Maria helena trindade lopes



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Georges Hacquard

DICIONÁRIO DE MITOLOGIA GREGA E ROMANA

TRADUÇÃO

MARIA HELENA TRINDADE LOPES

Profiessora auxiliar de Civilizações Pré-Clássicas, História Comparada das

Religiões e Egípcio Hieroglífico da Universidade Nova de Lisboa

TITULO ORIGINAL GUIDE MYTHOLOGIQUE DE LA GRÈCiE ET DE ROME

(@) 1990, Hachette

DIRECÇÃO GRÁFICA DA COLECÇÃO

JOÃO MACHADO

Este livro foi composto em caracteres Helvética por

Maria da Graça Manta, Lisboa

e impresso e acabado na

Divisão Gráfica das Edições ASA Rua D. Afonso Henriques, 742 - 4435 Rio Tinto

1 .@ edição: Novembro de 1996

PREFÁCIO À EDIÇÃO PORTUGUESA

O "Dicionário de Mitologia Grega e Romana", da autoria de Georges Hacquard, constitui um marco importante neste tipo de produção literária destinada ao grande público.

O maior dos méritos do autor é, sem dúvida, ter conseguido apresentar sínteses perfeitas de cada um dos heróis, lugares ou deuses da mitologia, sem recorrer àquilo que é mais vulgar neste tipo de obras: a simplificação superficial que conduz à confusão e à mistura abusiva de tradições e de autores.

G. Hacquard demonstra, efectivamente, ter um conhecimento profundo das diferentes tradições relativas a cada um dos heróis ou deuses da mitologia, alertando-nos constantemente para o autor ou fonte literária referida. Assim, as narrativas de Homero não são confundidas com as de Hesíodo ou dos trágicos gregos ou ainda com as de autores posteriores como Calímaco ou Pausânias.

Por outro lado, o seu conhecimento das línguas (grega e latina) permite-lhe explicitar, muitas vezes, a partir da raiz do nome dos heróis ou deuses, a personalidade destes. Uma personalidade que é veiculada pelo nome.

Importa, também, salientar a metodologia utilizada para a apresentação dos grandes heróis da Antiguidade: Aquiles, Hércules, Jasão e Teseu, por exemplo, nascem e morrem perante o nosso olhar. Também aqui o autor não optou pela simplificação superficial que leva, habitualmente, a apresentar uma síntese das características do herói e, eventualmente, a sua intervenção num ou noutro acontecimento relevante. Héracies, por exemplo, desabrocha, cresce, avança, ama e morre e nós podemos sentir todo o seu percurso vivencial e individual, integrado numa determinada conjuntura. Podemos sentir a História. A História daquele tempo e a história do herói individual.

Georges Hacquard é, sem dúvida, um "poeta" apaixonado pela mitologia que tão bem conhece e apresenta. Essa paixão, essa preferência individual, é notada e sentida em algumas rubricas. O caso de Apolo é bem paradigmático desta situação. A escrita do autor complexifica-se, torna-se menos fluente, mais poética e, por isso, mais difícil de seguir e de acompanhar. Podemos, talvez, afirmar que a sensibilidade do autor e a sensibilidade da personagem contribuíram, em uníssono, para a criação de algumas das mais belas páginas desta obra.

O "Dicionário de Mitologia Grega e Romana" é, sem dúvida, uma obra fundamental para todos aqueles que pretendem conhecer melhor a mitologia greco-romana e que pretendem fazê-lo, com prazer, com rigor e com seriedade.

MARIA HELENA TRINDADE LopES

Ácamas -,,

, Ácamas era filho de Teseu, rei de Atenas, e de Fedra, sua mulher (ela própria, filha do rei de Creta, Minos).

Quando Teseu partiu em campanha com o seu amigo Pirítoo (em primeiro lugar para raptar Helena, ainda uma menina, que ele entregou à sua própria mãe Etra, e depois Perséfone, que ele tratou de arrancar aos Infernos), confiou o trono de Atenas aos seus filhos Ácamas e Demofonte. Mas Castor e Pólux, irmãos de Helena, intervieram e, enquanto Teseu esteve prisioneiro nos Infernos, eles libertaram a sua irmã, capturaram Etra, expulsaram os filhos de Teseu e substituíram-nos no trono por Menesteu, descendente de Erecteu. Ácamas e Demofonte retiraram-se, então, para a ilha de Ciros. Foi lá que seu pai, depois de libertado, os reencontrou e morreu.

Quando Helena, entretanto casada com Menelau, foi de novo raptada, mas desta vez por Páris, filho de Príamo, rei de Tróia, foi a Ácamas que Menelau apelou, no sentido de negociar com Tróia o regresso de Helena, para junto de seu marido.

A presença de Ácamas na corte de Tróia não passou despercebida aos olhos de uma das jovens princesas, "a mais bela das filhas de Príamo e de Hécuba", Laódice. Esta, profundamente apaixonada por Ácamas, confidencia os seus ardores à mulher do rei de Dárdano, em Tróade. A Rainha irá, então, sugerir ao seu marido convidar Acamas e Laódice para um banquete. A jovem, apresentada como uma cortesã de Príamo, é sentada ao lado do jovem grego e, ainda a noite não tinha terminado, já os dois se tinham unido, amorosamente. Desta união irá nascer Múnito, que a mãe de Teseu, Etra - ela tinha acompanhado Helena à corte de Príamo - terá por missão educar.

A embaixada de Ácamas não teve outro sucesso senão este. E a guerra

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Adónis


de Tróia começou então. Ácamas participou nela, assim como o seu irmão Demofonte, na esperança de libertar a sua avó. Ácamas passa, mesmo, por ter sido um dos numerosos guerreiros que se esconderam no interior do cavalo de madeira.

Obtida a vitória, resgatadas Helena e Etra - esta última graças aos seus netos que a reconheceram no meio dos cativos dos Gregos - Ácamas regressa à Ática. À morte de Menesteu, irá recuperar o trono de Atenas, que ocupará com grande sabedoria. (As aventuras de Ácamas são, por vezes, atribuídas ao seu irmão, Demofonte.)

Adónis 1,

A lenda, de origem síria, conta que a rainha da Síria tinha uma filha, Mirra (ou Esmirna), que ela admirava tanto, a ponto de a proclamar superior em beleza à própria deusa da beleza. Afrodite não gostou e decide vingar-se, inspirando a Mirra um amor criminoso pelo seu próprio pai. Assim, a jovem, com a cumplicidade da sua ama, consegue introduzir-se, de noite, incógnita, no leito do rei e unir-se com ele.

Ter-se-á este apercebido da burla, exprimindo então a intenção de condenar a sua filha à morte, ou terá sido Mirra, que fugiu, envergonhada, após a consumação do incesto? Qualquer que seja a resposta, a verdade é que os deuses tiveram piedade da jovem e decidiram transformá-la numa árvore: a árvore da mirra, cujas gotas não são senão as lágrimas da própria Mirra.

Nove meses mais tarde, a crosta da árvore estalou, e dela saiu uma criança de extraordinária beleza: quem a voltasse a nomear não deveria dar-lhe outro nome senão o de "belo Adónis". (De uma palavra semítica que significa "senhor".)

As ninfas adoptaram-no e educaram-no no meio da natureza. Um dia, Afrodite viu-o e - vingança justa de Mirra - experimentou por ele toda a violência do desejo, imediatamente partilhado. O casal tornou-se, a partir de então, inseparável.

Ora Ares, que há muito tempo se encontrava apaixonado por Afrodite, irritou-se com a paixão que uni mortal despertara na deusa do amor. E a fim

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Adónis


de eliminar este rival demasiado ditoso, resolveu insuflar-lhe a sede da aventura, a procura do perigo.

Foi assim que um dia Adónis, de arco na mão, partiu sozinho para a caça, apesar das súplicas da sua amante. A certa altura da caçada surge-lhe um javali, que investe contra ele, derrubando-o e provocando-lhe uma ferida mortal. Alertada por Zéfiro, a deusa precipita-se ao encontro do seu amado, ferindo os pés nas espinhas das rosas brancas que se tingem imediatamente de púrpura. Mas chegou demasiado tarde, não assistindo ao último suspiro do seu jovem amado. Perdida de dor, e para que a lembrança de Adónis e da sua beleza se perpetuassem sobre toda a terra, Afrodite transformou as gotas de sangue que se derramavam da sua ferida mortal, em anémonas.

Após este incidente, a deusa criou em homenagem a Adónis uma festa fúnebre, que as mulheres sírias deviam celebrar, em cada Primavera. O rio da Fenícia que banhava Biblos (e a que os Gregos irão chamar Adónis) tomou, a partir deste momento, a cor do sangue (este rio, chamado hoje Nahr-1brahim, recebe as chuvas de terras ferruginosas).

Entretanto, Adónis tinha descido aos Infernos. A sua deslumbrante beleza mantinha-se e a deusa Perséfone, ao vê-lo, apaixona-se imediatamente. Afrodite não consegue suportar esta nova e ainda mais pungente dor. Dirige-se a Zeus e suplica-lhe que intervenha a seu favor. Então, o rei dos deuses decidiu que Adónis viveria um terço do ano nos Infernos, outro terço com Afrodite e que, durante o último terço, seria livre de escolher o seu local de permanência. Curiosamente, Adónis opta por passar mais este período de quatro meses junto de Afrodite.

Da Síria, o culto de Adónis ter-se-á expandido para todo o Oriente, Grécia e bacia do Mediterrâneo. Encarnando o cicio da vegetação, o filho de Mirra desce ao reino dos mortos nos quatro meses de Inverno, para renascer na Primavera. A sua fresca e virginal beleza, exposta à hostilidade de um clima devorador, é votada ano após ano à destruição.

Os "Jardins de Adónis" evocam, à sua maneira, a vida brilhante e efémera do favorito de Afrodite (igualmente recordada por mais de uma obra-de-arte: telas de Ticiano, Rubens, Poussin, esculturas de Miguel-Ângelo, Canova, etc.)

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Afrodite


Afrodite EMO

Afrodite é uma divindade de características orientais, cujo culto foi provavelmente introduzido na Grécia pelos Fenícios, a partir das suas feitorias, Uma delas estabelecera-se na ilha de Cítera, próxima do Peloponeso. Por estas razões, Afrodite é muitas vezes assimilada à deusa fenícia Astarte.

A deusa da beleza Deixando trabalhar a sua imaginação sobre o nome, de origem asiática, da deusa, que para eles evocava a palavra aphros (espuma), os Gregos criaram a lenda de Afrodite nascida da espuma das ondas, depois da mutilação de úrano. Zéfiro, o vento fresco que sopra de oeste, avistou-a quando ela saía das ondas, não muito longe da Palestina. (Elateria dado o seu nome hebraico, Yafa, que significa "Beleza", àantiga cidade de Jafa.) Jamais se tinhavisto uma beleza tão deslumbrante: a sua pele era de uma brancura do leite, os seus cabelos eram de ouro, os seus olhos cintilavam, as suas formas eram verdadeiramente harmoniosas e libertava do seu corpo um perfume de flor.

Zéfiro recolheu-a numa concha de madrepérola e conduziu-a à ilha de Chípre. Aí, entregou-a nas mãos das Horas, as estações benéficas, que a educaram e depois a vestiram com roupagens preciosas, ornando-a com jóias, a fim de a conduzir junto dos imortais.

Quando ela apareceu no Olimpo, os deuses, extasiados de admiração, proclamaram-na deusa da beleza e do amor. O poder de Afrodite irá manifestar-se em todo o Universo. A sua soberania exercer-se-á sobre o céu e sobre o mar, sobre as plantas e sobre os animais, sobre os homens e sobre os deuses.

As outras deusas, no entanto, viram com algum desagrado a completa submissão, extasiada, dos deuses e dos homens perante Afrodite (se bem que Hera, por exemplo, não tivesse nenhum escrúpulo em pedir à deusa o seu cinto ornado de ouro, dotado de um irresistivel poder, quando queria reconquistar os favores do seu volúvel marido). E, um dia, elas aproveitaram a ocasião para lhe disputar a sua coroa. Durante o banquete de núpcias de Tétis e de Peleu, para o qual os deuses tinham sido convidados, a Discórdia, Eris, lançou para o meio dos convivas uma maçã, na qual figurava a inscrição: "à mais bela". Hera e Atena opuseram-se, imediatamente, a Afrodite, cada uma delas reivindicando a maçã e o título. Zeus convenceu-as a remeter esta

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Atrodite


questão à apreciação de um mortal, e foi eleito como juiz o Troiano Páris, filho do rei Príamo.

Hermes conduziu as três deusas junto dele, numa altura em que este vigiava os seus rebanhos no monte Ida, na Frigia. Hera fez valer a sua arrogante beleza e ofereceu a Páris o Império da Ásia; Atena, dotada de uma beleza severa, garantiu a invencibilidade do príncipe troiano; Afrodite, soltando as fivelas que prendiam a sua túnica, desnudou o seu peito e prometeu a Páris o amor da mais bela mulher do mundo.

Sabemos qual foi o julgamento de Páris: Afrodite recebeu a maçã e o Troiano, em recompensa, conseguiria seduzir a bela Helena, esposa do rei de Esparta, Menelau. Este episódio marcou a origem da guerra de Tróia, horrível carnificina na qual Hera e Atena participaram, ao lado dos Gregos, a fim de vingar o seu despeito. Quanto a Afrodite, combateu no campo troiano -

salvando, particularmente, Páris no decurso de um combate singular contra Menelau - tendo, entre outros motivos, o facto de Eneias, seu filho, se encontrar entre os guerreiros de Tróia.

A deusa do amor Com efeito, a deusa inspiradora do amor não era, por sua vez, invulnerável. Assim, a beleza "digna dos deuses" do Troiano Anquises fascinou-a, a ponto de ela lhe dar um filho. Este, após a queda de Tróia, ficou responsável pela perpetuação da sua raça e da sua pátria, transferindo-as para Itália, no Lácio, onde, mais tarde, os seus descendentes fundariam Roma.

A primeira paixão de Afrodite parece ter sido inspirada pelo jovem Adónis, cuja morte trágica ela chorou amargamente. Mais tarde, seduz Faetonte, filho de Eos, e faz dele o guarda-nocturno do seu santuário. Amou ainda, igualmente, Cíniras, rei de Chipre, conferindo-lhe opulência e longevidade.

Mas os caprichos de Afrodite não pouparam sequer o Olimpo. Com efeito, após a sua aparição, todos os deuses se sentiram tomados por uma paixão súbita, mas foi Hefesto, o mais desfavorecido de todos, que a levou ao altar. É evidente que a deusa não perdeu tempo, nem teve dificuldades para encontrar, no mesmo lugar, outros divertimentos e compensações. Assim, seduziu Hermes, que lhe deu um filho, cujo nome simboliza a união dos seus dois nomes: Hermafrodito. Mas a sua grande paixão foi Ares, deus da guerra, de quem teve numerosos filhos, entre os quais figura Eros, o malicioso perturbador do coração dos deuses e dos homens.

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Afrodite



Assim, é com profundo conhecimento de causa que Afrodite se dedica a suscitar o desejo amoroso entre os homens e os deuses, levando-os, por vezes, à loucura. É ela que provocará um desvario criminoso no espírito de Helena, induzindo-a a abandonar a sua pátria. É ela que causará uma alucinação transgressora no espírito de Medeia e de Ariana, levando-as a atraiçoar o seu pai. É ela que conduzirá Fedra a uma paixão incestuosa, para já não falar de Pasífae, a quem inspirou uma união monstruosa. Para além de tudo isto, e vingando-se daquilo que ela considerava ser uma homenagem insuficiente à sua personagem, condenou Leda e toda a sua descendência a paixões cruéis e sangrentas.

No entanto, ela é bem benevolente para todos aqueles que a veneram. Concede beleza e sedução ao marinheiro Fauno, a fim de que ele possa conquistar o amor da poetisa Safo, e dá vida à estátua de marfim esculpida por Pigmalião, rei de Chipre.

O cortejo de Afrodite Afrodite, igualmente chamada Cípris (a Cipriota, sendo o seu principal centro de culto Pafos, uma antiga colónia fenícia, situada na ilha de Chipre) ou Citereia (do nome da ilha de Cítera, onde ela gostava de viver: conhecemos o célebre Embarque para Cítera, terra dos amores), é acompanhada de um cortejo de servidores e de servas que encarnam os prazeres e o encanto do mundo. Entre elas encontram-se as Cárites, que têm uma personalidade e atributos bem definidos: a estas três Graças compete velar pela toilete da deusa e garantir a sedução e a alegria à sua volta.

Afrodite foi, sucessivamente, representada envolta em finos véus, seminua e integralmente nua (a partir de Escopas e de Praxíteles, séc. iv a. C.). Os artistas (como Botticelli, Ticiano, Velásquez, Rubens, etc.) apresentam-na, geralmente, envolvida nas suas flores preferidas, a rosa e a murta, e acompanhada dos seus animais favoritos, as pombas, que ela atrelava ao seu ágil carro.

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Agamémnon



Agiamémon

Agamémnon e o seu irmão Menelau, os Átridas, ou seja, os filhos de Atreu, rei da Argólida, foram expulsos do seu país após o assassinato de seu pai, tendo-se refugiado na corte de Esparta, onde Menelau desposa Helena, a filha do rei Tíndaro.

Quando morreu Tiestes, que tinha sucedido ao seu irmão Atreu no trono, Agamémnon apoderou-se do poder, depois de ter matado o seu primo (herdeiro do rei defunto) e o filho deste, recém-nascido. Em seguida, obrigou a jovem viúva a desposá-lo. Esta era precisamente a irmã de Helena, Clitemnestra, irmã dos Dióscoros, igualmente.

Quando estes tiveram conhecimento das perversidades de que Clitemnestra era vítima, foram pedir contas a Agamémnon, o qual preferiu procurar refúgio junto de Tíndaro. E a corte de Esparta assistiu a uma reconciliação geral. Agamémnon e Clitemnestra tiveram três filhos, Ifigénia, Electra e Orestes. Mas a sua união estava amaldiçoada.

Logo que Páris, filho do rei de Tróia, Príamo, raptou Helena e que foi decidida uma expedição punitiva contra este, Agamémnon foi escolhido como chefe supremo, "rei dos reis". A guerra de Tróia sobrecarregou-o de sofrimentos e de responsabilidades assustadoras. Logo na partida, a deusa Ártemis, para se vingar de Agamémnon, proibiu os ventos de soprar sobre as velas dos navios gregos, impedindo assim a partida da expedição. E Agamémnon teve de aceitar sacrificar a sua filha Ifigénia, para apaziguar a cólera da deusa.

Durante o cerco e no decurso de uma razia em solo neutro, Agamémnon raptou a filha de um sacerdote de Apolo, Criseida, e o deus vingou-se do sacrilégio, espalhando a peste sobre o campo dos Gregos. Então, Agamémnon decide entregar a cativa, mas exige que Aquiles, em compensação, lhe ceda Criseida. O conflito entre os dois homens - Aquiles, furioso, recusa tomar parte nos combates - vai custar muito sangue e muitas lágrimas à armada grega. Por fim, estes acabam por reconciliar-se, após a morte de Pátroclo, o amigo de Aquiles, e a cidade de Tróia será tomada, pilhada e incendiada.

Agamémnon traz para o seu país um saque considerável, no qual está incluída uma das mais belas filhas de Príamo, a jovem profetiza Cassandra, pela qual se apaixonará.

Ora, no decurso dos dez anos que tinha durado a guerra, Clitemnestra tinha cedido às solicitações de Egisto, filho de Tiestes, a quem ela tinha con-

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Ájax


fiado, interinamente, o poder. No regresso vitorioso do "rei dos reis", Egisto recebe-o com grande pompa, oferece um banquete em sua honra e, no fim, manda Clitemnestra degolá-lo durante o banho. Cassandra, que tinha previsto a sua própria morte e a de Agamémnon, sofrerá o mesmo destino.

Agamémnon será, mais tarde, vingado pelos seus filhos: Electra dará, a Orestes, as armas com que ele matará a sua mãe e o seu amante.

A primeira parte da trilogia de Ésquilo, a Oresteia (458 a. C.), é consagrada ao regresso trágico de Agamémnon, e intitula-se precisamente Agamémnon.

Ájax


O nome Ájax foi dado a dois heróis gregos, um e outro combatentes na guerra de Tróia. Só os distinguimos através do nome dos seus pais: Ájax, filho de Oileu, e Ájax, filho de Téiamon, este último beneficiando, ainda, de outro nome, "Ájax, o Grande". Eles não têm entre si nenhuma relação familiar, a não ser o facto de Oileu, segundo uma certa tradição, ter desposado em segundas núpcias a irmã de Téiamon.

Ájax, filho de Oilou, rei dos Lócrios, é pequeno, rápido - Homero chama-o Ájax, o rápido - e combate com o arco. É um homem corajoso, mas de personalidade difícil: turbulento, cruel e, por vezes, ímpio. É ele que, no decurso da última noite de Tróia, tendo retirado à força, do templo de Atena, a profetiza Cassandra, que aí se tinha refugiado, será responsável pela terrível tempestade enviada pela deusa, na qual um grande número de navios aqueus serão destruídos. Tendo, ele próprio, escapado ao naufrágio, tem a arrogância de se vangloriar, desafiando, assim, os deuses. Atena, encolerizada, fulmina-o. Mas a sua vingança vai mais longe e abate-se, igualmente, sobre todos os Lócrios. A deusa envia sucessivas epidemias sobre a Lócrida e estas não poderão ser acalmadas a menos que, todos os anos, fossem enviadas para Tróia duas jovens gregas, a fim de serem sacrificadas no altar da deusa ultrajada.

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Alceste


Ájax, filho de Télamon, rei de Salamina é, depois do seu primo Aquiles, o mais valente e o mais vigoroso dos guerreiros gregos. É um homem de estatura elevada, belo, senhor de si e pouco falador; rude, mas piedoso e benevolente. É esta benevolência que o leva a acolher Pirro, filho de Aquiles, como seu próprio filho. Mas quando este exige as armas de Aquiles, Ájax: responderá que elas tinham sido destinadas por Tétis, mãe de Aquiles, ao mais valoroso dos Gregos ou, pelo menos, àquele que tivesse inspirado aos Troianos o maior temor.

Os prisioneiros troianos são, então, interrogados, elegendo Ulisses como o mais aterrador de todos os guerreiros. Na noite seguinte, obcecado pela sua decepção, Ájax, o grande, foi tomado de uma súbita crise de demência e, acreditando estar a matar Menelau e todos os seus, massacrou os rebanhos que alimentavam a armada grega. De manhã, ao dar conta do seu acto, não pôde suportar a desonra e suicidou-se, enterrando a própria espada no coração.

Sófocles consagrou a Ájax uma das suas tragédias (c. 450 a. C.; as despedidas da vida do herói são uma página de antologia), que imita o Imperador Augusto, poeta nas suas horas vagas.

Éaco


oileu + Aicímaco Peleu Téianion

Ájax, "O Pequeno" Aquiles Ájax, "O Grande"

Os dois Ájax

Alceste ;wz a ':tU'@;>'z@""-@'â'

Alceste, uma das quatro filhas do rei Pélias, que reinava em lolco, na Tessália, era a mais piedosa e também a mais bela de todas elas.

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Alceste



Acimeto, rei de Feres, a cidade vizinha, e filho de um meio-irmão de Pélias, não teve repugnância em ser seduzido pela deslumbrante formosura da sua prima e pediu a sua mão em casamento. Mas Pélias impôs-lhe como prova preliminar, conseguir atrelar na mesma canga, do carro real, um javali e um leão. Por sorte, Acimeto dispunha de um servidor eficaz em vários domínios, o deus Apolo, que Zeus lhe tinha enviado em penitência. Acimeto dirige-se, então, a Apolo que lhe faz a atrelagem exigida, permitindo-lhe assim casar com a sua amada.

O deus consegue ainda que o seu protegido seja dispensado de morrer no dia fixado pelo destino, se alguém, nesse mesmo dia, se sacrificasse em seu lugar.

Acimeto e Alceste irão formar um casal exemplar, tanto nas suas relações conjugais - eles terão três filhos - como nas relações com a sua família. Graças a isto, Alceste foi a única das filhas de Pélias a recusar prestar-se à maquinação de Medeia que, sob pretexto de restituir a juventude ao jovem rei, tinha obrigado as suas filhas a matá-lo e a deixá-lo arder, esquartejado, num caldeirão.

O tempo vai passando e chega a hora marcada para Acimeto morrer. Ninguém se apresenta para o substituir no Hades. E, então, Alceste decide oferecer a sua vida em troca da do marido.

Ora Héracies, que tinha sido o companheiro de Acimeto na expedição dos Argonautas, passa por Feres na altura em que toda a cidade chora a morte da rainha. Nesse mesmo instante, ele resolve descer aos Infernos e

- Perséfone, por seu lado, também tinha sido tocada pelo sacrifício da incomparável esposa traz de volta, a Acimeto, uma Alceste mais jovem, mais bela e mais apaixonada do que nunca.

Eurípedes consagrou uma tragédia (430 a. C.) à lenda de Alceste, que inspirou ainda as tragédias líricas de Lully (1674) e de Gluck (1767).

Creteu + Tiro Posídon

Éoson Feres Pélias Neleu

1 1 1 Jasão Admeto + Alceste Nestor

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Almena


Almena

Zeus tinha decidido, diz Hesíodo, "ter um filho que fosse um dia o defensor, simultâneo, dos imortais e dos humanos". Para o conseguir, ele escolheu a mais virtuosa, a mais inteligente e também a mais bela das jovens, Alcmena, esposa do general Anfitrião.

Alcmena - "A vigorosa" (gaba-se, particularmente, a sua alta estatura) - e Anfitrião eram primos, nascidos de dois dos filhos de Perseu, a primeira de Eléctrion, rei de Micenas, o segundo de Alceu, rei de Tirinto.

Quando Eléctrion, atacado pelos filhos de Ptérelas, que reivindicavam o seu reino, viu o seu país devastado, as suas manadas arrebatadas, os seus próprios filhos mortos em combate, resolveu ir, ele próprio, atacar Ptérelas, na sua ilha de Tafo.

Antes da partida do rei, Anfitrião (a quem o seu tio tinha confiado o trono assim como a guarda da sua filha Alcmena) foi resgatar as manadas roubadas, mas no momento em que ele as conduzia para junto de Eléctrion, uma vaca enfureceu-se. Anfitrião vibrou-lhe, imediatamente, um golpe na cabeça, mas a arma ressaltou e foi ferir o rei, que caiu redondamente morto.

Assassino, ainda que por acidente, Anfitrião foi obrigado a exilar-se, levando consigo Alcmena por quem se apaixonara, para casarem. Mas a jovem recusou ceder aos seus ardores enquanto a vontade de vingança de seu pai, junto de Ptérelas, não fosse executada.

Uma vez purificado do seu homicídio, Anfitrião procurou e obteve alianças, especialmente a dos Tebanos, junto de quem tinha procurado refúgio e, por amor de Alcmena, irá atacar Ptérelas no seu reino. Ele deveria matá-lo e derrotar, completamente, as suas tropas.

Ora, enquanto ele regressava a Tebas (depois de cumprida a sua missão), ao encontro de Alcmena, que não poderia já resistir ao seu amor, Zeus introduziu-se de noite (uma noite que ia durar tanto como três dias) no quarto da jovem, fingindo ser o seu marido vitorioso, e beneficiou da sua gratidão e dos seus ardores tanto tempo retidos.

De manhã, quando o verdadeiro Anfitrião regressou, ficou desiludido ao

encontrar uma esposa muito pouco apaixonada. E ela, por seu lado, zangou-se ao ver que o seu marido não recordava os seus recentes enlevos. A tensão tornou-se insustentável e, então, os dois decidiram consultar o adivinho tebano Tirésias, que lhes deu a chave do enigma.

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Almena


Perseu

Mestor


Hipótoo

r LUI e Ias

Esténeio

Eléctrion

. - _ ião + Almena + zeus

Euristeu


íficies

Hei acies

Assim, Alemena - que sofreu, ainda, o ódio de Hera - deu à luz dois gémeos: um, íficles, era filho do seu marido; o outro, Héracies, que se tornou o mais ilustre de todos os heróis da mitologia grega, era filho de Zeus.

A vida de Héracies, perseguido por Hera e pelo seu cúmplice, Euristeu, primo de Alcmena e de Anfitrião foi, desde o seu nascimento, uma sucessão de provas, frequentemente gloriosas, mas sempre dolorosas, às quais foi associada, de vez em quando, a sua mãe.

Quanto a esta, depois da sua viuvez e da morte dos seus filhos, partirá para Atenas a fim de escapar à animosidade persistente de Euristeu. Quando este morreu (às mãos de lolau, filho de ificies), Alcmena pediu que lhe trouxessem a sua cabeça e arrancou-lhe os olhos com a ponta dos seus fusos.

Então, decidiu regressar a Tebas. Segundo uma certa tradição, ela teve, ainda, um segundo marido, Radamante, filho de Zeus e de Europa, que se tornou juiz dos Infernos. Quando morreu, com uma idade avançada, Zeus conduziu-a à ilha dos Bem-Aventurados. Alcmena teria sido a última das mortais a usufruir dos favores do rei dos reis.

A aventura romanesca de Alcmena com Zeus deu origem a um número considerável de obras literárias (desde as célebres comédias de Plauto (c. 200 a. C.), às de Molière (1668), intituladas Anfitrião, assim como as de Dryden, Anfitrião ou os dois sósias (1690) e de Kleist, Anfitrião (1807), que Giraudoux assegura ter apreciado, visto que intitulou a sua peça (na qual a virtuosa Alcmena ignora até ao fim ter pertencido ao rei dos deuses) Anfitrião 38 (1929).

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Amalteia



Amalteia

Amalteia alimentou, com leite de cabra, o bebé divino, Zeus, quando ele nasceu, em Creta. Certos autores apresentam Amalteia como a esposa do rei de Creta; outros vêem-na como uma ninfa, que teria dependurado o jovem deus numa árvore, a fim de que o seu pai Cronos não o pudesse encontrar "nem no céu, nem sobre a terra, nem no mar".

Uma outra tradição considera Amalteia como sendo, simplesmente, a cabra que alimentou a criança, e que tinha entre outros dons o de assustar só com a sua presença os estrangeiros, os deuses e os mortais.

Em recompensa pelos seus bons serviços, Zeus irá imortalizá-la, juntamente com dois dos seus cabritos, lançando-os ao céu, onde foram transformados em estrelas. Um dos seus cornos receberá a propriedade de se fartar até à saciedade de tudo aquilo que pudesse ser desejado, tornando-se assim no famoso "corno da abundância", que irá, ele próprio, fazer parte do número dos astros.

Quanto à pele do animal, Zeus tornou-a impermeável aos golpes e fez dela um escudo, a égide (a palavra vem do nome grego da cabra: aix, aigos) que utilizou pela primeira vez quando da revolta dos Titãs. Estes gelaram de horror perante a sua visão. Mais tarde, Zeus irá oferecer este escudo à sua filha, Atena.

A cabra Amalteia é representada na maior parte dos quadros evocativos da infância de Zeus (Poussin, museu de Berlim; Jordaens, museu do Louvre).

Amazonas

Povo mítico de mulheres, governado por uma rainha e não admitindo homens na sua cidade senão como servos, as Amazonas, vindas do Cáucaso, estabeleceram o seu reino na Capadócia (Ásia Menor).

Elas descendiam do deus da guerra Ares e, por isso, as suas paixões

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Amazonas



eram a guerra e a caça. As Amazonas veneravam, particularmente, a deusa Ártemis, de quem seguiam, escrupulosamente, o exemplo (atribui-se-lhes a fundação da cidade de Éfeso e do famoso templo de Ártemis, uma das maravilhas do mundo antigo).

Uma vez por ano, elas aceitavam no seu reino a presença de homens, a fim de assegurar a sua descendência, mas matavam ou mutilavam todos os recém-nascidos do sexo masculino. As filhas retiravam o seio direito', a fim de lhes permitir manejar o arco mais comodamente.

Segundo a lenda, as Amazonas aparecem, constantemente, em oposição aos Gregos. Belerofonte é um dos heróis que irá lutar contra estas mulheres guerreiras. Essa luta constitui uma das provas a que ele deverá submeter-se, por ordem do seu sogro, o rei da Lícia. Este combate resultará num grande massacre das Amazonas.

Héracies é outro dos heróis que deverá enfrentar as Amazonas. A sua missão consiste em roubar o cinto encantado que Hipólita, rainha das Amazonas, tinha recebido do deus Ares e que era o símbolo do seu poder.

A fim de evitar uma guerra, a rainha consente em desfazer-se do objecto em questão, mas Hera, com a sua maldade e intriga, consegue provocar um confronto, obrigando Héracies a conquistar pela força o cinto encantado, matando a sua proprietária.

Certos autores afirmam que é no decurso dessa expedição que Teseu, companheiro de Héracies, rapta a irmã de Hipólita, Antíope, que ele engravida (o recém-nascido será herdeiro do nome de sua tia). Para punir Teseu -

deste rapto, dizem uns; da infidelidade do herói, que foi ao ponto de desposar Fedra, dizem outros -, as Amazonas avançaram sobre a Ática, entraram em Atenas, acamparam na colina que mais tarde terá o nome de um dos seus antepassados divinos (Areópago=colina de Ares), mas foram vencidas por Teseu.

No decurso da guerra de Tróia, um contingente de Amazonas partiu em socorro dos Troianos. Aquiles intervém no combate e mata a rainha das Amazonas, Pentesileia. Conta-se que logo que ele viu o seu rosto e a sua beleza,

1 Amazona significaria, assim: privada de um seio; mesmo que se considere o prefixo a como um aumentativo, de qualquer modo a palavra significa: mamal, e aplica-se então, perfeitamente, a Ártemis de Peso. Se não tivermos em conta a etimologia da palavra, o nome Amazona é dado hoje em dia às mulheres que montam a cavalo.

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Anfíon



sentiu o seu coração atravessado de amor e de piedade. Assim, quando Aquiles morreu, as Amazonas decidiram saquear o seu túmulo na ilha Branca, no Ponto Euxino. Mas a sombra do herói apareceu-lhes e elas fugiram, apavoradas.

As Amazonas são modelos por eleição da estatuária antiga: frisos do templo de Apolo em Bassae, do Mausoléu de Halicarnasso; Amazona ferída de Policieto (séc. v a. C.), réplicas nos Museus de Berlim e do Capitólio. Cf. igualmente a tela de Rubens (Pinacoteca de Munique): Batalha das Amazonas (1619). '

Anfíon 4,5

Anfíon, herói das primeiras lendas tebanas, e o seu irmão Zeto, são os filhos gémeos de Antíope e de Zeus, que se disfarçou de sátiro a fim de seduzir a jovem princesa. Veremos, no artigo consagrado a Antíope, como ela fugiu do palácio paterno, como foi salva e depois capturada e maltratada por seu tio Lico que, entretanto, se apoderara do trono.

Os seus dois filhos, nascidos em Eleutério, na Beócia, no decurso do seu regresso forçado a Tebas, foram abandonados numa gruta do monte Cíteron, mas os pastores recolheram-nos e educaram-nos.

Zeto dedicava-se a exercícios violentos, à luta e à caça assim como aos trabalhos do campo. Anfíon, mais doce do que o seu irmão, inclinava-se para a música, praticando na lira que Hermes lhe oferecera.

Quando se tornaram adultos, os dois irmãos decidiram vingar a sua mãe e afastaram o seu carrasco do trono de Tebas. A partir de então, passaram a governar a cidade. E, para a proteger, fortificaram-na de uma forma "mágica". Zeto transportou os rochedos, enquanto Anfíon tocava a sua lira, cujos sons induziam as pedras, encantadas, a colocar-se, por si próprias, nos sítios certos.

Anfion casou com Níobe, filha de Tântalo, que lhe deu muitos filhos (a lenda hesita entre dez, doze ou vinte). Orgulhosa da sua fecundidade, Níobe não receou ofender Leto, mãe de Apolo e de Ártemis. Estes não suportaram a

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Antíloco


ZEUS

Antíope


Anflon

Pluto


i di [aio

Imiobe


Leto

Apolo


afronta feita à sua mãe e trespassaram com flechas todos os filhos de Níobe (com excepção de uma filha que casará com Neleu, rei de Pilos; um dos seus filhos, Nestor, será poupado por Apolo que lhe permite viver três gerações, a fim de compensar o massacre da sua família). A infeliz, perdida de dor, foi transformada, por Zeus, numa rocha colocada num monte árido da Ásia Menor. E, a partir de então, dessa rocha brotará uma nascente inesgotável, que se alimentará das lágrimas contínuas de Níobe.

Quanto a Arifion, foi morto por uma flecha de Apolo. Segundo alguns, ao mesmo tempo que os seus filhos; segundo outros, algum tempo depois quando, em consequência do massacre a que assistira, enlouqueceu, tendo saqueado o templo de Apolo.

Antíloco

Antíloco, filho de Nestor (rei de Pilos, célebre pela sua sabedoria), e o seu irmão Trasímedo, acompanharam o seu velho pai na guerra de Tróia. Ele era, então, o mais jovem dos Aqueus, mas também (segundo Menelau), o mais valente e o mais rápido,

Antíloco era, depois de Pátroclo, o melhor amigo de Aquiles: foi ele que lhe anunciou a morte de Pátroclo e que lhe limpou as primeiras lágrimas.

Quando, no decorrer de um combate, Antíloco viu o seu pai, Nestor, ameaçado por Mémirion (filho de Eos e sobrinho de Príamo), precipitou-se

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Antíope


em seu socorro, acabando por ser ferido mortalmente. Mais tarde, Aquiles vingá-lo-á, matando Mémnon.

Diz-se que os três amigos, sepultados lado a lado e reunidos, após a morte, pela eternidade, prosseguiram, no além, a sua vida agitada de festins e de combates.

Antíopo : ---IIIII, , 1 --..- 1

Antíope era filha do tebano Nicteu. Este, à morte do rei de Tebas, foi escolhido como regente, visto que o herdeiro do trono, Lábelaco, tinha somente um ano de idade.

Certo dia, Zeus, surpreendido pela beleza excepcional da jovem, não resistiu e seduziu-a no seu leito sob a forma de um sátiro. Quando Antíope se viu grávida, temendo a cólera de seu pai, fugiu do palácio, indo refugiar-se no monte Cíteron, onde Epopeu, o tirano de Sícion, na Argólida, a encontrou. Este, por sua vez, comovido e deslumbrado com a jovem, recebeu-a no seu palácio e desposou-a.

Nicteu, considerando-se desonrado, suicidou-se, mas antes escolheu o seu irmão Lico para o substituir no poder e na vingança. Este declarou guerra a Epopeu, matou-o e reconduziu Antíope, acorrentada, de volta para Tebas. No caminho, em Eleutério, Antíope deu à luz dois gémeos. Lico abandonou-os para que eles fossem devorados pelos animais selvagens, mas os pastores recolheram-nos e educaram-nos, dando-lhes os nomes de Anfion e Zeto.

Durante anos, Antíope teria sido ultrajada e torturada cruelmente por Lico e, sobretudo, por sua esposa, Dirce. Ora, uma noite, as suas correntes desprenderam-se milagrosamente, permitindo-lhe a liberdade. Antíope fugiu, dirigindo-se imediatamente para o lugar onde viviam os seus filhos, já adultos. Mas Zeto, tomando-a por uma escrava em fuga, recusou-se a escutá-la e enviou-a de volta para Tebas. Dirce, que tinha vindo celebrar no Cíteron o culto de Dionísio, que ela venerava particularmente, encontrou-se, de repente, na presença de Antíope. Imediatamente a capturou, com a intenção de, desta vez, a mandar matar.

Entretanto, o pastor que tinha recolhido os gémeos confirmou-lhes que Antíope era a mãe deles: os dois irmãos partiram, então, à sua procura, arran-

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*/*


Apolo

cando-a das mãos de Dirce. Depois, prenderam esta, pelos cabelos, aos cornos de um touro selvagem (é o tema do célebre grupo do museu de Nápoles chamado Touro Farnésio) e, no fim, atiraram o seu corpo retalhado para uma fonte.

Quanto a Lico, foi morto pelos gêmeos ou perdoado, graças à intervenção de Hermes? O que é certo é que ele entregou o trono de Tebas a Anfion.

Depois da vingança de seus filhos, Antíope, devido à intervenção de Dionísio que era favorável a Dirce, enlouqueceu durante um certo tempo e andou perdida pela Grécia. Acabou por ser curada por Foco, um neto de Sísifo, que ela encontrou em Titoreia e com quem casou. O seu túmulo comum perto do monte Parnaso é objecto de veneração.

As aventuras de Antíope inspiraram vários artistas, desde a Antiguidade; destacamos, no entanto, a noite de amor com Zeus, transformado em sátiro (Rafael, no Vaticano, Ticiano e Watteau, no Louvre).

Z A p o 1 o w @, @.@zyf@

Apolo é um dos dois filhos gêmeos de Zeus e de Leto (que Hesíodo apresenta como uma divindade da noite). A sua irmã Ártemis é a deusa da lua, enquanto ele é o senhor do sol (na Antiguidade, distinguia-se o deus do sol, do próprio deus sol, Hélios, o astro solar).

De Delos a Deifos Apolo nasceu na ilha de Ortígia, uma ilha flutuante que vai fixar-se no centro do mundo grego e tomar o nome de Delos, "A Aparente". No momento do seu nascimento, todas as deusas que estavam reunidas à volta de Leto, soltaram gritos de alegria; depois, lavaram o recém-nascido e envolveram-no em linho branco. Témis alimentou-o com ambrosia e néctar, e Apolo rapidamente se mostrou dotado de uma força invencível e de uma beleza surpreendente.

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Apolo


Então, Zeus ofereceu ao seu filho um carro puxado por cisnes e Hefesto enviou-lhe flechas, especialmente forjadas para o seu uso. Assim, alguns dias depois do seu nascimento, Apolo, acompanhado por sua irmã, decidiu viajar a fim de escolher o lugar onde estabeleceria o seu culto. O seu carro conduziu-o ao país dos Hiperbóireos, no norte da Grécia, onde ele se demorou algum tempo, partindo depois em direcção ao monte Parnaso, na companhia de Ártemis. Ao chegar, Apolo encontrou, numa caverna, um monstro que Hera, com ciúmes de Leto, tinha contratado para se vingar da sua rival e dos seus filhos. Este monstro tinha a forma de uma serpente e era o guardião de um antigo oráculo. Esta, ao aperceber-se da l5resença de Apolo, investiu contra ele, mas o jovem deus, infalível, matou-a, deixando o seu corpo apodrecer no próprio lugar, que passou a ser conhecido como Pito (do verbo grego que significa: apodrecer), enquanto que a serpente foi apelidada de Píton. Mais tarde, Apolo institui, em honra da sua vítima, os jogos fúnebres conhecidos como Jogos Píticos. Entretanto, o deus foi forçado a exilar-se um certo tempo, a fim de expiar o seu homicídio. Dirigiu-se, então, com a sua irmã, para a Tessália, fixando-se no aprazível vale de Tempo, entre os montes Olimpo e Ossa.

Uma vez purificado nas águas de Peneu, Apolo regressou à sua terra de eleição, a fim de tomar posse e reactivar o velho oráculo de Píton. Mas entretanto, o deus vislumbrou, no alto mar, um navio cretense e decidiu, imediatamente, atrair os seus ocupantes para o seu culto. Para esse efeito, transformou-se num golfinho, e saltando à frente do navio, conduziu-os para o seu domínio. Ao chegarem, Apolo retomou o seu verdadeiro aspecto e fez destes homens seus sacerdotes, instruindo-os nos segredos dos imortais. Mas como eles continuaram sempre a chamar-lhe golfinho (delphis), esse lugar passou a ser conhecido pelo nome de Delfos.

Os combates de Apolo As aventuras e as proezas atribuídas a Apolo são inumeráveis. Enfrentou Héracles quando este, descontente com o oráculo, se apoderou do tripé sagrado onde se encontrava a sacerdotisa de Delfos, a Pítia. Zeus viu-se, então, obrigado a intervir, como mediador, a fim de que o confronto entre os seus dois filhos tivesse fim.

No decurso da campanha contra Tróia, Agamérnrion raptou Criseida, filha do sacerdote de Apolo, e o deus decidiu vingar-se, espalhando uma epidemia de peste entre os Gregos, e obrigando o seu chefe a libertar a cativa.

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Apolo


Apolo não tolerava afrontas, mas quando não fazia uso do seu arco e das suas flechas, dedicava-se à música. Um dia, o sátiro Mársias decidiu desafiar Apolo no domínio musical. Midas, rei da Frígia, juntamente com as Musas, foram escolhidos como árbitros deste concurso. As Musas pronunciaram-se a favor de Apolo, mas Midas preferiu a flauta dupla de Mársias à lira do deus. Como castigo, Apolo dotou-o de umas orelhas de burro. Quanto ao sátiro, o deus mandou suspendê-lo num pinheiro e esfoiá-lo vivo.

Apolo gozava, no Olimpo, de protecções privilegiadas. O seu pai Zeus dedicava-lhe uma afeição muito particular. Assim, quando o deus do sol se manifestava, todos os imortais se erguiam imediatamente, e enquanto a sua mãe o aliviava das suas armas, o rei dos deuses ofertava-lhe uma taça de néctar. Então, Apolo, com a sua beleza surpreendente, fazia brotar da sua lira sons verdadeiramente divinos, acompanhados em coro pelas Musas. E logo todo o Olimpo se punha a cantar e a dançar.

Esta realidade não impediu, no entanto, que Apolo entrasse em conflito com Zeus.

A primeira vez foi quando Apolo participou numa conspiração organizada por Hera. Esta, cansada e ofendida com as infidelidades do seu marido, convenceu Posídon e Apolo a acorrentarem-no. Mas Tétis fez abortar o golpe de Estado, pedindo ajuda ao temível Briareu, o gigante com dez mãos. Zeus, furibundo, condenou o seu irmão e o seu filho a um certo tempo de servidão, às ordens do rei de Tróia, Laomedonte. Posídon foi encarregado de construir as muralhas da cidade de Tróia e Apolo de guardar os rebanhos do rei. Quando estes terminaram o seu trabalho, Laomedonte recusou-se a pagar-lhes o seu salário e ameaçou-os, dizendo que lhes cortava as orelhas no caso de insistirem. Então, Posídon soltou um monstro devastador e Apolo difundiu a peste por toda a região.

O segundo conflito entre Apolo e o seu pai foi desencadeado pelo rei do Olimpo. Com efeito, Zeus, cansado de ver o deus da medicina, Asclépio, ressuscitar os mOrtos, pondo assim em causa o cicio da natureza, decidiu fulminá-10 com um rMo. Mas Asclépio era o filho preferido de Apolo, que se vingou, imediatamente, matando os ciciopes que tinham fabricado o raio assassino. Então, Zeus, @ Or sua vez, puniu o seu filho com um novo exílio na terra, colocando-o ao sí rviço de Acimeto, rei de Feres, na Tessália. Este beneficiou da ajUda de ApoP @ não só como boieiro das suas manadas (graças a ele, as vacas prOcriavam di as vezes por ano), mas também como interveniente na prova a

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Apolo



que Acimeto deveria sujeitar-se, a fim de conquistar a mão de Alceste, filha do rei de loico. Esta prova consistia em atrelar numa mesma canga, um javali e um leão. Apolo forneceu ao seu senhor a atrelagem exigida e AcImeto pôde assim desposar a princesa.

Os amores de Apolo Apolo não foi insensível ao amor, muito embora a tradição não lhe atribua nenhuma união legítima. Ele amou e foi muito amado, mas apesar de tão dotado de dons, quer físicos quer espirituais, conheceu várias vezes seguidas o sofrimento e a humilhação. 1

A ninfa Dafrie, filha da Terra, foi a primeira a repelir os avanços do deus. Um certo dia, quando Apolo decidira vergá-la ao seu amor, a ninfa fugiu. Mas o deus perseguiu-a e encontrou-a. E quando se preparava para prendê-la com as suas mãos robustas, esta, desesperada, pediu ajuda a sua mãe, a Terra, que se abriu e fechou sobre Dafrie. Nesse mesmo lugar, nasceu algum tempo depois um loureiro (em grego: daphné) e Apolo transformou-o numa árvore sagrada, a árvore apoliniana, por excelência.

Creúsa, filha do rei de Atenas, Erecteu, apanhava flores nas encostas da Acrópole, quando foi vista por Apolo. Este, imediatamente apaixonado, agarrou-a e conduziu-a a uma gruta, onde a submeteu ao seu desejo. Creúsa engravidou e quando deu à luz o seu filho, decidiu abandoná-lo. Mas Hermes, por ordem de Apolo, recolheu a criança, conduziu-a a Delfos e entregou-a à sacerdotisa. Pouco tempo depois, Creúsa casou com o tessaliano Xuto, mas a sua união parecia estéril. Então, o casal decidiu deslocar-se a Delfos para consultar o oráculo. Este respondeu-lhes que a primeira pessoa que encontrassem ao sair do santuário, seria o seu filho. Ora, a primeira pessoa que eles viram foi íon, o filho que Apolo tinha dado a Creúsa. Mas Xuto, ignorando esta situação, decidiu adoptar a criança. Entretanto, a sua afeição pelo jovem ia crescendo, perante o olhar desesperado de Creúsa que, certo dia, decidiu envenenar o intruso. Mas uma nova intervenção divina veio revelar, finalmente, a ligação entre íon e Creúsa (este é o tema da tragédia íon de Eurípides). Assim, íon dará o seu nome ao ramo "ioniario" da raça helénica, enquanto que Aqueu, o filho tardio de Xuto e Creúsa, será o antepassado dos Aqueus.

Corónis era filha do rei dos Lápidas. Apolo desejou-a e possuiu-a, mas a princesa ficou grávida e, temendo não manter o amor do deus durante toda a

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Apolo



vida, decidiu desposar um mortal. Acontece que Apolo foi informado da notícia por um corvo (o nome Corónis em grego significa gralha) e ficou tão furioso que começou por maldizer o mensageiro, cuja plumagem se tornou instantaneamente negra. Depois, condenou Corónis e o seu marido à morte. Mas estavam os dois cadáveres a arder na pira fúnebre, quando o deus veio retirar do corpo da mãe, o seu filho, ainda vivo. Asclépio foi então confiado ao centauro Quiron, que lhe ensinou a arte da medicina. Entretanto, o rei Régias, pai de Corónis, decidiu vingar-se de Apolo, avançando sobre Delfos e incendiando o templo. Mas o deus puxou do seu arco e enviou o sacrílego para o Tártaro, onde a sua presunção foi punida com um tormento eterno,

Outra mortal amada pelo deus do sol foi Cassandra, uma das filhas de Príamo, rei de Tróia. Apolo ensinou-lhe a ciência profética, a troco de ela ceder à sua paixão. Mas, uma vez iniciada, Cassandra recusou-se a cumprir a sua promessa. No entanto, ainda permitiu um beijo ao seu apaixonado, e este aproveitou a ocasião para depositar na sua boca uma maldição: as profecias de Cassandra nunca seriam tomadas a sério, por ninguém.

Podemos citar ainda Marpessa, filha do rei da Etólia, que Apolo pretendeu roubar a Idas, o homem que ela amava. Foi preciso que Zeus interviesse para que Marpessa pudesse escolher, livremente, entre os seus dois pretendentes. Mas a jovem, temendo ter de enfrentar um dia, quando já fosse velha, a infidelidade de um deus eternamente jovem, decidiu sabiamente partilhar a vida com um mortal.

Existiu, ainda, uma outra mortal que se esquivou à paixão de Apolo: Castália, uma jovem de Delfos que preferiu precipitar-se numa fonte a ceder aos desejos do deus, Esta fonte passou, a partir de então, a ter o seu nome e a ser consagrada a Apolo.

Mas o deus do sol também se apaixonou por jovens do sexo masculino. Um deles foi Jacinto, filho do rei da Lacónia. Acontece que o jovem suscitou o mesmo amor aos ventos Báreas e Zéfiro. Assim, quando um dia Jacinto se exercitava rio manejo do disco, em companhia de Apolo, os dois ventos, ciumentos, desviaram o objecto lançado pelo deus na direcção da cabeça de Jacinto, que morreu instantaneamente. Mas do sangue da ferida provocada pelo golpe nasceu a flor que imortalizou o nome do infeliz: o jacinto.

Ciparisso, filho de Télefo e neto de Héracies, foi também um dos favoritos de Apo16. Este jovem príncipe tinha por companheiro um veado domesticado, que Wia as suas delícias. Mas certo dia, por descuido, o jovem matou-

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Apolo


-o com uma lança e, desesperado com o seu acto, implorou a morte. Apolo teve piedade e transformou-o numa árvore de folha persistente que, desde então, simboliza um luto sem tréguas: o cipreste.

As atribuições de Apolo Apolo, embora não pertença à primeira geração dos Olímpicos, é considerado, na Antiguidade, como uma das divindades mais importantes do seu panteão.

Os seus atributos são de tal modo vqriados, que Apolo parece resumir, na sua personalidade, diferentes divindades com origens bem distintas: asiáticas, gregas ou cretenses. Por isso, ele é objecto de veneração em todo o mundo antigo. Os seus santuários multiplicam-se, muito embora Delos e Delfos sejam os mais importantes.

No entanto, a sua faceta mais importante é a de deus solar, como podemos verificar pelos seus epítetos: "O Dourado", o deus "com cabelos de ouro" e, sobretudo, "o brilhante", que os romanos transformaram em Febo. Vemo-lo percorrer a terra, ano após ano, recriando a sua primeira viagem, para alcançar no fim do Outono os países nórdicos dos Hiperbóreos e regressar na Primavera à sua residência de Delfos onde, durante o Verão, o sol brilha como em nenhuma outra parte da Grécia.

A sua faceta de deus solar torna-o um deus benéfico e purificador. É ele que faz germinar a vida e espalha a felicidade, apresentando-se por isso, quer como um deus pastoril quer como um deus poeta e músico, o Musageta (o condutor das Musas).

Como divindade da luz, Apolo deverá combater a obscuridade e, por essa razão, o seu oráculo tem por missão projectar a claridade sobre as sombras que roubam aos humanos o conhecimento. Mas o sol benéfico e purificador pode ser, também, um agente de destruição. Deste modo, os raios solares eram entendidos, pelos gregos, como flechas assassinas disparadas pelo cruel arqueiro. As mesmas flechas que, certamente, mataram todos os filhos da arrogante Níobe. É esta faceta da personalidade do deus que pode, de resto, explicar o seu nome (o verbo grego apoilumi significa destruir).

Apolo surge-nos, assim, como um deus simultaneamente criador e destruidor. Mas a tradição órfica irá apresentá-lo, sobretudo, como o símbolo da ordem universal, a encarnação da harmonia.

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Aqueloo



Nenhuma outr@ divindade da Antiguidade foi tão representada como Apolo. Ele é, inIutavelmente, representado como um homem de rara beleza, de cabelo encaracolado e proporções perfeitas. Aparece quase sempre nu, salvo quando é apresentado como citarista (então é coberto com uma túpica comprida). O Apolo antigo, dito "de Belvedere", influenciou Miquei-Ãngeio e todos os escultores italianos do Renascimento. Rodin, Bourdelle e Despiau mostraram-se, também, sensíveis à sedução de Apolo, assim como muitos pintores (de Rafaci a Boucher e a Deiacroix) e músicos (Stravinski, Apolo musageta, bailado, 1928; a lenda de Dafrie, contada por Ovídio, inspirou um acto lírico a Richard Strauss, 1938).

Aqueloo


Primogénito entre os três mil deuses-rios, filho dos Titãs Oceano e Tétis, Aqueloo, considerado o maior rio da Grécia (limitando a Acarnénia e a Etólia), era venerado como o rei de todos os cursos de água. (Cinco outros rios da Grécia e da Grande-Grécia usam o seu nome e este acaba por tornar-se mesmo, entre os Gregos, num sinónimo de rio.)

O oráculo de Delfos convidava os fiéis a fazer sacrifícios em honra deste deus fecundante, que era também nomeado nos juramentos. Citava-se, a propósito, o destino funesto das quatro filhas do adivinho Equino que, tendo esquecido a invocação do deus nas suas orações, tinham sido arrastadas para o mar pela corrente furiosa e metamorfoseadas em ilhas, as Equínades.

Devido às suas numerosas uniões, Aqueloo tornou-se pai de múltiplas e diferentes crianças, as ninfas das nascentes - como Calirroe, Castália e talvez Pirene - e, Igualmente, as Sereias, que lhe teriam sido dadas por Melpómene, a Muta da Tragédia.

A lenda insisk no episódio que opõe Aqueloo a Héracies que, como ele, pretendia a mão de Dejanira, filha do rei da Etólia, Eneu. Vencido num primeiro momento, AquOloo apelou ao seu poder de transformação, que era inerente à maior parte dAs divindades aquáticas. Assim, atacou de novo o seu rival,

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Aquiles


sob a forma de uma serpente, que Héracies procurou estrangular. Depois, na forma de um touro. Mas Héracies persistia em vencê-lo, e no combate terminal Aqueloo perdeu um corno, no qual alguns reconhecem o corno da abundância.

Aqueloo é representado quer como um dragão marinho, quer na forma de um touro com rosto humano, quer ainda na forma de uma personagem barbuda com cornos de touro. 1

O rio é nomeado nos nossos dias com o nome de Aspropotamos.

Aquiles


Aquiles, o maior dos heróis gregos, é filho de Peleu, rei da Riótida, na Tessália. Pela parte de seu avô Éaco, ele descende de Zeus (alguns dizem de Posídon). Curiosamente, os vassalos de Peleu são chamados Mirmidões, desde que Zeus, desejoso de dar um povo a Éaco, transformou uma colónia de formigas (myrmex), em homens.

A mãe de Aquiles é a Nereide Tétis, neta da Terra e do Mar, apesar de Aquiles poder ser considerado como descendente pessoal da Terra Primordial e do Céu (por parte de seus pais), assim como do mar (por parte de sua mãe).

Zeus e Posídon desejaram ambos conquistar Tétis. Mas o oráculo revelou que o filho que nascesse da Nereide seria mais poderoso do que o seu próprio pai. Perante esta revelação, os deuses resolveram casar Tétis com um mortal, e todo o Olimpo assistiu às núpcias de Tétis e de Peleu.

lnfãncia e adolescência de Aquiles Entretanto, Tétis, desde que os seus filhos nasceram, só tinha um pensamento: purificá-los de todas as características mortais, que eles tinham herdado de seu pai. Assim, mal as crianças nasciam, Tétis tentava purificá-Ias pelo fogo, mas elas morriam, inevitavelmente, queimadas. Isto aconteceu com os seis primeiros filhos, para grande desespero de Peleu. Por isso,

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Aquiles


Geia

Úrano


Ponto

Cronos Reia

Oceano Tétis

Asopo Dóris

Nereu

Zeus(l) + Egina + Actor(2)



Éaco

Téiamon


O Grande Ájax

Peleu + Tétis

Aquiles

Menécio


Pátroclo

ele decidiu salvar o sétimo, o pequeno Ligiron, custasse o que custasse. Assim, quando ele viu que Tétis se preparava para atirar a criança ao fogo, retirou-lha das mãos. No entanto, esta ainda queimou um dos ossos do pé.

Então, Peleu entregou o recém-nascido ao seu amigo, o centauro Quíron, que vivia no sopé do monte Pélion, na Tessália, onde exercia a medicina (foi Quiron que deu a Ligiron o nome de Aquiles). O centauro substituiu a parte queimada do pé da criança, por um osso retirado de um esqueleto de gigante (a operação iria dotar Aquiles de extraordinárias aptidões para a corrida, justificando assim o epíteto que lhe foi dado, mais tarde, por Homero, o de herói "Com Pés ligeiros").

Uma Outra versão, menos cruel, da lenda contava que Tétis, desejosa de conceder a imortalidade a Aquiles, o tinha mergulhado nas águas do Estige, o rio infernal, Mas ela não reparou que o calcanhar pelo qual agarrava a criança

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Aquiles


tinha escapado à purificação mágica. E assim, este calcanhar ficou sempre como a parte vulnerável do seu corpo'.

O centauro Quiron encarregou-se da educação do jovem. Alimentou-o com o mel das abelhas, com medula dos ursos e dos javalis e com vísceras de leões. Ao mesmo tempo, iniciou-o na vida rude, em contacto com a natureza; exercitou-o na caça, no adestramento dos cavalos, na medicina e também na música e, sobretudo, obrigou-o a praticar a virtude. Aquiles tornou-se um adolescente muito belo, louro, de olhos vivos, intrépido, simulta0eamente capaz da maior ternura e da maiQr violência.

Peleu deu ainda ao seu filho um segundo preceptor, Fénix, um homem de grande sabedoria, que instruiu o príncipe nas artes da oratória e da guerra. Juntamente com Aquiles foi educado Pátroclo, filho do rei da Lócrida, Menécio. Os dois rapazes acabaram por tornar-se amigos inseparáveis.

Aquiles era ainda adolescente quando rebentou a guerra de Tróia. Mas a adivinha Calcas, depois de consultada, informou que a cidade inimiga não seria destruída se Aquiles não participasse no confronto.

Apavorada, Tétis tratou de disfarçar o seu filho de mulher e enviou-o para a corte do rei Licomedes, na ilha de Ciros, para que ele fosse educado no harém, junto das princesas, disfarçado com o nome de Pirra (a loura).

Entretanto, os Gregos enviaram Ulisses como embaixador à corte de Peleu, a fim de que ele trouxesse o indispensável Aquiles, mas como este não o encontrou, recorreram a Calcas, que lhes revelou o embuste. Ulisses disfarçou-se então de mercador e dirigiu-se ao palácio de Ciros, conseguindo entrar no gineceu. Aí expôs, perante os olhos maravilhados das princesas, os mais ricos adornos. Mas, entre os tecidos e as jóias, estava escondida uma espada. Ao vê-ia, a pretensa Pirra empunhou-a imediatamente, precipitando-se para fora do palácio com a arma na mão e revelando, assim, o seu sexo e a sua natureza impetuosa.

Entretanto, uma das filhas de Licomedes, que já há muito tempo conhecia a verdadeira identidade de Aquiles, apresentou-se grávida, mas o nascimento do seu filho só acontecerá após a partida do herói. Este recebeu o nome de Neoptólemo e o cognome de Pirro (masculino de Pirra).

1 A expressão "o calcanhar (ou o tendão) de Aquiles" significa o ponto fraco de uma pessoa.

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Aquiles


Ulisses conduziu então Aquiles para junto de seus pais. Tétis, assustada com o insucesso do seu estratagema, fez insistentes recomendações a seu filho: a sua vida seria tanto mais longa quanto mais obscura ele a mantivesse. Mas Aquiles recusou os conselhos de sua mãe. Nada lhe importava mais do que o brilho da glória e, por mais que os oráculos previssem a sua morte em Tróia - como consequência de ter matado um filho de Apolo - ele não descansou enquanto seu pai não lheconcedeu um exército e umafrota. Peleu dotou-o então com cinquenta navios e confiou-lhe as armas que os deuses lhe tinham oferecido no dia do seu casamento.

Aquiles partiu, levando consigo o seu fiei preceptor Fénix, assim como o seu amigo Pátroclo, que se tornará no seu inseparável companheiro de armas.

Aquiles em acção No decorrer do desembarque, efectuado por engano na Mísia, que os Gregos confundiram com Tróia, Aquiles feriu com a sua lança o rei do país, Télefo, filho de Héracies. Mais tarde, no entanto, graças aos seus conhecimentos de medicina, curou-o.

Regressados ao porto de Élis - oito anos mais tarde - para se reagruparem após esta expedição fracassada, os Gregos foram imobilizados pela calmaria dos ventos. Agamémnon, o chefe do exército, tendo sabido através do oráculo que os ventos não soprariam a não ser que sacrificasse a sua filha Ifigénia, imaginou que a melhor maneira de a atrair, sem suspeitas, seria propondo-lhe casamento com Aquiles. Quando o herói teve conhecimento do embuste em que fora envolvido sem saber, censurou violentamente o "rei dos reis": e esta será a primeira querela com Agamémnon.

Após o cumprimento do sacrifício de Ifigénia, os deuses permitiram aos ventos que soprassem, e assim a frota grega pôde navegar, fazendo escala na ilha de Tenedo, ao largo de Tróia. O rei da ilha, Tenes, ter-se-á simplesmente oposto ao desembarque dos Gregos ou terá tentado antes proteger a sua irmã das intenções de Aquiles? Qualquer que seja a resposta, a verdade é que ele foi morto pelo herói. Mas acontece que Tenes era filho de Apolo, e embora Aquiles lhe tenha prestado um serviço fúnebre cheio de pompa, não podia, todavia, escapar ao destino que lhe tinha sido vaticinado.

Durante nove anos, Gregos e Troianos estiveram envolvidos em escaramuças sem grandes consequências. No decorrer deste período, os invasores

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Aquiles


aproveitaram para efectuar expedições de pirataria nas ilhas e cidades vizinhas de Tróia. Podemos destacar, entre elas, a incursão na Mísia, em que Aquiles matou o pai de Andrómaca, Eécion, e os seus sete filhos, enquanto Agamémnon se apoderou da filha do sacerdote de Apolo, Criseida e, ainda, a expedição a Lirmesso, onde Aquiles capturou a bela Briseida, que tornou sua serva.

A cólera de Aquiles No decurso do décimo ano de guerra, Aquiles e Agamémnon envolveram-se em grande disputa. Tudo isto porque, ,como Agamémnon se vira obrigado a libertar a filha do sacerdote, Criseida, exigira como compensação a serva de Aquiles. Injuriado, furioso, Aquiles decidiu abandonar a guerra e retirou-se para o seu acampamento, pondo assim em causa a possível vitória dos Gregos. A história da coléra de Aquiles, em Tróia, é o tema da Xada, a obra mais lida de toda a Antiguidade, que é responsável pela enorme notoriedade do herói grego.

A situação dos Gregos não tardou a tornar-se aflitiva. Aquiles resistiu, ferozmente, às súplicas de Ulisses e mesmo de Fénix, mas deixou-se comover pelas lágrimas de Pátroclo, autorizando o seu amigo a utilizar as armas de Peleu e a reconduzir os Mirmidões em combate. Acontece que, neste confronto, Pátroclo acabará por encontrar a morte às mãos de Heitor, marido de Andrómaca, o mais valente dos filhos do rei Príamo.

Enlouquecido de dor, Aquiles saltou, sem armas, para o campo de batalha, produzindo um tal bramido, que o exército troiano se escondeu atrás das suas muralhas. A sua contenda com Agamémnon fora esquecida, pois agora Aquiles só pensava em vingar a morte de Pátroclo. Acontece que ele já não tinha as armas que lhe tinham sido dadas por seu pai. Elas encontravam-se na posse de Heitor. Mas sua mãe, Tétis, encarregou Hefesto de lhe forjar uma nova armadura. E assim as vítimas de Aquiles serão tantas que irão atulhar o leito do rio Escamandro.

Mas é Heitor que Aquiles persegue com o seu ódio, e que pretende sacrificar em homenagem a Pátroclo. Certo dia acaba por surpreendê-lo, derrotando-o num combate singular e matando-o. Depois, prendeu o cadáver ao seu carro e, com ele, deu a volta às muralhas de Tróia. E só largou o corpo ensanguentado e desfeito, quando o velho Príamo lhe veio suplicar indulgência.

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Aquiles



A tradição pós-homérica acrescentou, ainda, outras proezas a Aquiles. Entre estas podemos destacar a sua luta contra a rainha das Amazonas, Pentesileia, que veio com as suas tropas em socorro dos Troianos e perdeu a vida às suas mãos. No último momento, quando Aquiles viu o rosto da sua vítima inflamado por uma súbita e impossvel paixão, chorou sobre o seu corpo.

Relata-se, igualmente, o seu encontro com Mérnnon, filho da Aurora, que terminou com a morte do Troiano, e foi uma fonte inesgotável de lágrimas para sua mãe.

A morte de Aquiles Apesar da valentia e dos feitos de Aquiles, a fatalidade não podia deixar de acontecer. A morte do grande herói da Antiguidade é apresentada em duas versões diferentes. Uma relata-nos que ele morreu em combate, ferido no calcanhar por uma flecha assassina, atirada por Páris, mas guiada por Apolo, vingador do seu filho Tenes.

A outra versão, mais romanesca, diz-nos que o herói se apaixonou por Polixena, a filha mais jovem do rei troiano e que, por amor dela, esteve quase a abandonar a causa dos Gregos. Certo dia, Aquiles encontrou-se com a jovem num templo de Apolo, muito próximo de Tróia, mas Páris, irmão de Polixena, surgiu empunhando o seu arco e, vendo o seu inimigo numa postura galante feriu-o, fácil e cobardemente, com uma flecha no calcanhar. Os Gregos, persuadidos de que Polixena tinha organizado uma cilada, ao apoderarem-se da cidade de Tróia, desvaneceram-se à sua procura. Pirro, filho de Aquiles, que os Gregos tinham ido buscar para que tomasse o lugar de seu pai no exército, descobriu-a e imolou-a sobre a sepultura do herói.

Aquiles, após a morte, recebeu a justa recompensa por toda uma vida de feitos heróicos e de combates. Zeus, a pedido de Tétis, conduziu-o à ilha dos Bem-aventurados, onde ele casou com uma heroína (cita-se Medeia, Ifigénia, Polixeria, e mesmo Helena: da sua união com esta, teria nascido um filho alado, Euforião, que é identificado com a brisa da manhã).

Na Antiguidade, Aquiles foi venerado como o modelo de herói por excelência. Um herói simultaneamente belo, robusto e corajoso, que tentou sempre elevar-se acima da sua simples condição de mortal (os estóicos, no entanto, condenaram o seu temperamento violento, muitas vezes escravo das suas paixões). Por isso, ele foi venerado em todo o mundo grego, embora o

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Árcade


centro do seu culto se tenha fixado nas margens do mar Negro. Confirma-se que o seu túmulo se encontrava numa ilha deste mar, a ilha Branca (Leuké), igualmente chamada "Aquileia".

As obras literárias em que Aquiles aparece como herói são abundantes (Para além da Ilíada e da Odisseia - onde acompanhamos a vida de Aquiles no Inferno -, podemos destaca[, ainda, a Ifigénia em Áulis, tragédia de Eurípides, "imitada" mais tarde por Racine (1674) e transformada em ópera por Gluck (1774), O Aquileide, poema épico de Stace, etc.); e as artes plásticas (pinturas de vasos, esculturas, etc.) deleitam-se sempre (cf. telas de Rubens, Teniers, Ingres, Delacroix) com as suas múltiplas façanhas.

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Árcade era filho de Zeus e da ninfa Calisto, que foi transformada em ursa (para escapar ao furor ciumento de Hera), sendo por isso criado e educado pela ninfa Maia, mãe de Hermes.

Alguns autores afirmam que o seu avô materno, o cruel rei Licáon, o matou ainda criança, servindo-o depois, em banquete, ao seu pai Zeus. Mas o deus vingou-se, destruindo o palácio e transformando Licáon num lobo. Depois, ressuscitou o seu filho.

Mais tarde tornou-se rei da Arcádia, ensinando aos seus súbditos a arte de cultivar a terra, de amassar o pão e de fiar a lã.

À sua morte, os seus três filhos partilharam entre si o reino de Árcade. Certo dia, quando Árcade caçava, deparou subitamente com uma ursa, que parecia contemplá-lo. O herói preparou-se imediatamente para a abater com uma flecha, não sabendo que se tratava de sua mãe. Mas Zeus, vigilante, deteve o seu braço. Depois, transformou Árcade no guarda dos ursos, transportando em seguida a mãe e o filho, finalmente reunidos, para o céu, onde os colo-

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Ares



cou entre as constelações. (A estreia Arcturo - do grego arctouros, de arctos: ursos e ouros: guarda - está situada na cauda da Ursa Maior.)

Ares


Filho de Zeus e de Hera, de quem terá herdado o carácter intratável (segundo seu pai), Ares nasceu na Trácia, o país das laranjas, dos cavalos e dos guerreiros. Ele pertence à geração dos doze grandes deuses do Olimpo, sendo venerado como o deus da guerra e da luta. A sua força física invulgar correspondia à sua fúria sanguinária. (Relacionamos o seu nome com a raiz grega arque significa: destruir.)

Ares era completamente obcecado pela luta. Deleitava-se a percorrer com a sua quadriga os campos de batalha, coberto com uma armadura de bronze e munido com uma enorme lança, espalhando o terror. Habitualmente era acompanhado por Éris, a Discórdia, e pelas sombras Kéros, sequiosas de sangue fresco.

Todo o Olimpo se afastava dele e o seu próprio pai não lhe escondia a sua antipatia. Curiosamente, o seu maior inimigo, como ele filha de Zeus, era Atena, deusa da razão, com quem entrava frequentemente em conflito. Ela dominava-o e atormentava-o facilmente, pois a violência de Ares era tão primária nas suas manifestações, tão pouco subtil, que o colocava assiduamente em situações humilhantes. Recordemos, a propósito, a sua captura pelos dois gigantes Aloídas, que o prenderam durante treze meses num vaso de bronze, até que Hermes o veio libertar. Mas a pior de todas as suas humilhações foi-lhe infligida por Hefesto.

Hefesto era casado com Afrodite, que o traiu exactamente com o deus da guerra. Ora, para evitar que o sol, ao despertar, revelasse o seu segredo, Ares colocou como sentinela o seu favorito Alectrião. Mas, certa manhã, este adormeceu, e então Hélio descobriu o casal e avisou Hefesto. Furioso, o deus do fogo e da metalurgia lançou sobre os amantes uma rede invisível, a fim de os aprisionar. Depois convocou todas as divindades do Olimpo, para que elas assistissem ao despertar dos culpados e ao seu embaraço. Mais tarde, Ares, por vingança, transformou o seu favorito num galo que, a partir desse dia, vigiaria e anunciaria, pontualmente, o nascer do sol.

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Ares


Afrodite foi, sem dúvida, o seu grande e único amor entre as imortais, a ponto de Ares se comportar como um amante possessivo e ciumento, desembaraçando-se ardilosamente dos seus rivais, como Adónis, a quem ele inspirou a paixão pela aventura, conduzindo-o assim à morte. Desta união ilícita nasceram diversas crianças (destacamos, entre outras, a Harmonia e o malicioso Eros, mas também o povo guerreiro das Amazonas, descendente de Ares, é apresentado, por vezes, como nascido de Afrodite). Apesar disto, Ares contraiu outras uniões, mas a sua posteridade não conheceu uma sorte invejável. Os filhos nascidos destes amofes são, todos eles, apresentados como seres sem grande importância, seres violentos e salteadores.

