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A LITERATURA SANTOMENSE


O processo da formação de uma identidade nacional corre paralelamente com a formação de um sistema literário. Uma literatura realiza-se através de realidades sociais, históricas e culturais que fornecem a temática às obras literárias. Para a compreensão profunda de uma literatura é preciso conhecer o contexto histórico e cultural ao qual esta é intimamente ligada. A esse propósito, Inocência Mata, afirma : « A literatura não pode entender-se fora do contexto cultural dinâmico e uma cultura nacional, no seu duplo sentido, comporta em si vertentes variadas dos múltiplos aspectos da sociedade. » (MATA, 1993, p.16)

Quanto a São Tomé, a literatura dessas ilhas tem muito a ver com a sua história. A chegada dos portugueses em 1470 e a colonização conseguinte das ilhas povoadas com os colonos portugueses, característica também pela força do trabalho escrava, é estreitamente ligada aos processos de miscigenação. Após as fases históricas como o ciclo da cana de açúcar ao ciclo de « grande pousio », foi o século XIX, o século da introdução da monocultura do café e do cacau nas roças, que produziu as mudanças sociais, económicas e culturais. Foi este período que determinou o estado literário e cultural de São Tomé.



Desse novo e conflitual processo transculturativo [está se a referir a autora à miscigenação inter-africana, provocada pela marginalização dos processos produtivos da sociedade crioula, aristocratizante, escravocrata e familista] resultou uma realidade na qual a componente matricial etnogénica europeia se foi desvanecendo, devido à conjuntura sócio-económica e, apesar da insularidade geográfica, a heterogénea essência africana foi progressivamente configurando a identidade cultural são-tomense, agora produto de uma amálgama de expressões culturais africanas assimiladas.

(MATA, 1998, p.24)

São Tomé não é, então, só um país de colonização mas também um país de formação colonial.

Aceitando a distinção entre literatura santomense, literatura portuguesa ultramarina e um subsistema que corresonde à ficção intervalar podemos dizer que a primeira produção literária escrita em São Tomé, apareceu na segunda metade do século XIX, representada pelo jornal O Equador, e pela História e Etnografia da ilha de São Tomé de António Almada Negreiros. Além disso, Viana de Almeida foi o primeiro escritor abordando o tema da ultramarinidade colonial em sua obra Maiá Poçon. Nesse período construiu-se uma literatura entre a colonidade ultramarina e a nacionalidade santomense o que conduziu à questão sobre o binómio literatura colonial e literatura nacional. A obra de Sum Marky é um testemunho da exploração colonialista construindo uma semântica insular com os mitos e símbolos constituintes do discurso colonial. Pois, a literatura de Sum Marky, como a de António de Almada Negreiros (Equatoriaes, 1846) ou de Costa Alegre é considerada no seu princípio como uma literatura colonial. Todavia, foi a literatura de Francisco José Tenreiro que é considerada como a literatura autónoma santomense.

O período colonial é o mais extenso e importante tempo de formação de consciencialização nativista santomense. É nesse período, que foram produzidas grandes obras literárias de natureza santomense transmitindo os sentidos e opiniões dos autores dessa época. Como já foi mencionado, o contexto cultural e a cultura nacional são os elementos sem os quais a literatura não pode entender-se. Não é possível conceber, portanto, uma literatura através só uma obra ou um período mas é preciso também conceituar os elementos comuns de identidade. Como não existisse a liberdade de expressão, durante o período colonial, a poesia santomense como a poesia africana em geral, era considerada como uma « poesia de combate ». Esta poesia ou a língua literária tivera por alvo transmitir as opiniões e pensamentos, ajudando-se pelas metáforas ou outras figuras estilísticas, duma maneira não provocante, permitida pelo « régime » colonial.

Paralelamente à poesia que, segundo Salvato Trigo, expressa « um grito, lógico, natural, um grito de homem negro, insultado, que se reivindica como negro em face do branco no seu orgulho » (TRIGO, 1977, pp. 15-16) também a ficção escrita foi criada. A partir da sua produção global, divisam-se duas tendências ideológicas. Na primeira tendência, as personalidades santomenses carecem de profundez humana e histórica. Por um lado, os mitos e o misterioso provaram a presença das personagens (sempre portuguesas), por outro lado, desenvolvem a narrativa « para uma construção épica da empresa da colonização » (MATA, 1993, p.17). Quer dizer que o espaço europeu no regionalismo literário português é preenchido com motivos africanos. A composição narrativa é, pois, africana mas « o imaginário mitológico e civilizacional » (MATA, 1993, p.17) é português metropolitano. Ao invés, a segunda ideologia não se ocupa da celebração da terra mas vira-se para a sociedade e a sua cultura no contexto colonial. Como exemplo podemos referir o conto de Viana de Almeida « Domingo na Roça » (in Maiá Pòçon, 1973) que é estruturado « desmitificantamente ».

