Kevin B. Lee: "Os vídeo-ensaios fazem-nos ver através dos olhos de outra pessoa"


RVL – Sente que quando vê um filme há certas coisas que queria dizer mas que só o conseguiria com o vídeo, que a escrita não lhe permitiria lá chegar?



Baixar 423.04 Kb.
Página5/13
Encontro13.01.2022
Tamanho423.04 Kb.
#21014
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   13
ENTREVISTA 2 KEVIN B LEE
RVL – Sente que quando vê um filme há certas coisas que queria dizer mas que só o conseguiria com o vídeo, que a escrita não lhe permitiria lá chegar?

Isso claramente acontece por vezes. O caso do Godard tem exemplos muito bons, por exemplo, o Histoire(s) du cinéma (1988-1998) e aquilo que ele faz com a montagem expressa algo que o texto não permite. Li um artigo do Jonathan Rosenbaum em 1990 ou 1991 para a revista Film Comment e ele falava de filmes como forma de crítica de cinema e referia o Histoire(s) como uma experiência fascinante e única que só poderia ser captada por uma cinefilia que estava já a morrer. É curioso que ele no início dos anos 90 estivesse a atestar a morte da cultura cinéfila, e a identificar o Histoire(s) como um último hurrah! dessa cultura e Jean-Luc Godard como uma espécie de antigo guardião que colocava todas as suas memórias cinéfilas num só filme e no futuro as gerações vindouras não seriam capazes de compreender aquele objecto. Vinte cinco anos mais tarde faz todo o sentido, para qualquer pessoa que que passou metade da sua vida a ver DVDs e a escrever sobre filmes consegue perceber aquele filme, uma compilação de todos os filmes que te disseram algo de especial na forma de uma testemunho pessoal. É o filme que muitos de nós gostaríamos de fazer. Além de reflectir a cultura cinéfila, é um filme que está à frente do seu tempo e antecipa a cultura do remix. Alguns momentos parecem até formas muito sofisticadas de fan videos. O colapso da alta cultura com as práticas populares dos media é algo que o filme faz de forma belíssima e que problematiza aquilo que se faz com o found footage e com a cultura dos filmes. Mas regressando à tua questão original, estamos a usar os media para comunicar, mais do que alguma vez aconteceu… É algo que até as crianças sabem fazer: procuram umas imagens na Internet, sacam-nas, juntam-nas com uns sons e colocam-nas online. Para elas é algo mais simples de fazer do que proferir uma frase bem estruturada. É apenas um reflexo da nova importância das imagens na nossa forma de falar: o Instagram, os gifs, vídeos que se enviam numa mensagem em vez de escrever. São coisas que estão a acontecer neste momento e é importante ter em consideração a importância das imagens na forma como comunicamos.






Baixar 423.04 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   13




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal