Kellyana bezerra de lima veloso


Racialização dos povos indígenas – uma estratégia de poder



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2.3 Racialização dos povos indígenas – uma estratégia de poder

A colonialidade é um padrão de poder inaugurado com a expansão colonial europeia sobre os territórios da América. Para esse específico padrão de poder, a criação da ideia de raça e sua hierarquização irá transpassar todas as demais relações sociais existentes e seguirá vigente mesmo com o fim do colonialismo (QUIJANO, 1999, p. 141)37,

Imposta como critério básico da classificação social universal da população mundial, segundo ela foram distribuídas as principais novas identidades sociais e geoculturais do mundo. De uma parte: "Índio", "Negro", "Asiático" (antes de "Amarelos" e "Azeitonados"), "Branco" e "Mestiço". De outra: "América", "Europa", "África", "Ásia" e "Oceania". Sobre ela se fundou o eurocentramento do poder mundial capitalista e a consequente distribuição mundial do trabalho e do intercâmbio. E também sobre ela se traçaram as diferenças e distâncias específicas na respectiva configuração específica do poder, com suas cruciais implicações no processo de democratização de sociedades e Estados e da formação dos estados-nação modernos (1999, pp. 141-152)38.

Na história das relações de poder entre as gentes (MARÉS, 1998)39 a estratégia de racialização de povos categorizados como inferiores foi o mais eficaz instrumento de dominação social e é o elemento fundacional da colonialidade do poder.

Inventa-se o termo raça por volta dos séculos XV e XVI para a exploração dos territórios colonizados pela Europa e que possui elementos necessários para o controle da sociedade e da produção inaugurada com a modernidade e com o paradigma eurocêntrico, mas não só isso, a ideia de raça afeta todas as outras dimensões da vida porque discrimina saberes e produções, reduz civilizações, valores, capacidades, criações e as crenças dos vencidos na história colonial (QUIJANO, 2014, p. 54)40.

A construção científica de que os “povos de cor” eram biológica e naturalmente inferiores foi produto da elaboração europeia. Trata-se de uma construção ideológica de um padrão de poder moderno/colonial e eurocentrado e que nada tem a ver com as diferenças biológicas e fenotípicas humanas, como foi sustentado pelo racismo científico durante muito tempo.

A idéia de que os dominados são o que são, não como vítimas de um conflito de poder, mas sim enquanto inferiores em sua natureza material e, por isso, em sua capacidade de produção histórico-cultural. Essa idéia de raça foi tão profunda e continuamente imposta nos séculos seguintes e sobre o conjunto da espécie que, para muitos, desafortunadamente para gente demais, ficou associada não só à materialidade das relações sociais, mas à materialidade das próprias pessoas (QUIJANO, 2005, p. 17)41.

Esse sistema de dominação recaiu sobre os indígenas da América e sobre os povos negros da África que foram dominados e explorados dentro de regimes escravistas e de servidão nas colônias instaladas nas Américas.

Esse processo histórico impactado por saberes e por poderes resultantes da colonialidade justificou a destruição das subjetividades indígenas e negras, a negação de direitos e a tomada de seus territórios,

A vasta e plural história de identidades e memórias (seus nomes mais famosos, maias, astecas, incas, são conhecidos por todos) do mundo conquistado foi deliberadamente destruída e sobre toda a população sobrevivente foi imposta uma única identidade, racial, colonial e derrogatória, “índios”. Assim, além da destruição de seu mundo histórico-cultural prévio, foi imposta a esses povos a idéia de raça e uma identidade racial, como emblema de seu novo lugar no universo do poder. E pior, durante quinhentos anos lhes foi ensinado a olhar-se com os olhos do dominador. De modo muito diferente, mas não menos eficaz e perdurável, a destruição histórico-cultural e a produção de identidades racializadas teve também entre suas vítimas os habitantes seqüestrados e traídos, do que hoje chamamos África, como escravos e em seguida racializados como “negros”. Eles provinham também de complexas e sofisticadas experiências de poder e de civilização (ashantis, bacongos, congos, iorubas, zulus etc.) (QUIJANO, 2005, p. 17)42.

Para Quijano, a invenção da ideia de raça foi uma construção mental sem lastro na realidade para naturalizar as relações de poder associando trabalho não pago com os povos dominados, porque os consideravam inferiores,

As diferenças fenotípicas entre vencedores e vencidos foram usadas como justificação da produção da categoria ‘raça’ embora se trate, antes do mais, de uma elaboração das relações de dominação como tais. A importância e a significação da produção desta categoria para o padrão mundial do poder capitalista eurocêntrico e colonial/moderno dificilmente poderia ser exagerada: a atribuição das novas identidades sociais resultantes e sua distribuição pelas relações do poder mundial capitalista estabeleceu-se e reproduziu-se como a forma básica da classificação societal universal do capitalismo mundial; estabeleceu-se também como o fundamento das novas identidades geoculturais e das suas relações de poder no mundo. E, também, chegou a ser parte por detrás da produção das novas relações intersubjetivas de dominação e de uma perspectiva de conhecimento mundialmente imposta como a única racional. A ‘racialização’ das relações de poder entre as novas identidades sociais e geoculturais foi o sustento e a referência legitimadora fundamental do caráter eurocentrado do padrão de poder, material e intersubjetivo. Ou seja, da sua colonialidade (QUIJANO, 2002, pp. 106-107)43.

Assim, a Europa constituiu o capitalismo mundial com uma estrutura de produção, acumulação, exploração e controle do trabalho que criou relações dependentes histórico-estruturais e que podem ser visualizadas nas diferenças entre centro e periferia.

Destaca-se que, esse padrão de poder só foi possível de se concretizar com a racialização dos povos indígenas e negros, para Quijano é o eixo de sustentação dessa estrutura, pois ao serem considerados como inferiores, sem humanidade, eles deveriam realizar o trabalho não pago e explorado por de pessoas que os submeteram à condição de coisa, de res, como não sujeitos.

A cessação posterior dessas relações não foi superada com descolonização como sustenta o projeto da modernidade. Quijano aponta que as formas coloniais de dominação se perpetuam sob outras estratégias de poder, pois não existe modernidade sem colonialidade.

A perspectiva da descolonização das relações materiais de poder, na América Latina e é o ponto de partida de todo esse debate e de o projeto de libertação dos povos subalternizados para que seja possível romper com a hegemonia do paradigma eurocêntrico das relações sociais44.






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