Flégias, por exemplo, incendiou por vingança o templo de Delfos, sendo morto por Apolo. Diomedes, que alimentava os seus cavalos com carne humana, acabou, ele próprio, por servir de repasto a estes animais. E o obstinado Meleagro só conheceu uma vida de provações e dificuldades. E, finalmente, a infortunada Alcipe foi violentada por um filho de Posídon, que Ares posteriormente matou. Mas Posídon procurou vingar-se, conduzindo-o perante o tribunal dos deuses, que se reuniu no próprio sítio do crime, numa colina de Atenas. Apesar de tudo, o assassino beneficiou de circunstâncias atenuantes, não sendo por isso sacrificado. E a colina onde se realizou o julgamento recebeu o nome de colina de Ares, o Areópago, servindo doravante de sede dos processos de carácter religioso.

Ares (os Romanos deram-lhe o nome de Marte) foi representado pelos escultores e pintores de todos os tempos (Roma, museu Borghèse e Paris, Louvre). Citemos, entre aqueles que o associaram a Afrodite (Vénus): Piero di Cosimo (Berlim), Botticelli (Londres), Mignard (Avigon), Le Brun (Louvre), Poussin (Louvre), Véronèse (Turim), Boucher (Londres); e entre aqueles que o pintaram na companhia de Atena (Minerva): Véronèse (Berlim), David (Londres), etc. Velásquez consagrou-lhe uma tela célebre (Madrid, museu do Prado).

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Aristeu



Aretusa

A ninfa Aretusa é uma das companheiras de Ártemis. O deus-rio Alfeu, que tentou em vão seduzir a deusa, acabou por apaixonar-se pela sua companheira quando, certo dia, a viu banhar-se nas suas águas, depois do esforço de uma caçada. Para a conquistar, ele resolveu dedicar-se também à caça, mas Aretusa, fiei ao seu voto de castidade, fugiu, escondendo-se na Sicília. No entanto, Alfeu perseguiu-a e a ninfa viu-se obrigada, para lhe escapar, a transformar-se numa fonte (na região de Siracusa). Segundo uma das versões da lenda, o deus acabou por possuí-Ia, ao misturar as suas águas com as dela.

O rosto de Aretusa figura numa moeda de Siracusa (c. 480 a. C.). Uma página das Metamorfoses de Ovídio de Benjamin Britten (compositor contemporâneo) é-lhe consagrada.

Aristeu MODO

A ninfa Sirene era filha do rei dos Lápitas, na Tessália. Certo dia, quando ela caçava perto do monte Pélio, Apolo viu-a e imediatamente a raptou, transportando-a no seu carro para a Líbia. Desta união "forçada" nasceu um filho, Aristeu.

Aristeu foi confiado às Horas - as Estações - que o alimentaram de ambrosia e de néctar. Mas segundo uma outra tradição, teria sido o centauro Quíron e as Musas que o tinham educado, instruindo-o em diversas artes: a agricultura, a medicina e a adivinhação.

Mais tarde, vivia ele na Beócia, casou com uma das filhas do rei de Tebas, Cadmo, a jovem Antónoe. Desta união nasceu um filho, Actéon (que Ártemis transformou em veado para ser devorado pelos seus próprios cães).

Entretanto, no decurso da uma estada na Trácia, Aristeu apaixonou-se por Eurídice, esposa do poeta Orfeu. Mas esta, ao tentar escapar-lhe, pisou uma serpente, morrendo em consequência da mordedura.

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Ártemis


Aristeu tomou parte, como comandante de um exército de Arcádios, na conquista da índia, organizada por Dioniso. Durante a expedição ele desviou, com a ajuda de seu pai e de Zeus, que enviaram os ventos etésios, uma epidemia que grassava nas Cíciades. E a partir de então estes ventos, vindos do norte, passaram a reaparecer todos os anos, a fim de refrescar e purificar esta zona da terra.

Quanto a Aristeu, cujo nome (em grego) significa o muito bom, ele irá difundir na Arcádia, e depois em toda a Grécia, os conhecimentos que tinha adquirido a nível agrícola. Assim, ensinará aos Gregos a arte de amestrar as abelhas, de tratar do gado, de preparar o leitee de cultivar a oliveira e a vinha.

Mais tarde, quando Aristeu desapareceu misteriosamente da face da terra, passou a ser venerado como o protector e benfeitor das manadas e dos trabalhos do campo.

Ártemis MEU

Segundo a tradição mais corrente (em Elêusis, por exemplo, ensinava-se que Ártemis era filha de Deméter), Ártemis é filha de Zeus e de Leto, e irmã gêmea de Apolo. Tal como o seu irmão, também ela é uma divindade da luz (a "Brilhante", Febo), mas da luz nocturna, lunar.

A virgem Ártemis e as suas vinganças Ártemis nasceu na ilha de Ortigia (Delos), um dia antes de seu irmão. O seu nome parece provir do adjectivo grego artémès que significa: de boa saúde. Após o seu nascimento, ela pediu como presente, a seu pai, Zeus, uma armadura completa de caçadora e este encarregou Hefesto de lhe forjar um arco em ouro. A partir de então, ela começou a acompanhar Apolo nas suas expedições, estando presente quando ele matou a serpente Píton e seguindo-o depois no seu exílio na Tessália. Mais tarde, quando Apolo regressou a Delfos, Ártemis preferiu dirigir-se para a selvagem Arcádia, uma zona montanhosa, rica em caça e com numerosas fontes, que permitiam um banho reparador depois da fadiga de uma caçada. A deusa era acompanhada por um cortejo de ninfas, que a ajudavam a cuidar dos seus cães, partilhando também dos seus divertimentos e prazeres.

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Ártemis


Curiosamente, ela tinha excluído o amor da sua vida, mantendo-se virgem e casta, e obrigando as suas companheiras a seguirem o seu exemplo. Se uma delas traísse este voto, ainda que involuntariamente - como aconteceu com Calisto, seduzida por Zeus - seria castigada. E se algum indiscreto violasse o segredo da sua intimidade, Ártemis não hesitaria em puni-lo de modo exemplar. Ora isto aconteceu exactamente com Actéon, filho de Aristeu que, no decurso de uma batalha, surpreendeu a deusa quando esta se banhava, completamente nua, numa fonte. Extasiado, Actéon prolongou a sua contemplação e a deusa imediatamente o castigou, transformando-o num veado que, depois, foi devorado pelos seus próprios cães.

Mas será que Ártemis nunca terá sentido o fogo da paixão? Parece que a deusa se terá impressionado com a beleza do caçador gigante Oríon, filho de Posídon. No entanto, este não sobreviveu a este fogo insólito. Não sabemos se foi Apolo que interferiu, a fim de proteger a sua irmã do seu desejo traiçoeiro (conta-se que ele a desafiou para atingir com as suas flechas um objecto que aparecia, de longe a longe, no meio das águas. A deusa aceitou o desafio e trespassou, involuntariamente, a cabeça de Oríon, que nadava no alto mar) ou como se afirma noutra tradição, se foi a própria Ártemis a provocar a morte do gigante quando, após uma caçada que faziam em conjunto, na ilha de Quios, este esboçou um gesto arrebatado de desejo. Imediatamente a deusa (recordando o seu voto de castidade) fez surgir da terra um escorpião que picou o imprudente. Ártemis ficou tão reconhecida ao animal que preservara a sua virtude, que o imortalizou, fazendo dele uma constelação. Entretanto, Oríon também lucrou com a metamorfose, pois foi enviado para junto das estrelas.

Ártemis era uma deusa que não perdoava aos mortais uma falta de respeito ou um atentado ao seu domínio, castigando-os cruelmente quando estes a ofendiam. Foi o que aconteceu com Agamémnon. Com efeito, o "rei dos reis" não receou matar um veado num bosque consagrado à deusa. Mas quando esta soube, impediu os ventos de soprarem, impossibilitando assim a partida da frota grega para Tróia. E em seguida participou a Agamémnon que só mandaria regressar os ventos se ele sacrificasse em seu louvor a sua filha Ifigénia. Mas entretanto, desta vez, a deusa demonstrou alguma piedade pela vítima inocente que transformou na sacerdotisa do seu santuário de Táurida.

Os atributos de Artemis Tal como Apolo, a deusa da Lua era dotada de atributos variados e contraditórios. Por um lado, manifestava qualidades simpáticas e benéficas: diri-

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Ártemis


gia o coro das Musas, proferia oráculos, dava bons conselhos, curava as doenças ou as feridas, protegia as águas termais e as viagens, em terra e no mar, e ainda velava pelos animais domésticos e pelos campos. Mas, simultaneamente, Ártemis era a deusa da caça, aterrorizando, portanto, os animais selvagens. Esta era a sua faceta cruel e, por vezes, mesmo bárbara. Com efeito, a deusa divertia-se a oprimir os mortais, a desencadear epidemias ou a provocar a morte violenta, merecendo bem o cognome de Apolussa, a Destruidora.

Os Romanos identificaram Ártemis com a deusa itálica Diana, em cujo nome se reconhece a raiz di, que evoca a lúz. A segunda-feira era o seu dia, o dia da Lua (cf. o inglês monday e o alemão montag).

Mas a Diana de Éfeso não tem, praticamente, nenhuma relação com a casta Ártemis dos Gregos. O seu nome deriva, assim, da semelhança que existe entre a maior parte dos atributos das suas deusas. Na realidade, a deusa de Éfeso é uma deusa-mãe, por excelência, deusa da natureza e, consequentemente, deusa lunar, caçadora, protectora dos mares e das cidades. Os habitantes de Foceia, que colonizaram Marselha, colocaram-se sob a sua protecção.

Ártemis (Diana) é comummente representada na Antiguidade e em várias outras épocas (pelos escultores J. Goulon, G. Pilon, Houdon; pelos pintores F. Clouet, Ticiano, Le Corrège, Véronèse, A. Carrache, Rubens, Le Dominiquin, Vermeer, Watteau, Boucher, etc.) como uma jovem robusta e de rosto severo (opondo-se assim à beleza alegre e provocante de Afrodite); aparece vestida com uma túnica arregaçada, que lhe deixa as pernas livres para correr, e é acompanhada de uma corça ou de um cão (o cão da caça ou o cão que ladra à Lua). Umas vezes surge munida de um arco e de um carcás, outras de um archote. Usa geralmente o crescente lunar como diadema. A representação de Ártemis de Éfeso é completamente diferente. A deusa surge-nos coberta com uma túnica comprida, decorada com diversos animais, as mãos abertas num gesto ritual, e ostentando uma multiplicidade de seios, símbolo evidente de fecundidade.

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Asclépio


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A lenda mais conhecida, concernente a Asclépio, foi-nos legada por Píndaro. Ela conta-nos que a ninfa Corónis, depois de ter engravidado de Apolo, e temendo não manter esse amor, resolvera casar com um mortal. O deus, enfurecido, decidira vingar-se, punindo-a com a morte. Mas quando o corpo da jovem começou a ser consumido na pira fúnebre, Apolo, cheio de remorsos, arrebatou o filho ainda vivo das entranhas de sua mãe. E este tornou-se o seu filho preferido, Asclépio.

O centauro Quíron, encarregado de o educar, iniciou-o na arte da medicina e Asclépio, dotado de um sentido de observação invulgar, progrediu rapidamente nos seus conhecimentos. Mas certo dia uma serpente surgiu-lhe no caminho, enrolando-se na vara que ele empunhou. Asclépio deitou-a por terra e matou o animal. Acontece que, miraculosamente, apareceu uma segunda serpente. Esta trazia na sua boca uma certa planta, com a qual ressuscitou o réptil morto. Este acontecimento, carregado de simbolismo, foi para Asclépio uma revelação. A revelação da virtude das ervas medicinais. E assim, encontramos aqui a origem do caduceu (duas serpentes enroladas à volta de uma vara), que se tornou no emblema do corpo médico.

A partir do momento em que Asclépio começou a pôr em prática os seus conhecimentos, os seus sucessos multiplicaram-se, valendo-lhe uma reputação extraordinária.

A certa altura da sua vida casou com a filha do rei de Cós, Epíone, que lhe deu dois filhos e cinco filhas. Os rapazes, Macáon e Podalírio, herdaram do seu pai o poder de curar. Fizeram-no, por exemplo, no decorrer da guerra de Tróia, na qual participaram como médicos das tropas gregas. Macáon cuidou de Télefo e de Menelau e operou Filoctetes.

As filhas de Asclépio também o ajudaram na sua função, particularmente Hígia (deusa da saúde) e Panaceia (que personifica a cura de todos os males, através das plantas). Para além dos seus filhos, também Telésforo, o pequeno gênio da convalescença, que os escultores representam muitas vezes ao lado de Asclépio, o Apolou no seu ministério.

Alguns autores afirmam que Asclépio terá recebido, de Atena, uma pequena quantidade do sangue que brotou da ferida da Górgona, e que daí teria extraído a fórmula para ressuscitar os mortos. E terá ressuscitado tantos que Hades, temendo ter de fechar as portas do seu reino por falta de candidatos,

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Astros



foi queixar-se a Zeus. Este, receando que a ordem universal fosse subvertida pela descoberta de Asclépio, decidiu fulminá-lo. Mas Apolo imortalizou-o, transformando-o numa constelação, chamada serpentária, na qual reconhecemos Asclépio segurando uma serpente.

Considerado pelos humanos como deus da medicina, mantendo ou restituindo aos mortais o calor da vida e a claridade do dia, Asclépio foi objecto de uma enorme veneração em todo o mundo antigo, grego e romano. E o culto que lhe era prestado não só tinha um fim religioso, mas também terapêutico. Os santuários, dos quais o mais célebre foi Epidauro (uma versão da lenda aponta-o como o local onde Coróni@ terá dado à luz), eram instalados fora das cidades, em zonas escolhidas pela sua salubridade. Os sacerdotes transmitiam os segredos (da cura) de pai para filho. Um dos mais ilustres terá sido Hipócrates, que se dizia ser aparentado com o deus. Os doentes, que afluíam de todas as partes do mundo antigo e que pertenciam a todos os grupos sociais, eram alojados nas dependências do templo e, durante o seu sonho, reviam o deus, que lhes revelava o remédio para os seus males.

Asclépio é representado como um homem maduro, vigoroso, de rosto benevolente e barbudo; Denis, tirano de Siracusa no séc. iv a. C., confiscou a barba de ouro, de uma estátua de Esculápio (nome romano de Asclépio) do Epidauro, justificando que não era normal que um filho fosse barbudo, quando o seu pai era imberbe.

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Na Antiguidade, os homens personificaram, com muita frequência, as forças da natureza, transformando assim determinadas divindades em astros.

O Sol e a Lua foram objecto de cultos variados (muito elaborados, com os nomes de Hipérion, Hélio, Apolo, Mitra, Selene, Ártemis (Diana), Hécate... assim como as estrelas e, particularmente, as constelações.

Os Romanos, muito influenciados pela astrologia oriental, identificaram

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Atalanta



os doze deuses do Olimpo com os astros e popularizaram uma correspondêhcia já esboçada pelos Gregos:

Carneiro: Minerva (Atena) Touro: Vénus (Afrodite) Gêmeos: Apolo Caranguejo: Mercúrio (Hermes) Leão: Júpiter (Zeus) Virgem: Ceres (Deméter) Balança: Vulcano (Hefesto) Escorpião: Marte (Ares) Sagitário: Diana (Artemis) Capricórnio: Vesta (Héstia) Aquário: Juno (Hera) Peixes: Neptuno (Posídon)

O Sol, que os astrólogos apresentam como o corego dos planetas, torna-se durante o Império a divindade suprema do panteão romano.

Atalanta


Atalanta é filha do arcádio Íaso, que só queria filhos do sexo masculino. Assim, quando a criança nasceu, ele abandonou-a no monte Pártenon, mas esta foi alimentada por uma ursa e recolhida por caçadores que a criaram.

Assim, a jovem sofreu uma educação rude e viril, muito semelhante àquela que a deusa caçadora Ártemis impunha aos seus fiéis. E, tal como a deusa, também Atalanta jurou resistir às tentações do amor. Certo dia, dois centauros tentaram violá-la, mas ela venceu-os e matou-os.

Curiosamente, Atalanta foi a única mulher admitida por Jasão na expedição dos Argonautas. Quando estes regressaram a lolco, participaram nos jogos fúnebres organizados em honra do rei morto. E Atalanta participou na prova de luta, ganhando o prêmio de melhor lutadora, ao vencer Peleu.

A jovem foi também convidada para a caça ao javali de Cálidon, uma das mais aventurosas e dramáticas temeridades da lenda. E foi ela que, primeiramente, atingiu o animal com a sua lança. Só depois disso é que Meleagro, filho do rei de Cálidon, o matou. Recebendo, como era costume, os restos mortais da vítima, o jovem príncipe ofereceu-os à caçadora, pela qual se

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Atena


apaixonara, entretanto. Mas os seus tios ficaram indignados com a sua atitude, pois consideravam que os despojos lhes deveriam ter sido oferecidos a eles, como parentes próximos que eram. Irritado, Meleagro combateu-os e matou-os, mas não sobreviveu a esta aventura.

íaso, que com o tempo aceitou reconhecer a sua filha, admitindo sem dúvida que ela manifestava qualidades pouco comuns, quis dar-lhe um marido a fim de perpetuar a descendência. Atalanta, depois de ter recusado esta possibilidade durante muito tempo, acabou por decidir que só aceitaria como marido alguém que a vencesse na corrida. E aqueles que falhassem na prova seriam imediatamente mortos. Este foi o destino de grande número de pretendentes. Mas um dia, Hipórnenes apresentou-se a fim de vencer a corrida. E para isso contou não só com as suas pernas, mas também com a sua intuição psicológica, levando consigo laranjas que Afrodite lhe ofertara. Quando a partida foi dada, Hipórnenes atirou as laranjas para a pista e Atalanta caiu na armadilha. Parou, a fim de apanhar as laranjas, sendo assim vencida e conquistada.

Mas algum tempo depois, no decurso de uma caçada, os dois esposos cometeram a imprudência de se amar num santuário consagrado a Zeus. Este, indignado com o acto de profanação, transformou-os em leões (na Antiguidade acreditava-se que os leões não acasalavam entre si).

A lenda atribui um filho a Atalanta, mas não se sabe ao certo se o seu pai foi Meleagro, Hipórnenes ou o deus Ares. Partenopeu (do nome parthènos), que foi o companheiro de Télefo, tinha tanto de corajoso como de belo, mas acabou por encontrar a morte em Tebas, no decurso da expedição dos Sete contra Tebas.

Cf. o quadro A Corrida de Atalanta e de Hípómenes (museu de Nápoles).

Atena


A deusa Tétis, filha dos Titãs Oceano e Tétis, foi a primeira esposa de Zeus. Divindade da sabedoria e da razão, "ela sabia mais, diz Hesíodo, que

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Atena



todos os deuses e homens juntos". Foi ela que preparou uma droga, graças à qual Cronos restituiu à vida os irmãos e irmãs de Zeus, que ele tinha "absorvido", quando estes nasceram. Ora Gaia e úrano, depositários dos destinos, advertiram Zeus de que se Métis lhe desse filhos, um deles agiria contra ele, como ele tinha feito com o seu pai Cronos e como Cronos, ele próprio, tinha feito com o seu pai úrano, ou seja, destroná-lo-ia.

Atena nasce completamente armada Quando Métis aparece grávida, Zeus decidiu, usando um procedimento cuja eficácia tinha verificado, devorar a sua esposa. Ao fazê-lo, ele não só afastava o perigo, mas incorporava os dons poderosos e exclusivos de Métis, transformando-se assim no deus da sabedoria.

Algum tempo depois do desaparecimento da deusa, Zeus começou a sentir fortes dores de cabeça. Estas foram aumentando e Zeus teve de recorrer a uma trepanação. Para isso, chamou Prometeu - outros autores dizem que foi Hefesto (o filho que Zeus teria tido, fora do casamento, com Hera, a sua futura mulher) - e ordenou-lhe que lhe abrisse o crânio com um golpe de machado. O "médico" assim fez e do corte emergiu, completamente armada, e dando um grito de vitória que abalou o céu e a terra, Atena, que viria a ser a filha preferida do rei dos deuses.

A operação teve lugar na Líbia, nas margens do lago Tritones. Uma tradição tardia conta que o deus deste lago, Tritão, teve uma filha chamada Palas. Atena e Palas teriam crescido juntas e, certo dia, quando brincavam "às guerras", Atena, sem querer, provocou a morte da sua companheira. Entristecida, a deusa fez uma estátua em tudo semelhante à amiga e juntou ao seu próprio nome o de Palas. Este episódio da infância de Atena era recordado todos os anos na Líbia, através de um "festival" onde as jovens, divididas em dois campos, lutavam entre si.

Uma outra versão da lenda conta que a deusa tinha o nome duplo de Palas-Atena, porque no decurso de uma luta dos Olímpios contra os Gigantes, Atena tinha matado o gigante Palas, esfolando-o vivo e revestindo-se com a sua pele. No decorrer do mesmo combate, a deusa teria derrotado o gigante Encélado, numa ilha da Sicília.

Deusa da razão Atena é, simultaneamente, uma deusa guerreira e uma deusa da inteligência e da sabedoria. Na sua faceta de divindade guerreira (Atena-Prornaco:

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aquela que combate à frente), ela personifica a inteligência táctica face à brutalidade animal que incarna o seu meio-irmão, Ares. Ela saberá inventar o carro de guerra e presidirá à construção do navio Argo, o maior navio conhecido até então. Para além disso, será a inspiradora dos heróis hábeis e ponderados como Perseu, Belerofonte, Héracies, Diomedes, Aquiles ou Ulisses (a quem ela protegerá o filho, Telérnaco, sob a aparência do sábio Mentor). A sua parcialidade a favor dos Gregos, na guerra de Tróia, explica-se pela afronta que o troiano Páris lhe teria infligido, ao recusar-lhe, em proveito de Afrodite, o prêmio reservado à beleza.

Nos momentos de paz, Atena personifida a benevolência. É ela que ensina aos humanos a arte de domar os cavalos, as técnicas da olaria, da tecelagem e dos bordados. Mas a deusa gosta de ver reconhecidos os seus talentos e favores, por isso sentiu-se vexada com o julgamento de Páris. Assim, quando alguém a desafiava, era imediatamente castigado: foi o que aconteceu com a jovem Aracrie. Esta decidiu desafiar Atena na técnica da tecelagem e dos bordados, e a deusa transformou-a numa aranha, a fim de que ela passasse os seus dias a tecer a sua própria teia.

Certo dia, Atena lançou o seu olhar sobre a terra da Ática. Mas esta pertencia ao seu tio, Posídon, e portanto os dois vão disputá-la. Posídon, para fazer valer os seus direitos, tinha feito nascer, com um golpe de tridente sobre a colina da Acrópole, uma fonte de água salgada, segundo uns, ou um cavalo, dizem outros. Quanto a Atena, fez florescer uma oliveira (liga-se o nome de Atena a duas raizes do sânscrito que significam: ferir e colina). Os deuses, chamados a pronunciar-se, submeteram-se à opinião do rei Cécrops, que compreendeu a importância que a oliveira podia ter para o seu povo, e elegeram Atena, que deu o seu nome à cidade de Atenas.

A virgem protectora Em Atenas, a deusa é venerada com um culto muito particular, que vai desde a solenidade das Panateneias, criada pelo rei Teseu, até aos jogos gímnicos, corridas de cavalos, regatas e concursos de dança e de música. De quatro em quatro anos, uma imponente procissão, composta por sacerdotes, magistrados, anciãos carregando ramos de oliveiras, jovens a cavalo e, sobretudo, raparigas transportando cestas atravessava a cidade. Depois, era oferecida à estátua da deusa uma capa de linho confeccionada pelos mais hábeis artífices. No século v a. C., Atena possuía na Acrópole três templos,

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Atena


um dos quais, edificado por ordem de Péricies, foi conhecido com o nome de Parténon.

O Pártenon é o templo dedicado à deusa virgem (parthènos), pois Atena representa uma castidade absoluta e feroz. (Alguns autores aproximam do nome Palas a palavra grega pallax, que significa, igualmente, a jovem.) Hefesto apaixonou-se um dia pela deusa e tentou víolá-la. Mas foi energicamente repelido e a semente do seu desejo acabou por impregnar a terra. Esta, fecundada deste modo, deu à luz o divino Erictónio, que Atena aceitou educar e que veio a ser rei de Atenas, criando aí o culto da deusa.

Assim, qualquer atentado ao pudor de Atena era punido cruelmente. Foi o que aconteceu com o tebano Tírésias, que certo dia olhou a deusa, enquanto esta se banhava. Mas Atena vingou-se, imediatamente, cegando-o. Depois, sensibilizada e acreditando na inocência da sua vítima, conferiu-lhe o dom da "dupla visão".

Atena não era, somente, a protectora de Atenas. Várias cidades do mundo heiénico estavam sob a sua protecção. Com efeito, a sua eficácia na paz, assim como na guerra, as virtudes e as qualidades que ela encarnava, com destaque para a inteligência e a sabedoria, representavam para os Gregos os aspectos mais positivos da sua civilização.

A Acrópole de Atenas

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Atenas



A deusa era descrita como uma bela e altiva jovem de olhos brilhantes, olhos "esverdeados" diz-se muitas vezes, olhos de coruja, diz Homero, que lhe permitiam atravessar as trevas.

A Atena grega foi assimilada à deusa Minerva dos Etruscos, como ela uma deusa da inteligência (a mesma raiz do latim mens). Por isso, ela era a menos itálica das divindades da tríade capitolina (Júpiter-Juno-Minerva), tão venerada pelos Romanos.

Os escultores e os pintores representam Atena vestida, geralmente estreitada em dignas roupagens e cingida com a égide, sobre a qual está chapeada a terrível cabeça da Górgona, que petrificava aqueles que ousassem olhá-la. Ela tem nas mãos a lança e o escudo e apresenta, algumas vezes, na mão esquerda, uma estátua alada. Foi assim que a representou Fídias na sua monumental efígie, recoberta de ouro e de marfim. Os animais que acompanham Atena são a coruja e a serpente (representando Erictónio. Este tipo de figuração é muito utilizada nas divindades ctónicas).

Atenas MI

Depois do dilúvio, que transformou o país num verdadeiro deserto, a Ática foi governada pelo rei Acteo, a quem sucedeu o seu genro Cécrops, filho da Terra, que deu a este lugar o nome de Cecrópia, fundando aí cerca de doze cidades. Durante o seu reinado, Atena e Posídon disputaram entre si a tutela deste lugar. O deus do mar acreditou que ganhava o voto de Cécrops, oferecendo aos habitantes o cavalo, que ele fez nascer com um golpe de tridente sobre a colina da Acrópole. Mas Atena, por seu lado, fez brotar uma oliveira nesta pedra árida, e foi ela que ganhou os favores do rei. Os deuses, consultados, ratificaram a sua escolha.

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Atenas



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Os vinte reis que governaram a Ática

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III)CODROS

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Atenas


Os primeiros reis Cécrops deixou a lembrança de um rei sábio e pacífico. Foi ele que ensinou a arte da escrita aos seus compatriotas. Como o seu filho morreu jovem e não deixou descendência, sucedeu-lhe Cránao, um outro filho de Geia. Este deu o seu próprio nome à capital, Cráriae, e o nome de uma das suas filhas, Átis, ao conjunto da região, que desde então foi conhecida como Ática.

Uma outra filha de Cránao, Cráriae, tinha desposado um filho de Deucalião, Anfiction. Este destronou o seu sogro e ocupou o poder, sendo mais tarde expulso, por sua vez, por Erictónio, nascido no tempo de Cécrops, do desejo de Hefesto por Atena.

Erictónio e os seus descendentes Erictónio introduziu na Ática o uso da moeda e instaurou na Acrópole as festas em honra de Atena. Sucedeu-lhe o seu filho, Pandíon, e foi durante o seu reinado que, segundo a tradição, Deméter veio para a Ática.

Pandíon teve dois filhos: Erecteu, que recebeu o trono em herança e Butes, que se tornou o sacerdote de Atena e de Posídon. Erecteu, apesar da sua piedade e da sua sabedoria, conheceu um fim trágico. No decurso de uma guerra que opôs os habitantes da sua capital aos de Elêusis, a cidade vizinha, Erecteu só conseguiu a vitória mediante o sacrifício de uma das suas ilhas. Após este acontecimento, as irmãs da vítima suicidaram-se. Mas também um filho de Posídon, aliado dos eleusianos, foi morto em combate e então Zeus, a pedido de seu irmão, fuiminou o infeliz Erecteu.

Este foi substituído no trono pelo seu filho, Cécrops 11 que, por sua vez, foi substituído por Pandíon 11. Este acabou por ser deposto após uma revolução organizada pelos seus primos, mas os seus filhos restabeleceram os seus direitos pela força das armas, e o mais velho, Egeu, foi investido como rei.

Certo dia, Egeu matou Andrógeo, filho do rei de Creta, Minos. Este invadiu a Ática e obrigou o rei a pagar um pesado tributo: todos os nove anos, cinquenta rapazes e cinquenta raparigas cretenses deviam ser dados como alimento ao Minotauro, fruto monstruoso dos amores da rainha Pasífae com um touro. Teseu, filho de Egeu, decidiu fazer parte de um destes contingentes, a fim de vencer o monstro, Ele conseguiu levar o seu empreendimento a bom termo, mas esqueceu a promessa feita a seu pai, de içar uma vela branca caso saísse vitorioso. Egeu, verificando que o navio apresentava a mesma

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Atenas


vela fúnebre que hasteara à partida, atirou-se ao mar que, a partir de então, oassou a ter o seu nome.

Teseu E assim, Teseu sucedeu a seu pai. A sua primeira grande preocupação foi reunir e organizar numa mesma cidade várias aglomerações vizinhas. Depois, deu a este corpo vivificado o nome de Atenas, em homenagem à deusa Atena, cujo culto ele desenvolveu, com a criação da festa das Panateias, símbolo de unidade religiosa e política. Simultaneamente, lançou as bases de uma estrutura social de tipo democrático.

Teseu acolheu com benevolência Édipo, banido de Tebas, e permitiu-lhe acabar os seus dias num burgo de Atenas, Colono. O oráculo tinha anunciado que a terra que abrigasse o seu túmulo seria abençoada pelos deuses, por toda a eternidade.

Foi durante o reinado de Teseu que aconteceu a guerra dos Sete Chefes contra Tebas, e igualmente a expedição das Amazonas contra Tebas, a fim de vingar a sua irmã Antíope, seduzida por Teseu. Todos estes episódios tiveram um fim proveitoso para o rei de Atenas.

Entretanto, Teseu, de combinação com o seu amigo Pirítoo, tinha desenvolvido o presunçoso projecto de escolher uma esposa de sangue divino, partindo assim à conquista de Helena de Esparta e da deusa Perséfone. Durante a sua ausência, os irmãos de Helena, Castor e Pólux, invadiram a Ática e colocaram no trono de Atenas um descendente de Erecteu, Menesteu, que recebeu o Apolo de todos os adversários das reformas de Teseu.

Os descendentes de Teseu Entretanto Teseu, depois de um certo tempo de cativeiro nos Infernos, encontrou a morte. Os seus dois filhos, Ácamas e Demofonte participaram, entretanto, na guerra de Tróia, para a qual Menesteu armou cinquenta navios. À morte do rei, os dois irmãos partilharam entre si o trono de Atenas. O filho de Demofonte, Oxynto, sucedeu-lhes e a este sucedeu, por sua vez, o seu filho mais velho, Afeidas. Mas este último foi morto e substituído pelo seu irmão Timetes.

Entretanto, a guerra entre Atenas e Tebas parecia não ter fim. Então foi decidido que os dois reis deveriam combater, um contra o outro, a fim de se encontrar um vencedor. Mas Timetes era cobarde e, para fugir à situação, publicou que deixaria o trono ao cidadão de Atenas que aceitasse combater o

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Átis



rei de Tebas. Imediatamente Melanto se apresentou e, beneficiando da intervenção de Dioniso, venceu o combate e ganhou o trono. Mais tarde, foi construído um santuário ao deus que tinha facilitado a vitória de Atenas.

O filho de Melanto, Codro, foi o seu sucessor e o herdeiro da sua coragem. Assim, quando Atenas foi atacada pelos povos do Peloponeso, o oráculo revelou que estes só abandonariam a cidade quando o rei fosse morto pelo inimigo. Então, Codro decidiu sacrificar-se pela sua cidade. Transformou-se em mendigo e aproximou-se das linhas adversárias. Ao chegar aí, desafiou um soldado que o matou. Ao aperceberem-se de @uem ele era, os Peloponesos retiraram-se.

O acto heróico de Codro suscitou tal admiração que ninguém foi considerado digno de lhe suceder no trono. Os atenienses aboliram então a realeza e decidiram eleger um chefe. O primeiro foi o filho mais velho de Codro, Medão.

E estava assim criado o "arcontato". De início, uma magistratura para toda a vida, mais tarde limitada a um período de dez anos e depois, finalmente, repartida entre nove cabeças, para um exercício anual. Simultaneamente, a história substituiu a lenda.

Atis cus,' o@

Segundo Ovídio, Cíbele, a grande deusa frigia, apaixonou-se, castamente, pelo jovem e belo pastor Átis, tornando-o guardião do seu templo e impondo-lhe a virgindade. Mas um dia Átis apaixonou-se por uma ninfa, desposando-a e violando assim o seu voto. Cíbele decidiu então vingar-se, enlouquecendo o pobre pastor que, num acesso de loucura, se mutilou. Arrependida, Cíbele ressuscitou Átis sob a forma de um pinheiro.

Os Frígios, e mais tarde os Gregos e os Romanos, adoraram Átis, como gênio da vegetação, associando o seu culto ao de Cíbele. Assim, todos os anos, na Primavera, eram celebradas grandes festas populares que comemoravam a sua morte e a sua ressurreição.

A ópera Atys de Luily, libreto de Quinault (1676), inspira-se no relato de Ovídio.

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Atlântida



Atlântida

A Atlântida era uma ilha situada no oceano "Atlântico", na proximidade das Colunas de Hércules (estreito de Gibraltar). Era de uma riqueza fabulosa: as suas minas encerravam ouro, cobre, ferro e também oricalco, metal cujo brilho rivalizava com o do fogo. Esta ilha tinha sido dada em herança a Posídon.

Este apaixonou-se por uma das suas súbditas, uma órfã chamada Clito, que lhe deu cinco pares de gêmeos. O mais velho chamou-se Atlas e tornou-se o senhor supremo da ilha. Os seus descendentes transmitiram o trono de pai para filho.

Os "Atlantes" construíram cidades magníficas, dotadas de todas as conquistas do urbanismo. Poderiam ter vivido em paz durante muito tempo, mas sucumbiram à tentação de submeter o resto do mundo, sendo vencidos pelos atenienses e depois pelas Amazonas de Mirina, a filha de Teucer.

Entretanto a ilha desapareceu em algumas horas, em meados do 11 Milénio. Depois de Platão, que consagrou à Atlântida um dos seus últimos diálogos, o Crítias, sábios, poetas e romancistas (por exemplo, Pierre Benôit: A Atlântida, 1919) foram tocados pelo enigma do continente fantasma. Uns viram-no como uma simples alegoria mitológica; outros, esforçando-se por ajustar a lenda a uma realidade geográfica e histórica, situaram a ilha misteriosa nos pontos mais diversos do globo, quando não sugerem que ela poderia ter sido um planeta de uma outra galáxia.

Os geólogos de hoje, para quem a Atlântida não é senão uma ficção saída da fábula, situam-na no actual mar de Creta, ao sul do arquipélago das Cíciades. Eles afirmam que o continente foi engolido, depois da maior erupção vulcânica que a memória humana registou. O vulcão responsável teria sido o do monte Téra, que constitui hoje a ilha de Santorino. Eles acrescentam, ainda, que se os historiadores estudassem a súbita extinção da brilhante civilização minóica, concluiriam que ela não tinha desaparecido devido a invasões, mas antes como consequência de um gigantesco maremoto, que teria acompanhado o sismo e que, ao submergir Creta, teria destruído toda a vida à sua superfície.

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Atreu


Atlas

O gigante Atlas, como os seus irmãos Prometeu e Epimeteu, é filho do Titã Jápeto e da ninfa Clímene, filha do Oceano. Participou na guerra que opôs os Gigantes aos Olímpicos e que se saldou por uma derrota. Por isso, foi condenado por Zeus a carregar o céu às suas costas.

A sua morada está situada nas extremidades ocidentais da terra. Heródoto conta que Perseu, tendo regressado após ter matado Medusa, apresentou a sua cabeça ao gigante que, petrificado, foi transformado numa montanha.

Atlas é apresentado como o pai das Plêiades e das Híades, assim como das Hespérides, por vezes.

Não devemos confundir o gigante Atlas com o seu homónimo, filho de Posídon, que reinará na Atlântida.

No museu nacional de Nápoles encontramos uma célebre estátua antiga que representa Alias carregando o céu.

Atreu

Atreu é um dos filhos do Frígio Pélops, que se tornou rei da Élide, e da rainha Hipodâmia. Mas Pélops tinha tido um filho fora do casamento e então Hipodâmia convenceu os seus filhos a matá-lo. Atreu e o seu irmão gêmeo Tiestes assassinaram Crisipo e, como consequência, foram banidos juntamente com sua mãe do reino de Pélops.



A família refugiou-se em Argos, onde reinava Esténelo, genro de Pélops. Certo dia, o irmão de Esténelo, rei de Micenas, foi morto acidentalmente pelo seu genro Anfitrião. Esténeio decidiu então partir e confiar a cidade e o seu território a Atreu e a Tiestes.

Entretanto, Atreu descobriu um dia, entre o seu rebanho, um carneiro que tinha nascido com um velo de ouro. E embora tivesse feito o voto de imolar a Ártemis o seu mais belo carneiro, conservou o animal e escondeu o velo num cofre. Entretanto, Atreu casou com uma neta de Minos, rei de Creta,

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Atreu


chamada Aérope, tendo tido dois filhos, Agamémnon e Menelau, e uma filha. Mas Aérope deixou-se seduzir pelo seu cunhado Tiestes e ofereceu-lhe, secretamente, o velo de ouro.

Mais tarde, quando o sucessor de Esténelo no trono de Argos, o seu filho Eristeu, foi massacrado pelos filhos de Héracles, o oráculo aconselhou os habitantes a escolher um sucessor, entre os filhos de Pélops.

Tiestes sugeriu então que se escolhesse para rei aquele que pudesse apresentar uma certa preferência divina, por exemplo, aquele que tivesse encontrado no seu rebanho um carneiro com um velo de ouro! Atreu aceitou imediatamente a aposta... mas Tiestes venceu-o. Então Zeus enviou Hermes junto de Atreu, a fim de lhe sugerir a proposta de uma contra-prova. Atreu receberia o trono de Argos se o Sol, em determinado dia, se pusesse a Oriente!

Tiestes aceitou, mas o prodígio aconteceu e, assim, Atreu conquistou o poder. O seu primeiro gesto consistiu em expulsar o seu irmão, unindo assim sob o seu ceptro as cidades de Argos e de Micenas.

Entretanto, Atreu procurou saber em que circunstâncias Tiestes se tinha apoderado do velo de ouro, descobrindo finalmente a traição dos dois amantes. Então, com o pretexto de se reconciliar com o seu irmão, chamou-o e ofereceu um banquete em sua honra, dando-lhe como refeição a carne dos seus filhos, depois de mortos e cortados em bocados. O próprio sol, horrorizado, recuou no seu percurso, mas Atreu só no fim do festim revelou a terrível verdade a seu irmão, banindo-o definitivamente dos seus Estados e atirando ao mar Aérope, a esposa infiel.

Tiestes refugiou-se em Siciona, na Argólida, onde um oráculo lhe revelou que ele seria vingado por um filho, nascido de uma relação incestuosa com a sua própria filha, Pelápia. Assim, uma noite Tiestes violou a jovem sem se deixar reconhecer. Mas esta roubou-lhe uma espada, que conservou como a única prova capaz de identificar o seu agressor. Mais tarde, Pelópia deu à luz um filho que abandonou, mas este foi recolhido pelos pastores que lhe deram o nome de Egisto (da palavra grega que significa cabra).

Entretanto, Pelópia casou com o seu tio Atreu e este mandou procurar a criança, educando-a no palácio juntamente com Agamémnon e Menelau. Quando Egisto cresceu, Atreu, que não tinha esquecido o seu ódio ao irmão, confiou-lhe a missão de ir procurar Tiestes. O jovem obedeceu e trouxe para Argos aquele que ninguém sabia ser seu pai.

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Atreu



Atreu ordenou então a Egisto que matasse o seu prisioneiro, e este pegou na espada que a sua mãe lhe tinha dado e que era aquela que ela tinha roubado a seu pai. Mas quando Tiestes reconheceu a sua espada, chamou Pelópia e revelou-lhe o seu segredo. Esta, desfalecida de dor, espetou a espada no próprio coração. Então, Egisto retirou a arma ensanguentada do corpo de sua mãe, e matou Atreu.

Tiestes sucedeu, deste modo, a seu irmão no trono de Argos e de Micenas. Quanto aos filhos de Atreu, Agamérrmon e Menelau, foram expulsos, indo procurar asilo em Esparta, na corte do rei Tíndaro. Foi aí que Menelau conheceu e desposou a princesa Helena.

A sangrenta tragédia dos Átridas, que se manteve durante geraçoes e gerações, não estava senão no seu início.

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Baal



O nome do deus fenício Baal significa "Senhor". Assim, cada localidade da Fenícia possuía o seu "baal", deus do espaço, deus solar ou deus marinho. Baal também foi adorado pelos Cartagineses (sendo confundido com Cronos, o devorador dos recém-nascidos) e conquistou, mais tarde, toda a bacia mediterrânica, devido à incorporação dos soldados sírios no exército romano. No século iii d. C., o imperador Heliogábalo tentou fazer reconhecer Baal de Éfeso como o deus supremo do Império.

Belerofonte

Hipono,o, homem de grande beleza e rara coragem, era filho de Posídon e da rainha Efira (futura Corinto), esposa do rei Glauco (que, por sua vez, era filho de Sísifo).

Um dia, quando Hiponoo passeava junto à fonte Pirene, surpreendeu o cavalo alado Pégaso a matar a sede. Então, graças a um freio mágico que lhe tinha sido oferecido por Atena, prendeu-o.

Entretanto, o trono de Corinto tinha sido usurpado por um certo Belero, que o príncipe irá matar, passando a usar a partir desse momento o nome de Belerofonte (assassino de Belero). Segundo a lei, Belerofonte teria de sofrer um exílio durante um certo tempo, a fim de expiar este crime. r g u-se então para a corte de Tiríntio, onde reinava o rei Preto. Acontece que a rainha Estenebeia (ou Anteia, segundo Homero), esposa de Preto, se apaixonou por Belerofonte. Mas este repeliu-a. No entanto ela, temendo ser descoberta, de-

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Belerofonte



nunciou-o ao seu marido, dizendo que o príncipe tinha tentado seduzi-ia. O rei acreditou nas suas palavras, mas não querendo violar as leis da hospitalidade (que Belerofonte tinha violado, segundo sua mulher), enviou o jovem, com uma mensagem, ao seu sogro, o rei da Lícia, para que este se encarregasse da punição do seu hóspede.

íobates, rei da Lícia, em vez de matar o jovem, como Preto lhe pedira, preferiu sujeitá-lo a uma prova, na qual ele obrigatoriamente encontraria a morte, Essa prova consistia em libertar o país de Quimera, uma criatura fabulosa, nascida da relação entre o monstruoso gigante Tífon e a ninfa com corpo de víbora Equicina. Quimera apresentava-se com a forma compósita de um leão, uma cabra e um dragão (Homero), cuspia fogo e devorava os rebanhos. Belerofonte lembrou-se então de utilizar os serviços de Pégaso, Montou no cavalo alado e percorreu o céu, repelindo o monstro e abatendo-se sobre ele em voo picado. Quimera tentou resistir, cuspindo as suas chamas, mas Belerofonte selou-lhe a boca com uma bola de chumbo, asfixiando-o.

O herói triunfou, ainda, noutras provas imaginadas pelo rei da Lícia: venceu o povo selvagem dos Sólimos, massacrou as Amazonas e fez abortar uma emboscada urdida pelos melhores guerreiros do país, que ele matou um a um. Reconhecendo o valor excepcional de Belerofonte, íobates, rei da Lícia, ofereceu-lhe uma das suas filhas em casamento e simultaneamente metade do seu reino.

Como Belerofonte regressou a Tiríntio, a tradição conta que a rainha que o tinha caluniado e que era irmã da sua mulher, se suicidou - ou que esta, tendo querido fugir, utilizou o cavalo Pégaso, que a sacudiu da sela, sobre o mar, provocando a sua queda no meio das ondas.

Belerofonte teve dois filhos, lsandro e Hipóloco, e uma filha, Laodamia. Esta, seduzida por Zeus, teria dado à luz o herói Sarpédon (que comandou um contingente de Lícios, ao lado dos Troianos, tendo perecido sobre as muralhas de Tróia, como o seu primo Glauco li, filho de Hipóloco).

Belerofonte não conseguiu, no entanto, escapar à tentação da vaidade. E assim, um certo dia, montado no cavalo Pégaso, quis atingir o Olimpo, a fim de se tornar imortal. Mas Zeus derrubou-o da cela, fazendo-o cair sobre a terra, onde permanecerá errante e paralítico "consumindo o seu coração, diz Homero, e evitando os caminhos dos hornens". l_aodarnia também pereceu às mãos de Ártemis e lsandro às mãos de Ares.

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Beoto


Belerofonte montando Pégaso, figura frequentemente nas moedas antigas. Luily criou uma ópera com este título (1679).

Beoto


Beoto é geralmente apresentado como u@n dos filhos que Posídon deu a

Arne (também chamada Méianipe em duas tragédias de Eurípides, entretanto perdidas) e como o irmão gêmeo de Éolo, o futuro rei dos ventos.

As duas crianças foram expostas à nascença, por ordem de seu avô, o primeiro Eolo, rei da Tessália, pai de Arne. Mas foram alimentadas por uma vaca e recolhidas, mais tarde, pelos pastores. Estes enviaram-nas então a Teano, rainha de Metaponto que, temendo ser repudiada por esterilidade, as apresentou a seu marido, o rei Metaponto, como se se tratasse dos seus próprios filhos.

Acontece que, alguns anos mais tarde, a rainha deu à luz duas crianças e, perante esta nova situação, começou a sonhar com o desaparecimento dos "intrusos". Quando os seus filhos já eram adolescentes, a rainha confiou-lhes o seu segredo, incitando-os a matar os seus dois irmãos falsos.

O crime devia ter lugar no decurso de uma caçada, enquanto Metaponto prestava as suas orações a Ártemis. Mas os acontecimentos não se desenrolaram segundo os planos da rainha. Posídon, que protegia os seus filhos, inverteu a situação e foram os filhos de Teano que encontraram a morte. Ao mesmo tempo, o deus revelou-se aos jovens e declarou-lhes que a sua verdadeira mãe se encontrava prisioneira, quase cega, na corte do rei Éolo.

Beoto e Éolo 11 precipitaram-se para a Grécia, a fim de a libertar. Posídon deu-lhe de novo a visão. E então os dois rapazes regressaram com Arne ao palácio de Metaponto. Teano foi condenada por alta traição e o rei desposou, em segundas núpcias, Arrie, a mãe de Beoto e de Éolo li.

Numa outra versão da lenda, Arne teria sido confiada por seu pai ao rei Metaponto que, por conselho de um oráculo, teria adoptado os seus filhos, expulsando em seguida a sua esposa, Síris, a fim de poder contrair segundas

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Boa Deusa



núpcias com Arne. Quando os dois rapazes já eram adultos, estalou uma revolta na corte do rei Metaponto e os gêmeos apoderaram-se do trono. No entanto, não puderam gozar os privilégios do poder, pois sua mãe obrigou-os a matar Siris, que se encontrava retirada numa ilha com o seu nome, situada no golfo de Tarento. Eles cumpriram e foram obrigados a exilar-se.

Beoto refugiou-se na Grécia continental, exactamente na região que, mais tarde, terá o seu nome, a Beócia.

Boa Deusa

Os Romanos, ou pelo menos as Romanas, adoravam uma divindade da fecundidade com o nome de Boa Deusa (Bona Dea), cujo santuário se encontrava no monte Aventino.

A Boa Deusa foi assimilada à Fauna (cujo nome significa favorável), apresentada por alguns como a filha do rei Fauno (e a lenda conta que depois de a ter embriagado, ele tê-la-ia violado, sob a forma de uma serpente) e, por outros, como a irmã e a esposa do mesmo rei (uma senhora de hábitos reservados que um dia se teria tentado com um pichei de vinho, sendo depois açoitada até à morte, por seu marido).

Uma certa tradição conta que Hércules se teria apaixonado por Fauna e a teria tornado mãe de Latino, futuro rei do Lácio.

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Cadmo MI,



Cadmo é o filho de Agenor, rei de Tiro, e o irmão de Europa que Zeus seduziu, sob a forma de um touro.

Quando a sua filha desapareceu, Agenor enviou a sua esposa e todos os seus filhos à procura de Europa. No entanto, as buscas destes não apresentaram resultados e então Cadmo decidiu consultar o oráculo de Delfos. Este aconselhou-o a renunciar à sua missão e a fundar uma cidade no lugar em que encontrasse uma vaca prostrada pela fadiga.

O oráculo cumpriu-se quando ele atravessava a Beócia. Cadmo, resolvido a oferecer em sacrifício a Atena a vaca que se deitara na sua frente, enviou os seus companheiros de viagem à procura de água, numa fonte vizinha. Mas um dragão, nascido de Ares, que guardava a fonte, dizimou o grupo. Cadmo correu em socorro dos seus amigos e matou o monstro. Então, a deusa Atena apareceu-lhe e aconselhou-o a semear os dentes do dragão. Passado algum tempo, brotaram deste solo guerreiros armados, terrificantes. Cadmo procurou apedrejá-los e eles, em pânico, acabaram por se matar uns aos outros, sobrevivendo apenas cinco. Um destes desposará, mais tarde, uma filha de Cadm o, Agave.

Para expiar a morte do dragão, o herói foi obrigado a passar oito anos ao serviço de Ares. Depois disso, fundou a cidade de Tebas, com a ajuda de Atena, no local indicado pelo oráculo. E Zeus deu-lhe como esposa a filha de Ares e de Afrodite, Harmonia (ou Hermíone).

As núpcias de Cadmo e de Harmonia foram celebradas com grande pompa, na presença dos deuses. As Cárites fizeram o vestido da noiva e Hefesto forjou-lhe o mais maravilhoso colar de ouro.

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Calcas



Cadmo e Harmonia tiveram vários filhos. De entre eles podemos destacar Sérnele, que será a mãe de Dioniso, e Polidoro, antepassado de Édipo. Quando envelheceram, Cadmo e Harmonia deixaram o trono ao seu neto Penteu, filho de Agave, e instalaram-se na Ilíria, cujo trono acabaram por receber, graças a terem conduzido à vitória os seus novos compatriotas.

Na hora da morte, Cadmo e Harmoniaforam transformados em serpentes.

O casal e a sua lenda inspiraram a primeira ópera francesa, Cadmus et Hermione de LuIly, libreto de Quinault (1673).

Calcas


Calcas é filho de Testor que, por sua vez, é filho e sacerdote de Apolo. Este dotou o jovem com o poder profético e, assim, Calcas tornou-se adivinho em Micenas e foi escolhido pelos Gregos como adivinho oficial da guerra contra Tróia. Foi ele que revelou que Tróia não seria tomada sem a ajuda de Aquiles e que aconselhou o sacrifício de Ifigénia, a fim de acalmar a cólera de Ártemis. Ele soube ainda convencer os Gregos a apoderarem-se de Heleno, filho do rei trojano Príamo, que também praticava a adivinhação e deveria comunicar as condições necessárias para a queda de Tróia. Calcas fez ainda parte dos guerreiros que se esconderam no cavalo de madeira.

O oráculo tinha previsto que Calcas morreria quando encontrasse um adivinho mais sábio do que ele. Isto aconteceu após o regresso da guerra, Certo dia, Calcas deparou com Mopso, o neto do adivinho tebano Tirésias. Este revelou-se mais experiente do que ele e Calcas morreu de desgosto.

Calisto

Calisto é apresentada como uma ninfa do cortejo de Ártemis (embora noutras fontes ela surja como filha de Licáon, rei da Arcádia), que tinha feito

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Caos


voto de castidade. Mas a sua extraordinária beleza acaba por seduzir o senhor dos deuses, que decide conquistá-la. Para o efeito, certo dia em que Calisto se encontrava deitada num bosque, Zeus apresentou-se-lhe com os traços de Ártemis. A ninfa acolheu-o sem desconfiança e quando esta se apercebeu do embuste, já o mal estava feito.

Calisto ficou grávida, mas tentou dissimular o seu estado a Ártemis. Acontece que, certo dia, a deusa surpreendeu-a no banho e descobriu a verdade, reagindo violentamente. Entretanto Zeus, vigilante, transformou Calisto numa ursa, para que ela pudesse escapar à cólera da deusa.

Mas Ártemis, no decurso de uma caçada, disparou contra ela uma flecha. A ursa, ferida, deu à luz um filho, Árcade, que Hermes veio salvar por ordem de Zeus e que, mais tarde, deu o seu nome à Arcádia.

Segundo certas tradições, Calisto teria errado, desde então, pela montanha, até ao dia em que encontrou Árcade, já adulto e rei do seu país, quando este se dedicava aos prazeres da caça. O jovem preparava-se para derrubar a ursa com uma flecha, quando Zeus interveio, transformando Árcade num guarda de ursos e reunindo, finalmente, a mãe e o filho na abóbada celeste, ao criar a constelação da grande Ursa. A vingativa Hera conseguiu, no entanto, que Posídon lhe prometesse que a Ursa (constelação boreal) seria impedida de se deitar no horizonte do oceano.

As sacerdotisas do culto de Ártemis foram conhecidas em diversos lugares como "pequenas ursas" e cumpria-se mesmo um ritual que transformava, simbolicamente, as jovens consagradas à deusa caçadora, em ursas.

Esquecendo o brilhante destino de Calisto, encontramos na Arcádia o túmulo onde era suposto repousar o seu corpo, perto de um santuário dedicado a Ártemis-Calisto (A muito Bela).

Caos (Cf. Origem do Universo)

O seu nome deriva do verbo grego chao, que significa "estar aberto". Assim, o caos significa, literalmente, a vida infinita, anterior à criação e contendo em si todas as possibilidades. Entretanto, por confusão com o verbo chéo (derramar), pode-se igualmente considerar o Caos como sendo a matéria inerte, derramada no espaço.

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Caríbdis


Embora seja um simples princípio cósmico e não tenha o carácter de uma divindade, o Caos vai ser, todavia, personificado na Teogonia de Hesíodo, que lhe confere a paternidade de Erebo - a obscuridade infernal - e a Noite. Virgílio também nos apresenta Eneu, quando desce aos Infernos, dirigindo uma oração aos "deuses soberanos do império das almas", entre os quais cita Caos.

Os adeptos do Orfismo atribuem ao acasalamento do Caos infinito com Éter (finita), o aparecimento do ovo cósmico de onde terá saído o primeiro ser.

Certas comparações tardias permitiram, na época romana, identificar o Caos, divindade primordial, com Jano, deus das origens. Os Fastos de Ovídio apresentam as suas palavras: "Nessa época longínqua, o ar límpido e os outros três elementos, o fogo, a água e a terra formavam uma única massa. Mas quando esta massa se separou, então eu, que não era senão uma bola informe, assumi um rosto e membros dignos de um deus. No entanto, os traços da minha aparência, outrora confusa, parecem manter-se, pois ainda hoje a minha face anterior e a minha face posterior apresentam o mesmo aspecto."

Caríbdis m

Caríbdis, monstro-fêmea nascido da Terra e de Posídon, vivia num rochedo na Sicília, dominando o estreito de Messina. Certo dia, quando Héracies conduzia para a Grécia as manadas roubadas ao gigante Gérion, passou neste lugar e Caríbdis aproveitou para devorar um bom número de animais. Vigilante, Zeus castigou-a, atirando-a ao mar.

Desde então, Caríbdis passou a atrair todos os navios que navegavam naquela zona, para depois devorar os seus ocupantes.

Acontece que, no outro lado do estreito, reinava um outro monstro, Cila, jovem mulher nascida do deus marinho Fórcis que a mágica Circe, por inveja, tinha ridiculamente vestido com um cinto de cães ferozes. Assim, quando os marinheiros evitavam Caríbdis, não escapavam a Cilal.

' Daí a expressão: cair de Caríbdis a Cila, ou seja, de mal a pior.

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Cassiopeia



Depois de Héracies ter sofrido os danos que Caríbdis infligiu à sua manada, ele foi forçado a confrontar-se com Cila, acabando por matá-la. No entanto, o deus Fórcis ressuscitou a sua filha, que atormentou os navegadores, pela eternidade.

Cárites


Apresentadas como filhas de Hélio, o Sol, ou de Zeus, as três "Graças" (é este o sentido da palavra Cárites) são tradicionalmente chamadas: Agiaia (a Brilhante), Tália (aquela que faz florescer) e Eufrósina (aquela que alegra o coração), traduzindo assim o seu papel activo e benéfico no funcionamento da natureza.

Elas residem no Olimpo e fazem parte do cortejo de Afrodite a quem prestam todos os cuidados, velando pela sua toilette e pelos seus prazeres. As Cárites também acompanham, muitas vezes, Atena no exercício das suas atribuições pacíficas (trabalhos artísticos e operações espirituais). Elas formam, igualmente, com as Musas, o cortejo de Apolo, na sua qualidade de deus da poesia e da música.

Vemos geralmente as Cárites representadas, depois do séc. iv a. C., como um grupo de três jovens, nuas, duas delas viradas para a terceira e agarrando-se pelos ombros.

Cassiopeia

Inicialmente amante de Zeus, Cassiopeia desposou, mais tarde, o rei da Etiópia, Cefeu.

A presunção e a vaidade levaram-na, contudo, a desencadear o ódio dos deuses, sobretudo das Nereides, a quem ela tivera a audácia de se comparar. Assim, estas pediram a Posídon que inundasse o reino de Cassiopeia e enviasse, em seguida, um monstro marinho para o local submerso.

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Cécrops


Perante esta situação, Cefeu consultou o oráculo divino. Este revelou-lhe que a devastação só seria conjurada após o sacrifício da filha do casal real, Andrómeda. Então, esta foi exposta, acorrentada a um rochedo batido pelas ondas, ao largo de Jafa (cidade construída por Cefeu e cujo nome, lopeia, derivou do nome de Cassiopeia). Mais tarde, o herói Perseu, filho de Zeus, salvou e desposou a jovem princesa.

Quanto a Cassiopeia, foi transformada por Zeus em constelação, assim como Cefeu, Andrómeda e o próprio Perseu.

Cécrops @"'#"z %@I;" M Ili;11ÍRU 1

Nascido da Terra (e por isso representado com a parte inferior do corpo em forma de serpente), Cécrops desposou a filha do primeiro rei da Ática, tornando-se seu sucessor. Durante o seu reinado, Atena e Posídon disputaram a posse do seu país e Cécrops influenciou a decisão dos imortais, a favor da deusa.

Príncipe pacífico, Cécrops ensinou os seus súbditos a construir uma cidade e a sepultar os mortos. Diz-se também que lhes ensinou a escrita e teria tido a iniciativa do primeiro recenseamento,

Atena confiou às três filhas de Cécrops uma missão misteriosa. Elas teriam de manter fechado um cesto onde tinha sido escondido o pequeno Erictónio, fruto do desejo violento que a deusa virgem inspirara a Hefesto. Mas a curiosidade foi mais forte: as jovens abriram o cesto e eis que, junto à criança, lhes apareceu uma serpente (a menos que esta fosse a própria criança, nascida da Terra, e portanto com o corpo terminando em forma de serpente). Aterrorizadas, as três jovens atiraram-se do alto da Acrópole.

Erictónio ocupou, por sua vez, o trono de Atenas.

Ufalo


Hermes apaixonou-se por uma filha de Cécrops, primeiro rei de Atenas, e esta deu-lhe um filho, Céfalo (outros autores ligam-no, pelo seu pai Díon e a sua mãe, à raça de Deucalião).

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Waio



Céfalo desposou Prócris, filha de Erecteu (ele, também, rei de Atenas), a quem amava perdidamente... Mas um dia, quando o jovem caçava no Himeto, foi visto pela Aurora, Eos, que, seduzida pela sua surpreendente beleza, o raptou, conduzindo-o para a Síria onde, segundo uma versão da lenda, nasceu o filho deste encontro, Faetonte.

Mas Céfalo não conseguiu esquecer Prócris. Então, Eos, cheia de inveja, insuflou o ciúme em Céfalo, incitando-o a pôr à prova a fidelidade daquela que ele teimava em amar.

O jovem regressou assim à Ática, disfarçado, e apresentou-se à sua esposa, propondo-lhe em troca dos seus favores, jóias de grande valor. Prócris resistiu durante muito tempo, mas a avidez acabou por vencê-la e ela submeteu-se aos desejos de Céfalo. Depois, envergonhada, fugiu, perseguida pelas maldições de seu marido, indo refugiar-se junto de Minos, rei de Creta. Mas este apaixonou-se pela jovem e tentou seduzi-ia. Acontece que a sua mulher Pasífae lhe deitou um feitiço e, assim, sempre que Minos sentia um desejo adúltero, ejaculava serpentes venenosas. Mas Prócris possuía uma erva milagrosa que lhe tinha sido confiada pela mágica Circe, irmã de Pasífae, e com ela conjurou o mal de Minos. Este, como recompensa, ofereceu-lhe um cão e uma lança infalíveis na caça, dois dos presentes que a sua mãe Europa tinha recebido de Zeus.

Então Prócris regressou a Atenas, decidida a usar com o seu marido, o mesmo estratagema que ele utilizara com ela. Em troca dos seus favores oferecia-lhe os presentes de Minos. Céfalo aceitou e Prócris deu-se, então, a conhecer. E assim, os dois esposos reconciliaram-se, finalmente.

No entanto, a sua felicidade não iria durar muito tempo. Certo dia, um servo revelou a Prócris que Céfalo, no fim das suas caçadas, pedia a uma desconhecida que lhe retemperasse o seu ardor. Atormentada pelo desejo de surpreender o infiel, Prócris seguiu-o, escondendo-se numa moita. Mas Céfalo, ouvindo um barulho atrás de si, julgou ter feito sair do covil o animal que perseguia e atirou a famosa lança, que nunca falhava o seu destino. E, assim, Prócris encontrou a morte, não sem ter percebido antes que a rival receada não era outra senão a brisa, a quem o caçador cansado solicitava a aragem.

Uma versão da lenda assegura que Céfalo, desesperado, se atirou ao mar. Uma outra afirma que o jovem, perseguido por causa do seu assassinato, ainda que involuntário, foi banido de Atenas, refugiando-se numa ilha, que iria tomar o seu nome: Cefalénia. Mais tarde, Céfalo teria consultado o oráculo

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Gentauros



de Delfos, que o aconselhou a unir-se à primeira fêmea que encontrasse. Ora a fêmea em questão foi uma ursa. Céfalo obedeceu, entretanto, ao oráculo e a ursa transformou-se numa jovem mulher que lhe deu um filho, Arcísio (o avô de Ulisses).

O rapto de Céfalo por Eos foi representado várias vezes (em pinturas de vasos, por exemplo). Destacamos, no entanto, a célebre tela do palácio Farnésio, em Roma, de Annibal Carrache.

Centauros

O Tessaliano lxíon, filho de Ares, o rei dos Lápitas, apaixonou-se por Hera e procurou levá-la para o seu leito. Mas Zeus enviou-lhe uma nuvem com a aparência de sua esposa, com a qual lx1on se deitou. Desta união nasceram criaturas híbridas, cavalos com busto humano, munidos de braços: os centauros.

Os centauros viviam nos bosques dos montes Pélion e Ossa e os seus costumes eram considerados selvagens. Vêrno-los figurar nos cortejos de Dioniso. A lenda atribui-lhes numerosos delitos.

Quando Pirítoo, filho de lxíon, se casou, convidou os seus monstruosos parentes para o banquete. Estes embebedaram-se e tentaram violentara noiva. Este acontecimento provocou uma luta entre centauros e Lápitas, que se traduziu numa batalha muito sangrenta. Os Lápitas acabaram por vencer, graças à coragem de Pirítoo e do seu amigo Teseu, e expulsaram os centauros da Tessália.

Curiosamente, a tradição costuma destacar deste conjunto dois centauros, a quem atribui uma origem bem diferente e que são recordados pela sua bondade e pela sua sabedoria: Folo, filho de Sileno, cuja hospitalidade Héracles apreciou, e sobretudo Quíron, filho de Cronos, benevolente e omnisciente.

A palavra Centauro (que significa: picador de touros) permite, sem dúvida, discernir a origem do mito: os vaqueiros a cavalo (que recordam os guardiãos de Camarga) intrigavam verosimilmente os viajantes que percor-

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Céu


riam a Tessália. E foram estes que criaram a lenda destes seres, misto de homens e de cavalos,

Os centauros inspiraram muitos pintores e escultores, dos mais antigos a Miguel-Ângelo (pinturas de vasos, Florença, galeria Buonarotti) e a Bourdelle (Centauro Moribundo, Paris, museu do Luxemburgo). O poeta Maurlice de Guérin consagrou ao Centauro um poema em prosa de carácter panteísta (1840).

Céu ERNEI~11.1.12E1,111 ~1,11- ~~

O culto do Céu foi introduzido na Grécia, cerca do séc. xv a. C., pelas invasões dos Aqueus, que veicularam as mitologias indo-europeias. Este culto veio confrontar-se com o culto prestado às forças da Terra. As lendas que nos ilustram esta situação, falam-nos tanto da união como do conflito entre estes dois parceiros que, na época homérica, são regularmente associados nas fórmulas de juramento.

As conquistas de Alexandre no séc. iv e as relações que elas criaram com os deuses do Próximo Oriente - sobretudo com as divindades siderais - darão ao culto do Céu uma renovação de actualidade.

Mais tarde, os Romanos irão venerar úrano assim como Ceio.

O deus romano úrano é representado como um homem barbudo, com os braços erguidos, segurando por cima da cabeça um tecido em forma de semicírculo.

Cíbele w,,m, , omem;"

O culto da Deusa Mãe é um dos mais antigos cultos da bacia do mar Egeu. Quer se trate da deusa cretense da fecundidade, quer se trate da Gran-

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Cíbele



de Mãe, adorada na Frígia, estas divindades irão confundir-se com a deusa grega Reia, esposa de Cronos, mãe de Zeus e dos grandes deuses do Olimpo.

A Deusa Mãe ou a Mãe dos deuses ou a Grande Mãe é adorada na Ásia Menor com o nome de Cíbele. O seu culto, celebrado sobretudo em zonas elevadas (monte Ida, monte Berecinto ... ) tem o seu centro de adoração na cidade sagrada de Pessinonte. Cíbele é (etimologicamente) a deusa das cavernas, ou seja, da terra; o seu poder estende-se a toda a natureza.

A lenda associa-a ao jovem pastor Átis, que surge quer como seu companheiro quer como seu amante trágico. É costume associar, igualmente, Cíbele com o rei da Frígia, Górdias - o inventor do famoso "nó górdio" que Alexandre irá desfazer - de quem terá tido um filho, Midas, a quem se deve a instituição dos mistérios de Cíbele na Frigia.

A Grande Deusa foi, na origem, tanto na Grécia como na Ásia Menor, adorada sob a forma de uma pedra sagrada. Durante a segunda guerra púnica, os Romanos conseguiram que a "pedra negra" de Pessinonte (um meteorito) fosse transportada para Roma, a fim de conjurar o perigo cartaginês, construindo, seguidamente, um templo no Palatino para a abrigar.

Difundido em todo o mundo mediterrâníco, foi em Roma, e sobretudo, durante o Império, que o culto da Mãe dos deuses se tornou mais florescente: como mãe de Júpiter, Cíbele partilhou com ele o poder soberano sobre todo o mundo: céu, mar, terra e subsolo, homens, animais e plantas. Todos os anos, na Primavera, eram-lhe consagradas uma série de festas que compreendiam ritos de penitência e de mortificação (flagelação, incisões sangrentas que chegavam à mutilação) e a reprodução dos episódios da lenda de Átis, a sua morte e ressurreição. Recordando os Curetes, gênios guerreiros que dançavam em Creta à volta da Mãe dos deuses, uma confraria de fiéis, os Coribantes, executavam danças sagradas no decurso das cerimónias.

Fora destas solenidades, o culto de Cíbele e de Átis deu origem a uma iniciação e a mistérios de carácter oriental: baptismo de purificação pela água e de regeneração pelo sangue (de um carneiro ou de um touro sacrificado), comunhão do pão da imortalidade e do vinho consagrado, confirmação por imposição do ferro vermelho.

O clero, formado na origem por eunucos vindos da Frígia, os "gales", organízou-se durante o Império num colégio hierarquizado de dois sexos, onde o próprio imperador ocupava o mais alto cargo.

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Ciciopes



"A Berecintiana" (é assim que ela é referida por Du Bellay num soneto célebre das Antiguidades de Roma) é representada como uma mulher coroada, conduzida num carro puxado por leões ou sentada num trono entre dois leões.

Ciciopes


O nome Ciclopes (olho circular) faz'alusão ao único olho que estes gigantes "sernelhantes a montanhas" (Calímaco) possuíam no centro da testa. Pensou-se que eles personificavam os vulcões, que se multiplicavam à volta da Sicília.

Foi, com efeito, nas entranhas dos vulcões, sobretudo do Etna, que os Ciclopes, conduzidos pelo deus do fogo Hefesto, forjaram o raio de Zeus e as armas dos deuses.

As lendas confundiram sempre estes monstruosos artesãos com os Hecatonqueiros, nascidos de úrano e de Geia, cujos sobressaltos no seio da terra fizeram tremer o mundo. A tradição fala também dos Ciclopes pastores -

Polifemo e os seus companheiros - assim como dos Ciciopes construtores, responsáveis míticos por todas as construções "ciclópicas" dos tempos pré-históricos, constituídas por enormes blocos de pedra juntos, sem argamassa.

Os Ciciopes são muito frequentemente representados (sobretudo em vasos) - especialmente o episódio que representa Ulisses enfrentando Polifemo.

Circe


Circe é filha de Hélio, o Sol. A sua mãe, segundo certos autores, é uma filha de Oceano, mas segundo outros é Hécate, divindade lunar que preside à magia e aos encantamentos.

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Corno da Abundância



Ela é a irmã de Pasítae, esposa de Minos, rei de Creta, e de Eetes, rei da Cólquida, pai de Medeia. Circe é dotada de extraordinários poderes mágicos, dos quais fará uso, por exemplo, ao transformar Cila, de quem tinha ciúmes, em monstro marinho.

A maga residia na ilha de Eeia (que os autores situam diversamente), onde os Argonautas pararam, no regresso de Cólquida. Foi aí que e@a purificou a sua sobrinha Medeia do assassinato do seu jovem irmão.

Na ilha de Eeia desembarcaram também Ulisses e os seus companheiros, após a ruína de Tróia. Circe transformou-os a todos em animais, escapando unicamente UJisses, graças à ajuda de Hermes: uma planta mágica tornou-o insensível ao encantamento, mas não à sedução de Circe, com quem partilhará a vida durante certo tempo. Desta união nascerão uma ou várias crianças, segundo as,diferentes tradições; Telégono, um dos seus filhos, fíxou-se mais tarde na )taca, a pátria de seu pai, causando involuntaríamente a morte de Ufisses e desposando Penélope. Atribui-se-lhe a fundação da cidade de Túsculo, em Itália.

Girce viveu ainda outras aventuras. Os Romanos contam que Júpiter a teria seduzido, e que desta união teria nascido Fauno. Os seus outros filhos tornaram-se príncipes etruscos e beneficiaram o seu povo, com os poderes mágicos herdados de sua mãe.

Corno da Abundãncia ma

Segundo as tradições mais comuns, o chamado corno da abundância é o corno da cabra que alimentou Zeus, com o seu leite, durante a sua infância,

Uma versão da lenda conta que a nínfa Amalteia, que protegia os recém-nascidos, recolheu o corno que a cabra tinha partido ao ir de encontro a uma rocha, cobriu-o de flores e de frutos e ofereceu-o a Zeus, que o colocou mais tarde entre os astros.

Uma outra versão apresenta Amalteia como a cabra que alimentara Zeus. E fora este que, tendo partido o corno, o oferecera às ninfas, filhas do rei de Creta, que o tinham recolhido,

O corno da abundância deu lugar a uma outra lenda, que nos relata o confronto entre Aqueloo e Héracies.

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Cronos



Aqueloo apresentou-se com a forma de um touro furioso perante Héracles, a fim de o obrigar a renunciar a Dejanira. O herói, na tentativa de domar o animal, acabou por lhe partir um dos seus cornos. E este ter-se~ia tornado o corno da abundância.

As duas lendas aproximam-se quando se conta que Aqueloo, submetido por Héracles, pediu a este que lhe restituísse o seu corno em troca do corno da cabra Amalteia.

O corno da abundância tinha a propriedade de se encher, quando qualquer desejo era exprimido. Símbolo de riqueza inesgotável, ele aparece sempre nas mãos de uma divindade da fecundidade.

Cronos


Cronos, o "dos pensamentos pérfidos", é o mais novo dos Titãs, filho de Geia, a Terra, e de úrano, o céu estrelado. Foi o único a escutar o pedido de sua mãe, quando Geia, a fim de pôr termo à sua própria escravatura e à dos seus filhos, decidiu armá-lo para que ele vencesse úrano. Com efeito, este, horrorizado com a sua descendência, mantinha-a prisioneira nas entranhas de sua mãe, a Terra. Então Cronos, com um golpe de foice, cortou o órgão sexual de seu pai, afastou-o do poder e apoderou-se do Universo,

A partir de então, o mundo foi governado pela linhagem dos Titãs que, segundo Hesíodo, constituía a segunda geração divina. Foi durante o reinado de Cronos que a humanidade (recém-nascida) viveu a sua idade de ouro.

Cronos casou com a sua irmã Reia, que lhe deu seis filhos (os Crónidas): três raparigas, Héstia, Deméter e Hera e três rapazes, Hades, Posídon e Zeus.

Ora, para evitar que um dos seus descendentes reproduzisse, em seu proveito, a aventura que o tornara rei, Cronos tinha prometido aos seus irmãos mais velhos não ter descendência. Por outro lado, os seus pais tinham-lhe prognosticado, caso ele tivesse filhos, o mesmo destino que tivera seu pai. Assim, Cronos agiu com os seus filhos tal como úrano tinha feito no

passado. Mas fez ainda pior, devorou-os à medida que eles iam nascendo.

