Luzia: traçando a construçÃo de raçA, etnicidade e nacionalidade na arqueologia brasileira Autor 



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IMPLODINDO LUZIA: TRAÇANDO A CONSTRUÇÃO DE RAÇA, ETNICIDADE E NACIONALIDADE NA ARQUEOLOGIA BRASILEIRA

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Resumo: Este artigo se propõe a analisar a construção do conhecimento arqueológico referente à Luzia, o hominídeo mais antigo encontrado no Brasil. Traçando os diferentes locais, tempos, métodos e teorias pelas quais o crânio do “Hominídeo I da Lapa Vermelha IV” passou, pretendemos mostrar como sua identidade de “primeira brasileira” foi formada pela Arqueologia brasileira e pela mídia. Seguimos como Luzia tornou-se um fato científico de grande relevância para a Arqueologia brasileira e mundial desde sua descoberta na década de 1970 até a solidificação de sua identidade “brasileira” na década de 1990 e na manutenção e uso dessa “verdade” atualmente. A implosão do processo de construção do conhecimento e de extroversão deste sobre Luzia nos mostra como os conceitos de raça, etnicidade e nacionalidade são constituídas na Arqueologia brasileira.

Palavras-chave: Antropologia da Ciência. Arqueologia. Luzia.

Pense num dia com gosto de infância
Sem muita importância procure lembrar
Você por certo vai sentir saudades
Fechando os olhos verá

Doces meninas dançando ao luar
Outras canções de amor
Mil violinos e um cheiro de flores no ar

(Raul Seixas, Você Ainda Pode Sonhar)

Luzia é fruto de uma série de deslocamentos. Os restos esqueletais do indivíduo que hoje conhecemos comumente como Luzia foram encontrados dispersos em uma Lapa na Região de Lagoa Santa, Minas Gerais. Seu crânio, quase um personagem por si só nessa história, encontrava-se em uma camada estratigráfica muito mais abaixo do restante de seu corpo, fato este causado por um desbarrancamento. A ida dos ossos do “Hominídeo I da Lapa Vermelha IV”, o nome técnico de Luzia, para o Museu Nacional e as posteriores análises e datações efetuadas por Walter Neves não causaram os efeitos esperados e nem obtiveram o reconhecimento devido. Os dados mostravam que esta mulher não apenas era o hominídeo mais antigo encontrado em solo brasileiro, mas também possuía traços negroides, diferentes dos traços mongoloides dos indígenas americanos atuais. Entretanto, este fato só seria alçado à condição de uma grande descoberta científica com a ajuda de outras pesquisas parecidas na América e com a reconstituição facial do crânio – reconstituição essa feita na Inglaterra e financiada pela BBC para um documentário sobre o povoamento do continente americano. Deste modo, aquele crânio encontrado no fundo de uma gruta com outros pouquíssimos restos arqueológicos transformou-se na face da “primeira brasileira”.

O objetivo deste artigo é traçar as controvérsias e disputas acerca da constituição do fato científico conhecido como Luzia, seguindo ele desde a escavação na Lapa Vermelha IV, passando pela reconstituição facial até ao frenesi da mídia. A finalidade aqui não é destruir ou minar a produção científica de Luzia, mas apontar os mecanismos de constituição do conhecimento acerca dela e da Arqueologia de forma geral. Ressaltamos também a importância da discussão sobre constituições faciais através de restos esqueletais. Esse ato de “dar um rosto” ao passado, cada vez mais utilizado na Arqueologia e consumido pela mídia e público em geral, deve ser ainda muito discutido e (re)pensado no que tange seus efeitos e implicações.

