Álvaro de Souza Gomes Neto



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O Estado Luso 

 

Em Portugal, o Estado exerceu seu poder sobre a Igreja através do padroado. Colocado sob a 



forma de “proteção”, o catolicismo foi a religião oficial e única vigente no país. Traduzido como uma 

                                                           

11

SERRÃO, Joaquim Veríssimo. História de Portugal. Lisboa: Verbo, 1980, vol.5, p.193. 



12

TORGAL, Luís Reis. Ideologia Política e Teoria do Estado na Restauração. Coimbra: Biblioteca Geral da Universidade, 1982, p. 

155. 

13

SERRÃO, op. cit., p.193. 



14

Op. cit., pp. 234-235. 




forma  típica  de  compromisso  entre  a  Igreja  e  o  Estado  português,  o  padroado  foi  aceito  por  Roma 

como  um  acordo,  e  não  como  uma  dominação  política.    Através  da  união  dos  direitos  políticos  da 

monarquia  com  os  títulos  de  grão-mestre  de  ordens  religiosas,  os  reis  portugueses  acumulavam  o 

direito  civil  e  religioso,  principalmente  nas  áreas  coloniais.

15

  Tal  sistema  dava  aos  reis  o  direito  de 



cobrança e administração dos dízimos eclesiásticos. A partir do século XVI a cobrança passou a ser 

realizada diretamente pela pessoa do rei de Portugal, além de zelar também pelo bem-estar espiritual 

dos habitantes das colônias lusas. Os reis portugueses tornaram-se, na prática, os chefes efetivos da 

Igreja, cabendo ao Papa, confirmar as atividades religiosas praticadas por eles.

16

 

Em  nível  estrutural,  foi  instituída  a  Mesa  da  Consciência  e  Ordens,  para  auxiliar  na 



administração  religiosa  das  colônias.  Este  órgão  funcionava  como  uma  espécie  de  departamento 

religioso do Estado.   

 

“Constava de um tribunal composto de um presidente e cinco teólogos 

deputados  juristas.  Iniciou  suas  atividades  em  1532.  Seus  despachos 

informativos  ao  rei  diziam  respeito  a  estabelecimentos  piedosos  de 

caridade,  capelas,  hospitais,  universidades,  resgates  de  cativos, 

paróquias  etc.  O  provimento  de  todos  os  cargos  eclesiásticos  e  os 

assuntos religiosos necessitavam o parecer jurídico da Mesa”.

17

  

 

Neste período criou-se uma situação de transição “que realmente caracterizou o século XVII 

na generalidade e pareceu salientar-se também em Portugal, por razões estruturais e conjunturais”.

18

 



Em  relação  ao  absolutismo  existente  em  Portugal,  sabe-se  que  este  se  manteve  fiel  à 

concepções mais conservadoras. Se pelo lado econômico o Estado luso conseguiu evoluir, em certa 

medida,  manteve-se  estático  e  conservador  em  nível  de  estrutura  política.

19

  Assim,  marcado  por 



certas  características,  o  Estado  Nacional  português  assumiu,  a  partir  de  1640,  um  tipo  próprio  de 

definição.  O  Estado  luso,  de  1640  a  1750,  tomou  a  forma  de  uma  monarquia  centralizada,  sem, 

contudo,  os  reis  exercerem  poder  de  caráter  ilimitado.  Cercados  por  uma  estrutura  de  apoio,  esses 

monarcas  criaram  diversos  órgãos  consultivos  que  acabaram  por  influenciar  em  suas  decisões.  Os 

reis  portugueses  “tiveram  sempre  apoio  de  órgãos  de  poder  para  consulta  ou  execução  da  política 

                                                           

15

HOORNAERT, Eduardo e outros. História da Igreja no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1979, p.163.   



16

Op. cit., p. 163. 

17

Idem, p. 164.  



18

Op. cit., p. 236. 

19

Informa Falcon sobre o absolutismo em Portugal: “Muito mais atuante no campo econômico, [...], esse Estado mercantil, ao mesmo 



tempo,  converte  os  lucros  do  empreendimento  colonial  em  fontes  de  sustentação,  direta  ou  não,  da  aristocracia  feudal  em  crise.”  

FALCON, Francisco José Calazans. A Época Pombalina. São Paulo: Ática, 1982, p. 173.   




interna, externa e ultramarina”.

