Marta Sofia Matos da Encarnação Os Abre-te Sésamo da Imaginação



Baixar 480.81 Kb.
Pdf preview
Página7/29
Encontro17.03.2020
Tamanho480.81 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   29
2.2. 

Ali Babá e os quarenta ladrões noutras edições 

Como já dei a entender anteriormente, a versão da história Ali Babá e os quarenta ladrões

adaptada por Luc Lefort e vertida para a língua portuguesa por António Pescada, usada nas 

escolas portuguesa, recomendada pelo PNL, apresenta alguns fatores que podem ser entendidos 

como  menos  adequados  para  as  faixas  etárias  que  frequentam  o  2.º  ciclo  do  EB,  se  forem 

analisados à luz duma leitura ingénua e anacrónica dos factos convocados pelo relato, porque 

contém  episódios  considerados  muito  violentos,  como,  por  exemplo;  a  decapitação  e 

desmembramento do corpo do irmão de Ali Babá e o homicídio bárbaro dos 38 ladrões com 

azeite a ferver, entre outras situações.  

Na  minha  opinião,  este  tipo  de  desfechos  pode  provocar  alguns  traumas  e  insegurança  nos 

alunos devido à sua violência brutal e distanciamento civilizacional. A morte dos ladrões com 

azeite a ferver é um momento medonho se os estudantes tentarem imaginar o cenário enquanto 

a história é lida. O docente deve relembrar aos alunos que este tipo de desfechos se verificava 

numa época em que tais punições eram consideradas normais, de modo a tranquilizá-los. 

Uma abordagem descuidada dessas sequências diegéticas mais intensas poderá interferir com 

o  subconsciente  dos  alunos,  levando-os  a  comportamentos  violentos  ou  provocando-lhes 

medos/traumas ou insegurança. Urge, por conseguinte, introduzir momentos de debate sobre a 

violência observada na narrativa, com o objetivo de dissipar angústias que a leitura possa ter 

provocado.  

Para além disso, como já referi anteriormente, durante a leitura integral da obra, conjuntamente 

com  a  turma,  os  alunos  verificaram  alguns  desencontros  entre  a  narrativa  e  as  ilustrações 

presentes no livro. O facto de as divergências terem sido detetadas pelos alunos, revela que 




 

11 


 

estes as utilizam como suporte à leitura. Assim, comprovam a importância das ilustrações que 

acompanham a obra para a interiorização da narrativa. 

Supondo que estamos perante um aluno que não gosta de ler. Possivelmente, se ele conseguir, 

observará apenas as ilustrações do livro e tentará fazer um pequeno resumo da obra através do 

que observou nas imagens. Talvez porque foi assim que as histórias lhes foram apresentadas 

tradicionalmente. As primeiras histórias contadas a uma criança, no pré-escolar, v..gr., mostra-

se-lhes  primeiramente  por  norma  as  imagens  e  só  depois  se  revela  a  mensagem  contida  na 

mancha gráfica. O aluno adquire esse hábito (analisar as imagens antes do texto) porque foi 

esse método que lhe foi apresentado nos seus primeiros contactos com a literatura. 

Um aluno que tenha hábitos deficientes de leitura tentará sempre reter a narrativa através das 

imagens, visto serem mais apelativas e mais simples de decifrar, por isso, é fundamental que 

exista uma perfeita articulação entre as ilustrações da obra e a respetiva narrativa.  

Durante a PES, pude observar essa estratégia dos alunos em diversas situações. No âmbito da 

língua portuguesa, após ver que um título referia uma personagem feminina e a ilustração que 

acompanhava o texto  representava  uma criança  do sexo masculino, o aluno não hesitou  em 

exclamar e interrogar: 

- Professora, o texto fala duma menina, isto (apontando para a imagem) é um menino ou uma 

menina? Parece um menino mas deve ser menina… 

O aluno deduziu que a imagem devia estar relacionada com a suposta personagem principal do 

texto – a menina citada no título. Ou seja, o aluno retirou uma ideia pela imagem, valorizou 

primeiramente  a  imagem  em  vez  da  história.  Tentou  prever  a  história  através  da  gravura  e 

ignorou o que tinha lido anteriormente. 

