Marta Sofia Matos da Encarnação Os Abre-te Sésamo da Imaginação


   A imaginação e desenvolvimento cognitivo, pessoal e emocional



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2.5.   A imaginação e desenvolvimento cognitivo, pessoal e emocional 

O objetivo principal de uma narrativa é a recreação por parte do leitor ou ouvinte, provocando 

sentimentos,  tais  como,  medo,  raiva,  surpresa,  ansiedade,  satisfação,  entre  outros.  Para  se 



 

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explorar textos narrativos, é necessário que estes estejam adaptados à idade e interesses dos 

alunos, estimulando sempre a antecipação dos acontecimentos, a intenção das ações, a previsão 

de consequências e a análise crítica. Deste modo, a leitura é uma mais-valia, porque proporciona 

um  crescimento  pessoal  e  emocional.  Inês  Sim-Sim  garante  que  «o  grande  objectivo  da 

narrativa  é  a  recreação  de  quem  lê  ou  ouve,  provocando  respostas  emocionais  (surpresa, 

curiosidade, medo, satisfação) no leitor ou no ouvinte.» (Sim-Sim, 2007: 37). Uma criança ao 

experienciar sentimentos, ao imaginar-se no lugar do outro, cresce a nível emocional e pessoal. 

A imaginação é algo difícil de definir, de explicar, é algo que não se aprende. Após consultar 

alguns dicionários, resumi a seguinte definição: imaginação é a capacidade humana de criar 

imagens  mentais,  representações,  fantasias  com  informações  que  já  possui.  Maria  Alberta 

Menéres refere que «a imaginação aprende-se e desenvolve-se desde criança» e «tem muito a 

ver como os pontos de vista de cada um» (Menéres, 1993: 93), cada criança, tendo em conta a 

sua origem e as suas experiências de vida, memórias e personalidade construirá o seu mundo 

imaginário, usando a sua realidade como alicerces.  

«A criança é criativa por natureza. Biologicamente, a sua ânsia é de desenvolvimento e ela está 

inteiramente voltada para a construção de si própria.» (Menéres, 1993: 22), por esse motivo, é 

importante  que  os  sujeitos  que  orientam  e  potencializam  a  aprendizagem  da  criança,  não 

coloquem  obstáculos  aos  seus  pensamentos  imaginários  e  que  não  desmoralizem  ou 

desmotivem essa ação no campo fantasioso.  

Na atualidade, a escolaridade é encarada como uma ferramenta. Será que há tempo e espaço 

para as crianças descobrirem a imaginação? Será importante deixar o aluno fantasiar? Viver 

num  mundo  abstrato  e  paralelo?  Ou  terá  de  estar  constantemente  preso  ao  mundo  real, 

contaminado com ciências exatas e línguas? 

Resolvi verificar se será benéfico as crianças não terem tempo nem hipótese para divagarem no 

mundo da fantasia. Estou em crer que o mundo do Maravilhoso deve ser fomentado a fazer 

parte da essência de uma criança. Julgo que fantasiar é necessário para expandir horizontes, 

pensamentos, sonhos e vontades. 

Segundo Bettelheim, as histórias direcionadas a crianças devem prender a sua atenção, entretê-

las  e  despertar-lhes  curiosidade,  mas  devem  também  enriquecer  a  sua  vivência,  bem  como 

estimular a sua imaginação. Relativamente à criança, a literatura deve «ajudá-la a desenvolver 

o seu intelecto e esclarecer as suas emoções; tem de estar sintonizada com as suas angústias e 

as suas aspirações; tem de reconhecer plenamente suas dificuldades e, ao mesmo tempo, sugerir 



 

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soluções para os problemas que a perturbam.» (Bettelheim, 1985:11) 

Aceito que quando ensinamos algo a uma criança, devemos partir de algo concreto, visível, da 

sua vivência, ou seja, que seja facilmente compreendido e, só depois conseguimos encaminhá-

-la  à  abstração  para  que  adquira  um  novo  conceito,  desta  maneira,  proporcionamos-lhe  a 

evolução através da imaginação. 

Apesar disso, 

Bredella afirma que os textos literários «apresentam projectos de sentido capazes 

de  aprofundar  e  alargar  os  horizontes  de  percepção  e  motivação  daquele  que 

compreende»  (1988:  198). Para  este autor, a  realidade apresentada nesses textos 

desafia  muitas  vezes  as  capacidades  de  compreensão  dos  alunos,  dado  que  lhes 

oferecem aspectos não observados ainda nessa mesma realidade. Enriquecem, por 

isso a sua experiência e alargam os seus horizontes. (Alcarão, 2005: 30) 

Esta afirmação de  Bredella revela, de forma muito  sugestiva, como  o mundo que rodeia os 

alunos influencia a sua forma de interpretação. As crianças de 1988 viajavam pelo mundo do 

imaginário. Os alunos dos dias de hoje justificam os episódios do Maravilhoso com tecnologia.  

