Marta Sofia Matos da Encarnação Os Abre-te Sésamo da Imaginação


Maravilhoso vs. Tecnologia



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2.4.Maravilhoso vs. Tecnologia  

Segundo a visão teórica de Todorov, o conto trabalhado em contexto de PES inclui-se no género 




 

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literário do Maravilhoso Puro, está ancorado no âmbito da explicação sobrenatural do insólito 

registado. (Todorov, 1977: 51), ou seja, o Maravilhoso existe quando o leitor decide aceitar os 

acontecimentos  da  história,  admitindo  novas  leis  da  natureza  que  permitem  explicar  o 

fenómeno. (Todorov, 1977: 41) 

Ocorrem situações que não correspondem à realidade objetiva, tais como a abertura de uma 

gruta com o pronunciamento da frase-ordem: «Abre-te, Sésamo!». As palavras produzidas pela 

voz  no  ato  de  falar  são  utilizadas  como  um  autêntico  talismã,  com  as  mesmas  virtudes  ou 

poderes  sobrenaturais  atribuídos  a  um  objeto  mágico  ou  amuleto,  tal  como,  a  «varinha  de 

condão»  dos  contos  de  fadas  tradicionais.  Por  esse  motivo,  podemos  inseri-lo  mais 

especificamente na variante de Maravilhoso Instrumental, porque é através do instrumento-voz 

que se desencadeiam os fenómenos tidos no relato como sobrenaturais. (Todorov, 1977: 53) 

O elemento supernatural não provoca «qualquer reacção especial nem nas personagens nem no 

leitor implícito» (Todorov, 1977: 51). Tanto as personagens que pronunciavam as palavras que 

abriam a gruta como os alunos que ouviram o efeito das mesmas não manifestaram qualquer 

resistência a aceitarem o efeito do talismã. O facto de as personagens acreditarem sem hesitar 

nos elementos sobrenaturais da narrativa induz, ocultamente, o leitor a aceitá-las sem questionar 

a natureza do sobrenatural convocado pela ficção. 

Pertence ao Maravilhoso tudo o que em determinado momento histórico, como o atual, não tem 

uma explicação científica ou tecnológica precisa. Contudo, com a evolução do conhecimento 

humano,  esta  explicação  sobrenatural  implícita  começa  a  perder  força,  a  ser  facilmente 

justificado através das leis racionais, entrando no domínio dos fenómenos que admitem uma 

explicação  perfeitamente  natural.  Nestas  circunstâncias,  a  anterior  sensação  de  maravilhoso 

puro transforma-se numa sensação de estranheza pura (Todorov, 1977: 53). 

Classificando, segundo Umberto Eco, a realidade em que vivemos como «mundo normal» ou 

«mundo real», o conto estudado insere-se na categoria teórica da Alotopia, em que se configura 

um  «mundo  alternativo»,  i.e.,  aquele  que  permite  imaginar  que  o  nosso  «mundo  real»  seja 

realmente diferente daquilo que é, que nele se passem coisas que normalmente não se passam. 

(Eco, 1989: 200). Em circunstância alguma do relato, é situada a região ou localidade onde 

decorre a ação mágica, porque ela é um simples não-lugar, um local remoto do nosso «mundo 

real» físico. «Não interessa grandemente a colocação e a própria possibilidade cosmológica do 

possível mundo narrado, mas sim o seu mobilamento, ou melhor, o que se passa nele.» (Eco, 

1989:  203),  i.e.,  a  história  é  localizada  vagamente  num  local  imaginário,  ou  seja,  pouco 



 

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específico,  porque,  na  realidade,  o  importante  é  a  ação  que  decorre  no  local  e  não  o  seu 

posicionamento. Neste caso concreto, que seja possível abrir uma montanha com o poder das 

palavras produzidas com a voz humana.  

Apesar  de  ser  suposto  o  leitor  de  Ali  Babá  e  os  quarenta  ladrões  acreditar  nos  momentos 

insólitos da história, os alunos renunciam o «faz de conta» e, por consequência, os caminhos 

tornados possíveis com o poder do sobrenatural utilizado pela imaginação. 

As crianças do presente desacreditam na magia devido à tecnologia, que lhes é oferecida desde 

o  nascimento,  aos  filmes  de  ficção  a  que  são  expostas  e  pelo  pouco  estímulo  que  têm  para 

desenvolver a imaginação. Na escola, os alunos  são formatados para aprenderem  conceitos, 

conteúdos e não para imaginarem. As crianças deixam cada vez mais cedo o seu mundo infantil, 

o seu mundo de conto de fadas, não têm tempo para aproveitarem a tenra idade, não tem a 

oportunidade de serem crianças que acreditam em duendes mágicos, grilos falantes e tapetes 

voadores.  Uma  história  que  sirva  «para  enriquecer  a  sua  vida,  ela  tem  que  estimular  a  sua 

imaginação;» (Bettelheim. 1985: 11) 

Na minha opinião, as crianças devem ouvir várias histórias, de diferentes géneros literários para 

que se desenvolvam em vários aspetos, tais como, sociais, afetivos, cognitivos, etc., Segundo 

Bruno Bettelheim,  

ao mesmo tempo que distrai a criança, o conto de fadas elucida-a sobre si própria e 

promove  o  desenvolvimento  da  sua  personalidade. Tem  tantas  significações,  em 

tantos níveis diferentes, e enriquece a existência da criança por tantas maneiras, que 

livro algum é capaz de igualar a quantidade e diversidade de contributos que estes 

contos traduzem para a criança. (Bettelheim. 1985: 20). 

A  ficção  a  que  as  crianças  são  expostas  nos  dias  de  hoje  aniquila  qualquer  vestígio  de 

maravilhoso que possa existir na sua mente criativa. O que antes era considerado maravilhoso

no  presente,  deixou  praticamente  de  o  ser.  Como  as  crianças  explicaram  os  acontecimentos 

sobrenaturais com explicações científicas alteraram o maravilhoso instrumental em científico. 

Deixam  de  acreditar  no  poder  de  «instrumentos  mágicos»  e  começam  a  justificar  o  seu 

funcionamento através das mais modernas tecnologias.  




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