Álvaro de Souza Gomes Neto



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“O  sistema  patrimonial,  ao  contrário  dos  direitos,  privilégios  e 

obrigações  fixamente  determinadas  do  feudalismo,  prende  os 

servidores numa rede patriarcal, na qual eles representam a extensão 

da casa do soberano”.

29

 

 

A  rede  patriarcal  pressupõe  um  posicionamento  de  fidelidade.  No  entanto,  a  fidelidade 



referida  ao  cargo  de  funcionário  patrimonial  não  é  exatamente  aquela  que  faz  com  que  esse  dito 

servidor  público  execute  suas  tarefas  objetivamente,  mas  sim  uma  fidelidade  natureza  pessoal, 

vinculado ao seu senhor, em grande parte baseada numa relação de afeto e devoção ao seu rei.

30

 No 


patrimonialismo, o funcionário é escolhido de acordo com a confiança pessoal, e não pela capacidade 

deste  em  exercer  determinada  função, 

31

.  Nesse  sentido,  a  Coroa  passou  a  exercer  uma  política  de 



poder, quando, ao escolher os componentes dos diversos órgãos governamentais, fê-lo pela confiança 

pessoal. Houve, na verdade, uma influência sobre a distribuição do poder, no interior do Estado. O 

monarca tornou o escolhido um membro político, ao esperar por uma resposta adequada ao seu grau 

de confiança. 

Dentro do Estado patrimonialista o poder se tornou uma realidade tangível,  dividido  entre o 

rei  e  seus  representantes.  Nessas  circunstâncias,  o  campo  de  poder  atingiu  não  apenas  a  unidade 

central,  mas  espalhou-se,  delegando,  subjetivamente,  autoridade.  Esta,  mesmo  que  não  levada  a 

termo, em nível político, foi compartilhada durante certo tempo. O poder a partir de relações de força 

entre as posições sociais, garante aos seus ocupantes um quantum de força social.

32

 



Assim, mesmo com possibilidade de lutas pelo monopólio do poder, reforçou-se em Portugal 

a presença do Estado absolutista existente que legitimou o poder centralizado, mesmo lançando mão 

de instrumentos auxiliares. O Estado luso dividiria o poder até o momento em que sofresse ameaça 

de enfraquecimento, ou perda deste, o que, de fato, não aconteceu. 

Essa  afirmação  poderia  ser  contestada,  caso  se  levasse  em  consideração  a  concentração  de 

poder ocorrida durante o governo do ministro Pombal, no reinado de D. José I. Contudo, sem querer 

                                                           

29

Idem, p.20. 



30

WEBER, Max. Economia y Sociedad. México: Fondo de Cultura Econômica, 1944, pp. 775-776. 

31

Idem, p. 837. 



32

BOURDIEU, R. O Poder Simbólico. Lisboa: Difel, 1989, p.27.  




aprofundar  discussões,  ressalte-se  que,  mesmo  aglutinando  funções  político-administrativas,  em 

nenhum momento a Coroa foi ameaçada de deposição. Nessa medida, a ação do Marquês de Pombal 

visou sempre o mantenimento e o fortalecimento do poder centralizado, representado pelo rei D. José 

I. 


Percebe-se,  portanto,  que  mesmo  o  rei  respeitando  e  levando  em  consideração  os  vários 

pareceres  de  seus  representantes,  estes  estavam  diretamente  vinculados  ao  seu  bem-estar  e  à 

preservação  do  Estado.  Em  Portugal,  o  Estado  passou  por  dois  estágios  distintos  e  importantes:  o 

patrimonialista e o burocrático. Embora o segundo tenha conservado traços do primeiro, a diferença 

aparece através da ação administrativa e econômica. 

O Estado patrimonialista surgiu a partir do desenvolvimento do comércio, expandindo-se com 

a  expansão  marítima  e  a  formação  de  colônias.  Dessa  forma,  a  chamada  monarquia  territorial 

preocupou-se  mais  especificamente  com  a  expansão,  ocupação  e  preservação  de  áreas  coloniais  do 

que  com  a  administração  das  mesmas.  Explica-se,  dessa  maneira,  porque  à  Coroa  interessava  mais 

funcionários leais a ela, que garantissem com sua pessoa a preservação territorial. 