Para que uma criança compreenda uma história na sua totalidade, ela deve ser exposta durante 

a sua vida pessoal e escolar, a narrativas que lhe causem sentimentos e que lhe especifiquem, 

claramente, noções morais, tais como, bem/mal, correto/errado, etc. 

Como  esclarece  B.  Bettelheim,  é  um  mito  considerar-se  que  as  crianças, 

independentemente das regras de convívio social, são naturalmente boas. Sem lhes 

serem mostradas as consequências das suas más acções, a tendência inata para a 

violência  e  os  comportamentos  anti-sociais  irão  sendo  reforçados  com  os  anos, 

durante o longo percurso escolar. (Alburquerque, 2000: 49) 

Hoje, concebe-se antes que o leitor cria o sentido do texto, servindo-se simultaneamente dele, 

dos  seus  próprios  conhecimentos  e  da  sua  intenção  de  leitura.»  (Giasson,  1993:  19).  E  esta 

situação  nem  sempre  é  proveitosa  a  nível  escolar,  pois  o  aluno  fica  com  muita  liberdade 

relativamente  à  interpretação.  Por  vezes,  no  ensino,  nós,  os  docentes,  somos  obrigados  a 

conduzir os alunos a interpretarem o que o autor deseja, isto é, tem como objetivo transmitir 

porque essa é a considerada interpretação aceite. «O que se passa, com efeito, é que o autor 

utiliza certas convenções e põe de lado as informações que supõe serem conhecidas pelo leitor. 

Se  esta  suposição  não  se  verificar,  a  mensagem  do  autor  será  evidentemente  mal 

compreendida.» (Giasson, 1993: 19). E, nesse momento, o professor deve interferir no processo 



 

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de compreensão do texto e auxiliar o aluno a alcançar a interpretação pretendida. 

Segundo  Giassom,  a  compreensão  está  relacionada  com  três  componentes  intimamente 

relacionadas: leitor, texto e contexto. Em relação ao primeiro, a compreensão tem a ver «com 

o que o leitor é (os seus conhecimentos e as suas atitudes) enquanto os processos dizem respeito 

ao que ele faz durante a leitura (habilidades a que recorre).» (Giasson, 1993: 21). O texto está 

estreitamente relacionado com a intenção do autor, tendo em atenção que é ele que decide e 

seleciona  quais  são  os  conceitos,  conhecimentos  e  vocábulos  que  vai  utilizar  e, 

consequentemente, transmitir ao leitor.  

O contexto são os fatores externos ao texto que influenciam a interpretação do leitor. «Podemos 

distinguir três contextos: o contexto psicológico (intenção da leitura, interesse pelo texto…), o 

contexto social (as intervenções dos professores, dos colegas…) e o contexto físico (o tempo 

disponível, o barulho…).» (Giasson, 1993: 22). 

O leitor, neste caso específico, o aluno, é, sem dúvida alguma, a componente mais complexa 

porque é movido por várias estruturas. Nenhum aluno interpreta de igual forma, pois todos têm 

bases  cognitivas  e  afetivas  distintas.  Apesar  do  esforço  feito  pelo  docente,  para  que  os 

discípulos estejam todos no mesmo nível de aprendizagem/ensino, com as mesmas capacidades 

cognitivas, essa realização é quase inalcançável. Contrariamente ao desejado, nem todos detêm 

os mesmos conhecimentos sobre a língua, mundo ou realidade.  

As estruturas afetivas nem têm relação possível. Cada um vem de um meio, de um seio familiar 

diferente, com experiências variadíssimas, logo tem outras perspetivas, sensações e formas de 

encarar a vida. O contexto de cada aluno é o que mais influencia a compreensão de um texto. 

Psicologicamente, a sua intenção e motivação para a leitura determina a maneira como o leitor 

aborda o texto, compreende e retêm dele. (Giasson, 1993: 40). O meio que é envolvente também 

tem bastante significado no processo de compreensão. Variáveis como a temperatura ambiente, 

o ruído e o conforto podem ser fatores que influenciam o desempenho do aluno. 

Em suma, antes de se abordar uma obra, o professor deve ter o cuidado de verificar se a turma 

tem os conhecimentos necessários para entender o texto, bem como, uma boa técnica de leitura 

e se as condições do meio são as mais adequadas. 


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