Buscaremos mostrar a influência social da e na ciência e como ela estar de acordo com um projeto ético-político e econômico não deslegitima a construção desse conhecimento, muito pelo contrário. Esse tipo de análise pode nos levar a uma reflexão mais aprofundada sobre como nosso conhecimento é estabelecido, nos dando subsídios para refletir sobre a produção e importância de fatos científicos no Brasil e fora dele. Ao traçarmos estes diferentes deslocamentos de Luzia, sejam estratigráficos, científicos ou ideológicos, podemos notar melhor o papel da Arqueologia e dos outros campos científicos e midiáticos que a cercam na construção de raça, etnicidade e nacionalidade.

Antes de adentrarmos mais a fundo na história de Luzia, seria bom esclarecermos alguns pontos de análise propostos por este artigo. O termo implodir utilizado no título não possui um sentido referente à destruição, mas sim de fragmentação, no intuito de analisar as diferentes partes que atuam na construção e estabilização de uma “verdade científica”, assim como sua objetividade. Sendo assim, podemos ver toda a heterogeneidade de que um objeto científico é constituído, abrindo nosso olhar para a multiplicidade de fatores incluídos na formação de um fato, como questões técnicas, políticas, econômicas, históricas, míticas, teóricas, midiáticas, de produção de texto, de gênero, entre outros (HARAWAY, 1995, 2004; DUMIT, 2014). Este esforço de implodir um objeto científico é um compromisso com o incômodo, de nos perguntar como sabemos aquilo que sabemos sobre algo e também o que não sabemos e o porquê disso. É um exercício tanto de análise da construção de um fato científico, quanto da construção do conhecimento acerca dele.

Esta descrição de diversos ângulos do mesmo objeto, no caso Luzia, abre para outro conceito importante, o de folded objects. Estes objetos dobrados possuem uma relação intrínseca com o tempo, com a temporalidade no qual estão inseridos e nas relações políticas que performam através disso. Deste modo, estes objetos não apenas desaceleram o tempo, mas também o retêm em si, logo, folded objects são multitemporais, ou seja, são constituídos por diferentes tempos e por diferentes práticas que são postas em conjunto (M’CHAREK, 2010, 2014). Luzia não apenas se desloca no tempo cronológico e no espaço, mas também vai se desdobrando – mostrando, guardando e constituindo categorias, ideologias, práticas e fatos científicos.

Todavia, tanto a ação epistemológica de implosão – que faremos ao longo do artigo –, e o conceito de folded objects – que coloca Luzia no centro da discussão sobre diferentes práticas e tempos –, ainda não nos parecem ser o bastante para compreendermos uma questão chave nesta história. Temos ainda que dar conta de entender como certos pressupostos do conhecimento arqueológico foram construídos ao longo do tempo e como se dá a relação com atores e instituições fora da ciência. Sendo assim, podemos pensar nos coletivos de pensamento que ajudaram a formar a Arqueologia brasileira como a conhecemos hoje – as diferentes comunidades de troca e influência de pensamento, a unidade social de cientistas que cria e impõem certos estilos de pensamento, seus pressupostos do saber (FLECK, 2010). Tendo esta base, partimos para a relação entre os círculos esotéricos e exotéricos; o primeiro se define pela relação direta com a formação de pensamento, já o segundo pela estabilização e extroversão desse conhecimento, afinal, todo estilo de pensamento deve passar por um fortalecimento social para ser consolidado, escondendo suas controvérsias (FLECK, 2010., p. 150).

Para manejarmos todos estes conceitos usaremos tanto trabalhos científicos quanto entrevistas e vídeos produzidos pela grande mídia a respeito de Luzia. Podendo assim acessar tanto o contexto e influências na produção do conhecimento arqueológico quanto o uso deste para um discurso de produção de identidade nacional. Apresentaremos a construção de Luzia em três movimentos distintos: 1) um de lugar, do sítio arqueológico para o Museu Nacional; 2) o de material, quando o osso vira argila; e o 3) deslocamento ideológico, quando Luzia se transforma em brasileira.

DA GRUTA PARA O MUSEU
A região cárstica de Lagoa Santa pode ser considerada o “berço da Arqueologia brasileira”. Foi de lá que no século XIX um geólogo dinamarquês, Peter Lund, encontrou esqueletos humanos associados a restos ósseos da megafauna. Nascia assim a “raça de Lagoa Santa”, catapultando a arqueologia brasileira para dentro do cenário científico mundial. Não adentraremos aqui nas especificidades dos trabalhos de Lund e de outros feitos em Lagoa Santa, pois esse assunto já foi tratado em diversas obras de modo muito mais profundo do que podemos ofertar no espaço que aqui possuímos (HURT, BLASI, 1969; MELO E ALVIM, 1977; LAMING-EMPERAIRE, 1979; PROUS, 1991; NEVES, PILÓ, 2008). O que nos preocupa, e é onde focamos nossa atenção, é a construção de Lagoa Santa como um polo da Arqueologia Brasileira. Isto se deve principalmente ao grande número de ossadas humanas encontradas lá, sua antiguidade e morfologia, mas o interesse, tanto da comunidade científica quanto do governo brasileiro, não era apenas de cunho arqueológico.

O século XIX e início do XX foram marcados no Brasil por uma forte relação da ciência com o Estado. Na Arqueologia não era só Lagoa Santa que era utilizada para mostrar as riquezas do país, mas também os grandes Sambaquis1 do litoral e as culturas ceramistas amazônicas. Sendo assim, não é por acaso que foi nessa época que os museus ganharam mais força no cenário científico brasileiro, passando assim uma visão de mundo e do Brasil para o grande público. Visão esta baseada na racialização, mestiçagem e nos mitos de superioridade (SCHWARCZ, 1993). É nesse período que ocorre a institucionalização da Arqueologia, principalmente no Museu Nacional e no Museu Paulista (FERREIRA, 2010). A formação de profissionais na área arqueológica ainda não existia propriamente dita, a maioria daqueles que praticavam essa ciência vinham de outras áreas como medicina, odontologia, antropologia física, dentre outras. Foi apenas nas décadas de 1950 e 1960 que se iniciou no Brasil cursos e disciplinas de Arqueologia em Universidade.

Lagoa Santa foi o grande foco de pesquisas durante esse período, porém foi apenas na metade final do século XX que o mais conhecido achado viria à tona. A descoberta dos remanescentes ósseos do “Hominídeo I da Lapa Vermelha IV” ocorreu em duas campanhas de escavação diferentes organizadas pela Missão Franco Brasileira, coordenada pela arqueóloga Annette Laming-Emperaire. A primeira, em 19742, atinge uma profundidade de cerca de 11 metros, nos quais alguns ossos humanos já são encontrados. Entretanto, é apenas no ano seguinte, em 1975, que um crânio é descoberto na profundidade de 12,9 metros3. Neste momento não se tinha certeza absoluta se todos esses ossos pertenciam a um único indivíduo, embora já se soubesse que se tratava de uma mulher4 com mais ou menos 1,50m de altura e entre 20 e 25 anos de idade. Foi nessa campanha que o carvão vegetal encontrado perto do crânio foi recolhido para datação – a qual só ocorreria anos depois. Interessante apontar que este carvão, o material base para a datação via Carbono 14, não pertencia a nenhuma estrutura de queima, como uma fogueira por exemplo. Logo, podemos nos perguntar se não há a possibilidade desse carvão ser um remanescente natural e não antrópico.

