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2 O Latim Vulgar

Para definir o Latim Vulgar, é inevitável não relacioná-lo com

a modalidade clássica. Por exemplo, a literatura em geral do-

cumenta que o peso silábico e a restrição da janela trissilábica são

dois aspectos fundamentais para o Latim Clássico; no Latim Vul-

gar, no entanto, esses fatores devem ser vistos de outra forma, e

por razões simples. Primeiramente, porque a língua popular não se

valia da distinção quantitativa, sendo caracterizada por um acento

intensivo. Exemplo disso são palavras do latim vulgar, como

acetu- (> azedo, em português) e sudore- (> suor, em português), res-

pectivamente em correspondência com ace#tum e sudo#rem na moda-

lidade clássica (MAURER Jr., 1959, p. 12); depois, porque o acen-

to proparoxítono não existia na forma popular, configurando, pois,

o Latim Vulgar como uma língua cuja restrição da janela de três

sílabas teve seu papel significativamente fortalecido, já que não res-

taram palavras cujo acento fosse atribuído além da segunda sílaba

a contar da direita da palavra. Palavras como intégru- (> inteiro,

em português) e colóbra (> cobra, em português) do latim vulgar,

respectivamente em correspondência com íntregrum e cólubra na

forma clássica, exemplificam a segunda razão. Também o Appendix



Latim Vulgar: representação do acento...

199


Probi

1,2


 fornece inúmeros exemplos de palavras proparoxítonas do

Latim Clássico, cujas formas equivalentes no Latim Vulgar são

paroxítonas motivadas pela síncope da vogal postônica. Algumas

são apresentadas a seguir:

(1)

speculum non speclum

masculus non masclus

vetulus non veclus

vitulus non viclus

vernaculus non vernaclus

articulus non articlus

baculus non baclus

angulus non anglus

(SILVA NETO, 1956, p. 53)

Silva Neto (1956) fornece outros exemplos que interpretamos como

mais justificativas para a eliminação das palavras proparoxítonas no

Latim Vulgar. Segundo o autor, “pode-se, sem exagero, falar numa

repulsa ao hiato, repulsa essa que tende a desfazê-lo [...]. Com a se-

miconsonatização da primeira vogal, o hiato transformou-se em diton-

go. Daí a criação de vários grupos formados por consoante e semi-

consoante” (SILVA NETO, 1956, p. 71). Explica ainda o autor que, com

a eliminação dos hiatos, transformados em ditongos, nesses grupos

recém-formados, quando a consoante era palatalizável, houve “molha-

mento” (baneu > (por balneu) > *baniu > banyu > banho;  palea > pa-



lia > palya > palha); do contrário a semiconsoante desaparecia (lan-

cea > lancia > lancya > lança) ou era atraída para a sílaba anterior (bas-

seu > bassiu > bassyu > baixo). Depreende-se daí que a nova silabação e a

nova configuração silábica transformam as palavras proparoxítonas

em paroxítonas. Isso levaria à conclusão de que, por um caminho

CV.CV.CV passa a CV.CGV

3

 que passa a CV.CV; por outro CV.CV.CV



passa CV.CGV que passa a CVG.CV. Todavia, não é essa a conclusão a

que chegamos. Como apresentado em (2) abaixo, em todos os casos o

1

Assim se refere Silva Neto (1956, p. 31-32) ao Appendix Probi: “uma lista –



evidentemente organizada por um professor para uso dos seus alunos – com

duzentas e vinte e sete correções. O valor desse material consiste em que ele nos

oferece material seguro e indiscutível”. O glossário completo pertencente ao Appendix

Probi está em Silva Neto (1956, p. 53).

2

Fritsch (1973 p. 126) nos informa que “Por volta do início do século IV foi escrito,



por autor desconhecido, um tratado altamente interessante, que se tornou conhecido

pelo nome de Appendix Probi, e que foi encontrado como apêndice a um estudo sobre

gramática, realizado por um gramático de nome Probus, também desconhecido. O

autor, pedagogo ou professor, tinha por finalidade combater certos vícios e

negligências de linguagem, bem como ensinar a forma correta de expressão”.

3

C = Consoante; V = Vogal; G = Glide.




200

Letras de Hoje

Magalhães, J. S.

š

resultado da evolução das palavras é, em Português Brasileiro, uma



seqüência CV. Isso nos leva a crer que, ainda no Latim Vulgar, essa

seqüência já estava constituída, com o suposto glide anexado ao

onset da sílaba final, o que mais tarde produziria uma consoante

palatal. Dessa forma a estrutura silábica, no Latim Vulgar,

4

 das


palavras que, no Latim Clássico, teriam um hiato final apresentam-se

como abaixo:

5

(2) Latim Clássico



Latim Vulgar

Português Brasileiro






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