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IDENTIDADE CULTURAL E SANTOMENSIDADE



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IDENTIDADE CULTURAL E SANTOMENSIDADE



    1. Heterogeneidade social


Para a compreensão completa de formação da identidade santomense é preciso abordar a natureza histórica e os elementos determinantes desse processo.

Graças à sua posição, na virada dos séculos XV e XVI, as ilhas de São Tomé e Príncipe tornaram-se o ponto estratégico dos navegadores e dos comerciantes portugueses. O processo de povoação das ilhas, ainda desabitadas, começou com a primeira colonização na segunda metade do século XV. quando os portugueses trouxeram os habitantes madeirenses e o rei D. Jõao II. fez acarretar as crianças e as mulheres escravas para assegurar a população constante nessa colónia. Dando a cada morador « uma escrava para dela a ter e se dela servir havendo o principal respeito a se a dita ilha povoar » (ATT, fl.199.), o núcleo de mulatos foi criado em São Tomé. Daí por diante, a miscigenação nestas ilhas é muito evoluída. A questão da identidade santomense, portanto, acaba por ser um fenómeno bastante complexo. Santomenses, africanos submetidos a um longo processo de colonialização e de caldeamento de culturas, que se cristalizaram no confronto de gentes e civilizações provenientes da Europa e da África, unindo senhores e escravos, representam agora uma cultura de povo com características bem específicas. A esse propósito, professor e poeta, Francisco José Tenreiro, confirma:



A situação privilegiada da ilha, primeiro na rota da Índia e, mais
tarde, entreposto entre a costa ocidental de África e a América do
Sul, facilitou contactos de raças, de culturas e de produtos. Foi, na
realidade, desde o final do século XV, uma das grandes encruzilhadas
do Mar-Oceano onde se encontraram homens, negros e brancos, de
diferentes proveniências e com estilos de vida diferenciados, e se
misturaram plantas do Mediterrâneo, de África, da Ásia quente e
chuvosa e da América do Sul.

(TENREIRO, 1961, p.91)

Isabel Castro Henriques, historiadora  portuguesa, opõe-se ao confronto estereotipado Europeus livres/Negros escravos referente ao povoamento das ilhas, afirmando que existia “uma coexistência de uma maioria de Europeus livres com uma fracção minoritária de Africanos livres” (HENRIQUES, 2000, p.39) que foram beneméritos de formação da identidade santomense. Perante uma sociedade tão heterogénea, graças à sua origem e proveniências diversas, assistimos às duas características negativas que causam sempre a instabilidade política e social: a diversidade e a conflitualidade.

Quanto à diversidade, os grupos sociais estruturavam-se de uma forma sobremaneira hierarquizada. Os europeus ocupavam neste leque social « o nível hierárquico mais elevado do poder civil, eclesiástico e militar, o que lhes conferia o controlo do aparelho político, administrativo e, consequentemente, do sistema económico.» (NEVES, 1989.)

Sempre em disputa com europeus quanto ao poder político e ao controlo de administração e economia, havia a segunda classe constituída pelos mestiços (moradores livres da cidade ou filhos da terra) de grande poder económico que quis atingir o posto o mais apreciado, o dos juízes na Câmara. Em seguida, os negros forros e escravos livres, desprezados pelos europeus, trabalhavam, em condições absolutamente degradantes, no porto, cuidavam dos transportes de escravos ou tomavam os comércios de ocasião. Os dois últimos escalões sociais são representados pelos escravos domésticos e de plantação, a classe humilhada de maneira descarada da parte dos seus donos. Estes primeiros, como a propriedade das famílias de moradores, constituíam a maioria da população exercendo o trabalho gratuito enquanto os escravos de plantação trabalhavam toda a semana para o seu senhor e aos sábados para si.

O sentido e as razões da conflitualidade santomense são adivinhadas pelo historiador português Arlindo Manuel Caldeira na sua preciosa obra Mulheres, Sexualidade e Casamento em S. Tomé e Príncipe afirmando que: « é a heterogeneidade social e étnica que faz da cidade de S. Tomé um extraordinário campo de aculturação, mas é também ela que transforma esse espaço urbano num lugar de conflito quase permanente ». Os conflitos entre ouvidores e governadores, confronto entre senhores e escravos ou as contradições religioso-civis caracterizavam a natureza incongruente das ilhas. A mais, a transferência de capital de Santo António do Príncipe para o São Tomé, em 1852, acaroou os habitantes das duas ilhas.




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