Nos dois primeiros artigos que tratam da descoberta do que viria a ser Luzia (MELLO E ALVIM, 1977; LAMING-EMPERAIRE, 1979) já se aponta a possível antiguidade elevada dos achados e sua importância. No trabalho de Laming-Emperaire apenas se descreve a estratigrafia do sítio Lapa Vermelha IV e que, dentre outros ossos, foi encontrado um “crânio intacto” que pode ser considerado mais antigo do que 12 mil anos. O trabalho da arqueóloga Mello e Alvim apresenta uma breve nota sobre o crânio de Luzia (aqui ganhando a denominação analítica de Crânio nº 77), mas logo o transforma em apenas um dado estatístico de medição de outros crânios de Lagoa Santa. Interessante apontar que aqui já é notada uma diferença morfológica entre os hominídeos dessa região e os indígenas atuais5. Essa outra morfologia depois seria definida como negroide, através de medições craniométricas feitas por Walter Neves. Luzia, e todos os outros crânios de Lagoa Santa com antiguidade parecida, não possuem os mesmos traços fisionômicos que os indígenas americanos atuais, os quais são mongoloides; o “Povo de Luzia” era muito mais semelhante aos aborígenes australianos. A partir disso foi proposta a teoria da ocupação da América por dois componentes biológicos diferentes: primeiro os humanos de fisionomia negroide, e depois os mongoloides – que dariam origem aos indígenas atuais. O que não é respondido com total certeza é como se deu a substituição de uma população por outra, já que a fisionomia mongoloide é a grande maioria na população nativa atual; propõe-se ou uma extinção ou trocas genéticas. Todavia, há alguns estudos genéticos em crânios de Lagoa Santa e de outras regiões da América que mostram que não necessariamente a carga genética da população negroide seria diferente da dos mongoloides (GONZÁLEZ-JOSÉ et al, 2008). Luzia poderia teria semelhanças genéticas com os indígenas americanos.

Todavia, Luzia é Luzia não por causa de seus traços negroides, encontrados em outras centenas de crânios em Lagoa Santa e outras localidades na América, mas sim por sua datação, por sua antiguidade. Afinal, ela é o único exemplar humano em toda a região de Lagoa Santa, e no Brasil, que atinge essa data. Contudo, é exatamente aí onde as maiores controvérsias se encontram. Talvez não por acaso, se é na datação onde residem os maiores problemas, controvérsias e disputas, é também onde podemos ver os diversos métodos, técnicas e instrumentos que a Arqueologia utiliza em sua prática. Não adentraremos muito afundo nisso, mas é interessante pensar que esses diferentes métodos e objetos de medição criam realidades diferentes através da definição do que se faz presente ou ausente, e do apagamento das instabilidades e não-coerências que surgem no processo (LAW, 2004). Estabilizando, assim, dados científicos, dando objetividade a eles, retirando a subjetividade do atores envolvidos em sua constituição.

Uma datação mais exata do crânio de Luzia não é possível, pois este não reteve colágeno, material que seria passível de datação via Carbono 14. Logo, o método utilizado foi a datação do carvão encontrado em diferentes camadas do sítio arqueológico, inclusive junto ao crânio, relacionando essas datas com a formação estratigráfica do local. Esta técnica de datação relativa, bem comum na Arqueologia, aponta para uma antiguidade que varia entre 11.500 e 11 mil anos (NEVES, PILÓ, 2008, p. 136). Nas palavras de Walter Neves, o maior especialista sobre Luzia, esta datação foi um “chute calculado”6. Uma publicação posterior (FEATHERS et al, 2010), fazendo uma análise microscópica dos sedimentos da Lapa Vermelha IV e datando-os, aponta a mesma antiguidade para o crânio de Luzia7. Amostras de carvão coletadas por Laming-Emperaire na década de 1970 e dadas como perdidas também foram datadas, confirmando a antiguidade do sedimento onde Luzia foi encontrada (FONTUGNE, 2013). Entretanto, há também a informação de que o laboratório que fez as datações conseguiu um resíduo orgânico que pode ser do crânio, o qual indicou uma data anterior a 10 mil anos, o que não colocaria Luzia no rol dos mais antigos restos humanos da América. Este material datado, no entanto, é considerado contaminado além de não se ter certeza de sua procedência (NEVES et al, 1999, p. 46).