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Cronos



Desesperada, Reia procurou uma solução, e por conselho de sua mãe decidiu, quando estava grávida de Zeus, refugiar-se em Creta, a fim de que a criança aí nascesse. Assim aconteceu e Geia recolheu o bebé, levando-o para ser educado com os filhos do rei.

Entretanto, Reia apresentou a Cronos u4ia pedra envolta em panos, que ele engoliu, sem desconfiar.

A infância de Zeus desenrolou-se entre os carvalhos do monte Ida. E para que Cronos não escutasse o seu choro, os Curetes, sacerdotes-soldados de Reia, simulando praticar danças sagradas, faziam retinir os bronzes dos seus escudos.

Quando Zeus cresceu, resolveu vingar-se de seu pai, solicitando para esse efeito o Apolo de Métis - a Prudência - filha do Titã Oceano. Esta ofereceu a Cronos uma poção mágica, que o obrigou a restituir os filhos que tinha devorado.

Então Zeus afastou-o do trono, e segundo as palavras de Homero prendeu-o com correntes, precipitando-o, seguidamente, no mundo subterrâneo, onde Cronos foi encontrado, após dez anos de luta encarniçada, pelos seus irmãos, os Titãs, que tinham pensado poder reconquistar o poder a Zeus e aos seus partidários.

Segundo outras tradições, Cronos teria sido, simplesmente, adormecido e levado para a ilha misteriosa de Tule ou teria sido exilado como rei para um sítio ideal onde o "solo fértil produzia colheitas três vezes por ano" e onde se teria prolongado esta idade de ouro, definitivamente terminada com o aparecimento da terceira geração, a de Zeus e dos Olímpicos.

Quanto à famosa pedra, instrumento de liberdade e de vitória, repelida mais tarde por Cronos, mereceu a atenção de Zeus, que a transportou para o futuro lugar de Delfos, a fim de aí ser venerada ao longo dos séculos.

Cronos foi, por vezes, assimilado ao deus fenício Baal, a cujo ídolo eram sacrificadas as vítimas humanas.

A lenda de Cronos figura no tecto da Sala dos Elementos no Palácio Vecchio (Florença), pintado por Vasari. Goya representou Cronos devorando os seus filhos (Madrid, Prado).

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Curetes



Curetes owWoo-mm-os> wemev:-m,'

Os Curetes são gênios, com uma origem obscura, que se encontram em diversos países do mundo mediterrânico.

Aparecem em Creta como serventuários do culto de Reia, no momento do nascimento de Zeus, e são eles que se encarregam, com o barulho da sua dança guerreira, a pírrica (por vezes eles são apresentados como filhos de Cálcis (em grego: chalcos), inventora das armas de bronze, filha do rei Asopo) de cobrir o choro do bebé, impedindo assim Cronos de descobrir a sua presença.

Vamos reencontrá-los também na Fócida, quando do nascimento de Zagreu. Participaram na educação do filho de Zeus, sem conseguir, no entanto, subtraí-lo à crueldade dos Títãs.

Os Curetes, cumprindo a ordem de Hera, raptaram e esconderam na Síria o filho que Zeus tinha dado a lo, Épafo. O rei dos deuses, pouco reconhecído pelos serviços que os Curetes lhe tinham prestado na sua infância, fulminou-os.

Existe, igualmente, um povo mítico com o nome de Curetel, que foi afastado da sua pátria pelo invasor Etolo, rei da Élide e filho de Endímion. O país tomou a partir de então o nome de Etólia.

1 Cf. também Meleagro.

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M



Dãnae

Dánae era a filha única de Acrísio, rei de Argos, e da sua esposa, Eurídice, filha do rei de Esparta, Lacedémon.

Acrísio, inquieto por se encontrar sem descendência masculina, consultou o oráculo. Este informou-o que ele viria a ser avô, mas pereceria às mãos do seu neto. Então, o rei mandou fazer uma torre de bronze para encarcerar a sua filha Dánae juntamente com a sua ama, afastando-a assim de qualquer contacto com o mundo exterior.

Acontece que Zeus se deixara seduzir pela beleza de Dánae. Assim, quando teve conhecimento da sua prisão, resolveu penetrar no cárcere, transformando-se em chuva de ouro, e uma vez junto da jovem tomou a sua forma e seduziu-a. Desta união encantada nasceu um filho, a quem Dánae deu o nome de Perseu. Este veio a ser um dos mais célebres heróis da mitologia grega.

Durante alguns anos, Dáriae e a sua ama conseguiram manter o rei na ignorância do que se passara, mas um dia ele escutou as brincadeiras da criança. Enfurecido, mandou executar a serva e arrastou Dánae para o altar de Zeus, exigindo saber o nome do sedutor. Então, Dánae revelou a verdade, mas Acrísio recusou-se a acreditar, encarcerando a culpada com o seu filho numa arca, que mandou atirar ao mar.

A arca, protegida por Zeus, foi levada pelas ondas para uma ilha das Cíclades, Serifo. Díctis, irmão do tirano Polidectes, que reinava na ilha e que, por azar, descendia como Dánae de Dáriao, prendeu a arca com as suas redes, quando pescava, e salvou os naúfragos. Depois recolheu-os em sua casa, onde decorreu a infância e a adolescência de Perseu.

Acontece que Polidectes se apaixonou violentamente por Dánae e, ao mesmo tempo, ganhou uma aversão sem limites a Perseu, que aumentava à

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Dánae



medida que este crescia. Quando Perseu se tornou um atleta robusto, Polidectes tornou-se servo de uma ideia fixa: a de se desembaraçar da presença do jovem e, se possível, da sua vida. Então, simulou querer desposar a filha do rei da Élide, Hipodâmia, e pediu a Perseu que lhe procurasse uma cabeça de Górgona, a fim de a oferecer como presente de núpcias. Dánae seria refém do tirano até que Perseu tivesse cumprido a sua missão.

O herói partiu, então, em expedição e quando regressou, com a cabeça de Górgona e acompanhado de uma esposa, encontrou a sua mãe refugiada no templo de Atena, a fim de escapar às instâncias e às ameaças de Polidectes. Perseu mostrou então ao tirano a cabeça de Górgona e este ficou, instantaneamente, petrificado.

O trono de Sérifo passou então para as mãos de Díctis, que tinha demonstrado para com Dánae uma benevolência desinteressada.

Perseu, por seu lado, regressou a Argos, na companhia da sua esposa e de sua mãe. Acrísio, que não tinha esquecido a profecia, deixou prudentemente a cidade, quando foi informado da sua chegada.

Mas podia ele escapar ao destino? Um dia, quando Perseu lançava o disco no decurso de uns jogos, aos quais assistia Acrísio, este foi atingido por um lançamento, involuntariamente mortal, do seu neto.

A lenda de Dáriae foi, desde a Antiguidade, uma das lendas mais populares da mitologia. Ela exprime, através da imagem da chuva de ouro penetrando no cárcere e dando um filho a Dáriae, uma das funções essenciais de Zeus, deus do céu, por vezes assimilado ao Sol, que fecunda os grãos nas profundezas do solo. (Dá-se também, por vezes, ao símbolo da chuva de ouro uma tradução mais grosseira: o ouro permite penetrar em todo o lado.)

Dánae, a sua beleza e a sua aventura insólita inspiraram um grande número de pintores: Le Corrège (Roma, galeria Borghèse), Ticiano (museus de Nápoles, Madrid, Leninegrado), Tintoreto (Lião), Le Primatice (Fontainebleau, galeria Francisco 1), Rembrandt (Leninegrado), Van Dyck (Dresden), Boucher (Angers)... O amor de Dánae é uma obra do compositor Richard Strauss (1940).

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Danaides



Danaides

Dáriao e Egipto eram irmãos gêmeos, filhos de Belo e netos da ninfa Líbia e de Posídon. Toda esta família descendia, por um lado, de Zeus e de lo e, por outro, do rio Nilo.

Dánao reinou na Líbia e Egipto no Egipto. O primeiro teve cinquenta filhas (as Danaides), de diferentes uniões e o segundo teve cinquenta filhos.

Ora o oráculo tinha aconselhado Dánaoa desconfiar dos seus sobrinhos e, assim, este decidiu abandonar África e embarcar com as suas filhas com destino à Argólida, onde o povo o aclamou como rei. Foi ele que construiu a cidadela de Argos, dando depois o seu nome a toda a raça grega (Timeo Danaos... lê-se em Virgílio: Eu receío os Gregos).

Mas Posídon, que teria desejado possuir o país, desde que ele tinha sido consagrado a Hera, resolveu privá-lo de água. Entretanto, Dánao enviou as suas filhas à procura de uma fonte, e uma delas, Amimone, foi surpreendida por um sátiro que tentou violá-la. A jovem pediu ajuda a Posídon e este manifestou-se, afastando o sátiro com um golpe de tridente. Curiosamente, o tridente bateu numa rocha e dela brotou uma nascente. Amimone transportou então a água preciosa e um filho, a quem chamou Náuplio (fundador da cidade de Náuplia, antepassado de Díctis e de Polidectes, protagonistas da lenda de Dáriae e Perseu), para junto de seu pai.

Um dia, Dáriao viu chegar a Argos os seus cinquenta sobrinhos, desejosos de reconciliar-se com a sua família e propondo-lhe desposar as cinquenta primas. Dáriao, que não tinha esquecido o aviso do oráculo, fingiu ficar satisfeito com a proposta. Entretanto, como presente de casamento ofereceu a cada uma das suas filhas um punhal, obrigando-as a prometer que, na noite de núpcias, matariam com ele os seus maridos. Todas elas cumpriram o prometido, com excepção de Hiperrnnestra, cujo marido, Linceu, não lhe tinha aparecido durante a noite.

Zeus interveio pessoalmente, a fim de que as assassinas, suas descendentes, fossem purificadas por intermédio de Hermes e de Atena. As jovens puderam então sonhar com um casamento mais duradouro do que aquele. Acontece que nenhum pretendente apareceu, apesar de estarem dispensados de trazer os presentes habituais. Então, Dánao organizou jogos em que as

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Danaides



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Delfos

filhas seriam o prêmio. Os jovens da Argólida apresentaram-se e os vencedores dividiram entre si as Danaides.



Quanto a Linceu, não perdoou o massacre dos seus irmãos, e quando regressou matou o rei e todas as suas cunhadas.

Estas foram então conduzidas para os Infernos e submetidas a uma prova pela eternidade. As Danaides eram obrigadas a tirar água de um poço e a deitá-la num túnel, sem fundo.

Deifos

Apolo, pouco depois do seu nascimento na ilha de Delos, resolveu percorrer a Grécia, armado por Hefesto, a fim de escolher um lugar para estabelecer o seu santuário. Foi assim que ele elegeu um sítio na Fócida, no flanco do Parnaso, um dos lugares mais impressionantes do país, quer pela sua majestade quer pelo seu mistério, rodeado por altas montanhas (em três dos lados) e dando para um vale verdejante e para o mar.



Este lugar era reconhecido como o centro do Universo, o ponto onde se reencontravam duas águias, largadas por Zeus ao mesmo tempo, uma vinda de este e outra de oeste.

Ali se tinha manifestado outrora o mais antigo oráculo do mundo, comum à Terra e a Posídon. Depois, foi abandonado, muito embora continuasse a beneficiar da protecção de uma serpente. Como a luz triunfa sempre sobre as trevas, Apolo matou o monstro e deixou-o apodrecer ao sol (o verbo apodrecer, em grego, diz-se: pytho). Depois, apropriou-se do oráculo, dando-lhe o nome de Pito. Em homenagem à serpente Píton, sua vítima, Apolo instituiu os jogos píticos. A sacerdotisa encarregada de proferir o oráculo do deus, colocada sobre um tripé suspenso, charnar-se-á Pítia.

Certo dia, Apolo decidiu reclamar os ocupantes de um navio cretense, a fim de os tornar sacerdotes do seu culto. Para isso, precipitou-se ao seu encontro na forma de um golfinho (em grego: delphis) e foi assim que o sítio de Pito mudou o seu nome para Delfos (uma outra explicação faz remontar a

etimologia à palavra delphys, que significa matriz).

A tradição atribui a Anfiction, filho de Deucalião e de Pirra, a fundação da confederação (ou anfictionia) que tomou conta do santuário. Esta confedera-

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Delfos



ção era constituída pelas gentes que habitavam à volta de Deitos (é o sentido da palavra anfictionia), cujos representantes administravam o centro religioso, geriam o tesouro, organizavam as cerimônias, as festas artísticas e os jogos desportivos. Delfos possuía um teatro e um estádio, para este efeito.

o santuário de Delfos, aberto a todos, tornou-se o lugar mais frequentado de todos os povos da Antiguidade, quer helenos quer bárbaros. No decurso dos séculos, acumularam-se ex-votos sumptuosos, troféus, estátuas e capelas de mármore de uma e de outra parte da via sagrada que conduzia, de terraço em terraço, ao monumental templo de Apolo.

Este, decorado com cores vivas, destacava-se sobre as falésias banhadas de sol, a que os Gregos chamavam Féciriadas (resplandecentes). O templo compreendia uma sala de atendimento, para aqueles que iam consultar o oráculo, a sala secreta onde estava a Pítia e o santuário propriamente dito. Este último apresentava, aos fiéis, as máximas de sabedoria: "Conhece-te a ti próprio" e "Nada em demasia". O santuário abrigava, para além da estátua do deus, uma pedra cónica que passava por ser o umbigo do Universo (omphalos). Uma outra pedra que se venerava em Delfos era aquela que Reia tinha apresentado a Cronos, em substituição de Zeus e que este, mais tarde,

O santuário de Deifos

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Delos


tinha transportado para aqui, uma vez que seu pai a tinha rejeitado, a fim de a expor ao reconhecimento público.

O oráculo de Delfos exerceu uma influência considerável sobre o mundo antigo, intervindo quer nos assuntos internos das cidades quer nos conflitos entre Estados. Partidário de um conservadorismo aristocrático, o oráculo opôs-se constantemente às democracias assim como às tiranias, não esquecendo nunca, no entanto, de se colocar do lado que lhe parecia mais forte.

O último oráculo de Delfos foi pronunciado a pedido do imperador romano Juliano. Ainda hoje conhecemos as suas,palavras:

A rica morada caiu e Febo já não tem pátria, nem loureiro profético, nem fonte cantante, pois a água deixou de falar

Delos

A ninfa Astéria, filha dos Titãs Céu e Febe, era perseguida por Zeus. Para lhe escapar, metamorfoseou-se numa ilha flutuante, a Ortígia (do grego ortyx: codorniz).



Foi nesta ilha que Leto, irmã de Astéria, encontrou refúgio, a fim de dar à luz os gêmeos, gerados por Zeus: Apolo e Ártemis. A ilha de Ortígia foi então fixada à terra, por quatro colunas, e mudou de nome, passando a chamar-se Delos (A Aparente).

O nascimento sagrado teve lugar no topo de uma montanha da ilha, sob a protecção de uma palmeira. Mal nasceu, Apolo resolveu construir um altar à sua própria divindade. Para esse efeito, matou um certo número de cabras e com os seus cornos, empilhados, fabricou um altar, antepassado do santuário que conheceu um êxito excepcional, em todo o mundo mediterrânico. ~",- MIM,

Este êxito é devido quer à lenda de Apolo quer à situação privilegiada da ilha no centro do arquipélago das Cíciades e de todo o mar Egeu. Delos foi, ao mesmo tempo, um santuário e um mercado.

O oráculo de Apolo e as festas dadas em honra do deus (competições

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Deméter


musicais e poéticas assim como gímnicas) traziam fiéis de todo o lado. Como em Delfos, a administração do santuário e das festas foi dada a uma anfictionia (associação de Estados). De início, esta administração agrupava somente os jónios insulares, mas mais tarde aceitou também a participação de Atenas. E foi assim que, no séc. v, a Confederação Ateniense estabeleceu a sua sede em Delos.

Deméter Eu

Deméter, a Terra-Mãe, é a mais importante das divindades gregas da fecundidade. Ela incarna a terra cultivada, mais particularmente, a cultura do trigo.

Filha de Cronos e de Reia, Deméter é a irmã loura de Héstia (a mais velha), assim como de Hades, Posídon e Zeus.

Acontece que Posídon se apaixonou por sua irmã e Deméter, a fim de lhe escapar, metamorfoseou-se numa égua e misturou-se aos cavalos do rei da Arcádia. Mas o seu irmão tomou a forma de um cavalo e conquistou-a, tornando-a mãe do cavalo Aríon - dotado da palavra - e de uma filha que é nomeada na mitologia com o vocábulo "A Senhora".

Entretanto, também Zeus cobiçou Deméter. Ela tentou resistir-lhe, mas o rei dos deuses, sob a forma de um touro, violou-a e a deusa deu à luz uma filha, chamada Core (que significa: a jovem), que foi a sua alegria e o seu orgulho. Infelizmente, o terceiro dos irmãos, Hades, até então recusado por todas as deusas, apaixonou-se pela sua sobrinha e raptou-a.

A busca de Deméter Desde este dia, Deméter, obcecada pelo grito patético de sua filha, consagrou todo o seu tempo e todas as suas forças à procura da sua bem-amada (o único sossego que ela concedeu a si própria, foi-lhe proporcionado pela semente da dormideira, nascida no meio do trigo). Durante nove dias e nove noites, ela percorreu o mundo, com um archote em cada mão. A deusa Hécate, que escutara os clamores de Core, não pôde indicar-lhe a pista. Mas Hélio, em compensação, identificou o autor do rapto. Abatida pela revelação, Deméter renunciou às suas prerrogativas divinas, decidindo ficar na terra até que a sua filha lhe fosse devolvida.

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Deméter



Foi assim que, sob a aparência de uma velha, a deusa se refugiou em Elêusis, próximo de Atenas. Aí, ela colocou-se ao serviço da rainha que a contratou como ama de um dos seus filhos: Demofonte (não confundir com o filho de Teseu) ou, segundo a versão mais corrente, Triptólemo.

Entretanto, Deméter desinteressou-se completamente das culturas que até aí protegia. Assim, a terra transformou-se num deserto e a fome ameaçou os homens e os animais. Zeus, inquieto, e temendo ver a ordem do mundo subvertida, ordenou a seu irmão que renunciasse a Core. Mas esta, que tinha tomado o nome de Perséfone, não podia esçapar aos Infernos, a não ser que, durante a sua estadia, se tivesse abstido de todo o alimento. Ora acontece que a jovem tinha trincado um grão de romã (símbolo de casamento), encontrando-se assim ligada ao seu esposo infernal.

Deste modo, o seu pai arranjou um compromisso: se Deméter aceitasse voltar para junto dos deuses, Perséfone poderia dividir o seu tempo entre a sua mãe e o seu marido.

Atribuições de Deméter Segundo o acordo preconizado por Zeus, Perséfone passaria seis meses do ano com Deméter, no Olimpo, e outros seis meses na companhia de Hades, nos Infernos. Durante a estação tórrida, Deméter deixava os seus campos desnudarem-se, mas durante os seis meses seguintes favorecia a eciosão da vegetação.

Antes de deixar a terra, a deusa confiou a Triptólemo - que ela não conseguiu tornar imortal - a missão de difundir, por toda a terra, a cultura do trigo.

A Sicília e a Campânia, dois dos celeiros de trigo da Antiguidade, conservaram a lembrança dos combates travados por Deméter pela posse do seu solo: o primeiro, em detrimento de Hefesto, o segundo de Dioniso.

Adorada em muitas regiões do mundo grego, que se gabavam de ter acolhido a deusa quando da sua busca, Deméter tinha os seus principais centros de culto na Ática. Aí celebravam-se, em sua honra, cerimônias importantes. Durante o mês de Outubro, época das sementeiras e das festas de acções de graças, acessíveis a todos, aconteciam as Tesmofóricas (Deméter era chamada Tesmófora, a legisladora, no seu papel de reconhecida fundadora da civilização, sobretudo da instituição do casamento). Em Elêusis festejavam-se as Eleusínias, grandes solenidades que marcavam, em Setembro, o

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Demofonte



princípio da subida de Perséfone. Estas eram reservadas aos iniciados nos mistérios, que se preocupavam não somente com os benefícios concernantes à vida terrena, mas sobretudo com a felicidade das almas no além.

A divindade itálica Ceres, originária da Campânia, foi assimilada, pelos Romanos, a Deméter, que desde então se tornou numa divindade de primeiro plano.

Dernéter é representada pela estatuária grega como uma mulher de beleza severa, olhar longínquo, coroada de espigas ou com uma corbelha (simbolizando a fecundidade).

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Dernofonte é filho de Teseu e de Fedra e irmão de Ácamas. A lenda confunde, frequentemente, as aventuras dos dois irmãos, em particular aquelas que tratam da guerra de Tróia e do regresso após a vitória.

Os Atenienses eram-lhe singularmente reconhecidos portertrazido, para Atenas, o famoso Paládio, a estátua de Palas-Atena que protegia Tróia. Uns contam que ele a recebeu de Diomedes e de Ulisses, outros que ele a roubou aos Argianos de Diomedes, que ele confundira com piratas, desembarcados por engano em Faleno, o porto a sul de Atenas.

É Demofonte que aparece como rei de Atenas quando Orestes, depois do assassinato de sua mãe, Clitemnestra, vem sujeitar-se ao julgamento. Como a chegada do jovem assassino se situou durante as Antestérias, as grandes festas do vinho, Demofonte, a fim de evitar ofendê-lo mas também convidá-lo para as cerimónias sagradas, teve a ideia de mandar fechar os templos, distribuindo no exterior uma bilha de vinho a cada fiel. Como recordação deste episódio, o segundo dia das Antestérias ficou conhecido com o nome de dia "das bilhas", consistindo num concurso de bebedores.

Diz-Se igualmente que foi durante o reinado de Demofonte que os filhos de Héracies, depois da morte do herói, pediram a protecção de Atena contra Euristeu, que tinha sido o carrasco de seu pai. Como a ajuda foi prometida,

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Dilúvio (O)



Euristeu decidiu atacar os Atenienses, sendo vencido e morto, assim como os seus filhos, durante a batalha.

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Os homens estavam na idade do bronze. Zeus, assistindo ao desenfreamento do seu orgulho, da sua perversidade e da sua violência, decidiu destruir a raça, submergindo o mundo com um formidável dilúvio.

Um só casal devia escapar à destruição: Deucalião, rei da Tessália, filho de Prometeu, e sua esposa, Pirra. Com efeito, Deucalião, aconselhado pelo seu pai, sempre vigilante, construiu uma embarcação, na qual se refugiou com a sua mulher, esperando que a catástrofe terminasse. Durante nove dias, a terra foi sacudida por trombas de água, enquanto o navio navegava por entre as montanhas. Na aurora do décimo dia, a chuva parou. O nível das águas baixou e o barco encalhou no monte Parnaso, na Fócida.

Deucalião desceu à terra e fez um sacrifício a Zeus que, tocado pela sua piedade, aceitou satisfazer o primeiro dos seus votos. Aproveitando, Deucalião exprimiu, ardentemente, o desejo de ver renascer a raça humana. Zeus ordenou então aos dois sobreviventes que cobrissem os seus rostos e que atirassem por cima dos seus ombros "os ossos dos seus avós". Compreendendo que se tratava de pedras agarradas à Terra, mãe comum dos deuses e dos homens, eles cumpriram a ordem de Zeus. As pedras lançadas por Deucalião transformaram-se em homens e as atiradas por Pirra transformaram-se em mulheres.

Depois, os dois esposos desceram do Parnaso e construíram a sua casa. Aíterminaram os seus dias, em paz e sabedoria, tendo tido dois filhos: Hélen, primeiro antepassado da raça grega (que teve como filhos Éolo e Doro, pais dos Eólios e dos Dórios) e Anfiction, que criou na Fócida a primeira anfictionia, para administrar o santuário de Delfos. A sua filha mais velha, Protogénia, teve uma relação amorosa com Zeus, da qual nasceram dois filhos, os heróis locrianos Opu e Eflio.

A menção do dilúvio - em todo o caso, de um dilúvio - encontra-se em todas as tradições lendárias ou históricas dos povos primitivos. O dilúvio dito de "Deucalião" ter-se-á produzido em meados do 11 milénio.

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Diomedes



Diomedes

Diomedes, herói cujo vigor e coragem nunca foram desmentidos, é filho de Tideu (ele próprio filho de Eneu, rei de Cálidon). A sua mãe é filha do rei de Argos, Adrasto. Ora, Adrasto foi o promotor de duas campanhas, com dez anos de intervalo entre si, destinadas a restabelecer no trono de Tebas, na primeira vez, e sem resultado, Polinice, que ele tornara seu genro. Na segunda vez, o filho de Polinice, Tersandro. Diomedes participou na segunda expedição, que foi coroada de êxito.

A partir de então, o herói tornou-se o defensor dos oprimidos, exterminando assim os sobrinhos de seu avô Eneu, que o tinham afastado do trono.

Como muitos outros, foi pretendente de Helena de Esparta, acabando por consolar-se com a sua própria tia materna, Egiale. Mas também esta situação lhe permitiu devotar-se, de novo, ao serviço de uma vítima (cumprindo ainda o juramento prestado portodos os antigos apaixonados de Helena) e Diomedes revelou-se como um dos mais ardentes combatentes da guerra de Tróia.

Chamado, como Ulisses, a exprimir-se nos conselhos dos chefes, devido à sua sabedoria e à sua eloquência, Diomedes participará, muitas vezes, nas missões confiadas ao rei de ítaca. Ele estará presente junto do jovem Aquiles, quando este se liberta após ter sido escondido entre as filhas do rei de Ciro. No caso de Agamémnon em Áulis, a fim de o convencer a sacrificar Ifigénia. De novo, junto de Aquiles, quando este abandonou o combate em Tróia. No decurso de uma expedição de reconhecimento aos acessos do campo troiano, os dois heróis aprisionaram o espião Dólon e obrigaram-no a revelar a estratégia do exército inimigo. Depois, inspirados pelas deusas Hera e Atena, surpreenderam o herói trácio Reso, aliado dos Troianos, adormecido. Mataram-no e roubaram-lhe os seus cavalos brancos. Estes eram dotados de uma velocidade inacreditável, tornando assim o seu possuidor particularmente perigoso.

Eneu


Mon

Édipo Adrasto (ou Zeus)

Polinice 1 MIy1d Deípile + Tideu Hipodâmia + riritoo

Diomedes + Eg íale

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Dione


A Ilíada conta as inúmeras aventuras de Diomedes, protegido e encorajado por Atena. Ele será levado a ferir a deusa Afrodite, durante uma batalha. E um dia ele próprio será ferido no pé por Páris.

No decurso de um combate sobre as muralhas de Tróia, Diomedes terá de enfrentar o herói lício Glauco, neto de Belerofonte, conhecido pela sua bravura. Acontece que as famílias dos dois heróis estavam unidas por laços de hospitalidade pois Eneu, avô de Diomedes, tinha acolhido na sua corte Belerofonte. Ao reconhecerem-se, os dois guerreiros interromperam o combate, trocaram as suas armas, e depois retornaram o seu lugar, nas suas respectivas fileiras.

Quando Pátroclo foi morto, Diomedes participou nos jogos fúnebres organizados por Aquiles, vencendo Ájax, num combate singular.

Foi ainda Diomedes que acompanhou Ulisses à ilha de Lemnos, onde tinha sido abandonado Filoctetes, a fim de trazer para Tróia este herói, possuidor das flechas de Héracies, sem as quais os Gregos não poderiam alcançar a vitória.

Segundo a Odísseia, o regresso de Diomedes, após a queda de Tróia, desenrolou-se sem aventuras. Mas outras tradições contam que, como Agamémnon, ele teria encontrado em casa uma esposa infiel - digna vingança de Afrodite - que o sujeitará a diversas provas, das quais ele escapará com dificuldade.

Como consequência, Diomedes abandonará o reino e dirigir-se-á para Itália, onde fundará um certo número de cidades. Aí colocará - uma vez mais - a sua espada ao serviço de um soberano, Dauno, rei dos Lapiges, que lhe dará a sua filha em casamento.

Dione

Divindade primitiva da mitologia grega, Dione é apresentada por Apolodoro como uma das Titânides, filha de úrano e de Geia. Mas Hesíodo apresenta-a como filha dos Titãs Oceano e Tétis. Dione é considerada em Doclona, no Epiro, onde se celebra o seu culto, como a esposa de Zeus, a quem ela está intimamente associada (nota-se que o seu nome é a forma feminina da palavra Zeus, no genitivo: Díos).



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Dioniso


A deusa representa a terra fecundada pela humidade, sendo Zeus adorado em Dodona exactamente como deus da chuva benéfica. Diz-se que a fonte existente junto ao carvalho sagrado, que proclamava o oráculo de Zeus, seria para apagar os archotes acesos e reacender aqueles que estavam apagados.

Homero, que parece não ter conhecido a bárbara lenda da mutilação de úrano, apresenta Dione e Zeus como os pais de Afrodite. Mais tarde, a própria Dione será confundida com Afrodite. Por isso, o animal consagrado às duas deusas é a pomba (as sacerdotisas de Dodona usam mesmo o nome de "pombas" - as Pelíades).

O santuário de Dodona perdeu a sua importância com a pilhagem dos Etólios no séc. iii a. C. e desapareceu no séc. iv d. C., no reinado do imperador Teodósio. O templo pagão foi substituído por uma igreja cristã, onde Cristo veio ocupar o lugar de Zeus e a Virgem Maria o de Dione.

As efígies de Dione, que a apresentam geralmente acompanhada por Zeus, mostram a deusa coroada com uma corbelha, símbolo das divindades da vegetação,

Dioniso

Zeus, o rei dos deuses, apaixonou-se por Sérnele, filha do rei de Tebas, Cadmo. E como ele vinha visitar a princesa, clandestinamente, ao palácio de seu pai, Hera, ciumenta, transformou-se um dia na ama de Sérnele e sugeriu à princesa que exigisse a Zeus, como prova de amor, que ele lhe aparecesse em todo o seu esplendor divino. Sérnele foi tão persuasiva, que Zeus cumpriu o seu desejo de uma forma tão resplandecente, que os raios que emanavam do seu corpo incendiaram o palácio e fuiminaram a infeliz. O filho de Zeus, que a princesa trazia no seu ventre, teria perecido carbonizado, se uma hera, surgida por milagre, não tivesse vindo fazer barreira às chamas devoradoras. O rei dos deuses recolheu-o então e ocultou-o na gordura da sua coxa.

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Dioniso


Iriffincia e juventude de Dioniso Quando chegou o tempo certo, Zeus fez brotar da sua coxa o bebé divino.

Foi confiado a Ino, irmã de Sérnele, que tinha desposado Átamas, rei da Coroneia, na Beócia. Mas Hera, fiei à sua vingança, causou a loucura dos dois esposos. Zeus foi obrigado a intervir, de novo, encarregando Hermes de levar o seu filho para muito longe, e desta vez sob a aparência de um cabrito, a fim de ser educado pelas Ménades, as ninfas do monte Nisa (na Trácia, na Ásia ou em África?). O jovem deus retirou daí o seu nome: Zeus de Nisa, Dioniso.

Para a sua educação, as Musas, as sátiras e Sileno - seu pai adoptivo - colaboraram com as ninfas, as quais - como recompensa - foram, mais tarde, transformadas em estrelas, as Híades.

Quando chegou à idade adulta, Dioniso tentou descobrir a maneira de fazer vinho a partir das uvas. Hera, aproveitando a bebedeira do jovem, enlouqueceu-o. E Dioniso só se libertou da loucura depois de uma viagem ao santuário de Zeus, em Dodona. A partir de então, percorreu o mundo a fim de ensinar aos homens a cultura da vinha e de lhes dar a conhecer a preciosa bebida. E assim vamos encontrá-lo, acompanhado por Sileno, enfrentando ou suscitando um certo número de aventuras, cujo sucesso cronológico varia com as tradições.

As aventuras de Dioniso Na Etólia, foi acolhido por Eneu, rei de Cálidon, tendo seduzido Alteia, a sua esposa. Esta deu-lhe uma filha, Dejanira, futura mulher de Héracles. Afim de compensar Eneu, Dioniso ofereceu-lhe a primeira vide conhecida pelos mortais.

Na Ática, ele iniciou o rei lcário, mas este acabou por sucumbir aos golpes dos seus pastores, embriagados. Desesperada, a sua filha suicidou-se. Dioniso concluiu o drama, enlouquecendo todas as mulheres da Ática e transportando lcário, a sua filha e a sua cadela, para o céu. Estes foram transformados em constelações: o Boieiro, a Virgem e a Canícula.

Tendo percorrido o mundo grego, Dioniso dirigiu-se para a Ásia Menor. Na Frigia, encontrou a deusa Cíbele, que lhe revelou os mistérios do seu culto. Em Éfeso, repeliu uma incursão das Amazonas; na Síria, fez esfolar o rei que tinha ordenado a destruição das vinhas plantadas por si; no Líbano, beneficiou da hospitalidade de Afrodite e de Adónis.

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Dioniso



Dioniso reinou certo tempo no Cáucaso. Depois, tendo atravessado os -rios da Mesopotâmia, conquistou a índia, onde difundiu uma civilização refinada. Aí, fez-se admirar, montando um carro puxado por tigres, e escoltado por um cortejo triunfal de sátiros e bacantes (Baco ou laco é outro nome de Dioniso) dançando e gesticulando.

No Egipto, foi hóspede do rei Proteu; na Líbia, ajudou o deus Amon a reconquistar o trono de Cirene, de onde tinha sido afastado por Cronos e pelos Titãs.

Uma vez cumpridas estas expedições no Oriente, Dioniso regressou à Grécia. Mas o contacto com os povos da Ásia tinham-no transformado. Agora, ele vestia-se com longos vestidos da Lídia e rodeava-se de ritos inspirados no culto de Cíbele.

O rei da Trácia, Licurgo, expulsou-o e Dioniso foi obrigado a refugiar-se, certo tempo, junto da Nereide Tétis, no fundo do mar. Entretanto, Licurgo capturou as bacantes, seguidoras inspiradas de Baco. Este, como castigo, enlouqueceu o rei, que acabou por matar o seu próprio filho. Depois, tornou toda a Trácia estéril, até ao momento em que o oráculo foi consultado e ordenou a morte de Licurgo, que foi atirado às feras.

O rei de Tebas, Penteu, sucessor de Cadmo e primo de Dioniso, não reservou melhor acolhimento ao filho de Sérnele. Pior, não hesitou em prendê-lo com cadeias. Mas Dioniso libertou-se e provocou um delírio frenético em todas as Tebanas, e Penteu foi massacrado no monte Cíteron, pela sua própria mãe (este é o tema da tragédia de Eurípides: As Bacantes). Em Argos, onde foi tratado da mesma maneira, Dioniso reagiu com as mesmas armas: os Argónidas, dominados pela demência, devoraram os seus próprios filhos. Na Beócia, as filhas do rei negaram a divindade de Dioniso e recusaram participar no seu culto. Então, o deus metamorfoseou-se perante elas, primeiro num touro, depois num leão, e finalmente numa pantera. Enlouquecida, uma das princesas desfez o seu próprio filho. Depois, Dioniso tranformou as princesas em diversos animais, uma em rato, outra numa coruja e a última em mocho.

O deus Dioniso Finalmente, Dioniso, desejoso de assegurar a autenticidade da sua genealogia divina, decidiu ir arrancar dos Infernos a sombra da sua mãe mortal. Hades não se opôs, pedindo, no entanto, em troca, uma das plantas favo-

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Dioniso


ritas do seu visitante: a murta. Dioniso enviou então Sérnele para o Olimpo onde, com o nome de Tione, foi admitida entre os imortais. Este episódio permitiu o reconhecimento de Dioniso como deus (outras tradições apresentam a descida de Dioniso aos Infernos como uma consequência da sua morte. A sua entrada no Olimpo representaria, depois, a sua ressurreição).

No decurso de uma viagem pelas ilhas do Arquipélago, Dioniso atracou na ilha de Naxo, onde encontrou Ariadne, filha do rei de Creta, Minos, que Teseu tinha raptado e depois abandonado, adormecida, numa margem do rio. Quando a jovem acordou, Dioniso consolou-a e pouco tempo depois desposou-a no Olimpo, na presença de todos os deuses. O casal teve vários filhos, dos quais destacamos Enópion (O provador do vinho), futuro rei de Quios, e Estáfilo (o cacho), futuro Argonauta.

Todos estes relatos, assim como as proezas executadas por Dioniso e os funestos exemplos dos ímpios, contribuíram para afirmar definitivamente o poder divino de deus, cujo culto se implantou em todas as partes do mundo que ele percorrera.

As suas festas populares, as Dionisíacas, eram centradas no tema do vinho. As mais importantes foram as Grandes Dionisíacas de Atenas, celebradas no princípio de Março. Foram elas que deram origem ao nascimento da poesia dramática grega. Com efeito, no decurso destas festas, eram declamados "ditirambos", hinos enaltecendo os sofrimentos e a vitória do deus. Mais tarde, e dentro do mesmo espírito, foram representadas nos teatros consagrados a Dioniso, as Tragédias ("cantos do bode", do nome do animal imolado, em grego: tragos), as Comédias e os dramas satíricos com temas religiosos, inspirados primitivamente na lenda de Dioniso.

Assim, e apesar de ser o último dos grandes deuses a entrar no Olimpo, Dioniso renovou e revolucionou completamente o gênio grego, após o séc. viii a. C. As artes, submetidas a Apolo, graças a este renovamento, proliferaram e conheceram uma exaltação nunca vista até então.

Às festividades populares e às celebrações artísticas juntavam-se, em todos os lugares de culto, ritos de carácter orgiástico, através dos quais os fiéis entravam em êxtase ou numa bebedeira descontrolada. Estas manifestações, que na origem tinham dado lugar a sacrifícios humanos (como a lenda parece demonstrar), tinham como finalidade permitir ao iniciado incorporar a própria pessoa do deus, comendo do seu corpo e bebendo do seu sangue (simbolicamente: a carne de uma vítima sacrificada ou um copo de vinho).

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Dioniso


A Itália foi um terreno privilegiado para o desenvolvimento destas manifestações, que se caracterizavam por um desregramento desenfreado. No entanto, no séc. ii a. C., o senado romano, perante as desordens, os escândalos e os crimes que se cometiam durante os mistérios dionisíacos, decidiu interditar as "Bacantes" (nome destas festas). Entretanto, a tradição mística persistirá, preservada por seitas fiéis, e o deus Baco desempenhará um papel religioso e cultural de primeiro plano, desde o período de César até ao final do Império.

Deus do vinho e da vegetação, do vigor fecundante e procriador, assim como dos prazeres naturais da vida, Dioniso tornou-se, pouco a pouco, num deus cívilizador, o deus da inspiração'. Finalmente, com a tradição órfica, ele assumiu o papel de deus supremo, senhor do mundo subterrâneo e dador de uma felicidade eterna, a todos os seus iniciados.

Nas representações artísticas, Dioniso aparece sob a forma de um homem maduro, barbudo, com cabelos encaracolados, coroados por hera. Depois, à medida que a sua personagem e a sua lenda evoluem, ele vai surgir como um efebo imberbe, de longos cabelos, coroados com parras; umas vezes aparece nu, sob uma pele de pantera, outras coberto com um longo vestido feminino, transportando numa mão um copo e noutra o tirso, seu atributo ritual, enfeitado com ramos de vinha e de hera e rematado por uma pinha. Entre as múltiplas representações, evocamos simplesmente a estátua de Miguel-Angelo e os quadros de Leonardo da Vinci, Ticiano, Poussin, J. Rornain. As núpcias de Dioniso e Ariadrie (frescos da vila dos Mistérios, Pompeia) inspiraram um bailado a Albert Roussel (Baco e Ariadne, 1931) e uma ópera a Ríchard Strauss (Ariadne em Naxos, 19 12).

1 Diferentemente da inspiração dada por Apolo, pois este era o deus do domínio espiritual enqu=o que Dioniso encarnava a energia vital.

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Dioscuros (Os)



Dioscuros (OS)

A palavra Dioscuros, que significa "filhos de Zeus" é o qualificativo habitual de Castor e Pólux, os filhos de Leda. Mas enquanto Pólux é mesmo filho de Zeus, que tomou a forma de um cisne para seduzir Leda, Castor é filho do rei Tíndaro de Esparta, marido de Leda. Ambos são irmãos de Cliterrinestra e de Helena. As quatro crianças, provenientes de ovos, nasceram no monte Taigeto.

Heróis dóricos por excelência, os Dioscuros mostraram-se felizes por invadir a Ática, quando o rei de Atenas, Teseu, sequestrou Helena. Mas como o culpado estava ausente - tendo partido à aventura com o seu amigo Pirítoo - Castor e Pólux libertaram a irmã e capturaram a mãe de Teseu, Etra. Depois, expulsaram os filhos de Teseu, que asseguravam interinamente o poder, e colocaram no trono de Atenas o descendente exilado de Erecteu, Menesteu.

Os Dioscuros, unidos por uma afeição indissolúvel, participaram com Jasão na expedição dos Argonautas à conquista do Velo de Ouro. No decurso de uma tempestade que assolou o navio Argo, em pleno mar, Zeus manifestou a sua protecção, fazendo descer duas labaredas sobre a cabeça dos gêmeos: este fenômeno foi conhecido na Idade Média sob o nome de "fogo de Santelmo".

Castor e Pólux estiveram de novo com Jasão, ajudando-o a saquear a cidade de lolco, de onde ele tinha sido expulso. Foram igualmente chamados, juntamente com todos os heróis valorosos deste tempo, a tomar parte, ao lado de Meleagro, na trágica caçada ao javali de Cálidon.

No entanto, o ardor que eles demonstravam no combate, assim como os seus dotes guerreiros - Castor era famoso na arte de montar cavalos e Pólux no pugilato - arrastaram-nos para excessos, dos quais foram vítimas. Assim, quando assistiam às núpcias dos seus primos Idas e Linceu, resolveram raptar as duas noivas, Febe e Hilaíra. Este rapto deu origem a um confronto entre os quatro homens, que se saldou pela morte de Castor.

Pólux, desesperado, suplicou a seu pai Zeus que não o separasse de seu irmão, e então o rei dos deuses, comovido, decidiu que os dois irmãos iriam passar, em conjunto, seis meses no Olimpo e seis meses no Inferno. Mais tarde, foram transportados para o mundo dos astros onde, aparecendo e desaparecendo juntos, formam a constelação dos Gêmeos.

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Dioscuros (Os)

Castor e Pólux voltaram a reaparecer nas lendas romanas. Diz-se que no início da República eles terão ajudado a cavalaria romana a vencer o último ataque dos Tarquínios, nas margens do lago Regilo. E que ao cair do dia se teriam dirigido apressadamente para o Fórum, a fim de anunciar a vitória, tendo parado unicamente na fonte da ninfa Juturna (irmã de Turno, rei dos Rútulos, vencido por Eneu), a fim de saciar a sede dos seus cavalos brancos. Foi aqui, defronte desta fonte, que os Romanos, reconhecidos (a partir de então, os juramentos dos homens passaram a ser feitos em nome de Pólux (Edépol) e os das mulheres em nome de Castor (Ecastor) edificaram um templo dedicado aos Dioscuros, cujos três elegantes fustes de mármore se mantêm, ainda hoje, de pé.

Na Antiguidade, Castor e Pólux foram muito representados. Aparecem como dois magníficos jovens, geralmente coroados com um chapéu cónico (pileus), armados com lança, a cavalo ou a pé, junto dos seus cavalos.

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Éaco

Éaco é filho de Zeus (ou de Posídon) e da ninfa Egina, transformada em ilha pelo seu amante divino. Piedoso por natureza, ele é amado pelos deuses que se comprazem a satisfazer os seus votos. Assim, a fim de conseguir que a sua ilha fosse povoada, Éaco pediu a Zeus que transformasse as formigas de um carvalho sagrado em seres humanos. Esta foi a origem do povo dos Mirmídones (do grego myrm6x@ formiga), de quem Éaco se tornou rei (uma versão diferente da lenda afirma que a ilha, povoada por colonos trazidos por Éaco, foi dizimada por uma epidemia de peste enviada por Hera e que, para substituir os mortos, Zeus acedeu ao pedido de seu filho, metamorfoseando as formigas).

Éaco construiu à volta da ilha de Egina uma cintura de muralhas, que a protegiam das incursões dos piratas. Teria também ajudado Posídon e Apolo a construir as muralhas de Tróia, para o rei Laomedonte. Diz-se que quando a obra terminou, três dragões tentaram a escalada das muralhas, mas só um conseguiu chegar ao fim. Exactamente aquele que subiu pela muralha construída por Éaco. Deduziu-se, assim, que estas protecções seriam um dia franqueadas por um dos seus descendentes.

Éaco teve uma filha, Aicímaco, que foi a segunda esposa de Oileu (pai de Alax, "o pequeno") e dois filhos, Peleu e Téiamon (foi Téiamon, o companheiro de Héracies, que transpôs as muralhas de Tróia, a fim de vingar o herói), que tiveram uma descendência gloriosa (Aquiles, filho de Peleu; o "grande Ája", filho de Téiamon, ambos heróis da guerra de Tróia).

De uma segunda união com a Nereide Psámate, Éaco teve um terceiro filho, Foco. Acontece que os seus dois primeiros filhos tiveram ciúmes de Foco, que se cobrira de louros ao conquistar a Fócida e, assim, decidiram

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Édipo

matá-lo, no decurso de um jogo do disco. Éaco, submisso às leis divinas, condenou ao exílio estes filhos assassinos.

A sua sabedoria e a sua paixão pela justiça fizeram com que os deuses o escolhessem para juiz das suas querelas e, mais tarde, para assessor no tribunal do Além, presidido por Hades, ao lado de Minos e Radamante. Ele estava, particularmente, encarregado de julgar, nos Infernos, os "acontecimentos europeus".

Os habitantes da ilha de Egina renderam-lhe um culto fervoroso, cujas festas eram combinadas com jogos gímnicos. Os vencedores destes jogos suspendiam as suas coroas no templo que lhe tinha sido consagrado. Atenas venerou também Éaco, edificando-lhe um santuário na Agorá.

Éaco é geralmente representado usando um ceptro real e a chave dos Infernos, de que ele é o único detentor.

Édipo


Édipo, filho de Laio e de Jocasta (ou Epicasta) descende de Cadmo, fundador de Tebas, e dos "dentes de dragão" semeados por este herói fundador.

Joguete da fatalidade Os destinos reservavam uma vida plena de desgraças a Édipo. Mas Laio, que era rei de Tebas e não tinha herdeiro, decidiu não prestar atenção às advertências celestes. Assim, quando a criança nasceu, Laio decidiu consultar o oráculo de Delfos, que lhe revelou que o seu filho seria um dia o seu próprio assassino. Angustiado, o rei resolveu expor o recém-nascido no monte Citeron, e para que ele não escapasse aos animais selvagens, prendeu-o pelo pé - daqui provém o cognome que lhe foi dado por aqueles que o salvaram da morte: Pé-Inchado (Pé-Aleijado), em grego: Oidipous. Acontece que a criança foi encontrada e recolhida pelo rei Pólibo e pela rainha Peribeia, que reinavam numa cidade vizinha (Corinto?) e o educaram como seu próprio filho.

Quando atingiu a maioridade, Édipo dirigiu-se a Delfos, onde o oráculo lhe revelou que ele devia matar o seu pai e desposar a sua mãe. Julgando que Pólibo e Peribeia eram os seus verdadeiros pais, Édipo decidiu não regressar

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Édipo

Cadmo


semeia os dentes do dragão

Ctónio


1 Nicteu

Polidoro Nicteide

Lábdaco

1 Laio


Édipo +

Equíon


Agave

Penteu


1 Ociaso

1 Meneceu

Jocasta

Creonte


à corte, a f i m de não cumprir o seu destino. Assim, resolveu partir para Tebas, mas quando abandonava a cidade, deparou com uma situação insólita. O seu carro ficou encurralado num cruzamento estreito, juntamente com outro veículo que se dirigia no sentido contrário. O condutor deste começou por insultar Édipo, e depois um dos seus servidores abateu um dos cavalos do jovem tebano. Édipo reagiu, então, matando os dois homens. E estava, assim, cumprida a primeira parte da profecia, segundo a qual Édipo mataria o seu pai, o rei Laio.

Depois deste confronto singular, Édipo continuou a sua viagem para Tebas, e ao chegar às portas da cidade, encontrou a Esfinge, monstro com busto de mulher e corpo de leoa, que tinha o costume de devorar os viajantes que não eram capazes de responder aos seus enigmas. Esta colocou-lhe uma questão: "Qual é o ser que anda com quatro patas de manhã, com duas ao meio-dia e com três ao entardecer?" Édipo compreendeu que se tratava do homem - criança, adulto e velho, apoiado num cajado - e a Esfinge, vencida, precipitou-se contra os rochedos, encontrando a morte.

Os Tebanos acolheram Édipo com grande pompa, pois ele libertara-os do terror da Esfinge, e como Laio morrera ofereceram-lhe o trono e a mão da

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Édipo

rainha. Estava cumprida a segunda etapa da maldição. Édipo casou com Jocasta e desta união nasceram quatro filhos, dois rapazes, Etécicies e Polinices e duas raparigas, AntIgona e Ismena.

Mas Édipo ignorava completamente o seu destino, até que um dia a peste se abateu sobre o seu povo e tendo consultado o oráculo, este lhe revelou a terrível verdade (este é o tema da tragédia Édipo-Rei, de Sófocies). Jocasta, envergonhada, enforcou-se. E Édipo perfurou os próprios olhos, tomando depois o caminho do exílio. Acompanhado pela sua filha Antígona, encontrou asilo em Atenas, junto do rei Teseu. O oráculo tinha prometido prosperidade ao país que acolhesse o túmulo de Édipo. Este morreu em Colono, pequeno burgo próximo de Atenas, que foi beneficiado pelos deuses (Sófocies: Édípo em Colono).

Os descendentes de Édipo Entretanto, as desgraças previstas pelos destinos deviam continuar a abater-se sobre os descendentes de Édipo. Os seus filhos começaram por disputar entre si o poder: Etécicles conquistou o trono e Polinices, vencido, irá procurar um aliado e um vingador na pessoa do rei de Argos, Adrasto.

Este, não satisfeito por intervir nos assuntos da Beócia, organizou a expedição dos "sete contra Tebas". Os sete chefes eram, para além dele que assegurava a condução das operações, o seu primo e cunhado, Anfiarau -

que participou nesta expedição para satisfazer a sua esposa, irmã de Adrasto

- os Argivos Capaneu e Hipomedonte, famosos pela sua estatura, o Arcádio Partenopeu, filho de Atalanta, o herói etólio Tideu - então em exílio, por assassinato, na corte de Adrasto - e Polinices. Estes dois últimos receberam em casamento as duas filhas de Adrasto.

Após um primeiro combate que se saldou por uma vitória, os Sete cercaram Tebas com os seus exércitos. Mas esta estratégia revelou-se catastrófica: os assaltantes foram aniquilados, com excepção de Adrasto, cujo cavalo, Aríon - nascido dos amores de Posídon por Deméter - o conduziu até Atenas, onde o rei pediu asilo a Teseu.

Os dois filhos de Édipo, Etéocles e Polinices, bateram-se num combate singular, acabando por encontrar a morte. Creonte, irmão de Jocasta, tomou o poder e decidiu recusar sepultura a Polinices. Mas Antígona decidiu intervir - este personagem inspirará Sófocles, Brecht e Anouilh -, e opondo o seu dever sagrado à lei, prestou honras fúnebres a seu irmão, apesar da

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Édipo

interdição de Creonte. Este acabou por condená-la à morte e Antígona enforcou-se na prisão. Hérnon, filho de Creonte e noivo de Antígona, ao tomar conhecimento da morte da sua amada, suicidou-se sobre o seu cadáver. A sua mãe, Eurídice, não conseguiu suportar a dor pela morte deste filho tão amado e pôs termo à própria vida.

Mas os destinos não estavam ainda cumpridos. Dez anos mais tarde, Adrasto reuniu os filhos dos mortos - os Epígonos - e organizou uma nova expedição contra Tebas. Desta vez a sorte sorriu aos atacantes e o filho de Polinices, Tersandro, apoderou-se do trono,de Tebas. Entretanto, o filho de Adrasto morreu às mãos do filho de Etéocles, e o velho rei acabou por sucumbir de dor. Este episódio pôs fim à escalada de calamidades desencadeadas pelo nascimento de Édípo.

Freud escolheu o termo "complexo de Édipo" para designar a atracção sexual que todas as crianças sentem pelo progenitor do sexo oposto assim como a hostilidade face ao progenitor do mesmo sexo. Este conflito afectivo, se não é ultrapassado naturalmente, nos primeiros anos da infância, pode deixar traços no psiquismo, a ponto de provocar nevroses no adulto. O método que o psicanalista utiliza para conduzir o doente a interrogar o seu passado inconsciente, é aquele que foi utilizado por Édipo, com a advertência de que Édipo procurou um culpado para exorcizar o seu povo atacado pela peste, enquanto que a psicanálise, que é uma terapêutica, se dedica, pelo contrário, a desculpabilizar o paciente.

O mito de Édipo inspirou pintores (Ingres (Louvre), G. Moreau (Nova lorque) ... ) e sobretudo escritores (Robert Garnier: Antígona (1580); Cornoille (1659), Voltalre (1718), Gide (1930): Édipo; Cocteau: A Máquína Infernal (1934). Stravinsky compôs a ópera: Édipo-Rei (1927), a partir de um texto de Cocteau, traduzido para latim por J. Daniélou. Outros compositores contemporâneos foram tentados por este tema: Énesco (Édipo, 1936), Paul Bastide (Édipo-rel), Carl OrtI (Antígona,

1948; Édipo, o Tirano, 1959).

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Egina


MIRIM, Égide (A)

A palavra égide vem do grego aix, aigos, a cabra. A égide é, segundo a tradição mais corrente, a pele da cabra Amalteia, que amamentou Zeus, em C reta.

Esta cabra tinha outrora aterrorizado os Titãs, só com o seu aspecto. E quando estes se revoltaram contra Zeus, o deus cobriu-se com esta famosa pele, que tinha a particularidade de tornar invulnerável o seu possuidor, não permitindo que nenhuma flecha o atravessasse, nem que nenhum raio o atingisse.

Quando os Titãs se submeteram, Zeus ofereceu o precioso escudo à sua filha Atena, e a partir de então os dois deuses usaram-no, alternadamente. Atena utilizou-o para socorrer o seu pai na luta contra os Gigantes (a este propósito, uma outra tradição refere que a égide de Atena era a pele do gigante Palas, que ela esfolou depois de o ter matado).

Quando o herói Perseu matou, com a ajuda de Atena, a Górgona Medusa, utilizou a sua cabeça terrificante para petrificar os inimigos. Depois ofereceu este troféu à deusa, que o colocou no centro do seu escudo protector.

A égide aparece, nas suas múltiplas representações, como uma espécie de couraça, enfeitada com cabeças de serpentes e apresentando no centro a pavorosa cabeça da Medusa.

Símbolo de autoridade e de protecção, a égide figura sobretudo nas moedas de vários imperadores romanos.

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A ninfa Egina, filha do deus-rio Asopo, foi cobiçada por Zeus, que ficara extasiado perante a sua beleza, Ansiando por possuí-ia, este deus "conquistador" tomou a forma de uma águia (Ovídio diz: de uma chama), raptou-a e conduziu-a para a ilha Enone (mais tarde chamada Egina), onde consumou o seu amor. Desta união nasceu Éaco, que graças à sua sabedoria e piedade se tornou juiz dos Infernos (os seus filhos Téiamon e Peleu geraram, respectivamente, Ájax e Aquiles).

Entretanto, o deus-rio Asopo, angustiado com o desaparecimento de

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Eiêusis


sua filha, partiu à sua procura, ignorando totalmente quem tinha sido o funesto raptor. A certa altura do percurso, encolerizado, resolveu inundar todo o país. Mas quando chegou junto do rei de Corinto, Sísifo, este prometeu dar-lhe o nome do autor do rapto e revelar o seu retiro, caso Asopo fizesse brotar uma fonte da rocha árida do Acrocorinto. Assim aconteceu, mas quando Asopo se preparava para encontrar os dois amantes, Zeus, furioso, obrigou-o a voltar ao seu leito normal (e assim se explica a presença do carvão no fundo do rio Asopo, cujo nome significa: o lamacento). Quanto a Sísifo, Zeus condenou-o ao castigo eterno.

Mais tarde, Egina desposou Actor, rei de Feres, na Tessália, dando à luz Menécio, pai de Pátroclo.

Uma outra versão da lenda conta que Asopo quase teria surpreendido a sua filha e o seu amante divino, quando Zeus, a fim de evitar os furores paternos, o transformou numa pedra, metamorfoseando depois Egina, numa ilha.

Certos autores atribuem o rapto de Egina a Posídon, apresentando assim Éaco como filho do deus do mar.

Musis N.REI

Quando a deusa Deméter percorreu a Grécia à procura de sua filha Core, raptada contra a sua vontade por seu tio, Plutão, parou em Elêusis (este nome significa a vinda, aproximando-se da palavra cristã o advento, do latim adventum), onde recebeu a hospitalidade do rei Céleo. Em sinal de reconhecimento, Deméter revelou os segredos da agricultura ao filho do rei, Triptólemo (uma célebre estela encontrada em Elêusis e conservada no museu de Atenas

- atribuída a Fídias - mostra a deusa e a sua filha, rodeando o jovem príncipe), permitindo, assim, que as primeiras sementeiras e a primeira recolha de trigo, acontecessem na planície de Elêusis.

Para perpetuar a lembrança deste dom precioso, o rei da Trácia, Eumolpo, instituiu em Elêusis o culto de Deméter. Este culto salientava a dupla dimensão da deusa: deusa agrária e deusa da maternidade (que trouxera à vida a sua filha desaparecida nas trevas do Hades). Os ritos praticados no decorrer deste culto visavam, por um lado, a fertilidade dos campos, e por outro a felicidade de todos os seus fiéis, no Além.

Elênis

Entre os diversos sacerdotes de Deméter, o "hierofante" (revelador das poisas sagradas), que desempenhava a função mais destacada, era tradicio~ nalmente escolhido entre os descendentes de Eumolpo.



As cerimônias desen rolavam -se, simultaneamente, em Elêusis e em Atenas (as duas cidades estavam separadas por uma distância de 20 Km), em dois períodos distintos:

- em Fevereiro, os "Pequenos Mistérios" comemoravam o regresso de Core-Perséfone: em Agra, subúrbio de Atenas, que ficava nas margens do Ilisso, tinha lugar a primeira instrução das candidatas à iniciação.

- em Setembro, realizavam-se os "Grandes Mistérios", que compreendiam uma procissão entre as duas cidades: os efebos transportavam então, objectos sagrados (híéra), cuja natureza nos é ainda desconhecida, do templo de Deméter em Elêusis para o Eleusino de Atenas. No fim das solenidades, os objectos regressavam com grande pompa para Elêusis, acompanhados por uma estátua de laco (nome místico de Dioniso), cujo culto tinha sido, em boa hora, associado ao de Deméter (a vinha e o trigo juntos, como símbolos do alimento dos homens).

Entretanto, desenrolavam-se os ritos de purificação no mar (os fiéis transportavam bácoros que sacrificavam seguidamente), representações de dramas sagrados recordando a lenda de Deméter e a de Dioniso e (particularmente perante os iniciados - os "videntes") as núpcias de Zeus e de Deméter (união do céu e da terra), reconstituídas pelo sacerdote de Zeus e pela sacerdotisa de Deméter.

As outras actividades em que participavam os fiéis - particularmente uma procissão enlouquecedora e difícil, feita na escuridão, que terminava com o regresso à luz do dia - não são detalhadamente conhecidas, pois os iniciados tiveram a preocupação de as manter em segredo.

Este mistério tinha o seu início no recinto sagrado de Elêusis onde, curiosamente, os primeiros pórticos estavam dispostos de modo a que o olhar não pudesse penetrar no interior do templo. E quem tentasse enfrentar a interdiÇão de entrar, podia ser condenado à morte, existindo, para o efeito, uma gruta por onde se passava directamente para os Infernos. A via sagrada, que servia os diversos santuários construidos no recinto e dominados pelo templo de Deméter, conduzia à grande sala de iniciação, na qual três mil pessoas tinham lugar.

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Endímion


Endímion

O belo Enclímion, filho (ou neto) de Zeus, era rei dos Eólios que ele tinha conduzido da Tessália para a Élide. Um dos seus filhos, Etolo, tornou-se o antepassado dos Etólios,

Zeus prometera-lhe, ao nascer, satisfazer o seu desejo mais precioso. Endímion solicitou-lhe então que lhe concedesse a sua juventude pela eternidade. O "rei dos deuses" acedeu, na condição de que Enclímion se mantivesse adormecido para sempre.

Uma primeira lenda conta que Hipno (o sono), apaixonada por Enclímion, lhe concedera o dom de dormir de olhos abertos, para o poder admirar em toda a sua beleza.

Segundo uma outra lenda, Selene (a Lua) contemplara Enclímion adormecido e apaixonara-se por ele. Assim, todas as noites ela vinha acariciá-lo com os seus raios amorosos, amando-o perdidamente, e deste amor teriam nascido cinquenta filhas.

A lenda de Enclímion motivou vários pintores (Tintoreto (Londres), Rubens (Londres), Van Dyck (Madrid), Van Loo (Louvre), Girodet (Louvre), etc.) e poetas: o poema de Keats que lhe é consagrado (1818) começa por um verso universalmente conhecido: um motivo da beleza é uma alegria que jamais passa,

Encias IVVM

A genealogia de Eneias dá-nos todas as personagens que participaram na edificação da pátria troiana: o rio Escamandro, a ninfa Ideia (do monte Ida), os antepassados Teucro e Dárdano (a que os Romanos chamaram Teucri e Dardani) e os reis, Trós (que deu o seu nome à Tróade) e Ilo (fundador de ílion, o primeiro nome de Tróia).

O Troiano Eneias é filho de Anquises, o mais belo dos mortais. Tão belo que a própria Afrodite se apaixona por ele, escondendo, no entanto, a sua identida-

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Eneias

de. Mais tarde, acaba por revelar-lha, aconselhando-o, no entanto, a não se vangloriar da sua sorte perante ninguém. Infelizmente, um dia, Anquises, embriagado, esquece a recomendação da deusa e Zeus, ao tomar conhecimento da sua falta, resolve puni-lo, tornando-o coxo para sempre (outros dizem cego).

Eneias, filho desta união, simultaneamente divina e mortal, foi dotado, assim como toda a sua descendência, de um destino memorável. A sua origem divina, que se encontra claramente indicada na Xada, será largamente explorada por Virgílio, no quadro da lenda romana.

No decurso da guerra de Tróia, Eneias manifestou-se como o mais valente dos Troianos, depois de Heitor, seu cunhado (Eneias tinha desposado Creúsa, filha do rei Príamo).

E no fim da heróica resistência - na terrível noite em que os Gregos incendiaram, pilharam e massacraram -, Eneias, por ordem de sua mãe e sob protecção de Heitor, levando o seu pai, enfraquecido, aos ombros, o seu filho Ascânio pela mão e carregando, igualmente, os objectos mais sagrados, conseguiu fugir por entre as chamas, em direcção ao monte Ida. Apercebendo-se de que a sua esposa não o seguia, voltou à cidade para a procurar. Mas só encontrou a sua sombra, que o aconselhou a partir à conquista de uma terra, onde pudesse reconstruir a sua pátria.

Eneias dirigiu-se então, de novo, para o monte Ida, onde reencontrou alguns dos seus compatriotas sobreviventes. Juntos construíram uma frota de vinte navios, que depois se fez ao mar. Durante algum tempo navegaram ao longo do mar Egeu, chegando por fim à Itália meridional de onde foram repelidos pelos colonos gregos. Entretanto, Anquises morre no decurso desta viagem.

E ao fim de sete anos de errância pelo mar, uma tempestade (provocada pela cruel Juno, inimiga dos Troianos desde o julgamentode Páris), empurrou a frota "troiana" para as costas de África. Dido, rainha de Cartago, resolveu acolher os náufragos, acabando por apaixonar-se por Eneias. Mas Júpiter, para que os destinos se cumprissem - a fundação de Roma, por um lado, mas também a ruína de Cartago às mãos dos Romanos, por outro -, ordenou ao herói que voltasse a navegar, quando os seus barcos estivessem reparados. Obediente, o piedoso Eneias partiu sem ver Dido que, desesperada, se atirou à fogueira,

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Eneias

O fundador Eneias segue viagem até à Campânia, onde desembarca a fim de consultar a sibila de Cumas. Esta conduz o herói aos Infernos, onde Anquises, seu pai, lhe revelará o futuro de glória prometido à sua posteridade.

Os Troianos embarcam então de novo, dirigindo-se agora para as costas de Itália. A sua próxima paragem será no Lácio onde Eneias entra em contacto com o rei Latino que lhe oferece a sua filha Lavínia em casamento. Acontece que Turno, o rei dos Rútulos, que considerava ter direitos sobre a princesa, fica indignado com a atitude dos dois homens e declara guerra a Latino e a Eneias.

Este vai solicitar a ajuda do velho rei Evandro que (embora de origem grega, tinha acolhido Anquises e Príamo na Arcádia) reinava, neste momento, nos lugares onde mais tarde se erguerá a cidade de Roma. Evandro responde ao apeio do herói troiano, enviando um contingente de homens (e reconciliando, com este gesto, Gregos e Troianos) que salvarão a tempo Eneias e Latino da situação comprometedora em que se encontravam.

As hostilidades entre as duas partes só terminariam, no entanto, após um combate singular entre Eneias e Turno. O triunfo de Eneias, protegido pelos destinos, é o último episódio contado na Eneida, o poema de Virgílio.

Após a morte de Latino, Eneias é o seu natural sucessor. A partir de então, a sua acção é no sentido de fazer cumprir o seu destino. Começa por instalar os deuses troianos em Itália (acontecimento justo, dado que Dárdano era filho do rei dos Tirrenos de Itália, antepassados prováveis dos Etruscos), funda, seguidamente, a cidade de Lavínio em honra de sua esposa e dota o seu povo com um novo nome, o de Latinos.

Eneias acaba por desaparecer, misteriosamente, no decurso de novos confrontos com os povos vizinhos. Mas pertencerá à sua descendência, por intermédio de Ascânio (também chamado lúio), e mais tarde de Sílvio, filho póstumo de Eneias e de Lavínia, a missão de determinar o nascimento de Roma.

Os Romanos veneraram Eneias sob o vocábulo Júpiter-indígete, ou seja, nacional, por oposição aos deuses importados do panteão grego.

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Eneu


As aventuras de Eneias inspiraram os artistas Tintoreto (Louvre), Tiepolo (Madrid), Van Dyck (Mântua), Jordaens (Copenhaga), Poussin (Londres), Van Loo (Louvre).... assim como os músicos, de Purcell (Dído e Eneías) a Berlioz (Os Troianos) e a Alberl Roussei (ballet Eneías,

1935). A Eneida de Virgílio foi frequentemente ilustrada, muito particularmente por Abralham Bosse no séc. xviii e por Davíd, Gérard e Girodet, no séc. xix.

Eneu

Eneu, dado geralmente como filho de Porteu, rei de Calídon, na Etólia, desposou Alteia, de quem teve vários filhos. Entre eles, podemos destacar Toxeu (que ele condenaráà morte, por ter enfrentado as suas ordens), Meleagro e Dejanira, que desposará Hércules.



Diz-se, no entanto, que Meleagro e Dejanira não seriam filhos de Eneu, mas de Ares e Dioniso, respectivamente. Este último teria, até, recompensado Eneu pela sua complacência, ofertando-lhe uma cepa de vinha e ensinando-lhe a técnica desta cultura (o nome Eneu significa: vinhateiro).

Segundo uma outra tradição, foi um pastor dos rebanhos de Eneu que, observando uma cabra que se preparava para comer uma planta desconhecida, apanhou os bagos desta planta, espremeu-os e misturou o seu sumo com a água do rio Aqueloo. Depois apresentou a bebida a Eneu, que lhe deu um nome derivado do seu: offios, o vinho. Quanto à fruta propriamente dita, recebeu o mesmo nome do pastor: Estáfilo, o cacho.

Eneu, quando se tornou rei de Calídon, ofereceu um dia de primícias aos imortais, esquecendo-se, no entanto, de nomear Ártemis entre os beneficiários. A deusa, vingativa, lançou um javali monstruoso sobre o país. Este desencadeou uma série de desgraças que, para além da trágica "caçada de Calídon", conduziram à morte de Meleagro.

Ao tomar conhecimento da morte de seu filho, Alteia suicidou-se e, então, Eneu desposou, em segundas núpcias, Peribeia, filha de Hiponoo, rei de Oleno, na Etólia. Desta união nasceu Tideu, pai de Diomedes, o companheiro de Ulisses na guerra de Tróia.

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É010


Quando envelheceu, Eneu foi afastado do trono pelos seus sobrinhos. Mas Diomedes interveio, prontamente, semeando a morte entre os usurpadores e confiando o reino a um genro de Eneu. Este deveria ainda velar pela protecção do velho rei. Acontece que alguns dos sobrinhos que tinham sobrevivido ao massacre, acabam por assassinar Eneu. Diomedes prestou-lhe, então, gloriosas honras fúnebres e deu o seu nome ao local em que ele tinha terminado os seus dias.

É010


Aquele a quem Posídon, seu pai, confiou o domínio dos ventos, é filho de Arne, ela própria filha do primeiro Éolo, fundador da raça dos eólios e rei da Tessália. A palavra grega aiolos, que nós transcrevemos Éolo, significa: que se move sem cessar. Este significado está relacionado com a vida agitada de Éolo e com o império dos ventos, que lhe é atribuído.

Para o relato da sua infância dramática e da sua juventude plena de ciladas, que se desenrolaram na Itália do Sul, em Metaponto, perto do golfo de Tarento e que, segundo uma versão da lenda, terminaram com o seu exílio, remetemos para o artigo consagrado ao irmão gêmeo de Éolo, Beoto.

Enquanto Beoto - exílio ou pura aventura - se instalou na Grécia, na Beócia, Éolo percorreu o mar Eólio e foi acolhido nas ilhas pelo rei Uparo, que lhe ofereceu a sua filha, Ciano - cujo nome ("azul", em grego) evoca a cor característica deste canto do mar - e o seu trono.

Na Antiguidade, a morada dos ventos, sobre os quais reinava Éolo, estava situada na ilha Lipari (também chamada Eólia). Era representada, segundo Homero, como uma ilha flutuante, toda em rochas, defendida de todos os lados por uma muralha de bronze.

O nome Éolo foi dado por Clément Ader, pai da aviação, à sua

primeira máquina voadora.

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Eos


Eos

Eos, filha dos Titãs Hipérion e Teia, é a deusa da aurora (a palavra latina aurora vem do grego auôs, que é uma outra forma de éôs). Ela é irmã de Hélio, o Sol, e de Selene, a Lua.

Eos desposou o vento do crepúsculo, Astreu, filho do Titã Crio, e deu à luz os ventos Bóreas, Noto e Zéfiro assim como os astros Fósforo, a estreia da manhã (literalmente: o portador do archote; igualmente chamado Eósforo) e Héspero, a estreia da tarde.

Todas as manhãs, antes da alvorada, Eos abandonava o leito de seu marido, a fim de se elevar no horizonte e anunciar a vinda do astro do dia, seu irmão. Encontramo-la sentada num carro de luz, puxado por cavalos de ouro ou montada sobre um cavalo (Pégaso), agitando uma tocha acesa ou ainda voando no horizonte com as suas próprias asas, e espalhando o orvalho nos campos.

A sua beleza surpreendente e a sua juventude eterna fizeram com que Afrodite tivesse ciúmes de Eos. Estes acentuaram-se ainda, depois desta se ter abandonado aos desejos de Ares. Desde então, a deusa do amor condenou Eos a entregar-se incessantemente a novas aventuras.

E foi assim que ela se apaixonou perdidamente por um filho de Hermes, Céfalo, que formava até então, com a sua jovem mulher Prócris, um casal perfeitamente unido. Mas Eos raptou-o, e desta união terá nascido, segundo Hesíodo, Faetonte. No entanto, Céfalo desejava regressar para junto de sua esposa. A deusa permitiu-lhe o regresso, mas antes semeou no seu espírito a dúvida da fidelidade de Prócris. A partir de então, a vida de Céfalo e de Prócris foi tragicamente perturbada.

Eos apaixonou-se, depois, pelo gigante Oríon, cuja beleza era considerável. Raptou-o, quando ele acompanhava a caçada de Ártemis, e reteve-o, junto de si, até que a deusa, ultrajada, fez perecer o infiel servidor.

Eos apaixonou-se, ainda, por um outro mortal célebre pela sua beleza, o Troiano Títono, filho de Laomedonte, e irmão mais velho de Príamo, que lhe dará dois filhos, Mérnnon e Emátion. A fim de evitar que ele tivesse uma sorte semelhante à de Oríon, Eos suplicou a Zeus que concedesse a imortalidade ao seu amante. Zeus deferiu o seu pedido, mas Eos esquecera-se de pedir também uma juventude eterna para Títono. Assim, a velhice e a decrepitude foram-se apoderando de Títono e este, impotente e definhado, ver-se-á redu-

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Epidauro


zido à sua mais simples expressão. Relegado para um quarto fechado, será finalmente transformado em cigarra.

Quanto a Mérririon, foi morto por Aquiles sob as muralhas de Tróia, quando viera em socorro de seu tio Príamo. As gotas de orvalho que Eos deita sobre a terra não são senão as lágrimas que ela verte desde então.

Uma outra lenda, na qual o nome de Mérririon é atribuído a uma estátua colossal do Egipto faraónico, conta que esta estátua vibrava musicalmente todas as manhãs, a partir do momento em que era tocada pelos primeiros clarões da aurora.

Epidauro a

O culto de Asclépio, filho de Apolo e deus benéfico da medicina (que Zeus fulminou, a fim de evitar a desordem, na natureza, que ele estava a provocar, ressuscitando todos os mortos), estabeleceu-se à volta do seu túmulo, no Epidauro, desde o séc. vi a. C.

O seu templo, edificado directamente sobre o seu túmulo, era rodeado por edifícios consagrados a diversas divindades (por exemplo, Apolo e Ártemis) e por uma grande construção, destinada a albergar os peregrinos que vinham de todos os pontos do mundo mediterrânico, a fim de solicitar a sua cura.

Os seus sacerdotes, sob influência do célebre Hipócrates (sécs. v-iv), conceberam os fundamentos científicos da medicina moderna.

