Álvaro de Souza Gomes Neto



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 “O  pombalismo  representou  a  primeira  grande  tentativa  -  que  as 

próprias  circunstâncias  graves  haviam  criado  -  de  encarar  de  frente 

os  grandes  problemas  econômico-políticos  do  país...A  nível 

ideológico,  tal  absolutismo  orientou-se  à  sua  maneira,  pelas  vias  do 

‘despotismo  esclarecido’,  afirmando  assim,  sem  subterfúgios,  a 

origem  divina  do  poder  real  e  a  concentração  total  da  soberania  no 

poder”.

49

 



 

Assim,  através  da  especialização  de  funções  do  Estado  burocrático,  o  governo  pombalino 

passou a controlar mais  amplamente tudo o que, de uma maneira ou de outra, estava ao alcance do 

poder  do  Estado.  Enfatiza-se  aqui  uma  ruptura  concreta  com  a  ideologia  vigente  até  então,  que  se 

pode  considerar  tradicional,  enraizada  pós-Restauração.  Neste  raciocínio,  se  permite  pensar  que  na 

verdade o Estado burocrático, consolidado sob Pombal, não pode ser colocado sob uma perspectiva 

continuísta, pois  se renovou  ideologicamente, caracterizando-se mais  firmemente como  um período 

que se inicia, com nuances próprias, do que ligado ao período que o precedeu. Na medida em que no 

pombalismo  o Estado manteve sólidas características  no nível  econômico, radicalizou-se em  outros 

níveis.


50

 Pensa-se, neste caso, a ação administrativa colonial e a política externa adotada pelo Estado 

                                                           

47

FALCON, op. cit., p. 152. 



48

Falcon reforça e explica em parte esta questão: “Na prática, portanto, o processo de debilitação do poder do Estado, com 

suas inevitáveis sequelas, traduzidas sob a forma de inércia, ineficiência e aumento da corrupção no aparelho burocrático 

abriu  caminho  aos  descontentamentos  e  às  pretensões  daquelas  camadas  ou  grupos  da  burguesia  mais  diretamente 

prejudicados, ou mais dispostos a contestar o crescimento relativo da aristocracia. Desse modo, o poder do Estado tendia, 

na  prática,  a  tornar-se  objeto  de  disputas,  incessantes  e  renhidas,  entre  as  diversas  frações  de  classes  a  ele  mais 

diretamente  ligadas,  ou  seja,  o  ‘próprio  bloco  no  poder  apresentava  fissuras  que  o  comprometiam  e  paralisavam,  em 

termos gerais”. 

Op. cit., p. 372. 

 

49



Op. cit., vol 1, p.7  

50

FALCON, op. cit., p.225.  




luso,  que  se  traduziu  em  tratados  bilaterais  e  jogos  diplomáticos,  no  lugar  do  constante  e  crescente 

estado de beligerância e territorialidade. 

Atenta-se  que  no  plano  político  a  ação  se  revelou  com  posicionamentos  radicais,  marcando 

cada vez mais o fortalecimento do Estado em seus aparelhos e em suas bases sociais. Isto não seria 

possível  sem  a  ruptura  com  o  poder  eclesiástico  e  com  a  ideologia  desse  poder.

51

  O  choque  com  o 



poder  jesuítico  era  inevitável,  eliminando  a  autonomia  da  Inquisição,  e  abrindo  para  uma 

metamorfose  das  mentalidades  inseridas  nesses  conflitos,  além  de  possibilitar  o  reformismo  que 

acabou  por  caracterizar  o  governo  pombalino.

52

  Neste  sentido,  os  discursos  do  Estado  pombalino 



revelaram-se com uma relativa diversidade de perspectivas, “pois expressaram formas de pensamento 

e  níveis  de  consciência  que  se  contrapunham  à  ideologia  oficialmente  defendida  pelo  aparelho 

ideológico  dominante  -  a  Igreja  -  e  seus  aparelhos  subsidiários”.

53

  A  Igreja  passou,  dessa  forma,  a 



assumir várias atribuições dentro do Estado.

54

 



Caracterizaram-se, na prática, as disposições do governo que se instaurava, sob a coroa de D. 

José I e sob a égide do Marquês de Pombal. Nessa medida, se reorganizou e se reforçou o aparelho de 

Estado,  visando  não  apenas  definir  funções  internas,  mas  recuperar  as  rendas  nacionais  através  da 

eliminação  dos  canais  burocráticos  que  impediam  e/ou  diminuíam  a  circulação  comercial  e  a 

arrecadação  fiscal.  A  preocupação  em  fazer  funcionar  a  máquina  do  governo  em  novas  bases 

organizacionais atingia diretamente o mantenimento das áreas coloniais. 

