Álvaro de Souza Gomes Neto



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“...havia  em  Portugal  uma  consciência  teórica  e  prática  juspolítica 

que se inseria numa tradição cultural escolástica, caracteristicamente 

ibérica,  onde  se  salientava  a  teoria  da  origem  ‘popular’  do  poder 

régio.[...],  esta  teoria  não  chocava  propriamente  com  as  tendências 

centralizadoras  do  Estado  e  com  um  certo  realismo  e  empirismo 

político  característico  do  mundo  moderno  que  desabrochava,  que 

também  em  Portugal  se  ia  verificando  dentro  da  sua  própria 

dinâmica”.

25

  

 

   Neste  sentido,  enfatiza-se  que  “absolutismo  não  significa  necessariamente  despotismo  ou 

arbitrariedade”.

26

  A  limitação,  porém,  no  caso  do  rei  D.  João  V,  se  dava  justamente  pelo  fato  do 



monarca  ser  vigário  de  Deus,  que,  mesmo  em  um  grau  mais  fraco,  desempenhava  uma  função  de 

promoção  do  bem  comum  e  realização  da  justiça.  Nessa  medida,  o  poder  do  soberano  limitava-se 

pela moral e pelo próprio direito divino, assim como pelo direito natural e das gentes. 

27

 



Em  realidade,  o  que  se  poder  afirmar,  pelas  contradições  aqui  expostas,  é  que  D.  João  V 

enfrentou, ao longo do seu governo, uma série de obstáculos que não puderam cercear em definitivo 

o  exercício  e  o  fortalecimento  do  poder  real.  Por  ter  sido  um  sistema  de  governo  desorganizado, 

agindo  conforme  as  circunstâncias,  as  dificuldades  foram  maiores.  Contudo,  na  continuidade  desse 

processo,  o  aparelho  de  Estado  irá  se  fortalecer,  chegando  a  atingir  um  rompimento  político-

ideológico em relação aos governos anteriores, quando no reinado de D. José I. O que não invalida as 

tentativas de manter e conservar o poder centralizado, acontecidas desde a Restauração.   

  Dessa  forma,  o  Estado  português  enquadrava-se  dentro  dos  parâmetros  conceituais  do 

Estado  Absoluto  sui  generis,  por  possuir  uma  estrutura  administrativa  diferenciada,  em  que  os 

diversos  órgãos  criados  pelos  monarcas  atuavam  efetivamente  na  feitura  e  execução  das  ordens  da 

Coroa, mas, onde a divinização dos monarcas não se sustentava, em função do caráter popular destes. 

Uma  das  características  fundamentais  do  feudalismo,  é  que  “ele  não  criou,  no  sentido 

moderno, um Estado”.

28

 No sistema feudal, os poderes políticos foram corporificados, caracterizando 



                                                           

23

SERRÃO, op. cit., p. 236. 



24

 Diz esse autor que “tal concepção de monarquia radicava-se na  Idade Média  – é uma república christiana, organizada na base da 

família e da propriedade; é uma monarquia em que o rei, através de um pacto feito com o povo, reconhece e respeita as liberdades, dos 

municípios, das corporações, das famílias; é uma  monarquia em  que o poder régio, apesar de autoritário, é limitado pelas liberdades 

existentes, não se afirmando no absoluto e no arbitrário, mas só interfere para estabelecer a ordem e a justiça; é uma monarquia em que 

apesar de existir uma centralização política há também uma descentralização administrativa”. Op. Cit., p. 30 

25

Idem, p. 189. 



26

ALMEIDA, op. cit., p.194. 

27

ALMEIDA, op. cit., p.194. 



28

FAORO, Raymundo.  Os Donos do Poder. Porto Alegre: Globo, 1979, vol.1, p. 18.  Para este autor, o que acontece no feudalismo é 

a  corporificação  de  um  conjunto  de  poderes  políticos,  separados  de  acordo  com  o  objeto  de  domínio,  sem  que  as  diversas  funções, 

privativas sejam levadas em consideração. 




o  Estado  corporativo.  O  contrário  aparece  no  Estado  Absolutista.  O  Estado  que  se  formou  em 

Portugal passou a assentar-se em uma característica patrimonialista, onde os servidores desse Estado, 

integrados  estruturalmente,  eram  vinculados  ao  poder  centralizado.  Foi  a  partir  do  incremento  do 

comércio  que  o  Estado  patrimonial  tomou  corpo.  O  rei,  ao  centralizar  o poder,  criou  uma  estrutura 

que foi conservada em conjunção com a economia e a administração.  

 



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