A prosa de ficção no período colonial abrange os textos com uma subjacência expansionista onde a celebração de paisagem e a natureza exuberante demonstram o esforço dos portugueses de mostrar uma civilização diferente dos colonos os quais, com os seus dramas e problemas, constituem as protagonistas nesse espaço. Segundo Rodrigues Júnior, o espaço da literatura é dominado pela « presença de uma paisagem africana de tipos humanos especiais, com os seus costumes e os seus conflitos, que são do próprio meio, surgidos de homem que se fixou neste lugar, compelido ou voluntariamente ». ( JÚNIOR, p.127) Na era colonial, as ilhas de São Tomé e Príncipe criaram o lugar espácio-temporal para os textos literários marcados pela socioeconomia do engenho, pelo confronto do senhor e servo e, mais tarde, senhor e serviçal e também pela roça e pelo tráfico dos escravos. Além disso, a obra O Menino entre Gigantes de Mário Domingos aborda o tema de uma vida marcada pela diferença de cor onde o filho de pai branco e de mãe negra da ilha do Príncipe é separado dos seus pais e levado para uma família lisboeta burguesa. Aqui, a ilha natal tem a função de lugar do refúgio, do solo mátrio do qual tem saudades. Em O Vale das Ilusões de Sum Marky, o lugar é concebido em analepse descrevendo a sociedade santomense na era colonial nas suas relações com a comunidade branca. Esta obra diferencia-se dos outros pelo espaço em que o elemento humano cede a sua importância ao exótico acompanhado da linguagem própria do nativismo colonial.

Por conseguinte, Inocência Mata assume a problematização dos autores do período colonial de São Tomé dividindo a produção literária santomense em dois espaços principais com um espaço intervalar:



  • « A poesia: literatura autenticamente são-tomense, produzida por são-tomenses, do país São Tomé e Príncipe-colónia, expressão contestatária das condições de existência dos são-tomenses de cuja civilização participam e se encontram identificados no processo de consciencialização nacional.

  • A ficção: literatura expressando as condições existenciais dos portugueses em São Tomé e Príncipe – “província de Portugalˮ nas suas relações com a natureza e com a massa humana. ˮEspiritualmenteˮ ligada à literatura portuguesa e ideologicamente ao Portugal-metrópole, desse espaço vai emergindo, contudo, “o sentimento nativista”, com subjacência ideologicamente colonial, que gradualmente vai configurando um processo de diferenciação, ainda que inconsciente, com o sistema literário português entre si.

  • Literatura de intervalaridade de realização narrativa. »

(MATA,1993, pp. 90-91)

Estes dois espaços considerados simultâneos, não continuados, mostram as tendências ideológicas coexistentes na sociedade santomense.



Existe ainda uma terceira perspectiva ideológica pós-independentista. Trata-se de textos publicados após a independência de São Tomé que, porém, descrevendo o período colonial contêm os elementos da época posterior e, assim, insinuam os acontecimentos futuros. Típicas para o período pós-independentista são obras como Tonga Sofia ou Milongo de Sacramento Neto, Rosa do Riboque e Outros Contos de Albertino Bragança ou Sam Gentí de Mano Barreto que na sua maioria abordam o tema do trabalho duro nas roças (Tonga Sofia ou Milongo), da vida quotidiana de marginalidade do povo nativo urbano de « Rosa do Riboque » (Bragança, 1997) do mundo rural no conto « Solidariedade » (Bragança, 1997) em (Sam Gentí) (Barreto, 1985) reconstroem a imagem complexa das relações sociais e dos hábitos regionais de uma comunidade (« Solidão » Bragança, 1997) às vezes nefastamente supersticiosa (Sam Gentí). Esta temática literária provém dos antecessores, contudo, a narrativa dessa nova geração contém certo esforço de reescrever o modo da vida rural e urbana. Como afirma Inocência Mata: « Essa reescrita constitui o núcleo da diferenciação ideológica e cultural e, em certa medida, estética e literária. » (MATA, 1993, p.19)



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