 E  aqui  aparece  uma  questão  fundamental,  que  diz  respeito  à  ação  do  poder  do  Estado  luso 

sobre  territórios  em  disputa  e  áreas  coloniais  sob  seu  domínio.  Questionou-se  nesse  momento  a 

eficácia desse poder, ameaçado de deslocamento, ao menos em potencial, dessas áreas periféricas. O 

Estado  perdia  progressivamente  a  sua  presença  nos  territórios  periféricos,  mais  precisamente  no 

ultramar.  Isto  era  reflexo  de  certa  incapacidade  de  ação  eficaz  do  aparelho  de  Estado  produzindo 

resultados altamente negativos, sob vários aspectos. A ameaça dos países rivais, que aumentavam sua 

audácia e ambição, como o caso dos espanhóis na região oriental platina, preocupava muito o Estado 

português.

55

  

                                                           



51

Idem, p.225. 

52

Ibidem, p. 226. 



53

Ibidem, p. 227. 

54

Cf.  Althusser:  “...  no  período  histórico  pré-capitalista  [...]  é  evidente  que  havia  um  ‘aparelho  ideológico  de  Estado’  dominante,  a 



Igreja, que reunia não só as funções religiosas, mas também as escolares e uma boa parcela das funções de informação e de ‘cultura’. 

Não foi por acaso que toda a luta ideológica do século XVI ao XVIII, desde o primeiro abalo da Reforma, se concentrou numa luta 

anticlerical, antirreligiosa. Foi em função mesmo da posição dominante do aparelho ideológico do Estado religioso”. Ressalte-se que 

“aparelhos  ideológicos  de  Estado”,  segundo  Althusser,  definem-se  por  funcionarem  principalmente  através  da  ideologia,  e 

secundariamente através da repressão (atenuada, dissimulada ou simbólica). ALTHUSSER, op. cit., p. 78.   

55

Op. cit., p. 373.  




Além disso, isolava grupos sociais, instituindo veleidades autonomistas que comprometiam a 

própria  estabilidade  das  áreas  periféricas  e  do  sistema  colonial  como  um  todo.  Isto  afetava  não 

apenas  a  economia  estatal,  pelo  aumento  dos  contrabandos,  redução  dos  quintos  e  diminuição  de 

rendimentos,  mas  atingia  diretamente  o  poder  político  do  Estado  luso,  que  se  enfraquecia  e  até 

mesmo, em certos momentos, desaparecia totalmente. 

Na ação direta da transformação, aparece novamente a violência e a coerção como fatores  e 

instrumentos  característicos  do  Estado  burocrático,  que  se  impunha.  Fazia-se  presente  “...  a 

eliminação sistemática de todas as formas de oposição ao poder do Estado absolutista luso [...] além 

de  corrigir  abusos  e  modernizar  a  estrutura  administrativa,  centralizando  decisões  em  escala 

crescente”.

56

 A coerção é mantida também sobre os jesuítas. 



57

 Essa violência processou-se fora dos 

limites  teoricamente  aceitos  pelo  poder  de  Estado  absolutista,  envolvendo  grupos  e  instituições 

suspeitos de desafiarem, de alguma forma, o poder do Estado. Reforça-se aqui o uso desta violência 

sobre  determinados  grupos  sociais  na  região  platina  oriental  e  no  sul  do  Brasil  colonial, 

especificamente os colonos açorianos, instrumentalizados como frutos deste poder. 

No  plano  diplomático,  os  tratados  de  Madri  (1750)  e  Santo  Ildefonso  (1777)  foram 

significativos,  por  retratarem  os  novos  objetivos  do  Estado  luso,  e  representarem  definições  que  se 

enquadravam com suas novas necessidades administrativas. Na verdade, politicamente o  Tratado de 

Madri iria representar, caso fosse levado a cabo, o início do término das lutas armadas e dos conflitos 

fronteiriços  hispano-portugueses.  Tal  atitude  coadunava-se  ideologicamente  com  o  Estado  que  se 

concretizava, em bases mais administrativas e preservadoras de áreas. Contudo, apesar deste Tratado 

ter sido anulado pelo de El Pardo (1761), a política de reconciliação com a Espanha não cessou, mas 

concretizou-se com o Tratado de Santo Ildefonso.  

É preciso dizer que quando o Marquês de Pombal assumiu o ministério luso em três de agosto 

de 1750, o Tratado de Madri já havia sido assinado em treze de janeiro do mesmo ano; e também a 

saída de Pombal do governo acontecida em quatro de março de 1777 precedeu a assinatura de Santo 

Ildefonso,  que  foi  em  outubro  deste  ano.

58

  Isto  quer  dizer  que  não  se  pode  atribuir  ao  governo 



pombalino  exclusivamente,  a  responsabilidade  pelas  atitudes  geradas  pela  mudança  ideológico-

política  ocasionada  neste  período.  Na  verdade,  o  Estado  constituiu-se  numa  estrutura  muito  maior 

que  os  desmandos  de  um  único  ministro.  Destaque-se  a  importância  de  Pombal,  mas  insira-se  tal 

                                                           

56

Ibidem, p. 374. 



57

Ilustre-se aqui  a questão da violência sobre os jesuítas, embora estes não sejam objeto deste estudo. Cita Avellar: “À fase restritiva 

irá  seguir-se  outra,  repressiva  precedendo  à  punitiva”.  AVELLAR,  Hélio  de  Alcântara.  História  Administrativa  do  Brasil. 



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