Tive a oportunidade de observar na PES anterior, de Matemática e Ciências Naturais, que esses 

momentos também decorrem inúmeras vezes quando se trata de problemas matemáticos. Por 

exemplo, se o exercício falar de uma caixa de oito bombons e na imagem aparecer uma caixa 

com  doze,  o  aluno  confunde,  não  sabe  que  é  o  valor  apresentado  no  enunciado  que  deve 

considerar  válido  ou  utiliza  o  desenho  para  resolver  a  questão  e  erra  porque  o  valor  não 

corresponde  ao  do  enunciado.  Quando  os  problemas  matemáticos  se  fazem  acompanhar  de 

desenhos  meramente  decorativos,  os  alunos  consideram  a  ilustração  como  um  dado 

complementar ao exercício. Aliás, dão mais ênfase ao que está ilustrado do que ao que foi lido 

na interpretação-resolução do problema. 

Na minha opinião, se as imagens estão próximas de textos, devem ser coerentes com o que é 



 

12 


 

tratado na macha gráfica ou é preferível a sua inexistência, visto que só causaram confusão no 

pensamento dos alunos. Digo isto para qualquer unidade curricular, desde a Língua Portuguesa 

à Matemática. 

Considerando  esta  obra  imperfeita  para  ser  estudada  numa  sala  de  aula,  pelos  dois  fatores 

referidos  anteriormente  (excesso  de  violência  e  discrepância  entre  o  texto  e  as  ilustrações 

presentes no livro), decidi verificar se existiam mais versões na área residencial dos alunos e 

se, no meu ponto de vista, eram melhores. 

Por tudo isto, decidi verificar na biblioteca do concelho da escola, visto ser uma infraestrutura 

que pode ser facilmente visitada por qualquer aluno da escola onde foi realizada a PES. 

Durante  a  pesquisa  que  realizei  na  Biblioteca  Municipal  de  Faro,  encontrei  três  edições 

diferentes da obra recomendada pelo PNL: 

Ali-Babá e os quarenta ladrões, Teorema; 

Ali Babá e os 40 ladrões dos Contos de Sempre, 4.ª edição, Edinter; 

Ali Babá e os 40 ladrões, Clássicos de Todo o Mundo, ULISSEIA Infantil. 

Pude atestar, com as leituras integrais das obras anteriormente referidas, que todos os nomes 

das personagens são diferentes à exceção do de Ali Babá.  

Para facilitar a consulta e examinar, de forma mais eficiente e prática, a alteração dos nomes, 

recorri a uma tabela onde organizo os dados. Classifiquei as obras pelas suas editoras. 

As edições estão ordenadas tal como são enumeradas no relatório. 

 

Porto Editora 



Teorema  

Edinter 


Ulisseia 

Protagonista 

Ali Babá 

Ali-Babá 

Ali Babá 

Ali Babá 

Irmão de Ali Babá 

Qassem 


Cassim 

Yusef 


Kassim 

Chefe da quadrilha 

Qoja Hussein 

Cogia Hussain 

SN 

SN 


Esposa de Ali Babá 

Feiruz 


SN 

Zoraida 


SN 

Cunhada de Ali Babá 

Xainaz 

SN 


Ø    

SN 


Criada de Ali Babá 

Morjana 


Morgiana 

Ø 

SN 



Boticário 

Dubane 


SN 

Ø 

Ø 



Sapateiro 

Mustafá 


Babá Mustafá 

Ø 

Mustafá 



Escravo de Ali Babá 

Adbalá 


Ø 

Ø 

Ø 



Filho de Ali Babá 

Nuredine 

SN 

Ø 

Ø 



Personagens 

Editora 



 

13 


 

Legenda: Ø – personagem não existente na história; 

               SN – personagem sem nome. 

Ali Babá é a única personagem que não sofre qualquer alteração onomástica. Não faria muito 

sentido ser alterado a sua denominação, visto coincidir com o título da obra. Para além disso, é 

facilmente memorizado pelo leitor. 

Na versão da Teorema, tanto a esposa de Ali como a cunhada não têm nome. São referidas e 

chamadas ao longo da história como: mulher e cunhada.  

Contudo, à criada de Ali, apesar de ser uma personagem feminina, foi-lhe atribuído um nome. 