No interior do edifício sagrado figurava ainda um estádio, e esculpido no fianco da montanha um teatro, que Pausânias referiu, no seu tempo, como um dos mais importantes monumentos que visitara. Este manteve-se famoso até hoje, não só devido à sua harmoniosa apresentação, mas também graças à sua excepcional acústica.

Érebo i41., @`~5;M, 'I1N'M@";@I@@

É rebo, personif i cação das trevas i nf e rnais (o verbo grego éréphosignif i -

ca: cobrir de sombra), emergiu, juntamente com a Noite, do Caos primordial.

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Erínias

Da união com a sua irmã, nasceu Éter, o ar e Hemera, a luz do dia. No decurso da guerra dos Titãs contra Zeus e os Olímpicos, Érebo toiflou o partido dos Titãs e, por isso, foi atirado para as profundezas do Tártaro (o Tártaro, cujo nome não é senão uma displicente onomatopeia, representava, no centro da terra, a prisão dos rejeitados).

Erínias

Quando Cronos mutilou o seu pai úrano, a fim de lhe roubar o trono e o poder, este verteu algum sangue sobre a terra. E deste sangue nasceram as Erínias. O seu número não é determinado, mas habitualmente só se cita o nome de três delas: Alecto, Megera e Tisífone. Elas são representadas com a forma de gênios alados e cabeleira de serpentes ("Para quem são estas serpentes que silvam sobre as vossas cabeças?" - estas são as palavras que Racine coloca na boca de Orestes, delirante), empunhando tochas ou chicotes. A sua morada fica na obscuridade dos Infernos, o Érebo.

As Erínias têm como função proteger a ordem estabeiecida e vingar todos os delitos capazes de a subverter, quer se trate do orgulho que faz o homem esquecer os seus limites e a sua condição de dependente quer se trate de crimes, cometidos pelos mortais ou mesmo pelos deuses, pois as Erínias, nascidas da mais antiga divindade do panteão helénico, têm autoridade sobre todos os deuses das gerações posteriores, incluindo Zeus. Elas encarniçam-se sobre as suas vítimas (Édipo, Orestes e tantos outros) como cadelas - Sartre dirá: como "moscas" - até as levarem à loucura.

Os homens julgaram poder conquistar o favor das Erínias, dando-lhe um cognome lisonjeiro: as Eurnénides, ou seja, as Benevolentes (este é o título da segunda tragédia da Oresteia).

Os Romanos assimilaram as suas Fúrias às Erínias gregas.

As duas primeiras tragédias da Oresteía de Ésquilo (Agamémnon e As Coéforas) encontraram um tradutor genial em Leconte de Lisle, sob o título As Erínias (1873). A música de cena foi escrita por Massenet.

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Éris


Éris

Éris, a deusa da Discórdia, aparece quer como filha da Noite quer como filha de Zeus e de Hera, irmã e companheira de Ares.

É ela quem lança a famosa "maçã da discórdia", no meio do banquete de núpcias de Tétis e de Peleu, futuros pais de Aquiies. Esta esteve na origem da guerra de Tróia, onde Aquiles pereceu.

Eros


ErosI, que segundo as teogonias mais antigas teria emergido do caos primitivo, é a força irresistivel que faz atrair os elementos, surgindo assim como princípio de vida. A sua acção fecundante fará nascer todas as coisas através da união do espaço (Caos) e da matéria (a Terra). Depois, juntou Érebo

- a obscuridade infernal - e Nix - a Noite - e estes geraram Éter - o fluido vital - e Hemera - o dia.

O orfismo vem reafirmar o poder fundamental de Eros, mas dá-lhe uma outra origem: Caos, o infinito, e Éter, o finito, uniram-se para gerar o ovo primordial; deste ovo nascerá o primeiro ser, simultaneamente macho e fêmea, e possuindo o germe de todas as coisas, Eros.

A versão exposta por Platão no Banquet8 é, no entanto, diferente: Eros teria nascido, no fim de um banquete que reunira todas as divindades, da união de Pénia (a Pobreza) e de Poros (o Expediente). Ele fora gerado com a missão de assegurar a continuidade das espécies, numa caçada perpétua, à imagem de sua mãe, e sempre cheio de astúcia, como seu pai.

As tradições mais correntes preferiram reter o mito do jovem malicioso e perverso, geralmente alado, armado com um arco ou uma tocha acesa, filho de Afrodite, deusa da amor, e de Ares, deus da guerra, sempre na conquista de novas vítimas, humanas ou imortais, incluindo Zeus e a sua própria mãe.

A lenda poética de Eros e Psique, contada por Apuleio, prende-se com esta versão - Psique (a alma) era uma princesa cuja extraordinária beleza

1 Pronuncia-se com um o longo (ómega grego), apesar da maior parte dos nomes em os se pronunciarem com um o breve (ómicron grego), exemplo: Cosmos, Úrano, Cronos...

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Estentor

suscitou os ciúmes de Afrodite. Esta enviou, então, o seu filho à conquista de Psique. Mas Eros, encarregado de desposar a bela princesa, apaixonou-se, irresistivelmente, por ela. Depois de toda uma série de peripécias romanescas, Eros solicitou a Zeus que concedesse a imortalidade à sua esposa, e o "rei dos deuses" cedeu-ihe esse favor.

"A criança Eros" (Ronsard), armada com um arco e flechas, tem sido uma das personagens favoritas dos pintores e escultores (Praxiteles, séc. iv a. C., museu do Capitólio). Na época helenística e romana, Eros, visto como um princípio de vida e por isso associado à evocação da morte, é representado nos sareófagos com a aparência de um rapaz apoiado sobre uma tocha tombada, símbolo da vida que se extingue. Os artistas do Renascímento (Donatello, Miguel-Angelo) distinguiram OAmor vencido, OArnor vencedor(Caravagio, Serlim) e O Amor adormecido (Caravagio, Florença, palácio Pitti). .. Os pintores franceses, sobretudo no séc. xviii, também se deleitaram com Eros: Le Moyne, Natoíre, Charies Coypel, Carle Van Loo, Boucher, Fragonard... Bouchardon esculpiu O Amor talhando o seu arco da maça de Hércules (Louvre), Falconet O Amor ameaçador (Versalhes) e no séc. xix, Rude, O Amor dorninador do mundo (Dijon, museu Rude). Uma ópera de Luily (1678) é inspirada na lenda de Ps@que.

Estentor


Guerreiro grego (conhecido e célebre graças a dois versos da Ilíada!), de quem Hera tomou os traços e a voz (que igualava, em força, a voz de cinquenta homens juntos) a fim de galvanizar o exército grego, em Tróia, após a deserção de Aquiles.

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Esfige

Estige


A ninfa Estige é geralmente considerada como a mais velha dos filhos de Oceano e de Tétis. Esta ninfa personifica o rio que circunda o reino dos Infernos.

Ourante a guerra dos Olímpicos contra os Titãs, Estige dá a sua ajuda a Zeus e este, em reconhecimento, decide que, de futuro, todo o juramento "por Estige" seria irrevogável. Assim, quando um imortal fizesse um juramento, íris, a mensageira, iria buscar um copo cheio de água do rio infernal sobre o qual o deus deveria estender a mão. Aquele que cometesse perjúrio sofreria uma severa punição: durante dez anos seria afastado da assembleia dos deuses.

Foi na água de Estige que Tétis mergulhou o seu filho Aquiles, depois do seu nascimento, a fim de o tornar invulnerável.

MUdes rM


Etálides, filho de Hermes, era conhecido pela sua habilidade como arqueiro. Foi designado como arauto - ou seja, como porta-voz do comando

da expedição dos Argonautas.

O seu pai prometera conceder-lhe tudo aquilo que ele desejasse, à excepção da imortalidade. Assim, Etálides pede-lhe para viver vidas sucessivas, conservando sempre a lembrança de tudo aquilo que vivera.

Os defensores da metempsicose adoptaram a lenda de Etálides como uma ilustração da sua doutrina. Eles afirmavam mesmo que depois de ter passado por corpos tão diferentes, como aquele do troiano Euforbo, que feriu Pátroclo e foi morto por Menelau, e aquele de um humilde pescador de Delos, a alma do filho de Hermes teria vindo animar o corpo do seu mestre, Pitágoras.

1 Eter

Éter, filho da Noite e de Érebo, segundo a Teogonia de Hesíodo, personifica o ar. Ele é o irmão de Hemera, deusa do dia.



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Europa


Éter reside na parte superior do firmamento que, segundo Homero, é o

local preferido de Zeus.

Na cosmogonia órfica, Eter, assimilado à luz, é filho de Cronos, o Tempo, como o seu opositor, Caos. Da união de Éter e de Caos nascerá o ovo cósmico, depositário do germe universal.

Europa VM

Europa era filha do rei da Fenícia, Agenor, ele próprio filho de Posídon, e irmã de Cadmo, o futuro fundador de Tebas, na Beócia.

Era tão bela que a acusavam de usar as pinturas de rosto de Hera, que a deusa Hécate teria furtado para lhe oferecer. Um dia, quando Europa colhia flores com as suas amigas numa praia de Tiro, não muito longe da pastagem onde se encontrava a manada de seu pai, vislumbrou um touro entre os animais, com uma pelagem resplandecentemente branca, e um porte digno e doce, como ela nunca tinha visto. A jovem aproximou-se a fim de o acariciar com a sua mão e sentiu o hálito do animal, que tinha um odor a açafrão. O touro deitou-se aos seus pés, de maneira a permitir que a jovem subisse para o seu dorso. Ela assim fez e ornou os cornos do animal com as suas flores.

Mal o touro se levantou, dirigiu-se para o mar, com a jovem na garupa, e nadou, por entre um cortejo de tritãos e de Nereides, até à ilha de Creta, desembarcando em Gortina, ao sul da ilha. Aí, o touro que não era senão Zeus, tomou a sua forma habitual e deu-se a conhecer a Europa, amando-a então, junto de uma fonte e debaixo de plátanos que, diz-se, conservaram para sempre a sua folhagem.

Mais tarde, Europa deu à luz Minos, Radamante e Sarpédon. Nessa ocasião, Zeus ofereceu-lhe três presentes: o gigante Talo (encarregado de preservar Creta de qualquer incursão hostil), um cão de caça que nunca falhava a presa e uma arma de caça infalível.

Depois Zeus concedeu Europa, em casamento, ao rei da ilha, Astério. Este adoptou os seus filhos e, à sua morte, o trono de Creta foi ocupado por um deles, Minos.

Quanto a Europa, que seu pai procurou em vão, uma vez morta, foi elevada por Zeus à categoria de divindade e transformada em constelação.

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Eurotas


Os historiadores vêem na lenda de Europa a expressão poética da penetração das civilizações da Ásia Ocidental no mar Egeu, e é em memória da princesa fenícia que, na Antiguidade, se dará à parte do mundo onde Europa desembarcou - invoiuntariamente - o nome da princesa. A imagem de Zeus-touro lembra também a natureza do deus dos cretenses, meio-touro, meio-homem. Sabemos, por outro lado, a importância que o touro teve na vida quotidiana e na religião dos Egeus.

O rapto de Europa foi ilustrado por artistas de todos os tempos, desde aqueles que representaram a cena sobre as métopas dos templos arcaicos, sobre os vasos, moedas, frescos e mosaicos, até aos pintores Veronese (Veneza), Ticiano (Boston), Tintoreto (Modena), Le Guide (Leninegrado), Jordaens ffille), Boucher (Louvre), etc.

Eurotas

Eurotas era filho do fundador da dinastia dos Léieges, Lélex (nascido da Terra) e da ninfa Taígete. Ele foi pai de Esparta e sogro de Lacedémon.

Na qualidade de rei da Lacónia, Eurotas é recordado como o responsável pelos trabalhos de secagem dos pântanos e pela construção de um canal, a que deu o seu nome.

Existe, no entanto, uma outra tradição: Eurotas, tendo cometido a falta de começar uma batalha sem esperar pela chegada da Lua cheia, foi vencido pelos Atenienses, atirando-se então às águas do rio Hímero que, a partir desse momento, passaram a ter o seu nome.

As águas de Eurotas - a quem foram, talvez, dedicados sacrifícios humanos - eram reputadas como benéficas e os jovens Espartanos banhavam-se nelas, a fim de adquirirem força e vigor. Foi nas margens acolhedoras destas águas que Zeus, com a aparência de um cisne, conquistou Leda e Páris raptou Helena.

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Evandro

Evandro fiM

Evandro, filho de Hermes (?) e de uma ninfa que os Romanos veneravam sob o nome de Carmenta, nasceu na Arcádia.

No decurso de uma viagem efectuada na sua juventude, para a Frigia, ele foi recebido por Anquises, futuro pai de Eneias.

Evandro deixou o seu país, definitivamente, alguns sessenta anos antes da guerra de Tróia e instalou-se em Itália, no Lácio, sobre o monte Palatíno, onde o rei Fauno o acolheu com simpatia.

Mais tarde, tornou-se rei do país. Os Romanos guardam a lembrança da bondade e da sabedoria deste rei pastor que soube transmitir aos seus súbditos o seu conhecimento da escrita (e esta tradição é confirmada por recentes descobertas arqueológicas), da música, das técnicas utilitárias, assim como a prática dos cultos dos arcádios: os cultos de Ceres-Deméter, de Neptuno-Posídon e de Pá (confundido com Fauno), em honra de quem teria fundado as Lupercais.

Evandro acolheu Hércules, quando da sua passagem por Itália, tendo-o purificado do assassinato de Caco. Ao descobrir a sua origem divina, dedicou-lhe um culto, a ser mantido pela eternidade.

No fim da sua vida, Evandro acolheu Eneias, que veio solicitar a sua ajuda contra os Rútulos. Em memória do seu pai, Evandro concedeu-lhe um contingente conduzido pelo seu próprio filho, Palas. Segundo a Eneida, este encontrou a morte no combate, às mãos do próprio Turno, rei dos Rútulos.

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Faetonte é, segundo a tradição mais corrente, filho de Hélio, o Sol, e da oceânide Clímene.



O jovem era dotado de uma beleza extraordinária, mas arrogante. Um dia, Épafo, filho de Zeus e de lo, questionou a ilustre origem de Faetonte. Este, indignado, precipitou-se, de imediato, para junto de seu pai, suplicando-lhe que lhe permitisse conduzir o seu carro, pelo menos uma vez. Hélio, assustado, recusou, mas perante as insistências de seu filho, acabou por aceder, fazendo-lhe, no entanto, todas as recomendações necessárias, que Faetonte prometeu cumprir. Acontece que, mal o jovem se encontrou entre o céu e a terra, constrangido talvez pela presença das figuras do Zodíaco que se encontravam ao longo do percurso que lhe tinha sido traçado, ou simplesmente traído pelos cavalos que não reconheceram o seu condutor habitual, renunciou à rota fixada e conduziu desordenadamente, ora descendo demasiado e arriscando incendiar a terra ora subindo muito alto, e provocando a oscilação dos astros.

Zeus, a fim de abortar uma possível revolução cósmica, viu-se obrigado a fulminar o imprudente, que se precipitou no rio Erídano (Pó). As suas irmãs, as Héliades, choraram-no durante muitos meses, nas margens do rio. Comovidos, os deuses transformaram-nas em choupos e das suas lágrimas fizeram grãos de âmbar.

Cicno, rei da Ligúria e grande amigo de Faetonte, chorou também a morte do jovem, errando melancolicamente ao longo das margens do Erídano, até que os deuses o transformaram em cisne.

Os Gregos deram o nome de Faetonte ao planeta que nós conhecemos como Júpiter.

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Fauno


O infortúnio de Faetonte inspirou uma tragédia lírica a Luily (1683) e um poema sinfónico a Saint-Saêns (1873). A oração que Faetonte dirigiu a Apolo, com o fim de obter permissão para conduzir o carro do Sol, foi ilustrada por Poussin (museu de Berlim), Le Sueur (Louvre), Jouvenet (Ruão). A sua queda é representada num fresco de Jules Romain (Mântua) e nas telas de Tintoreto (Modeno) e 1. Carrache (Bolonha).

Fauno


Fauno é apresentado pela mitologia romana como um dos primeiros reis do Lácio. Ele era filho do rei Pico (ele próprio filho de Saturno, transformado num picanço-verde pela mágica Circe, a quem repelira) e celebrizou-se por ter criado leis para o seu povo e ter inventado a flauta. Fauno foi o marido (ou o pai) de Fauna, divinizada com o nome de Boa Deusa, cujo filho, Latino (filho de Fauno ou filho de Hércules?) acolherá mais tarde Eneu, na Itália, oferecendo-lhe a sua filha em casamento.

Fauno, também chamado Luperco, foi adorado pelos Romanos como uma divindade agrária benéfica (o seu nome significa: favorável). Ele assegurava ainda a fecundidade dos rebanhos e protegia-os, sobretudo, dos lobos. Fauno tinha, também, o dom da profecia (mas para obter um oráculo, o rei Numa teve de acorrentar a sua efígie) e gostava de passear nas montanhas e nas florestas, deleitando-se junto das fontes.

O seu principal santuário, o Lupercal, ficava situado no Palatino (este era também o nome da gruta onde a loba de Marte aleitou Rómulo e Remo), onde os Lupercos (colégio de sacerdotes que o servia), com os seus chicotes em pele de cabra, distribuíam a fecundidade pelos seus suplicantes. A principal festa do seu culto, e uma das mais importantes do calendário romano, as Lupercais (em Fevereiro), que apresentavam o carácter de uma purificação, destinavam-se a garantir a prosperidade do solo e dos rebanhos. Fundada pelo rei Evandro, esta festa conservou-se até ao séc. v d. C., sendo então substituída, por intervenção da Igreja, pela festa da Purificação da Virgem.

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Febe

Os Romanos assimilaram Fauno ao Pá dos Gregos. A sua personalidade subsistirá, entretanto, dissolvida numa multiplicidade de géníos rurais, os faunos, substitutos dos sátiros gregos, metade homens, metade bodes.

Fauno é representado como um homem barbudo, com a cabeça coroada de folhas e coberto unicamente com uma pele de cabra, arvorando o corno da abundância.

Febe


A Titânide Febe desposou o seu irmão Ceu, de quem teve duas filhas: Astéria e Leto.

Astéria casou com Perses, de quem teve Hécate, mas posteriormente foi perseguida por Zeus e, a fim de resistir aos intentos amorosos do "rei dos reis", atirou-se ao mar, sendo transformada numa ilha flutuante, a ilha de Ortígia, futura Delos.

Geia

Úrano


Ponto

Cronos Reia Ceu Febe Crio + Euríbia

Zeus + Leto Astéria + Perses

Apolo Árternis Hécatel

1 Segundo Hesíodo.

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Fides

Leto, pelo contrário, submeteu-se à sedução de Zeus, de quem teria tido, segundo Homero e Hesíodo, os gêmeos Apolo e Ártemis.

Febe, cujo epíteto é "coroada de ouro", é uma divindade sideral - a filiação de Apolo, Ártemís, Hécate e Astéria atestam-no - que, mais tarde, será confundida com outras divindades de carácter equivalente, como Selene, a deusa Lua (filha dos Titãs Hiperíon e Teia) que se verá, por sua vez, assimilada a Ártemis, deusa da Lua.

Fidos


Fides ou Boa Fides (Boa Fidelidade) é uma divindade romana que personifica uma abstracção: a fidelidade à palavra dada, quer nas transacções públicas como privadas. Fides tinha um templo em Roma, no Capitólio.

Fides é representada como uma mulher de idade avançada, de pé, coberta, arvorando atributos agrícolas (espigas, frutos, corno da abundância) ou militares (vitória, águia, estandarte, globo).

Filémon

Ovídio, La Fontaine e Gounod (numa ópera cómica) realçaram a tocante lenda de Filérnon e Báucis, um casal muito unido de pobres camponeses da Frigia que aceitaram, um dia, receber em sua casa dois viajantes, para quem todas as outras portas da cidade se tinham fechado. Estes viajantes eram Júpiter e Mercúrio, disfarçados de simples mortais. Agradecidos e tocados pelo gesto do pobre casal, prometeram satisfazer-lhes o seu voto mais precioso, Curiosamente, Filérnon e Báucis pediram, simplesmente, que lhes concedessem o privilégio de ficarem juntos até ao fim dos seus dias.

Júpiter, na sua severa justiça, enviou uma tempestade sobre a vila pouco hospitaleira, destruindo-a completamente, com excepção da choupana dos

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Filoctetes

seus hospedeiros, que ele transformou em templo. Mais tarde, metamorfoseou os dois camponeses em árvores - carvalho e tília - colocando-os, lado a lado, à porta do templo.

Vários pintores ilustraram esta história: Bronzino (Munique), J.-B. Restout (Toulouse), Jordaens (Viena).

Filoctetes

Filoctetes, filho do Tessaliano Peas que tinha sido membro da expedição dos Argonautas, é conhecido por ter recebido de seu pai ou directamente do próprio Héracies, as flechas e o arco do herói. Com efeito, os dois encontravam-se no cimo do monte Eta, quando Héracies decidiu pôr fim aos seus dias, pedindo para ser queimado numa pira. Como recompensa, o herói teria gratificado Filoctetes com o seu arco e a sua flecha infalíveis.

Entretanto, Filoctetes tinha prometido a Héracies não revelar jamais o lugar onde repousavam as suas cinzas. No entanto, não conseguiu cumprir a promessa, e por isso foi duramente punido.

Filoctetes tinha sido, também, um dos pretendentes de Helena de Esparta. Assim, quando esta foi raptada pelo príncipe Páris, de Tróia, ele integrou-se na expedição dos Gregos contra esta cidade. Durante a viagem, quando os Gregos fizeram escala na ilha de Ténedos, Filoctetes foi mordido, no pé, por uma serpente. Os seus companheiros transportaram-no para bordo, mas a ferida infectou, deitando um cheiro tão fétido que Ulisses e Agamémnon consideraram que ele não poderia prosseguir viagem. Assim, deixaram-no na ilha de Lemnos onde, sozinho e em grande sofrimento, sobreviveu graças à caça que matava com as flechas de Héracies.

O drama durou dez anos, tantos como os da guerra de Tróia. Com efeito, uma das condições da conquista da cidade revelou-se ser a presença de Filoctetes entre os combatentes, munido das armas de Héracies. Ulisses partiu, então, para Lemnos a fim de trazer o infeliz Filoctetes. No regresso, este foi confiado às mãos de Mácaon (filho de Asclépio), cirurgião do exército

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Filomela


grego, que adormeceu o paciente, lavou a sua ferida com vinho e cortou, com uma faca, as carnes apodrecidas. Depois, aplicou sobre a ferida uma planta, cujas virtudes medicinais seu pai lhe revelara.

Rapidamente restabelecido, Filoctetes tomou o seu lugar no combate e pouco depois, graças à iniciativa do cavalo de madeira, Tróia caiu às mãos dos Gregos.

Sófocles consagrou uma tragédia a Filoctetes (Filoctetes, 409 a. C,) e a Odisseia fala dele como de um herói que, depois da guerra de Tróia, regressou à sua terra, sem incidentes.

Filomela


Filomela, filha de rei Pandíon, de Atenas, foi dada em casamento ao rei Tereu (filho de Ares), da Trácia, que tinha prestado ajuda a Pandíon, quando este se envolvera com o seu vizinho, Lábdaco, rei de Tebas.

Mas Tereu apaixonou-se perdidamente por Procrie, sua cunhada, e resolveu raptá-la, enclausurando-a numa torre e cortando-lhe a língua, para que ela não pudesse lamentar-se. Mas Procne conseguiu, entretanto, prevenir Filomela, bordando num vestido que ela deveria usar, as palavras reveladoras do seu ultraje.

Louca de raiva e de dor, Filomela decidiu vingar-se. Libertou a sua irmã e depois matou o seu próprio filho, cujo corpo serviu no decurso de um banquete. Tereu, assombrado e indignado, perseguiu as duas mulheres, encontrando-as no momento em que elas imploravam o socorro dos deuses. As três personagens foram, então, transformadas em pássaros, Tereu numa poupa, Procne numa andorinha e Filomela num rouxinol, cuja voz queixosa lamentava, ininterruptamente, o filho sacrificado. (Em certas versões da lenda encontramos trocados os nomes de Filomela e de Procne.)

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Fortuna

Flora


Flora é uma das mais antigas divindades itálicas. Inicialmente venerada como deusa das sementes e dos frutos, transformou-se na deusa que presidia a tudo aquilo que florescia.

Ovídio, identificando Flora à ninfa grega Clóris, relata-nos o seu casamento com Zéfiro, o deus da brisa ligeira.

Os Romanos instituíram, em sua honra, jogos anuais, as Florálias, que eram celebrados na Primavera.

Muitos foram os artistas inspirados pela bela deusa (tanto o pintor anónimo do muito célebre fresco de Stabies, conservado no museu de Nápoles, como Ticiano (Florença), Rembrandt (Nova lorque), Poussin (Louvre), Carpeaux - cujo alto-relevo deu o seu nome ao pavilhão situado na extremidade da grande galeria do Louvre: o pavilhão de Flora - e Maffioll em 1911).

Fórcis

Fórcis, cujo nome evoca a espuma esbranquiçada das ondas, é filho de Geia e de Ponto. Divindade terrível e pérfida do mar, tornou-se o pai das monstruosas Górgonas e Greias e ainda, talvez, de Cila e do dragão Ládon, guardião do jardim das Hespérides.



Fortuna IMEI

A deusa Fortuna, considerada por alguns como a filha ou a ama de Júpiter é, para os Romanos, a incarnação do destino.

Atribui-se a instituição do seu culto a Sérvio Túlio, que ela teria amado e elevado da condição de escravo à dignidade de rei.

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Fortuna

Os Romanos associaram-na ao deus Fors, que incarnava o acaso. Mais tarde, ela foi identificada com a Tique grega. Quando os cultos egípcios se introduziram em Roma, a deusa foi identificada com ísis.

A Fortuna, sob diferentes nomes, possuía muitos templos em Itália.

A Fortuna é representada muitas vezes cega, algumas vezes alada, usando como atributo o corno da abundância, tal como a Tique dos Gregos, ou o leme (símbolo de pilotagem) ou ainda a roda (símbolo de inconstância).

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Ganimedes



Ganimedes, o mais novo dos filhos de Trós, rei da Tróade era, na adolescência, o mais belo de todos os mortais. Zeus apaixonou-se por ele e um certo dia, quando o jovem guardava os rebanhos de seu pai no monte Ida, o "rei dos deuses" enviou-lhe a sua águia (a menos que ele não tivesse tomado, ele próprio, a forma do seu pássaro favorito) a fim de o arrebatar.

Como recompensa ou indemnização, o rei Trós recebeu os mais velozes cavalos de batalha.

Ganimedes foi transportado para o Olimpo onde, promovido a copeiro real, tinha a missão de servir o néctar a Zeus (os astrónomos identificam-no à constelação de Aquário).

A paixão do rei dos deuses pelo jovem frígio e a evicção, em seu proveito, de Hebe, filha de Hera, foram algumas das afrontas acumuladas pela esposa de Zeus, contra a cidade de Tróia.

O rapto de Ganimedes inspirou numerosos pintores, tais como: Le Corrège (Viena), A. Carrache (Roma, palácio Farnésio), Rubens (Madrid), Rembrandí: (Dresden), Le Sucur (Louvre), Van Loo (Toulouse), etc. Foi ainda o tema do famoso poema de Goethe, Ganímedes.

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Geia

Geia


Geia ou Gea (nomes da terra, o primeiro em dialecto jónico, o segundo na forma ática) é a Terra divinizada. Aparecida, segundo Hesíodo, depois do Caos, ela personifica a matéria primordial e o "eterno e inabalável sustentáculo de todas as coisas". Do seu corpo vão nascer, sucessivamente, o céu estrelado, úrano, as altas montanhas, Ureia, e Ponto, o deus Mar.

Depois, Geia escolheu úrano para seu companheiro e desta união nascerão seis filhos e seis filhas, os doze Titãs (ela ganhará, então, o nome de Titéia), assim como seis crianças monstruosas, três Ciciopes e três Hecatonquiros. Mas úrano aprisionou os seus filhos no ventre de sua mãe, e então Geia fabricou uma foice, com a qual o Titã Cronos mutilará o seu próprio pai.

O sangue de úrano mutilado fecunda, uma vez mais, Geia, que assim dará à luz as Erínias, os Gigantes e as ninfas dos freixos (o bosque onde se fabricavam as lanças): as Melíades.

Mais tarde, Geia gerará de seu filho Ponto, Nereu, Taumas, Fórcis, Ceto e Euríbia.

Depois de ter iniciado e desenvolvido o povoamento do Universo, com divindades, Geia criou o homem. Do solo produtivo saíram os heróis "autóctones" como Cécrops, Lélex...

Mas Geia não é somente criadora, ela é também a ama dos deuses e dos mortais. Quando Cronos, digno filho de úrano, decidiu por sua vez eliminar um a um todos os seus filhos, foi a Geia que Zeus, o recém-nascido, foi confiado a fim de escapar ao ímpeto assassino de seu pai.

Assim, Geia é adorada como a "mãe universal" (segundo os termos do Híno homérico), para quem "nascem os belos filhos e os frutos saborosos", sendo objecto de um culto fervoroso em toda a Grécia, desde os primeiros tempos.

Em Delfos, o mais antigo oráculo pertencera-lhe e quando Apolo a vem substituir (depois de uma luta épica contra a serpente Píton, nascida de Geia), os zeladores do deus terão de impor a ideia de que não houve uma espoliação violenta de Geia, mas antes uma transmissão, negociada, de poderes.

Em Dociona, em Tegeia, em Tebas, em Cizica, na Frigia, e sobretudo em Atenas e no Peloponeso (Patras, Olímpia, Esparta ... ), ela tornou-se uma figura de primeiro plano - por vezes associada a Zeus ou a Deméter - como

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Gênio

Deusa-Mãe, deusa da abundância (presidindo aos casamentos) e detentora de um poder profético.

Este último atributo está ligado a um outro aspecto da personalidade de Geia: deusa ctónia, é uma das divindades da morte e como tal fecha o cicio da vida. Se o rito de enterramento substituí em Atenas o da incineração é, conta Cícero, porque foi reconhecido que convinha mais fazer repousar os defuntos no seio de sua mãe, do que reduzir os seus corpos a cinzas.

Os Atenienses dedicaram festas públicas a Geia, na sua qualidade de divindade funerária: as práticas consistiam sobretudo em libações, ofertas de frutos, flores, cereais, sem excluir totalmente, em certos casos, os sacrifícios sangrentos (ovelhas negras).

Ao longo da história grega, o nome de Geia figurou, regularmente, nas fórmulas de juramento solene pronunciadas pelos homens e pelos deuses.

Os epítetos que lhe são frequentemente dedicados são: produtiva, portadora de fruta, subterrânea e, igualmente - quando está associada a Zeus

- olímpica.

Geia é comummente representada como uma mulher opulenta e, dada a complexidade do seu carácter, não teve jamais um tipo antropomórfico bem definido. É isto que explica que ela tenha sido suplantada, a partir da época clássica, pelas divindades de carácter semelhante, dotadas com as efígies mais díversíficadas.

Gênio

Princípio gerador e conservador de vida, o Gênio é uma das divindades domésticas adoradas pelos Romanos.



Cada homem tem um Gênio distinto que o assiste, desde o seu nascimento até à sua morte. Alguns autores atribuem-lhe mesmo dois: o bom Gênio e o mau Gênio. Para além disso, qualquer reunião de homens tinha um Gênio próprio: Gênio da cidade, do bairro, da corporação, da escola, do mer-

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Gorgáfona

cado, da legião, do campo... Acima de todos é venerado o Gênio do Povo Romano e, sob o Império, o Gênio do Imperador.

O Gênio é uma divindade exclusivamente masculina, No tocante às mulheres, este papel é desempenhado por Juno, tendo cada uma delas a sua Juno particular.

O Gênio é representado, na origem, como uma serpente. Mais tarde, aparece como um homem de toga, sustentando nas suas mãos uma pátera e um corno da abundância. É, geralmente, rodeado de dois lares,

Gorgófona i

O nome Gorgófona corresponde ao feminino do cognome atribuído a seu pai, Perseu: "O assassino de Górgona." A sua mãe é Andrómeda, que Perseu salvou e desposou precisamente no regresso da sua expedição contra a Medusa.

Gorgófona casou, em primeiras núpcias, com Perieres, rei da Messénia, que lhe deu dois filhos: Afareu e Leucipo. Mas depois da morte de seu marido, ela voltou a casar (passando por ter sido a primeira viúva da Grécia a fazê-10) com Ébalo, rei de Esparta, de quem teve mais dois filhos: Icário e Tíndaro.

Este último casou com Leda, futura mãe de Castor e Pólux. E com eles, estão reunidos todos os descendentes dos dois maridos de Gorgótona que consagrou (em detrimento dos filhos de Afareu, Idas e Linceu) as filhas de Leucipo, Hilaíra e Febe.

Perieres + Gorgffiona + Ébaio

Afareu Tíndaro

Hades

Hades, apelidado de Pluto, é filho de Cronos e de Reia. Ao nascer, foi engolido pelo seu próprio pai e só voltou à luz do dia graças à intervenção de seu irmão Zeus. Por isso, participará em todas as suas lutas vitoriosas.



Hades tem o poder absoluto sobre o mundo inferior e cada um dos seus nomes corresponde a um aspecto desta sua soberania.

Etimologicamente, Hades é o Invisível. O seu capacete, sobretudo, tem a propriedade de o esconder de todos os olhares. A este título, ele é o misterioso, terrífico e impiedoso soberano dos Infernos, universalmente odiado.

Em oposição, Pluto é o Opulento. Senhor de uma população que não cessa de crescer, proprietário de todos os despojos dos mortais e ainda dos tesouros escondidos no mundo subterrâneo (particularmente os filões). Por isso ele exerce uma influência benéfica sobre a prosperidade do solo, sendo muitas vezes associado, pelos Gregos, ao culto de sua irmã Deméter.

Hades é invocado através de um ritual que consiste em bater na terra com as mãos ou com vergas. Em sua honra são imolados touros negros ou ovelhas negras, durante a noite.

Indiferente às agitações do céu e da terra, Hades quase não deixa o palácio infernal e o seu trono de ébano e de enxofre. Fá-lo, por exemplo, quando é ferido por Héracies, que tinha vindo capturar o cão Cérbero. Nessa altura, eleva-se ao Olimpo a fim de receber os cuidados dos deuses.

Conhecemos-lhe poucas aventuras. Desejoso de desposar uma mulher, rapta a sua sobrinha Core, filha de Deméter e de Zeus, e transforma-a na rainha Perséfone, com a qual vive metade do ano e de quem não terá herdeiros.

Hades será fiei a Perséfone, a não ser em dois momentos pontuais: quando teve um devaneio pela ninfa do Cócito, chamada Minta (ferozmente

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Harpias

espezinhada por Perséfone, será transformada em menta, por Hades) e quando se apaixonou por Leuce, filha do Oceano, que será metamorfoseada em choupo argênteo (é este o sentido de leuce).

Hades é, raramente, representado sozinho. Ele figura, geralmente, ao lado de Perséfone, sendo apresentado como um homem barbudo com uma serpente, símbolo do mundo subterrâneo, e o corno da abundância.

Harpias 11%

As três Harpias, filhas de Electra (ela própria filha do Titã Oceano) e de Taumas (filho de Ponto e de Geia), pertencem à geração dos pré-olímpicos. Elas são irmãs de íris, a mensageira dos deuses.

Representadas quer como mulheres aladas, com um aspecto famélico, quer como pássaros com cabeça de mulher, as Harpias residem nas ilhas Estrófades do mar Egeu, ou ainda, segundo Virgílio, às portas do Tártaro.

Impetuosas e brutais como a tempestade, as Harpias são - este é o sentido do seu nome - raptoras com garras fortes. Arrancam as almas dos mortos dos seus corpos, e enviam-nas para o Hades.

Só as filhas de Bóreas, o vento do norte, eram reputadas como sendo capazes de as capturar. Por isso o rei da Trácia apelou para elas, quando as Harpias o perseguiram, privando-o de tudo aquilo que possuía, inclusive os seus alimentos. No decurso desta perseguição, uma das Harpias caiu ao rio do Peloponeso, que depois passou a ter o nome de Harpis. As outras foram salvas pela intervenção da sua irmã íris, e consentiram em poupar Fineu, doravante.

Unidas ao deus da brisa, Zéfiro, as Harpias geraram os dois cavalos de Aquiles, rápidos como o vento, e ainda os cavalos dos Dioscuros.

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Hécate

Hebe !',uu:z, km,-, e,:-

Filha do casal real Zeus e Hera, Hebe personifica a juventude (é este o sentido do seu nome) e a beleza.

No palácio de seus pais, ela desempenha o papel de jovem dona de casa. Vemo-la, ajudando a sua mãe a atrelar o seu carro, preparando o banho de seu irmão Ares e participando no coro das Musas. Quando ela passa nos postos dos diferentes deuses, a fim de substituir os seus copos de néctar, estes olham-na, enlevados. No entanto, e para grande perturbação de sua mãe, Helbe será suplantada nesta função pelo jovem e belo Troiano Ganimedes, introduzido por Zeus no Olimpo.

E quando Héracles, depois de uma vida de tormentos, atingiu a eternidade, Hera, reconciliada com o herói, aceitou o casamento de sua filha com o filho de Zeus e de Alcmena.

O culto prestado a Hebe associava-a a sua mãe e, sobretudo, a seu marido.

A jovem deusa é, muitas vezes, representada coroada de hera, transportando flores ou segurando uma maçã, símbolo do casamento fecundo.

Hécate em,

Astéria, filha dos Titãs Ceu e Febe e irmã de Leto, casou com o filho do Titã CriosI, Perses. Desta união nasceu Hécate, misteriosa divindade lunar.

Os poderesde Hécatesão numerosos e variados. Ela é considerada, nasorigens, como deusa benfeitora e protectora dos mortais, em todos os domínios.

Mais tarde, será considerada como a temível inventora da magia e da feitiçaria. A este título, será associada ao mundo da noite, no qual aparece com uma tocha em cada mão, e por vezes com a forma de uma cadela.

Introduzida como deusa da fecundidade na religião eleusiana, ela é uma das divindades do orfismo.

1 Uma outra tradição apresenta Perses como filho de Hélio (vd. Hélio).

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Hefesto

A estátua de Hécate é muitas vezes erigida nas encruzilhadas com o aspecto de uma mulher com três corpos ou três rostos (símbolo, talvez, das fases da lua).

Hefesto

Hefesto (cujo nome parece radicar em duas raizes gregas que significam: alumiar e lareira) personifica o fogo, tanto o fogo que explode no céu (o saracoteio que lhe é atribuído, na Antiguidade, representava o ziguezague do relâmpago) como aquele que é produzido pelos vulcões.

Hesíodo apresenta Hefesto como tendo sido gerado por Hera, sem nenhuma participação masculina, mas segundo lendas posteriores a deusa teria imaginado este prodígio para escapar à vergonha de ter concebido um filho de Zeus, antes do seu casamento.

Entretanto, depois do nascimento de Hefesto, Hera tentou desembaraçar-se do seu filho, atírando-o ao mar, do alto do Olimpo, mas ele foi recolhido pelas ninfas Tétis e Eurínome, com quem viveu durante nove anos. Nesse período, o jovem deus iniciou-se na arte da forja, e desenvolveu a tal ponto os seus conhecimentos que um dia enviou a sua mãe um sumptuoso trono de ouro, como presente. Hera sentou-se nele, mas depois não foi capaz de se levantar e nenhum dos deuses do Olimpo conseguiu romper o encantamento. Ares ainda tentou obrigar Hefesto a libertar Hera, mas o jovem deus apedrejou-o com tições ardentes. Então, Dioniso tentou a sua sorte, oferecendo vinho a seu irmão: bêbado, Hefesto deixou-se conduzir por um burro, e com esta equipagem entrou no Olimpo. No entanto, não consentiu em libertar Hera, sem antes ter obtido em casamento a mais bela das imortais: Afrodite.

A partir deste momento, reconciliado com sua mãe, Hefesto tomou sempre o seu partido contra Zeus, com quem ela mantinha grandes disputas por causa de Héracies. Mas o rei dos deuses agarrou o seu filho por um pé e lanÇou-o através do espaço. Hefesto foi assim cair sobre a ilha de Lemnos, ficando coxo para sempre. Homero afirma, no entanto, que ele nasceu já com esta deficiência física.

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Hélen

Hefesto era tão feio que suscitara a troça dos deuses desde que aparecera no Olimpo, e a sua esposa, Afrodite, deusa da beleza e do amor, não tinha nenhum escrúpulo em ser-lhe infiel.

É verdade, no entanto, que o deus do fogo também se apaixonou por outras belezas. Atena, que segundo uma certa tradição, ele tinha ajudado a nascer, abrindo o crânio de Zeus, subjugou-o com os seus encantos, mas repeliu sempre os seus desejos, a ponto de Hefesto, num momento de êxtase, "depositar" sobre a Terra o seu sêmen declinado. Dele teria nascido Erictónio, o futuro rei de Atenas.

De Lemnos, a ilha vulcânica que foi a sua residência terrestre (Prometeu visitou-a para lhe roubar o fogo), depois da sua segunda saída do Olimpo, e onde ele trabalhou os metais assistido pelos Cabiros, gênios benfeitores cuja paternidade lhe é atribuída, o deus emigrou para o arquipélago, igualmente vulcânico, das ilhas Lipari e daí para a Sicília, para as profundezas do Una.

A sua actividade é transbordante e a habilidade da sua arte, indiscutível. "No sombrio brilho da fornalha", os Ciciopes, gigantes com um só olho, forjaram sob a sua orientação o raio de Zeus e as armas e os ornamentos dos deuses.

Na Antiguidade, o divino e genial ferreiro é, geralmente, representado como um homem de idade madura, peludo e barbudo, coberto com um chapéu cónico, com um corpo vigoroso suportado por pernas franzinas e apoiado num cajado. Aparece vestido como um trabalhador, com o ombro direito a descoberto, brandindo nos pulsos robustos as tenazes ou o martelo: cf. Rubens, Vénus na forja de Vulcano (Bruxelas).

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Hélen, filho de Deucalião e de Pirra (ou de Prometeu), nascido na Tessália, é o antepassado da raça "helénica". Casado com a ninfa das montanhas, Orseide, teve três filhos: Doro, Éolo e Xuto.

Xuto gerou Aqueu e íon, pais dos Aqueus e dos lónios, respectivamente, enquanto que de Doro e de Éolo saíram as raças dos Dórios e dos Eólios.

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Hélio

Hélio


Hélio, o astro solar, é filho dos Titãs Hiperíon e Teia e irmão do astro lunar, Selene, e da Aurora, Eos.

Todas as manhãs ele percorria os céus, montado no seu carro de fogo, atrelado a cavalos alados de uma brancura estrondosa. Quando lá chegava, enquanto os seus cavalos cansados se banhavam, Hélio repousava no seu palácio de ouro para depois alcançar, de barca, o Oriente.

Casado com a sua prima Perseide, filha dos Titãs Oceano e Tétis, Hélio é o pai da mágica Circe, de Pasífae, esposa do rei Minos de Creta, do rei da Cólquida, Eetes (pai da mágica Medeia) e do rei da Táurida, Perses, que destronará o seu irmão e perecerá por instigação de Medeia.

A lenda atribui a Hélio muitas uniões: com a ninfa Rodo e a oceânide Cilmene, que lhe darão numerosos filhos e filhas, as Héliades e (de Clímene) Faetonte, que sofrerá, um dia, o malfadado desejo de conduzir o carro de seu pai.

Certos autores apresentam Hélio como pai do rei Augias, célebre pela pavorosa imundície dos seus estábulos, com quem Héracies se confrontou. Duas das suas filhas, instaladas na ilha da Trinácia, estavam encarregadas de guardar os seus bois, aqueles mesmos bois que foram roubados pelos companheiros de Ulisses, a quem o deus Sol puniu, fuiminando o barco que os transportava.

Testemunha omnipresente de todas as acções dos homens, foi Hélio que informou Deméter da aventura sofrida pela sua filha Core. Foi também ele que alertou Hefesto para a infidelidade de Afrodite com Ares. Mas esta não lhe perdoou a afronta e vingou-se, inspirando-lhe uma perniciosa paixão por Leucótea, filha do rei da Babilónia. Acontece que Clítia, irmã de Leucótea, que tinha recentemente recebido os favores do deus, advertiu o rei e este mandou enterrar viva a infeliz princesa. Hélio, não tendo conseguido atravessar a terra com os seus raios, transformará a jovem numa planta aromática, de onde se retirará o incenso. Quanto a Clítia, que definhará despeitada, foi transformada numa violeta, cuja cabeça se apresentava sempre virada para Hélio, que ela nunca deixou de adorar.

Entre os Gregos, o culto de Hélio era praticado, sobretudo, na acrópole de Corinto (que tinha sido atribuída a Hélio, quando do seu conflito com Posídon, que recebera o Istmo como recompensa) e em Rodes, residência da

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Hera

ninfa Rodo, amada de Hélio: a estátua do deus - o famoso colosso de Rodes, uma das "maravilhas do mundo" - elevava-se 35 m acima do nível do mar, permitindo aos navios, com todas as suas velas desíraldadas, atravessar sem perigo por entre as pernas do deus.

O culto do astro solar perdeu a sua importância na época clássica em benefício, sobretudo, de Apolo, o deus do Sol, voltando a recuperar toda a sua força durante o Império, graças à influência das religiões orientais (Mitra, chamado Sol ffivictus). A partir de então tenderá, cada vez mais, para um monoteísmo, onde o cristianismo colherá as suas tradições. As datas do Natal e da Páscoa foram, na origem, determinadas pelas datas do calendário solar.

Hélio é representado com os traços de um homem jovem e belo, com longa cabeleira encaracolada, de olhos abertos, a cabeça aureolada por raios e vestido com umas roupagens que ondulavam ao vento.

Hera

Hera, cujo nome deriva de uma raiz sânscrita que significa céu, representa, na Antiguidade, o tipo divinizado da mulher, esposa e mãe.



Era uma das filhas de Cronos e de Reia, nascida na ilha de Samos, mas engolida por seu pai, como todos os seus irmãos, no momento do seu nascimento. Mais tarde, este foi obrigado a restituí-Ia à vida, e a deusa escolheu como seu local de morada a ilha de Eubeia. Foi aí que, num certo dia de Inverno, seu irmão Zeus, apaixonado por ela, veio visitá-la, transformado, segundo alguns, num cuco. A jovem, ao ver o animal enregelado, aqueceu-o no seu peito, mas rapidamente se apercebeu da trapaça de Zeus. Terá sido em consequência deste encontro que nasceu Hefesto? Não sabemos, mas Hera afirma, no entanto, que ele teria sido gerado sem qualquer intervenção masculina.

Mais tarde, a deusa desposa Zeus, de quem foi a terceira (outros dizem a segunda) e última esposa legítima, nascendo desta união Ares, Ilitia e Hebe, que lhe foi associada na função de soberana do Olimpo. Quando ela chegava,

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Hera


todos os deuses se levantavam em sinal de respeito, e então ela tomava o seu lugar ao lado de Zeus, num trono de ouro, na assembleía divina.

Cuidadosa com a sua beleza - todos os anos ela ia procurar a frescura da juventude nas águas da fonte Canato em Náuplia - a deusa "dos braços brancos", como foi designada por Homero, conheceu muitos admiradores, mas a sua fidelidade exemplar levou-a a desencorajá-los sem complacência. Isto aconteceu com Mon, rei dos Lápitas, que tivera a presunção de possuir a deusa, agarrando, certo dia, uma nuvem negra que Zeus formara com a imagem de sua esposa. Por esta acção, ele foi castigado com um suplício eterno.

Por outro lado, Páris, que tinha publicamente negligenciado os seus encantos, sofreu a ira da deusa, que se estendeu a todo o povo troiano.

O carácter fiel e rancoroso de Hera não lhe permitiu nunca aceitar as numerosas traições de seu marido (uma das suas vinganças teria sido, segundo alguns, a de gerar o terrível monstro Tífon). As querelas do casal divino deram lugar a estridentes escândalos, cujos actos se manifestavam nas frequentes perturbações da atmosfera.

Hera, sem qualquer poder sobre o seu marido, que a castigava e a prendia quando estava cansado das suas injúrias, perseguia e importunava com o seu ódio as suas rivais.

O animal ritual de Hera é o pavão sobre cujas plumas nós reconhecemos os múltiplos olhos do seu servidor Argo, morto por ordem de Zeus, por ter aceitado vigiar lo, a sacerdotisa de Hera que ele metamorfoseou em novilha, por amor.

Venerada particularmente nas colinas, Hera, cujos principais santuários no mundo grego se erguiam em Argos, no Olimpo e em Samos, era representada como uma jovem mulher de uma beleza severa, com grandes olhos - de novilha, diz Homero - e com longos cabelos encaracolados presos por um diadema. Geralmente sentada num trono, ela apresentava na mão direita um ceptro ornado com um cuco e na esquerda uma romã, símbolo da fecundidade.

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Héracies

Héracies


Héracies, o mais famoso e o mais popular dos heróis da mitologia clássica, personificação da força, descende de Perseu, filho de Zeus.

Perseu teve três filhos: Esténelo, Alceu e Eléctrion. Alceu (o Forte) e Eléctrion (o Brilhante) geraram, respectivamente, Anfitrião e Alcmena que casaram e se fixaram em Tebas, na Beócia.

Mas entretanto Zeus estava determinado a gerar um filho mortal, que se tornasse, simultaneamente, protector dos deuses e dos homens. Para isso, ele necessitava de uma companheira exemplar e a sua escolha irá recair sobre Alcrnena, a mais perfeita das mortais. Assim, certo dia, quando Anfitrião se encontrava ausente em campanha, Zeus apareceu a Alcrnena, metamorfoseado no seu marido ausente e esta, julgando que ele tinha regressado, finalmente, entregou-se-lhe num êxtase de amor. Pouco depois, Zeus partiu para o Olimpo onde jurou, solenemente, perante todos os deuses, que o próximo descendente de Perseu seria dotado de um poder temporal sem precedentes.

Acontece que Hera rapidamente se apercebeu da verdade que se escondia por detrás desta revelação, decidindo, de imediato, contrariar os desígnios do seu infiel marido. Assim, ao tomar conhecimento de que a mulher de Esténeio também se encontrava grávida, Hera ordenou a Ilitia, sua filha, experiente nos trabalhos de parto, que acelerasse o parto da mulher de Esténelo, enquanto ela atrasaria o de Alcmena.

E, deste modo, foi Euristeu, filho de Esténelo, quem beneficiou das disposições de Zeus, exercendo sempre, com o Apolo de Hera, uma autoridade tirânica sobre o filho de Alcrnena, Alcides (presumível descendente de Alceu) que, mais tarde, após as muitas provas sofridas, foi dotado com um outro nome, Héracies (glória de Hera).

A infância e a juventude As provas a que o jovem foi sujeito ao longo da sua vida, começaram logo após o seu nascimento, quando Hera fez surgir duas enormes serpentes no seu berço, durante a noite. Acontece que Alcides estava acompanhado do seu irmão gêmeo, íficies, ele sim filho de Anfitrião e de Alcrnena, que ao ver as enormes serpentes gritou aterrorizado. Despertado pelos gritos de seu irmão, Alcides agarrou as serpentes com as suas robustas mãos e estrangu- [ou-as, impavidamente.

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Héracies


Entretanto, os destinos tinham previsto que o herói, depois de ter cumprido a sua vida na terra, poderia alcançar a imortalidade, caso se tivesse alimentado do leite de Hera. Hermes é, então, encarregado de encontrar uma solução para que os desígnios se cumprissem, e uma noite quando Hera dormia, colocou a criança no seu seio, a fim de que esta se alimentasse. Acontece que Alcides foi tão sôfrego na sua mamada que Hera acordou, sobressaltada, repelindo a criança. Mas um jacto de leite saiu do seu peito, provocando um rasto no céu. Estava criada a Via Láctea (cf. os quadros de Rubens e de Tintoreto).

Anfitrião decidiu, entretanto, confiar Alcides ao sábio Lino, que fez dele um músico consagrado. Mas certo dia, quando Lino se permitiu fazer algumas correcções ao seu jovem aluno, este teve um violento acesso de cólera e espancou-o. Anfitrião, seguindo o costume nestas situações, foi obrigado a expulsar Alcides, enviando-o para junto dos pastores da montanha. E foi aqui que o vigor físico do jovem herói se desenvolveu. Quando tinha dezoito anos, Alcides decidiu partir na busca de um leão, que atormentava as manadas de seu pai. Durante esta aventura, que terminou com a morte da fera, Alcides refugiou-se no palácio do rei Téspio, filho de Ericteu, que reinava sobre a cidade de Téspia, e numa noite (outros dizem, durante cinquenta noites) possuiu as cinquenta filhas do seu anfitrião, que lhe darão cinquenta filhos.

Após este episódio, quando regressava a Tebas, Alcides confrontou-se com uma delegação de Orcómeno, que vinha reclamar aos Tebanos o tributo imposto pelas leis da guerra. Animado pela sua vitória recente, Alcides prendeu o chefe da delegação, cortou-lhe o nariz e as orelhas, dando origem a um novo conflito, no qual Anfitrião encontrará a morte. Mas, mais uma vez, Alcides, aqui apoiado por Atena, regressará vitorioso do combate, após a morte do rei Orcómeno. Entretanto, Creonte, rei de Atenas, oferece a mão da sua filha mais velha, Mégara, a AIcídes, enquanto que íficles desposará a mais nova.

Hera, irritada e despeitada com os sucessivos êxitos do herói, decide enviar-lhe uma das Fúrias, Lissa, a fim de se vingar. Tomado de loucura, Alcides mata a sua própria mulher e os seus três filhos (este episódio é o tema das Tragédias de Eurípides e de Séneca, intituladas Héracles Furíoso). Imediatamente após a tragédia, é obrigado a deixar, de novo, o seu país, dirigindo-se a Delfos a fim de consultar o oráculo divino. É então que lhe é dado o nome de Héracies e o castigo para expiação do seu crime. O herói deveria partir para a

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corte de seu primo Euristeu, rei dos Argos, vivendo sob as suas ordens, até que o seu destino se cumprisse.

Euristeu irá sujeitar o herói a várias provas, todas elas sobre-humanas, que ficaram conhecidas pelo nome de os "doze trabalhos". Os seis primeiros tiveram lugar no Peloponeso, enquanto que os seis últimos se desenrolaram por todo o mundo antigo.

Os Doze trabalhos Antes de iniciar a sua primeira missão, Héracles teve a preocupação de fabricar uma arma especial, uma arma à sua medida, que o acompanhasse sempre, a partir de então: uma gigantesca moca talhada do tronco de uma oliveira milenar.

1 - Combate contra o leão de Némea Existia um terrível leão, filho de Equidria e irmão da célebre Esfinge de Tebas, que devastava o vale de Némea. Héracies partiu em sua busca e quando o encontrou, estrangulou-o com as suas mãos. Depois esfolou-o e da sua pele fez uma veste que o tornou, a partir de então, invulnerável. No local em que o animal foi morto, Héracies institui os Jogos Nemeanos. Por sua vez, Zeus transformou o leão numa constelação.

2 - Combate contra a Hidra de Lema Na região de Lerna existia uma hidra com nove cabeças e dotada de um sopro pestilento, também filha de Equidria, que devastava toda a região, rou- !?ando os cereais e as manadas. Héracies, acompanhado de lolau, filho de Ificles, que a partir de então estará sempre ligado ao seu destino, descobriu o esconderijo do monstro e forçou-o a sair, atirando-lhe flechas com fogo. Depois defrontou-o, cortando-lhe uma cabeça, mas no lugardesta, imediatamente, surgiram outras duas. Então, Héracies ordenou a lolau que incendiasse toda a floresta vizinha e, assim, munido de fachos ardentes, conseguiu queimar as cabeças da hidra, que não desabrocharam de novo. Depois, molhou as suas flechas no sangue da vítima, dotando-as assim com o seu veneno.

3 - Captura do javali de Erimanto Nos confins da Arcádia e de Acaia, no Erimanto, existia um javali monstruoso. Quando o herói partiu à conquista do animal, foi acolhido pelo bom

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Héracles


centauro Folo, que abriu em sua honra um pipo de vinho precioso, presente de Dioniso. Acontece que o perfume deste néctar se propagou, imediatamente, através do campo, provocando a vinda de outros centauros que, pouco amigavelmente, reclamaram a sua parte. Héracies viu-se obrigado a dizimar, com as suas flechas, os perigosos centauros (uma flecha perdida matará o excelente centauro Quiron), partindo, seguidamente, à procura do javali, que capturou e trouxe vivo a Euristeu. Este, não conseguindo dissimular o seu horror pelo animal, escondeu-se numa vasilha.

Foi, talvez, durante o decurso desta sua estadia na Arcádia, que Héracles seduziu Auge, filha do rei Áleo de Tégea, que era uma sacerdotisa de Atena. Desta união nascerá Téleto, aquele que de entre os seus setenta filhos, mais se parecerá com o herói.

4 - Caça da corça Cerineia Euristeu ordenou a Héracies que lhe trouxesse vivo um animal maravilhoso, com cornos de ouro e pés de bronze, consagrado a Ártemis, que vivia na Cerineia. Durante um ano, Héracles perseguiu o animal, conseguindo apanhá-lo, finalmente, quando ele se preparava para atravessar um afluente do Alfeu.

5 - Destruição das aves do lago Estinfaio

O lago do Estinfalo, na Arcádia, estava infestado de águias, com bicos e garras de ferro, que se alimentavam de carne humana. E era de tal modo grande o seu número que, quando levantavam voo, escureciam o céu. Héracles muniu-se, então, com címbaios especialmente fabricados por Hefesto e com eles espantou e aterrorizou os pássaros que, ao levantarem voo, foram mortos com as suas flechas.

6 - Limpeza das cavalariças de Augias Augias, filho de Hélio e rei da Élide, possuía uma grande manada, da qual se destacavam doze touros brancos, consagrados a seu pai. Acontece que os seus estábulos se encontravam completamente atolados em lixo, pois ele nunca os mandara limpar. Héracles foi, então, encarregado desta missão, sendo-lhe prometida como recompensa um décimo da manada real. Para o efeito, Héracies inverteu o curso dos rios Alfeu e Peneu, fazendo-os passar pelo estábulo que, imediatamente, ficou limpo. Mas Augias, argumentando

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Héracies


que Héracies não tinha senão cumprido as ordens de Euristeu, recusou conceder-lhe a recompensa prometida. O herói jurou vingar-se, mas antes teria de percorrer o mundo.

7 - Captura do touro de Creta Posídon tinha oferecido um magnífico touro a Minos, rei de Creta, esperando que este lho dedicasse, um dia, em sacrifício. Mas como Minos não correspondeu aos desejos do deus, este resolveu enfurecer o touro que passou a aterrorizar todo o país. Exactamente nessa data, Héracles passou por Creta, recebendo a ordem de dominar o enfurecido animal. Fê-lo sem grande dificuldade, transportando-o depois sobre as costas, através do mar, até à Argólida.

8 - Captura das éguas de Diomedes na Trácia Esta nova missão conduz o herói para a Trácia. Quando Héracies atravessava a Tessália deparou com o rei Acimeto, de Feres, a quem as Moiras

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Os trabalhos de Héracies na Grécia



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Héracies


tinham prometido retardar a morte se alguém se oferecesse para morrer em seu lugar, chorando a sua amada esposa Alceste, que se tinha sacrificado por ele. Héracies, comovido, resolveu descer aos Infernos e desafiar a Morte, raptando Alceste que entregou, depois, a seu marido.

Imediatamente após este episódio, o herói entrou na Trácía onde encontrou um rei, Diomedes, filho de Ares, que alimentava as suas éguas com carne humana. Héracies, acompanhado por alguns voluntários, desembaraçou-se dos guardas das éguas e roubou os animais, Os soldados de Diomedes intervieram prontamente, mas o grupo liderado pelo herói venceu-os. Depois, como castigo, o próprio Díornedes foi dado em alimento às suas éguas.

9 - Conquista do cinto da rainha das Amazonas Hipólita, rainha das Amazonas, na Capadócía, tinha recebido um cinto mágico, que simbolizava a sua soberania, como presente de Ares. Mas a filha de Euristeu cobiçava este objecto absolutamente único, e então Héracles foi encarregado de lho trazer. O filho de Zeus embarcou, então, acompanhado por vários heróis - Perseu, Télamon, Peleu - e fez a sua primeira escala na ilha de Paros, onde enfrentou a hostilidade dos filhos de Minos. Daí viajou

Os trabalhos e as viagens de Héracies através do mundo

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Héracies


para a Bitínia, onde ajudou o rico LicO a defender-se dos seus inimigos. Como recompensa, Lico dedicou à glória de Héracies a cidade de Heracleia.

Quando chegou ao palácio de Hipólita, Héracles convenceu a rainha a ceder-lhe o cinto mágico. Mas Hera, que velava pelo cumprimento da sua vingança, não pôde aceitar um tão fácil desfecho, e então, transformada em Amazona, divulgou que Héracies pretendia roubar a rainha. Perante tal revelação, as Amazonas pegaram em armas e Héracies, julgando-se traído por Hipólita, matou-a, massacrando depois as suas guerreiras.

Munido do cinto dirigiu-se, então, para Tróia, de onde contava embarcar para Creta. Mas ao chegar à cidade encontrou l_aomedonte, rei de Tróia, numa situação desesperada. Com efeito, depois de Apolo e Posidon terem construido as famosas muralhas da cidade, foram despedidos por l_aornedonte sem qualquer tipo de pagamento. Ora, os deuses sentiram-se tão revoltados que decidiram enviar um dragão sobre a cidade e só aceitavam apaziguá-lo se Hesíone, filha de Laomedonte, lhe fosse servida como alimento. Héracles ofereceu-se, então, para libertar a jovem deste perigo, matando o monstro. Mas Laomedonte, incorrigível, recusou-lhe qualquer recompensa e o herói prometeu vingar-se, mais tarde.

10 - Captura dos bois de Gérion Gérion, um gigante formidável com três corpos, que reinava na parte ocidental da Ibéria, possuía uma manada de bois vermelhos que Euristeu cobiçava. Héracies, encarregado de os roubar, viajou em companhia do seu sobrinho lolau através da África do Norte. Depois atravessou o mar no estreíto de Gíbralttar, tendo colocado de cada um dos lados deste estreito um monte, o Calpe e o Abila (as Colunas de Hércules). Quando chegou à ilha de Eritia, onde os bois pastavam, desembaraçou-se do pastor e do cão que os guardava e apropriou-se da manada.

O regresso do herói à Argólida, através da Europa, foi marcado por inúmeras peripécias. Na Gália, Héracles tentou abolir os sacrifícios humanos, Atacado pelos Lígures, e encontrando-se sem munições, conseguiu vencê-los com as pedras que Zeus fez chover sobre eles, Ainda na Ligúria defrontou-se com dois malfeitores, filhos de Posídon, que tentaram roubar-lhe a manada, sendo mortos pelo herói. Daí desceu para a Etrúria, onde recebeu a hospitalidade do rei Evandro. Depois confrontou-se com Caco, outro malfei-

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Héracles

tor que lhe tentou roubar alguns animais, mas Héracles expulsou-o do seu país (este episódio faz parte da lenda do Hércules latino).

Quando atravessavam a região da Calábria, um falso boi associou-se à manada, atravessando a nado o estreito. Ao chegarem à Sicília, o rei Eris recolheu-o no seu estábulo, não pretendendo restituí-lo a Héracies. Perante a insistência do herói, o rei consentiu em dar-lhe o animal, se fosse vencido numa luta de pugilato. E assim aconteceu. Héracies, vitorioso, matou o seu adversário e recuperou o animal.

No decurso da sua segunda travessia do estreito de Messina, Héracies foi obrigado a defrontar, sucessivamente, os monstros Caríbdis e Cila, mas escapou-lhes, conduzindo a manada através da Trácia. Aí foi acolhido por uma deusa com corpo de serpente (que alguns identificam com Equidna), a quem amou e de quem teve três filhos, um dos quais Cítio, antepassado do povo Cita. Entretanto, Hera, enfurecida com as sucessivas vitórias do herói, decidiu lançar um moscardo sobre a manada, perturbando e enfurecendo os animais que se dispersaram pelas montanhas. Mas Héracles perseguiu-os e juntou-os, de novo, trazendo finalmente a manada a Euristeu, que sacrificou solenemente todos os animais a Hera.

11 -As maçãs de ouro das Hespérides As três "ninfas do Ocidente", as Hespérides, filhas de Atlas (?), guardavam, num jardim fabuloso situado na extremidade do mundo ocidental, no sopé do monte Atlas, as maçãs de ouro outrora oferecidas por Geia a Hera, como presente de núpcias. Héracies foi encarregado de se apoderar dos frutos, mas desconhecia, completamente, onde ficava o famoso jardim. Acompanhado pelo fiei lolau, atravessou vários países até encontrar as ninfas do Eridão, a quem perguntou como encontrar a morada das Hespérides. Estas disseram-lhe que só o deus profeta Nereu lhe poderia ensinar o caminho, mas que seria difícil fazê-lo falar. Héracies dirigiu-se, então, a Nereu, capturou-o e obrigou-o a revelar-lhe o refúgio das Hespérides.

Logo depois, atravessou a Líbia onde se confrontou com Anteu, um monstruoso gigante que desafiava todos os viajantes para a luta. Acontece que Anteu era filho de Geia e, assim, sempre que Héracles o derrubava e ele caía por terra, esta reconstituía, imediatamente, as suas forças. Ao aperceber-se do segredo do vigor de Anteu, Héracies levantou-o no ar e estrangu-

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lou-o com as suas mãos. Depois seduziu a mulher de Anteu, que lhe deu um filho, Palérnon (o filho da luta). Entretanto, os irmãos de Anteu, os minúsculos Pigmeus da Etiópia resolveram atacar Héracles, durante o sono, aproveitando uma paragem do herói nos confins da Líbia e do Egipto. Mas quando este acordou, prendeu e esmagou o povo anão, na sua pele de leão.

Entretanto Héracies chegou ao Egipto, precisamente quando o rei Busíris se preparava, como era hábito anual, para imolar um estrangeiro, a fim de conjurar a miséria. O herói foi escolhido como vítima, aprisionado e conduzido ao templo. Mas rapidamente se desembaraçou das suas correntes, matando Busíris e o seu filho.

Então, continuou a sua viagem em direcção à Etiópia. Aí, matou o rei Emátia, filho de Titono, a quem substituiu no trono pelo seu irmão Mérnnon. Depois, atravessou o mar na barca de ouro colocada à sua disposição pelo sol e chegou ao Cáucaso, tendo passado pelo local onde Prometeu sofria o seu suplício. Prontamente, Héracles abateu a águia que devorava o fígado do prisioneiro e libertou-o. Como recompensa, Prometeu revelou-lhe que ele só alcançaria as maçãs de ouro se contasse com a ajuda de seu irmão, Atlas, que, também ele condenado a um castigo eterno, era obrigado a sustentar sobre os seus ombros a abóbada celeste. Chegado ao jardim das Hespérides, Héracies matou o dragão Ládon que defendia a entrada - o animal tornou-se, depois, na constelação da serpente - e aproximou-se de Atlas. Então pediu-lhe que lhe resgatasse as maçãs de ouro, enquanto ele ficava no seu lugar, sustentando a abóbada celeste. Ao voltar com os frutos tão desejados, Atlas recusou-se a retomar o seu fardo, mas Héracies logrou fugir, graças a um artifício e, assim, finalmente pôde entregar as maçãs de ouro a Euristeu. Este devolveu-as a Héracies que as ofereceu a Atena, mas a deusa preferiu restituí-ias às Hespérides.

12 - Rapto de Cérbero dos Infernos

O último dos trabalhos de Héracies aconteceu depois do herói ter cumprido um certo tempo de servidão junto da rainha Ônfale, mas antes do seu casamento com Dejanira, irmã de Meleagro.

Euristeu, despeitado com as constantes vitórias do seu servo através do mundo, resolveu sujeitá-lo a uma última prova: dirigir-se aos Infernos para capturar o cão Cérbero. Héracles partiu, então, para Elèusis, onde se iniciou

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nos mistérios infernais. Depois, com o Apolo do seu meio-írmão Hermes e acompanhado de lolau, dirigiu-se ao cabo Ténaro, que conduzia, directamente, aos Infernos. Ao chegar, deparou com o herói Meleagro que o comoveu com a história do fim da sua vida, Héracies prometeu-lhe, então, desposar a sua irmã Dejanira. Um pouco mais longe, encontrou Teseu e Píritoo que imprudentemente tinham entrado nos Infernos e solicitaram a sua ajuda. Héracies libertou Teseu, mas não conseguiu livrar Pirítoo, acusado de ter querido roubar Perséfone a Hades, seu marido. Prosseguindo a rota tenebrosa, o herói foi, de novo, sensível às súplicas dos residentes, neste caso, as almas que, para reencontrarem uma ilusão de vida, suplicavam o favor de algumas gotas de sangue. Decidido, para o efeito, a abater alguns animais da manada de Hades, Héracies começou por matar o seu boieiro. Mas Hades interveio, imediatamente, sendo atacado e ferido por Héracles. Vencido no seu próprio terreno, autorizou o herói a levar Cérbero, impondo-lhe, no entanto, uma condição: Héracies devia apoderar-se do cão com as suas próprias mãos. O herói defrontou, então, o animal com três cabeças, estrangulou-o, e depois levou-o para terra, entregando-o a Euristeu. Uma vez cumprida a prova, Héracies reconduziu Cérbero aos Infernos.

Outras aventuras Para além dos famosos "trabalhos", Héracles viveu muitas outras aventuras. Estas situam-se durante ou depois do período dos "doze trabalhos".

O seu traço comum reside no destino trágico reservado ao herói.

Eurito, rei da Ecália (na Tessália ou em Eubeia) tinha prometido a sua filha lole, a quem o vencesse no tiro ao arco. Héracies apresentou-se como candidato e triunfou, mas o rei recusou-se a cumprir a sua palavra. Acontece que, pouco tempo depois, Ifico, filho de Eurito, solicitou a ajuda do herói para encontrar um rebanho que lhe tinha sido roubado. Acometido de um súbito acesso de demência, Héracies matou Ifico e, naturalmente, foi sujeito a um novo exílio, partindo para Delfos, onde deveria aguardar a sanção. Mas como a Pítia tardava em responder, o herói, impaciente, apoderou-se do tripé sagrado. Ao tomar conhecimento da situação, Apolo apareceu, envolvendo-se numa luta com Héracles e foi preciso que Zeus surgisse, para pôr fim à querela, separando e reconciliando os seus dois filh-os. O oráculo consentiu, então, em exprimir-se, condenando Héracies a um ano de servidão e à entrega do seu salário a Eurito.

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O herói foi, então, vendido pelo preço de três talentos' à rainha da Lídia, Ônfale. Uma certa tradição apresenta o herói, amolecido pelo fausto oriental, completamente submetido de corpo e alma à sua senhora, fiando a lã a seus pés, com um traje característico da Lídia, enquanto Ôntale arvorava, de maçã na mão, a pele do leão de Nemeu. Dos amores da rainha e do seu incomparável servidor nasceram dois filhos. Esta paragem na vida activa do herói permite explicar a sua ausência em certas epopeias. Curiosamente, outras tradições apresentam o servo de Ônfale, singularmente activo: vemo-[o a libertar a região de Éfeso de dois cruéis malfeitores, os Cercopes; a impedir o vinhateiro Seleu de massacrar os estrangeiros, que forçava a trabalhar na sua vinha; a afogar, no Meandro, o feroz irmão de Midas, que cortava a cabeça dos trabalhadores contratados para apanhar o seu trigo; a libertar as margens do rio Sangario da terrível serpente que as devastava... E ao chegar o momento, foi com pesar que Ônfale deu a liberdade a Héracles. A partir de então, ele irá aproveitá-la, sobretudo, para se tornar no defensor dos oprimidos.

As vinganças de Héracies Quando deixou a Lídia, Héracies dirigiu-se, comandando dezoito barcos de cinquenta remos, para Tróia, cujo rei, Laomedonte, o enganara no passado. Ao chegar à cidade tomou-a de assalto, matando o rei e todos os seus filhos presentes, com excepção de Príamo, salvo por Hesíone. Mais tarde, esta será oferecida, pelo herói, em casamento ao seu companheiro Télamon, que fora o primeiro a transpor as muralhas.

Quando partia, de novo, por mar, Héracies sofreu uma terrível tempestade, enviada por Hera, sendo obrigado a aportar à ilha de Cós, cujos habitantes lhe manifestaram a sua hostilidade. Furioso, Héracles vingou-se, saqueando as suas terras e matando o seu rei.

Entretando dirigiu-se para a Trácia, onde se encontrava quando se realizou o fabuloso combate que opôs os Gigantes aos deuses do Olimpo. Ora, os destinos tinham determinado que só a intervenção de um herói nascido de uma mortal poderia pôr fim ao conflito, Então, Héracles subiu para o carro de Zeus e, com as suas flechas imparáveis, matou os Gigantes.

1 O talento é uma unidade de peso, variável, que representava, no princípio, o peso do metal (prata ou ouro) que um indivíduo podia transportar.

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Depois deste episódio, o herói preparou a sua vingança face a Augias. Desapossou o rei da Élide dos seus Estados e resistiu, vitoriosamente, até ao fim de uma luta sem piedade, na qual íficies encontrará a morte, causada pelos seus dois sobrinhos, os Molionidas, filhos de Posídon, que possuíam um único corpo dotado, entretanto, de duas cabeças e quatro pares de membros,

Entretanto, Héracies renovou, no Olimpo, os Jogos Olímpicos, criados por P&ps, cuidando dos mínimos detalhes e consagrou o recinto sagrado, o Altis.

Após mais esta vingança, desceu para a Messénia a fim de atacar Neleu, tomando a cidade de Hos e massacrando o rei, juntamente com dez dos seus onze filhos. Poupou, unicamente, o mais novo, Nestor, a quem confiou o reino.

Daqui passou para a Lacónía, onde restabeleceu Tíndaro no trono, afastado de Esparta pelo seu meio-irmão, Hipocoonte,

Casamento e marte de Méracies Héracies tinha prometido a Meleagro interessar-se por sua irmã, Dejanira. Assim, a fim de cumprir essa promessa, viajou para Cálidon e solicitou a mão da jovem a seu pai Eneu, rei dos Etólios. Acontece que, antes de Héracies, já se tinha apresentado um outro pretendente, o deus-rio Aqueloo. Mas o herói não sucumbiu. Provocou o seu rival para uma luta e venceu-o - Aqueloo metamorfoseou-se em touro e, segundo a lenda, um dos seus cornos, arrancado por Héracles, transformou-se no famoso corno da abundância - desposando, em seguida, Dejanira. Desta união nasceram cinco filhos. Mas, ínfeJízmente, o herói não consegue contrariar o seu destino e, assim, cometerá nova falta ao provocar, acidentalmente, a morte de um jovem rapaz, que servia à mesa do rei. Forçado a um novo exílio, Héracles abandonou o país, acompanhado de Dejanira e do seu filho mais novo, Hilo. Quando chegaram às margens do rio Eveno, o herói confiou Dejanira ao centauro, Nesso, o barqueíro, a fim de que ele a transportasse para a outra margem. Mas no meio do rio, Nesso tentou violentar a jovem e Héracies matou-o com uma flecha. Antes de morrer, Nesso sugeriu a Dejanira que recolhesse o seu sangue, atirmando que este lhe asseguraria a fidelidade de seu marido.

