Kelleny brasil rodrigues


 As mulheres no cinema e nos Estúdios Walt Disney



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2.3. As mulheres no cinema e nos Estúdios Walt Disney

Desde   os   princípios   da   difusão   do   cinema   foram   inúmeros   os   autores   que   se

debruçaram a realizar estudos acerca desse novo meio de comunicação, seja estudando seu

caráter artístico, técnico, suas relações com diferentes contextos históricos, entre outros.

Diferentes ênfases foram dadas a esses estudos, entretanto, uma abordagem mais recente e

ainda insuficientemente trabalhada é aquela sobre como a história de gênero e as diferentes




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formas   de  ser   mulher   e   homem  (ou   ainda   trans   e   queer),   encontram-se  presentes  nos

discursos que o cinema “constrói e reproduz, dissemina e ajuda a arraigar, de formas

próprias e poderosas, na vida social e mental”  (ADELMAN, 2011: 7). 

Uma autora com estudos que se mostraram bastante frutíferos em nossas análises de

Cinderela  e  A Bela Adormecida  foi Laura Mulvey. Pioneira nas investigações sobre as

representações das mulheres no cinema, ainda nos anos de 1970, Mulvey em Prazer Visual



e cinema narrativo, parte do questionamento acerca do modo pelo qual o cinema reflete,

revela e até mesmo joga com a interpretação direta, socialmente estabelecida, da diferença

sexual que controla imagens e formas eróticas de olhar. A autora esclarece que a teoria

psicanalítica   é   apropriada   em   seu   trabalho   como   um   instrumento   político   capaz   de

demonstrar o modo pelo qual o inconsciente da sociedade patriarcal estruturou a forma do

cinema (MULVEY, 2008: 437). Ultrapassando o simples realce da qualidade de ser olhada,

oferecida pela mulher, o cinema constrói o modo pelo qual ela deve ser olhada, dentro do

próprio espetáculo. Jogando com a tensão existente entre o filme enquanto controle da

dimensão do tempo e do espaço, os códigos cinematográficos criam um olhar, um mundo e

um objeto, de tal forma a produzir uma ilusão talhada à medida do desejo. São estes

códigos cinematográficos e sua relação com as estruturas formativas externas que, para a

autora, devem ser destruídos no cinema dominante. 

Segundo Laura Mulvey, a ilusão dada pelo cinema clássico ao espectador – de um

rápido   espionar   num   mundo   privado   –,   também   acaba   por   jogar   com   as   fantasias

vouyeristas dos observadores.

A mulher, desta forma, existe na cultura patriarcal como o significante do

outro masculino, presa por uma ordem simbólica na qual o homem pode

exprimir   suas   fantasias   e   obsessões   através   do   comando   linguístico,

impondo-as sobre a imagem silenciosa da mulher, ainda presa a seu lugar

como   portadora   de   significado   e   não   produtora   de   significado.

(MULVEY, 2008: 438)

Essa forma de fazer cinema, advinda de uma cultura patriarcal, utiliza-se de um

processo   de   espetacularização   da   mulher,   pelo   qual   o   homem   fica   responsável   pelo

desenrolar   da  narrativa,  articulando   o  olhar   e  executando  as  ações  que   deflagrarão  os

acontecimentos   importantes,   enquanto   a   mulher   torna-se   figura   passiva,   disponível

essencialmente como objeto para ser olhado. Em  Cinderela  e em  A Bela Adormecida, é

possível perceber que as jovens mulheres que intitulam os filmes e supostamente deveriam



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ser as protagonistas de suas histórias, acabam por realizar poucas ações importantes nas

narrativas,   precisando   da   intercessão   de   outros   personagens,   mágicos   ou   não,   para   a

definição de seus desfechos nas narrativas.

É possível traçar um paralelo entre as três fadas de  A Bela Adormecida  com os

pequenos animais amigos de Cinderela e sua fada madrinha: todos esses personagens são

responsáveis por atribuir tom humorístico às narrativas, com suas atitudes desajeitadas.

Cremos que tal inserção de personagens foi pensada para deixar a animação mais dinâmica

e infantilizada, direcionando a história, dessa forma, ao público infantil – diferentemente

de Perrault, que redigiu suas narrativas visando aos adultos, respeitando o que era da

tradição   oral.   Entretanto,   além   de   direcionar   os   filmes   às   crianças,   estes   personagens

acabam por realizar as ações primordiais para os desfechos vitoriosos de Cinderela e de

Bela   Adormecida.   Ora,   sem   sua   fada   madrinha,   Cinderela   não   teria   roupas   e   nem

carruagem para ir ao baile e conhecer o príncipe; sem que os ratinhos roubassem a chave

da madrasta para o cativeiro de Cinderela, a garota não teria tido como provar que era a

dona do sapato  de cristal  levado  pelo grão-duque. Já Bela  Adormecida não teria  sido

acordada de seu sono de cem anos se não fosse pela ajuda das três fadas libertando e

concedendo armamento ao príncipe, o qual pôde dar seu beijo de amor na garota. 

É interessante notar as ocupações que são relegadas às personagens mulheres e aos

homens no decorrer dos filmes estudados. Cinderela e Bela Adormecida passam grande

parte   das   narrativas   executando   tarefas   domésticas   ou   sonhando   com   seus   recém-

conhecidos príncipes. É possível observar os diferentes papéis sociais atribuídos aos pais

dos príncipes e princesas das histórias. Em Cinderela, o rei dialoga apenas com o grão-

duque; com o qual comemora a disposição do príncipe em se casar, fumando charutos. A

maior preocupação do rei ao longo da narrativa é arranjar um casamento para seu filho e

ganhar netos – talvez esse desejo de que o filho forme família esteja relacionado à sua

própria viuvez. Já o pai de Bela Adormecida comemora o futuro da filha bebendo junto ao

pai   do   príncipe   –   apesar   de  Aurora   possuir   mãe,   esta   não   participa   do   momento   de

confraternização e, inclusive, não possui nome nem falas durante o filme, em detrimento

de   seu   marido.  A  divisão   de   papéis   também   é   observada   entre   os   ratos   amigos   de

Cinderela: na cena em que os animais reformam o vestido da menina, um dos ratos diz:

“Eu   posso   fazer   as   costuras”,   ao   que   uma   rata   responde   “Deixe   a   costura   para   as

mulheres”. Essa divisão sexual de papéis sociais inserida nas narrativas, converge com os



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ideais estadunidenses do contexto de produção dos filmes: reforçam a domesticidade das

mulheres, o apelo ao casamento e à constituição de família. 

Uma divergência importante que identificamos entre os filmes de  Cinderela  e  A






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