Livro de actas 4º sopcom



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LIVRO DE ACTAS – 4º SOPCOM 

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Matr ix Iluminismo e afins. 

Adriana Moreira 

Universidade Católica Portuguesa 

Era  uma  vez  um  hacker  que  tinha  uma  “farpa  na  mente”,  um  questionamento 

ininterrupto, e que escondia softwares piratas em  um livro de fundo falso. Seu nome é 

Thomas  Anderson,  um  competente  analista  de  sistemas  de  informática,  que  nas  horas 

vagas  atua  como  hacker  de

  nickname

  Neo  e  pesquisa  em  busca  da  resposta  para  uma 

pergunta que constantemente o  intriga: O que é a Matrix?.  A publicação é do filósofo 

francês  Jean  Baudrillard,  Simulacros  e  Simulação  –  uma  obra  pós­moderna  sobre  a 

erosão  do  real  e  o  seu  deslocamento,  escrita  por  um  autor  polêmico  e  um  crítico 

contumaz da cibercultura. 

A “farpa na mente” de Neo, a sua dúvida e angústia são esclarecidas por Morpheus no 

primeiro diálogo entre as duas personagens:

 

Morpheus: Finalmente, bem­vindo, Neo; como você deve ter adivinhado, eu sou 



Morpheus. 

Neo: É uma honra conhecê­lo. 

Morpheus: Não, a hora é minha, por favor, venha, sente­se. Eu imagino que você 

esteja se sentindo um pouco como a Alice, entrando pela toca do coelho. 

Neo: Você tem razão. 

Morpheus: Eu vejo nos seus olhos, vïcê tem o olhar de um homem que aceita o 

que vê, porque está esperando acordar, ironicamente, não deixa de ser verdade. 

Você acredita em destino, Neo? 

Neo: Não. 

Morpheus: Porque não? 

Neo: Não gosto de pensar que não controlo minha vida.



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Morpheus: Sei exatamente o que quer dizer, vou te dizer porque está aqui. Você 

sabe  de  algo,  não  consegue  explicar  o  que,  mas  você  sente,  você  sentiu  a  vida 

inteira. Há algo errado com o mundo, você não sabe o que é, más há, como um 

zunido na sua cabeça te enlouquecendo, foi esse sentimento que te trouxe até mim. 

Você sabe do que estou falando? 

Neo: Da Matrix? 

Morpheus: Você deseja saber o que ela é? A Matrix está em todo o lugar, a nossa 

volta,  mesmo  agora,  nesta  sala,  você  pode  vê­la  quando  olha  pela  janela,  ou 

quando liga a sua televisão, você sente quando vai para o trabalho, quando vai a 

igreja, quando paga os seus impostos. É o mundo que foi colocado diante dos seus 

olhos para que você não visse a verdade. 

Neo: Que verdade? 

Morpheus: Que vïcê é um escravo, como todo mundo, você nasceu num cativeiro, 

nasceu  numa  prisão  que  não  consegue  sentir  ou  tocar,  uma  prisão  para  a  sua 

mente. Infelizmente, é impossível dizer o que é a  Matrix. Você tem de ver por  si 

mesmo.

 

A natureza da Matrix é esclarecida ao longo da Trilogia, o Agente Smith, por exemplo, 



possui uma versão mais “freudiana” da Matrix:

 

Já  olhou  para  tudo  isso  de  cima?  Maravilhado  com  a  sua  beleza,  sua 



genialidade?  B ilhões de pessoas vivendo suas vidas distraídas. Você sabe que a 

primeira  Matrix,  foi  criada  para  ser  o  mundo  humano  perfeito,  onde  ninguém 

sofreria,  onde  todos  seriam  felizes?  Foi  um  desastre.  Ninguém  acuitou  o 

programa, perdemos safras inteiras [de humanos servindo como baterias]. Alguns 

acham  que  não  tínhamos  a  linguagem  de  programação  para  descrever  o  seu 

mundo  perfeito.  Mas  eu  acho  que  como  espécie,  os  seres  humanos  definem  a 

realidade  através  da  desgraça  e  do  sofrimento.  Então  o  mundo  perfeito  era  um 

sonho do qual o cérebro primitivo de vocês tentava acordar. E por isso a Matrix 

foi  criada  assim.  O  ápice  da  sua  civilização,  eu  digo  “ sua  civilização” ,  porque 

quando começamos a pensar por vocês, tornou­se nossa civilização, o que, claro, 

é  a  razão  disto  tudo. Evolução,  Morpheus. Evolução.  Como  o  Dinossauro.  Olhe



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pela  janela.  Vocês  tiveram  seu  tempo.  O  futuro  é  nosso  mundo,  Morpheus.  O 

futuro é nosso tempo.

 

O niilismo está em alta! Uma das pistas dada pela Matrix, já em seus primeiros minutos 



vem  na  cena  em  que  Neo  abre  o tal  livro  (Simulacro  e Simulação):  ele  é  mais  grosso 

que  o  original  e  apresenta  o  capítulo  “Sobre  o  Niilismo”  em  lugar  errado.  Talvez, 

apenas  os  aficionados  interessados  nas  filosofias  e  crenças  apresentadas  nos  três 

episódios,  percebam  suas  nuances  e  detalhes.  O  autor  Slavoj  Zizek,  em  seu  ensaio 

“Matrix: ou os dois lados da perversão” defende o ponto de vista:

 

Meus  amigos  lacanianos  me  dizem  que  os  autores  devem  ter  lido  Lacan;  os 





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