Essa datação mais antiga e o modo como os ossos de Luzia foram encontrados levaram os pesquisadores a duas conclusões: primeiro que, através do estudo do paleoclima da região, notaram que nessa época a área não se encontrava com vegetação, fauna e clima propícios para a ocupação humana, logo, o grupo de Luzia deveria estar apenas de passagem por Lagoa Santa (NEVES, PILÓ, 2008, p. 309). Segundo que Luzia não teve um funeral propício, seu corpo ficou apenas jogado ao solo. Além disso, a causa da morte não foi solucionada, alguns falam em morte por acidente, outros em um ataque de algum animal (NEVES, PILÓ, 2008, p. 278).

Qual seria a grande contribuição de Luzia no cenário arqueológico mundial se ela tivesse essa datação de quase 12 mil anos? Até então a teoria em voga era a de que os primeiros grupos humanos chegaram na América do Norte através do Estreito de Bering por volta de 11.500 anos. Esta hipótese é conhecida como Clovis First, pois o primeiro sítio arqueológico com essa datação foi encontrado na cidade de Clóvis, Novo México, nos Estados Unidos. Deste modo, uma descoberta com uma data igual ou até mais antiga na região de Minas Gerais, no Brasil, quebraria esse paradigma. Aqui, devemos salientar que a teoria proposta por Walter Neves, conhecida como “dois componentes biológicos”, acredita na migração via estreito de Bering, porém, postula uma vinda anterior a de Clóvis, à qual possuía uma morfologia negroide, mais parecida com os aborígenes australianos e não mongoloide, como a dos indígenas americanos atuais (NEVES, PILÓ, 2008). Deste modo, temos aqui um embate entre dois coletivos de pensamento – Clovis First e teoria dos dois componentes biológicos – e seus respectivos estilos de pensamento – defendendo modelos de povoamento através de práticas, métodos e modos de divulgação diferentes. Todavia, como muito bem mostra Neves e Piló (p. 72), os teóricos da Clovis First e suas instituições comandavam a aceitação de teorias e hipóteses no campo arqueológico mundial. Esse controle se dava tanto por meios científicos – como publicações em periódicos de prestígio –, quanto economicamente – através de pesquisas muito bem financiadas. Já o coletivo de pensamento contrário, que se focava mais em pesquisas na América do Sul e acreditava em uma antiguidade maior, não se encontrava tão estabilizado e institucionalizado. Seria apenas com a confirmação do status de Luzia como possuindo uma antiguidade correlata a de Clóvis, e também com o achado do homem de Kennewick8, que os trabalhos científicos propondo essa outra visão ganhariam mais alcance. Isso gerou também um dos maiores projetos arqueológicos no Brasil, o Projeto Origens e Microevolução Humana (2004-2009), o qual expandiu as pesquisas na região de Lagoa Santa (NEVES, PILÓ, 2008).

O que os dados arqueológicos nos mostram é que Luzia era uma retirante – vinda de outro lugar e encontrando-se de passagem por Lagoa Santa –, tinha traços negroides e morreu sem identificação, sem um enterramento e funeral e sem a causa da morte definida, ou seja, era praticamente uma indigente. Entretanto, não foi por essas causas que Luzia foi considerada a “primeira brasileira”.

DO OSSO AO BARRO


Talvez a primeira argumentação com a qual devemos iniciar é que Luzia, como todo objeto científico e de pesquisa, é efeito de tecnologias e da nossa interação com o mundo, sendo assim sofrem diferentes interferências e momentos de estabilidade durante sua constituição (M’CHAREK, 2010, p. 2). A segunda é que a descrição no item acima sobre o registro arqueológico produzido e os métodos de datação, nos faz ver como este campo é permeado por confusões, incertezas, subjetividades e instabilidades. Todavia, não devemos achar que isso só ocorre em “ambientes não controlados”. O laboratório, como diversos trabalhos focados no estudo da Ciência e da Tecnologia nos mostram (DOMENECH, TIRADO, 1998; LAW, 2004; LATOUR, 2011), também não são um local de pureza, objetividade e estabilidade. E são exatamente essas tecnologias e campos, essas interações, essas interferências e essas instabilidades e estabilidades que começaremos a mapear a partir de agora.