Em  relação  à  região  platina,  a  própria  fundação  da  Colônia  do  Sacramento  demonstra  essa 

ideia, e também na medida em que, nessa ação, foram designados militares para protegê-la. É claro 

que o constante estado de  guerra  em  que Sacramento se  encontrava assim  o exigia, mas, no século 

XVIII,  ao  preocupar-se  com  a  administração  colonial,  o  Estado  acabou  cedendo  a  Colônia  aos 

espanhóis. Dessa maneira, a ação do Estado foi permeada pela tentativa de conquista e ocupação de 

territórios  no sul-colonial,  desde  fins do século  XVII  até  a metade do século  XVIII.  A  partir daí, a 

política administrativa apareceu mais fortemente com o surgimento do Estado burocrático. Portugal 

expandiu-se  economicamente  a  partir  do  século  XVI,  originando,  nessa  ação,  um  Estado 

monopolista,  atuando  como  elemento  reforçador  do  poder.  No  século  XVII,  pós-Restauração, 

Portugal  começou  a  atravessar  uma  crise  econômica  e  territorial.    Em  vista  disso,  “verificou-se  o 

desejo  de  um  controle  da  economia  e  das  finanças  por  parte  do  Estado,  característico  do 

absolutismo”.

33

 

Como foi salientado, a Coroa criou uma estrutura organizacional visando buscar apoio, tanto 



político quanto administrativo. A partir de 1640, os monarcas portugueses estabeleceram prioridades 

administrativas.  Foram  criados  o  Conselho  de  Guerra  (1640),  a  Junta  dos  Três  Estados  (1643),  o 

Conselho  Ultramarino  (1643),  a  Junta  do  Comércio  (1649),  além  de  ser  reformado,  em  1642,  o 

Conselho da Fazenda.

34

 

                                                           



33

Op. cit. p.247. 

34

Na  sequência,  Serrão  informa  que  o  Conselho  de  Guerra  tinha  por  função  a  expedição  de  ordens  para  os  exércitos  (terra  e  mar), 



opinando junto ao rei na ocupação de cargos militares e julgando os crimes dessa jurisdição. A Junta dos Três Estados administrava os 


Foi restabelecido também o cargo de Secretário de Estado, além da presença de ministros para 

auxiliarem  nos  despachos.  Nessa  continuidade,  surgiram  as  Secretarias  de  Estado  e  das  Mercês  e 

Expedientes.  Somados  a  isso,  foram  aumentados  os  órgãos  consultivos  em  Conselhos,  Mesas  e 

Juntas, com a finalidade de apoiarem a administração do sistema ultramarino, cujo rei centralizava o 

poder.

35

 



Criado em 1642 e efetivado em 1643, o Conselho Ultramarino ocupava-se da administração e 

das finanças do império colonial português. Os interesses comerciais lusos, resultantes do comércio 

ultramarino, passaram a ser representados através do Conselho. A existência de tal órgão demonstra 

que  o  Estado  luso  iria,  a  partir  daí,  ocupar-se  com  mais  seriedade  dos  negócios  do  ultramar,  mais 

precisamente a África e o Brasil.

36

 Os membros da presidência do Conselho eram escolhidos pelo rei, 



entre  a  alta  nobreza.  Destacaram-se  os  condes  de  Vale  de  Reis  (1674),  de  Alvor  (1693),  de  São 

Vicente  (1708),  e  de  Tarouca  (1749).  O  número  de  conselheiros  oscilou  entre  três  e  seis  membros. 

Quanto  aos  conselheiros,  alguns  tiveram  notadas  atuações,  tais  como  Bernardim  Freire  de  Andrade 

(1694),  Gonçalo  Manuel  Galvão  de  Lacerda  (1724),  Martinho  Mendonça  de  Pina  e  de  Proença 

(1738),  e  o  mais  conhecido,  pela  sua  atuação  na  elaboração  do  Tratado  de  Madri,  Alexandre  de 

Gusmão (1743). 

37

 

Em  1736  o  Conselho  Ultramarino  passou  a  ser  subordinado  à  Secretaria  de  Estado  dos 



Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos. O período de maior poder de atuação situou-se entre 

os anos de 1750 e 1770, em virtude da grande documentação despendida.

38

 A crescente importância 



atribuída ao Conselho,  ao longo do tempo, atestou a influência deste na política e na administração 

do Estado, sobre as colônias lusas. As decisões e as ordens emitidas, com o aval da Coroa, atuaram 

na  movimentação  do  processo  de  ocupação.  A  fundação  da  Colônia  do  Sacramento,  a  sua 

manutenção,  e  a  vinda  de  colonos  açorianos  ao  sul  colonial,  foram  exemplos  marcantes  dessa 

participação.  

A conjunção político-administrativa impediu o desenvolvimento de setores que, por interesses 

privados,  quisessem  desvincular-se  do  poder  central.  Conjugando  a  economia  e  a  administração,  a 

Coroa exerceu um  maior controle sobre os segmentos  sociais. A  estrutura patrimonial estabilizou a 

                                                                                                                                                                                                 

recursos usados na guerra contra a Espanha, os soldos, o abastecimento das tropas e materiais necessários à mesma. Era composta por 

seis  membros,  eleitos  em  Cortes.  A  Junta  do  Comércio  garantia  a  navegação  comercial  com  o  Brasil.  Competia-lhe  a  nomeação  de 

generais, almirantes e capitães das frotas mercantes, além do provimento dos armazéns, cobrança de direitos alfandegários e pagamento 

dos encargos respectivos. Op.cit. pp.332-333.      

