só falta pendurar os panos de chão que acabei de lavar.
– Vou esperar você na garagem.
– Estou indo.
Débora e Vera se dirigem ao centro espírita.
–  Venha,  Débora,  vamos  dar  uma  ajeitada  no  salão  para  o  encontro  de
hoje.
– Sim, onde está o material de limpeza?
– Está lá dentro, espere aqui que eu vou buscar para você.
– Está bom.
Vera  vai  até  o  almoxarifado  pegar  o  material  necessário  à  limpeza  do
lugar.
Débora senta-se em uma das cadeiras e fica com o olhar perdido em seus
pensamentos.
Lembra-se de que ainda tem que passar em algum lugar para comprar a
roupa nova de Allan. Fica insegura e de novo a angústia toma conta de seu
peito. Seus olhos ficam marejados. Sente uma enorme vontade de chorar.
Vera se aproxima e percebe que a amiga e funcionária não está bem.
– O que houve, Débora?


– Não sei. É aquela angústia de novo. É uma dor inexplicável, uma coisa
que eu não sei explicar.
– Diga-me, o que sente? – diz Vera puxando uma cadeira e sentando-se
ao lado da amiga.
– Não sei explicar bem, é uma angústia. Uma vontade de chorar imensa.
Parece que uma parte de mim está para ser arrancada.
– Meu Deus! – diz Vera, assustada.
Débora começa a chorar.
– Chore, minha amiga, chore. Isso vai lhe fazer bem.
Carinhosamente, Vera se aproxima ainda mais e a abraça.
Débora chora compulsivamente, chegando a assustar a amiga.
– Vou pegar um copo com água para você – diz Vera se levantando.
Rapidamente  ela  retorna  ao  ambiente  trazendo  em  suas  mãos  um  copo
com água bem geladinha.
– Tome, fique calma!
– Não sei explicar o que acontece comigo, Vera – diz Débora tentando se
controlar. – Eu não tenho nenhum motivo para estar assim...
– Deve ser coisa de sua cabeça, a ausência de seus pais, amigos, do seu
marido, essas coisas.
–  Não  é  nada  disso,  é  uma  angústia  que  não  consigo  explicar.  É  uma
coisa que vem de dentro do meu peito.
–  Beba  a  água  e  acalme-se.  Se  quiser,  você  não  precisa  me  ajudar  na
limpeza. Vá para casa.
– Eu ainda tenho que comprar uma roupinha para o Allan usar no sábado.
Eu prometi isso a ele.


– Faça isso, vá agora mesmo a algum shopping e compre a roupa para
seu  filho.  Vá  distrair  sua  cabeça.  Peraí,  que  eu  vou  pegar  sua  diária  na
minha bolsa e já volto.
– Está bom! – diz Débora enxugando as lágrimas.
Vera  pega  dentro  de  sua  bolsa  o  dinheiro  da  diária  e  mais  alguns
trocados que oferece à amiga como presente de aniversário para o Allan.
– Obrigada, Vera, perdoe-me estar assim. Realmente é uma coisa que eu
não sei explicar.
– Fique tranquila. Agora vá comprar o presente do menino e depois vá
para casa.
– Está bem, obrigada – diz Débora levantando-se e dirigindo-se à porta
de saída do centro espírita.
– Vá com Deus, amiga, e dê um beijão no menino.
– Obrigada!
Envergonhada, Débora sai rapidamente do lugar. Seu peito está aliviado.
Ela corre para pegar o metrô e vai ao shopping perto de sua casa comprar o
presente de Allan.
Logo  chega  à  sua  casa  e  esconde  a  roupa  nova,  afinal  ele  deve  usar  o
presente no dia de seu aniversário. É assim que ela o educa.



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