Entretanto, Dejanira e o seu filho instalam-se em Tráquis, na Tessália, enquanto Héracles parte para cumprira sua última vingança contra Eurito, que lhe linha recusado a mão de sua filha lole. O herói matou o rei assim como todos os seus filhos, apoderando-se de lole, que nunca tinha deixado de desejar. No regresso, fez uma paragem na Eubeia, a fim de dedicar um sacrifício a Zeus.

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Entretanto, enviou o seu companheiro licas a Dejanira, para que ela lhe enviasse uma túnica nova, própria para o acontecimento. Mas a jovem esposa, inquieta por saber da presença de lole junto de Héracies, decidiu molhar a túnica no sangue de Nesso, enviando-a depois a seu marido. Quando este a vestiu, foi imediatamente devorado por um fogo invencível. E de cada vez que tentava retirar a túnica, arrancava bocados de carne do seu corpo, Louco de dor, Héracies atirou Licas ao mar e viajou para Traquis (a tragédia de Sófocles que conta estas peripécias é intitulada As Traquínias). Ao tomar conhecimento do que se passara, Hilo amaldiçoou sua mãe que se matou, desesperada. Entretanto, Héracles subiu ao Eta e ordenou aos seus companheiros que o atirassem ao fogo. Mas todos recusaram e, no fim, Filoctetes acabou por aceder. Para o recompensar, Héracies ofereceu-lhe o seu arco e as suas flechas. No momento em que a chama tocou o corpo do herói, purificando assim Héracles da herança de uma mãe mortal, uma nuvem desceu do céu e, numa sinfonia de relâmpagos e trovões, o filho de Zeus desapareceu da face da terra.

Acolhido, finalmente, no Olimpo, Héracles conquistará as boas graças de Hera e desposará a sua filha Hebe, de quem terá dois filhos. A partir de então viverá uma existência feliz e plácida, estimado pelos imortais e amado e venerado pelos humanos.

Mais do que qualquer outra divindade, Héracies, cujos santuários cobrem a totalidade do mundo antigo, é considerado como o amigo, o conselheiro e o protector dos homens. A sua força física e moral fazem dele o recurso de todos os seres em perigo. Atribuir-se-lhe-ão, mesmo, virtudes medicinais e certas fontes (como as Termópilas) ser-lhe-ão consagradas. Herói, por excelência, do esforço físico, Héracies soube, também, cantar os seus triunfos, fazendo-se acompanhar de uma citara. Por isso, ele preside, entre os Gregos, a todos os aspectos da educação atlética.

Héracles, inúmeras vezes representado, aparece na pintura (Le Guíde, Zurbarán, Mantegna, A. Carrache ... ) e na escultura (Puget, Pigalle, Bourdelle) com os traços de um homem maduro, de músculos bem desenvolvidos, mas com uma cabeça demasiado pequena em relação ao corpo. Geralmente é apresentado de pé, apoiado na sua moca, com um olhar entristecido de perpétuo vencedor que ignora o repouso, eternamente preocupado com as suas tarefas sobre-humanas.

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Heraclidas (Os)

Heraclidas (OS)

Este nome designa os setenta filhos de Héracles, dos quais sessenta e nove eram rapazes.

Reunidos após a morte de seu pai, os Heraclidas propuseram-se um único objectivo: tornarem-se, em seu nome, senhores do Peloponeso. Com efeito, embora o herói tivesse nascido em Tebas, a sua pátria foi sempre considerada como sendo o Peloponeso e, particularmente, a Argó)ida.

Para fugirem às perseguições de Eurísteu, os Heradidas começaram por afastar-se do seu país, refugiando-se junto de Demofonte, filho de Teseu, em Atenas. Descontente, Euristeu declarou guerra à Ática. Entretanto, o oráculo tinha declarado que a vitória dos filhos de Héracies só seria obtida após o sacrifício de um mortal. Assim, Macaria - a bem-aventurada - única filha do herói (e de Dejaníra) reinvindicou a honra desse sacrifício necessário. Pouco tempo depois, Euristeu foi morto no decurso de um combate, por lolau, filho de íficies e fiel companheiro de seu tio, ao longo das suas aventuras. Os seus cinco filhos sofreram a mesma sorte.

Após esta vitória, os Herac)idas, conduzidos por Hilo - que seu pai designara para desposar io(e - entraram no Peloponeso. Mas este regresso foi julgado prematuro pelos destinos, que enviaram uma epidemia de peste sobre o país, obrigando os recentes ocupantes a retirar-se de novo.

Os Heraclídas e os seus descendentes tentarão, depois disto, cinco expedições sucessivas ao Peloponeso. Mas só a última, já conduzida pelos bisnetos do herói, Témeno, Crestontes e Aristodemo, aliados aos Dórios, saiu vitoriosa. O projecto desta expedição consistia em, tomando a rota marítima a partir de Naupacta, franquear o estreito de Corinto. Acontece que os heróis foram, entretanto, considerados culpados da fuga do assassino de um profeta de Apolo, e o deus, descontente, decidiu destruir a sua frota e castigar a armada com a fome. Perante esta nova situação, os Heraclídas consultaram o oráculo de Delfos. Este revelou-lhes que só entrariam no Peloponeso caso tivessem o Apolo de um guia com três olhos. Os heróis continuaram, então, a viagem e a ceda altura do percurso encontraram óxilo, rei da Élide, cego de um olho e montado sobre um cavalo. Compreenderam, imediatamente, que este era o guia anunciado e, assim, elegeram Oxilo para chefe da expedição.

A partir de então, os combates tornaram-se favoráveis aos descendentes de Héracies, O rei de Argos, Tisémeno, filho de Orestes, pereceu no decur-

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Hércuies


so desta guerra e o Peloponeso, finalmente conquistado, foi repartido, amigavelmente, entre os Heraclidas: Témeno ficou com a ArgóIida, Cresfontes com a Messénia e os filhos de Aristodemo receberam a Lacónia. Quanto a óxilo, recuperou o trono da Úde.

Hércules


O herói grego Héracies entrou na mitologia romana com o nome de Hércules. Na origem, foi muitas vezes confundido com várias divindades rurais, protectoras das famílias e dos animais, tais como Semo Sanco ou Silvano.

A lenda que nos revela a aventura de Hércules ao roubar a manada de Gérion - um monstro com três corpos - na Ibéria, refere-nos que o herói viajou pela Itália e que ao atravessar a Etrúria, exactamente no local do futuro surgimento de Roma, foi convidado pelo rei Evandro a descansar algum tempo. Acontece que, durante a noite, Caco, um gigante com três cabeças, meio-sátiro, meio-homem, filho de Vulcano, que cuspia fogo, lhe roubou alguns animais, escondendo-os nas cavernas do Aventino. Acontece que, de manhã, os touros de Hércules começaram a mugir sofredoramente e, de longe, aqueles que tinham sido roubados responderam-lhes com a mesma torça.

Hércules descobriu, assim, a trapaça de Caco e o esconderijo dos seus animais. Dirigiu-se ao local, retirando as enormes pedras que tapavam a entrada e, apesar das chamas vomitadas por Caco, libertou os animais e matou o seu raptor. O local deste combate, nas margens de Tibre, conservou, a partir de então, o nome de Fórum boaríum: forum dos bois.

O herói realizou ainda, na Itália, um certo número de trabalhos, dos quais podemos destacar a construção de uma estrada na Campânia. Daqui desceu para a Calábria, sempre acompanhado pela manada que teria de entregar a seu primo, Euristeu. Conta-se que, nesta altura, um jovem touro afastou-se dos outros animais e atravessou, a nado, o estreito da Sicília. Mais tarde, afirmou-se que o nome de Itália, na origem reservado ao Bruttium (a ponta da bota) derivava da palavra vítulus, que significava bezerro.

A popularidade deste herói protector e justiceiro fez com que os Romanos o identificassem com o Gênio do homem ("Por Hércules!" é, em Roma,

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Hermafrodito

o juramento viril, por excelência). Juno, a Hera grega, foi identificada com o Gênio feminino.

Hermatrodito

Hermafrodito é fruto dos amores proibidos de Hermes e de Afrodite que, para esconder a sua falta, confiou a criança às ninfas de Ida, na Frigia.

Certo dia, quando Hermafrodito, já um belo adolescente, se banhava num lago, foi visto pela ninfa do local, Sálmacis, que imediatamente se apaixonou por ele e lhe manifestou a sua paixão. O jovem tentou debater-se, mas a ninfa mergulhou-o nas profundezas do seu reino e pediu aos deuses que os unissem, para sempre, num só corpo, dotado de uma dupla natureza. Estes acederam e, assim, surgiu a lenda de Hermafrodito, um jovem dotado de um só corpo, com dois sexos.

Hermes M


Hermes, filho de Zeus e da jovem Piêiade Maia, filha de Atlas, nasceu numa caverna do monte Cilene, na Arcádia, tendo manifestado desde muito cedo uma inteligência e astúcia extraordinárias.

Era ainda um recém-nascido quando, ao cair da noite, abandonou o berço, calçou umas sandálias para que os seus passos não fossem identificados e partiu para a Tessália, dirigindo-se ao monte onde pastavam os bois do rei Admeto, confiados à guarda de Apolo. Habilmente, roubou uma parte dos animais, que conduziu às arrecuas (para evitar ser traído pelas marcas no solo) através de toda a Grécia, acabando por escondê-los numa caverna em Pilo. Depois de tudo isto, regressou ao seu quarto pelo buraco da fechadura e deitou-se no berço.

Mas Hermes esquecera que Apolo era dotado de uma dupla visão e que, devido a esse facto, tomara conhecimento do roubo dos animais, indo reciamá-los junto da criança que, no seu berço, fingiu tudo ignorar Perante esta situação, Apolo resolveu apelar a Zeus que ao tomar conhecimento do caso foi

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Hermes

sacudido por um riso "homérico" pedindo, no entanto, aos seus filhos que se reconciliassem.

Então Hermes pegou num objecto que tinha fabricado no decurso da famosa noite do roubo, a partir de uma concha de tartaruga, de uma pele de boi e de tripas esticadas em forma de cordas e, tocando o instrumento, mara- vilhou Apolo com o seu som harmonioso. A partir de então, este mostrou-se mais inclinado ao perdão e Hermes, muito feliz, ofereceu-lhe a primeira lira da história dos deuses e dos homens. Em troca, Apolo deu-lhe um caiado de ouro, e Hermes tornou-se, assim, no pastor da manada celeste.

Foi, de resto, com a ajuda deste caiado que Hermes separou, um dia, duas serpentes envolvidas em luta. Estas, cessando imediatamente a sua querela, entrelaçaram-se no caiado, dando origem ao famoso "caduceu", símbolo por excelência da paz.

Hermes, astucioso e prestável, gozava de grande simpatia junto dos deuses e dos homens. O seu pai, Zeus, elevou-o à categoria de seu mensageiro oficial e, assim, Hermes tornou-se no seu infatigável agente através do mundo.

Para além disso, ele foi também um precioso auxiliar do rei dos deuses nas suas aventuras amorosas, não hesitando em ludibriar Hera sempre que esta manifestava os seus ressentimentos. Foi ele que adormeceu o gigante Argo, encarregado de vigiar lo, com o som da sua flauta. Foi ele, ainda, quem salvou o pequeno Dioniso, transportando-o para um local seguro, logo após o seu nascimento. Mas a sua disponibilidade sem limites estendeu-se, também, ao serviço de outros imortais, heróis e homens.

No domínio amoroso, Hermes manifestou os seus ardores tanto a mortais como a deusas (Afrodite deu-lhe um filho, o belo Hermafrodito), mas a sua preferência foi, sobretudo, para as ninfas, de quem teve uma numerosa descendência (de que destacamos o deus Pá, como ele nascido na Arcádia).

O nome Hermes, que pode aparentar-se a uma raiz sânscrita que designa a tempestade, parece ter designado um deus do vento. Os Gregos veneram-no como o guia benfeitor de todos os viajantes, incluindo os comerciantes (e diz-se, também, os ladrões). Nesta sua função, e dado que o negócio depende da capacidade de argumentação, Hermes transformou-se no deus da eloquência. Para além disso, era ele, ainda, quem guiava as almas dos mortos através dos Infernos (Psicopompo). Mas ele foi, sobretudo, venerado pelos atletas, na sua qualidade de inventor da corrida a pé e do pugilato,

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Herói


Os Romanos identificaram Hermes com o deus das trocas comerciais, Mercúrio (de mercarÉ fazer comércio). A quarta-feira era o dia de Mercúrio.

Não se deve confundir Hermes-Mercúrio com o deus a que os Gregos chamaram Hermes Trismeg)sto (três vezes muito grande). Este personifica o deus egípcio Thot, inventor das artes, das ciências e da magia. A religião inspirada por esta divindade, o hermetismo, exerceu uma certa influência no cristianismo nascente.

Hermes é uma das divindades cuja representação varia mais frequentemente, e isto deve-se, sobretudo, aos seus diferentes atributos e ao modo como eles são representados. Assim, o Hermes protector dos pastores e dos rebanhos é figurado, habitualmente, transportando um carneiro aos ombros. Quando ele surge na sua qualidade de protector dos viajantes é representado com um rosto barbudo e longos cabelos encaracolados, colocado no topo de uma coluna que, por sua vez, é colocada nas encruzilhadas das estradas. Mas a sua representação mais frequente é a de jovem atleta, imberbe, com cabelos curtos, calçado com umas sandálias aladas e usando quer o chapéu redondo dos viajantes gregos quer o chapéu mais antigo, também guarnecido com asas, Nas suas mãos apresenta o caduceu alado, As representações mais célebres de Hermes, as do séc. iv a. C., são o Hermes de mármore de Praxíteles, carfegando o pequeno Dioniso (museu de Olimpo) e o Hermes de bronze de Lisipo, pronto a saltar ao primeiro sinal de Zeus (Nápoles)

Nerióii


O título de herói atribuído por Homero aos homens de excepção, como Ulisses, implica em Hesíodo, uma fifiação divina: um ser nascido de um deus e de uma morta), um semi-deus, intermediário entre os deuses e os homens.

Na Antiguidade, os heróis que apresentaram este papel activo de mediadores, foram venerados da mesma forma como se veneravam os antepassa-

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Héstia


dos. Mas, contrariamente aos simples mortais, que a morte transformava em sombras sem forma, os heróis conservavam, no além, as suas qualidades físicas e morais. Para eles, Zeus tinha criado um espaço ideal e eterno, na ilha dos Bem-aventurados, que se situava na extremidade do mundo terrestre.

Cada região da Grécia era detentora do seu próprio herói, quer ele tivesse nascido de um casal mortal ou de uma divindade. A lista que se segue apresenta os exemplos mais importantes:

Acaia (Corinto): Belerofonte Arcádia: Atalanta Argólida: Perseu Ática: Teseu Beócia: Édipo Creta: Mínos Etólia: Meleagro Ilhas Jónicas: Ulisses Lacónia: Os Dioscuros (Castor e Pólux) Tessália: Aquiles, Jasão, Piritoo Trácia: Orfeu

Quanto a Héracles, herói da Beócía e da Argótida, é praticamente venerado como herói do Peloponeso e de toda a Grécia.

Héstia

A deusa Héstia ( cujo nome provém da palavra grega que significa logo) personifica o fogo sagrado, à volta do qual se reúne cada família ou cada cidade, assegurando, deste modo, o bem-estar quotidiano e permitindo a todos, através dos sacrifícios, prestar graças aos deuses. Os seus templos apresentam uma forma circular. Em Dellos, considerado o centro do Universo, Héstia era veneradada como a divindade do fogo comum a todos os gregos.



A lenda de Héstia é muito rudimentar na sua formulação, Segundo Hesíodo, ela teria sido a primeira filha de Cronos e de Reia, sendo assim a mais velha dos Olímpicos. Graças a este atributo, Héstia terá direito às primeiras e às últimas libações que se faziam às refeições.

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Hiperíon

A deusa fora devorada por seu pai, à nascença e, mais tarde, restituída à vida graças ao estratagema de Zeus. Em sinal de reconhecimento, Héstia fará o voto, tocando a cabeça do rei dos deuses, de permanecer virgem pela eternidade, apesar das tentativas de sedução de Posídon e de Apolo. Por esta razão, a deusa é invocada nos juramentos como símbolo da fidelidade.

Híperíon

Hiperíon, um dos doze Titãs é, como o seu nome indica, "aquele que se encontra no horizonte". Casado com a sua irmã Teia, também chamada Eurifessa, a mais velha das Titânides, terá três filhos: Hélio - o sol, Mene

- a tua e Eos - a aurora. Por vezes é confundido com o Sol.

A personagem de Hiperíon fascinou o poeta alemão HüIderlin, que lhe dedicou um romance assim como um hino intitulado Hyperíons Schieksalslied (Canto sobre o destino de Hiperíon).

Horas

As divindades que usavam este nome (derivado da palavra grega hôrai que designa os espaços do tempo) viram os seus atributos e o seu número variar, segundo o conceito preciso que se lhes dava: horas ou estações do ano.



A tradição mais corrente apresenta três divindades, filhas de Zeus e de Tétis, deusa da justiça, que presidiam tanto à ordem moral como à ordem da natureza: Eunomia - o respeito pelas leis, Diké - o respeito pela justiça e frene - o respeito pela paz. No Olimpo, as três deusas eram, sempre, nomeadas quando se abriam ou fechavam as portas.

As Horas tiveram o privilégio de velar pela infância de Hera, como suas servas, alimentando os seus cavalos (com ambrosia) e atrelando-os ao seu

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Horas


carro, Mais tarde, elas responderam ao chamamento de Zeus, a fim de assístirem ao nascimento de Hermes e de Dioniso. As Horas figuraram, aínda, no cortejo de Afrodite e foram as principais responsáveis, por ordem de Zeus, pelo fenômeno de embelezamento de Pandora, que provocou a perdição dos humanos.

Veneradas em Atenas, Argos, Olímpia, e especialmente em Corinto, as Horas são representadas como raparigas belas e harmoniosas, de cabelos entrançados presos por um díadema, carregando nas suas mãos a espiga de trigo e a vide.

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Idas, descendente de Perseu, por parte de seu pai, Afareu, rei da Messénia, é designado por Homero como o mais forte e o mais ousado dos mortais. A sua vida é marcada por uma sucessão de acções violentas.



Juntamente com o seu irmão mais velho, Linceu, Idas participou na expedição dos Argonautas. No decorrer da viagem para a Cólquida, quando se encontravam entre os hóspedes do rei dos Mariandinos, um dos companheiros de Jasão, o adivinho Idmon, foi ferido de morte por um javali, no decurso de uma caçada. Idas perseguiu o animal até vingar a sua vítima.

Durante o mesmo périplo, Idas concebeu a ideia de destronar o rei da Mísia, Teutras. Este tinha confiado a defesa da cidade a Télefo (filho de Héracies), que acabara de chegar à Mísia, à procura de sua mãe, refugiada junto de Teutras. Idas, vencido pelo filho de Héracles que mais se parecia com o seu pai, resolveu embarcar de novo.

Mais tarde, Idas será convidado para participar na caçada ao javali de Cálidon, organizada por Meleagro, seu genro, casado com Cleópatra, nascida dos amores de Idas e de Marpessa, filha do rei da Etólia, Eveno. No passado, este rei jurara exterminar todos os pretendentes à mão de sua filha. Assim, desafiava-os para corridas de carros, vencia-os e depois matava-os. Ora Idas, um dos pretendentes, recebera de Posídon um carro alado e com este conduzira a sua bem-amada para longe das atenções de Eveno, que ficara enfurecido e desesperado.

Entretanto, Idas e Marpessa fugiram para a Messénia. Mas acontece que Apolo, também ele apaixonado pela jovem, tentou raptá-la. O que terá acontecido, entretanto, não o sabemos bem. Terá Apolo executado o seu desejo e vivido com Marpessa, durante algum tempo ("sem que ela protestasse", diz

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Idas


uma tradição, de má língua) até que Idas a tivesse reconquistado? Ou pelo contrário, Zeus, vendo Idas e Apolo em guerra, decidira permitir a Marpessa a escolha entre os seus dois pretendentes? Em todo o caso foi Idas quem teve a última palavra e obteve a posse da bela princesa.

Idas, primo de Castor e de Pólux, era filho de Afareu, meio-irmão de Tíndaro, pai "humano" dos Dioscuros. Estes, juntamente com Idas e Linceu, participaram na expedição dos Argonautas e na caçada ao javali de Cálidon. Entretanto, as suas relações tornaram-se movimentadas e trágicas.

Tudo aconteceu quando Castor, Pólux e os seus primos conceberam uma expedição de rapina sobre as manadas da Arcádia. Nessa altura, Idas foi designado para dividir, entre todos, o produto do saque. Então, Idas decidiu matar um dos bois roubados, dividindo-o em quatro partes que distribuiu por cada um dos seus companheiros. Depois anunciou que os dois primeiros que devorassem as suas partes do animal, receberiam, cada um, metade do saque. Ora Idas devorou rapidamente a quarta parte que lhe coube em divisão e, depois, ainda a porção de seu irmão, consagrando-se, assim, como o único senhor de toda a manada.

Acontece que Castor e Pólux não aceitaram a decisão, atacando os seus primos na Messénia e apossando-se dos animais. Depois, embuscaram-se a fim de vigiar a saída dos seus adversários. Mas Linceu, "com olhos de Lince", apercebeu-se da presença de Castor por detrás dos ramos de um carvalho e mostrou-o a Idas que, imediatamente, o matou. Pólux, enfurecido, precipitou-se em sua perseguição, acabando por matar Linceu. Então, Idas lançou uma pedra sobre Pólux, derrubando a seus pés o filho de Zeus. Nesta altura, o rei dos deuses resolveu intervir, fulminando Idas e transportando consigo Pólux.

Uma variante desta lenda apresenta Castor roubando as vitelas de Idas. Linceu, colocado no cimo do monte Taígeto, viu a cena e preveniu o seu irmão, que acaba por matar Castor. Pólux, enfurecido, resolve então atacar os dois irmãos que recuam até ao lugar em que se encontrava o túmulo de seu pai. Um deles pega numa estátua de mármore e projecta-a contra a figura de Pólux, mas o filho de Zeus ainda tem forças para lançar a sua arma ao flanco de Linceu que é abatido. Nesta altura, Zeus concentra a sua fúria em Idas, e o fogo do céu consome o corpo dos dois irmãos.

Uma outra lenda, respeitante também à morte dos primos inimigos, estava ligada à existência das suas primas Hilaíra e Febe, filhas do irmão de

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Idomeneu


Afareu, Leucipo. Os Dioscuros, deslumbrados pela sua beleza, tinham raptado as jovens, quando elas ficaram noivas de Idas e Linceu (ou mesmo no dia do seu casamento). Então Castor e Linceu, os dois mais velhos, envolveram-se num combate singular, sendo Linceu morto por seu primo, exactamente no lugar em que se encontrava o túmulo de Afereu. Idas, que assistia ao duelo, arrancou então uma coluna do monumento e dispunha-se a vingar Linceu, quando Zeus interveio e o fulminou.

O fim do episódio é, por vezes, contado de outro modo. Quando Idas se preparava para sepultar Linceu, morto por Castor, este tentou opor-se ao sepultamento e, assim, o herói foi obrigado a matar Castor. A sua sorte não durou muito tempo, pois Pólux, procurando vingar seu irmão, acabou por matar Idas.

Uma outra versão da lenda faz a síntese entre os diversos episódios do rapto das manadas e do rapto das jovens. Castor e Pólux tinham raptado as suas primas, por quem estavam apaixonados, em virtude de não terem um dote para oferecer a seu pai. Acontece que Idas e Linceu censuraram, duramente, a conduta dos Dioscuros que decidiram então roubar as manadas de seus primos, a fim de as entregar como presente a seu sogro. E assim teria nascido o conflito entre os heróis, marcado pela morte e pelo sangue.

Idomeneu


Idomeneu, rei de Creta (neto de Minos), tinha sido um dos pretendentes à mão de Helena de Esparta e a este título participou na guerra de Tróia, chefiando uma frota de tropas cretenses composta por oitenta navios. Foi um dos chefes que sugeriu bater-se num combate singular contra Heitor, a fim de evitar a guerra de Tróia, mas como a sua proposta falhou, Idomeneu consagrou-se como um dos valorosos combatentes desta guerra. Nos jogos fúnebres celebrados em honra de Aquiles, foi ele o vencedor do concurso de pugilato. Mais tarde, Idomeneu foi também um dos guerreiros que tomou lugar nos flancos do cavalo de Tróia.

A Odisseia afirma que o seu regresso a Creta se desenrolou sem incidentes. Encontramos, no entanto, outras versões bem diferentes. Uma delas refere que a sua frota foi assolada por uma tempestade e que, então, Idomeneu

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Ilitia


fizera um voto de sacrificar a Posídon o primeiro ser vivo que encontrasse, mal pisasse terra firme. Acontece que o primeiro ser vivo que idomeneu vislumbrou ao chegar a Creta, foi um dos seus filhos. Obrigado pelo seu juramento, o rei preparava-se para o executar, quando os deuses, descontentes com este propósito sanguinário e pouco humano, lançaram a peste sobre o país. Então, Idomeneu, a fim de conjurar o flagelo, decidiu exilar-se, acabando por encontrar a morte no sul de Itália.

A ópera de Mozart, Idomeneu, rei de Greta (1781), apresenta o herói, tentando evitar o suplício de seu filho. Mas Posídon, deus do mar, irritado pelo não cumprimento do juramento, decide enviar um monstro que devastará todo o país. Então, a noiva do príncipe, uma princesa troíana, irá oferecer-se em troca do sacrifício do seu bem-amado. Comovidos, os deuses decidem perdoar Idomeneu, libertando-o do seu juramento.

Ilitia

Cada etapa e cada um dos actos da vida humana são protegidos por uma divindade. Ilitia, filha de Zeus e de Hera, preside aos nascimentos. Assim, nenhum ser humano pode vir ao mundo sem a sua presença. Por esta razão, Hera conseguiu, pela influência que exercia sobre a sua ilha, prolongar as dores de Leto e retardar o nascimento de Héracies.



Ilitia é representada ajoelhada, fazendo com uma das mãos um gesto de encorajamento e mostrando, na outra, uma tocha acesa, símbolo da vida.

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Imortalidade

lio


Ilo, filho de Trós, pai da raça troiana, é o fundador da cidade de Tróia que, na origem, teve o nome de ílion.

Tudo aconteceu quando lio ganhou, nos jogos da Frigia, cinquenta escravos de cada sexo. Então decidiu fundar com eles uma cidade. E para o efeito, consultou o oráculo, que o mandou fixar-se no lugar em que determinada vaca, que ele devia seguir, parasse. Isto aconteceu, exactamente, no vale do Escamandro, muito perto da cidade construída sobre o monte Ida pelo seu bisavô Dárdano.

Pouco tempo depois, Ilo recebeu a confirmação de que linha escolhido o bom lugar. Então, ergueu, perante a sua tenda, a estátua divina de Atena, o Paládio, que Zeus precipitara, outrora, sobre a terra. Depois, mandou construir um templo para alojar a estátua, e em seguida invocou a deusa como protectora da nova cidade. No entanto, muito tempo depois, Atena, decepcionada com o veredicto de Páris, favoreceu os Gregos em detrimento dos Troianos.

Ilo é o pai de Laomedonte (pai de Príamo) e de Temiste, a mãe de Anquises (pai de Eneias). Teve, ainda, um irmão, Ganimedes, por quem Zeus se apaixonou, levando-o consigo como escanção para o Olimpo.

Imortalidade

Os deuses da mitologia greco-romana, cuja aparência é idêntica, mesmo nas dimensões, à dos humanos (se nos abstrairmos das suas diversas metamorfoses), cujas paixões e interesses são semelhantes aos dos homens, diferem, essencialmente, destes pela sua natureza imortal. As suas artérias são irrigadas por um líquido mais fluido do que o sangue, o ichor, que, mesmo sob as feridas mais cruéis, conserva os corpos indestrutíveis, assegurando-lhes uma juventude perpétua.

Os manjares da imortalidade, reservados ao uso dos deuses, eram a ambrosia, alimento sólido "nove vezes mais doce do que o mel" e o néctar, deliciosa bebida exclusivamente apreciada em taças de ouro.

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Infernos (Os)

Infernos (Os)

Na Antiguidade admitiu-se, sempre, o princípio da imortalidade da alma, mas a natureza do além e as suas representações multiplicaram-se em variantes, segundo as épocas e segundo os autores.

O outro mundo Para Homero e para Hesíodo, o outro mundo não era senão um lugar de impotência e de resignação. Em compensação, os Trágicos, no séc. v, reconheceram às almas dos mortos uma influência possível sobre o destino dos vivos. Estas eram vistas como verdadeiras divindades (os Romanos veneravam-as sob o nome de manes), a quem se devia prestar culto.

Platão fez uma nova abordagem da problemática das almas, introduzíndo as noções de julgamento e de expiação. Segundo ele, a alma comparecia, após a morte, perante o tribunal dos deuses ou dos seus representantes, Minos, Éaco e Radamante. Nesse momento e em função da vida que tinha levado, era orientada para a direita, a morada luminosa dos justos - onde os mais justos beneficiavam de uma luz ainda mais viva - ou para a esquerda, para o mundo tenebroso dos condenados. Neste lugar de sofrimento, os castigos eram calculados segundo a gravidade das faltas cometidas. Salvo o caso de faltas muito graves, julgadas sem expiação, as penas infligidas eram só temporárias.

Ao fim de mil anos passados nos Infernos, as almas reincarnavam, podendo escolher a sua futura aparência carnal. No entanto, antes de a penetrar, deviam beber água do Letes, o rio do esquecimento. Aquelas que tivessem bebido com moderação, conservavam, na sua nova vida terrestre, uma lembrança das experiências passadas, o que lhes permitia aperfeiçoarem-se por ocasião de cada reíncarnação. Para ajudar os mortais nesta conquista de perfeição e assegurar, a cada um, a felicidade no além, foram instituídos os mistérios.

Nas doutrinas órficas, os Infernos aparecem como morada, necessária, de expiação, entre duas reincarnações, até que a alma, integralmente purificada, pudesse conquistar o céu e viver a sua eternidade entre os deuses. Em compensação, as crenças pitagáricas, fundadas sobre a noção de metempsicose, transmigração das almas de uma espécie para outra, não têm nenhuma necessidade de admitir a existência de Infernos.

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infernos (Os)

Geografia dos Infernos A representação topográfica dos Infernos difere, evidentemente, segundo a concepção que se faz deles. Para Homero é um lugar indiscriminado que se situa quer à superfície quer nas profundezas da terra.

Na Odisseia, onde a terra é concebida como um disco rodeado pelo rio Oceano, o reino das sombras é colocado nas extremidades do círculo, no país dos Cimérios, onde reinam, em permanência, a noite e o nevoeiro, Numerosos heróis vêem-se, assim, transportados, depois da sua morte, para as regiões setentrionais. Para Hesíodo, a última morada dos heróis, a Ilha dos Bem-aventurados, situa-se igualmente nas extremidades do mundo.

Na Ilíada, pelo contrário, a morada dos mortos ou Érebo encontra-se no interior do globo, a meio caminho entre a abóbada celeste, onde reinam os Olímpicos e o Tártaro, onde são fechados os deuses pecadores. Para se chegar lá, existem à superfície da terra numerosos caminhos (cavernas, lagos). Esta morada é apresentada como um local de trevas (sentido da palavra Érebo), onde se entra, passando por uma alameda de salgueiros e de choupos, no fim da qual se encontra o vigilante cão Cérbero, monstro provido com três cabeças. Os rios Aqueronte, Piriflegetonte, Cocito e Estige rodeiam com os seus braços a residência das almas, que vivem aí uma existência fantasmática, triste e diminuída. Entretanto, alguns criminosos notórios, tratados à parte, sofrem sem remissão, súplicas exemplares: Ticio, Tântalo, Sísifo e as Danaides.

A separação, ulteriormente admitida, entre bons e maus conduz a uma topografia dos Infernos que opõe o Tártaro dos criminosos aos campos Elísios dos justos.

Aristófanes nas Rãs, e mais tarde, Luciano, apresentam uma descrição destes lugares, de que os autores não se afastarão muito a partir daP. Segundo eles, as almas deviam atravessar o Aqueronte, onde o horrendo barqueiro Caronte, mediante o preço da passagem, as transportava na sua barca através das águas pantanosas. Ao chegarem ao cais deparavam com uma porta gigantesca, suportada por duas colunas de diamante, guardada pelo cão Cérbero. Daí dirigiam-se para o tribunal, rodeado por uma pradaria de

1 Sobretudo Virgílio, mas também, depois dele, Dante.

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Infernos (Os)

asfódelos. Depois do julgamento, os justos eram reagrupados sobre os relvados floridos que rodeavam o palácio de Hades e de Perséfone e os criminosos eram entregues aos horrores do Tártaro.

Uma terceira categoria de residentes, aqueles que não eram considerados justos nem criminosos, estavam destinados a errar sem destino, numa região intermédia que Virgílio descreverá como sombria e lúgubre. Aí se encontravam algumas crianças mortas com pouca idade, homens injustamente condenados, suicidas, mulheres vítimas do amor e heróis caídos na guerra.

O Inferno segundo Virgílio Os números remetem para as diferentes passagens do livro VI da Eneida (Retirado do Magasin Pittoresque, ano de 1850, p. 4)

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Ino


Ino

Ino, uma das filhas de Cadmo, fundador de Tebas, casara com Átamas, rei da Beócia, que tinha dois filhos, Frixo e Hele, da sua primeira mulher, Néfele (a Nuvem Negra), a quem repudiara. Deste novo casamento nasceram outras duas crianças, Learco e Melicertes. Acontece que Ino, ciumenta dos filhos mais velhos de seu marido, decidiu fazê-los desaparecer.

Para tal, arquitectou o seguinte estratagema: persuadiu os camponeses a queimarem, secrelamente, todos os grãos de trigo que se destinavam à nova sementeira e, assim, quando chegou a altura, os campos mostraram-se vazios. Perante esta situação, Átamas decidiu consultar o oráculo de Delfos. Mas Ino subornou o seu mensageiro que comunicou ao rei que o flagelo imposto só cessaria com o sacrifício dos filhos do seu primeiro casamento.

Átamas dispunha-se a executara sentença quando um carneiro alado (com um velo de ouro), enviado por Zeus (ou presente de Hermes a Néfele), raptou os dois rapazes, transportando-os sobre o seu dorso em direcção ao céu.

Entretanto, Sérnele, irmã de Ino, que Zeus seduzira, sucumbiu, graças aos artifícios de Hera, antes de ter parido o filho deste amor, Dioniso. Mais tarde, Ino e Átamas recolheram a criança e Hera, enfurecida, vingou-se, enlouquecendo o casal real. Átamas, demente, degolou o próprio filho, Learco, e Ino precipitou-se no mar, levando consigo Melicertes.

Mas as Nereides tiveram pena da rainha e conduziram-na para a sua morada, onde Ino, com o nome de Leucótea (a Branca), se tornou uma divindade benfeitora do mar.

Os Romanos veneraram-na sob o nome de MaterMatutae o seu templo, no Fórum, era vizinho do templo de Portuno, nome que foi dado a Melicertes divinizado.

lo

lo, filha de Inaco, o deus-rio da Argólida, era uma bela sacerdotisa de Hera, que exercia as suas funções no templo situado entre Micenas e Tirinto.



Acontece que, um certo dia, Zeus vislumbrou-a e, aprisionado pela chama da paixão, não hesitou em seduzir a serva da sua divina esposa.

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]o

Assim, no decurso de um sonho, lo escutou uma voz que lhe ordenava que se dirigisse para as margens do lago de Lema, e que se abandonasse ao desejo de Zeus. A jovem consultou, então, o seu pai, que interrogou o oráculo de Delfos, mas este confirmou a ordem do sonho. E lo obedeceu.

Entretanto, Zeus, a fim de alcançar os seus fins sem despertar as suspeitas de Hera, apareceu com o aspecto de uma nuvem; mas a deusa percebeu o mistério, e assim o rei dos deuses foi obrigado a transformar lo numa bezerra. Então Hera fingiu ver no animal um presente de seu marido e, deste modo, Zeus não ousou recusar-lhe a bezerra. Hera confiou-a, então, à guarda do monstruoso gigante Argo, dotado de cem olhos (dos quais metade estavam sempre abertos) e lo foi, assim, vigiada noite e dia, até que Hermes, seguindo as instruções de seu pai, apareceu, transformado num pastor, e adormeceu simultaneamente os cem olhos com o som da sua flauta mágica. Depois cortou a cabeça do vigilante demasiado zeloso.

Hera recompensará, mais tarde, o seu fiel apoiante, recolhendo os seus olhos que colocará sobre as plumas do seu animal preferido, o pavão. Quanto a lo, que não tinha, entretanto, retomado a sua forma humana, foi incomodada até à loucura por um moscardo, que Hera lançou sobre ela.

Entontecida pelas picadas incessantes, lo percorreu terra e mar. Reen- @ontrou Prometeu preso ao seu rochedo no Cáucaso, passou o Bósforo, a Asia Menor, depois a Fenícia e, finalmente, o Egipto, onde nas margens do Nilo, Zeus a esperava. Com meiguice, o rei dos deuses divulgou-lhe a sua natureza e lo pôde, então, dar à luz um filho, "o filho do tacto", Épato.

Informada do acontecimento, Hera decidiu prosseguir a sua vingança, encarregando os Curetes, sacerdotes do culto de Reia, de fazer desaparecer o recém-nascido. Estes roubaram a criança, mas Zeus apareceu e fulminou-os antes que algo de irremediável tivesse acontecido.

E, uma vez mais, lo percorreu o mundo à procura de seu filho, indo encontrá-lo na Síria. Daí regressou ao Egipto, onde se tornará a esposa do rei Telégono. À sua morte, Zeus transformou-a em constelação.

lo é, frequentemente, identificada com a deusa ísis (ela mesma confundida com a deusa-vaca Hathor), enquanto que seu filho, Épafo -fundador de Mênfis - é, por sua vez, confundido com o deus-boi, Ápis, sendo-lhes prestadas honras divinas.

lo está na origem de várias genealogias principescas. Mas, para além disso, Dioniso, uma das divindades mais populares da religião grega e Perseu

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í0 + Zeus

Niío


Épaf o (Egipto)

mênfis


Líbia + Posídon

Belo


1 Dáriao (Argos)

Hipermestra

Abas

Acrísio


Dánae + Zeus

Perseu


1 Eléctrion

+ Zeus


Héracies

Agenor (Fenícia)

Europa + Zeus Cadmo (Tebas)

Ivimos kCreta) Sérriele + Zeus

Dioniso

Iolau


e Héracles, dois dos mais prestigiados heróis da mitologia, figuram na sua descendência.

"A história de lo" é uma das mais célebres entre as lendas gregas, dando por isso origem a muitas obras de arte (quadros de Corrège (Viena), de Tintoreto (Modena), de Velásquez (Madrid), Rubens (Dresden, Madrid), Jordaens (Lião, Leninegrado) ... ; tragédia lírica de Luily (1677), intitulada ísis, mas consagrada aos amores de lo e do rei dos deuses. Para além disso, lo tornou-se um precioso auxiliar dos autores das palavras cruzadas. (Recordemos uma das boas definições propostas: "Senhora. do coração tornada Senhora do trevo".)

Iolau H~

lolau é filho de íficies, o irmão de Héracies. Desde muito cedo, o jovem demonstrou uma afeição e uma admiração sem limites por seu tio, a ponto de se ter tornado no seu companheiro inseparável ao longo da sua dramática existência. Assim, ajudou-o a vencer a Hidra de Lerna, a capturar os bois de Gérion, a procurar as maçãs das Hespérides, a capturar o cão Cérbero e esteve, ainda, presente na expedição punitiva contra Laomedonte. Nos Jogos Olímpicos instituídos por Héracies, lolau foi o vencedor, conduzindo o carro do herói. Para além disso, ele esteve, também, presente para o último sacrifício de Héracies, no cimo do monte Eta.

Depois da morte de seu tio, lolau transferiu a sua solicitude para os filhos que este deixara, conduzindo grande número deles para a Sardenha, onde fundou, em proveito destes, várias cidades.

Ao atingir a velhice, lolau secundou, ainda, as acções dos filhos de Héracles contra Euristeu, graças a Hebe (esposa divina de seu tio) que lhe permitiu retomar o ardor da juventude, durante um certo tempo. Aproveitando a graça divina, lolau matou com as suas próprias mãos o terrível primo de Argos, artesão de tantas dores.

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íris


1 Iris

íris, filha de Taumas e da Oceânide Electra, é irmã das Harpias. Os Gregos e os Romanos, que a identificaram com o arco no céu, transformaram-na no símbolo do contacto entre o céu e aterra, íris representa, junto dos deuses e dos homens, o papel de mensageira dos imortais, emissária das vontades de Zeus e, mais frequentemente ainda, de Hera, de quem é a serva fiei, banhando-a, embelezando-a e passando as noites sem dormir junto ao seu trono. Ela representa, igualmente, os palafreneiros do Olimpo, ajudando os deuses a desatrelar as suas montadas, quando,regressam das expedições, ocupando-se dos seus ginetes e alimentando-os.

Uma certa tradição apresenta-a como esposa de Zéf i ro, o vento.

íris é representada, tal como Hermes, com sandálias aladas e com o caduceu. Uma écharpe de muitas cores (o arco do céu) prolonga as suas asas de ouro.

ísis

A deusa egípcia ísis foi objecto de um tal fervor na antiguidade greco-romana a partir do séc. iv a. C., e sobretudo nos primeiros séculos da era cristã, a partir do reinado de Calígula, que a maior parte das divindades femininas do panteão greco-romano (sobretudo Deméter, Hera, Afrodite) se identificaram com ela.



Casada com seu irmão, Osíris, deus fecundante e civilizador, ísis foi vítima da inveja do seu outro irmão, Set, deus da sombra e do deserto, que matou e decepou o seu marido, atirando depois os bocados do seu corpo desmembrado ao Nilo.

A " busca de Osíris" que representa a minuciosa e apaixonada viagem de ísís por todo o Egipto, a fim de encontrar os vários bocados do corpo de seu marido, para com eles voltar a reconstituir o seu corpo, fez com que a deusa fosse identificada com Deméter, que também correra o mundo, procurando a

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W10


sua filha, prisioneira dos Infernos. Osíris, por sua vez, foi identificado com Dioniso, o deus ressuscitado.

No Império, os Romanos instituíram em honra da deusa, os Mistérios de ísis, reconhecendo-a como soberana tutelar da terra, do mar e do reino dos

-na, ainda, na sua qualidade de Grande Mágica (que tinha mortos. Veneravam dado à luz um filho, o deus celeste Hórus, gerado "milagrosamente" quando do reencontro da deusa com a múmia de seu marido), com capacidades para transformar, igualmente, os seres e os elementos da natureza.

A ísis greco-romana é representada com um fato de linho característico das Deusas-Mães e com uma capa de franjas, atada sobre o peito. Na mão direita apresenta o sistro, espécie de matraca destinada a marcar o ritmo das cerimónias rituais e, na mão esquerda, a sítula, pequeno cântaro contendo a água sagrada.

Iffio

lúio é o nome dado pelos Romanos a Ascânio, filho de Eneias e de Creúsa. À morte de seu pai, coube-lhe a tarefa de terminar a guerra contra os Rútulos e os seus aliados. Ascânio, chefiando um exército composto por latinos e troianos, alcançou a vitória, sendo chamado "o pequeno Júpiter": Julius.



IúIo-Ascânio fundou, depois, a cidade de Alba. À sua morte sucedeu-lhe no trono o seu meio-irmão, Sílvio, filho póstumo de Eneias cuja mãe, Lavínia, segunda esposa do herói, era filha do rei Latino.

A "raça" lulia, ilustrada por César e depois por Augusto, era apresentada como remontando a JúJo. Por isso, o jovem Eros (cujo nome latino é Cupido), filho de Vénus-Afrodite, mãe de Eneias, figura aos pés da célebre estátua de Augusto conservada no Vaticano.

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Mon


IXíOn

Mon, príncipe tessaliano de origens incertas (uma tradição apresenta-o como filho de Ares) é o rei do povo Lápita.

Quando Mon pediu a mão de Dia, filha do rei Dioneu, prometeu a seu sogro, como dote, presentes sumptuosos, mas após o casamento, não só recusou cumprir a sua promessa, como ousou atirar o seu sogro para uma fossa cheia de carvões ardentes, onde ele foi queimado vivo.

Este duplo crime pareceu de tal modo inexpiável, que ninguém aceitou receber lxíon para um exílio reparador. Perante esta situação, Zeus teve piedade do "pecador" e purificou-o, convidando-o mesmo para a sua mesa, onde lhe deu a provar a ambrosia.

Acontece que Mon, julgando-se capaz de tudo, começou a ambicionar e solicitar as boas graças de Hera. Zeus, a fim de ver até onde iria o imprudente, fabricou uma nuvem com a forma de Hera. Mon, caindo na armadilha, fecundou-a e desta união nasceu Centauro, o pai dos Centauros.

Então Zeus decidiu castigar solenemente o sacrílego. Prendeu lxíon a uma roda que girava sem cessar e projectou-a no espaço. Acontece que, como a ambrosia tinha conferido a imortalidade a Mon, ele sofreu este suplício terrível pela eternidade (certos autores situam este suplício no Tártaro).

Da união com a sua esposa Dia, lxíon teve um filho, Pirítoo, que estará na origem de um encontro sangrento entre os Lápitas e os Centauros. Entretanto, Homero dá a paternidade de Pirítoo ao próprio Zeus que, para enganar Dia, a teria abordado sob a forma de um cavalo.

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Jano

Jano, divindade exclusivamente romana, é o deus do início de todas as coisas. Ovídio identifica-o ao Caos primordial, dado o carácter indistinto que o seu duplo aspecto relembraria.

O seu nome provém da mesma raiz que diás, evocando assim o dia luminoso. Com efeito, para os romanos, Jano é sobretudo um deus solar, que estaria na origem de toda a vida, presidindo ao acordar de cada dia. Por isso, ele será colocado à cabeça de todas as iniciativas e de todos os empreendimentos. O primeiro mês do ano, Janeiro, é-lhe consagrado, assim como o primeiro dia de cada mês. Nas cerimônias, Jano figura sempre presidindo a todos os deuses, incluindo Júpiter. A ninfa Juturna é apresentada, por vezes, como a sua esposa.

Uma das suas atribuições mais populares é a de protector das chegadas e das partidas. Jano foi ainda o deus das portas, por excelência, quer se trate das portas das casas como das portas das cidades. As suas duas faces permitiam-lhe controlar o interior e o exterior. Para além disso, ele velava também sobre todas as vias de comunicação, terrestres, fluviais e marítimas. Adorado como protector dos portos, é-lhe por vezes atribuída a invenção da navegação e das trocas comerciais. As primeiras moedas romanas apresentavam na face a efígie barbuda de Jano e, no reverso, uma proa de navio.

O templo dedicado a Jano no Fórum, em acção de graças pelo prodígio que o deus realizara em favor dos Romanos, quando estes foram atacados pelos sabinos de Tácio (Jano fizera brotar uma fonte de água quente que queimara os assaltantes), ficava aberto em tempo de guerra, permitindo assim que o deus pudesse intervir, em caso de necessidade, socorrendo os

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Jápeto

seus fiéis. Raramente foi fechado (uma vez com Numa e três vezes com Augusto).

A colina romana do Janúnculo, na margem direita do Tibre, era consagrada a Jano.

Jãpeto ffim

Jápeto, um dos doze Titãs, casou-se com a ninfa Clímene (ou Ásia; Ésquilo diz: a sua irmã Témis), filha de seu irmão, Oceano. Desta união nasceram quatro filhos: Atlas e Menécio, punidos por Zeus por terem ajudado os Titãs na sua resistência e Epimeteu e Prometeu, que tiveram um papel capital na história mítica do gênero humano.

Entre os Gregos irreverentes, o nome de Jápeto assumia o sentido de velho impertinente.

Jasão

Jasão, nascido em loico (futura Tessália), é filho do rei Éson, descendente de Deucalião. Segundo certas tradições, ele é primo, por parte de sua mãe, de Ulisses.



Éson perdeu o seu reino devido às investidas violentas de seu meio-irmão Pélias, filho de Posídon. Assim, quando Jasão terminou os seus estudos junto do célebre centauro Quiron, decidiu ir reinvindicar a herança paterna.

No caminho, ao atravessar uma ribeira, perdeu uma das suas sandálias e foi assim, com um pé calçado e outro descalço, que se apresentou ao rei. Ao vê-lo, Pélias recordou-se entretanto de um oráculo que lhe recomendara que desconfiasse de um homem que se lhe apresentasse com um único saPato. O rei escutou, no entanto, Jasão e propôs-lhe um contrato. Prometia dar-lhe o seu trono se ele lhe trouxesse o Veio de Ouro, aquele Velo de Ouro que pertencera ao carneiro sagrado que tinha salvo o jovem príncipe Frixo da sorte cruel a que tinha sido votado pelo rei da Beócia. Consagrado desde

Jasão

então a Ares, o Velo de Ouro era guardado por um dragão, que pertencia ao rei da Cólquida, Eetes.



Jasão decidiu aceitar o desafio, partindo imediatamente para a Cólquida, que alcançou atravessando o mar Egeu e o Ponto-Euxino. Esta façanha foi conseguida graças à ajuda de um filho de Frixo, Argo, que, inspirado por Atena, lhe construiu um fabuloso navio com velas e remos, cujo nome imortalizará o seu: Argo, ou seja, o Rápido. A m.adeira foi retirada das florestas de Pélion, com excepção da peça da proa, que foi talhada num bocado do carvalho sagrado de Dodona, dotado como ele de palavra e da dupla visão (o equivalente de um radar, capaz de detectar os escolhos).

A expedição dos Argonautas Como o navio Argo tinha sido concebido para ser conduzido por cinquenta remadores, Jasão fez anunciar através de toda a Grécia, o aviso da sua expedição, obtendo,>assim o concurso dos cinquenta mais valentes aventureiros da sua geração. Entre eles podemos citar, para além do próprio Jasão e de Argo, Etálido, filho de Hermes, arauto da expedição, os Dioscuros Castor e Pólux e os seus primos, Idas e Linceu, Héracies e o seu favorito Hilas, o seu irmão íficles e o filho deste, o pequeno lolau, os filhos de Éaco, Peleu e Téiamon, Laertes, pai de Ulisses, Oileu, futuro pai de Ájax, Admeto, primo de Jasão e genro de Pélias, Meleagro e Atalanta, a única mulher admitida a bordo e Orfeu, o poeta-músico encarregado de marcar a cadência dos remadores. À partida, o navio foi pilotado pelo beócio Tifis que Atena tinha especialmente iniciado na arte de navegar em pleno mar. Vários adivinhos fizeram parte da equipagem, mas o mais célebre foi Idmon (o Vidente), que previu a sua própria morte. Todos profetizaram o fim feliz da aventura, a primeira expedição marítima dos Gregos, anterior à guerra de Tróia (séc. xiii a. C.).

Partindo da ilha Magnésia, o navio fez, sucessivamente, escala em Lemnos habitada somente por mulheres, que anteriormente tinham massacrado todos os homens; os Argonautas privaram com elas e quando partiram deixaram-nas grávidas - na Samotrácia, atravessando depois o Helesponto, para ancorar na ilha de Cízico, onde receberam um caloroso acolhimento. Passado algum tempo deixaram a ilha, mas foram apanhados por uma tempestade que os atirou, de novo, sobre o território de Cízico. Os habitantes, não imaginando que se tratava dos seus hóspedes, mas antes de piratas, pegaram em armas. O confronto foi sangrento e o rei de Cízico foi morto pelo próprio

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Jasão

Jasão. De manhã cedo, os combatentes dos dois lados aperceberam-se do engano e lamentaram-se, pedindo desculpas recíprocas. Jasão organizou funerais solenes e jogos fúnebres para o rei e ergueu uma estátua a Cíbele, mãe dos deuses.

De Cízico, o navio dirigiu-se para a costa da Mísia. Héracies, que entretanto tinha partido o seu remo, aproveitou para ir talhar um outro remo na floresta.

O seu jovem amigo Hilas - filho do rei dos Dríopes (que ele tinha matado há algum tempo) - por quem estava apaixonado, foi encarregado de ir buscar água a uma fonte. Acontece que as ninfas, subjugadas pela beleza do jovem, o arrastaram para as águas, fazendo-o desaparecer. Héracles correu a ilha à sua procura. Mas os Argonautas, que desejavam destituir o seu "rei", foram convencidos (por intervenção de Télefo que era, sem saber, filho de Héracles) a levantar âncora, antes que o herói tivesse tomado o seu lugar a bordo.

A expedição parou, seguidamente, na Bitínia, onde o rei, o famoso gigante Amico, desafiou um dos campeões gregos para o boxe. Pólux apresentou-se e venceu-o. Após este combate singular, os aventureiros dirigiram-se para o Bósforo, mas uma nova tempestade obrigou-os a fundear na Trácia, onde residia o adivinho Fineu, que estes decidiram consultar. Fineu prometeu

O péripio dos Argonautas

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Jasão


ajudá-los, caso eles o libertassem das Harpias, que o atormentavam sem cessar. Dois dos filhos de Boreu, que faziam parte da expedição, encarregaram-se de submeter as Harpias e Fineu, como recompensa, preveniu-os contra o perigo das rochas negras, umas rochas flutuantes que esmagavam os navios. Assim, quando os aventureiros alcançaram a zona onde estas rochas se encontravam, largaram um pombo, como Fineu lhes aconselhara. As rochas fecharam-se imediatamente sobre o pássaro, mas não conseguiram tirar-(he senão algumas plumas. O navio esperou que as rochas se afastassem de novo e então passou, saindo ileso e salvo desta prova. As rochas negras perderam, entretanto, a sua propriedade de movimento. Os Argonautas penetraram no Ponto-Euxino e desembarcaram no país dos Mariandinos. Aí pereceram dois dos seus: o adivinho ldmon, no decurso de uma caçada e o piloto Tífis, de doença, sendo substituído por Anceu, filho do rei da Arcádia, Licurgo, e primo de Atalanta.

Tomando o mar para norte, o navio alcançou o Cáucaso e atracou na embocadura do rio Faso, no país da Cólquida, fim da expedição.

Entretanto em terra, Jasão dirigiu-se à corte de Eetes, dando-lhe conhecimento da missão imposta por Pélias, mas o rei subordinou a sua resposta a uma nova série de provas. Jasão deveria submeter, sozinho, dois touros seivagens com cascos de bronze, cujos narizes cuspiam fogo. Depois teria de lavrar um campo de um hectare com esta equipagem, tudo isto no mesmo dia. Entretanto, Eetes entregou-lhe um certo número de dentes do dragão de Cadmo, que o herói tebano não tinha utilizado e que tinham sido confiados a Eetes, por Atena. Jasão deveria semeá-los nos sítios traçados e só então Eetes lhe entregaria o Veio de Ouro. Para ultrapassar estas novas provas, Jasão irá beneficiar da ajuda muito preciosa da própria filha do rei, Medeia, que, como a sua lia Circe (irmã de Eetes), praticava a magia. Esta apaixonara-se pelo herói, prometendo-lhe colocar os seus poderes ao seu serviço se ele jurasse tomá-la como esposa. Graças a este Apolo, Jasão cumpriu as provas impostas por Eetes, prevenindo-se contra os gigantes armados que nasceram dos dentes do dragão. Como outrora fizera Cadmo, ele atirou uma pedra para o meio dos Gigantes, espalhando o pânico entre estes, que acabaram por se matar uns aos outros.

Mas quando Jasão se apresentou para receber o prêmio de tantas provas, Eetes não só lho recusou como tentou matar os Argonautas e incendiar o seu navio. Jasão e Medeia decidiram, então, agir sem perder tempo. A mágica

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Jasão


adormeceu o dragão que guardava o Ve)o, e o herói apoderou-se do troféu. Depois juntaram-se aos seus companheiros e correram para o navio. Para retardar a perseguição inevitável de Eetes, Medeia, que tinha raptado o seu jovem irmão, matou-o, cortou o seu corpo em bocados e dispersou-os ao longo da estrada, O rei perdeu tempo a reuní-los e, assim, o navio Argo pôde, sem obstáculos, alcançar o mar alto (uma tradição refere mesmo a morte de Eetes, aos golpes de Meleagro).

A expedição dirigiu-se então para Oeste, chegando à embocadura do Danúbio. Mas o surgimento de uma tempestade furiosa pôs o navio em perigo. É então que a proa do Argo começa a falar: Zeus, revela ela, estava irritado com o crime de Medeia e a cólera divina não teria fim, a não ser que a assassina e os seus companheiros conseguissem ser purificados por Circe. O navio tomou então o curso do Erídano (o Pó) e do Ródano, descendo em direcção ao Mediterrâneo. Contornou, em seguida, a Córsega e a Sardenha, e chegou à península italiana, à Campânia, onde ficava o reino de Circe. Esta aceitou purificar os culpados e a expedição prosseguiu o seu rumo.

O navio resistiu ainda à sedução das Sereias, graças a Orfeu, o cantor divino, cuía voz se revelou mais sedutora do que a das jovens. Tendo evitado Caríbdís e Cila, o navio chegou finalmente a Corcira, o país dos Feaces. Acontece que Eetes tinha enviado para este local um destacamento militar, a fim de prender Medeia. Assim, ao aportarem, o chefe da expedição solicitou a Aicínoo que lhe entregasse a jovem, mas este recusou, dizendo que ela casara entretanto com Jasão.

Após este acontecimento, o navio regressou ao mar, mas uma nova tempestade desviou-o para sul, na direcção da Líbía. Então, os seus ocupantes transportaram-no pelas costas até ao lago Tritono, onde receberam a ajuda do deus Tritão, graças ao qual puderam alcançar de novo o alto mar.

Passado algum tempo vislumbraram Creta, onde se encontrava o gigante Talo, que matava todos os estrangeiros que desembarcavam. Mais uma vez Medeia interveio a favor dos Gregos, seduzindo o monstro com os seus encantos. Os Argonautas puderam assim ancorar na ilha, onde construíram um santuário a Atena.

Após algum tempo retomaram a viagem, mas subitamente foram envo)vidos por uma noite de breu. Jasão implorou então a Apolo que, raiando o céu Com um traço de fogo, lhes mostrou uma ilha próxima, a ilha das Espórades, Onde eles fizeram escala, aproveitando para construir uma estátua ao deus do sol,

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Jasão


A viagem prosseguiu em direcção a Egina, passando depois pela ilha de Eubeia onde o navio costeou. Finalmente, os navegantes puderam rever o céu da sua pátria.

Seguimento das aventuras de Jasão

Fetíz quem, como Ulisses, fez uma boa viagem Ou como aquele que conquistou o velo E depois regressou, cheio de experiência e de razão, para viver entro os seus familiares o resto da sua vida

A despeito das palavras de Du Bellay, as aventuras de Jasão não se passaram desta forma tão serena. Na sua ausência do reino, Pélias levou Éson, pai de Jasão, ao suicídio'. A sua mãe morreu, entretanto, de dor. E quando Jasão chegou, trazendo o velo de ouro, o rei recusou ceder-lhe o seu trono.

Então, Medeia, enquanto o seu marido se encontrava em Corinto para dar graças ao deus do mar e consagrar-lhe o seu navio, puniu o perjuro, conseguindo que ele morresse às mãos das suas próprias filhas. Acasto, filho de Pélías, apoderou-se do trono, organizando solenidades fúnebres em honra de seu pai. Depois, proclamou a expulsão de Medeia e de Jasão.

Medeia reencontrou Jasão em Corinto e os dois viveram felizes durante dez anos. Jasão foi convidado por Meleagro, a tomar parte, juntamente com todos os heróis da época, entre eles um certo número de Argonautas, na dramática caçada do Calídon.

Mas com o tempo, Jasão cansou-se de Medeia. I ncitado por Creontel, rei de Corinto, a desposar a sua filha Creúsa, o herói acaba por repudiar a mágica, Então, Medeia, depois de ter chamado os deuses a testemunhar esta traição, arquitectou a sua vingança. Para o efeito, enviou à sua rival um vestido de casamento que mal fosse vestido, incendiaria o corpo da jovem, lançando em seguida o fogo ao palácio e aos seus habitantes. Enquanto isto se passava na corte de Corinto, Medeia degolou os próprios filhos que tivera com Jasão. Depois deixou o país e refugiou-se em Atenas, na corte do rei Egeu.

Pela sua parte, Jasão não conseguirá nunca esquecer lolco, decidindo regressar ao reino de seu pai, na companhia de valorosos companheiros,

Ovídio, pelo contário, relata que Éson fora rejuvenescido por Medeia. Homónimo do rei de Tebas, irmão de Jocasta.

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Juno

entre os quais se destacarão os Dioscuros e, igualmente, Peleu. A sua armada saqueou a cidade, Peleu matou Acasto e Jasão instalou-se, finalmente, no trono que pertencera a seu pai. Tessalo, o único dos seus filhos que escapara ao massacre de Medeia, dará o seu nome à Tessália.

Juno

A deusa Juno, divindade itálica da luz, era particularmente adorada pelas mulheres, que invocavam, cada uma delas, a sua própria "luz" (princípio feminino).



A cada um dos atributos da deusa correspondia um adjectivo. Assim, Juno Lucina, representada com uma criança nos braços, presidia aos partos. Juno Monetal era a conselheira das famílias e de todo o povo (recordemos que foram os gansos sagrados de Juno que alertaram para a irrupção dos Gauleses, sob os muros do Capitólio). Juno Sospita, armada com a lança e o escudo, é a protectora das cidades (de Cartago, por exemplo - de que Eneu será vítima - assim como de Roma). Juno Regina, irmã e esposa de Júpiter, usando o ceptro e a pátera ritual constituiu, na companhia de seu marido e de Minerva, a tríade divina venerada tanto em Roma como em todo o Império no maior templo do Capitólio.

O mês de Junho era consagrado a Juno. Os Romanos, pouco dotados para imaginar aventuras românticas para os seus deuses, identificaram Juno com a deusa grega Hera.

Juno foi, sem dúvida, uma das divindades preferidas pelos pintores. Entre as suas representações mais célebres citemos: Juno despejando os seus tesouros sobre Veneza, de Veronese (Bruxelas), Juno e íris, de Natoire (Louvre), Júpíter e Juno de A. Coypel (Rennes), lxíon traído por Juno de Rubens (Louvre), Juno criando a Via láctea, de

1 A palavra moeda deriva do facto de o atelier de cunhar moedas, dos romanos, estar instalado nas dependências do santuário.

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Júpiter


Rubens (Madrid) ou de Tintoreto (Londres) e A Cólera de Juno, de Jordaens (Besançon).

Júpiter


Júpiter representa para os Romanos aquilo que Zeus representara para os Gregos. A raiz dos dois nomes é, aliás, idêntica, evocando a luz celeste: Júpiter é Zeus Pater (aproximado, igualmente, do Dyaus Pitar dos Hindus). A identificação entre os dois deuses, feita sem dúvida por intermédio dos Etruscos, é visível nos atributos e nas lendas.

Júpiter é adorado sob diversos nomes, muito embora prevalecesse aquele que se referia, particularmente, ao deus todo-poderoso que dominava a tríade capitolina (Júpiter-Juno, a sua mulher-Minerva, a sua filha), o de Optimus Maximus, epíteto que será retomado pelo Deus dos Cristãos.

A quinta-feira é o dia consagrado a Júpiter (Jovis dies).

A representação de Júpiter (Zeus) cobre toda a história da arte. Para além das numerosas pinturas e vasos, salientamos as estátuas majestosas dos museus do Vaticano, do Louvre, de Nápoles, o Júpiterbrandíndo o raio do Vaticano, do Capitólio, do Louvre, de Nápoles, de Dresden.... e as múltiplas obras inspiradas nos pintores de cavalete, mostrando Júpiter (Zeus) em todos os detalhes da sua vida: as suas aventuras, os seus amores, o seu nascimento (Julles Romain, em Londres), a sua infância (vd. artigo Amalteia), fuiminando os Gigantes (J. Romain em Mântua), os seus vícios (Veronese, no Louvre), Júpiter e Juno (A. Carrache, Roma, galeria Farnèse), Júpíter e Tétis (Ingres, Aix-en-Provence), Júpiter e Mercúrio junto de Filémon e Báucis (cf. artigo de Filérnon), as aventuras com Antíope, Dánae, Europa, lo, Leda (cf. artigos respectivos), Júpiter dando a Veneza o Império do mundo (Tintoreto, palácio dos Doges), Um ballet de Jacques Ibert intitulado Os amores de Júpiter (1946) evoca quatro das suas metamorfoses, segundo Ovídio, com Europa, Leda, Dánae e Ganimedes.

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Upitas


Os Lápitas foram um povo da Tessália que teve como antepassado o deus-rio Peneu. A filha deste, seduzida por Apolo, irádaràiuz urrifilho, Lápitas, fundador desta nova raça.

O povo lápita figura num certo número de lendas, muito embora possamos destacar o episódio, muitas vezes representado, que apresenta os Lápitas em oposição aos Centauros. O herói Pirítoo convidou para a sua boda os seus meio-irmãos, os Centauros. Acontece que estes, tendo bebido mais do que a conta, tentaram violar as mulheres presentes e, sobretudo, a noiva. Como consequência deste acto, os Lápitas e os Centauros envolveram-se numa luta sangrenta que se saldou pela vitória dos Lápitas e pela expulsão dos Centauros da Tessália.

Lares

O nome lares, derivado do etrusco - onde designa o chefe ou o príncipe - é atribuído, entre os Romanos, às antigas divindades que guardavam os recintos. Ovídio apresenta-os como os filhos de Mercúrio, mas não lhes é dedicada nenhuma mitologia particular.



Cada casa honra o seu próprio Lar familiar, símbolo da habitação, com flores e sacrifícios, Lares constitui juntamente com os dois Penates uma trilogia de deuses domésticos subordinados a Vesta. Cada instituição pública venera igualmente o seu lar protector (cidade, exército, marinha...

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Larvas

Os Lares são representados, sobretudo nos santuários domésticos, com o aspecto de adolescentes com cabelos encaracolados, cobertos com uma túnica e coturnos, transportando nas suas mãos um ritão (ou um corno da abundância) e uma pátera.

larvas

No que concerne às almas dos mortos, temíveis na Antiguidade, os Romanos opunham os Manes que são, em princípio, espíritos benfeitores (o adjectivo arcaico manus significa bom), às larvas, almas vingativas dos seres desaparecidos por morte violenta.



Rómulo instituíra, no passado, a festa dos Remuria, para apaziguar a alma de seu irmão Remo, assassinado. Mas a palavra transformou-se, por alteração do R inicial em L e os espíritos atormentadores dos vivos passaram a ser, igualmente, nomeados lémures (confundindo-se larvasAérnures).

Para alcançar a simpatia dos mortos e conjurar os malefícios que eles poderiam provocar, praticavam-se cerimônias e ritos complicados.

Leda

Leda era uma princesa, filha do rei da Etólia, Téstio (que por sua vez era filho de Ares).



Quando o príncipe espartano Tíndaro foi expulso do seu reino pelo seu meio-irmão Hipocoonte, que queria governar sozinho, refugiou-se em Cálidon, junto de Téstio. Este ofereceu-lhe Leda em casamento.

Entretanto, Héracles, não podendo suportar a violência de Hipocoonte e dos seus doze filhos, declarou-lhes guerra e venceu-os. Depois, reconduziu Tíndaro, acompanhado de Leda, no trono de Esparta.

O casal terá, entretanto, duas filhas, Timandra e Filonoé. Mas entre os dois nascimentos houve um episódio que veio alterar, para sempre, a vida do casal.

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Leda

Tíndaro, quando oferecia certo dia um sacrifício aos deuses do Olimpo, esqueceu-se de Afrodite. A deusa do amor, ofendida, resolveu vingar-se com as suas próprias armas, primeiro sobre a esposa de Tíndaro e depois sobre a sua descendência.

E, assim, quando um dia Leda se banhava no Eurotas, viu aproximar-se um cisne que fugia de uma águia. A águia era Afrodite e o cisne era Zeus que a deusa enviara junto de Leda e que, sob este disfarce, não suscitara nenhuma desconfiança. Leda acolheu o cisne nos seus braços e ele cobriu-a de carícias.

No decurso da noite que se seguiu, a rainha deitou-se com seu marido e fizeram amor. As crianças que nasceram desta dupla gravidez manifestaram-se sob uma aparência singular. Leda chocou dois ovos que continham, cada um deles, dois ocupantes de sexos diferentes: um, Pólux e Helena (filhos de Zeus), o outro, Castor e Clitemnestra (filhos de Tíndaro).

Certos autores propõem uma outra repartição no interior dos ovos, avançando que Castor e Pólux estavam reunidos no mesmo ovo. Qualquer que seja a solução, os gêmeos receberam o nome de Dioscuros, derivado de duas palavras gregas que significam: os filhos de Zeus. Afrodite, fiei ao seu ressentimento, transformou-os, quer a um, quer a outro, em seres perfeitamente enlouquecidos pela chama do amor.

Quanto a Helena e Cliternnestra, estas irão ser, por sua vez, as principais vítimas da vingativa deusa, arrastando não só a sua família mas também os seus próximos e o conjunto do mundo grego, para os dramas mais sangrentos.

A aventura de Leda com o cisne é uma das histórias mais frequentemente citadas desde a Antiguidade. Ela deu origem a muitas representações figuradas: Leonardo da Vinci (conhecido pelas cópias, pois o original perdeu-se), Le Corrège (Berlim), Tintoreto (Florença), Veronese (Dijon), Largiliière (Madrid), Boucher (Estocolmo); estátuas de Falconet (Louvre) e de Mailloi (1900).

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Leto

Leto


Leto (cujo nome "romano" é Latona) é filha dos Titãs Céu e Febe. Segundo as tradições mais antigas, ela teria sido a primeira esposa de Zeus, anterior, portanto, à união deste com Hera. Esta é a versão apresentada pela Ilíada (onde a vemos, sem dúvida devido à origem asiática que alguns lhe atribuem, tomar o partido dos Troianos). Hesíodo seguiu a mesma tradição, transformando Leto, que ele descreve como uma jovem coberta com um véu lúgubre, numa divindade da noite.

Só mais tarde é que Leto foi considerada como uma das amantes de Zeus, expulsa e exposta, devido ao ressentimento de Hera.

Esta última versão, mais rica em peripécias do que a precedente, apresenta-nos Leto, grávida de Zeus, procurando um lugar para se esconder. Mas Hera persegue-a através da Ática, da Eubeia, da Trácia e das ilhas. E Leto não consegue hospitalidade em nenhum lugar. Exausta, recorda-se da sua irmã Astéria, a qual também tinha sofrido, entretanto, os ataques amorosos de Zeus. No entanto, esta fora menos acolhedora que Leto aos ardores divinos, preferindo precipitar-se nas ondas a entregar-se a Zeus. Consequentemente, fora transformada numa ilha, a ilha de Ortígia. Leto pediu, então, asilo a sua irmã e esta acolheu-a. Mas Hera lançou ainda o dragão Píton em sua perseguição. No entanto, este não conseguiu descobrir o seu esconderijo e acabou por renunciar à incumbência de Hera.

Recordemos também que, como Hera profetizara que Leto não poderia descansar em nenhum lugar sobre o qual brilhasse o sol, Posídon teria erguido o mar em forma de abóbada, por cima da ilha, colocando-a assim ao abrigo dos raios interditos.

Quando chegou a hora do parto, todos os imortais deixaram o Olimpo para se dirigir à Ortígia-e assistir Leto... com excepção de Hera, que conseguiu reter, igualmente, a sua filha Ilitia, a deusa protectora dos partos. Durante-nove dias e nove noites Leto sofreu dores terríveis, sem que o parto se realizasse. Então, íris, a mensageira, enviada pelas deusas, conseguiu levar llitia consigo, afim de assistir ao parto. Finalmente, Leto, conta o Hino homérico a Apolo, "rodeou com os seus braços uma palmeira, comprimiu com os seus joelhos a aroeira do prado; a terra por baixo dela sorriu" e duas crianças nasceram: Ártemis e, depois, Apolo. A ilha de Ortígia até aí flutuante e estéril, foi fixada ao fundo do mar por quatro colunas e tomou o nome de Delos, que significa "A Aparente".

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Licáon

Mas Hera não deixará nunca de perseguir Leto com o seu furor. Deste modo, a jovem é obrigada a vaguear de país em país. Certo dia, quando se encontrava na Ásia Menor junto a um lago, morrendo de sede e impedida de beber pelos pastores que, por ordem de Hera, tinham turvado a água, Leto viu-se obrigada a transformar os seus atormentadores em animais e estes foram, assim, as primeiras rãs.

Entretento, Hera suscitará a paixão ardente do gigante Tício (que alguns autores apresentam como filho de Zeus e de Elara, princesa da Orcornénia) contra a sua inimiga. Este tentou raptar Leto, mas Apolo, secundado por Ártemis, irá em socorro de sua mãe, matando o agressor. Uma outra versão do episódio, afirma que foi o próprio Zeus que fuiminou Tício e o enviou para os Infernos, a fim de purificar-se, pela eternidade, da sua malvadez.

Rubens, Leto metamorfoseando os pastores em rãs (Madrid, Museu do Prado).

Líbero @ ;&mm,,' =ia-cr

Líbero é uma antiga divindade itálica que personificava a fertilidade dos campos e a fecundidade dos animais. O seu símbolo é o falo. No dia da sua festa, no mês de Março, os adolescentes com dezassete anos cumpridos empossam, finalmente, a toga viril.

Muito cedo, Líbero foi confundido com o deus grego Dioniso, tornando-se o deus protector dos vinhateiros.

Licáon m. vt. ;,,,

Licáon, filho de Pelasgo, fundador do povo mítico com o seu nome, foi rei da Arcádia. Conhecido, segundo uns pela sua piedade, segundo outros pela sua crueldade, Licáon ousava oferecer aos deuses sacrifícios humanos, aos quais sujeitava o seu povo.

