Marta Sofia Matos da Encarnação Os Abre-te Sésamo da Imaginação


  Versão da editora ULISSEIA Infantil



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2.2.3.  Versão da editora ULISSEIA Infantil 

 

 



Fig. (2.8): Ali Babá e os 40 ladrões, Clássicos de Todo o Mundo, ULISSEIA Infantil (1997). 

Por último, na edição da ULISSEIA Infantil, a história tem algumas diferenças que considero 

fundamentais, visto poderem influenciar as sensações que são transmitidas ao leitor juvenil.  

Para iniciar, o irmão de Ali Babá, Kassim, após se esquecer da palavra mágica que permitia a 

abertura da gruta, quando foi descoberto pela quadrilha, foi ferozmente atacado, mas poupado 

ao  desmembramento.  Escapou  a  um  final  dramático.  Ficou  gravemente  ferido  na  gruta. A 

esposa e o irmão estranharam a sua ausência e Ali, desconfiado da ganância do irmão, supôs 

que ele tivesse ido em busca do tesouro. Quando Ali encontrou o irmão, transportou-o para casa 

e  pediu  ao  sapateiro  Mustafá  que  aceitasse  coser  uma  pessoa  sem  saber  onde  esta  morava. 

Mustafá aceitou e Ali vendou-lhe os olhos e conduziu até sua casa. 

Ao contrário das outras versões, Kassim sobreviveu. Ele e a esposa estavam quase sempre na 

casa de Ali. 

Os  ladrões,  quando  regressaram  à  gruta  mágica,  verificaram  que  o  corpo  do  homem  que 

atacaram tinha desaparecido. Foram à cidade na esperança de descobrir quem era a pessoa visto 

que sabia o segredo relativo ao tesouro deles. Em conversa com o sapateiro, souberam que este 

tinha cosido uma pessoa. O chefe da quadrilha subornou Mustafá para que este lhe dissesse 

onde era a casa da vítima, ou seja, a casa de Ali. De seguida, marcou a porta com uma cruz.  



 

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Marjaná (outro nome diferente), a criada, quando se deparou com a marca feita na porta do seu 

amo, decidiu marcar todas as outras portas da rua. O chefe dos ladrões quando se deparou com 

essa situação, furioso, subornou novamente Mustafá. Depois de ter a certeza de a casa a ser 

atacada, utilizou a mesma estratégia que foi citada nas outras obras: fingiu ser mercador de 

azeite e pediu abrigo, por uma noite, ao bondoso Ali Babá. 

Marjaná foi audaciosa e suspeitou logo do falso mercador. Ao contrário das outras histórias, a 

criada não descobre a «verdadeira mercadoria», pois precisa de azeite e decide retirar dos potes 

do mercador, carregados pelas mulas, sem lhe pedir autorização. Neste caso, a criada descobre 

os ladrões quando vai buscar água ao poço e, um deles, ao ouvir os passos da criada, pergunta 

se já está na hora. Até neste ponto, acho que a história é mais correta moralmente porque a 

criada não vai retirar nada que não seja seu sem pedir autorização. 

Contrariamente  às  outras  versões,  a  criada  em  vez  de  matar  os  ladrões,  opta  por  fazer  uma 

mistura de essências e especiarias que fará adormecer profundamente os ladrões. 

Semelhantemente às outras versões analisadas, Marjaná utiliza a dança para seduzir o chefe da 

quadrilha mas poupa-lhe a vida. Não o condena juntamente com os ladrões à prisão. Prefere 

convencê-lo de que é uma poderosa feiticeira e que enfeitiçou todos os seus homens e a gruta 

do tesouro. Deu-lhe a oportunidade de abandonar a região com o seu bando. 

Gosto particularmente desta versão, porque, com este desfecho, é transmitida ao leitor a ideia 

de  que  se  deve  dar  uma  segunda  oportunidade  às  pessoas,  acredita-se  na  mudança,  no 

crescimento/evolução  pessoal.  É  esta  tendência  que  tem  orientado  o  pensamento  europeu  e 

ocidental desde os alvores do século 

XVIII

, com o processo de abolição gradual da pena de morte 



nos diversos países em todo o continente e nas suas dependências coloniais e de se lutar nos 

dias de hoje pela sua extensão a todos os países do mundo. Acredita-se que as pessoas aprendam 

com os erros cometidos e melhorem, aproximando-se do padrão social aceite moralmente.  

O tesouro manteve-se na gruta e o generoso Ali Babá decidiu repartir por toda a família não 

esquecendo  de  incluir  Marjaná  na  distribuição.  Com  esta  atitude, Ali  mostrou  gratidão  pela 

lealdade revelada pela criada. Apesar de ter recebido uma quantia suficiente para fazer a sua 

vida sem ter de trabalhar, a criada preferiu continuar a trabalhar para Ali. 

Devido à sua dedicação, passou a ser tratada como um membro da família. Como se fosse filha 

de Ali. 

