Kelleny brasil rodrigues



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Fantasmagorie em 1908 que, pautado numa estética incoerente (LUCENA JÚNIOR, 2005:

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, introduz a técnica da metamorfose e da máscara fotográfica. Winsor McCay foi outro

quadrinista importante, produzindo animações nas quais as ações encontravam-se mais

dependentes   do   desenrolar   da   narrativa   –   e   não   soltas   umas   das   outras.   Em  How   a



Mosquito Operates  (1912), McCay apresenta ao público a figura de um mosquito que

possui   fortes   características   humanas,   a   partir   das   quais   o   autor   pôde   trabalhar   a

personalidade   da   personagem   como   recurso   expressivo   e   de   identificação   com   o

espectador. 

Se a nascente indústria cinematográfica ainda carecia de uma estrutura artística

como um todo, para a animação os desafios eram ainda maiores, uma vez que precisava

estabelecer-se como um meio legítimo para a produção de filmes, que pudesse competir

com a audiência do cinema live-action. Nesse contexto, surgiriam os primeiros estúdios de

animação,   suprindo   a   demanda   por   produções   com   prazos   e   orçamentos   curtos.   Esse

fenômeno teve destaque nos EUA, logo antes do início da Primeira Guerra Mundial – o

que   fortaleceu   o   cinema   norte-americano   como   um   todo   visto   que,   com   a   Guerra,   a

concorrência com a Europa praticamente se extinguiu, abrindo caminhos para a hegemonia

dos   EUA  na   produção   audiovisual   no   Ocidente   (LUCENA  JÚNIOR,   2005:   61).   John

Randolph Bray foi uma figura chave nesse processo, ao implantar princípios Tayloristas

sobre produtividade na confecção dos filmes de animação – esse método envolveria o

estabelecimento de linhas de montagem e hierarquias, com a supressão da individualidade

no processo produtivo. Essa nova forma de se pensar a feitura de animações tornaria o

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“Os incoerentes” foi o nome que levou o grupo ao qual Cohl se integrou na década de 1880, interessado



em   questões   estéticas,   com   filosofia   iconoclasta,   antiburguesa,   antiacadêmica   e   violentamente

antirracional. 




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trabalho repetitivo menos oneroso, acarretando no surgimento de técnicas que alavancaram

a produção de animações em série, como a técnica do desenho sobre folhas de celuloide

transparente,   patenteada   por   Earl   Hurd   em   1914   –   as   figuras   passaram   a   ficar

independentes   dos   cenários,   os   quais   poderiam   receber   maior   atenção   plástica   –;   a

rotoscopia

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, patenteada pelos irmãos Max e Dave Fleischer



3

  em 1915, que propiciava a

elaboração de movimentos mais realistas para os personagens. 

Nesse contexto, as séries de animação começaram a ocupar mercado e, ao mesmo

tempo, suas técnicas eram popularizadas em publicações de livros e periódicos. Lucena

Júnior (2005: 73), destaca que o próprio Walt Disney instruíra-se com esse tipo de material,

em paralelo à sua formação em escola de arte. Se na década de 1920 a animação alcançaria

uma certa uniformidade, nos anos de 1930 haveria o estabelecimento de uma linguagem

visual própria para aquele cinema, assim como sua afirmação como forma lucrativa de

entretenimento. 

Walt Disney, mesmo com formação artística sólida, viria a se destacar por seu

trabalho na direção e no controle do processo produtivo de animações, sendo reconhecido

por   seu   grande   potencial   comunicativo.   Percebendo   os   problemas   enfrentados   pela

animação quando de sua emergência – como a ausência de movimentos convincentes e de

tramas narrativas com efetiva continuidade –, Disney passou a coordenar sua equipe com

vistas à superação desses obstáculos. Introduziria o uso da barra de pinos que, com folhas

presas na parte de baixo, permitia desenhos com movimentos mais fluidos e espontâneos; o

pencil test, baseado na projeção dos desenhos em seus esboços iniciais, para detecção de

erros nas sequências; além da contratação de assistentes para os animadores, de modo a

dinamizar melhor a produção (LUCENA JÚNIOR, 2005: 100-2). Neal Gabler, biógrafo de

Walt Disney, enfatiza que no final dos anos 1920, Disney reinventa a animação, criando

uma forma de arte mais voltada ao personagem, à narrativa e à emoção (GABLER, 2009:

8). 

Em  Steamboat Willie  (curta metragem de 1928), há a estreia de Mickey Mouse,



figura que se tornaria símbolo do estúdio e inauguraria uma ampla gama de personagens

criados por Walt Disney. Esse desenho destacou-se pela sua sofisticação gráfica e o bom

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Técnica de animação, na qual um modelo vivo é utilizado como referência e cada frame (quadro) filmado



serve para desenhar o movimento do que será animado. 

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Os irmãos Fleischer, combinando as diferentes técnicas até então conhecidas, levariam fama pela criação 



de personagens como Koko, Betty Boop e Popeye. 


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uso que fez do som sincronizado no cinema. Já a série Silly Symphonies cumpriu relevante

papel enquanto laboratório para as experimentações de Disney, na confecção de desenhos

elaborados com base em estudos de anatomia, psicologia da cor, análise de movimento e

princípios de representação. Em 1932, há o lançamento de  Flowers and Trees  o qual,

provido pelo sistema de três cores da Technicolor

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, seria o primeiro na história da animação



a ganhar um prêmio Oscar. 

Disney   também   viria   a   introduzir   o   uso   de   outras   inovações   técnicas,   como   o

storyboard e a câmara de múltiplos planos, que propiciariam a execução daquilo que ficaria

conhecido como os princípios da animação (LUCENA JÚNIOR, 2005: 115)

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, consistentes



na sistematização de uma série de metas a serem valorizadas na confecção de animações. A

partir desses princípios, a animação passava a dispor de um conjunto de regras básicas,

uma linguagem com sua sintaxe própria e, para Disney, eram fundamentais para atingir o

que ele chamava de ilusão da vida. Aqui, cabe compreender o que Walt Disney entendia

por criar uma ilusão da vida: significava ter o domínio do movimento real, mas não sob a

forma de uma cópia fechada do natural, e sim como base para a encenação, a caricatura e o

exagero (LUCENA JÚNIOR, 2005: 105-6). Neal Gabler (2009: 13), associa, por sua vez, a

ilusão de vida almejada por Disney como algo ligado intimamente à promessa – dirigida a

seus espectadores e posteriormente visitantes de seus parques – de uma fantasia na qual

poderia exercer-se os privilégios da infância. Nesse sentido, explicar-se-ia a preferência do

artista pela animação, mídia na qual seria possível criar tão amplamente, a ponto de trazer

o inanimado à vida (dar-lhe uma ilusão de vida), que o trabalho do animador compara-se

ao de um deus. 

Em Branca de Neve e os Sete Anões (1937), vê-se a execução prática de todos estes

elementos introduzidos e/ou desenvolvidos por Walt Disney no que diz respeito às técnicas

a concepções artísticas no bojo da animação. Considerado o primeiro longa-metragem de

animação, o filme apresentaria uma narrativa bem ritmada e capaz de entreter o público

por 83 minutos, contando com personagens bem caracterizados e músicas cativantes. Além

disso, como ressalta Lucena Júnior (2005: 118-9), o cuidado com a trama, a cor, a luz, os

personagens e o movimento levam o público a se encantar de tal forma pelo filme que a

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Esse sistema estaria pronto para a utilização em filmes de ação ao vivo apenas em 1935.



5

Seriam eles: comprimir e esticar, antecipação, encenação, animação direta e posição-chave, continuidade 

e sobreposição da ação, aceleração e desaceleração, movimento em arco, ação secundária, temporização, 

exageração, desenho volumétrico, apelo. 




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tecnologia por detrás dele passa despercebida. “Vale a emoção, o significado, a experiência

da fantasia” (LUCENA JÚNIOR, 2005: 119). Isto é, os métodos de fabricação e montagem

da animação tornam-se invisíveis ao espectador, o qual, absorto numa narrativa que parece

desenrolar-se por si própria, pôde começar a desfrutar do cinema de animação da mesma

maneira   da   que   do   cinema   live-action   –   identificando-se   com   os   personagens   e   suas

emoções complexas e sendo guiado por movimentos e cenários coerentes. A convergência

entre o cinema de Walt Disney caracterizado por Lucena Júnior e as considerações de

Ismail   Xavier   (2012:   41-5)   sobre   a   montagem   transparente   no   cinema   clássico

Hollywoodiano   parece-nos   latente,   dadas   as   formas   com   que   Disney   construiu   suas

narrativas.

Branca   de   Neve   não   só   inauguraria   uma   ampla   série   de   filmes   ancorados   em

histórias sobre princesas e suas trajetórias, como tornar-se-ia referência para as animações

seguintes.






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