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Licáon

Zeus, cujo culto Licáon tinha fundado sobre o monte Liceu, resolveu um dia fazer-lhe uma visita. Licáon convidou-o, então, para um festim e teve a insolência de lhe servir a carne de um recém-nascido, misturada com os alimentos. Revoltado com a abominável audácia, Zeus transformou Licáon em lobo (em grego: Iycos; recordação, segundo se pensa, de um antigo totém).

Licáon é, por vezes, considerado como o pai de Calisto que, grávida de Zeus, deu à luz Árcade e foi transformada em ursa. Certos autores afirmam que foi o próprio Árcade que Licáon teria matado e servido no banquete, acrescentando ainda que logo que o crime foi punido, Zeus teria restituído, imediatamente, o seu filho à vida.

Licáon teve, igualmente, cinquenta filhos, resultado de um grande número de uniões, cuja reputação de crueldade igualou bem a de seu pai. Então, Zeus resolveu pô-los, também, à prova. Para isso, apresentou-se, incógnito, no palácio, sob disfarce de um pedinte e suplicou "em nome dos deuses" que lhe dessem de comer. Os jovens instalaram-no à sua mesa e divertiram-se, como outrora fizera seu pai, a servir ao seu hóspede, "ern nome dos deuses", os membros de uma criança que eles tinham acabado de degolar para o efeito.

Zeus, na sua qualidade de deus da hospitalidade, indignou-se uma vez mais com estas práticas, fulminando os filhos de Licáon (com excepção de Níctimo, salvo por intervenção de Geia). Segundo certa tradição, foi a partir deste momento que Zeus, ferido pelo comportamento dos mortais, resolveu enviar o terrível dilúvio sobre o gênero humano, a fim de assegurar a sua destruição.

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Marte

Marte - o seu nome é conotado com a raiz mar, que evoca a força geradora - foi, inicialmente, para os Romanos, um deus agrário. Ele era especialmente adorado na Primavera (no mês de Março) e muito particularmente pela juventude.

Os seus atributos guerreiros só vieram mais tarde e acabaram por suplantar os anteriores, que foram transferidos para Libero. Marte é o deus dos exércitos (que manobram no campo de Marte, à volta das muralhas de Roma), travando batalhas ao lado dos seus fiéis, geralmente escoltado pela deusa Belona (sua irmã, sua esposa ou sua filha?).

O seu culto teve, em Roma, uma importância comparável ao culto de Júpiter. Com efeito, o Romano, camponês e soldado, reconhecia em Marte o seu protector imediato. Além disso, Marte era associado à história de Roma, nas suas origens: apaixonado pela vestal Reia Sílvia, ele visitara-a no bosque sagrado onde seu tio, o rei de Alba, a tinha aprisionado. Deste encontro amoroso nasceram Rómulo e Remo, os dois gêmeos que teriam sido alimentados por uma loba, animal consagrado a Marte.

Filho de Juno (Ovídio conta que a deusa o concebeu não como resultado dos seus amores com Júpiter, mas através de uma flor fecundante), Marte foi rapidamente identificado, pela lenda, ao deus grego da guerra, Ares.

O dia de Marte (Martís dies) é a terça-feira.

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Medeia


Medeia

Medeia, filha de Eetes, rei da Cólquida é, tal como a sua tia Circe, célebre em toda a Antiguidade pelos seus dons de mágica. Ela manifestou-os ao longo de uma vida cheia de aventuras, que começou exactamente quando Medeia se apaixonou, perdidamente, por Jasão, o herói da Tessália que, comandando o navio Argo, veio à conquista do Velo de Ouro.

Foi ela que lhe permitiu cumprir todas as provas que o rei Eetes lhe impusera. No decurso de um dia, submeter dois touros fogosos, presentes de Hefesto, cujos cornos eram de bronze e o sopro de fogo, lavrar com esta atrelagem um hectare de terra virgem e, por fim, sair vitorioso de um combate com guerreiros gigantes, nascidos da Terra, "fabricados" de propósito para vencer o herói e os seus companheiros.

Eetes, apesar deste resultado, recusou cumprir a sua promessa e, então, Medeia adormeceu o dragão que guardava o Velo, permitindo deste modo a Jasão que se apoderasse do precioso objecto. Após o cumprimento da missão, os Argonautas regressaram ao mar. Mas Medeia, a fim de impedir Eetes de perseguir os fugitivos, despedaçou o corpo do seu jovem irmão, espalhando os bocados sobre o caminho. Irritado com este crime, Zeus obrigou a expedição a purificar-se às mãos de Circe, irmã de Eetes.

No regresso, os poderes de Medeia foram uma vez mais colocados à disposição do herói e da sua expedição. Isto aconteceu ao largo de Creta. O gigante Talo, espécie de autómato fabricado por Décialo para proteger a ilha, lapidou o navio contra as rochas. Medeia conseguiu, então, desnortear o autómato com miragens, a ponto de ele próprio se atirar contra as rochas, abrindo acidentalmente a artéria que retinha o seu sangue e a sua vida.

De regresso a lolco, com o Velo de Ouro, Jasão não conseguiu obter o cumprimento das promessas do rei Pélias. Então Medeia preparou o seu castigo. Propôs às filhas do perjuro que rej .uvenescessem o seu pai. Para isso, teriam de decepá-lo e de atirar o seu corpo a uma caldeira de água a ferver, com ervas mágicas. Estas aceitaram a sugestão e cumpriram o ritual, que não teve, no entanto, o efeito desejado.

Como consequência, Acasto, filho de Pélias, que lhe sucedeu no trono, baniu Medeia e Jasão do seu reino. Estes refugiaram-se, então, em Corinto, que era o país de origem de Eetes, onde viveram dez anos calmos e felizes.

Mas Jasão deixou-se seduzir pela filha do rei de Corinto, Creúsa, e aban-

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Meleagro


donou a sua esposa. Medeia, furiosa, fabricou um vestido de noiva para a sua rival e, quando esta o vestiu, incendiou não só o seu corpo, mas tudo o que a rodeava, inclusive o palácio de seu pai. Depois, Medeia estrangulou os próprios filhos, fruto da sua união com Jasão.

Expulsa de Corinto, a mágica exilou-se em Atenas, na corte do rei Egeu que, mais tarde, a desposou. Dessa união nasceu um filho, Medos. Mas como Medeia procurou desembaraçar-se de Teseu, acabou por ser, também, expulsa de Atenas, partindo para a Ásia (onde Medos fundará o povo medo). Daí regressará, um dia, à CóIquida, a fim de punir o seu tio Perses que se tinha apoderado do poder e (segundo as tradições que apresentam Eetes ainda vivo, nesta altura) colocar de novo no trono o seu velho pai.

À sua morte Medeia foi transportada para a ilha dos Bem-aventurados e, para certos autores, tornou-se na companheira de Aquiles, no além.

A personagem da mágica Medeia, a traição de Jasão, o assassinato dos seus filhos constituem um tema típico da tragédia. Eurípides, Énio, Atio, Ovídio (obras perdidas) e Séneca exploraram-no, na Antiguidade. Medeia foi, igualmente, a primeira das heroínas de Comeille (1635). É ela que responde arrogantemente, com uma única palavra, à dolorosa pergunta:

Numa tão grande desgraça, que vos resta? _ Eu. Ela é também a heroína - errante com Jasão - de uma peça de Anouilh (1953). A lenda de Medeia é o tema da tragédia lírica de M.-A. Charpentier (1693) e das óperas de Cherubini (1797) e D. Milhaud (1939). Um quadro de Delacroix ffille) representa Medeia furiosa.

Meleagro @nz'

Meleagro é filho de Eneu, rei dos Etólios (ou do deus Ares) e da rainha Alteia, irmã de Leda. É um dos Argonautas, que partiu com Jasão à conquista do Velo de Ouro, e teria sido o responsável pela morte do rei da Cólquida, Eetes.

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Meleagro

Ao regressar à pátria, Meleagro encontra o país numa situação deplorável. Tudo isto porque Eneu, seu pai, se tinha esquecido de sacrificar a Áriemis, e a deusa, ofendida, enviara um javali monstruoso sobre a região de Cálidon, para devastar toda a zona. Meleagro decidiu, então, expulsar o animal e, para isso, reuniu os mais valentes caçadores da Etólia.

Segundo Homero, no fim do combate que Meleagro venceu, gerou-se uma querela entre os diferentes caçadores por causa da sua origem curete ou etólia (os Etólios tinham suplantado os Curetes, anteriormente). Na confusão geral, que degenerou numa verdadeira batalha sangrenta, Meleagro matou os irmãos de sua mãe. Esta, enfurecida, enviou sobre ele a cólera de todos os deuses infernais. Então, Meleagro, para tentar conjurara maldição, retirou-se do combate.

Após este momento, os Etólios, que ele comandava, começaram a ceder perante os Curetes, que os perseguiram até cercar Cálidon. Entretanto, os sacerdotes da cidade, o rei e a própria rainha recuaram face à sua maldição e, assim, as irmãs e os amigos de Meleagro vieram suplicar-lhe que voltasse ao combate, comandando os Etólios, a fim de salvar a sua pátria. Mas o herói mostrou-se inabalável. E passado algum tempo, quando os invasores começaram a incendiar a cidade, a sua própria mulher veio ajoelhar-se a seus pés, suplicando-lhe que voltasse a comandar os Etólios. Finalmente convencido, Meleagro regressou ao campo de batalha, alterando rapidamente o jogo de forças.

É desta forma que Fénix, na Ilíada, recorda a Aquiles este episódio da vida de Meleagro, a fim de o convencer a retomar, também, o seu lugar de combate junto dos Gregos. Mais tarde, a lenda foi contada diferentemente.

Quando Meleagro resolveu ir caçar o javali de Cálidon, apelou a todos os heróis gregos, particularmente aos seus antigos companheiros Argonautas: Jasão, Castor e Pólux (primos de Meleagro), Idas e Linceu, Teseu e Pirítoo, íficies, geleu e Téiamon, os quatro irmãos de Alteia e - o que não foi muito apreciado por estes - a caçadora Atalanta, por quem Meleagro estava apaixonado.

No fim de uma dramática caçada (em que o monstro começou por colocar fora de combate dois dos caçadores e onde Peleu matou acidentalmente o seu sogro), Atalanta foi a primeira a atingir o monstro. Meleagro resolveu, então, oferecer os despojos do animal à jovem caçadora. Mas os seus tios não puderam suportar esta homenagem rendida a uma mulher e reivindica-

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Melicertes

ram o saque. Meleagro reagiu, acabando por matar os quatro ofensores de Atalanta. Deparamos, finalmente, com o enredo da narrativa da Xada, muito embora a conclusão seja diferente.

Quando Meleagro nascera, as Moiras informaram sua mãe, Alteia, de que o seu filho só se manteria vivo enquanto o tição que ardia no átrio não fosse reduzido a cinzas. Então, Alteia apressou-se a apagá-lo, escondendo-o num cofre.

Mais tarde, ao ter conhecimento da morte dos seus irmãos, Alteia, enlouquecida pela dor, retirou o famoso objecto do cofre e precipitou-o nas chamas. Quando este ardeu completamente, o herói deu o seu último suspiro. Mas quando Alteia regressou à realidade e viu as consequências do seu acto, não podendo suportar a dor, acabou por enforcar-se.

A vida de Meleagro inspirou uma série de quadros ao pintor francês Le Brun (Museu do Louvre).

Melicortes

Dioniso, depois da morte de sua mãe, Sérnele (a amante de Zeus que Hera castigou), foi recolhido por Ino, irmã de sua mãe e pelo marido desta, Átamas, rei da Beócia.

Mas Hera, furiosa com a ajuda do casal real a um "bastardo" do seu infiel marido, resolveu enlouquecer os seus espíritos. E assim Átamas enforcou um dos seus próprios filhos e Ino precipitou-se no mar, com o outro, que era Melicertes.

Acontece que o corpo do jovem foi recolhido por um golfinho, que o transportou até à costa de Corinto, cujo rei, Sísifo, impressionado pelo prodígio, decidiu mandar construir um túmulo, na costa, a fim de venerar Melicertes como um deus do mar, elegendo-o também como o protector dos Jogos ístmicos, com o nome de Palémon (O Lutador).

Mais tarde, os Romanos apelidaram-no de Portuno, o deus dos portos, erigindo-lhe um templo (redondo) em Roma, não muito longe do porto. Nas

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Mémnon


proximidades elevava-se o templo de Mater Matuta, nome dado pelos Romanos à deusa grega Leucótea, que não era senão Ino divinizada.

Ares + Afrodite

Harmonia' + Cadmo

Néfele(l) + Átamas + Ino(2)

Sérnele

1 Dioniso

Frixo Hele Melicertes

Folidoro


1 Lábdaco

1 Laio


1 Édipo

1 Harmonia é filha de Ares e Afrodite, segundo a versão tebana da lenda.

Mémnon

Mérrinon é um dos dois filhos de Eos, a Aurora, e do Troiano Titono, irmão do rei Príamo. Atribui-se-lhe, geralmente, como pátria a Síria, o Irão ou o Egipto.



A sua infância desenrolou-se na África Ocidental, onde foi educado pelas Hespérides - as ninfas do poente. Mais tarde, reinou sobre a Etiópia.

Mérrinon participou na guerra de Tróia e, tal como Heitor, combateu contra o grande Ájax, sem que nenhum dos dois combatentes levasse a melhor sobre o outro.

Certo dia, depois de ter desafiado o velho Nestor, viu-se obrigado a lutar contra o seu filho Antíloco, que acorreu em seu socorro, e matou-o. Aquiles, amigo de Antíloco, interveio prontamente, provocando Mérrinon. Mas as duas deusas Tétis e Eos, mães do herói, solicitaram a protecção de Zeus

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Midas

para o seu filho (cf. o quadro de Ingres: Tétis implorando a Júpiter). Então, o rei dos deuses colocou o destino dos dois homens na balança e como o prato de Mérnnon descaiu em direcção aos Infernos, Zeus concedeu a vitória a Aquiles.

Entretanto Eos conseguirá - como já tinha obtido para o seu marido Titono - convencer Zeus a conceder a imortalidade a Mérnnon. Assim, recolheu o seu corpo e reconduziu-o à Etiópia, a fim de o sepultar. As lágrimas que Eos verteu depois da morte de seu filho são as gotas de orvalho que caem cada manhã sobre a terra.

A tradição que apresenta Mérnnon como originário do Egipto identifica o herói, sob o nome de colosso de Mérnnon, com uma das duas estátuas do faraó Amenófis III, erigidas em Tebas. E, como resposta à carícia diária da Aurora (esegundoas palavras que Molièrefaz pronunciara Thomas Diafoirus na obra O doente imaginário), esta estátua "ernitia um som harmonioso quando o Sol, ao nascer, lhe tocava com os seus primeiros raios". Uma restauração, feita posteriormente, pôs fim a este fenômeno.

Midas @w,

Midas, rei da Frígia, era filho do rei Górdias e da deusa Cíbele. Certo dia em que os camponeses lhe trouxeram, aprisionado, um bêbado encontrado na montanha, Midas, que tinha sido iniciado nos mistérios dionisíacos, reconheceu no prisioneiro, Sileno, marido da ama de leite de Dioniso. Assim, libertou-o imediatamente, e reconduziu-o, em cortejo, junto do deus.

Dioniso, para recompensar Midas, prometeu conceder-lhe o voto que ele formulasse. O rei expressou, então, que desejava ver transformar-se em ouro tudo aquilo em que tocasse com as suas mãos. Acontece que, passado pouco tempo, Midas começou a definhar, pois não podia alimentar-se já que todos os alimentos e bebidas em que tocava se transformavam no desejado metal. Então suplicou, de novo, ao deus que lhe retirasse este poder funesto. Dioniso aceitou, banhou Midas no Pactolo, e as águas deste rio arrastaram consigo as pepitas de ouro que cobriam o jovem rei.

Um outro dia, quando Midas passeava na montanha, surpreendeu a querela que opunha Apolo ao sátiro Mársias: qual dos dois criava a mais bela

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Minos


música, Apolo na sua lira ou Mársias na flauta dupla que ele próprio tinha inventado? Midas foi designado para fazer parte de um júri (ele passou por ter fabricado a primeira flauta de Pá), sendo o único que concedeu a vitória a Mársias. Apolo, para castigar o vencido, suspendeu-o numa árvore e esfolou-o vivo; quanto a Midas, fez-lhe nascer um par de orelhas de burro.

O rei tentou dissimular, tão bem quanto possível, a sua ridícula deformidade, ameaçando de morte o seu barbeiro se ele ousasse revelar o segredo. Este, impedido de falar e não aguentando mais a situação, abriu um buraco na terra e gritou lá para dentro a terrível confidência. E foi assim que o canavial que nasceu nesse lugar passou a murmurar que o rei Midas tinha orelhas de burro.

Minos

Minos, tal como os seus irmãos Sarpécion e Radamante, nasceu em Creta onde o rei dos deuses, transformado na circunstância em touro, tinha conduzido Europa, depois de a ter raptado.



As crianças foram educadas pelo rei Astérion, com quem entretanto Europa casara. À sua morte, Minos reinvindicou o trono e, para provar aos seus irmãos que os deuses lho tinham destinado, anunciou que como resposta a uma oração sua, Posídon faria aparecer um touro directamente do mar. Acrescentou ainda que lhe restituiria o animal em sacrifício.

O touro de Creta

O deus do mar confirmou os propósitos de Minos, enviando um touro de uma maravilhosa pelagem branca. Assim Minos foi reconhecido como digno do poder. Com efeito, o novo rei trouxe a Creta uma era de justiça e prosperidade (o seu nome foi, depois dele, conferido como título dinástico aos soberanos de Creta). Dizia-se que as leis que ele criava para o seu povo, lhe eram inspiradas pelo próprio Zeus, que não tinha esquecido a sua infância nas cavernas de Ida.

Infelizmente, Minos considerou o touro de Posídon tão belo que, negligenciando a sua promessa, o fechou nos seus estábulos para o tornar um reprodutor.

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Minos


A primeira vingança do deus foi inspirar à mulher de Minos, Pasífae, uma paixão insensata pelo animal. E desta paixão nasceu um monstro, corpo de homem e cabeça de touro, o Minotauro. Para esconder a "desonra" da família, Minos mandou construir um palácio, ao engenheiro Décialo, que residia então em Creta, de onde era impossível sair depois de ter entrado: o Labirinto (= palácio do machado de dois gumes, símbolo cretense).

Mas a cólera de Posídon não se apaziguou e ele enlouqueceu o touro. O país viveu então no terror até que Héracies recebeu a ordem - este foi um dos seus "trabalhos" - de subjugar o animal. O herói cumpriu a sua missão, transportando o touro, no seu dorso, até à Argólida.

Da sua esposa, filha do Sol, Minos teve oito filhos, entre eles Andrógeo que nós encontraremos confrontado com o famoso touro branco Ariadne, que ajudou na eliminação do Minotauro, e Fedra.

Minos será, igualmente, o herói de múltiplas uniões ilegítimas, a ponto de sofrer os feitiços de sua esposa ultrajada (dotada do dom de feitiçaria como a sua irmã Circe). Assim todas as mulheres que se abandonaram a Minos foram sufocadas por serpentes que brotavam do seu corpo depois de excitado. O rei foi finalmente libertado desta feitiçaria por Prócris que, fugindo de seu marido Céfalo, encontrou refúgio junto do rei de Creta.

Entretanto falar-se-á, de novo, do famoso touro de Posídon, desta vez na Ática onde, tendo reconquistado a liberdade, devastava a planície de Maratona. Nesta época, o rei de Atenas, Egeu, tinha organizado os jogos atléticos, por ocasião da festa das Panateneias. O filho de Minos, Andrógeo, veio participar nestes jogos, ganhando todos os concursos. Egeu teve então a ideia de enviá-lo para combater o touro sagrado, seguro de que ele não voltaria vivo.

A guerra contra Atenas Quando Minos soube como o seu filho tinha sido enviado para a morte, resolveu vingar-se. Preparou um navio, passou o istmo de Corinto e sitiou a cidade de Mégara, graças à cumplicidade de Cila, filha do rei Niso, que era irmã de Egeu. Com efeito, a jovem princesa apaixonara-se por Minos, de uma forma arrebatadora, mal pousara sobre ele os seus olhos e prometeu garantir-lhe a vitória se ele a levasse consigo de regresso. Minos prometeu e Cila, que sabia que a força de seu pai residia num "cabelo de ouro", não hesitou em cortá-lo. Assim Minos entrou em Mégara, raptou Cila, mas para a punir do seu acto, prendeu-a à proa do seu navio até que os deuses, piedosos, a transformaram em garça.

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Minos


Mas o cerco de Atenas não produziu um resultado imediato. Então Minos apelou a Zeus, seu pai, que enviou dois flagelos, a peste e a fome, sobre a cidade. Agindo de acordo com um antigo oráculo, os Atenienses aceitaram sacrificar quatro filhas de um espartano chamado Jacinto, mas os flagelos continuaram. Perante a situação desesperada, os Atenienses pediram, finalmente, a Minos que indicasse as suas condições.

Este exigiu, para levantar o cerco, que, periodicamente, a cidade de Atenas enviasse a Creta um tributo de rapazes e raparigas, destinadas ao alimento do Minotauro. As condições foram aceites e cumpridas até ao dia em que o filho do rei Egeu, Teseu, foi escolhido para fazer parte do contingente de sacrificados e (justa recompensa), graças à cumplicidade de Ariadne, filha de Minos, conseguiu matar o Minotauro, libertando Atenas da sujeição.

Minos e Maio Mas a astúcia de Ariadne - desenrolar um fio no interior do Labirinto foi-lhe sugerida por DécIalo. Minos, ofendido por esta traição, aprisionou o seu genial arquitecto no Labirinto, na companhia de seu filho, ícaro, nascido de uma serva do palácio.

Décialo concebeu, então, e fabricou para si próprio e para o seu filho dois pares de asas, que lhes permitiram evadir-se pelos ares. ícaro, quando se viu a voar no céu, negligenciando os conselhos de seu pai, quis subir mais alto. Mas o Sol derreteu a cera que fixava as asas aos seus ombros e ele caiu sobre o mar, ao largo da ilha de Samos.

DécIalo, pela sua parte, chegou sem problemas a Itália, dirigindo-se à Sicília, à corte do rei Cócalo, a quem pediu asilo.

Mas Minos não aceitou esta nova humilhação. Decidiu mandar procurar Décialo em todos os países. E para o desmascarar propôs uma grande recompensa a quem conseguisse fazer passar um fio nas circunvoluções de uma casca de caracol. O rei Cócalo, tendo sido solicitado por sua vez, caiu na esparrela: pediu a ajuda de DécIalo, que prendeu o fio a uma formiga, que cumpriu o trabalho. Minos teve, então, desde logo a convicção de que DécIalo se escondia na corte do rei. Cócalo prometeu ajudá-lo, mas por instigação do seu precioso hóspede (que tinha instalado a casa de banho do palácio), encarregou as suas filhas de afogar o rei de Creta, quando este tomasse banho na sua banheira.

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Mistérios



E assim morreu Minos. Após a sua morte, ele foi designado por Zeus, devido às suas qualidades de legislador, juntamente com o seu irmão Radamante e o virtuoso Éaco, como juiz nos Infernos.

Místérios a

Os Mistérios são um conjunto de ritos de 'carácter mágico, sobre os quais os iniciados deviam guardar segredo. Estes ritos eram especialmente usados nos cultos orientais (ísis e Osíris no Egipto, Aclónis na Síria, Mitra na Pérsia, Cíbele e Átis na Frigia ... ), tendo sido praticados na Grécia (os mais importantes foram os de Deméter em Elêusis) e, mais tarde, alargados ao conjunto do mundo antigo durante o Império Romano. Os frescos da casa de Pompeia, dita casa dos Mistérios, dá-nos a conhecer as fases sucessivas da iniciação nos Mistérios de Baco-Dioniso: leitura do ritual, oferendas, apresentação da cista (cesto contendo objectos sagrados, ocultados aos profanos), flagelação, toilette preparatória às núpcias místicas...

Mitra


Mitra, uma antiga divindade da Pérsia, foi a última das divindades orientais a entrar na mitologia romana. Mas foi, igualmente, aquela que conquistou a maior importância ao ponto de o seu culto acabar por absorver todo o paganismo. Os próprios imperadores iniciaram-se nos seus mistérios e Diocleciano, perseguidor do cristianismo, proclamará Mitra como "protector do Império".

Mitra, originalmente deus do céu, da terra e dos mortos, foi assimilado ao deus do Sol (Sol invíctus). Como Cristo, a quem se oporá sistematicamente, ele nasceu a vinte e cinco de Dezembro, lutou e sofreu na terra, subindo finalmente ao céu. A sua missão consiste em salvar as almas dos iniciados, ajudando-os na sua ascensão. As provas de iniciação consistem num baptismo de água, numa confirmação por imposição de um ferro em brasa sobre a fronte, e finalmente, numa refeição onde se consagra o pão e a água mistura-

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Moiras


da com vinho. O instrumento por excelência da redenção é a imolação, por Mifra, do touro considerado como fonte de vida.

O número de santuários dedicados a Mitra - mithaea- tanto públicos como privados, foi considerável. Eram lugares subterrâneos (o deus, dizia-se, tinha nascido numa gruta) ou escolhidos na parte mais obscura de uma casa; o tecto era aberto de modo a evocar o céu. Os fiéis ajoelhavam-se sobre bancadas fixadas às paredes, ficando a parte central reservada aos sacrifícios de animais.

Mitra é representado como um jovem, com um chapéu frígio, na acto de derrubar e imolar o touro.

Mnemósine

Mnemósine, filha da Terra e do Céu, é uma das Titénides. Ela é a deusa da memória e foi durante muito tempo a única a ser considerada capaz de controlar o tempo.

A jovem foi, também, uma das esposas de Zeus. Quando a guerra contra os Titãs foi ganha pelos Olímpicos, estes suplicaram a Zeus que criasse divindades capazes de deleitar os seus tempos livres, celebrando dignamente a sua vitória. Zeus dirigiu-se então junto de sua mulher, que residia na Macedónia, e partilhou o seu leito durante nove noites consecutivas. Como resultado, Mnemósine irá dar à luz as nove Musas, cujo coro recordará aos deuses, em forma de arte, a lembrança dos seus altos feitos.

Moiras

As Moiras, a que os Romanos chamaram Parcas (por eufemismo, parco significa economizar), nascidas da Noite no princípio dos tempos (a menos que elas não sejam o fruto da união de Zeus e da sua segunda esposa, Témis,



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Morfeu


deusa da justiça), representam na Antiguidade o destino de cada indivíduo. Elas são as três fiandeiras. Submetidas à autoridade e ao controlo de Zeus, Cioto fabrica o fio (curso) da existência, Láquesis desenrola este fio e Átropos corta-o.

As Moiras são assistidas na sua função fatal pelas keres, as cadelas do Hades que, quando chega a última hora de um mortal, se apoderam do seu corpo para o conduzir a Pluto. Elas têm, também, um papel activo nas batalhas, onde se alimentam do sangue dos mortos.

Morfeu wa

Gênio alado, filho do Sono e da Noite, Morfeu percorre o espaço em silêncio e toma forma humana (este é o sentido do seu nome) para aparecer nos sonhos dos que dormem (diz-se "nos braços de Morfeu").

Musas

As Musas, segundo a tradição mais corrente que vem de Hesíodo, são filhas de Zeus. Com efeito, após a vitória sobre os Titãs, o rei dos deuses teve o desejo de distrair os Olímpicos com jovens beldades que, por meio do canto e da dança, lhes recordassem as suas acções valorosas. Então dirigiu-se a Píero (Macedónia), onde se encontrava Mnemósine, divindade da memória, irmã dos Titãs (as Titânides não tinham tomado parte no conflito). Passou com ela nove noites e gerou as nove Musas, que passarão a constituir o coro artístico com que ele sonhara. Mais tarde, atribuir-se-á a cada uma das Musas uma especialidade definida, manifestada num atributo específico:



Nomes CALíOPE CLIO

É RATO


Especialidades Eloquência História

Poesia (erótica)

Atributos Estilete e tabuinhas Trombeta, Clepsidra e rolo Citara

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Musas

EUTERPE MELPóMENE

POLíMNIA TERPSíCORE TALIA URÂNIA

Música Flauta Dupla Tragédia Máscara trágica, maça

de Héracies Mimo, Poesia Lírica (um dedo sobre a boca) Dança C íta ra Comédia Máscara cómica, Tirso Astronomia Globo celeste, compasso

O lugar de eleição das Musas era o monte Hélicon, na Beócia, onde o cavalo alado Pégaso tinha feito brotar do seu casco a fonte Hipocrene, que conferia a inspiração aos poetas.

Quando deixavam o Hélicon, dirigiam-se ao monte Parnaso, na Fócida (a fonte Castália de Delfos, que também dava a inspiração poética, foi-lhes consagrada), para se encontrarem com Apolo que, na sua qualidade de deus da música, dirigia naturalmente o cortejo das Musas.

Calíope (a bela voz), Musa da primeira das artes segundo os Gregos, foi uma das Musas requestada por Apolo, que a amou profundamente. Ela foi, ainda, a mãe do poeta Orfeu, filho de um pai mortal.

Talia amou, igualmente, Apolo, dando à luz as Coribantes, futuras dançarinas sagradas de Cíbele. Meipórnene deu à luz as Sirenes, fruto dos seus amores com o deus-rio Aqueloo. O músico Lino, inventor lendário do ritmo e da melodia, também nasceu de uma Musa: de Calíope (com Apolo), de Urânia ou de Terpsícore.

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Némesis

Némesis, filha da Noite, personifica a vingança divina. Ela pune os crimes e persegue a hybrís, a glória excessiva e o orgulho desmesurado dos mortais, que crêem poder elevar-se acima da sua condição de humanos.

O seu santuário mais célebre encontra-se na Ática, perto de Maratona. A sua estátua foi obra de Fídias, tendo sido talhada num bloco de mármore que os Persas - demasiado seguros da sua vitória sobre Atenas - tinham trazido com a intenção de erigir um troféu. Némesis tinha punido a sua hybris instigando o exército de Maratona.

Nereu


Nereu, filho de Ponto e de Geia, desposou uma filha do Oceano, Dóris. As suas cinquenta filhas, as Nereides, dotadas de uma grande beleza, personificavam as vagas do mar. Entre elas, podemos destacar Tétis que casou com o herói Peleu e foi mãe de Aquiles, Anfitrite que desposou Posídon e Galateia que foi cortejada pelo cíclope Polifemo.

A maior parte das Nereides viviam em família no palácio subterrâneo de seu pai, o "ancião do mar" (ele pertence à geração anterior a Posídon). Nereu é um deus benfeitor, e como a maior parte das divindades marinhas tem o poder de se transformar; além disso, tem ainda o dom de dupla visão e será, a este título, solicitado por Héracies na descoberta do jardim das Hespérides.

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Ninfas


Ninfas

As Ninfas são jovens divindades (o nome significa rapariga) que personificam as forças da natureza. As lendas sublinham, geralmente, as suas funções de amas dos deuses. Elas encarnam árvores (são as Dríades, as Hamadríades, as Melíades), as águas correntes e as fontes (Náiades), os campos e as montanhas (Oréades).

As Ninfas são filhas de Zeus ou filhas dos rios, sendo sensíveis à beleza dos jovens, e não hesitando em seduzi-los (Hilas, o amigo de Héracies, será uma das suas vítimas durante a expedição dos Argonautas), em puni-los, caso estes as injuriassem (o pastor Mnis, filho de Hermes, terá perdido a visão devido à sua infidelidade) ou em definhar quando eles se mostravam insensíveis (recordemos a ninfa Eco a quem só restou a voz, enquanto que o belo Narciso, apaixonado pela sua própria imagem, morreu sobre a fonte que lhe servia de espelho').

Os Romanos adoraram, particularmente, as ninfas das águas, sobretudo das águas termais, criando em sua honra fontes decorativas, alimentadas por uma fonte ou mais frequentemente pela água de um aqueduto, que se chamava ninfeus1. Estes encontravam-se tanto em lugares públicos como em cruzamentos e nas vilas.

As representações de ninfas (sós ou em companhia de um sátiro ou de um sileno) nas artes, antigas e modernas, são inumeráveis: vasos, frescos, baixos-relevos; B. Cellini: Ninfa de Fontainebleau (alto-relevo do Louvire), J. Goujon: Ninfas da Fonte dos Inocentes (Paris), Girardon:

O Banho das Nínfas (Versalhes); Coysevox: Nínfa em concha (Louvire, cópia, e Versalhes). Pinturas de Rubens (Madrid), Jordaens (Gand), Van Dyck (Berlim): Ninfa espreitada por um sátíro; Ticiano: Ninfa e pastor (Viena); Boucher: Ninfa e Tritãos (Mogúncia); Vermeer: Diana e as Ninfas (Haia); De Troy: O Banho das Ninfas (Nancy); Corot: A Dança das Ninfas (Louvre); todas estas representações são pretextos para render homenagem ao nu feminino.

A lenda inspirou a Valéry a Cantata de Narciso, que Germaine Tailleferre musicou.

2Nome masculino (de preferência).

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Noite


Noite

A Noite, nascida do Caos como seu irmão Érebo, a quem se juntou, deu à luz Éter (o ar) e Hemera (a luz), duas divindades indispensáveis à criação e à sobrevivência do gênero humano.

Inversamente, a Noite gerou também numerosos deuses cuja acção se revelará, geralmente, funesta. Destaquemos Némesis, Éris (a Discórdia), a Velhice, a Morte (que outros apresentam como filha de Geia e de Tártaro), o seu irmão gêmeo, o doce Adormecimento e a divindade que se imporá com a mesma autoridade aos homens e aos deuses, incluindo Zeus, o Destino, Moira. A Noite surge, por vezes, como mãe das Moiras ou Parcas (uma tradição mais corrente apresenta-as como filhas de Zeus e de Témis).

A sua residência oficial situava-se na extremidade do mundo ocidental, para lá das colunas de Hércules (estreito de Gibraltar), na Hespéria. Alguns autores consideram, talvez por isso, as três Hespérides, guardiãs das famosas maçãs de ouro, como filhas da Noite.

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E]

Oceano aX,



Oceano, o mais velho dos Titãs, filho da Terra e do Céu estrelado, não deve ser confundido com Ponto, personificação do mar.

Ele representa o imenso oceano líquido que rodeava aterra, considerada como um círculo de que Delfos teria sido o centro. Homero deixou-nos a descrição do escudo de Aquiles onde figurava uma representação do mundo, cercado pelo Oceano (que ele designa como estando na origem de tudo, mesmo dos deuses). O Oceano delimita, assim, os fabulosos países dos confins da Terra, onde vivem os negros etíopes, os minúsculos pigmeus e os cimérios privados de sol. Para lá do mar, acreditava Homero, ficava a morada dos deuses.

Oceano, casado com a sua irmã Tétis, gerou três mil filhos, os rios, e três mil filhas, as Oceânides, ninfas das águas "que, espalhadas por toda a terra, presidiam às fontes profundas".

Os dois ocuparam-se da infância de Hera que recolheram no seu palácio, na parte ocidental do mundo. Reputado como benfeitor e sábio (é assim que aparece no Prometeu de Ésquilo), Oceano saberá aproveitar com prudentes avisos e muitas vezes com a participação da sua descendência, a aliança de Zeus.

Um busto monumental da época alexandrina (Museu do Vaticano) representa Oceano como um colosso de idade madura, dotado de curtos cornos rombos (cornos de touro: símbolo do poder gerador), o rosto emoldurado por longos cabelos onde-se misturavam os cachos e com uma "barba de rio" ondulada, na qual brincavam golfinhos.

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Olímpia

Olímpia


A cidade de Olímpia, situada na margem direita do Alfeu, na Élide, foi segundo a tradição o palco da luta de Zeus e de Cronos pela conquista do poder.

Em Olímpia adorava-se Geia e Cronos e consultava-se o oráculo de Geia e de Témis. Os Cretenses introduziram, depois, o culto de Zeus e as sucessivas invasões instalaram na cidade os seus deuses de eleição.

Na época clássica, o santuário, disposto no bosque sagrado de Altis (um bosque de plátanos e não de pinheiros como é hoje) apresentava-se como uma verdadeira cidade com várias dezenas de templos nas proximidades, capelas e altares, cada um com os seus sacerdotes, as suas celebrações e as suas festas. Estes eram rodeados pelo palácio e pelas diversas residências.

Hera, a esposa de Zeus, ocupava no Olimpo (quer pelas dimensões do seu templo como pela importância das suas festas) um lugar privilegiado.

O Áltis de Olímpia

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olimpo

No centro do conjunto elevava-se o templo de Zeus situado sobre um terraço de onde se dominava toda a área sagrada. O rei dos deuses produzia aí os seus oráculos, sob a aparência de uma imensa estátua criselefantina, obra-prima (desaparecida) de Fídias (Pausânias conta que quando o artista acabou a estátua, pediu a Zeus que lhe fizesse saber através de um sinal se lhe agradava a sua obra: "e um raio caiu, imediatamente".

Entre as cerimônias mais importantes figuravam os Jogos pan-helénicos, celebrados todos os quatro anos e cuja fundação (assim como a invenção do nome de Olímpia) era atribuída a Héracies, filho de Zeus. A interrupção sagrada era, então, proclamada para permitir a cada um dos participantes que reflectisse sobre a unidade e a especificidade da raça grega.

O estádio, situado numa ravina na base do monte Cronião, reunia quarenta mil espectadores.

Os Jogos Olímpicos suscitaram um tal consenso que as suas datas passaram a servir de base à cronologia usada pelos historiadores. A primeira olimpíada datou do ano de 776 a. C.

Em 1896, Pierre de Coubertin, desejando renovar esta tradição de alto ideal pacifista e humano criou, desta vez à escala do planeta, os novos Jogos Olímpicos que, desde então, acontecem todos os quatro anos em países diferentes.

Olimpo

A montanha do Olimpo, cujo topo a cerca de 3000 metros de altitude é considerado o ponto mais elevado da Grécia, fica situada nos confins da Tessália e da Macedónia, a quinze quilómetros do mar Egeu. Esta montanha foi considerada desde muito cedo como sendo a residência dos deuses da terceira geração, aqueles a quem chamamos os Olímpicos. Talhada a pique sobre a vertente que faz frente à Grécia, misteriosamente "envolvida por uma branca claridade" (Homero), o Olimpo apresenta-se como um maciço belo e imponente, local ideal para a majestade dos imortais.



Mais tarde, o termo Olimpo perdeu a sua ligação à montanha em questão para passar a designar, de uma maneira geral, a morada celeste dos deuses, com os diversos palácios que Hefesto construiu para cada um deles. Sob

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Oráculo

a autoridade zelosa de Zeus, respeitando a hierarquia dos direitos e dos poderes, os deuses passam a maior parte do seu tempo em jogos e banquetes, que só interrompem quando julgam dever empenhar-se (para o amor ou para a guerra) nos assuntos dos humanos.

Orkulo

A influência dos oráculos na Grécia Antiga foi muito significativa, pois eles não só desempenharam um papel importante na condução de determinados assuntos individuais como influíram mesmo no próprio curso da história.



Os consultantes destes oráculos eram personagens privadas ou delegados de uma cidade. As divindades interrogadas eram também numerosas, com destaque para a Terra (quer na forma de Geia quer na forma de Deméter) e para as divindades aquáticas. No entanto, Zeus, o depositário de toda a ciência e Apolo, o seu principal intérprete, sobrepuseram-se a todas elas.

O oráculo era consultado num templo, em cavernas, em precipícios ou em pleno ar, exprimindo-se, consoante o caso, através do murmúrio das águas ou do vento, nas árvores, pela ressonância do vento, pelo voo dos pássaros, pelos sonhos ou pela voz de determinadas pessoas inspiradas. As respostas, muitas vezes ambíguas, davam então lugar a uma interpretação.

Os oráculos mais célebres do mundo grego foram os de Zeus em Dociona (no Epiro), do deus egípcio Amon, assimilado a Zeus, na Líbia e, o mais frequentado de todos, o de Apolo em Delfos.

Os Romanos, que privilegiaram os presságios e os sinais celestes, não deram a mesma importância que os Gregos aos oráculos. Para eles, os deuses não tinham por função revelar aos humanos uma parcela do seu saber. Assim, eles só conceberam e conheceram oráculos proferidos por indivíduos dotados de dupla visão, com destaque para as Sibilas (sacerdotisas inspiradas), das quais a mais célebre foi a Sibila de Cumas, que prognosticou o destino de Eneias, servindo-lhe de guia através dos Infernos. Os livros de profecias da Sibila de Cumas foram adquiridos pelo rei Tarquino. Assim, quando acontecia algum acontecimento maravilhoso, os "livros sibilinos" eram consultados e interpretados por sacerdotes especializados.

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Orestes


Orestes

Orestes é o último dos filhos de Agamémnon, rei de Micenas, e de Clitemnestra.

Ele era ainda muito pequeno quando serviu de penhor a Télefo, filho de Héracies, que veio a Áulis para obter de Aquiles a cura para os seus males. Nesta viagem, ele foi acompanhado por sua mãe e sua irmã lfigénia que acabou por ser sacrificada para que os ventos soprassem e permitissem a partida da frota grega com destino a Tróia.

Durante os dez anos de guerra de tróia e de ausência de Agamémnon, Egisto, primo do "rei dos reis" seduziu Cliternnestra, convencendo-a a preparar o assassinato de seu marido, após o regresso vitorioso. Então, a rainha, que não tinha ainda perdoado o sacrifício de Ifigénia, matou Agamérririon durante o banho, logo após o banquete que fora oferecido em sua honra.

Electra, irmã de Orestes, para evitar que o jovem fosse também vítima de Egisto, levou-o clandestinamente para junto de seu tio, Estrófio (marido da irmã de Agamémnon), que reinava na Fócida. Orestes foi assim educado na corte com o seu primo Pílades, filho do rei. Uma sólida amizade uniu, para sempre, os dois rapazes e Pílades, mais tarde, acabará por desposar Electra.

Quando Orestes chegou à idade adulta, a sua irmã, encorajada pelo oráculo de Delfos, incitou-o a vingar a morte de seu pai. Então o jovem, acompanhado por Pílades, dirigiu-se a Micenas e matou Egisto. Depois, comovido pelas súplicas de sua mãe, quase renunciou a castigá-la, mas Pílades lembrou-lhe a sua missão secreta: vingar o assassinato de Agamérrinon e então Orestes cometeu o parricídio. Os deuses, enfurecidos, enviaram-lhe as Eurnénides, divindades vingadoras dos crimes familiares, que o enlouqueceram. Para vencer esta loucura, Orestes refugiou-se junto de Apolo, a fim de ser purificado. E só depois é que o assassino se apresentou perante o tribunal dos homens, com sede em Atenas, presidido pela deusa da cidade. Mas entretanto a Pítia proclamou que Orestes só seria curado da sua loucura quando trouxesse, para Atenas, uma estátua de Ártemis venerada na Táurida.

Orestes embarcou, então, para a Táurida, acompanhado de Pílades. Mas mal chegaram, os dois estrangeiros foram capturados pelos habitantes, a fim de serem sacrificados a Ártemis. Quando estes foram conduzidos perante a deusa, verificaram que ela não era senão Ifigénia, que Ártemis tinha salvo da morte e que, desde então, vivia no seu templo, como sacerdotisa. Ifigénia afastou, então, o povo, acalmou a desconfiança do rei e aceitou ajudar o seu

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Orestes

irmão. Secretamente, roubou a estátua, regressando à Grécia na companhia 'dos dois amigos (Goethe inspirou-se neste episódio para escrevera sua obra-prima dramática Ifigénia na Táurída (1779-1787). A lenda de Ifigénia serviu de tema a duas tragédias líricas de Gluck: Ifigénia em Áufis (1773) e Ifigénia na Tãurída (1778).

Definitivamente libertado da sua loucura, Orestes vai, finalmente, pensar em si próprio, começando por recordar o contrato de casamento que seu pai tinha estabelecido com Menelau e Helena, segundo o qual Orestes casaria com Hermíone. Acontece que, durante a guerra de Tróia, Menelau esqueceu a sua promessa, oferecendo Hermíone a Pirro, filho de Aquiles. Aproveitando então uma altura em que Pirro se encontrava em Delfos, Orestes raptou Hermíone, provocando depois uma revolta na qual Pirro encontrará a morte.

Orestes, segundo uma versão que Racine não seguiu (em Andrómaca (1667), Orestes tocado pela fatalidade, depois de ter matado o seu rival, assiste ao suicídio de Hermíone e enlouquece), desposará Hermíone, de quem terá um filho e reinará, finalmente, sobre Micenas e sobre Esparta, sucedendo assim a seu pai e a seu avô.

Quando certo dia a peste se abateu sobre os seus territórios, o rei mandou consultar o oráculo e este exigiu que todas as cidades destruídas durante a guerra de Tróia fossem erguidas e os seus templos abertos ao culto. Orestes enviou, então, um bom número de colonos para a Ásia Menor, a fim de assegurar esta reconstrução. O rei morreu aos noventa anos de idade, depois de um longo e valoroso reinado.

Os Gregos prestaram honras divinas a um túmulo que se lhe atribuía em Tegeu, na Arcádia. Por seu lado, os Romanos afirmaram que os restos mortais de Orestes tinham sido transportados para Roma, e se encontravam sepultados no templo de Saturno, no Fórum.

Os infortúnios do Orestes assassino de sua mãe inspiraram a trilogia de Ésquilo: Oréstia (458 a. C.), tantas vezes traduzida (ef. Claudel em

1920, com música de O. Milhaud). Cf. igualmente Sófocies: Electra (c. 425 a. C. que inspirou, por sua vez, a ópera Electra, obra-prima de Strauss, 1908); Eurípides: Andrómaca (c. 426), Ifigénía na Táurida (414), Electra (413), Orestes (408); Voltaire: Orestes (1750); Girardoux: Electra (1937); Sartre: As Moscas (1943).

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Orfeu


Orfeu

Orfeu, que usa um dos nomes mais ilustres da mitologia, é filho da Musa Calíope e do rei da Trácia, Eagro. Contrariamente à maior parte dos heróis da antiguidade, a sua glória não provém do seu vigor físico, mas dos seus dons de poeta e de músico. Os encantamentos da sua voz ou da sua lira (ele passa por ter sido o inventor da lira com nove cordas; o número nove é alusivo ao número das Musas) seduziam as plantas, amansavam as feras e acalmavam os ânimos dos mortais mais perigosos. Os Argonautas serviram-se dos seus dons para marcar a cadência dos remadores, para apaziguar as emoções, mas também para acalmar as ondas impetuosas e mesmo para afrontar, vitoriosamente, as Sirenes, cujos sortilégios foram vencidos pela força dos seus cantos.

Atribui-se a Orfeu, depois de uma viagem que ele teria efectuado no Egipto, a instituição dos mistérios sagrados de Apolo e de Dioniso.

O poeta desposou a ninfa Eurídice, que amou profundamente. Certo dia, Aristeu, filho de Apolo, seduzido pelos encantos de Eurídice, tentou violá-la. Ao fugir, a jovem pisou uma víbora que a mordeu, acabando por morrer em consequência desta ferida. Mas Orfeu recusou resignar-se e decidiu descer aos Infernos para ir procurar a sua mulher perdida. Os sons da sua lira e os seus gritos de dorforam tão convincentes que Hades e Perséfone se deixaram tocar e devolveram Eurídice a seu marido. Impuseram-lhe, no entanto, uma única condição: que Orfeu, ao longo do trajecto subterrâneo, não se voltasse para trás. Acontece que o poeta, ou porque quisesse verificar se os deuses tinham cumprido a sua palavra e Eurídice o seguia ou porque não resistisse ao desejo de olhar a sua mulher tão amada, se voltou antes de ter saído dos Infernos: Eurídice desapareceu então, imediatamente, e desta vez para sempre.

Orfeu ficou inconsolável. A tal ponto que as mulheres da Trácia não puderam suportar a sua indiferença e resolveram matá-lo, despedaçando o seu corpo em bocados que atiraram ao rio Hebro (uma outra tradição atribui o massacre às Mériades que acusavam Orfeu de favorecer Apolo - o mestre espiritual - em detrimento de Dioniso - o impulso vital). Mas a cabeça e a lira do poeta, conduzidas até ao mar, foram dar à ilha de Lesbos, cujos habitantes prestaram honras fúnebres a Orfeu e lhe construíram um túmulo. Em recompensa, Lesbos tornar-se-á o centro privilegiado da poesia.

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Orfismo

A alma de Orfeu foi acolhida na ilha dos Bem-aventurados, reservada aos heróis. Quanto à sua lira, foi transformada numa constelação.

A viagem de Orfeu no além tornou-se o ponto de partida de uma teologia, o orfismo, que por um lado veicula uma explicação do universo e, por outro, apresenta uma doutrina da salvação.

Os artistas foram largamente inspirados pela lenda do genial e divino poeta, desde o escultor do séc. v, autor do célebre baixo-relevo (Nápoles, Louvre, Roma: Vila Albani) representando Orfeu em companhia de Hermes e de Eurídice, até Zadkine, passando por Bellini (Washington), Bruegel de Velours (Madrid), L. Carrache (Bolonha), Tintoreto (Modena), Rubens (Madrid), Poussin (Louvre), Delacroix (Montpellier; Paris: Assembleia Nacional), G. Moreau (Louvre), Cocteau (filmes, peças, desenhos), etc. A tragédia que este casal ideal viveu inspirou numerosos homens do teatro: Monteverdi no séc. xvii (1607) e Gluck no séc. xviii (1764) compuseram duas óperas sobre este tema. Cf. igualmente a cantata de Berlioz A morte de Orfeu (1827), a trilogia da Orfeida (1918-1921) de Malipiero e Os Infortúnios de Orfeu (1927) de O. Milhaud. Cf. também o Orfeu nos Infernos (1858) de Menhach e o Orfeu (1926) de Cocteau.

Orfismo

A doutrina órfica assenta em primeiro lugar numa explicação da origem do mundo. No começo era Cronol, o Tempo. Dele saíram Caos, o infinito, e Éter, o finito. A união de Éter e de Caos produziu um enorme ovo de prata, o ovo cósmico, cuja casca foi a Noite. Deste ovo nasceu o primeiro ser, simultaneamente macho e fêmea, dotado de várias cabeças e possuindo em si

1 Diferente do Titã Crono, se bem que desde a Antiguidade tenham sido por vezes confundidos.

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Orfismo

mesmo o germe de todas as coisas: Fanes - a luz - também chamado Protogonos - o primeiro nascido - e Eros.

Depois do nascimento de Fanes, a parte superior do ovo transformou-se na abóbada celeste e a parte inferior na terra e nas suas profundezas. Depois, Fanes criou o Sol e a Lua.

A continuação da narração é apresentada em duas versões diferentes:

1 - Fanes e a Noite geraram úrano, o Céu, e Geia, a Terra, tendo sido ele, igualmente, o responsável pelo nascimento de Zeus.

2 - A Noite (que nesta versão é filha de Fanes) gerou úrano e Geia. úrano reinará sobre o Universo material, enquanto que Fanes reina sobre o mundo do espírito. Depois o casal Céu-Terra - retomamos aqui a mitologia tradicional - dará origem aos Titãs. Um deles, Cronos, destrona o seu pai e é, por sua vez, destronado por Zeus, seu filho. Este irá devorar Fanes que tinha a soberania do mundo imaterial, a fim de assegurara unidade indissolúvel da matéria e do espírito. Mais tarde, juntamente com Perséfone, sua filha, gerará Zagreu, a divindade principal do Orfismo. Mas a criança será raptada pelos seus inimigos, que desfazem o seu corpo em pedaços, a fim de o devorar. Angustiado Zeus irá então ressuscitá-lo na forma de Dioniso.

Mais importante ainda do que a teoria sobre as origens do Universo é a doutrina órfica relativa ao destino do homem.

No princípio, as almas, imortais, criadas pelos deuses, viviam no céu. Mas devido a uma mácula indeterminada, espécie de pecado original, elas caíram em degradação e foram condenadas a viver sobre a terra, prisioneiras de um corpo humano ou animal. A partir de então, cada alma deveria efectuar uma série de migrações de um corpo para outro, que correspondiam aos diferentes estádios necessários para a purificação. Após duas encarnações sucessivas, a alma descia aos Infernos, onde expiava os seus pecados. E finalmente, quando tivesse atingido a regeneração perfeita, era autorizada a voltar para junto dos deuses no céu.

Para vencer as diversas etapas da salvação, o homem deveria submeter-se ao ritual da iniciação, revelado por Orfeu no seu regresso do Além, pois aquele que desconhecesse essas sábias disposições ficaria, para sempre, prisioneiro de um cicio eterno de migrações ou então seria atirado, sem apelo, nas trevas infernais.

A influência do orfismo foi determinante na mentalidade grega, chegando mesmo a atribuir-se-lhe influência na seriedade e na melancolia manifes-

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Origem do Universo



tada pelos poetas e, igualmente, pelos escultores a partir do século iivv aa.. CC.. Platão e Pitágoras devem igualmente muito a esta doutrina. O seu fascínio não deixará de marcar também o cristianismo, nas suas origens, e a personagem de Orfeu apresenta-se como uma prefiguração pagã de Cristo.

Origem do Universo WN

"Antes de tudo" segundo a cosmogonia de Hesíodo, reinava o "espaço vazio" e ilimitado: o Caos.

Depois apareceu Geia - a matéria primordial, a terra - e Eros - a força irresistível que juntou os elementos, o princípio de vida.

Graças à acção fecundante de Eros, todas as coisas nasceram, pouco a pouco, do Espaço e da Terra.

Do Caos emergiu o mundo das Trevas: Érebo - a Obscuridade infernal e Nixe - a Noite - reunidos por Eros, vão trazer a luz ao mundo ao gerarem Éter - o Fluido vital - e Hemera - o Dia.

Pela sua parte Geia dará à luz úrano - o Céu estrelado - que ela faz "igual, em tamanho, a si própria, a fim de que ele possa cobri-ia completamente". Seguidamente, cria as montanhas, Urea e Ponto, o mar.

Gela e úrano ou a 1.1 Geração Estando constituído o Universo, Geia vai povoá-lo de deuses e de deusas. "Dos afagos de úrano" que a fertilizam, dará à luz os doze Titãs (seis de cada sexo, personificando as forças da natureza), três Ciclopes, seres fabulosos com um único olho, e três colossos com cinquenta cabeças e cem braços, os Hecatonquiros.

Entretanto, úrano, horrorizado com os seus monstruosos filhos, aprisiona-os desde o seu nascimento, nas entranhas da Terra. Mas certo dia, Geia resolve pôr termo a esta situação, e com um ferro extraído do seu seio, fabrica uma foice, que entrega aos seus filhos para que estes se libertem do opressor. O último destes, Cronos, aceita a missão e, quando úrano, acompanhado pela Noite, se deita sobre a sua esposa, a foice entra em acção, decepando o pai indigno do seu poder procriador e, portanto, da sua força toda poderosa.

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Origem do Universo

Entretanto, os pedaços mutilados do tirano irão produzir uma outra descendência. Geia, fecundada pelos salpicos de sangue negro, dará à luz as Erínias, os Gigantes, e as Ninfas Melíades. Curiosamente, dos destroços caídos no mar surgirá uma espuma branca em forma de pérola que dará corpo (para o melhor e para o pior na história futura, dos deuses e dos homens) a Afrodite, a deusa do amor.

O reino de Cronos ou a 2.1 Geração Cronos, após ter destruido o seu pai e libertado os seus irmãos, os Titãs (mas não os Cielopes e os Hecatonquiros, que ficam ainda nas profundezas da Terra), irá reinar sobre o Universo.

Entretanto, sucedem-se novas etapas da criação. Os Titãs unem-se entre si: particularmente, Oceano e Tétis que gerarão os três mil rios e as três mil ninfas das águas. Depois Métis - a sabedoria - Tique - a Fortuna - e Dione (que Homero, ignorando a versão de Hesíodo, apresenta como mãe de Afrodite). De Hipérion e de Teia nascerão Hélio - o Sol - Selene - a Lua -

e Eos - a Aurora. Quanto a Cronos, desposará a sua irmã Reia e será, um dia, afastado do trono e suplantado pelo último dos seus seis filhos, Zeus.

Por seu lado, a Noite povoa o mundo com uma multiplicidade de seres: Moro - o Destino - Tânato e Hipno, os dois irmãos personificando a Morte e o Sono, as três Moiras (que os Romanos chamam Parcas), Némesis, deusa da vingança, Éris, a Discórdia....

A própria Geia resolve unir-se com o seu filho Ponto - o Mar fertilizante - dando à luz o bom Nereu, deus marinho (o qual, casado com Dóris, filha do Titã Oceano, gerará as cinquenta Nereides, divindades benfeitoras do mar), Taumas (que se tornará pai das Harpias, divindades das tempestades e de íris, o arco no céu), Fórcis e Ceto (que conceberão as Greias e as Górgonas) e Euríbia (cujo filho Astreu, unido com Aurora, gerará os ventos e os astros).

Por tudo isto, Geia merecerá plenamente o seu título de "mãe universal". Mas ela deu ainda origem aos primeiros humanos, saídos do seu ventre criador.

Sob o reinado de Cronos, os homens, semelhantes aos deuses, viverão sem dificuldades nem preocupações, alimentados pela terra fecunda e sucumbindo ao último sono, sem conhecer a doença ou a velhice. É a idade de ouro, a primeira das quatro idades da humanidade.

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Oríon

Este é o relato da origem do Universo apresentado por Hesíodo. Esta concepção acabou por tornar-se a mais popular, inspirando escritores e artistas.

A doutrina do Orfismo dará, no entanto, um relato muito diferente das origens.

A mutilação de úrano é vista pelos psicanalistas como o arquétipo da oposição do filho ao pai.

Oríon

O gigante Oríon nasceu em circunstâncias muito particulares, verdadeiramente forjadas num jogo de palavras. O rei da Híria, na Beócia, tinha suplicado um filho a Zeus e, então, Posídon e Hermes, que ele tinha abrigado, ao saberem deste seu desejo, urinaram sobre uma pele de vitela que esticaram sobre a terra e esta, nove meses mais tarde, deu à luz Oríon (Ouron = urina).



Oríon era tão alto que tocava com os seus pés o fundo dos mares, conservando a cabeça fora de água. E era tão forte que ninguém no mundo podia comparar com ele os seus despojos de caça e era tão belo que provocava a admiração e a paixão à sua simples passagem.

Oríon era muito apreciado por Ártemis a quem servia como cavaleiro. Ele costumava acompanhar a casta deusa nas suas viagens até que, um dia, Eos, a Aurora, se apaixonou perdidamente por ele e o raptou, levando-o consigo para a ilha de Delos. O que aconteceu depois não sabemos ao certo, pois existem duas versões da lenda. Uma refere que Ártemis, encolerizada, enviou a Oríon um escorpião que o mordeu e matou. Outra diz que o jovem tentou seduzir a deusa e que esta, para o castigar, lhe enviou um escorpião que o mordeu, provocando-lhe a morte.

O insecto e a sua vítima foram, mais tarde, transformados em constelações, constatando-se que, a partir do momento em que o escorpião apareceu no céu, o brilho de Oríon esmoreceu.

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Pá é uma divindade bucólica que parece originária da Arcádia. A sua lenda é pobre e confusa. Por vezes aparece como filho de Zeus, outras como filho de Hermes (ou mesmo como o filho que os cinquenta pretendentes à mão de Penélope teriam tido em comum com a esposa de Ulisses depois de terem sido seus sucessivos amantes) e ainda como filho de Cronos ou de úrano...

Os mitógrafos e os filósofos, depois de reflectirem sobre a etimologia popular do seu nome - Pan em grego significa tudo - consideraram-no como a incarnação da natureza universal.

Pá é um deus fecundante, muito activo na conquista amorosa, quer junto das ninfas como das adolescentes, aos quais inspira um "medo pânico". Foi assim que, para escapar à sua perseguição, a ninfa Siringe se precipitou nos juncos do rio Ladão, transformando-se num deles. Então, Pá cortou vários destes juncos, de diferentes tamanhos, juntou-os com cera e exprimiu o seu amor, soprando neste instrumento a que mais tarde se chamou a flauta de Pá.

Em Roma, ele será identificado com o deus Fauno ou com o deus Silvano. Plutarco narrou uma tradição segundo a qual vozes ouvidas sobre o mar teriam proclamado "a morte do grande Pã" e isto no momento do nascimento de Cristo.

Pá é representado como um homem com pés de bode, coroado com pinheiros, usando o cajado de pastor ou tocando a flauta.

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Pai das Riquezas



Pai das Riquezas

O Pai das Riquezas, divindade infernal dos Romanos, pode ser identificado com o Plutão dos Gregos. O seu nome (como o de Plutão) significa a riqueza, aludindo assim a alguém cujo número de bens não deixava de aumentar sem cessar. Ele é igualmente assimilado a Orcos, gênio romano da morte e dos Infernos, que a língua popular confundiu muitas vezes com a própria morada dos mortos.

Palãdio

O Paiádio é uma estátua (com cerca de 1,30m de altura), talhada num tronco de árvore, representando a deusa Palas-Atena de pé, segurando com a mão direita uma lança e com a esquerda uma roca e um fuso (os seus atributos guerreiros e domésticos). Esta estátua passava por ter uma origem divina e por proteger a cidade que a possuía e venerava.

Dizia-se que o Paládio fora obra da própria Atena, que tinha assim perpetuado a lembrança de uma companheira de jogos, chamada Palas, a quem tinha involuntariamente provocado a morte, e a quem ela tinha assimilado o nome e a personalidade. Esta estátua tinha sido colocada no Olimpo, junto de Zeus, até que um dia, o rei dos deuses, furioso com a ninfa Electra que, para escapar à sua perseguição, acreditou encontrar asilo junto da estátua, apoderou-se dela e precipitou-a sobre a terra. Curiosamente, ela caiu na cidade de Tróia que Ilo acabava de fundar.

Foi assim que o Paládio protegeu a cidade até que Ulisses e Diomedes, tendo-se apercebido da sua propriedade divina, conseguiram entrar no interior de Tróia e roubaram a estátua, que teria sido, posteriormente, enviada ao rei de Atenas, Demofonte.

Mas este episódio e outros análogos são rejeitados por aqueles que, como Virgílio, afirmam que o Paládio - em todo o caso a verdade - foi salvo por Eneias, que o levou até Itália. Diz-se que foi, depois, conservado em Roma no templo de Vesta.

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Pandora

Pales


Pales, de início uma divindade masculina, tornou-se a deusa romana protectora dos rebanhos. Ela terá dado o seu nome à colina do Palatino, sobre a qual Rómulo fundou a cidade de Roma. A festa de Pales celebra-se no dia do aniversário desta fundação (a 21 de Abril).

Palicos


Designam-se como Palicos os dois irmãos que uma certa tradição apresenta como filhos de Zeus e da Ninfa Talia, filha de Hefesto (uma outra versão da lenda dá-os como filhos de Hefesto e da ninfa Etna).

Temendo os ciúmes de Hera, mulher de Zeus, Talia, quando engravidou, resolveu dissimular-se nas profundezas do solo da Sicília. Assim, quando os seus filhos, gêmeos, nasceram, foram obrigados a sair de debaixo da terra, razão pela qual lhes foi atribuído o nome de Palicos, que significa: os que voltam.

Como todas as divindades ctónicas, os Palicos eram invocados nos juramentos e passavam por castigar os perjuros, de cegueira. O seu santuário elevava-se na Sicília perto do lago de Naffia, cujos fenômenos vulcânicos (jactos de água quente, odores sulfurosos, quedas espectaculares de pássaros asfixiados) acabaram por transformar, no imaginário popular, os dois irmãos em divindades terríveis.

Pandora


Pandora, cujo nome significa todos os dons foi, com efeito, adornada por Hefesto e Atena, segundo ordens de Zeus, com todos os dons, à imagem dos imortais.

A intenção de Zeus era enviar um castigo à raça humana, após o ultraje cometido por Prometeu, que roubara o fogo divino. Assim, o rei dos deuses enviou Pandora a Epimeteu, irmão de Prometeu que, esquecendo as reco-

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Parnaso


mendações de seu irmão contra qualquer presente vindo de Zeus e seduzido pela jovem, decidiu aceitá-la e tomá-la como sua esposa (Pandora será a mãe de Pirra, que desposará Deucalião, filho de Prometeu).

Pandora transportara consigo um pote que deveria manter, eternamente, fechado. Mas Hermes colocara a curiosidade no coração de Pandora, levando-a a destapar o pote, de onde saíram todos os males que se espalharam, imediatamente, sobre a terra. No fundo do pote restou, unicamente, a esperança, a fim de reconfortar o gênero humano.

Parnaso

O maciço montanhoso de Parnaso, a 2500 m de altitude, é o lugar predilecto de Apolo e das Musas, na Fócida. Nos seus fiancos nasce a fonte Castália, que confere a inspiração poética.

Vários pintores (Mantegna, Tintoreto, Rafaci, Poussin ... ) representaram esta montanha como o lugar de morada de todas as divindades ligadas às artes,

O nome Parnaso foi dado, como título, a recolha de poemas e, seguidamente, atribuído (no séc. xix) à escola poética francesa reunida à volta de Th. Gautier, Leconte de Lisle, Heredia, etc.

Peleu

Peleu é filho de Éaco, rei da Egina, e irmão de Téiamon, mas o seu pai tivera ainda um outro filho, a quem chamara Foco, da Nereide Psérnate. Acontece que Éaco e Téiamon tinham muitos ciúmes do seu meio-irmão e, um dia, decidiram matá-lo no decurso de uma partida de malha.



Então, Éaco viu-se obrigado a exilar os seus filhos. Peleu partiu para a Riótida (na Tessália), onde foi purificado pelo rei que lhe deu em casamento a sua filha, Antígona.

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Peleu

Algum tempo depois, Peleu foi chamado a participar, por convite de Jasão, sobrinho do rei da cidade vizinha, lolco, na expedição dos Argonautas.

No regresso desta missão, o herói foi levado a matar, acidentalmente, o seu sogro, graças a uma artimanha de Psárnate que jurara vingar a morte de seu filho, quando participava com um certo número de antigos Argonautas na caçada de Cálidon.

Este episódio conduziu a um segundo exílio. Peleu refugiou-se, então, em lolco, cujo novo rei, Acasto, tinha sido igualmente seu companheiro no navio Argo. Acontece que a mulher de A,casto, Astidamia, se apaixonou por Peleu e, como este não retribuísse a sua paixão, resolveu vingar-se. Primeiro informou Antígona que Peleu a iria repudiar a fim de casar com a sua filha. Depois acusou o herói, perante seu marido, de ter tentado seduzi-ia violentamente. Antígona entrou em desespero e Acasto, para não ser ele próprio o assassino do seu convidado, enviou-o para uma caçada mortal.

Assim Peleu partiu mais uma vez e, no fim de uma jornada extenuante, adormeceu no monte Pélion, ficando à mercê das feras selvagens. Quando acordou encontrou-se rodeado de centauros que se preparavam para o matar, se o bom centauro Quíron não interviesse a fim de o salvar.

Compreendendo a vingança da rainha e a astúcia de seu marido, Peleu decidiu, então, vingar-se do casal real. Para tal, reuniu as suas tropas que juntou às de Jasão, expulso pelo pai de Acasto do trono de lolco, e juntos cercaram a cidade, que foi completamente destruída. Peleu cumpriu a sua vingança, matando o próprio rei, Acasto, e despedaçando o corpo de sua mulher.

O herói participou, ainda, ao lado de Héracies, na sua expedição ao país das Amazonas e, mais tarde, na guerra contra Laomedonte, rei de Tróia.

Enquanto estes acontecimentos se desenrolavam na terra, o Olimpo vivia uma crise muito séria. Zeus tentava libertar-se de Hera, a fim de desposar a bela Nereide Tétis, por quem Posídon também se apaixonara. Mas, entretanto, os destinos fizeram saber (pela boca de Prometeu) que o filho nascido de Tétis seria mais poderoso do que o seu próprio pai. Este vaticínio provocou, imediatamente, um enfraquecimento da paixão dos dois deuses, que resolveram casar Tétis com um mortal.

Peleu foi, então, o escolhido, dando imediatamente o seu consentimento. Mas a deusa não concordou com a opção de Zeus e Posídon e, como era uma divindade do mar, tendo assim o dom das transformações, resolveu usar

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Pélops

de todos os seus meios para escapar ao seu suspirante mortal. Acontece que, certo dia, Peleu conseguiu apanhá-la, sendo então marcado o casamento, cujas festividades tiveram lugar no monte Pélion. Foi no decurso destas festas que a deusa da Discórdia lançou, no meio dos participantes, a terrível maçã de ouro que esteve na origem da guerra de Tróia.

Entre os presentes oferecidos aos noivos figuravam os dois cavalos imortais, que mais tarde foram usados pelo herói Aquiles, o filho que nasceu desta união.

Muitos anos mais tarde, quando Aquiles combatia sobre as muralhas de Tróia, os filhos de Acasto atacaram Peleu, que na altura era já um velho, e afastaram-no do trono.

Pélops

Pélops, filho de Tântalo, rei da Frígia, é irmão de Níobe, famosa pela sua dor maternal.



Ainda criança, Pélops foi morto, cortado em bocados, e depois servido por seu pai, no decurso de um banquete, aos deuses que tinham vindo jantar a sua casa. Não sabemos se Tântalo não teria nada mais para servir aos seus ilustres hóspedes ou se teria querido, simplesmente, experimentar a sua sagacidade. Mas a verdade é que os deuses (à excepção de Deméter) se abstiveram de tocar nos monstruosos bocados, maldizendo o criminoso e restituindo a vida, de novo, a Pélops.

Mais tarde, Posídon apaixonou-se pelo rapaz e levou-o consigo para o Olimpo, transformando-o no seu escanção. Curiosamente, Tântalo não perdeu o contacto com o seu filho, utilizando-o mesmo para se apropriar da ambrosia e do néctar! Quando os deuses descobriram, expulsaram Pélops do Olimpo.

Este regressou então à Frígia, onde não se demorou muito tempo, pois o seu pai, a pedido de Zeus, teria sido responsável pelo rapto de Ganimedes e Ilo, irmão do jovem raptado e rei de Tróia, decidiu então expulsar Tântalo e a sua família do país.

Pélops emigrou para a Grécia, onde adquiriu uma grande fortuna e seduziu Hipodamia, filha do rei Enórnão da Élide.

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Penates


Enórnão, filho de Ares, tinha sido prevenido pelo oráculo que encontraria a morte às mãos do seu genro. Assim, decidira colocar obstáculos a todos os pretendentes à mão de Hipodamia. Desafiava-os para uma corrida de carro, dominava-os graças aos cavalos maravilhosos que lhe tinham sido dados por seu pai Ares, e, finalmente, matava-os.

Mas Hipodamia decidiu subornar o cocheiro de seu pai, no dia da sua corrida contra Pélops. Os eixos do carro de Enórnão partiram-se e o rei pereceu na disputa.

Algum tempo depois, quando Pélops era já o rei da Élide, fundou os primeiros Jogos Olímpicos em memória de Enórnão e instituiu uma festa consagrada a Hera, deusa do casamento, em honra de Hipodamia, sua mulher.

Pélops e Hipodamia tiveram um grande número de filhos, entre os quais Atreu e Tiestes, Alcátoo (avô do grande Ájax), Piteu (avô de Teseu) e Astidamia, possivelmente mãe de Anfitrião.

Mas Pélops teve igualmente um filho, Crisipo, de uma relação com uma ninfa. Hipodamia resolveu então provocar os ciúmes dos seus filhos Atreu e Tiestes contra o bastardo e estes acabaram por matar o seu próprio irmão. Magoado, Pélops baniu Hipodamia e os seus dois filhos do país, levando-os a procurar refúgio na Argólida. A maldição sobre os assassinos está na origem do terrível destino que acompanhará a família dos Átridas.

Quando se deu a guerra de Tróia onde Menelau e Agamémnon, netos de Pélops, foram os protagonistas, o oráculo proclamou que a cidade não poderia ser vencida sem que os ossos de Pélops regressassem à sua pátria. A "voz profética" foi, então, cumprida a fim de permitir a vitória dos filhos de Atreu.

O nome de Pélops foi dado a toda a península helénica: Peloponeso, que significa a ilha de Pélops.

Penates MINEURIMIMEIUM UIVI

Cada família romana adorava dois penates, cuja função era velar sobre a dispensa (penus).

O seu altar, partilhado com a deusa Vesta, era erigido no centro da casa. Quando a família viajava, transportava consigo os seus penates.

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Perséfone



O povo romano venerava também os seus penates pálicos, os penates da Regia, que eram colocados no altar de Vesta.

PersMone ~~,affiffilaffix -Uma, waM,

Core (a jovem) era filha de Deméter e do seu irmão Zeus. A jovem cresceu ao ar livre, na Sicília, até que um dia foi vista pelo seu tio Hades, que decidiu raptá-la. Para o efeito, abriu um buraco no lugar em que Core colhia flores e a jovem deusa desapareceu nas profundezas da terra, gritando de uma forma tão violenta que o seu grito foi ouvido em todo o Universo, despedaçando o coração de sua mãe.

Entretanto, Deméter procurou a sua filha por todos os lugares, com uma coragem, uma perseverança e uma dor que Zeus, sensibilizado, ordenou a Hades que entregasse Core a sua mãe.

Acontece que ninguém podia regressar à luz se durante a sua estadia no mundo subterrâneo tivesse absorvido algum alimento. E Core tinha sido forçada por Hermes a comer um grão de romã, o que era suficiente para mantê-Ia prisioneira dos Infernos. Entretanto, Hades desposou Core e transformou a filha do Céu e da terra na Senhora do mundo subterrâneo, com o nome de Perséfone.

Mas Deméter, no seu papel de deusa-mãe, recusou-se a germinar a terra, ameaçando seriamente a ordem universal, enquanto a sua filha não regressasse. Zeus viu-se assim obrigado a procurar uma solução, autorizando Perséfone a passar alguns meses do ano junto de sua mãe. Neste período, a Primavera, Deméter, assumia de novo as suas funções de deusa-mãe, que cessavam quando a filha regressava aos Infernos. Então caía o Inverno estéril.

Fora do casamento, Perséfone viveu, ainda, uma paixão com Aclónis, o belo jovem Sírio, que a deusa roubou a Afrodite. Mas como esta teimava em não deixar partir o jovem, selou-se então um novo compromisso: Aclónis viveria, cada ano, uma estação com Perséfone, estando consagrado a Afrodite no resto do tempo.