20

 Essa realidade vem demonstrar que os reis não exerciam um poder 



sem limites. 

Essa  cumplicidade  no  uso  do  poder,  entre  o  rei  e  seus  órgãos  consultivos,  descaracterizou, 

para  muitos  historiadores,  a  existência  do  absolutismo  em  Portugal.  No  entanto,  é  importante 

perceber que, apesar das opiniões serem levadas em consideração, a palavra final sempre era do rei. 

Essa  questão,  portanto  é,  no  mínimo,  discutível.  Como  no  governo  de  D.  João  V,  acontecido  entre 

1706  e  1750,  o  poder  real,  em  Portugal,  foi  resultado  de  uma  política  de  fortalecimento  contínuo, 

embora tenha “sofrido oscilações e vicissitudes várias, acabando por avançar decisivamente nos fins 

do século XVIII”.

21

 

A inexistência de uma base doutrinária oficial no governo joanino certamente contribuiu para 



dificultar a manutenção do poder decisório, em nível centralizado. Na medida em que foi um governo 

de caráter prático, ensejou oportunidades para o surgimento de obstáculos ao exercício do poder real. 

Isto  não  significa  que  a  autoridade  real  e  o  poder  absoluto  não  se  mantivessem,  mas  enfrentaram, 

como consequência, uma variação na intensidade do mando. 

A  reação  à  obstaculização  do  poder  se  fazia  sentir,  muitas  vezes,  de  modo  violento.  Em 

alguns  casos  a  autoridade  do  rei  D.  João  V  sofreu  indisciplina  e  desrespeito.  Prisões  e  desterro  da 

Corte corresponderam à preocupação de punir abusos e violências. Afirmando o caráter flutuante do 

poder  real  destacam-se  também  os  privilégios  e  as  concessões  dadas  pelo  rei,  principalmente  às 

ordens eclesiásticas, no que tange a impostos, sem, no entanto, aboli-los totalmente. 

Em relação à Teoria Divina dos Reis, de Bodin, ressalte-se que apesar de embasar o poder das 

monarquias católicas,  era contraditória e limitava, na prática, o exercício do poder.

22

  Na verdade, a 



monarquia portuguesa mantinha uma estreita relação com a sociedade em função da necessidade de 

defender a independência pós-1640. Nesse sentido, a divindade dos reis não cabia em Portugal,  em 

                                                           

20

Conforme Serrão: “Assim sucedeu com o Conselho de Estado, que no tempo de D. Pedro II, era formado por 10 membros, e com os 



Secretários de Estado, cujo número, até o reinado de D. João V, variou entre dois e três membros. O voto dos conselheiros era sempre 

tomado  em  conta  pelo  monarca.  Sabe-se  também  que  os  secretários  de  D.  Pedro  II,  votavam  em  todos  os  negócios  que  iam 

despachar.[...]...far-se-á  menção  dos  vários  conselhos  e  juntas  que  ajudavam  o  monarca  na  resolução  de  problemas  financeiros, 

judiciais, militares e econômicos, um sistema que afastava o exercício do poder exclusivo por parte de D. Pedro II e, mais tarde, do seu 

filho e sucessor”.  SERRÃO,  op. cit. ,  p. 194.   

21

ALMEIDA,  Luís  Ferrand  de.  Páginas  Dispersas.  Estudos  de  história  moderna de  Portugal.  Coimbra:  Faculdade  de  Letras,  1995, 



p.183. 

22

DE  CICCO,  Cláudio.  Dinâmica  da  História.  São Paulo:   Palas  Athena,  1985,  p.  83.  Esse  autor  esclarece  que  a  Teoria  do  Direito 



Divino  dos  Reis  foi  obra  do  pensamento  de  Jean  Bodin.  Teoricamente  concedia  ao  rei  direito  ilimitado  de  governo.  Contudo,  havia 

uma  diferença  entre  justiça  e  lei,  sendo  que  uma  implica  a  equidade  enquanto  a  outra  implica  o  mando.  O  rei  detinha  o  direito  de 

mandar executar as leis da natureza ordenadas por Deus, mas não tinha o direito de cobrar arbitrariamente de seus súditos, ou de tomar 

posse de suas terras, conforme mandasse sua vontade.    




virtude  da  aproximação  entre  o  corpo  social  e  o  rei.

23

  Em  relação  a  essa  questão  alguns  autores 



defendem uma monarquia mais liberal: 

24

  





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