35

Idem, p.125. 



36

Ibidem, p.88. 

37

Ibidem, p.277.  



38

Cf. Helloísa Liberalli Bellotto. O Estado português no Brasil: sistema administrativo e fiscal.  In: SERRÃO, Joel e MARQUES, A.H. 

Oliveira.  Nova  História  da  Expansão  Portuguesa.  O  Império  Luso-Brasileiro  1750-1822.  Coordenação  de  Maria  Beatriz  Nizza  da 

Silva. Lisboa: Estampa 1986, vol.8, p. 289. 




economia, expandindo o capitalismo comercial, mas, de certa maneira, estancou o desenvolvimento 

do  capitalismo  industrial.  O  patrimonialismo  não  ofereceu  condições  para  o  desenrolar  desse 

processo.  O monopólio,  mesmo  fomentando intensamente as  trocas, reduziu  a burguesia nascente à 

simples  intermediária,  na  compra  e  venda  de  produtos.

39

  O  monopólio  era  fruto  do  mercantilismo. 



Nesse  sentido,  a  arte  de  governar,  praticada  pelo  monarca,  revelou-se  mais  fortemente  quando  este 

racionalizou o poder que o Estado lhe conferiu.  

O  mercantilismo  tornou-se  um  instrumento  para  que  o  Estado  se  identificasse  como  tal,  e 

pudesse ser utilizado como tática de governo. Ao mesmo tempo em que isso aconteceu, o processo 

acabou  por  ser  cerceado,  quando  a  força  do  rei  tornou-se  o  principal  objetivo.

40

  Por  se  ter 



desenvolvido um  grande aparelho  de Estado,

41

o cerceamento  da  economia, pelo  exercício do poder 



centralizado,  justificava  a  posição  subordinada  da  burguesia  portuguesa,  afastada  das  decisões 

econômicas.

42

 

No  que  tratou  da  ocupação  da  área  platina,  das  constantes  lutas  entre  luso-brasileiros  e 



espanhóis, a realidade evidenciou-se nas características do Estado português, no período. Preocupado 

com o apossamento de territórios, no século XVII, principalmente, o Estado luso tratou de justificar a 

ação ocupacional através da guerra defensiva. A Colônia do Sacramento, às margens do Rio da Prata, 

era defendida militarmente, em função da agressividade do imperialismo espanhol. 

Ideologicamente, a partir de Sacramento, a preservação do território conquistado assentou-se 

no  mantenimento  de  uma  área  que,  por  direito,  pertencia  ao  Estado  luso,  segundo  a  sua  própria 

concepção. Os autores portugueses do século XVII percebiam a violência do imperialismo espanhol, 

que não respeitava direitos e agredia Estados cristãos europeus. A Espanha, para esses autores, “tinha 

um  desejo  ambicioso  de  expansão  militar  e  econômica  no  ultramar”.

43

  No  rastro,  portanto,  de  um 



Estado patrimonialista, estruturado organicamente para servir a uma monarquia centralizada, seguiu a 

teoria da defesa das gentes, dos direitos e dos países cristãos. 

Ao aproximar-se a segunda metade do século  XVIII, a  composição orgânica do Estado luso 

mudou. Ao reinado de D. José I (1750-1777), alinhou-se a crise econômica colonial, com o declínio 

da  produção  de  ouro  e  o  cerceamento  da  expansão  territorial,  esboçada  no  Tratado  de  Madri  e 

                                                           

39

FAORO, op. cit., p. 201.  



40

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1992, p.284. 

41

Segundo Foucault, “...a partir dos séculos XVII e XVIII, houve verdadeiramente um desbloqueio tecnológico da produtividade do 



poder”. Nesse período, as monarquias instauraram procedimentos, fazendo circular os efeitos do poder de modo contínuo, em todo o 

corpo social.  Idem, p. 288.  

42

Utiliza-se o termo “aparelho de Estado” segundo a concepção althusseriana, sem levar-se em conta, conforme o próprio Althusser, a 



comprovação  de  tal  conceito.  Conforme  este  autor,  no  aparelho  de  Estado,  a  coerção  física  é  condição  imanente,  exceto  na  coerção 

administrativa,  que  pode  tomar  formas  não  físicas,  agindo,  neste caso,  o poder  de Estado  sob  forma  indireta.   ALTHUSSER,  Louis. 





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