Perséfone parece tertido, também, um filho de seu pai, Zeus. Por vezes, este é apresentado como o deus solar Sabázio, noutras, e segundo a doutrina

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Perseu


órfica, ele teria sido o deus Zagreu que será perseguido, morto e depois ressuscitado, com o nome de Dioniso.

Perséfone, cujos atributos são o archote e a papoila, figura com a sua mãe Deméter nos mistérios de Elêusis. Os Romanos assimilaram-na à deusa etrusca Prosérpina e veneraram-na ao lado do Pai das Riquezas.

Uma ópera de LuIly (1680) usa o título de Prosérpina.

Perseu


Perseu é filho de Dánae, que foi amada por Zeus e visitada por ele sob a forma de chuva de ouro, na câmara subterrânea em que seu pai a tinha aprisionado. Com efeito, Acrísio, rei de Argos, tinha sabido por um oráculo que encontraria a morte às mãos do seu neto. Assim, quando soube do nascimento da criança, fechou-o com a sua mãe numa arca, que deitou ao mar. Mas esta foi dar à ilha de Serifo onde um pescador recolheu os dois ocupantes.

O rei da ilha, Polidectes, apaixonou-se perdidamente por Dánae e Perseu, que entretanto se tornara um homem, constituía um sério obstáculo a este amor. Então Polidectes decidiu dar um banquete, destinado a anunciar o seu casamento com Hipodamia, a filha do rei da Élide. No decurso da refeição, ele sugeriu aos seus convidados os presentes que estes deveriam dar-lhe. A Perseu pediu a cabeça da Górgona.

As Górgonas eram três horríveis monstros alados, com cabeleira de serpentes, com dentes de javali, com pescoço coberto de escamas e com mãos de bronze, que viviam no outro lado do mar, no país das Hespérides. Elas tinham o poder de transformar em estátua de pedra todo e qualquer mortal sobre o qual deitassem o seu olhar.

No decurso do banquete, Perseu não recusou o desafio real. Mas Zeus, que velava pelo seu filho, enviou Hermes e Atena à terra, a fim de protegerem o irmão. Então, Perseu dirigiu-se à morada das Greias, irmãs das Górgonas, para obter delas um itinerário que o conduzisse ao seu destino. As Greias (cujo nome significa As Velhas) eram três divindades nascidas com cabelos

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Perseu


brancos e que possuíam, em comum, um só dente e um só olho dos quais se serviam, uma de cada vez. A fim de lhes retirar mais facilmente a resposta, Perseu começou por lhes subtrair o olho e o dente assim como o capacete de Hades, que elas guardavam, e que tinha a propriedade de tornar invisível quem o usasse. As Greias, para recuperar os seus bens, aceitaram ajudar Perseu. E este, sempre acompanhado de Hermes e de Atena, viajou para a extremidade do mundo ocidental.

Por sorte, as Górgonas dormiam quando o herói as encontrou. Das três, uma delas, Medusa, era mortal. Foi esta que Perseu atacou. Virando a cabeça para evitar o olhar perigoso, mas com o braço guiado por Atena e com a ajuda de uma arma enviada por Hermes, o herói decapitou o monstro.

Entretanto dos salpicos de sangue nasceram dois seres, filhos dos amores de Medusa e de Posídon: o cavalo alado Pégaso e um gigante com uma espada de ouro, Crisaor (o pai de Gérion, gigante com três corpos, que abateu Héracies).

Perseu colocou a cabeça de Medusa num saco e, para escapar à perseguição das irmãs das vítimas, protegido pelo capacete mágico, saltou para o dorso de Pégaso e fugiu.

Não parou até chegar aos limites orientais de África, na Etiópia, onde encontrou o rei Cefeu e a rainha Cassiopeia em desespero, porque Posídon enviara, sobre o país, um monstro marinho que devorava rebanhos e habitantes. Tudo acontecera porque Cassiopeia ofendera as Nereides ao comparar-se com elas em beleza. E, para maior desgraça, o oráculo de Amon proclamara que só o sacrifício de Andrómeda, filha do casal real, poderia afastar o monstro do país. Cefeu consentiu, então, em sacrificar a jovem, mas Perseu ao vê-Ia, aguardando a morte, sobre um rochedo, apaixonou-se por ela. Imediatamente decidiu utilizar as suas armas maravilhosas, defendeu-se do monstro e libertou a princesa a quem desposou.

Acompanhado de Andrómeda, regressou a Serifo, sabendo então que Polidectes, aproveitando a sua ausência e esperando a sua morte, tentara seduzir Dánae. Dirigiu-se ao palácio, entrou na sala em que o rei estava com os seus amigos e apresentou-lhes a cabeça da Medusa. Imediatamente todos ficaram petrificados. Perseu chamou, então, Dictus para suceder a seu irmão, restituiu os objectos sagrados que tinha na sua posse e ofereceu a cabeça da Medusa a Atena, que a colocou no centro do seu escudo.

Depois, Perseu, acompanhado de sua mãe e de sua mulher decidiu regressar à sua pátria, a Argólida. Acrísio, informado da decisão do seu neto,

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Perseu

Abas rei de Argos e Tirinto

Acrísio Preto rei de Argos rei de Tirinto

--nae


Perseu rei de Tirinto e de Micenas

Megapentes que se tornou rei de Argos

decidiu fugir imediatamente do país. Encontrava-se em Larissa, no país dos Pelasgos, quando o rei deste país morreu. Em sua honra foram organizados jogos fúnebres para os quais Perseu foi convidado. No decurso destes jogos, Perseu lançou o disco que feriu mortalmente Acrísio, escondido no meio dos espectadores.

Como consequência deste acto, Perseu sentiu escrúpulos em suceder no trono de Argos, a seu avô, trocando assim Argos por Tirinto onde reinava um primo de Dáriae. Aqui se fixou com a sua família, fundando, seguidamente, a cidade de Micenas.

Perseu teve três filhos: Esténelo e Alceu, que casaram com duas filhas de Pélops, e Eléctrion, cuja filha, Aicmena, deu à luz Héracies, das suas relações com Zeus. Teve ainda uma filha, Gorgófona (feminino do cognome de Perseu: o assassino de Górgona), que viria a ser a mãe de Tíndaro e de Icário (pai de Penélope).

À sua morte, Perseu, tal como sua mulher Andrómeda e os seus sogros Cefeu e Cassiopeia, foi transformado numa constelação.

Parseu apresentando a cabeça de Medusa é um célebre bronze de B. Cellini, exposto em Florença; A libertação deAndrómedafoi ilustrada por numerosos pintores (Piero di Cosimo, Ticiano, Rubens, Rembrandt, Le Moyne, Ch.-A. Coypel) e esculpida por Puget. Inspirou, ainda, a tragédia de Corneille, Andrómeda (1650) e a ópera de Lully, PersBu (1682).

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Miades

Plêiades


As Miades são sete ninfas, filhas de Atlas e de Plêione, que foram muito amadas pelos deuses, com excepção de uma delas, Mérope, que desposou Sísifo.

Um dia em que elas estavam a ser perseguidas, nas montanhas da Beócia, pelo gigante Orion, imploraram ajuda a Zeus. Este transformou-as, imediatamente, em pombas (é este o sentido da palavra plêiades) conduzindo-as para o céu, onde se transformaram em estrelas. Na Primavera, elas brilhavam com grande fulgor, à excepção de Mérope, cujo brilho era mais ténue do que o das suas irmãs.

Existe uma outra explicação para a metamorfose destas ninfas. As

WMM-M~M @I_ - @~ @ E

Plêiades tinham um irmão, Hias, e cinco irmãs, as Híades. Estas eram citadas como tendo elevado Zeus, em Doclona e, mais tarde, Dioniso em Nisa.

Acontece que Hias foi morto no decurso de uma caçada, deixando as suas irmãs inconsoláveis. Os deuses, por piedade com a dor das jovens, decidiram transformá-las, então, em astros: a aparição das Híades no céu anuncia, a partir de então, a estação das chuvas (este é o sentido da palavra Híades).

Por alusão às sete filhas de Atlas, chama-se piêiade a um grupo de sete pessoas unidas por interesses comuns; a mais célebre piêiade foi aquela que reuniu à volta de Ronsard e de Du Bellay os poetas franceses da Renascença.

Polifemo e

O mais conhecido dos Ciclopes de carácter pastoral (graças a Homero e mais tarde a Sófocles que lhe consagrou um drama satírico: O Giclope), o monstruoso Polifemo, filho de Posídon, vivia do leite e do queijo dos seus rebanhos, numa caverna da Sicília. Certo dia, apaixonou-se pela Nereide Galateia, mas ao ser preterido em favor do pastor Ácis, decidiu vingar-se do seu rival, esmagando-o contra um rochedo.

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Pomona

Polifemo foi o involuntário hospedeiro de Ulisses e dos seus companheiros que se refugiaram na sua caverna, acabando por ser retidos como prisioneiros. Entretanto, Polifemo começou a alimentar-se da carne huma "na dos seus hóspedes. Ulisses decidiu, então, embebedá-lo e, durante o sono do ébrio, espetou-lhe um enorme tronco com a ponta em brasa, no seu único olho. O monstro, a quem Ulisses se tinha apresentado com o nome Ainguém", gritou de dor e de raiva, chamando todos os outros Ciclopes. Mas quando estes acorreram e perguntaram o nome do responsável pela sua dor, ele não soube responder senão: "Ninguém". Ulisses conseguiu, entretanto, fugir com os seus companheiros, aproveitando a saída dos rebanhos de Polifemo.

A paixão de Polifemo por Galateia inspirou o Giclope de Albert Samain assim como as óperas Ácis e Galateia de Lulily (1687), Haendel (1720) e Haydn (1763). Ácis e Galateia surpreendidos por Politemo é o tema da Fonte Médicis, da autoria de Ottin (1863) que podemos admirar no jardim do Luxemburgo em Paris. O episódio da caverna, com Ulisses, é frequentemente representado, sobretudo nos vasos antigos.

Pomona MO

Pomona, muitas vezes associada a Flora, é a divindade romana dos frutos. Ela foi amada por todos os deuses campestres e, também, pelo rei Latino Pico que, por seu amor, recusou a paixão da mágica Circe. Esta, por vingança, transformou-o num picanço-verde.

Ovídio apresenta Pomona como esposa de Verturnno, divindade das árvores de fruto, que a teria conquistado, tomando a forma de uma mulher velha.

Pomona foi tema de numerosas representações (uma célebre estátua de Mailloi tem o seu nome).

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Ponto

Ponto


Quando Geia, a Terra, no princípio dos tempos, emergiu do Caos, gerou o céu, úrano e Ponto, o mar (divindade masculina).

Depois, mais tarde, uniu-se com cada um dos seus filhos. De Ponto gerou um certo número de divindades que personalizavam as forças do mar: o benevolente Nereu, Taumas, Fórcis e Ceto, que se uniram entre si e, ainda, Euríbia, que desposou o Titã Crios, filho de Geia e de úrano.

Não devemos confundir Ponto, que representa o elemento aquático e o abismo dos mares, com Oceano, o mais velho dos Titãs, que personifica um imenso rio que, segundo as crenças primitivas, rodeia o disco terrestre.

Posídon


Posídon é o mais velho dos filhos de Cronos e de Reia. Tal como todas as suas irmãs, que o tinham precedido, e como o seu irmão Hades, que nasceu depois dele, também Posídon foi devorado por seu pai à nascença. Mas o seu irmão mais novo, Zeus, que escapou à voracidade paterna, obrigou Cronos a restituir todos os seus filhos à vida.

Assim, Posídon estará sempre ao lado de Zeus, no Olimpo, quando este tem de empreender um combate contra inimigos. A primeira vitória dos Olímpicos, sobre os Titãs, conduziu à repartição da herança de Cronos entre os seus três filhos: a Zeus coube-lhe a soberania do céu e a realeza divina; Posídon recebeu o império dos mares e Hades obteve a soberania dos Infernos.

Posídon e o seu império Parece certo que Posídon, ambicioso e invejoso, se rebelou contra a autoridade de Zeus: certo dia tentou mesmo, com a cumplicidade de Hera, afastar o rei dos deuses, mas este desfez a conspiração e exilou Posídon durante um ano, na corte do rei Laornedonte da Frígia, a quem ele serviu como escravo, construindo-lhe as muralhas de Tróia.

Ávido de exercer o seu domínio sobre as terras imersas, Posídon não se contentou em ter como morada privilegiada a ilha da Atlântida, sobre a qual reinaram o seu filho Atlas e os seus descendentes. Várias vezes entrou em

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Posídon


conflito com outros deuses na esperança de se tornar senhor de novos territórios: com Atena, a quem contestou a supremacia sobre a Ática - mas o rei Cécrops preferiu a oliveira, dom de Atena, ao cavalo, dom de Posídon; com Hera, com quem disputará o domínio da Argólida - como os três rios do país deram os seus votos à deusa, Posídon secou-os, deixando a zona numa terrível seca; com Zeus, por um lado, e com Dioniso, por outro, pela hegemonia sobre as ilhas da Egina e de Naxos; com Apolo, a quem ele deveria ceder o território de Delfos, que detinha até aí juntamente com Geia; com Hélio, pela posse do istmo de Corinto - e, desta vez ', ele ganhou a causa. A região foi dividida entre os dois concorrentes: a cidade de Corinto ficou submetida ao deus Sol e o resto do país a Posídon.

Curiosamente, a autoridade de Pos&n sobre o império dos mares nunca foi contestada, exercendo-se não só sobre os mares, mas também sobre os lagos e as águas correntes. Posídon tinha o poder de sacudir a terra, de fender as montanhas, de fazer brotar as fontes e de projectar bocados de rochas no mar, a fim de formar ilhas.

O deus habitava num palácio de ouro no fundo do mar Egeu e costumava passear-se sobre as ondas num carro atrelado a cavalos, seguido por um cortejo constituído pelas belas Nereides e pelos Tritãos, monstros com bustos de homem e corpos de peixe que sopravam nas conchas. A sua mulher era Anfitrite, uma das filhas de Nereu.

Posídon vira-a, pela primeira vez, quando ela se divertia com as suas irmãs, na ilha de Naxos. Então, propôs-lhe casamento, mas Anfitrite, assustada, fugira, refugiando-se junto de seu primo Atlas. O deus enviou, então, um golfinho à sua procura. Este encontrou-a e como prêmio pelo seu serviço foi imortalizado, sob a forma de constelação.

A partir de então, Anfitrite, reinou ao lado de Posídon. O casal divino teve três filhos: Tritão, deus do lago Tritone, na Líbia, pai de Palas, a amiga de infância de Atena; Bentesícime, residente na Etiópia, que terá um dia de educar Eumolpo, futuro rei da Trácia e fundador dos mistérios de Elêusis, um dos filhos adúlteros de seu pai e Rodo, divindade da ilha de Rodes, que dará sete filhos a Hélio.

Mas Posídon coleccionará aventuras amorosas. Com Geia, sua avó, gerará o gigante Anteu que se baterá com Héracles; de sua irmã Deméter, transformada em égua para escapar à sua paixão, ele gerará, transformado ele próprio em cavalo, o cavalo Aríon, dotado da palavra, e uma filha - apelidada

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Posídon


de A Senhora - cujo nome se mantém misterioso. É também sob o aspecto de um cavalo que ele possuirá a Górgona Medusa, gerando Crisaor, o homem da espada de ouro, e o cavalo Pégaso.

Mas também as ninfas e as mortais não resistiram ao poder de Posídon. Entre estas últimas podemos citar a princesa trácia, Teófana, que ele transformará em ovelha, tendo ele próprio tomado a forma de um carneiro e que será mãe do famoso carneiro do Velo de Ouro e Etra, esposa do rei Egeu, de Atenas, cujo filho, Teseu, talvez tenha sido fruto dos seus amores com o deus. Posídon está, assim, na origem de múltiplas genealogias.

Entre os seus filhos regista-se um grande número de seres monstruosos, violentos e malfeitores, tais como os gigantescos Aloídas, que tentarão escalar o Olimpo ou o Ciclope Polifemo.

Vingativo (a raiva do deus contra os Troianos deve-se ao facto de Laomedonte ter recusado honrar o seu trabalho: a construção das muralhas de Tróia), Posídon saberá fazer nascer os monstros mais nefastos - touros ou dragões - para se vingar deste ou daquele mortal ou para satisfazer o pedido de um dos seus próximos: é assim que morrerá - injustamente - o filho de Teseu, caluniado por Fedra, sua madrasta.

O culto de Posídon

O culto de Posídon, anterior ao de Zeus, é um dos mais antigos do mundo grego. O deus dos mares teve, na origem, mais atributos do que aqueles que dizem respeito ao seu império; o seu nome parece vir de uma raiz pot(cf. a palavra grega despotès, senhor, e o latim potens, poderoso), que evoca o poder.

O tridente, que lhe é reconhecido como atributo, parece representar o raio e sugerir que Posídon foi, primitivamente, um deus do céu, suplantado por Zeus como divindade omnipotente. Posídon saberá, no entanto, manifestar a sua vontade de poder sobre outros domínios para além do dos mares. Como personificação do elemento húmido, ele estará, por exemplo, sempre ligado à fecundidade do solo. Na Antiguidade, sacrificavam-lhe animais (particularmente o touro e o cavalo) que simbolizavam a sua acção fecundante e a sua impetuosidade.

Posídon é adorado em todo o mundo grego, especialmente em Esparta e na Jónia, em Corinto onde se celebravam em sua honra os Jogos ístmicos, assim como em todas as cidades marítimas.

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Priapo


Os Romanos assimilaram Posídon a Neptuno, o seu deus dos mares que, na origem, teve uma importância muito secundária. Virgílio apresenta-o como um deus bonacheirão, zeloso da sua autoridade, mas sabiamente preocupado com a ordem do mundo. O Neptuno da Eneida parece ter esquecido o rancor de Posídon contra os Troianos.

Existem múltiplas representações de Posidon-Neptuno em vasos, frescos, mosaicos, mármores e bronzes antigos até às obras posteriores de todo o tipo: grupo da fonte dita de Neptuno em Versailhes, por L.-S. Adam; quadro de Poussin (Filadélfia) e de Le Brun (Louvre, galeria de Apolo), representando O Triunfo de Neptuno; O Reino de Neptuno (Valentine Prax, colecção particular); Neptuno e Antitrite por Ticíano (Bienheim), Carrache (abóbada da galeria Farnese), Rubens (Berlim); Neptuno e Marte (Veronese, Veneza); Disputa de Neptuno e Mínerva (Jordaens, Florença; N. Hailé, Louvre)... A cólera de Neptuno contra os ventos contada por Virgílio (" Quos ego ... !: Eneida, 1, 135) inspirou Rubens (Dresden) e S. Rosa (Toulouse).

Priapo

O deus Priapo, filho de Dioniso e de Afrodite, disforme e dotado de um enorme membro viril, personifica o poder gerador. Na origem, ele era representado sob a forma simples de um falo.



Os pastores e os camponeses adoravam-no como o protector fecundante dos campos e dos rebanhos. Os fiéis dos mistérios veneravam-no como uma das divindades que detinha os segredos da vida eterna.

O seu culto, localizado em Lâmpsaco, na Ásia Menor, propagou-se a toda a Grécia e depois a Itália. No Império Romano, Priapo tornou-se uma personagem tradicional no teatro popular.

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Prometeu


Prometeu

Prometeu, filho do Titã Jápeto e da Oceânide Clímene, é irmão de Epimeteu, Atlas e Menécio. Uma lenda tardia apresenta-o como o criador dos primeiros homens a partir da terra argilosa. Mas a Teogonia de Hesíodo apresenta-o somente como o benfeitor de uma humanidade já criada.

No decurso de um sacrifício, Prometeu terá iludido Zeus, em proveito dos homens: o deus, tendo de escolher entre uma parte sedutora, que não reunia mais do que ossos, e uma menos sedutora mas que continha a carne, escolheu a primeira, deixando a segunda para os humanos. Furioso porter sido enganado, Zeus vingou-se, privando os homens do fogo. Mas Prometeu restituiu-lhes o precioso elemento: bastou para isso roubar algumas faíscas à roda do carro solar.

Zangado, mais uma vez, Zeus voltou a vingar-se sobre a humanidade, enviando a bela e perversa Pandora a Epimeteu, que fez dela sua mulher. E Pandora derramou sobre os mortais todos os males contidos no vaso de que era portadora.

Quanto a Prometeu, Zeus acorrentou-o no cimo do monte Cáucaso, onde uma águia lhe devorava o fígado, que se renovava permanentemente'.

Héracles, encarregado de ir procurar as maçãs das Hespérides, passou pelo monte e pediu conselho a Prometeu, que tinha o dom da visão, sobre o caminho a seguir. Como forma de agradecimento, libertou-o das suas amarras, matando a águia insaciável com uma flecha.

Entretanto, Zeus perdoou a Prometeu, e este prestou-lhe um grande serviço: informou-o que Tétis, que o deus cortejava, estava destinada a ter um filho que seria mais poderoso do que o próprio pai. Perante isto, Zeus escusou-se, imediatamente, a desposar a deusa, futura mãe de Aquiles (da sua união com um mortal, Peleu).

Prometeu teve vários filhos da sua mulher e sobrinha Celeno, filha de Atlas. O seu filho Deucalião foi, juntamente com a sua mulher Pirra, filha de Epimeteu, o único casal mortal que o dilúvio de Zeus poupou, cabendo-lhes assim a tarefa de reconstituir a raça humana.

Menelau, rei de Esparta, conhecerá Páris, futuro pretendente de Helena,

' A medicina iria descobrir que uma propriedade do fígado é precisamente, quando uma afecção aguda destruiu uma grande quantidade de células, regenerar-se espontaneamente e reencontrar o seu volume inicial.

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Proteu


por ocasião de um sacrifício sobre o túmulo de dois outros filhos de Prometeu, Ximareu e Lico, que tinham sido sepultados em Tróia.

Mais tarde, quando o Centauro Quíron, sofrendo atrozmente de uma ferida (causada por uma flecha de Héracles), ofereceu a sua imortalidade a quem trocasse com ele a sua condição de mortal, Prometeu decidiu apresentar-se, permitindo assim que Quíron morresse e que, ele próprio, alcançasse a imortalidade.

Para além das obras literárias consagradas ao benfeitor da humanidade, símbolo da ambição humana face ao autoritarismo dos deuses (sobretudo depois do Prometeu acorrentado (c. 467 a. C.), de Ésquilo, o poema Prometeu (1774) de Goethe e de Byron (1816), o Prometeu libertado (1820) de Shelley e o conto filosófico Prometeu mal acorrentado (1899) de Gide), o filho do Titã não deixou também de inspirar os pintores (Ticiano, Madrid, museu do Prado) e os músicos (Prometeu, tragédia lírica de G. Fauré, 1900 e ópera de Carl Offi, 1967).

O nome de prometeum foi dado a um metal produzido pela fricção do urânio.

Proteu

Proteu, apelidado de "O Velho do Mar", filho dos Titãs Oceano e Tétis, é o pastor dos animais marinhos de Posídon. O deus reside na ilha de Faros, próxima da embocadura do Nilo. Como todas as divindades do mar, mas num grau mais elevado, Proteu tem o dom de se metamorfosear: é assim que, para escapar a Menelau, de regresso de Tróia, ele se transformará sucessivamente em leão, serpente, pantera, javali, em água e numa árvore. Habitualmente é representado como um homem com cauda de peixe.



Certas tradições tardias fazem de Proteu um rei do Egipto a quem Helena teria sido confiada durante a guerra de Tróia.

Proteu é o herói epónimo de uma ópera de D. Milhaud (1914) e de uma peça de Claudel (1914), "grande bufonaria" onde aparece toda a fantasia do personagem.

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M

Quíron =M



O centauro Quiron pertence à geração dos Olímpicos. Ele é filho de Cronos, que tomou a aparência de um cavalo para seduzir Hira, uma filha do Oceano.

Quíron vive numa gruta do monte Pélion, na Tessália. A sua sabedoria e o seu conhecimento fizeram com que ele fosse escolhido como preceptor de Apolo e de Asclépio, de Aquiles e de Jasão, a quem ele ensinará tanto as artes marciais e a caça como a música e a medicina. O seu nome, derivado da raiz cheir (mão), revela a sua habilidade prática.

Quíron teve uma filha, Hipe (cujo nome significa: jumento), que foi seduzida por Éolo, rei da Tessália. Depois disto, a jovem escondeu-se no monte Pélion a fim de dar à luz uma filha, Melanipe (jumento negro). Mas Quíron foi informado e partiu em perseguição de Hipe que, implorando a misericórdia dos deuses, foi levada para o céu e transformada em constelação.

Quando Héracies, hóspede do centauro Folo, teve de enfrentar os outros centauros, Quíron, que se encontrava junto deles, foi ferido por uma flecha perdida. Acontece que as feridas provocadas pelas flechas do herói eram incuráveis e, assim, toda a competência médica de Quíron se revelou inoperante.

Como imortal, Quíron estava condenado a sofrer, horrivelmente, pela eternidade e, por isso, decidiu trocar a sua natureza com a de um mortal. Prometeu aceitou a troca e o bom centauro pôde, então, conhecer a morte e o repouso.

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Radamanto

Radamanto é um dos filhos de Europa, que tinha sido transportada por Zeus, sob a forma de um touro, para a ilha de Creta. Ele é, ainda, irmão de Minos e de Sarpécion, também filhos do rei dos deuses. Quando Zeus decidiu casar Europa com o rei de Creta, Astério, este adoptou as três crianças.

Radamanto consagrou-se como o legislador de Creta (outros atribuem esta função a Cres, o primeiro rei). Mais tarde, os Gregos, que se inspiraram nas suas leis, transformaram Radamanto num dos três juizes dos Infernos, cargo que ele dividiu com o seu irmão Minos, que foi rei de Creta e como ele respeitado pela sua sabedoria, e com Éaco, um outro filho de Zeus, igualmente reputado pela sua equidade.

No fim da vida - uma das aventuras deste período, a sua viagem à ilha de Eubeia à procura do gigante Titios, não é conhecida senão por uma alusão de Homero - Radamanto terá regressado à Beócia, onde terá desposado Alcrnena, a viúva de Anfitrião.

Reia

Reia é uma das Titânides. A deusa "dos belos cabelos", após a castração de seu pai úrano, casou-se com o seu irmão, o subtil Cronos, responsável pelo feito. Os dois reinaram, então, sobre o mundo e sobre a raça dos Titãs, gerando Héstia, Deméter, Hera, Hades, Posídon e Zeus.



Mas o seu marido, com receio de que um dos seus filhos lhe fizesse o

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Rios

mesmo que ele tinha feito a seu pai, devorou os cinco primeiros, logo após o nascimento. Quando Reia esperava Zeus tomou precauções a fim de o salvar e, para isso, pediu a ajuda de seus pais. Geia, sua mãe, aconselhou-a a dar à luz numa caverna situada na ilha de Creta e a deusa assim fez. Geia encarregou-se do recém-nascido e confiou-o às filhas do rei, enquanto os Curetes, dedicados ao culto de Reia, faziam grande algazarra com as suas danças, para que Cronos não pudesse escutar o choro do recém-nascido. Entretanto, Reia apresentou a seu marido uma grande pedra, envolta em panos e Cronos, fiel à sua tradição, engoliu-a sem desconfiar.

Quando Zeus cresceu, obrigou o seu pai a abandonar o poder. A personalidade de Reia e o seu culto, que parece ter origem cretense, vieram sobrepor-se ao de Geia: uma e outra são deusas da terra (o nome Reia parece ser uma deformação da palavra éra que significa terra) e a lenda de Reia não é senão uma repetição da lenda de Geia. As duas deusas sofreram vicissitudes análogas quer no seu papel de mulheres como no de mães e infligiram aos seus maridos destinos semelhantes.

Várias regiões da Grécia disputaram a Creta a honra de ter acolhido Reia: refere-se o rochedo de Petracos, perto de Queroneia ou o Metidio da Arcádia, como o lugar em que a deusa teria oferecido a pedra à voracidade de Cronos; por outro lado, apresenta-se Tebas ou o monte Liceu, na Arcádia, como o local em que ela teria dado à luz Zeus. Para além disso, é costume situar-se a sua residência oficial em Taumasião, ainda na Arcádia.

Em Atenas, os cultos de Reia e de Cronos estão juntos num santuário. As Cronia, festas do trigo, associam também os dois esposos.

Entretanto, Reia irá transformar a sua fisionomia helénica por contacto com a "Mãe dos deuses", Cíbele, outra div'indade da terra cujo culto, com as suas formas orientais, conquistou a Grécia, invadindo todo o mundo mediterrânico.

Rios w,5m@amm weee pê

Na Antiguidade consideravam-se os rios - em número de três mil como filhos dos Titãs Oceano e de Tétis. Para se conciliar com o seu poder era-lhes rendido um culto, com oferta de sacrifícios. As jovens consagravam-lhes as suas cabeleiras.

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Rómulo


A importância vital da água doce num país grego explica a grande ligação dos Gregos a estas divindades, cuja lenda é constantemente enriquecida.

O maior rio da Grécia, Aqueloo, era também o mais venerado.

Os deuses-rios são representados com a aparência de um touro (que traduz simultaneamente a impetuosidade e o bramido dos caudais) com face animal ou humana ou com o aspecto de um nobre velho barbudo, dotado de cornos, e apoiado sobre um pote de onde a água cai incansavelmente.

Rómulo


A lenda de Rómulo situa-se na encruzilhada muito nebulosa da mitologia e da história. Seguindo a versão mais corrente, Rómulo é descendente de Eneu e filho do deus Marte.

Aquando da morte do rei de Alba-Longa, Proco (décimo-quinto rei da dinastia de Eneu), os seus dois filhos disputaram o trono. O mais novo, Amúlio, venceu o mais velho, Numitor, e para evitar que este tivesse um dia alguém que o vingasse, matou o seu filho e fez da sua filha, Reia Sílvia, uma vestal, consagrada ao celibato. Mas o deus Marte alterou os seus planos ao seduzir a jovem sacerdotisa, tornando-a mãe de dois gêmeos, Rómulo e Remo.

Infância e juventude Amúlio, tendo colocado as crianças num cesto de vime, abandonou-as no rio Tibre, na altura da enchente, para que elas fossem levados para o mar. Mas o cesto foi depositado na colina do Palatino, ao pé de uma figueira. Uma loba, que perdera os seus filhos, foi enviada por Marte para aleitar os recém-nascidos. Afigueirafoi mais tarde objecto de culto com o nome de Ruminal, de rumen (mama). Ao descobrir este prodígio, Faústulo, um pastor do rei, recolheu os bebés e confiou-os a sua mulher, Aca Larência, já mãe de doze crianças.

Logo que os gêmeos atingiram a idade de estudar, foram enviados para Gabias, para frequentar o centro universitário do Lácio. Mas quando os jovens regressaram à sua cidade, comandando um bando de camponeses

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Rómulo


jovens, entregaram-se à pilhagem e roubaram algumas cabeças de gado da manada de Amúlio, no Aventino. Um dia, os camponeses do rei capturaram Remo e conduziram-no a Alba.

Então Fáustulo revelou a Rómulo tudo aquilo que sabia acerca do seu nascimento. Entretanto, o jovem comandou os seus camaradas até Alba, forçou as portas do palácio, deu-se a conhecer a Amúlio, matou-o e libertou Remo. Depois instalou no trono o rei legítimo, Numitor.

Este ofereceu aos seus netos um território, que compreendia as colinas do Palatino, onde eles tinham sido educados, do Capitólio e do Aventino. Os dois gêmeos decidiram fundar aí uma cidade.

Rómulo instalou-se no Palatino e Remo no Aventino, mas como não chegavam a acordo sobre o local onde construir a cidade, decidiram consultar os oráculos. Estes responderam-lhes que a cidade seria fundada poraquele que tivesse contado, no seu campo de visão, um maior número de pássaros. Rómulo viu doze abutres, enquanto que Remo não contou senão seis e, assim, foi decidido que a futura cidade seria fundada sobre o monte Palatino. Rómulo traçou, com uma charrua, os limites da cidade, proibindo a quem quer que fosse que os transpusessem. Mas Remo, em sinal de afronta, franqueou afronteira consagrada e Rómulo, com a sua espada, matou Remo, que enterrou sob o Aventino. Esta colina, até ao séc. i d.C. foi mantida no exterior do pomerium, a cintura religiosa de Roma.

O fundador A fundação de Roma é datada de 21 de Abril de 753 a. C., dia da festa da deusa Palas.

Para povoar a sua cidade, Rómulo criou sobre o Capitólio um lugar de asilo, aberto a todos os vagabundos da região. Depois, a fim de arranjar-lhes mulheres, organizou jogos. Os Sabinos, seus vizinhos, receberam um convite especial e partiram para o espectáculo com as suas famílias. Mas a certa altura dos jogos, os vagabundos precipitaram-se sobre as jovens presentes e raptaram-nas.

Em consequência disto, o rei dos Sabinos, Tito Tácio, marchou sobre Roma. Graças à cumplicidade de Tarpeia, filha do guarda da cidadela do Capitólio, o exército sabino penetrou nos muros da cidade (Tarpeia será esmagada pelos escudos dos Sabinos e o rochedo que delimita o Capitólio, de onde se atiram os criminosos, será chamado rocha Tarpeiana).

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Rómulo

Os sabinos teriam conseguido vencer as tropas de Rómulo se o deus Jano não lhes tivesse barrado o caminho, fazendo brotar perante eles a água quente de um geiser. A batalha deslocou-se então para o vale onde mais tarde se estabeleceu o Fórum. Rómulo, ao ver o seu exército quase desbaratado, dirigiu a Júpiter uma dramática jaculatória e o rei dos deuses interveio imediatamente. Os Sabinos foram vencidos e neste lugar foi construído o templo de Júpiter Stator. Do outro lado, as jovens sabinas, tornadas esposas dos companheiros de Rómulo, precipitaram-se para os seus pais e maridos suplicando-lhes que fizessem a paz.

A paz foi, então, assinada entre Tácio e Rómulo, que instituíram a fusão dos dois povos. Os dois chefes reinaram, a partir de então, conjuntamente e, à morte de Sabino, Rómulo exerceu sozinho o poder, tendo ocupado o trono durante trinta e três anos.

Tinha ele cinquenta e quatro anos quando, ao passar revista às suas tropas no campo de Marte, desapareceu num eclipse do sol, acompanhado de uma violenta tempestade. Os Romanos assimilaram o "Pai da Pátria" ao deus Quirino e construíram-lhe um templo no monte Quirinal (o nome de Quirites foi dado aos cidadãos romanos).

O tema de Rómulo e Remo aleitados por uma loba é constante nas moedas, nas gravuras abertas, nos baixos-relevos da época romana, mas também nas pinturas (A. Carrache, P. de Cortone, Rubens, etc.): David imortalizou a cena de rapto das Sabinas (o rosto de uma delas figurou nos selos franceses dos anos 70). A loba etrusca de bronze tornou-se o símbolo da cidade de Roma (os gêmeos foram-lhe acrescentados no séc. xvi).

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Sabãzio

As tradições relativas a Sabázio, deus solar originário da Frigia, são muito diversas. Ele é apresentado como filho de Cronos, de Cíbele ou de Zeus que se teria unido com Perséfone sob a forma de uma serpente. Em sua honra celebram-se festas nocturnas de carácter orgiástico. Sabázio era representado com cornos (atribuía-se-lhe a domesticação dos bois), tendo por símbolo a serpente, a pinha ou a mão votiva.

A sua lenda será assimilada mais tarde à de Dioniso, a ponto de as duas divindades se confundirem no mundo grego. No mundo romano, sobretudo na Gália, Sabázio foi identificado com Baco, e por vezes também com o deus dos hebreus Javé "Sabaoth" (o deus das legiões celestes).

Sarpédon


Sarpécion, filho de Zeus e de Europa, é o fundador da cidade de Mileto na

Lícia (Ásia Menor). Distingue-se, geralmente, este Sarpécion de um outro que

Europa + Zeus

Sarpédon 1 Belerofonte

1 1 Evandro LdUUarnia + Zeus

Os dois Sarpédon

Sarpédon 1

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Sátiros

foi o chefe do contingente Lício que veio participar na guerra de Tróia ao lado do rei Príamo; também este é filho de Zeus, mas tem por mãe Laodamia (filha de Belerofonte). Célebre pelo seu tamanho e valentia, Sarpécion morreu às mãos de Pátroclo.

Sátiros

Os Sátiros são gênios das florestas e das montanhas representados, na origem, com um corpo peludo, dotado de um rabo e de duas patas de bode e com uma cabeça com orelhas pontiagudas, um nariz achatado e um olhar lúbrico. Estes gênios ocupam os seus tempos livres perseguindo as ninfas ou os viajantes. Pertencem, ainda, ao cortejo de Dioniso e desempenham um papel importante nas festas orgiásticas consagradas a este deus.

Os Gregos deram o nome de dramas satíricos a determinadas peças de teatro, cujo coro era composto por sátiros.

Os Sátiros, talvez sob influência de Praxíteles (museu do Louvre), vão humanizar-se a partir do séc. iv, a ponto de serem representados como sedutores rapazes, conservando no entanto um rabo animal como testemunho da sua natureza primitiva. As danças de sátiros e de ninfas inspiraram os pintores apaixonados pela mitologia (Ticiano, A. Carrache, Rubens, Poussin ... ).

Saturno

Saturno, tendo sido assimilado ao deus grego Cronos, era entre os lati- ,fl, UMISQ

nos um deus da vida agrícola, ceifeiro e vinhateiro, cujo nome (que está ligado a satur. saciar ou a sator. semear) evoca a abundância.

Afastado do céu por seu filho Júpiter, ele refugiou-se na região de Itália mais tarde chamada Lácio (ou seja, o Refúgio) que, para os poetas, era

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Saturno


terra de Saturno. Aí exerceu a soberania e fez reinar a idade do ouro. Criou uma família e uma conduta novas, vindo a ser pai de Pico, antepassado de Latino.

Os Romanos que, segundo outras tradições, atribuem a origem de Roma a Saturno, construíram-lhe um templo e um altar à entrada do Fórum, no Capitólio. Atribui-se ainda a Saturno a criação de divindades como Jano ou Hércules e de heróis como Rómulo.

Os Romanos, com receio que o deus abandonasse o seu lugar (na República depositava-se no seu templo o tesouro do Estado), prenderam a sua estátua com faixas de lã e não a libertavam senão quando se realizavam as Saturnais.

Com efeito, estas festas populares, celebradas anualmente por volta do soistício de Inverno, pretendiam ressuscitar por um certo tempo a época maravilhosa em que os homens tinham vivido sem contrariedades, sem distinções sociais, numa paz inviolada. Era uma semana de repouso livre e feliz, durante a qual todas as actividades profissionais eram suspensas - até as campanhas militares eram interrompidas - e se realizavam inúmeros banquetes, onde os cidadãos substituíam a toga pela túnica e serviam os seus escravos que, desobrigados das suas funções habituais, falavam sem papas na língua. Estas festividades desembocavam, inevitavelmente, em grandes orgias.

O culto de Saturno não se propagou com a mesma amplitude em todo o mundo romano, tendo sido objecto de um fervor excepcional junto das populações de África. "Dominus Saturnus" representa para estas o deus fertilizador da terra e, igualmente, o sol, assim como a lua. Espécie de divindade suprema do céu, instalada muitas vezes em substituição dos deuses fenícios, o Saturno africano foi, como Moloque, apreciador de vítimas humanas. Estas práticas cessaram sob o Império e foram substituídas por libações e por sacrifícios de touros e de carneiros.

O sábado é o dia consagrado a Saturno.

O Saturno itálico é representado nas moedas como nas pinturas de Pompeia - testemunho ambivalente da sua actividade agrária e da sua identificação com o castrador Cronos - com a serpente na mão. Um baixo-relevo do museu do Capitólio, réplica de um modelo grego,

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Selene

apresenta-o como Cronos, sentado no trono, recebendo das mãos de sua mulher (por vezes chamada Opes nos textos latinos) a pedra envolvida em panos que ele confundiu com Júpiter recém-nascido.

O Saturno africano é um homem de barba curta, penteado com calátides. Mas o deus chega a figurar, na mesma estela, com três aspectos distintos: deus barbudo com a foice, jovem deus solar com a cabeça ornada de raios e jovem deus lunar coroado com o crescente.

Selene


Selene, a deusa coroada de ouro, dotada de grandes asas, filha dos Titãs Hipérion e Teia, personifica o astro lunar cujo brilho de prata percorre o céu cada noite. Ela é irmã de Hélio, o Sol, e de Eos, a Aurora.

Amante de Zeus (com quem gera a bela Pandia e Erse, a Rosada) e, mais

Ila ~II, MaUM

tarde, de Pá, que se transforma num carneiro de pelagem branca a fim de a seduzir, Selene será, violentamente, tocada pela beleza do jovem Enclímion, que lhe dará cinquenta filhas, e a quem ela não deixará nunca de contemplar, noite após noite, mergulhado no seu sono eterno.

O nome Selenitos é, por vezes, dado nos nossos dias aos supostos habitantes da Lua.

Sémele 1:11,5 1 W, aIGIR ffi$ >

Sérnele era filha de Cadmo, rei de Tebas e neto de Posídon, e de Harmo-nia, filha de Zeus. Mas Zeus tornou-se amante da sua neta.

Hera, enfurecida e ciumenta, arquitectou uma vingança cruel e refinada para a sua rival.

Disfarçou-se de sua ama e convenceu Sérnele a pedir a Zeus, como prova de amor, que se mostrasse em toda a sua glória. O senhor do Olimpo escusou-se, dizendo à princesa que era perigoso, para uma mortal, estar em contacto com o brilho divino. Mas Sérnele insistiu e Zeus consentiu, apare-

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Sérnele

cendo no seu carro cintilante, cercado de raios, a ponto da jovem, incapaz de suster a intensidade do brilho, se deixar devorar pelo fogo celeste.

Acontece que Sérnele transportava, no seu ventre, um filho de Zeus, que teria inevitavelmente perecido, se o rei dos deuses não tivesse vindo em seu socorro, retirando-o do ventre de sua mãe e protegendo-o até ao dia do seu nascimento, na sua própria coxa. A criança em questão era Dioniso que, segundo a tradição popular, teria saído "da coxa de Júpiter".

Ino, irmã de Sérnele, foi encarregada por Zeus de cuidar da criança. E por isso Hera perseguiu-a na sua vida familiar até que a morte a libertou das suas torturas.

Dioniso, elevado ao papel de deus, não esquecerá a sua mãe, indo reclamá-la a Hades e fazendo-a sair dos Infernos, para a levar consigo para o Olimpo, onde ela terá lugar entre os imortais com o nome de Tione.

lo + ZEUS

1 Líbia + Posídon Atlas

Agenor Electra Maia Taígeto

1 + ZEUS + ZEUS + ZEUS

Europa Cadmo + Harmonia' Hermes + ZEUS

Sérnele Ino + ZEUS

Dioniso


A intervenção de Zeus na família de Sérnele

1 Cf. p. 200.

263

Serápis


Dioniso, na sua qualidade de deus da vinha, ligou este seu atributo à lenda de Sérnele consumida pelo fogo do céu: quando a terra era fecundada, ela devia sujeitar-se ao calor do sol para que a semente se transformasse em fruto, e a cultura da vinha era especialmente exemplar a este título.

Serãpis


O culto de Serápis foi instituído pelos faraós, em Alexandria, no séc. iv a. C., com o fim de reunir, à volta de uma mesma divindade, as populações egípcia e grega até aí divididas pelas suas origens religiosas. Em Serápis fundiam-se os caracteres dos deuses egípcios e gregos: de um lado, o deus identificava-se com Osfris, o marido de ísis, deus da vida e da morte; do outro, aproximava-se de Dioniso e dos seus mistérios. Nas duas tradições, os deuses em questão tinham sido, originalmente, deuses que presidiam à vegetação e governavam o mundo subterrâneo.

Ora, pouco a pouco, enquanto ísis, assimilada a Deméter, absorveu os atributos de todas as divindades femininas, Serápis transformou-se num deus masculino universal ("o único Zeus Serápis"). O seu culto, geralmente associado ao de ísis, conquistou o conjunto do mundo Greco-Romano.

Perseguido em Roma até ao século 1 da nossa era, ele obterá definitivamente direito de cidadania e os templos denominados serapea abundarão em todo o Império.

Serápis é representado com o aspecto de um deus helénico, de idade madura, com semblante grave, usando barba e longos cabelos. O seu atributo é a corbelha sagrada dos mistérios, símbolo da abundância, juntamente com a serpente de Asclépio, nalguns casos, pois Serápis era igualmente um deus curandeiro.

264

Silvano


Sileno ffim

Dá-se, geralmente, o nome de Silenos aos sátiros mais velhos. Mas Sileno é, particularmente, o nome do sátiro nascido de Pá ou de Hermes, que certas tradições apresentam como o educador de Dioniso, quando este saiu da coxa de Zeus.

Sileno era representado como uma figura grotesca e feia, calvo, com um ventre dilatado, geralmente bêbado, e montado num burro. Curiosamente, este sátiro era dotado de uma grande sabedoria, mas raramente esta era utilizada em proveito dos mortais.

Um dia em que, depois de muitas libações, Sileno adormeceu na montanha, os camponeses capturaram-no e conduziram-no ao rei da Frígia, Midas. Este, tendo-o reconhecido, libertou-o das suas correntes e o sátiro revelou-lhe a teoria sobre a condição humana: "De todas as coisas, a melhor para o homem é não nascer. Em seguida, mas só em segundo lugar, é morrer o mais cedo possível! "

A embriaguez ou O Triunfo de Síleno inspiraram Van Dyck, Rubens, Ribera, Daumicr; um bronze de Dalou figura no jardim do Luxemburgo (Paris).

Silvano


Silvano era uma divindade latina das florestas (silva), pouco distinta do deus Fauno ou do Pá grego.

Dotado de uma grande força, ele era geralmente representado com o aspecto de um velho. Era, também, temido pelas mulheres durante o parto e pelas crianças.

265

Sirenes


Sirones

As Sirenes aparecem, na mitologia primitiva, como gênios malfeitores, acólitos da Morte (encontra-se a sua imagem em sarcáfagos), misto de mulheres e de pássaros, dotadas de uma voz melodiosa (diziam-se filhas de uma das Musas), que elas usavam para atrair os humanos e os matar. Residiam numa ilha, a oeste da Sicília, e manifestavam-se sobretudo aos navegadores.

Os Argonautas conseguiram escapar à sua sedução graças à presença de Orfeu, que cantava melhor do que elas, e o navio de Ulisses escapou-lhe pois o herói, por precaução, tapara com cera os ouvidos dos companheiros e amarrara-se ao mastro do navio. Diz-se que, despeitadas pela ineficácia do seu poder, elas se precipitaram no mar, sendo transformadas em rochas.

Uma outra tradição, posterior à precedente, apresenta as Sirenes como jovens e belas mulheres dotadas de uma cauda de peixe.

Sísifo 1,1@","t"""-@P.. 1* ~IINO

Sísifo, filho de Éolo, bisneto de Deucalião, rei (e, segundo alguns, fundador) de Corinto, passava por ser o mais astuto e o menos escrupuloso dos homens.

Conta-se que, quando Antólico - célebre pela sua habilidade para a rapina, que herdara de seu pai, Hermes - lhe roubou as suas manadas, ele foi procurá-las junto do ladrão. Mas nessa noite celebravam-se as núpcias de Anticieia, a filha de Antólico, com o rei de Ítaca, Laertes. Durante a noite -

diz-se que com a cumplicidade do pai - Sísifo amou a jovem e foi assim, segundo as tradições posteriores a Homero, sobretudo na Eneida, que Anticleia gerou Ulisses: em matéria de astúcia, tal pai, tal filho.

Mas Sísifo foi vítima da sua malignidade. Para conseguir que uma fonte brotasse do rochedo do Acrocorinto, Sísifo não hesitou em revelar ao deus-rio Asopo, que procurava a sua filha Egina, desaparecida, que ela tinha sido raptada pelo rei dos deuses.

Furioso por ter sido descoberto, Zeus, segundo uma versão da lenda, fulminará Sísifo. Segundo outra versão, ele enviar-lhe-á Tânato, o gênio da morte. Num primeiro momento, Sísifo soube esquivar-se ao golpe fatal, con-

266

Sísifo


seguindo mesmo capturar o seu visitante e, de um só golpe, acabar também com a morte sobre a terra. Foi preciso a intervenção pessoal de Zeus para libertar Tânato, que assim retomou as suas funções.

A sua primeira vítima deveria ser Sísifo. Mas este recomendara, anteriormente, a sua mulher que nunca lhe prestasse honras fúnebres, em caso de morte. Assim, mais tarde, quando ele desceu aos Infernos, suplicou a Hades que o deixasse regressar à Terra a fim de castigar a sua mulher, que não cumprira o prometido. Tocado, o deus consentiu. Mas depois foi-se esquecendo de fazer regressar Sísifo e, assim, este permaneceu na terra durante muito tempo.

Sísifo viveu ainda muitos anos. Da sua mulher Mérope, a única das Piêiades (filhas de Atlas), que desposou um mortal, ele teve vários filhos. Um deles foi o pai de Belerofonte.

Quando Sísifo morreu finalmente, com pena, sem dúvida, de não encontrar novas escapatórias, foi submetido a uma dura prova, eternamente renovada: ele devia empurrar um enorme rochedo, e subir com ele a determinado lugar, mas mal conseguia o feito, o bloco de pedra escapava-lhe e voltava para baixo. Sísifo recomeçava assim, de novo, a empurrar a sua pedra, sem remissão e sem resultado. Ele é o símbolo do homem na sua luta absurda contra um destino obstinado (cf. Camus, O Mito de Sísifo, 1942).

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Talo


Segundo uma tradição cretense, Talo seria um gigante, filho do primeiro rei de Creta, Crês, e pai de Hefesto.

Uma outra versão da lenda apresenta-o como o último representante vivo da geração de bronze, a terceira idade da humanidade.

Segundo outras versões, Talo seria um autómato de bronze, um verdadeiro robot oferecido por Zeus a Europa ou encomendado pelo rei Minos, filho de Europa, ao seu engenheiro Décialo.

Talo foi encarregado da protecção da ilha de Creta, sendo também responsável pelo cumprimento das leis. Para este efeito, transportava consigo, para todo o lado, as mesas de bronze sobre as quais estavam gravadas as leis (é por isso, diz Platão, que se lhe chama "hornem de bronze"). Dotado de uma grande mobilidade (diz-se mesmo, com asas), que lhe permitia chegar em poucos instantes aos lugares mais diversos do país, ele impedia os habitantes de deixar a ilha sem o salvo-conduto do rei (foi, segundo parece, para escapar à sua vigilância que Décialo imaginou fugir voando), opondo-se também a qualquer penetração estrangeira: os intrusos eram presos pela energia metálica e queimados pelo contacto com o corpo do gigante que ele, previamente, levava ao rubro no fogo.

Talo parecia indestrutível, mas entretanto tinha o seu "calcanhar de Aquiles". O seu ponto fraco era uma artéria, que descia da sua nuca até ao pé, e que um prego de bronze mantinha fechada.

Assim, quando os Argonautas desembarcaram, certo dia, na ilha, a mágica Medeia, com um feitiço, transformou Talo num louco furioso e, em consequência disso, o prego saltou, deixando jorrar o sangue do gigante ou

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Tântalo


terá sido Pea, pai de Filoctetes, que feriu, com uma flecha, a artéria fatal? Qualquer que tenha sido a causa, a verdade é que o invulnerável Talo caiu, mortalmente ferido.

Tãntalo


Tântalo, nascido dos amores de Zeus e da ninfa Pluto, era rei da Frigia (ou da Lídia) e possuía inúmeras riquezas. Mas, tendo participado no rapto de Ganimedes, ordenado por Zeus, foi afastado do seu reino pelo irmão da vítima, lio.

À sua morte, Tântalo sofreu nos Infernos uma das penas reservadas aos crimes sem expiação. As tradições variam, no entanto, no que respeita à pena propriamente dita.

Para uns, Tântalo tinha recebido um cão mágico, em ouro, que tinha zelado por Zeus na sua infância, em Creta. Quando Zeus quis recuperar o animal, Tântalo afirmou, sob juramento, que nunca o tinha tido à sua guarda.

O rei dos deuses puniu de maneira exemplar a dupla falta, cobiça e perjúrio.

Para outros, Tântalo, desejando experimentar a clarividência dos imortais, teria oferecido à sua mesa, o seu próprio filho Pélops, preparado num guisado. Horrorizado e escandalizado por este sacrilégio, Zeus teria votado o culpado ao mais refinado dos suplícios.

Com efeito, a falta de Tântalo foi castigada por uma sede e uma fome sem fim: mergulhado na água até aos ombros, ele não conseguia sequer humedecer os lábios; um ramo carregado de frutos roçava a sua cabeça, mas ele não conseguia chegar-lhe.

Este filho, indigno, de Zeus, não foi mais feliz na sua descendência. A sua filha Níobe, que se gabava da sua fecundidade, viu os seus filhos trespassados pelas flechas de Ártemis e de Apolo. O seu filho Pélops, ressuscitado pelos deuses, foi o pai de Atreu e de Tiestes, os irmãos inimigos, cujos filhos, Agamémnon, Menelau e Egisto viveram as tragédias nascidas da guerra de Tróia (Vd. árvore genealógica de Télefo, pp. 272-273).

270


Télefo

Télefo Em

Héracies, quando passou pela Arcádia, foi hóspede do rei da Tegeia, Áleo. À saída de um festim oferecido ao herói, este, já bêbado, abusou sem o saber, da filha do rei, Auge. Acontece que esta tinha sido votada por seu pai ao celibato e ao serviço de Atena, em consequência de um oráculo que previra que o filho da princesa mataria dois dos seus tios.

Quando Áleo viu a sua filha grávida, uns disseram-lhe que a colocasse num cofre e a atirasse ao mar; outros, que ele confiasse a sua vingança ao navegador Náuplio. Na primeira versão, o cofre desaguou nas costas da Mísia, na Ásia Menor; na segunda, Náuplio, em vez de afogar a jovem, vendeu-a a mercadores que a levaram para a Mísia. Nos dois casos, o rei deste país, Teutras, recolheu Auge.

O filho de Héracies Onde nasceu o filho de Auge e de Héracles? Para uns, no reino de Teutras, e este, que não tinha filhos, adoptara-o. Para outros, ele teria nascido na Arcádia, e teria sido abandonado no monte Parténion. Os pastores tê-lo-iam encontrado a tentar mamar numa corça e, tocados pelo prodígio, teriam levado a criança ao seu rei, que lhe teria dado o nome de Télefo (relacionado, segundo parece, com a palavra grega élaphos, que significa corça), recolhendo-o, depois, no palácio.

Quando já era adulto, Télefo cumpriu a sinistra profecia, matando, acidentalmente, dois dos filhos de Áleo. Exilado na Arcádia, ele irá consultar o oráculo de Delfos, interrogando-o sobre a sua família. O oráculo envia-o para a Mísia, para se purificar junto do rei Teutras. Até lá, ele não devia pronunciar uma só palavra. Télefo respeitou esta obrigação, apesar de ter um companheiro de viagem: o filho de Atalanta, Partenopeu, que tinha em comum com Télefo o facto de ter sido exposto sobre o mesmo monte Parténion.

Os dois jovens chegaram à Mísia na altura em que Idas, chefiando os Argonautas, se preparava para roubar o trono a Teutras. O rei chamou Télefo em seu socorro, prometendo-lhe que lhe daria o seu bem mais precioso, Auge, caso fosse vencedor.

O filho de Héracles apresentou-se, então, no campo de batalha e, como teria feito o seu pai, com quem ele se parecia mais do que todos os outros

271

Télefo


seus meios-irmãos, impôs a lei das suas armas: Idas e os seus homens foram obrigados a regressar aos seus barcos.

A promessa de Teutras vai, então, realizar-se. Mas Auge, fiei à memória daquele que a tornara mãe, decidiu suicidar-se. Acontece que, mal a princesa pegou na espada, os deuses enviaram uma enorme serpente ao seu quarto; a espada caiu-lhe das mãos e, com ela, a cegueira dos seus olhos: Auge reconheceu, então, em Télefo, o filho que tinha tido de Héracles.

Enquanto Auge regressará à Arcádia, Télefo, segundo a maioria das tradições, fixar-se-á na Mísia e Teutras, que era pai de uma filha, teria feito dele seu genro e herdeiro do seu trono.

A ferida de Télefo Télefo é o rei da Mísia aquando da guerra de Tróia. Os gregos, saídos de Áulis, na Beócia, confundiram a Mísia e a Frigia ou terão desembarcado de propósito na Mísia para eliminar o Apolo eventual de um vizinho poderoso, a

Zeus + Europa

Minos


zeus + Pluto

Catreu


Mulo e + Atreu Piteu Tieste Alcátoo Asti arnia Nicipe

Etra


Anadne Fedra

+-Teseu


Pelópia Peribeia

Egisto - O grande Ájax

Euristeu

Menelau


Agarnernnon

Ifigénia Electra

Zous o os descendentes

272


Télefo

Príamo, rei de Tróia? O que quer que tenha acontecido, a verdade é que eles invadiram o reino de Télefo. Este, à cabeça das suas tropas, fez face aos seus inimigos, matando um grande número, mas quando Aquiles se apresentou, Télefo enlouqueceu, sob a influência maligna de Dioniso, a quem neglicenciara o culto, e caiu sobre uma vinha: Aquiles, com a sua lança, feriu-o na coxa. Entretanto, a mulher de Télefo, Hiera, de quem se dizia ser ainda mais bela do que Helena, colocou-se à frente das mulheres do país e empurrou os invasores para o mar, acabando por encontrar a morte no decorrer do combate.

Os Gregos deixaram, então, a Mísia e regressaram aÁulis para reconstituir a sua armada. Durante oito anos, eles hesitaram em voltar ao mar, temendo enganar-se, de novo, na rota. Por seu lado, Télefo não se restabelecia, ao ponto de junto dos gregos a expressão "ferida de Télefo" se tornar sinónimo de ferida incurável. Télefo decidiu então procurar Aquiles e propor-lhe conduzi-lo à Frígia, se ele o curasse. Ulisses, conhecendo o sentido do oráculo, sugeriu a Aquiles que aplicasse sobre a ferida um pouco de ferrugem da sua

Zeus + Dánae

Perseu

Esténelo Alceu Eléctrion



Gorgófona

Anfitrião + Alcrnena + Zeus

Tíndaro + Lecla + Zeus lcário

Ifícies Héracies

1

H P. 1 P.



1

1

-i



n2 Penélope + Ulisses

Cliternnestra Pólux Castor

Orestes

de Europa, Pluto e Dáriae

273

Télus


lança (numa das tragédias de Eurípides, hoje perdida, consagrada a Télefo, o filho de Héracies teria roubado o jovem Orestes do seu berço e ameaçado matá-lo se Aquiles rejeitasse o seu pedido). Aquiles cumpriu o sentido do oráculo e a ferida cicatrizou.

Mais tarde, quando a frota de Agamérrinon estava preparada para partir, Télefo serviu-lhe de guia até Tróia, com a promessa de nem ele nem nenhum dos seus descendentes pegar em armas contra os Gregos. Mas, entretanto, quando Télefo morreu, um dos seus filhos, Eurípilo, cuja mãe era irmã de Príamo, participou na guerra ao lado dos Troianos e colocou à disposição do seu tio, um contingente de soldados mísios.

Dois outros filhos de Télefo, nascidos de Hiera, Tarcão e Pirreno, tomaram o mar depois da queda de Tróia e desembarcaram na Etrúria onde se estabeleceram. Atribui-se, também, a Télefo, uma filha com o nome de Roma, que terá casado com Eneias, e que terá dado o seu nome à cidade de Roma. Esta lenda mostra como os homens de então estavam desejosos de poder atribuir a fundação da sua pátria a um antepassado da estatura de Héracies.

Télus


A palavra latina teflus, nome feminino, designa a terra fecundante. Télus é a deusa Terra dos Romanos, correspondendo à Geia dos Gregos.

Um povo camponês, como o romano, não podia senão conceder à terra divinizada um lugar de primeiro plano. Os poetas (sobretudo Virgílio) aplicaram-lhe a biografia mítica de Geia.

Adorada em toda a Itália e, mais tarde, nas províncias, Télus é a Mãe por excelência, personificando o princípio feminino dafecundidade. A este título, ela é geralmente associada a Júpiter, o Pai, ou a Ceres, deusa da germinação e da força de crescimento. Télus acabará, mais tarde, por se confundir com Cíbele.

A deusa, tal como Geia, tem também um carácter ctónico. Vêrno-la presente nos juramentos solenes onde ela é, então, associada a Júpiter e aos Manes subterrâneos,

Segundo parece, poucos santuários foram, no entanto, consagrados à deusa, Costuma citar-se aquele que ela possuía em Roma e que era em forma

274


Témis

de rotunda, assim como aquele de Vesta (lê-se nos Fastos de Ovídio: "A terra e Vesta não são senão uma e mesma divindade").

Na festa das sementeiras, realizada no fim de Janeiro e destinada a obter o crescimento das sementes, oferecia-se-lhe a espeita, primícias da futura colheita e as entranhas de uma porca grávida. A festa das Forcidia, a quinze de Abril, estimulava, através do sacrifício de vítimas grávidas (forda é a vaca grávida) a fecundidade de Télus.

A representação mais usual de Télus é aquela que figura no altar da Paz (ara Pacís), elevado por Augusto, em Roma. Ela aparece sentada, rodeada de flores e de plantas; duas crianças sentadas sobre os seus joelhos oferecem-lhe frutos; aos seus pés descansam uma ovelha e um touro. Esta representação é a própria ilustração do epíteto de mãe universal, "mãe fecundante da terra e do gado" (Horácio), que é, ordinariamente, atribuído à Terra Mãe, tanto pelos Romanos como pelos Gregos.

Témis

Témis, uma das Titãs do sexo feminino, filha da Terra e do Céu, foi por vezes identificada com a própria Geia, pois como ela era uma divindade fecundadora e profética. Os mais antigos oráculos gregos (Delfos, Olímpia) pertenceram à Terra e a Témis.



Deusa da justiça, incarnação da lei, ela foi, depois de Métis, a Sabedoria, a segunda esposa de Zeus (segundo Píndaro, ela teria sido a primeira). Deste casamento nasceram as três Horas (cuja palavra grega significa: as Estações): Eunomia, a Disciplina, Diqué, a Equidade, Irene, a Paz; as três Moiras (a que os Romanos chamaram Parcas): Cioto, Láquesis e Átropos, que fiavam o destino de cada mortal na sua roca; Astreia que, na época da idade de ouro, procurou difundir os sentimentos virtuosos entre os humanos e que,

275


Término

depois, se transformou na constelação de Virgem. Juntavam-se a estas, segundo certas tradições, as ninfas do rio Eridão e as três Hespérides.

Mesmo depois de Ártemis ter sido repudiada por Zeus, manteve o seu lugar no Olimpo, sendo venerada por todos os deuses, e continuando a prestar os seus conselhos ao seu antigo marido.

Témis foi, particularmente, adorada em Atenas, em Corinto, no Epidauro, em Ténagra e em Ramanonte, onde o seu santuário ficava próximo do de Némesis.

Témis era representada com uma espada e uma balança nas mãos e, muitas vezes, com os olhos vendados (símbolo da imparcialidade e não da cegueira).

Término


Término é uma das mais antigas divindades itálicas, confundida na origem com JúPiter, cujo papel era considerável: o deus velava sobre a propriedade e presidia às operações de delimitação de terras. Na origem foi representado por um simples bloco de pedra com o qual se mediam os campos e, mais tarde, por uma coluna coroada com uma cabeça.

Terra


A Terra divinizada, Deusa primordial (vd. Origem do Universo), ocupou um lugar de primeira importância nas religiões antigas: ela tinha o primeiro lugar no solo grego até que as invasões dos aqueus (séc. xv a. C.) lhe trouxeram a concorrência da divindade do Céu.

A Terra, divindade feminina entre os Gregos e os Romanos, conquistou uma dupla personalidade: por um lado, ela era a mãe e a protectora universal; por outro, era a deusa "ctónica", ou seja, do mundo subterrâneo, e a este

276

Teseu


título, uma das divindades da morte. Vemos aqui a ilustração do cicio da vida, a vida vegetal - o grão nasce e morre na terra - mas também da vida humana: o homem, contam as gêneses, nasceu da terra e regressa à terra, depois de morto.

Remetemos para os artigos de Geia e Télus para detalhar as situações diferenciadas entre os Gregos e os Romanos.

Com o tempo, levados por um desejo de simplificação e, sem dúvida, de união, os homens assimilaram o culto dedicado à Terra Mãe àqueles que eram rendidos a algumas das suas descendentes, à Deméter grega ou à Ceres romana, à ísis egípcia, à Cíbele frigia ou à Vesta, vários tipos que se encontram mais ou menos implicados naquele da Deusa Mãe.

Teseu


Teseu, herói por excelência da Ática, é um dos nomes mais importantes da mitologia grega.

O rei de Atenas, Egeu, constatando que não conseguia ter um filho, depois de dois casamentos sucessivos, decidiu consultar o oráculo de Delfos. Este respondeu-lhe, de forma sibilina, que se guardasse de "soltar a boca do odre com vinho" antes de ter regressado a Atenas. No caminho de regresso, Egeu foi pedir a Piteu, rei de Trezeno, que tinha o dom divinatório, que lhe traduzisse a mensagem. Mas Piteu, mal compreendeu o sentido do oráculo, embebedou Egeu e colocou a sua própria filha, Etra, na sua cama.

Infância e Juventude Ora Etra, no mesmo dia, dizem certas tradições, tinha sido vítima do desejo de Posídon. Assim, quando ela se apresentou grávida e gerou Teseu, este tanto podia ser filho do rei de Atenas como filho do deus do mar. Independentemente da verdade da paternidade, Egeu jamais duvidou de que ela não lhe pertencesse.

Entretanto, Egeu, temendo os ciúmes dos seus sobrinhos, os cinquenta filhos do seu irmão Palas, que sonhavam com a sucessão, ordenou a Etra que, caso ela gerasse um rapaz, o escondesse junto de si, em Trezeno, sem lhe revelar a sua verdadeira identidade. Depois, escondeu debaixo de um ro-

277

Teseu


chedo uma espada e umas sandálias que deveriam, mais tarde, quando o

jovem já fosse adulto, conduzi-lo junto de seu pai.

Isto veio a acontecer quando o jovem herói, com dezasseis anos de idade e dotado já de uma força física excepcional, conheceu o segredo do seu nascimento: levantou o rochedo, cingiu a espada, calçou as sandálias e deci-

diu partir imediatamente.

Etra e Piteu referiram-lhe que os caminhos por terra estavam infestados de bandidos - isto aconteceu quando Héracles se encontrava cativo de Ônfale e, portanto, mais ninguém inquietava os bandidos nas suas actividades - e que era preferível viajar por mar, mas Teseu, influenciado pelo exemplo de Héracies, decidiu suplantá-lo. Escolheu os percursos mais perigosos, sobretudo aqueles do istmo de Corinto, e mediu-se vitoriosamente com todos os

salteadores e monstros que encontrou.

Assim, quando Teseu fez a sua entrada na corte de Atenas, já a sua fama o precedera. O rei Egeu, que ignorava a origem do recém-chegado, temia pelos seus dias. Na altura, estava casado com Medeia, que lhe dera um filho, Medo. Mas Medeia compreendeu, imediatamente, que o recém-chegado era Teseu, ou seja, um sério rival para o seu próprio filho; ela então aconselhou o seu marido a convidar o herói para um jantar, no decurso do qual lhe serviria veneno. Mas Teseu, quando se encontrava sentado à mesa, sob pretexto de cortar as carnes, puxou da sua espada. Egeu reconheceu, imediatamente, a arma e o seu filho, apresentando-o então a todos os seus convidados e afastando do reino Medeia e Medo.

Quando os primos de Teseu, os "Palântidas" souberam do acontecimento, resolveram tentar ainda conquistar um poder que manifestamente lhes escapava das mãos. Mas Teseu, uma vez mais, conseguiu vencê-los e

massacrá-los a todos.

O Minotauro E, entretanto, chegou o momento em que, pela terceira vez, Atenas devia fornecer o tributo de jovens destinados ao alimento do Minotauro, aos Cretenses. Teseu decidiu fazer parte do contingente a fim de tentar matar o monstro. O navio que transportava os condenados estava munido de velas negras. "Se eu for vitorioso, disse Teseu a seu pai, içarei as velas brancas".

Uma vez desembarcado em Creta, o herói pôde beneficiar de um Apolo inesperado, o da jovem filha do rei Minos, Ariadne, que se apaixonou perdida-

278


Teseu

mente pelo herói. Contra a promessa de que ele a levaria para a Grécia e a

desposaria, ela ofereceu-lhe um fio, para desenrolar, que lhe permitiria, depois de ter entrado no misterioso labirinto onde residia o Minotauro e caso

ele vencesse o animal, reencontrar o caminho de volta.

Teseu atacou o Minotauro, espancou-o e, de noite, tomou o mar com os

seus companheiros e com Ariadne, fazendo escala na ilha de Naxos. Ariadne desceu do barco, adormecendo na praia e, quando acordou, constatou que o

navio tinha partido e que Teseu a tinha abandonado. Dioniso, tocado pela sua

beleza e pela sua dor, consolou-a, casou com ela e levou-a consigo para o Olimpo (cf. Ariadne em Naxos, de R, Strauss).

Depois de uma segunda escala, em Delos, Teseu dirigiu-se para as costas da Ática. Mas, com a alegria do triunfo, esqueceu a promessa feita a seu pai e não trocou as velas. Quando Egeu se apercebeu do navio com as velas negras, persuadido de que o seu filho tinha sucumbido, precipitou-se no mar.

Rei de Atenas Assim, quando Teseu desembarcou em Atenas, subiu ao trono. O novo rei irá, fundamentalmente, reorganizar o Estado, construindo, cunhando moeda, e criando as bases da democracia, anexando à Ática a cidade de Mégara, instituindo a festa das Panateneias como símbolo da unidade do povo e res-

taurando com brilho os Jogos ístmicos, celebrados em Corinto em honra de Posídon, de quem ele se considerava filho.

Quando Édipo se exilou de Tebas depois da descoberta trágica dos seus crimes involuntários, Teseu acolheu-o em Atenas. E quando Adrasto, rei de Argos e sogro de Polinices, filho de Édipo, falhou na expedição punitiva que ele tinha organizado dos Sete chefes contra Tebas, Teseu irá retirar os cadáveres dos vencidos aos Tebanos, visto que eles lhes recusavam as honras

fúnebres, e sepultou-os perto de Atenas, em Elêusis.

Entretanto, por ocasião de uma viagem ao país das Amazonas, Teseu raptou uma delas, Antíope. As guerreiras decidiram então avançar sobre Atenas, penetrando na Ática, mas foram vencidas mal chegaram ao sopé da Acrópole. Diz-se que Antíope, que tomou o partido do seu raptor, morrera durante a batalha. Mas antes dera ainda à luz um filho de Teseu, Hipólito, que herdará de sua mãe a paixão pelos cavalos e pelos exercícios violentos. Como Teseu, Hipólito foi levado para a corte do rei de Trezeno, Piteu.

Entretanto Teseu desposou a irmã mais nova de Ariadne, Fedra, "a filha

279


Teseu

de Minos e de Pasífae" (Racine). Esta deu-lhe dois filhos, Ácamas e Demofonte. Mas durante uma expedição de Teseu que o reteve demasiado tempo longe de Atenas, Fedra, sob influência da deusa Afrodite, e tocada pela indiferença do belo Hipólito em questões amorosas, foi tomada de uma paixão incontrolável pelo seu enteado.

Aventura que termina mal Teseu, com efeito, tinha deixado Atenas em companhia do seu amigo, o herói lápita (filho de Zeus, segundo Homero), Pirítoo. A amizade indestrutível entre estes dois homens selara-se após o seu primeiro encontro, quando Pirítoo, ciumento da glória de Teseu, procurava provocá-lo. A partir de então, os dois heróis decidiram fazer, juntos, todas as suas aventuras. Assim, a certa altura das suas vidas, e dada a sua origem divina, juraram seduzir, cada um deles, uma filha de Zeus. A escolha recaiu sobre Helena de Esparta, ainda criança, e sobre Perséfone, a mulher de Hades.

Os heróis começaram por raptar Helena. Depois tiraram à sorte para ver quem a receberia. E a sorte coube a Teseu, mas como a menina não estava ainda em idade de casar, este conduziu-a junto de sua mãe Etra, confiando-a à sua guarda. Depois os dois heróis partiram à conquista de Perséfone, destinada a Pirítoo.

Entretanto, os irmãos de Helena, Castor e Pólux, reuniram uma armada e foram reclamar a sua irmã. Na ausência de Teseu, eles invadiram o burgo em que ela estava retida, libertaram-na e levaram Etra, cativa. Depois malaram os filhos de Teseu que asseguravam interinamente o poder e instalaram, no trono de Atenas, um descendente de Ericteu, Menesteu. Teseu, juntamente com Pirítoo, entrou nos Infernos. Hades fez questão de lhes oferecer a melhor das hospitalidades e sentou-os à sua mesa. Mas mal eles se sentaram, não conseguiram mais sair do seu lugar. Esta situação durará até que Héracles, no cumprimento do último dos seus "trabalhos", desça ao reino dos mortos para raptar o cão Cérbero. Nessa altura, o herói libertou Teseu da sua paralisia, mas nada pôde fazer por Pirítoo, que ficou prisioneiro pela eternidade.

O drama de Fedra e a conclusão Teseu, quando saiu dos Infernos, apressou-se a regressar a Atenas, indo ao encontro de um verdadeiro drama familiar. Fedra tinha, entretanto, ousado

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Teseu


confessar a sua paixão a Hipólito, que a rejeitara com indignação. Para o punir, ela convenceu Teseu de que o jovem a tentara seduzir violentamente, e o herói apelou a Posídon para que castigasse o seu filho. Este enviou um dragão ao encontro do carro do jovem. Os cavalos assustaram-se e o corpo de Hipólito foi atrozmente despedaçado. Então Fedra revelou a sua mentira, a sua paixão e suicidou-se.

Mas a situação em que Teseu encontrou Atenas não era melhor do que aquela que ele verificara na sua própria casa. Assim, o herói, abatido pelo desgosto e pela decepção, renunciou a qualquer tentativa de tomar o poder. Vê-mo-lo desde então, a procurar refúgio na ilha de Ciros onde os seus filhos estavam também retirados. Foi aqui que Teseu encontrou a morte ao cair do cimo de um rochedo, não se sabe se acidentalmente, se empurrado pelo rei Licomedes que teria tido inveja da sua presença na ilha.

