Juros, moeda e ortodoxia



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Juros, moeda e ortodoxia - Andre Lara Resende
Juros, moeda e ortodoxia - Andre Lara Resende




Todo amordaçamento de um debate é uma suposição de
infalibilidade.
Não só os fundamentos da opinião são esquecidos na
ausência do debate, mas muito frequentemente o próprio
significado da opinião. […] Em vez de uma vívida concepção
e uma crença viva, se tornam apenas umas poucas frases,
guardadas por repetição; ou, se tanto, só a concha e a casca
do significado são mantidas, e sua fina essência, perdida.
J ohn Stuart Mill, Sobre a liberdade


SUMÁRIO
Introdução
1. Linhas mestras: Gudin e Simonsen
2. A teoria monetária: Reflexões sobre um percurso inconclusivo
3. A caminho da economia desmonetizada
4. Juros e conservadorismo intelectual
5. Teoria, prática e bom senso
6. Dominância fiscal e neofisherianismo
 
Conclusão: Formalismo e ortodoxia
Agradecimentos
Notas
Referências bibliográficas


INTRODUÇÃO
ESTE NÃO É BEM 
o livro que eu pretendia escrever. Meu objetivo, nos dois anos em que estive
na  Universidade  Columbia,  em  Nova  York,  era  fazer  uma  revisão  crítica  das  ideias  que
pautaram a política monetária e o combate à inflação no Brasil. O ponto de partida seria a
controvérsia  entre  Roberto  Simonsen  e  Eugênio  Gudin,  no  crepúsculo  do  Estado  Novo  de
Getúlio  Vargas,  até  chegar  ao  Plano  Real.  O  fio  condutor  seria  a  tese  de  que  a  teoria
monetária  predominante,  aquela  que  é  ensinada  nas  grandes  escolas  de  economia,  foi
sempre  incapaz  de  compreender  o  fenômeno  da  inflação  crônica.  A  tese  não  é  nova.  Esse
sempre foi o argumento dos teóricos das chamadas inflação estrutural, inflação de custos,
ou  inflação  inercial,  as  diferentes  denominações  dadas  ao  longo  de  várias  décadas  para  os
processos inflacionários crônicos, em que a inflação se mantém acima de dois dígitos ao ano
de  maneira  prolongada,  sem  regredir  aos  níveis  considerados  aceitáveis.  Nova  seria  a  tese
de  que  as  tentativas  de  estabilizar  a  inflação  crônica  com  base  na  ortodoxia  monetária
tiveram  custos  ainda  mais  altos  do  que  os  conhecidos.  Além  de  recessão  e  desemprego,
terminaram por provocar uma desconfiança atávica em relação ao liberalismo tecnocrático
daqueles  que  tentaram,  sem  sucesso,  estabilizar  a  inflação.  Os  custos  políticos  de  longo
prazo podem ter sido ainda mais altos do que os econômicos e sociais.
Foi uma nova controvérsia — suscitada a partir da publicação de um artigo meu no jornal
Valor  Econômico,  em  janeiro  de  2017,  acerca  de  pontos  que  estão  sendo  discutidos  na
fronteira da academia americana e sua relação com a questão das taxas de juros no Brasil —
o que me levou a rever a proposta original para o livro. Ao contrário do que eu imaginava, o
apelo da ortodoxia monetária continua tão forte como sempre foi. Dada a evolução da teoria
monetária,  trata-se  agora  de  uma  nova  ortodoxia  baseada  na  combinação  de  metas  para  a
inflação  com  uma  regra  para  a  taxa  de  juros.  Achei  que  valeria  a  pena  reunir  em  livro  os
ensaios sobre a velha ortodoxia e os artigos relativos à polêmica dos juros, que questionam
a nova ortodoxia.
O ensaio que abre o volume, “Linhas mestras”, reexamina  as  teses  de  Simonsen  e  Gudin,
formuladas  nos  momentos  derradeiros  do  Estado  Novo.  A  Controvérsia  do  Planejamento,
nome  pelo  qual  ficou  conhecida  a  polêmica,  transcende  a  questão  específica  do
planejamento  e  também  seu  contexto  histórico.  Relida  hoje,  não  só  é  de  surpreendente
atualidade, como parece ter pautado todo o debate sobre a política econômica no Brasil. Os
diagnósticos,  os  desafios  e  as  duas  grandes  visões  de  mundo  que  dominaram  o  debate
político e econômico no país, desde o início da segunda metade do século 
XX
, têm ali suas
raízes clara e inequivocamente estabelecidas. É efetivamente o ponto do qual se deve partir
para compreender as duas grandes linhas de pensamento que desde então competem pela
formulação das políticas públicas.


Para  melhor  organizar  minhas  ideias  sobre  a  ortodoxia  monetária  que  inspirou  a
tecnocracia liberal ilustrada brasileira, da qual Gudin é o primeiro expoente, fui obrigado a
refazer o caminho por ela percorrido, desde o início da segunda metade do século 
XX
 até os
dias  de  hoje.  Atualmente,  nada  mais  na  teoria  monetária  dominante  lembra  aquela  que
inspirou  Gudin  e  seus  discípulos.  Houve  uma  extraordinária  reviravolta.  Este  processo
começou  na  segunda  metade  dos  anos  1980  e  se  consolidou  definitivamente  no  início  do
século 
XXI
.
O  segundo  ensaio  aqui  publicado,  “A  teoria  monetária:  Reflexões  sobre  um  percurso
inconclusivo”,  revê  a  trajetória  da  teoria  monetária  desde  o  domínio  absoluto  da  Teoria
Quantitativa  da  Moeda  durante  grande  parte  do  século 
XX
  até  ela  começar  a  ser
silenciosamente  deixada  de  lado  em  meados  da  década  de  1980.  A  partir  de  então,  a
macroeconomia  foi  para  o  extremo  oposto,  abandonou  o  monetarismo  quantitativista  sem
que nenhuma teoria monetária alternativa ocupasse seu lugar. A moeda, assim como toda e
qualquer  questão  monetária,  foi  simplesmente  banida  dos  modelos  macroeconômicos
chamados de modelos do Real Business Cycle (
RBC
). A hipótese clássica de que a moeda não
afeta a economia real no longo prazo foi levada ao paroxismo. Passou-se a considerar como
líquido e certo que as questões monetárias também não afetavam a economia real no curto
prazo.  Eram  simplesmente  irrelevantes  e  poderiam  ser  desconsideradas.  A  tese  é  tão
absurda,  tão  evidentemente  contrária  à  realidade  dos  fatos,  que  os  modelos  do 
RBS
  foram
aos  poucos  substituídos  pelos  modelos  conhecidos  como  dinâmicos  estocásticos  de
equilíbrio geral (
DSGE, 
sigla  de  Dynamic  Stochastic  General  Equilibrium).  Nesses  modelos,
conhecidos como neokeynesianos, mas inspirados sobretudo na revisão da macroeconomia
feita  pelo  livro  de  Michael  Woodford,  Interest  &  Prices:  Foundations  of  a  Theory  of

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