Nesta obra, não existe a segunda parte, onde os ladrões fazem uma segunda investida através 

do filho de Ali. Segundo esta editora, Ali não tem filhos.  



 

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A segunda parte é desnecessária em todas as versões, porque o momento em que o chefe da 

quadrilha é desmascarado perante Ali, é o momento final da história, é o desenlace, porque já 

se realizaram os momentos da narrativa e esse é o culminar de todo o enredo. Isto é, o primeiro 

momento de uma narrativa, a situação inicial, ocorre quando Ali Babá vê os ladrões a abrirem 

a gruta mágica através das palavras-mágicas «Abre-te, Sésamo». O desenvolvimento é toda a 

situação do irmão ganancioso e o planeamento e a execução da vingança dos ladrões contra Ali 

Babá. É neste momento da narrativa que nos são reveladas as artimanhas da criada de Ali que 

salvam a vida ao seu amo. 

O desenlace/desfecho, a situação final, acontece quando a quadrilha é desvendada. A história 

entende-se  por  terminada  quando  a  trama  é  fechada.  Foi  esse  momento  que  encerrou  os 

problemas/conflitos relacionados com  a personagem principal que foram narradas durante o 

desenvolvimento. 

A  segunda  parte,  penso  que  cansa  os  alunos,  porque  já  ouviram  o  primeiro  desfecho  e 

consideram a história como terminada/resolvida.  

O único senão desta história, na minha perspetiva, é que Ali fica como dono do tesouro. Porquê? 

Porque merece ficar com algo que não é dele? Algo que foi obtido através do furto? Contudo, 

acho que este ponto merece ser debatido com a turma. Se concordam, se acham correto e que 

desfecho, na opinião deles, seria o mais correto, adequado ou justo. 

Em suma, se tivesse a hipótese de optar por um dos livros para abordar e explorar em sala de 

aula, seria o último referido e não pelo recomendado no PNL pelo ME. Considero que esta 

versão é a mais indicada pelos diversos motivos que passo a enumerar: 

- As ilustrações são as mais agradáveis ao leitor de todos os livros apreciados. São coloridas, 

simples mas coerentes com  o texto. Ocupam  as páginas na totalidade,  motivando o aluno  à 

leitura. Para uma criança, é mais agradável ler um livro com desenhos do que um livro somente 

com letras. Quando visualizam apenas texto tendem a ficar desmotivados. Este livro revela um 

excelente equilíbrio entre a mancha gráfica e as gravuras, na minha apreciação. 

- A  história  não  é  tão  horripilante. As  punições  corporais  aplicadas  são  mais  ligeiras.  Não 

existem mortes como na versão recomendada pelo ME. Não sendo uma história tão violenta, 

acho  que  cumpre  os  objetivos  da  leitura  de  um  conto,  entre  os  quais:  aprender  a  lidar  com 

dificuldades do dia-a-dia, sentimentos como o medo, vingança, etc., Segundo Dahrendorf, 

a função principal da literatura consiste em reforçar as concepções do leitor (…) e, 

em  proporcionar-lhe  a  possibilidade  de  fugir  a  uma  realidade  frustrante, 



 

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transpondo-se para um  mundo  de aparências. De acordo  com  esta concepção de 

literatura,  toda  a  literatura  desempenha  a  mesma  função  e  tem,  em  princípio,  o 

mesmo valor (Bredella, 1989: 63). 

Do meu ponto de vista, esta história permite ao aluno o transporte para um mundo imaginário, 

visto que, para além dos momentos onde é evidente o maravilhoso, a presença duma cultura 

diferente,  de  costumes  que  não  estão  familiarizados,  faz  com  que  o  aluno  crie  um  mundo 

paralelo, mas que não lhe causa sensação de insegurança porque em nenhum episódio existem 

situações que provoquem o medo ou sentimento de perigo. Através do desfecho final, a criança 

sente-se serena, pois a situação que a apavorava foi resolvida. Desde modo, compreende que os 

bons são sempre recompensados e que os maus são penalizados e que se quer ser beneficiado 

na vida, terá de ter «comportamentos bons». 

Como não fica traumatizada nem ansiosa com a experiência da leitura, o aluno sente-se disposto 

a ler autonomamente e mais vezes. Este sentimento é uma mais-valia para a área curricular da 

língua portuguesa e para as suas sessões de estudo autónomo que o farão beneficiar em todo o 

plano curricular. 

- A dimensão perfeita. Apesar de esta obra não estar fracionada em capítulos, como a que foi 

trabalhada durante a PES, ela é facilmente lida na totalidade numa aula de dois blocos/tempos 

(noventa minutos). Como se despende menos tempo para a leitura, é possível dar mais ênfase à 

interpretação e exploração. Fazer com a turma uma análise mais completa, incluindo momentos 

de resumo, debate, sugestões para finais ou alterações na narrativa. E não só, também podemos 

fazer conversas em torno de tópicos relacionados com a moral tendo como tópicos: a punição 

física, a morte, o roubo, etc. 




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