Se entendermos as tecnologias como “práticas de visualização” (HARAWAY, 1995, p. 28), ou seja, tanto como um modo de ver e construir o mundo, quanto de criar algo visível e de dar visibilidade a alguma coisa (em detrimento de outras), temos um ponto importante através do qual podemos analisar nosso caso. Afinal, aqui entra a importância das tecnologias em criar uma face visível de Luzia, uma face não apenas com a qual podemos nos relacionar – diferentemente de um crânio sem mandíbula e com dentes faltantes –, mas que também nos diz e nos mostra algo. Salientamos também que, embora Luzia tenha traços negroides isso não necessariamente indica que a cor de sua pela era negra, porém, sua reconstituição facial, devido ao material argiloso usado, apresenta essa característica, logo, sendo visível, transforma-se em realidade (NETO, SANTOS, 2009, p. 461). Implodindo-a podemos traçar todas as conexões que a perpassam. Alguns visualizam “a primeira brasileira”, outros a “teoria dos dois componentes biológicos”, já outros, e é aqui que este artigo se insere, visualizam uma rede interligada de constituição e performatização dessas diferentes visões9. Sendo assim, debruçamo-nos a partir de agora sobre os processos de reconstituição facial.

A primeira reconstituição de Luzia foi feita por Richard Neave, um bioantropólogo forense da Universidade de Manchester, e financiada pela rede BBC para um documentário sobre o povoamento da América. O principal problema para moldar uma face antiga são os tecidos moles: o nariz, os lábios, as orelhas e os olhos. Esta dificuldade se apresenta desde o início dessa possibilidade de reconstituição e perpassa diferentes métodos (SALLES et al, 2006). Deste modo, as principais críticas que se fazem às reconstituições são devido à alta variabilidade individual na face humana, a influência da idade, da dieta nutricional, de patologias e a falta de critérios exatos para definição de detalhes sutis no rosto (SALLES et al, 2006, p. 176; MENDONÇA DE SOUZA, 2006, p. 79). O rosto de Luzia, por exemplo, no que tange à definição do tom de sua pele e do formato dos tecidos moles se baseou em uma análise comparativa com populações atuais que possuem o mesmo tipo morfológico cranial (SALLES et al, 2006, p. 182). Para um resultado mais fidedigno, seria importante resgatar dados dos ossos do esqueleto e do contexto cultural, histórico e social de Luzia para definir com mais exatidão certos detalhes (MENDONÇA DE SOUZA, 2006, p. 83). Além da reconstituição de Neves se basear apenas em uma tomografia digital do crânio, não se levou em conta a possível modificação de parâmetros anatômicos craniais desde a época em que Luzia viveu. Isso mostra que, embora a ciência de modo geral acredite que a história é mais bem contada por ossos e genes, por corpos que não podem mentir (M’CHAREK, 2010 p.3), isso não ocorre bem assim.

Mesmo assim, com a reconstituição facial feita por Richard Neave não eraa mais apenas os dados craniométricos de Walter Neves que diziam que ela era negroide, mas agora sua própria fisionomia mostrava isso, sem precisar articular uma palavra. E não é apenas esta a face de Luzia, embora seja a mais conhecida, que se tem hoje em dia. Outros artistas têm suas visões sobre a fisionomia de Luzia, dependendo do método por eles utilizado certos traços, características e expressões são modificadas. Há uma diferença entre moldar uma face em resina ou argila, como foi com Neave, e o uso de tecnologias digitais, moldando a face através da tela de um computador com um modelo 3D. Podemos ver na Imagem 1 como a face de Luzia, mesmo mantendo alguns traços parecidos (principalmente nariz, lábios e cor da pele), se difere muito dependendo do modo de reconstituição e do autor da mesma.




Figura 1


Figura 2


Figura 3



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