Kevin B. Lee: "Os vídeo-ensaios fazem-nos ver através dos olhos de outra pessoa"



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ENTREVISTA 2 KEVIN B LEE
Histoire(s) du cinéma (1988-1998) de Jean-Luc Godard

LM – Estamos a falar de linguagem e da montagem godardiana, interessa-lhe que os seus ensaios audiovisuais tenham um toque particular?

Não, não me interessa. Para mim o objectivo é compreender e encontrar interesse nos filmes. Por isso, cada um tem uma abordagem diferente. Falei disto com outros vídeo-ensaístas, em particular com o Tony Zhou que tem um estilo muito reconhecível (e é algo a que ele se dedicou muito de modo a que seja facilmente identificável que aquele ensaio é “um Tony Zhou”) e talvez por isso é tão popular. Ele disse-me uma vez que quando vê um vídeo-ensaio meu nunca sabe o que esperar: será um super-cut, um vídeo narrado, ou algo que nunca havia visto. Para mim, a coerência passa por procurar uma nova entrada, uma nova forma de olhar. Os vídeo dele são mais sobre como ensinar, ainda que nos meus a componente eductiva está também presente. Um dos principais motivos pelos quais ele começou a fazer ensaios foi para explicar às pessoas o cinema que lhe interessava: ele falava em comédia visual e as pessoas não percebiam, por isso fez o How To Make Visual Comedy (2014). É importante perceber a quem diriges os teus vídeo-ensaios e porque razão o fazes, isso altera o resultado e a forma do objecto.



LM – Há uma questão recorrente que nos preocupa e que já coloquei a outros vídeo-ensaístas: devem existir ou não barreiras éticas quando se montam os filmes de outras pessoas. Tem essas barreiras, ou crê que deve ser um campo aberto?

Sim, absolutamente aberto. Mas acho que não devemos incluir nesse debate a questão dos direitos de autor, essa é uma dimensão ética relacionada com o dinheiro, com o direito de vender algo. Para mim isso nunca foi uma questão, eu não estava a vender os meus vídeos, nem a fazer dinheiro. Mas como estava a utilizar materiais com direitos de autor tive problemas e a minha conta do YouTube foi desactivada a certa altura. Mas tive pessoas que me apoiaram e que perceberam que os meus vídeos tinham o valor de comentário crítico, separado do valor comercial dos filmes. Aliás, até acrescenta valor aos filmes, já que muitos dos vídeos falam bem dos filmes, geram interesse em vê-los. Deveria ser algo desejado. Com os anos os vídeo-ensaios começaram a ser valorizados, por exemplo, uns colegas meus queriam fazer um ensaio a propósito do último filme do Terrence MalickKnight of Cups (Cavaleiro de Copas, 2016), e queria ter acesso ao filme. Quando contactou o distribuidor foram eles que lhe perguntaram se ele tinha interesse em fazer um vídeo-ensaio. As coisas estão a inverter-se. O vídeo-ensaio é visto como uma ferramenta de promoção dos filmes. Mas com isto a minha perspectiva alterou-se também. Antes eu achava que lhes estava a fazer um favor, um serviço, agora penso: “devia estar a fazer-vos um favor, é para isto que os vídeo-ensaios servem, são apenas mais uma forma de promoção, ou podem/devem ser uma coisa diferente”. Estas coisas estão sempre a evoluir. Regressando à questão da ética, para mim este é um problema, devo fazer isto por motivos comerciais ou não. Ética implica uma relação entre duas partes, e qual é a lógica e o sentimento, as emoções entre essas partes que a fazem ser uma boa relação.

Recentemente fiz um vídeo-ensaio sobre o último filme da Chantal AkermanNo Home Movie (2015), em que usei música. O distribuidor do filme queixou-se porque a Chantal Akerman não usa música, em particular neste filme, e o meu vídeo acrescentava uma nova camada emocional que não estava originalmente. Eu de facto tinha-me interrogado se o deveria ou não fazer. Por um lado, achei que num vídeo online as pessoas não veriam nunca o vídeo e além disso eu queria mostrar o meu amor pelo filme e pela realizadora e a música era uma forma de o fazer. Por outro lado, estava a trair o espírito artístico da Akerman. Mas depois cheguei à conclusão que o meu vídeo-ensaio é sobre a forma como eu experiencio o filme, eu preciso de música para expressar as minhas emoções ao ver o filme dela. Torna-se um diálogo de escolhas estéticas, um diálogo excelente em que se discute porque é que um som ou uma imagem nos diz algo, por questões estéticas e éticas. São controvérsias que nos permitem perceber melhor as coisas  e isso é sempre benéfico.




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