Os dois filhos de Teseu e de Fedra participaram na guerra de Tróia. À morte de Menesteu, recuperaram o trono de Atenas e reinaram com sabedoria.

Foi preciso esperar pelo séc. v para que a memória de Teseu encontrasse o Apolo do povo ateniense. Com efeito, depois de o herói se ter manifestado aos combatentes de Maratona e de os ter conduzido à vitória, o oráculo de Delfos ordenou aos Atenienses que repatriassem o seu corpo e o sepultassem dignamente.

Isto foi feito sob a autoridade de Címon (filho de Milciades, o vencedor da Maratona), que conquistou a ilha de Ciros e que, no meio de festas entusiásticas, o colocou num túmulo monumental que foi declarado lugar de asilo para os pobres e os escravos.

Eurípides e Racine consagraram duas obras-primas à trágica aventura de Fedra: Hipólito (c. 428 a. C.) e Fedra (1677). Cf., igualmente, a ópera de Luily (1675) e a tragédia lírica de Rameau: Hipólito e Arícía (1733), que tem um fim feliz, pois Ártemis teria salvo Hipólito da morte. O Teseu (1946) de A. Gide é a proclamação de um acto de fé no homem.

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Tideu


Tétis

Tétis, a mais jovem das Titénides e, a este título, divindade primordial segundo a Teogonia de Hesíodo, representa a terra sólida que se uniu com o seu irmão Oceano, o mais velho dos Titãs, deus do elemento líquido. Ela dará à luz os três mil rios e as três mil ninfas das águas (as Oceânides) e, igualmente, Proteu, deus marinho, Dione, deusa agrária, Tique - a Fortuna - e Métis - a Sabedoria, primeira esposa de Zeus. Por outro lado, ela recolherá a jovem Hera e velará pela sua infância, juntamente com o seu marido.

Do seu neto Atlas, filho da Oceânide Clímene e do Titã Jápeto, Tétis conceberá a ninfa Calipso, personificação das profundezas marinhas.

Não deveremos confundir Tétis com a sua neta, a Nereide Tétis, mãe de Aquiles.

Tideu

O herói etólio Tideu, filho do rei Eneu de Cálidon, e da sua segunda mulher, Peribeia, cometeu, ao atingira idade adulta, um assassínio e foi expatriado, dirigindo-se para a corte de Adrasto, rei de Argos. Aí encontrou o irmão de Édipo, Polinices, afastado de Tebas pelo seu irmão Etéocies.



Os dois homens desposaram, entretanto, as duas filhas do rei. E este prometeu ajudar Polinices a regressar à sua pátria. Tideu foi então enviado como embaixador junto de Etéocles, mas não conseguindo ser recebido, provocou os chefes tebanos e venceu-os, em duelo. Depois, tendo caído numa emboscada montada por cinquenta guerreiros tebanos, matou-os a todos com excepção do seu chefe, Meonte, filho de Hérnon (e segundo alguns de Antígona, filha de Édipo), que ele decidiu poupar.

Tideu acabou por encontrar a morte no decurso da expedição dos Sete contra Tebas, às portas da cidade. O seu cadáver recebeu honras fúnebres, prestadas por Meonte.

A deusa Atenas, que protegia Tideu, tinha desejado conferir a imortalidade ao herói. Mas renunciara ao seu desejo quando assistira ao horrível espectáculo que o herói protagonizara, pouco antes da sua morte, ao comer o cérebro de um inimigo cuja cabeça ele partira.

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Tífon

Tideu foi o pai de Diomedes, vigoroso combatente e companheiro fiei de Ulisses, durante a guerra de Tróia.

Tífon 1~,

Tífon, nascido de Geia e de Tártaro e considerado como o mais gigantesco dos filhos da Terra, é um ser monstruoso: com as suas cem cabeças toca o céu e com os seus braços em cruz atinge os limites do Oriente e do Ocidente. Os seus olhos e a sua boca lançam chamas, as suas mãos terminam em cabeças de dragão, o seu corpo, munido de asas, é cingido por uma multidão de serpentes.

Criado por Geia como último socorro dos Titãs, dominados pelos Olímpicos, Tífon só com a sua presença afugentou os imortais aterrorizados: estes esconderam-se no Egipto sob a aparência de animais (Hermes como fbis, etc.). Entretanto, Zeus decidiu aceitar o desafio de Tífon, lutando com ele. Mas o monstro venceu-o e cortou-lhe os tendões dos braços e das pernas a fim de o paralisar, aprisionando-o depois numa caverna da Cilícia. Mas Hermes, ajudado por Pá, veio em socorro de seu pai. Restituiu-lhe os tendões e Zeus pôde, assim, retomar a sua luta. Regressou ao Olimpo no seu carro alado e feriu Tífon com o seu raio, conseguindo depois, enquanto o monstro tentava atravessar o mar da Sicília, projectar sobre ele o monte Etna, que o esmagou. As chamas que saem do vulcão são lançadas pelo monstro aprisionado.

Atribui-se a Tífon a paternidade de outros seres monstruosos como Cérbero, Quimera ou a Hidra de Lerna que ele gerara com a sua irmã (?) Equidna, uma serpente perigosa com busto de mulher, assim como a maior parte dos ventos maléficos.

T i r é s i a s iwano..=.w

O célebre adivinho tebano Tirésias descende, pelo lado de seu pai Everes, da raça dos homens nascidos dos dentes de dragão, semeados por Cadmo. A sua mãe, a ninfa Caricio, era uma das companheiras de Atena.

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Titãs


Um dia em que esta se banhava na fonte Hipocrene sobre o Hélicon, Tirésias, que caçava na montanha, encontrou-se face a face com a deusa. Atena decidiu cegá-lo. Mas Caricio interveio em favor de seu filho e este foi dotado do dom da dupla visão.

Uma outra tradição apresenta uma versão diferente no que concerne à forma como Tirésias adquiriu este dom.

Vendo um dia duas serpentes a copular, Tirésias resolveu interpor-se entre elas, sendo imediatamente transformado em mulher. Sete anos mais tarde, assistiu a uma cena idêntica, e resolveu proceder da mesma maneira, sofrendo uma nova transformação, e voltando assim a ser homem. Ora acontece que Zeus e Hera discutiam, sem chegar a acordo, o grau de prazer que experimentavam, no amor, o homem e a mulher. Então decidiram apelar a Tirésias, como árbitro, visto que ele conhecera as duas sexualidades. E a resposta foi a seguinte: uma mulher experimenta nove vezes mais prazer do que o seu companheiro masculino. Furiosa, Hera privou Tirésias da visão. Satisfeito, Zeus conferiu-lhe o dom da profecia e o privilégio de viver sete vidas humanas consecutivas.

Tirésias teve uma filha, Manto, dotada também ela do mesmo dom, que exerceu a sua função em Delfos. Manto foi mãe do adivinho Mopso, o rival de Calcas.

Segundo parece, Tirésias morreu de fadiga e de velhice quando os Tebanos, vencidos pelo exército dos Epígonos, tomaram o caminho do exílio, a seu conselho.

Titãs


Representantes das forças da natureza, os doze Titãs enumerados por Hesíodo - seis de cada sexo - são os primeiros "filhos da Terra (Geia) e do Céu estrelado (úrano">. Eles nasceram segundo a seguinte ordem:

5 machos: Oceano, Céu, Crio, Hiperíon e Jápeto.

6 fêmeas (as Titânides): Teia, Reja, Témis, Mnemósine, Febe e Tétis.

1 sexto macho: Cronos. Homero só cita três: Cronos, Reja e Jápeto. É possível que os doze nomes de Hesíodo apareçam como correspondência aos doze deuses do Olimpo.

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Titãs


Mais próximas das divindades dos velhos mitos babilónicos do que daquelas do panteão helénico, os Titãs não têm uma personalidade muito vincada. A arte grega, por exemplo, confunde-os praticamente com os Gigantes.

Para uma informação mais detalhada da sua história e dos seus traços particulares, remetemos aos artigos consagrados a cada um deles.

Cronos, o mais novo, e aquele cujo carácter e personalidade são mais marcados, será o responsável pela vingança de sua mãe e de seus irmãos e irmãs, mutilando o seu pai e destronando-o. Com efeito, úrano, que não conseguia suportar a visão dos filhos que tivera de Geia, precipitara-os, logo após o nascimento, para as profundezas da terra. Cronos libertará os Titãs do seu cativeiro e reinará, desde então, sobre o Universo.

O nome Titãs teria sido dado por úrano aos seus filhos depois do acontecimento: na sua soberba eles tinham ousado "estender" (em grego: titaino) os seus braços sobre o poder de seu pai. Esta etimologia, dada por Hesíodo, parece do tipo do trocadilho. Geralmente reconhece-se, na palavra, uma origem mediterrânica que significa "rei".

Os Titãs constituem a segunda geração dos deuses, segundo o relato de Hesíodo. Um certo número deles copularam entre si: Oceano e Tétis, Céu e Febe, Hiperíon e Teia, Cronos e Reia, e tiveram uma numerosa descendência.

Mas Cronos irá ser, por sua vez, destronado pelo seu próprio filho, Zeus. Os Titãs do sexo masculino vão então (à excepção de Oceano) travar uma luta feroz a fim de recuperar a autoridade da sua geração. Zeus fixou, entretanto, a sua residência no monte do Olimpo e os Titãs instalaram-se, em frente, sobre o monte Otris, e durante dez anos multiplicaram - sem sucesso - os seus assaltos (parece que esta lenda nasceu como explicação das perturbações geológicas que afectaram a Tessália).

Para terminar, Zeus decidiu descer às profundezas da Terra, onde continuavam ainda cativos os outros filhos de úrano, não libertados por Cronos. Ele deu-lhes a liberdade, a fim de os mobilizar a seu favor. É assim que os Cicoples, divindades do trovão, vão entregar a Zeus a sua força. Este entra então pessoalmente no combate e a sua mão vibrante de brilho lança um raio do alto do Olimpo: os Titãs cegam "e o incêndio atinge o Caos: diz-se que a Terra e o Céu se confundirarn".

Por seu lado, os três Hecatonquiros asseguram, ao seu libertador, o Apolo das suas centenas de braços monstruosos. Arrancando as rochas com os dedos, eles atiram-nas sobre os Titãs.

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Tróia


No decurso da luta, Aqueronte, filho de Geia, dará de beber aos Titãs alterados, sendo precipitado no abismo e transformado em rio infernal. Quanto à ninfa do Estige, filha de Oceano, que deu a sua ajuda aos Olímpicos, ela vai receber uma recompensa excepcional: a partir de então os imortais jurarão em seu nome e o juramento "por Estige" será irrevogável.

Vencidos, apesar do seu orgulho e da sua coragem, os Titãs vão conhecer, de novo, as entranhas da Terra: ali, "nas trevas", eles são definitivamente aprisionados por vontade de Zeus.

Foram eles que despedaçaram Zagreu, em criança, e este episódio está na origem das doutrinas órficas sobre a morte e a ressurreição.

Adorados entre os Gregos como os antepassados dos homens, os Titãs eram considerados como os inventores das artes e também da magia.

Depois de Hesíodo, a referência a Titãs tomará uma maior extensão e o seu número não será mais limitado a doze.

Tritão


A palavra Tritão é, geralmente, utilizada para nomear uma das múltiplas divindades masculinas com cauda de peixe que animam o cortejo de Posídon, soprando nas conchas. Vemo-los figurar, frequentemente, entre as estátuas nas fontes.

Mas o nome Tritão aplica-se igualmente ao deus marinho, filho de Posídon e de sua mulher Anfitrite, que teria reinado sobre o lago Tritone, na Líbia. Os Argonautas de Jasão, encalhados em África, encontraram-no e ele ajudou-os a retomar o mar.

Atríbui-se a Tritão uma filha, Palas, que, no decurso de um jogo, teria sido acidentalmente morta pela deusa Atena.

Tróia


Quando Zeus confiou a Alcrnena o germe de Héracies, proclamou sob juramento, que o primeiro descendente de Perseu que nascesse, seria inves-

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Tróia

tido de um poder temporal sem exemplo. Ele foi encorajado nesta declaração por Ate - o Erro - a deusa com pés leves que pousa sobre as cabeças sem que elas tenham consciência. Na realidade, graças a uma trapaça de Hera, Euristeu, primo de Alemena, nasceu antes de Héracies e beneficiou, em detrimento do filho de Zeus, dos efeitos da promessa divina.

A colina do Erro Ate induziu o rei dos deuses em erro. Mas ele vingou-se, precipitando-a do alto do Olimpo e proibindo-lhe, para sempre, o regresso ao mundo dos imortais. A partir de então a sua influência só se exercerá sobre os homens.

Ate caiu na Frigia, sobre uma colina, e é esta colina de Ate que irá ser inocentemente escolhida para se tornar a cidadela de Tróia: a nefasta influência da deusa irá exercer-se, em primeiro lugar, sobre os seus habitantes.

O "romance de Tróia" começa com o desembarque de Dárdano nas costas da Ásia Menor. Teria ele vindo da ilha de Samotrácia ou da Itália Central, como o afirmaram os Romanos, para os quais a emigração de Eneias não era senão um regresso às origens? De onde quer que ele tenha vindo, foi calorosamente acolhido pelo rei Teucro, que lhe deu a sua filha em casamento e o tornou seu sucessor.

A Dárdano sucederam, de pai para filho, Erictónio (homónimo do rei de Atenas), Trós, Ilo e Laomedonte.

Este último beneficiou do Apolo de Apolo, de Posídon e de Éaco para a construção dos muros de Tróia. Enfrentou, também, uma expedição dirigida por Héracies, que lhe cobrava as suas promessas. Encontrou a morte no combate, assim como todos os seus filhos presentes, à excepção da sua filha Hesíone, que Héracies ofereceu em casamento ao seu amigo Téiamon, e do seu filho mais novo, Podarces, que o herói vendeu simbolicamente a Hesfone. A este, Héracles deu o cognome de Príamo, que significa "aquele que foi vendido".

Príamo subiu ao trono de Laomedonte, desposou uma filha do adivinho Mérope, Arisbe e, depois de a repudiar, casou com Hécuba, que foi muito fértil. O seu primeiro filho foi Heitor e o segundo foi Páris.

Pãris e a maçã da discórdia Quando Páris nasceu, apareceu ao seu pai, em sonho, com uma tocha na mão, incendiando a cidadela de Tróia. Este presságio levou os seus pais a

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Tróia

expô-lo. Mas ele foi recolhido por pastores que o educaram até se tornar um sólido e magnífico adolescente, digno do nome que lhe foi dado: Alexandre (o Protegido ou o Protector).

Um dia, os servidores de Príamo viram adiantar-se sobre as manadas de Páris um touro de uma grande beleza: este devia constituir o prêmio oferecido ao vencedor dos Jogos Fúnebres, periodicamente organizados pelo rei, em honra do filho que ele julgava morto. Páris-Alexandre decidiu ir concorrer incógnito, tendo ganho todos os concursos. Então fez-se reconhecer e retomou o seu lugar no palácio.

Quando se festejavam as núpcias de Tétis e de Peleu, entre os Olímpicos, Éris, a Discórdia, lançou uma maçã de ouro entre os convidados, que devia ser oferecida à mais bela das deusas. Nenhum dos convivas se quis comprometer no julgamento, e Zeus pediu a Hermes que conduzisse as candidatas ao monte Ida, que dominava a cidade de Tróia, para que elas comparecessem perante o belo Páris. Hera, Atena e Afrodite apresentaram-se, cada uma delas prometendo, caso recebesse a maçã de ouro, o Império da Ásia (esta foi a proposta de Hera), o dom da sabedoria e a garantia da vitória (oferta de Atena) e o amor da mais bela mulher do mundo (tentação de Afrodite). (Numerosas pinturas representam o Julgamento de Párís: Jules Romain, Cranach, Rubens, Watteau, Boucher...). Foi Afrodite quem ganhou.

O Troiano Páris ganhou, pois, o amor da mais bela das criaturas e esta era Helena, filha de Zeus e princesa de Esparta.

O rapto da bela Helena Alguns anos depois, a bela Helena, ainda criança, foi raptada por Teseu, rei de Atenas, e depois recuperada pelos seus dois irmãos, Castor e Pólux. O rei de Esparta, Tíndaro, pai "humano" da jovem, decidiu então escolher-lhe um marido da mais elevada condição.

Precisamente nessa altura chegaram a Esparta os dois filhos de Atreu, Menelau e Agamémnon, afastados do seu reino de Micenas pelo seu primo Egisto. Os dois homens juntaram-se ao número dos pretendentes de Helena, cuja lista contava já uma centena de nomes, ou seja, todos os príncipes da Grécia (com excepção de Aquiles que era, então, uma criança). Quem iria ser escolhido? Quantos descontentes esta escolha não provocou? Entre os candidatos encontrava-se o astucioso Ulisses, rei da ítaca. Este irá sugerir a Tíndaro que faça jurar, a cada pretendente, defender pessoalmente, caso haja

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Tróia

necessidade, a honra e a fortuna daquele que Helena escolhesse. E isto foi feito. A escolha de Helena recaiu sobre Menelau (o irmão deste, Agamérrmon, desposou mais tarde a irmã de Helena, Cliternnestra). Os pretendentes curvaram-se. E como prêmio pelo seu conselho, Ulisses foi introduzido na família real de Esparta, recebendo a mão de Penélope, a sobrinha de Tíndaro.

Entretanto, o rei, por morte de seus filhos, Castor e Pólux, cedeu o seu reino ao seu genro Menelau, enquanto Agamérrinon recuperou o trono de Atreu, em Micenas. Acontece que a peste e a miséria se abateram sobre Esparta e sobre toda a região envolvente, tendo o oráculo aconselhado Menelau a oferecer um sacrifício sobre o túmulo dos filhos de Prometeu. Como estes tinham sido sepultados nas redondezas de Tróia, Menelau dirigiu-se à corte de Príamo, recebendo a hospitalidade do príncipe Páris. Mais tarde, quando este cometeu inadvertidamente um assassínio, foi obrigado a exilar-se a fim de se purificar, dirigindo-se para Esparta, para a corte de Menelau. Entretanto aconteceu o famoso julgamento no monte Ida e a deusa Afrodite interessou-se pessoalmente pela viagem, pois vislumbrou a ocasião de se vingar de Tíndaro, que a tinha ofendido.

Páris partiu com o seu cunhado Eneias, marido de sua irmã Creúsa, sendo recebidos com a maior simpatia por Menelau. Mas um contratempo -

a morte do seu avô, Catreu, que reinava em Creta - obrigou Menelau a ausentar-se da cidade a fim de assistir ao funeral.

Quando ele regressou, os seus hóspedes tinham desaparecido, tendo raptado Helena, que consentira (cf. David: Párís e Helena, Louvre), acompanhada dos seus escravos - onde se encontrava Etra, a mãe de Teseu - e dos seus tesouros. Hermíone, a filha de Helena e de Menelau, com nove anos de idade, ficara abandonada na corte.

Menelau ficou desolado. Mas, preso ao juramento feito pelos príncipes da Grécia, decidiu tudo tentar para reaver a sua esposa.

Enviou então como embaixadores a Tróia, o filho de Teseu, Ácamas, e o filho de Tideu, Diomedes. Depois de algumas peripécias, no decurso das quais Ácamas partilhou o leito da mais bela irmã de Páris, Laódice, os dois regressaram sem ter cumprido a sua missão.

Então Menelau, na companhia de Ulisses, foi consultar o oráculo de Delfos Sobre a oportunidade de enviar uma expedição militar. O oráculo deu-lhe um

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Atlas

Taígete + Zeus

(> LÉLEX

nascido da Terra

@ MILES

Eurotas


O LACEDÉMON + Esparta

O AMICLAS Eurídice

O ARGALO O CINORTA Dánae + Zeus

Perseu


Bateia ÉBALO + Gorgófona

O HIPOCOONTE ' O TíNDARO

H- gna + MENELAU @11)

Os reis de Esparta até Menelau

Tróia

parecer f avo rável, conc i I iand o assim as boas graças das duas deusas irritadas com o julgamento de Páris. Hera mostrou-se logo favorável aos Gregos; Atena deixou-se seduzir pela oferta de um colar que Afrodite tinha dado a Helena.



A guerra de Tróia Menelau convocou então todos os seus amigos. Contou com o Apolo do sábio Nestor, o velho rei de Pilos, e mandou procurar o jovem Aquiles -

escondido no gineceu do rei de Ciros - cuja presença, segundo o oráculo, era a primeira condição do sucesso da expedição. O grande exército, reunido em Áulis, escolheu um chefe supremo e a escolha recaiu em Agamémnon, o ousado e ambicioso irmão de Menelau, que pelo contrário era mais tímido.

Uma primeira expedição, não mencionada em Homero, constituiu um fracasso. Ignorantes da rota a seguir, os barcos gregos desembarcaram na Mísia, julgando que tinham chegado à Frígia. Télefo, filho de Héracies, que tinha desposado a filha do rei, opôs-se à invasão e fez numerosas vítimas, antes de ser ferido por Aquiles com um golpe da sua lança.

Os Gregos voltaram então ao mar, onde foram vítimas de uma tempestade e cada um deles regressou ao seu país. Demorou oito anos para reunir novos contingentes. Desta vez foi armada uma frota de cerca de dois mil barcos, mas as informações sobre a rota marítima para Tróia eram ainda bastante imprecisas. Ora, Télefo, cuja ferida infectara e que necessitava de ajuda para que esta sarasse, decidiu dirigir-se a Áulis disfarçado, entrou no campo dos Gregos, deu-se a conhecer e, tendo sido curado, ofereceu-se para guiar a

frota até à Tróada.

Mas os barcos foram então imobilizados pela calma dos elementos. O adivinho Calcas revelou então que o vento só regressaria, caso se fizesse o sacrifício de Ifigénia, a filha mais velha do chefe supremo (cf. Uma Filha para o vento, peça de André Obey, 1953). Este cedeu e, sob o pretexto do noivado da jovem com Aquiles, mandou-a vir a Áulis onde a ofereceu em sacrifício no altar de Ártemis.

Então os ventos sopraram e a frota tomou o mar. Mas cada escala conheceu uma aventura: Lesbos em primeiro lugar, a seguir em Ténedos e a partir daí, não querendo negligenciar nenhuma solução pacífica, Menelau e Ulisses partiram em delegação a Tróia, a fim de negociar o regresso de Helena. Aí eles exprimiram o seu desejo perante a assembleia do povo, mas Páris

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Tróia

fez recusar todos os compromissos e Menelau escapou, por pouco, a um assassinato,

Aquando da escala em Ténedos, o herói tessaliano Filoctetes foi mordido por uma serpente. A chaga deitava um tal odor de infecção que, na escala seguinte, na ilha de Lemnos, ele foi abandonado. E não morreu à fome graças às peças de caça que lhe foram deixadas por Héracles.

Quando a frota grega avistou Tróia, Menelau fez uma nova tentativa para evitar o pior. Desta feita, desafiou Páris para um duelo, propondo que Helena ficasse com o vencedor. No decurso do combate Menelau conseguiu ferir o seu rival, mas Afrodite cobriu Páris com uma nuvem negra e transportou-o para junto de si. Os Gregos reclamaram entretanto o cumprimento do contrato: Helena devia retornar ao seu marido vitorioso. E foi então que uma flecha, saída dos campos troianos, feriu Menelau, dando origem a um conflito generalizado. Os mortos caíam dos dois lados. Heitor decidiu, então, desafiar Menelau, mas este, diminuído pela sua ferida, foi retido pelos companheiros. A guerra deflagrou sob o olhar e com a conivência dos imortais, que escolheram o seu campo. Ao lado dos Troianos combateram Ares e Afrodite. Como partidários dos Gregos estiveram Hera, Atena (ainda que protectora oficial de Tróia), Posídon, Tétis, mãe de Aquiles, Hefesto e Apolo (com algumas infidelidades).

Durante os primeiros nove anos de guerra não se passou nenhum acontecimento digno de nota. Enquanto os Gregos mantinham o cerco sem enfraquecimento, alguns contingentes efectuavam razias nos campos vizinhos. Ora no decurso de uma incursão em terreno neutro, Agamémnon cometeu o erro de raptar a filha de um sacerdote de Apolo: o deus desencadeou a peste sobre o campo aqueu e o rei dos reis foi obrigado a entregar a cativa a seu pai. Mas em compensação, Agamémnon exigirá que Aquiles lhe ceda a sua.

As grandes acções perante Tróia É aqui que começa o relato da Ilíada. A querela entre os dois homens, que começou quando Agamémnon usou o nome de Aquiles para trazer lfigénia Para Áulis, vai tomar proporções desastrosas a despeito de todos os esforços conciliadores, sobretudo do sábio Nestor. Aquiles retirou-se para a sua tenda e deixou de dar o seu Apolo aos Gregos, mesmo quando a situação ameaçou tornar-se catastrófica.

E não voltou atrás na sua decisão senão quando o seu primo e inseparável amigo Pátroclo sucumbiu aos golpes de Heitor. Nenhum troiano, a partir des-

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te momento, poderá resistir à fúria de Aquiles: o próprio Heitor, o mais valente de todos eles, cairá por sua vez, num duelo sem piedade.

O velho Príamo, que verá morrer todos os seus filhos, um após o outro, dirige-se a Aquiles, suplicando-lhe que lhe entregasse o cadáver de Heitor. Tentando comover o jovem herói, ele recuperará o corpo de seu filho, mediante o pagamento de um enorme resgate. E aqui termina o relato da Nada.

Quanto a Aquiles, ele multiplicará as suas vitórias. Matará a rainha das Amazonas, Pentesileia, aliada dos Troianos; mas desde esse momento, ele sentir-se-á tomado por uma irresistível paixão pela sua vítima.

As tradições variam no que concerne às circunstâncias da morte de Aquiles: ele pereceu, em todo o caso, de uma ferida no tendão, provocada por uma flecha atirada por Páris.

Apesar do desaparecimento de Aquiles e de Heitor, o cerco de Tróia manteve-se. Calcas ordenou, então, que fossem buscar Filoctetes à sua ilha, pois as armas de Héracies revelavam-se indispensáveis à vitória. Ulisses partiu então para Lerrinos e trouxe o infeliz. A sua ferida irá ser curada pelos médicos do campo, permitindo-lhe retomar o seu lugar no combate. Um dos seus primeiros feitos de armas consistiu em matar Páris, e Menelau sentiu uma enorme satisfação ao ultrajar o cadáver do seu rival.

Quando Páris morreu, Helena foi cobiçada por dois dos seus cunhados: Heleno e Deífobo. E como Príamo tinha prometido a sua posse àquele que se mostrasse mais bravo, Deífobo acabou por recebê-la. Heleno, mais velho do que o seu irmão, contestou a decisão e refugiou-se no monte Ida, recusando desde então participar no combate. Calcas, quando teve conhecimento da fuga de Heleno, apressou-se a enviar quem o procurasse. Com efeito, o troiano, como a sua irmã gêmea Cassandra, era dotado de poder profético. Ulisses conduziu Heleno ao campo grego e obrigou-o a revelar as condições que eram necessárias para que Tróia fosse tomada.

Heleno recordou então que as infelicidades dos Gregos provinham, en-

tre outras coisas, da maldição lançada por Pélops sobre os seus filhos Atreu e Tiestes, quando estes tinham matado o seu meio-irmão. Ora como Pélops era originário da Frígia, para que a vitória caísse entre as mãos dos Gregos, era necessário que estes trouxessem, para Tróia, os seus restos mortais enterrados na Élide. Era preciso, em seguida, que o filho de Aquiles, Pirro-Neoptólemo, tomasse, entre os Gregos, o lugar deixado vago pela morte de

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seu pai; e, por fim, que o Paládio, a estátua protectora de Tróia, fosse roubada. É Heieno, também, que dará o conselho de construir um gigantesco cavalo de madeira, no ventre do qual os guerreiros gregos se esconderam, permitindo-lhes assim introduzir-se na cidade.

As três condições foram rapidamente reunidas. Foi-se procurar Pirro, que não levantou nenhuma dificuldade em deixar a ilha de Ciros, onde tinha nascido; os ossos de Pélops foram desenterrados e levados até Tróia; e, por fim, Ulisses e Diomedes com, segundo parece, a cumplicidade de Heleno, apoderaram-se do PaIádio. E construiu-se o cavalo. No seu fianco escondeu-se a elite dos guerreiros gregos. Os barcos simularam recuar e abandonar a praia. Entretanto, um primo de Ulisses, chamado Sinão, procurou deixar-se capturar pelos Troianos; conduzido junto de Príamo, ele fingiu expressar uma confissão: o cavalo era uma oferta a Atena, destinada a obter a vitória; mas se os Troianos

por azar - o introduzissem na sua cidade, isso seria o fim da Grécia!

Entretanto, os chefes troianos tomaram todas as medidas a fim de conseguir a posse do cavalo. Só duas vozes discordantes se fizeram ouvir: a de Cassandra, que previu a ruína de Tróia; mas a jovem sacerdotisa, porque se tinha recusado a Apolo, tinha sido privada do poder de se fazer crer. E a voz do grande sacerdote l_aocoonte, que se esforçou com toda a sua autoridade para impedir a entrada do cavalo. Apolo fechou-lhe a boca, enviando serpentes monstruosas que o devoraram a ele e aos seus filhos (grupo antigo, do

1 .O século, do Palácio do Vaticano; pintura de Greco, em Washington, National Gallery of Art).

O fim de Tróia e os regressos dramáticos Como mais ninguém se opôs ao projecto, o cavalo, com grande pompa, entrou nos muros de Tróia. Na noite seguinte, Sinão abriu os fiancos do animal e fez, com um archote, o sinal combinado para que os navios gregos se aproximassem de novo. Os guerreiros saíram do cavalo, abriram as portas da cidade e o exército grego precipitou-se no seu interior, deitando o fogo às casas e massacrando os Troianos. Pirro abateu o velho Príamo junto do seu altar doméstico e arrastará o seu cadáver até ao túmulo de Aquiles. Quanto a Menelau, que tinha tomado lugar no cavalo, precipitou-se para Deifotio, degolou-o e mutilou-o, mas mal viu Helena em toda a sua beleza, esqueceu a sua vingança e perdoou-a.

294


Oceano

Simois


Astíoque

Geia + úrano

Jápeto

1 Atlas


1 Electra +

Cronos


---US

Escamandro + Ideia

Corito rei dos Tirrenos de Itália

OTEUCRO


D, )ANO + Mirina (ou Batieia)

rainha das Amazonas

O ERICTóNIO

C> TRóS


O ILO fundador de Tróia

Assaraco


LAOMEDONTE

1

O PRíAMO



1 Creúsa

Temiste + Cápis

Anquises + Af rodite

Eneias


Ascânio

Os reis de Tróia

Tróia

Entre os Troianos que escaparam ao massacre, Eneias, o seu filho Ascânio e o seu pai Anquises conseguiram refugiar-se nos arredores de Tróia e preparar a sua emigração, que os conduzirá, via Cartago, a Itália.



Entretanto, os vencedores partilharam o saque e os cativos: Agamémnon recebeu Cassandra, arrancada ao templo de Atena, onde se refugiara, apaixonando-se, imediatamente, pela jovem. A esposa de Heitor, Andrómaca, foi dada a Pirro que, também ele, se apaixonou perdidamente. A velha rainha Hécuba foi atribuída a Ulisses, mas ele deixará os seus soldados lapidá-la.

E, finalmente, Menelau lançou o sinal de partida. Mas o seu regresso a Esparta, acompanhado de Helena, foi cheio de peripécias, incluindo uma estada de cinco anos no Egipto e só se verificou oito anos depois da queda de Tróia. No fim da sua vida, na qualidade de genro de Zeus, Menelau será transportado vivo para os Campos Elísios.

Numerosos foram os combatentes que não regressaram jamais à sua pátria. Com efeito, a grande maioria da frota grega pereceu, despedaçada, nos recifes ao largo da ilha de Eubeia. Pirro escapou ao naufrágio graças à intervenção de Heleno, que se encontrava, juntamente com Andrómaca, entre os seus cativos: o adivinho recomendou-lhe, com efeito, que tomasse o caminho de terra. À morte de Pirro, que tinha desposado Andrómaca, Heleno sucedeu-lhe, desposando a sua viúva e dando o seu trono, à sua morte, a Molosso, nascido da Troiana e do filho de Aquiles.

Agamémnon demorou-se em Tróia mais tempo do que todos os seus aliados, a fim de oferecer um sacrifício de apaziguamento a Atena, irritada com a captura de Cassandra. O seu regresso será dramático. A sua mulher Clitemnestra e o seu primo Egisto, que ela tinha tomado como amante, assassinaram-no. Os seus filhos, Electra e Orestes, encarregaram-se da sua vingança. A demanda de Orestes e a sua liquidação, obtida graças a Atena, apagaram a maldição lançada por Pélops sobre a sua descendência.

Quanto a Ulisses, que entrou em querela com Menelau, esperou Agamémnon para abandonar Tróia. Mas, à partida, será separado do grosso da sua armada por uma tempestade e, desde então, errou pelos mares e pelos continentes durante dez anos, antes de regressar ao seu país natal e à sua esposa Penélope.

296


Tuie

Os diversos episódios da guerra inspiraram, largamente, os artistas: cf. os artigos Aquiles, Eneias, Orestes, Ulisses.

A bela Helena (1864) de Menbach não é a única paródia inspirada pela guerra de Tróia. Já Shakespeare, em Troilo e Cassandra (1601), conseguiu apresentar os heróis homéricos irreverentemente caídos do seu pedestal. Giraudoux, com A Guerra de Tróía não acontecerá (1935), denuncia o carácter fatal do destino.

Tule


Tule é o nome de uma ilha lendária, que os Romanos situavam ao norte da Atlântida (Islândia ou ilha do arquipélago escocês das Shetland) e que passava por marcar o limite extremo (extrema Thule) do mundo conhecido.

297


Ulisses

Segundo Homero, Ulisses é o filho do rei Laertes, da ítaca, e da sua mulher Anticleia. Tradições posteriores deixam entender que Anticieia teria tido este filho de Sísifo, rei de Corinto, ficando assim explicada a astúcia, que ele herdara de seu pai, e que utilizará ao longo dos seus infortúnios.

Quando Ulisses atinge a idade adulta, Laertestransmite-lhe o trono. O novo rei, um dos pretendentes à mão de Helena de Esparta, obtém como compensação, a sua prima, Penélope. Da sua mulher, ele terá um filho, Telémaco.

Ao longo do drama troiano, ou seja, ainda antes das hostilidades que, durante a guerra, opuseram os chefes da Grécia ao rei Príamo e aos seus filhos, raptores de Helena, Ulisses assumiu funções de conselheiro e de embaixador, tendo a sua habilidade e a sua sabedoria causado admiração. O herói aliava à astúcia, a valentia e a dedicação, e a eficácia da sua acção reconhecida pelos seus inimigos -foi ele que comandou o destacamento militar escondido nos fiancos do cavalo de madeira -, valeu-lhe receber, em herança, as armas de Aquiles, forjadas por Hefesto.

O regresso de Ulisses à sua pátria, após a queda de Tróia, foi o tema do relato da Odisseia. O nome Ulisses é uma transcrição latina do nome grego Odusseus, que significaria a vítima do rancor. A malignidade dos destinos, com efeito, abateu-se sobre ele e sobre os seus companheiros, levando-o a errar durante dez anos - tantos quantos durou o cerco de Tróia - antes de reencontrar a sua ilha, a sua mulher e o seu filho.

Sacudido pelas tempestades e pelos caprichos dos deuses, Ulisses fará uma primeira escala na Trácia, cujos habitantes massacrou.

Em seguida aportou ao país dos Latófagos, que se alimentavam do Iótus, a planta do esquecimento. Depois escalou a ilha dos Ciclopes, onde afrontou Polifemo, filho de Posídon, e devorador de homens.

299


Ulisses

Daí dirigiu-se ao reino de Éolo, senhor dos ventos, que lhe ofereceu um odre onde estavam fechados todos os ventos. Mas os seus companheiros abriram-no e desencadearam uma tempestade. Então Ulisses foi atirado para o país dos antropófagos Lestrígones. Daí escapou para a ilha da mágica Circe, que transformava os marinheiros em porcos e, finalmente, aportou na sombria região dos Cimérios onde residiam os mortos e onde interrogou o adivinho Tirésias sobre o caminho a seguir para voltar a ítaca.

Depois sofreu a sedução maléfica das Sirenes, o perigo das Rochas errantes, a crueldade dos monstros Caríbdis e Cila, o trágico episódio na ilha de Trinácia, onde os Gregos, tendo imolado os bois brancos de Hélio, pereceram no mar, fuiminados por Zeus, deixando o herói sozinho, preso a uma jangada;

Deucalião

Hélen

Éolo


Deion

CeTaio


Arcísio

Laertes + Anticleia + Sísifo

Ulisses1

' Segundo as tradições pós-hornéricas.

300

Ulisses


o acolhimento demasiado caloroso da ninfa Calipso, que aprisionará Ulisses durante vários anos e a hospitalidade generosa do rei dos Feaces, AIcínoo, e da sua filha, Nausícaa, que recolheu o naúfrago.

O herói sofreu todas estas provas com uma coragem exemplar. A sua vontade e a sua inteligência obtiveram, finalmente, a recompensa. Depois de vinte anos de ausência, Ulisses reverá a sua ítaca, o seu velho porqueiro Eumeu, o seu filho e o seu pai e o seu cão Argo, que esperou o seu regresso para morrer. Quanto à sua mulher, irá encontrá-la envolvida numa disputa, com uma centena de pretendentes dispostos a disputar a sua mão e os seus bens. Até aí, Penélope tinha conseguido escapar às solicitações dos diversos pretendentes, prometendo que daria um sucessor a Ulisses, quando terminasse a mortalha que tecia. Entretanto, Penélope passava uma parte das suas noites desfazendo o trabalho que tecia de dia. Ulisses, incógnito, provocará os pretendentes, um a um, vencendo-os e massacrando-os. E só então ele se fará reconhecer à sua fiei Penélope.

As tradições relativas à morte de Ulisses são diversas. Apresenta-se, por vezes, o herói caindo, acidentalmente, aos golpes de Telégono, um filho que teria tido de Circe.

O périplo mítico de Ulisses foi objecto de estudos científicos, que chegaram a conclusões variadas: Victor Bérard consigna-lhe a rota mediterrânica; Gérerd Pillot, mais recentemente (O Códígo secreto da Odisseía'), considerando sobretudo a duração das etapas, alarga a rota até à Islândia, onde situa o país de Calipso.

A personagem de Ulisses, na qual os homens reconhecem o símbolo do lutador, triunfante nas provas a que é submetido pelo destino, gozou e goza, ainda hoje, de uma imensa popularidade. Ulisses ocupa um lugar importante na arte (A. Carrache, Le Guide, Rubens ... ) e na literatura: o fabuloso romance de J. Joyce, Ulisses, é uma paródia da Odísseia. O reencontro de Ulisses e de Penélope inspiraram duas obras líricas intituladas: Penélope, uma de G. Fauré e outra de R. Liebermann, que é uma apresentação moderna da lenda.

1 A Odisseia seria o itinerário codificado da rota do estanho.

301

úrano


Urano

úrano (nome grego do céu) é o céu estrelado divinizado. Segundo Hesíodo, ele foi criado, na origem do mundo, por Geia, a Terra, tal como o seu irmão Ponto, o Mar.

Deus masculino, foi concebido à dimensão de sua mãe, de modo que, diz a Teogonia, "pudesse cobri-Ia completamente". Assim, desta união nasceram os terríveis Titãs, os Ciciopes "de coração violento" e os monstruosos Hecatonquiros.

úrano odiou os seus filhos desde o primeiro dia. "Mai eles nasciam, em lugar de os deixar sair à luz do dia, atirava-os para as entranhas da Terra".

Geia implorou, então, a ajuda dos seus filhos e Cronos, o último dos Titãs a nascer, recebeu de sua mãe uma foice destinada a mutilar o seu pai.

Rodeado pela Noite, úrano resolveu seduzir Geia: "ávido de amor, ele aproximou-se e o seu desejo cresceu". Então Cronos interveio e, com um golpe de foice, mutilou o seu pai.

Os salpicos de sangue que caíram, entretanto, sobre Geia, irão fertilizá-ia mais uma vez, levando-a a gerar as poderosas Erínias, os terríveis Gigantes e as ninfas dos freixos, as Melíades.

Outros salpicos de úrano caíram sobre o mar: uma onda de espuma apareceu e dela saiu a "bela e venerada deusa" Afrodite. Quanto à foice, deitada ao mar, dará origem à ilha de Corfu.

A deposição violenta de úrano porá fim àquilo que se chama a primeira geração hesiódica. O reino de Cronos, que lhe sucederá, marcará a "segunda geração".

A cosmogonia do orfismo apresenta úrano como irmão de Geia, sendo os dois filhos da Noite. O resto da lenda segue nas grandes linhas o relato de Hesíodo.

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Velo de ouro



O rei da Beócia, Átamas, filho de Éolo 1 e irmão de Sísifo, teve da sua primeira mulher Néfele, dois filhos, Frixo e Hele. Mais tarde repudiou Néfele e casou com a filha de Cadmo, Ino, tia e educadora de Dioniso que, por sua vez, lhe dará dois filhos, Learco e Melicertes.

A fim de reservar o trono à sua própria descendência, Ino imaginou o seguinte estratagema: irá sugerir às camponesas que queimem os grãos de trigo que os seus maridos tencionavam semear. Naturalmente o trigo não cresceu e, perante este prodígio, Átamas foi consultar o oráculo de Delfos. Ino, que tinha subornado o mensageiro, obrigou-o a dizer que a calamidade não seria conjurada enquanto Átamas não sacrificasse Frixo e Hele.

Estes estavam a ser colocados no altar de sacrifício, quando um carneiro alado com um Velo de ouro se apresentou e os elevou no ar, arrancando-os assim à morte. Este animal era fruto dos amores de Posídon e da princesa da Trácia, Teófana, que o deus transformou em ovelha.

Hele, durante a viagem, caiu no mar, que tomou o seu nome (Helesponto) e foi recolhida por Posídon que a amou.

Quanto a Frixo, chegou à Cólquida, onde o rei Eetes o acolheu e lhe deu em casamento uma das suas filhas.

Frixo ofereceu, em sacrifício, a Zeus, o carneiro maravilhoso e deixou a Eetes o precioso Velo. Este foi amarrado a um carvalho, num bosque consagrado a Ares, e confiado à guarda de um dragão.

Foi este Velo de ouro que Jasão e os seus companheiros, os Argonautas o seu navio foi construido pelo próprio filho de Frixo, Argo - foram encarregados de conquistar, em proveito de Pélias, o rei de loico, na Tessália. Esta expedição, a primeira efectuada por mar, pelos Gregos, representa verda-

303


Ventos

deiramente uma das primeiras "investidas em direcção ao ouro" (minas do Cáucaso) da história.

Em memória da epopeia dos Argonautas, que não hesitaram em expor a sua vida para cumprir uma missão, uma ordem de cavalaria intitulada o "Velo de ouro" foi criada pelo Duque da Borgonha, Filipe, o Bom, em 1420, para a defesa da fé cristã. As insígnias eram um colar de ouro do qual pendia um berloque com a forma de um carneiro. A ordem existiu em Espanha até à abolição, em 1931, da monarquia. A expedição inspirou, igualmente, a tragédia de Corneille, O Velo de ouro (166 1 ).

Ventos


Os ventos, como todas as forças da natureza, foram personificadas na Antiguidade. Os Gregos faziam distinção entre os ventos favoráveis e os ventos hostis, opondo, por exemplo, Bóreas, o vento rápido e furioso, a Zéfiro, a brisa ligeira.

Tanto a uns como a outros foram atribuídas diversas aventuras: Bóreas, Zéfiro, Noto (o vento quente do Sul) passavam por ser os filhos de Eos, a Aurora e de Astreu, o vento do crepúsculo. Mas a maior parte dos ventos hostis eram considerados como sendo os filhos do monstro Tifon, nascido da Terra.

Todos estavam submetidos à autoridade de Éolo que, seguindo as instruções de Posídon, os mantinha fechados nas cavernas das ilhas Lipari ou os deitava sobre o Oceano.

Os Romanos também renderam um culto aos ventos, associado ao culto de Neptuno. No séc. iii vê-se Cipião, como reconhecimento de uma vitória naval obtida sobre Cartago, elevar em Roma um templo às Tempestades. Nos mitos de Mitra, o sopro dos ventos é adorado como um dos quatro elementos fundamentais.

304

Vesta


Os ventos são representados com o aspecto de personagens aladas, flutuando e soprando, com as suas faces, tanto jovens e imberbes como barbudas e de idade madura.

Vénus


Vénus, uma muito antiga e modesta divindade itálica, presidia à vegetação e à fecundidade antes de ser assimilada, a partir do séc. ii a. C., à Afrodite grega, deusa do amor e da beleza.

A gens Julia, à qual pertenceram César e o imperador Augusto, dizia-se descendente de Iffio, filho de Eneias e de Vénus-Afrodite.

A sexta-feira é o dia de Vénus. Em matéria de arte, o nome Vénus tornou-se sinónimo de um tipo de beleza feminina, variando segundo a época e o lugar.

Representar Vénus (Afrodite), para um artista, não é senão exprimir o culto da Mulher Ideal, e não se contam as Vénus antigas de Milo, de Cnido, de Arles, de Cápua, do Capitólio... e ainda aquelas pintadas por Cranach (Leninegrado, Berlim), Giorgione (Dresden), Ticiano (Florença, Galeria dos Ofícios), Botticelli (Nascimento de Vénus, Galeria dos Ofícios), Vasari (Nascimento de Vénus, Florença, Palácio Vecchio), Velásquez (Vénus ao espelho, Londres)... ou esculpidas por Pigalle (Potsdam), Palou (Viena), Canova (Florença, Palácio Pitti), Coysevox (Louvre), Mailloi (1924)... O Triunfo de Afrodíte é uma obra lírica de Cari Orff (1953).

vesta

Vesta, a mais antiga, a mais bela e a mais pura das divindades romanas (ela é quase sempre representada velada) é, como a sua homóioga grega



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Vulcano


Héstia, a deusa da chama (o radical sânscrito vas exprime o brilho luminoso). Ela é a protectora do lar, por excelência.

O seu culto era celebrado por um colégio de "vestais", sacerdotisas que velavam pelo fogo sagrado e que desempenhavam um papel essencial na vida religiosa romana. Elas eram votadas ao celibato durante trinta anos e aquelas que faltavam ao seu juramento eram enterradas vivas.

Os templos de Vesta são de forma redonda tal como as cabanas arcaicas do Lácio; esta arquitectura corrobora a alta antiguidade deste culto, bem como a animal sagrado atribuído à deusa: o burro mediterrânico, por oposição ao cavalo importado.

Vulcano


Vulcano, um dos mais antigos deuses dos Latinos é, na origem, a única divindade do solo fecundante e do fogo devastador. Ele é adorado quer como deus do lar quer como deus dos combates. Este deus do fogo é, por vezes, confundido com o deus do Tibre! Ele é agrupado a Juno e associado a Vesta. Diz-se que ele é o pai do gigante com três cabeças, Caco, que pereceu por ter querido roubar os bois de Hércules, e igualmente do rei de Roma, Sérvio Túlio, legendário sucessor de Tarquínio, o Antigo.

Mais tarde, com a aparição de Júpiter e de Marte, Vulcano perderá os seus atributos, para se ver assimilado a Hefesto, o deus enfermo, marido de Vénus-Afrodite.

Cf. Hefesto.

1

306



Zagreu

Zagreu, filho de Zeus e da sua própria filha Perséfone, segundo a teogonia órfica, passava por ser o favorito do rei dos reis, que teria mesmo pensado torná-lo seu sucessor. Para conjurar o eterno ciúme de Hera, a criança foi confiada a Apolo e aos Curetes, que o esconderam nos bosques do Parnaso e o educaram.

Mas Hera, tendo descoberto a artimanha, fez com que os Titãs o raptassem e o devorassem, à excepção do coração, que Atena conseguiu salvar.

Então Zeus, segundo as versões da lenda seguidas pelo orfismo, teria absorvido este coração ou tê-lo-ia dado a Sérnele antes de a amar. A criança que irá nascer desta união, Dioniso, não é senão uma reencarnação de Zagreu. (Chama-se, por vezes, a Dioniso, o deus "Duas vezes nascido". Mas este cognome veicula também a tradição que apresenta Dioniso saindo uma primeira vez do seio de sua mãe e uma segunda da coxa de seu pai, Zeus.)

ZOUS

Zeus - cujo nome evoca a raiz sânscrita dyaus: o dia (latim dias) - é o deus do céu luminoso e de todos os fenômenos atmosféricos (nuvens, chuvas, ventos e tempestades). Ele vê tudo, conhece tudo, tanto o presente como o futuro. É bom, justo e sábio.



Ora, aquele que se vai tornar o soberano supremo dos deuses e dos homens deve a vida a um estratagema de sua mãe, Reia.

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Zeus

A infância de Zeus Reia era a esposa do Titã Cronos, seu irmão, tendo por pais, a Terra Geia, e o Céu, úrano. Cronos, tendo destronado o seu pai para ocupar o seu lugar, desfez-se dos seus próprios filhos, engolindo-os à nascença. Assim desapareceram, um após outro, Héstia, Deméter, Hera, Hades e Posídon. Quando Zeus estava para nascer, Reia pediu conselho a seus pais. Geia incitou a sua filha a ir dar à luz no cimo do monte Ida, em Creta. Foi aí que Zeus nasceu e Reia confiou-o às ninfas Ida e Adrasteia que eram, segundo a tradição, filhas do rei de Creta, Melisseu.

Depois, Reia envolveu uma grande pedra em panos, que Cronos tomou pelo seu sexto filho, e que devorou imediatamente, como fizera com os precedentes.

Deitado numa corbelha de ouro, Zeus "marnava na cabra Arnalteia" (Calímaco) e sorvia o doce mel que lhe traziam as ninfas (as filhas de Melisseu não eram senão as abelhas do monte Ida: em grego, melissa = abelha). Outros contam que uma águia e pombas tinham vindo trazer-lhe ambrosia e o néctar dos imortais.

À volta do berço, os Curetes, ligados ao culto de Reia, executavam danças guerreiras, batendo as suas armas com estrondo "para que às orelhas de Cronos chegasse o som dos escudos e não o choro do recém-nascido" (cf. pinturas de J. Romain, Jordaens, Poussin ... ).

Assim cresceu Zeus, ao abrigo dos maus desígnios. Durante este período, ele teve como companheira uma filha do Titã Oceano, Métis, a Sabedoria, que fabricou uma bebida destinada a fazer Cronos vomitar. Mal este absorveu a droga, vomitou a famosa pedra de Reia e, depois, cada um dos filhos que tinha anteriormente engolido.

Titãs contra Olímpicos Zeus depôs o seu pai, subiu ao trono, e instituiu o reino da terceira geração, segundo Hesíodo, a dos Olímpicos, assim chamados devido ao lugar que elegeram como morada. Mas os Titãs, irmãos de Cronos, revoltaram-se contra o usurpador. Zeus instalou-se no maciço montanhoso do Olimpo e os Titãs ocuparam o monte Otris. Durante dez anos viveram uma terrível guerra.

Entretanto, Geia irá suplicar a Zeus que liberte os outros filhos, que ela tinha tido de úrano e que ainda mantinha no seu seio, aprisionados por vontade de seu pai. Zeus obedeceu e colocou-os ao seu serviço: os Ciciopes, gênios

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Zeus


do fogo, deram-lhe o raio; a Hades, eles deram um capacete mágico que o tornava invisível, a Posídon, o tridente, capaz de separar com um golpe a terra e o mar. Os Hecatonquiros (com cem braços) - Coto, o Furioso, Briareu, o Vigoroso e Giges, o Membrudo - pegaram em rochas e atiraram-nas sobre os Titãs. Entretanto, estes foram vencidos e precipitados no abismo.

Vitoriosos, os filhos de Cronos vão dividir o mundo entre si. Zeus, apesar de ser o mais novo, assumirá o poder soberano e a posse do império do céu; ele outorgará a Posídon a sabedoria dos mares e o universo físico e a

Hades, as sombrias profundezas da terra.

Os amores de Zeus As aventuras amorosas atribuídas a Zeus são inumeráveis. Para conquistar aquelas que o encantavam, deusas ou mortais, ele utilizará, muitas vezes, a astúcia e os seus dons de metamorfose.

Encontraremos nos artigos consagrados a cada uma das suas principais companheiras, mulheres ou amantes, o relato da lenda que lhes diz respeito. Limitar-nos-emos aqui a dar (por ordem alfabética) os nomes das eleitas mais frequentemente citadas pelos autores, os nomes dos seus filhos, nascidos de Zeus e, quando vem a propósito, entre parêntesis, a forma sob a qual o deus se manifestou.

a) Divindades

CALISTO (Ártemis) - Árcade DEMÉTER (touro) - Perséfone EGINA (águia ou chama) , Éaco ELECTRA - Dárdano, lásion, Harmonia EURNOME - Graças HERA (CUCO) - Hefesto, Ares, Ilitia, Hebe LETO - Apolo, Ártemis MAIA - Hermes MÉTIS - Atena MNEMóSINE - as Musas PERSÉFONE (serpente) - Sabázio, Zagreu PLUTO - Tântalo TAíGETE - Lacedémon

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Zeus

TALIA - OS Palicos Témis - as Horas, as Moiras, Astreu

b) Mortais

ALCIVIENA (Anfitrião) - Héracies ANTíOPE (sátiro) - Anfíon, Zeto DÁNAE (chuva de ouro) - Perseu DIA (cavalo) - Pirítoo ELARA - Titio EUROPA (touro) - Minos, Radamante, Sarpédon 1 lo (nuvem) Épafo LEDA (cisne) Pólux, Helena SÉIVIELE - Dioniso

Para além das ligações passageiras Zeus contrairá, sucessivamente, várias uniões: Métis foi a primeira das suas mulheres (que ele devorará, juntamente com a filha desta união, Atena, nascida do crânio de seu pai) e Hera foi a última. Zeus associou-a à sua soberania.

O legendário ciúme de Hera não conseguiu impedir as tentativas galantes do rei dos deuses. No entanto, ele sofreu alguns revezes - deverá renunciar a cortejar a deusa Tétis e a ninfa Astéria, irmã de Leda, escapar-lhe-á - mas, de um modo geral, desempenhou triunfalmente, no céu e na terra, o seu papel de deus gerador.

As Gigantomaquias (combates de Gigantes) Entretanto, Geia não estava satisfeita. Enquanto os Olímpicos governavam o Universo, os seus filhos, os Titãs, continuavam prisioneiros no mundo subterrâneo. Assim, ela procurou colocar os Gigantes, que tinha concebido dos salpicos de sangue de úrano mutilado, contra Zeus e a sua corte. Vemo-los, então, em campanha, arrancando as rochas e as árvores com as suas mãos colossais e projectando-as contra o céu.

Os deuses, unidos à volta de Zeus - os seus irmãos, irmãs, os seus filhos: Ares, Atena, Apolo, Dioniso - resistem com dificuldade. Mas este conseguiu, mobilizando o Sol, a Lua e a Aurora, descobrir e confiscar a erva mágica que tornava os Gigantes invulneráveis. No entanto, o oráculo revelou-

310

Zeus


-lhe que só com a intervenção do filho de uma mortal, poderia vencer os filhos de Geia. E, assim, surgiu Héracies, o filho que Zeus tivera de Alcrnena, nesta história. Graças a ele, os Gigantes serão postos fora de combate.

Um outro episódio da "Gigantomaquia" é contado pela lenda dos gêmeos gigantes Oto e Efialtes, filhos de Geia e de Posídon, confiados desde o seu nascimento ao Tessaliano Aloé (daí o seu nome de Aloídas). Em cada ano de vida, a sua altura aumentava cerca de dois metros e a sua largura de ombros cinquenta centímetros. Assim, com a idade de nove anos, eles mediam 17 metros e tinham de largura de ombros 4 metros.

Orgulhosos da sua força, os dois irmãos tentaram mudar a ordem do universo, revolvendo os mares e escalando o céu. O sdu primeiro feito consistiu em levantar o monte Ossa, colocando-o sobre o Olimpo. Depois, sobre os dois montes, colocaram o monte Pélion. Em seguida, dirigindo-se directamente aos deuses, aprisionaram Ares, deus da guerra. Para sua grande humilhação, eles prenderam-no e fecharam-no num jarro de bronze (Ares deverá esperar um ano inteiro que Hermes, posto ao corrente, venha libertá-lo). Entretanto, eles decidiram desposar duas deusas, reivindicando, para o efeito, Hera e Ártemis.

A sua audácia não podia continuar impune por muito tempo. Apolo atravessou-os com as suas flechas e o raio de Zeus enviou-os para os Infernos (cf. pintura de J. Romain, museu de Mântua).

Perseverante, Geia tentará ainda uma ameaça contra os Olímpicos. Da sua união com Tártaro, ela tinha concebido um monstro gigantesco, provido de cem cabeças, Tífon, que morava numa caverna da Cilícia. Ela solicitou-o e Tifon apareceu. À sua vista, os deuses fugiram para o Egipto. Só Zeus ficou e

lhe fez frente.

Num primeiro momento, Tífon venceu-o, cortou-lhe os tendões dos pés e das mãos e fechou-o na sua caverna. Mas Hermes, ajudado por Pá, virá em

socorro de seu pai, libertando-o e reparando as suas feridas. E assim a luta recomeçará. Por fim, Tifon, cego pelos raios do rei dos deuses, foi obrigado a

afastar-se em direcção à Sicília. Zeus perseguiu-o e esmagou-o sob o Etna.

Deste modo, Zeus, soberano regulador do universo, triunfou sobre as forças incontroladas da natureza e submeteu-as, definitivamente, à sua sabedoria. Nunca mais nenhum adversário ousará opôr-se à sua supremacia. A ordem e a harmonia que ele impôs aos seres e às coisas valeram-lhe as ac-

ções de graças de todos os humanos.

311


Zeus

Jápeto


Oceano

Tétis


Clímene rUMINUIVIL IVIÉTIS

Atlas


leu Carna,

Aiena


Geia +

Ceos Febe

LETO

Apolo Ártemis



Electra MAIA TAIGETE Deucalião

PROTOGÉNIA

Opus

Zeus e


O culto de Zeus Zeus foi, a partir de então, adorado em todos os lugares elevados e a Grécia conta com poucos cumes que não lhe tenham sido consagrados. Destacam-se os montes Dicte e Ida, em Creta que, segundo a tradição, o tinham acolhido na sua infância; o monte Liceu (a raiz luk - em latim lux = luz) na Arcádia, de onde uma outra tradição o faz originário e, bem entendido, o Olimpo, na Tessália.

Os seus santuários mais frequentados pelos peregrinos vindos de todo o mundo grego eram os de Dodona e do Olimpo.

O de Dociona, no Epiro, era o mais antigo. Tinha sido fundado a pedido de uma pomba negra, com voz humana, vinda do Egipto. Os oráculos eram produzidos por um carvalho sagrado, sendo o murmúrio das folhas escutado, pelos fiéis, como se se tratasse da própria voz do deus. O santuário era servido (e as mensagens divinas interpretadas) por um colégio de sacerdotes, os Seles, que - facto notório na antiguidade grega - praticavam o ascetismo. Estes sacerdotes dormiam no chão e jamais lavavam os seus pés.

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Zeus

úrano


Cronos

Reia


MNEMóSINE TÉMIS

DEMÉTER HERA ZEUS

--- - sas Horas Moiras Astreia

PERSÉI`ONE Hebe flifia Ares Hefesto

Sabázio Zagreu

as divindades

TALIA

1 Palicos



Em caixa alta, os eleitos de Zeus; em itálico os filhos.

Mais tarde, juntaram-se a eles três sacerdotisas, as Pelíades, que se consa-

graram ao culto da deusa Dione, associado ao de Zeus.

QuantoaOlímpia, naÁlida, onde Zeus tinha igualmente o seu oráculo,foi durante mais de dez séculos, até ao imperador Adriano, um dos principais centros da vida religiosa dos Gregos. Cada uma das divindades que aí eram

adoradas tinha os seus sacerdotes e as suas cerimônias próprias; mas as solenidades mais importantes eram organizadas em honra de Zeus de quatro em quatro anos (na época da lua cheia, entre o fim de Julho e o princípio de Setembro). As festas duravam sete dias: o primeiro era reservado às procissões e aos sacrifícios. Nos dias seguintes realizavam-se os "Jogos Olímpicos" cuja fundação era atribuída a Héracles e que se desenrolavam sob a vigilância suprema Daquele que dava força, inteligência e probidade aos homens.

No mesmo espírito, cada lugar, na Grécia e fora dela, praticava a sua

celebração particular em honra de Zeus.

Resumiremos, em seguida, os diversos aspectos do culto prestado a

Zeus, apoiando-nos nos epítetos rituais que os seus sacerdotes usavam.

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Zeus

1. Zeus é adorado como deus de toda a natureza física a - Ele é o deus do Alto A este título ele é chamado o mais Alto ou o Olímpico, tendo em conta que o Olimpo era visto como representação da mais alta montanha do mundo.

- Divindade do céu e da luz Ele é o deus do céu, o deus do éler, o deus do dia. Em Creta é confundido com o Sol.

- Deus das nuvens e da chuva fecundante Ele é o "Ajuntador de nuvens", faz cair a chuva (os Gregos dizem: Zeus chove) e fecunda o solo (uma estátua da Acrópole de Atenas representava a Terra, de joelhos, suplicando a Zeus que pusesse fim à sua secura). Ele faz brilhar o arco-no-céu e íris, que o personifica, é a sua mensageira.

- Deus supremo do vento Os navegadores dirigem-se tantas vezes a Zeus como a Posídon, a sua divindade própria (mas cujo poder Zeus controla).

- Deus das nuvens e dos ventos, ele é sobretudo o deus das tempestades

b - Ele é também o deus do solo e do mundo subterrâneo Deus fecundante, Zeus é adorado, em todo o lado, como divindade vegetal (atribui-se-lhe, frequentemente, a protecção da vinha) e ctónica e, a este título, ele receberá, pelo menos nos primeiros tempos (mas Pausânias deixa entender que ainda existem reminiscências na sua época), sacrifícios humanos: o primeiro rei da Arcádia, Licáon, imolou-lhe os filhos.

Foi na sua qualidade de divindade ctónica que Zeus produziu os seus oráculos e enviou, quando lhe apeteceu, presságios. Assim, tal como supervisionava Posídon, também dominava o mundo subterrâneo dirigido pelo seu irmão Hades.

2. Zeus é adorado como protector da família e da cidade

- Protector da família: ele preside aos nascimentos, aos casamentos e vida nos lares. Ele vela sobre as casas e protege a propriedade. É ele que possui e reparte os bens.

Ele tem atribuições análogas na cidade. Ele é o protector das fratrias (a fratria é uma reunião de famílias que têm o mesmo lugar de culto e devoções comuns).

Protector e inspirador das assembleias, ele é o guardião da cidade e o garante da unidade do Estado.

314

Zeus


Zeus não é somente venerado como o guardião de cada cidade, ele é também um símbolo de união para as ligas e confederações de Estados: protector da liga dos Aqueus e da confederação dos Beócios, ele é o "Ajuntador" e será proclamado "Pan-Helénico", ou seja, o recurso supremo de todo o mundo helénico. As festas das Pan-helénicas eram celebradas em honra de Zeus, em todos os Estados Gregos.

Divindade pacífica e pacificadora, Zeus também é invocado nos períodos de guerra. Então, ele é o "Guerreiro", o "Condutor", o "Ordenador" supremo. Mas é, sobretudo, o deus salvador (nos banquetes, a terceira e última

libação é, automaticamente, feita em honra de Zeus), aquele que afasta os males, sobretudo os perigos da guerra e da derrota, o libertador.

3. Zeus é o Iniciador e o protector dos valores morais Orações e libações são dirigidas a Zeus a fim de apaziguar o seu ressentimento. Ele é, com efeito, na sua qualidade de deus soberanamente justo, quer o deus do perdão como o deus da vingança. Ele é aquele que não esquece e que pode fazer a vingança perdurar até à terceira geração.

Guardião dos juramentos - jura-se "por Zeus" mesmo quando se lhe

associam outras divindades -, ele tem horror ao perjúrio. Deus da hospitalidade e deus da amizade, ele odeia aqueles que as põem em causa.

Também os Gregos dão a Zeus o epíteto de Benevolente, por eufemismo, a fim de conquistar a sua indulgência. Ele é, ou pelo menos deseja-se que ele seja, o protector dos suplicantes, o deus que apazigua, aquele que purifica.

Zeus e o destino Assim, Zeus "que é o éter, que é a terra, que é o céu, que é todas as coisas e aquilo que existe por cima de todas as coisas" (Esquilo), Zeus "que enche todas as ruas, todos os lugares públicos, que enche os mares e os

portos" (Arato), Zeus que está em todo o lado, que ouve tudo, de quem emanam os oráculos, que conhece o passado, o presente, o futuro, que é venera-

do como "o pai dos homens e dos deuses" é ou não Todo-Poderoso? Está ou não submetido às sentenças do destino?

Ele tem o epíteto de condutor dos destinos, e uma certa tradição apresenta-o como pai das Moiras (as Parcas). É ele que reparte, entre os homens, o bem e o mal: ele dispõe, diz-nos Homero, de duas dornas à porta do seu

palácio. Uma contém as dores e a outra os favores. Zeus extrai de cada uma delas, para cada homem, a dose que decide.

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Zeus


Mas em toda a Antiguidade não ficou claro se Zeus estava ou não, ele próprio, submetido ao destino. "Ninguém é livre, lê-se em Ésquilo, excepto o rei dos deuses; ninguém excepto Zeus". Mas entretanto, o mesmo Ésquilo faz Prometeu dizer: "Zeus não saberá escapar ao seu destino". Existem numerosos episódios lendários onde se vê, com efeito, Zeus ser submetido à fatalidade que ele próprio criou, à semelhança, sem dúvida, da natureza, que se conforma com o desenrolar contínuo das estações.

Representação de Zeus Zeus foi representado (em vasos, bronzes, pinturas) de inúmeras formas, segundo o carácter particular que se desejava traduzir. Assim ele poderá ser figurado sob a forma de serpente, na sua qualidade de divindade ctnónica, sob a forma de uma personagem com três olhos para evocar, diz Pausânias, as três direcções em que exerce o seu poder: o céu, a terra e o mar ou mesmo sob a forma simbólica de um cone ou de uma pirâmide.

Divindade fecundante da terra, ele é coroado de folhagens e de flores, as mãos cobertas de espigas e de cachos, a cabeleira por vezes molhada da chuva.

Como divindade do céu - e é assim que a tradição o apresentou definitivamente - ele é associado à águia, ave dos cumes, e detém o raio soberano absoluto, ele usa a égide e nas suas mãos apresenta o ceptro ou a efígie da vitória. Zeus, habitualmente barbudo, representa para os Gregos um ideal humano de maturidade, de força, de majestade, de inteligência e de sabedoria.

Assim, através de toda a história, Zeus é o grande deus do panteão helénico. E poderemos ver nas suas múltiplas atribuições uma tendência, dos Gregos, em direcção ao monoteísmo religioso.

Cf. Júpiter.

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ÍNDICE TEMÁTICO



Ácamas, 11 -2 Adónis, 12-3 Afrodite, 14-6, 98, 142, 181 Agamémnon, 17-8 Ájax, 18-9 Alceste, 19-20 Alcrnena, 21-2 Amalteia, 23 Amazonas, 23-5, 66 Anfíon, 25-6, 27 Antíloco, 26-7, 206 Antíope, 27-8 Apolo, 28-34, 102, 225 Aqueloo, 34-5 Aquiles, 35-41, 122, 140, 236 Árcade, 41-2 Ares, 42-3, 132 Aretusa, 44 Aristeu, 44-5 Árternis, 45-7, 130 Asclépio, 48-9 Astros, 49-50 Atalanta, 50-1 Atena, 51-5 Atenas, 55, 57-9 Átis, 59 Atlântida, 60 Atlas, 61 Atreu, 61-3

Baal, 65 Belerofonte, 65-7, 97 Beoto, 67-8 Boa Deusa, 68

Cadmo, 69-70 Calcas, 70 Calisto, 70-1 Caos, 71-2, 226 Caríbdis, 72-3, 154 Cárites, 73 Cassiopeia, 73-4, 240 Cécrops, 74 Céfalo, 74-6 Centauros, 76-7 Céu, 77 Cíbele, 77-9, 254, 274, 277 Ciciopes, 79 Circe, 79-80 Corno da Abundância, 80-1 Cronos, 81-2, 220, 227, 228, 229, 253, 254 Curetes, 83

Dáriae, 85-6 Danaides, 87-89 Delfos, 89-91 Delos, 91 -2, 198 Deméter, 45, 92-4, 181, 264, 277 Demofonte, 94-5 Dilúvio, (O), 95, 200 Diomedes, 96-7 Dione, 97-8, 282 Dioniso, 98-102,116,182, 207, 211, 225, 227,

263,264,307 Dioscuros, (Os), 103-4, 140

Éaco, 105-6 Édipo, 106-9 Égide, (A), 110 Egina, 110-1

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índice Temático



Elêusis, 111-2, 155 Enclímion, 113 Eneias, 113-6, 222, 274 Eneu, 96, 116-7 Éolo, 117, 300 Eos, 118-9, 206 @pidauro, 49, 119 Erebo, 119-20 Erínias, 120 Éris, 121 Eros, 121-2, 182, 227 Estentor, 122 Estige, 123, 175, 286 Etálides, 123 Éter, 123-4, 226 Europa, 124-5 Eurotas, 125 Evandro, 126

Faetonte, 15, 75, 118, 127-8 Fauno, 80, 126, 128-9 Febe, 129-30, 198 Fides, 130 Filérnon, 130-1 Filoctetes, 131-2 Filomela, 132 Flora, 133, 243 Fórcis, 72, 73, 133, 136, 229 Fortuna, 133-4

Ganimedes, 135, 236, 270 Geia, 57,136-7,154, 227, 228, 229, 274, 275,

310,311 Gênio, 137-8, 161, 162 Gorgófona, 138

Hades, 139-40, 156 Harpias, 140 Hebe, 141, 180 Hécate, 124, 141-2 Hefesto, 142-3, 233, 269 Hélen, 95, 143 Hélio, 127, 144-5, 245 Hera, 14, 15, 122, 145-6, 181, 284 Héracies, 147-59, 274 Heraclidas, (Os), 160-1

Hércules, 161-2 Hermafrodito, 162 Hermes, 162-4, 283 Herói, 164-5 Héstia, 165-6 Hiperíon, 166 Horas, 166-7, 275

Idas, 169-71 Idomeneu, 171-2 Ilitia, 172 lio, 173 Imortalidade, 173 Infernos, (Os), 106, 112, 156, 174-6 Ino,177,205,303 lo, 177-8, 180 lolau, 22, 149,160,180,187 íris, 181 ísis, 134, 181-2, 264, 277 lúlo, 182 lxíon, 183

Jano, 72, 185-6, 257, 261 Jápeto, 186 Jasão, 186-92 Juno, 192-3, 201 Júpiter, 193, 257,276

Lápitas, 195 Lares, 195-6 Larvas, 196 Leda, 196-7 Leto, 198-9 Líbero, 199, 201 Licáon, 41, 199-200

Marte, 201, 255 Medeia, 202-3 Meleagro, 169, 203-5 Melicertes,177, 205-6 Mérrinon, 118, 119, 206-7 Midas, 207-8 Minos, 208-11, 280 Mistérios, 211 Mitra, 211-12 Mnemósine, 212

318

índice Temático



Moiras, 212-3 Morfeu, 213 Musas, 141, 213-4

Némesis, 215, 276 Nereu, 215 Ninfas, 216 Noite, 212, 213, 217, 226, 227, 302

Oceano, 144, 219 Olímpia, 220-1 Olimpo, 221-2 Oráculo, 222, 275, 315 Orestes, 223-4 Orfeu, 225-6 Orfismo, 33, 141, 226-8 Origem do Universo, 228-30 Oríon, 46, 230

Pã,231,262,283 Pai das Riquezas, 232, 239 Paládio, 173, 232 Pales, 233 Palicos, 233 Pandora, 233-4 Parnaso, 234 Peleu, 152, 234-6 Pélops, 61, 62, 236-7, 293, 294 Penates, 195, 237-8 Perséfone, 20, 93, 139, 140, 227, 238-9 Perseu, 61, 152, 239-41 Miades, 242 Polifemo, 79, 242-3 Pomona, 243 Ponto, 244 Posidon, 244-7, 311 Priapo,247 Prometeu, 248-9 Proteu, 249

Quíron, 251

Radamanto, 253 Reia, 253-4

Rios, 254-5 Rómulo, 196, 255-7, 261

Sabázio, 259 Sarpécion, 259-60 Sátiros, 260 Saturno, 260-2 Selene, 130, 262 Sérnele, 262-4 Serápis, 264 Sileno, 207, 265 Silvano, 161, 265 Sirenes, 266 Sísifo, 28, 65, 205, 266-7, 299

Talo, 269-70 Tântalo, 270 Télefo, 48, 169, 271-4 Télus, 274-5 Témis, 186, 275-6 Término, 276 Terra, 31, 276-7 Teseu, 57, 58, 76, 277-81 Tétis, 282 Tideu, 282-3 Tífon, 146, 283 Tirésias, 283-4, 300 Titãs, 110, 227, 284-6 Tritão, 245, 286 Tróia, 122, 286-9, 291-4, 296-7 Tule, 82, 297

Ulisses, 186, 243, 266, 283, 289, 291, 293,

294, 296, 299-301 úrano, 227, 302

Velo de Ouro, 303-4 Ventos, 304 Vénus, 305 Vesta, 275, 277, 305-6 Vulcano, 306

Zagreu, 227, 307 Zeus, 97, 98, 99, 227, 284, 307-16

319


Concordância

O quadro que se segue dá-nos as concordâncias entre os nomes dos deuses ou heróis, segundo a sua integração na mitologia grega ou romana.

NOME GREGO

NOME LATINO

NOME LATINO

NOME GREGO

Afrodite

Vénus


Baco

Dioniso


Ares

Marte


Ceres

Deméter


Ártemis

Diana


Cíbele

Reia


Asclépio

Esculápio

Cupido

Eros


Atena

Minerva


Diana

Ártemis


Cronos

Saturno


Esculápio

Asclépio


Deméter

Ceres


Fortuna

Tique


Dioniso

Baco


Hércules

Héracies


Eros

Cupido


Juno

Hera


Hades

Plutão


Júpiter

Zeus


Hefesto

Vulcão


Latona

Leto


Hera

Juno


Marte

Ares


Héracies

Hércules


Minerva

Atena


Héstia

Vesta


Neptuno

Posídon


Leto

Latona


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