Considerando  que  ela  é  uma  das  personagens  mais  importantes  do  conto,  porque  é  ela  que 

resolve as situações sempre que necessário e salva a vida do amo e de sua família. Ela ganha 

um prestígio e mérito por parte do narrador, por isso, a criada tem nome ao contrário das outras 

mulheres intervenientes.  

O chefe da quadrilha é chamado de capitão dos ladrões durante quase toda a história. Só quando 

reaparece na história com o intuito de se vingar de Ali-Babá através do filho deste, é que lhe é 

atribuído o nome de Cogia Hussain. 

Na versão da Edinter, a mais curta, não existe a personagem da criada. É a mulher de Ali Babá, 

a quem é atribuído o nome de Zoraida, que atua como a criada nas outras edições, ou seja, salva 

a vida de Ali Babá contra o «chefe dos bandidos», como é intitulado na história. 

Depois de organizados os dados na tabela consigo fazer um pequeno estudo relativamente à 

alteração dos nomes das personagens. 

Posso concluir que a versão da Edinter, a mais direcionada para um público infantil, utiliza 

nomes,  não  têm  qualquer  semelhança  com  as  outras  versões,  à  exceção  da  personagem 

principal.  

Contrariamente, as outras versões partilham de nomes muito semelhante, a grafia sofre umas 

ligeiras mudanças mas a realização fonética do vocábulo não se altera. Só na versão da Porto 

Editora, a recomendada pelo PNL, é que todas as personagens têm nome atribuído. Nas outras 

versões, só mesmo as mais importantes é que são nomeadas. 

As outras versões também não têm um elenco tão numeroso como a narrativa que foi abordada 

durante a PES. A única personagem, para além de Ali Babá, que não sofre mudança no nome e 

que aparece em  três das quatro versões, é o sapateiro Mustafá. É um  dos nomes do profeta 

Maomé. Vejo apenas dois motivos. O primeiro, talvez, por respeito à crença religiosa Islâmica, 




 

14 


 

Mustafá não é um nome vulgar, tem fortes ligações religiosas e, por isso, o nome pode ter sido 

intocável. Em segundo lugar, Mustafá é facilmente pronunciado e memorizado pelo leitor. 

As personagens das histórias infantis não têm nome próprio, porque são criadas para crianças e 

é suposto estas identificarem-se com os elementos da narrativa. Caso as personagens fossem 

nomeadas,  as  crianças  não  se  colocariam  no  seu  lugar  e  não  vivenciavam  as  experiências 

protagonizadas  pelas  figuras.  Contudo,  a  nova  edição,  a  da  Porto  Editora,  nomeia  todas  as 

personagens.  Como  é  uma  obra  criada  e  adaptada  para  ser  lida  e  analisada  no  2.°  ciclo,  a 

classificação  dos  intervenientes  da  narrativa,  facilita  o  estudo  da  obra  em  relação  a 

interpretação. Em segundo, no 2.º ciclo, os alunos já não necessitam de um distanciamento tão 

grande das personagens porque, devido ao amadurecimento psicológico e social, já conseguem 

colocar-se no lugar do outro. 

A profissão da personagem principal também é constantemente alterada. Contudo é, em todas 

as versões, passado ao leitor que Ali Babá pertencer à classe financeira baixa, com um trabalho 

de setor primário. Apesar de este ser parcialmente o protagonista da história, é  em todos os 

desfechos, uma mulher, mais concretamente, a criada, quem descobre os ladrões e desempenha 

um papel fundamental durante toda a narrativa. Independentemente da sua ligação ao suposto 

protagonista, é sempre uma mulher a responsável pelos momentos cruciais das histórias, que 

permite um  desenlace  a  favor de Ali  Babá. Ele só é fulcral  na narrativa,  porque descobre o 

segredo dos ladrões, o resto do conto tradicional é conduzido e resolvido por ela. 

O desfecho é o mesmo em todas as obras, ou seja, os ladrões são continuamente penalizados, 

de formas diferenciadas, de versão para versão, e a criada salva a vida ao amo. As punições 

aplicadas aos ladrões e ao chefe da quadrilha também variam de edição para edição. E há, ainda, 

um momento na história que varia: a forma como o irmão de Ali Babá é apanhado pelos ladrões. 

Numas versões, ele esquece-se do modo como pode sair da gruta e noutras, ele distrai-se e é 

apanhado em flagrante. 



1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   29


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal