José alves dias



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1 INTRODUÇÃO 
             
No final de 2014, o deputado Jair Bolsonaro do Partido Social Cristão / Rio de 
Janeiro (PSC/RJ), no plenário da Câmara dos Deputados, repetiu as ofensas que já havia 
feito à deputada Maria do Rosário  do Partidos dos Trabalhadores / Rio Grande do Sul 
(PT/RS)  em  2003,  durante  uma  entrevista  desta  (RÊGO,  2014  e  REVISTAISTOE, 
2014). Novamente, o deputado afirmou  que não  a estupraria porque ela não mereceria 
(PINTO  e  LUCCIOLA,  2014).  No  ano  de  2015,  os  representantes  das  forças 
conservadoras
1
  avançaram  seus  projetos  na  Câmara  dos  Deputados.  Poucos  meses 
depois  da  fala  de  Jair  Bolsonaro,  o  deputado  Alberto  Fraga  do  Partido  Democratas  / 
Distrito Federal (DEM/DF), logo após a deputada Jandira Feghali do Partido Comunista 
do Brasil / Rio de Janeiro (PCdoB/RJ) ter acusado o deputado Roberto Freire do Partido 
Trabalhista Brasileiro / Rio de Janeiro (PTB/RJ) de tê-la empurrado (PASSARINHO e 
ALEGRETTI,  2015),  afirmou  que  “mulher  que  participa  da  política  e  bate  como 
homem, tem que apanhar como homem também”.  
Nesta mesma casa, a Comissão Especial para o Estatuto  da Família
2
  aprovou o 
texto  principal  do  projeto,  proposto  pelo  deputado  Anderson  Ferreira  do  Partido  da 
República / Pernambuco (PR/PE), que define família apenas como a união entre homem 
e mulher (ALEGRETTI e OLIVEIRA, 2015), e a Comissão de Constituição e Justiça e 
de Cidadania aprovou o Projeto de Lei (PL) 5069/13 (CAMARA DOS DEPUTADOS, 
2013a),  de  autoria  do  então  presidente  da  Câmara, Eduardo  Cunha  do  Partido  do 
Movimento  Democrático  Brasileiro  /  Rio  de  Janeiro  (PMDB/RJ),  que  dificulta  o 
atendimento  a  mulheres  vítimas  de  agressão  sexual,  inclusive  vetando  que  esta  receba 
informações sobre seu direito ao aborto legal (ROSSI, 2015). E estes não são os únicos 
projetos  conservadores,  antidemocráticos  e  contrários  aos  direitos  humanos  em 
tramitação na Câmara. A Educação também é alvo de projetos deste tipo.   
Uma  série  de  projetos  de  lei  conhecida  genericamente  por  Escola  Sem  Partido 
ou “Lei da Mordaça” foram propostas não só no Congresso Nacional, mas também em 
inúmeros estados e municípios bem como no próprio Distrito Federal. Entendemos, tal 
                                            
1
 Abordaremos a definição de conservadorismo adotada por nós mais à frente. 
2
  O Estatuto da família é particularmente importante pois garantiria os direitos legais dentro das relações 
familiares bem como as políticas públicas de defesa da família e de seus membros. Disponível em: 
77820042E534.proposicoesWebExterno2?codteor=1159761&filename=PL+6583/2013> 


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como  Cunha,  que  existe  um  projeto  reacionário  de  educação
 
que  tem  como  seus 
principais  defensores,  parlamentares  ligados  aos  segmentos  mais  conservadores  das 
religiões cristãs tais como católicos, principalmente da Renovação Carismática Católica, 
evangélicos  de  diferentes  denominações  e  mesmo  alguns  representantes  espíritas. 
Segundo  o  autor,  este  projeto  se  dá  em  duas  frentes.  A  primeira  frente  seria  os 
movimentos  sociais  e  parlamentares  de  contenção  e  a  segunda  seria  os  projetos 
parlamentares  e  governamentais  de  imposição.  Enquanto  esta  seria  marcada  pela 
presença  dos  projetos  para  (re)inclusão  da  Educação  Moral  e  Cívica  e  do  Ensino 
Religioso nos currículos, a primeira caracterizaria-se pelos projetos de lei do Programa 
Escola Sem Partido e congêneres, incluindo muitos projetos que tratam especificamente 
da  questão  das  relações  de  gênero,  chamadas  por  estes  grupos  conservadores  de 
“ideologia de gênero”. 
Esta  pesquisa  pretende,  então,  investigar  o  que  é  o  Escola  Sem  Partido,  sua 
relação com a sociedade, suas bases ideológicas e as consequências dos projetos de lei 
Programa  Escola  Sem  Partido  e  congêneres  para  o  Ensino  de  História,  principalmente 
no que tange à questão do respeito às diferenças, à formação de identidades e à história 
das relações de gênero.  
Estruturamos  o  trabalho  da  seguinte  maneira:  no  primeiro  capítulo, 
examinaremos como surgiu o Movimento Escola Sem Partido, criado por Miguel Nagib 
em 2004, e os três momentos de crescimento do movimento: a polêmica quanto ao livro 
Nova  História  Crítica,  o  momento  de  combate  aos  materiais  do  programa  Escola  Sem 
Homofobia do governo federal (chamado pelos conservadores de Kit-gay) e, por último, 
a crise política do governo do Partido dos Trabalhadores. Analisaremos brevemente os 
sites  do  movimento,  entendendo  que  o  método  histórico  demanda  a  crítica  interna  e 
externa ao documento, ou seja, considerar o lugar de produção do discurso. 
Enfocaremos,  então,  os  projetos  de  lei  Escola  Sem  Partido  e  os  projetos  a  eles 
relacionados  em  tramitação  no  Congresso  Nacional  (Câmara  dos  Deputados  e  Senado 
Federal).  Pelo  mesmo  motivo  de  necessidade  de  crítica  externa  ao  documento, 
traçaremos  brevemente  o  perfil  dos  proponentes  destes  projetos  de  lei  e  suas  relações 
com a Frente Parlamentar Evangélica e a Católica. Pretendemos demonstrar, ainda, que 
o  Escola  Sem  Partido  é um  projeto  político  conservador  já  característico  da  sociedade 
brasileira.  


15 
 
 
 
Faz-se,  então,  necessário  explicitar  o  referencial  do  que  entendemos  como 
conservadorismo  para  embasar  nosso  percurso  analítico.  Segundo  BOTELHO  e 
FERREIRA, citando Karl Mannheim (1982), o conservadorismo 
[...]  não  deve  ser  confundido  com  tradicionalismo.  Esse  último  se  apresenta 
como uma característica psicológica universal, comum a todos os homens em 
todas as épocas, de apego quase instintivo a modos de vida antigos, em geral 
como reação defensiva a tendências reformistas. O conservadorismo, por sua 
vez,  é  uma  estrutura  mental  objetiva,  dinâmica  e  condicionada 
historicamente. Estrutura objetiva, pois se trata de um modo de pensar e agir 
que de alguma forma transcende a subjetividade individual, por ser função do 
desenvolvimento  da  sociedade.  Diferentemente  do  tradicionalismo,  quase 
exclusivamente  reativo,  o  conservadorismo  moderno  é  coerente  e  reflexivo, 
pois  surge  como  movimento  consciente  de  oposição  ao  movimento 
“progressista”,  ou  ao  pensamento  liberal-burguês.  Por  isso,  diz  Mannheim, 
em  última  instância  o  conservadorismo  é  o  tradicionalismo  tornado 
consciente. (BOTELHO e FERREIRA, 2010, p. 11) 
Ainda de acordo com os autores, o pensamento conservador  
[...]  surge  e  se  desenvolve  no  contexto  da  moderna  sociedade  de  classes, 
marcado  por  seu  dinamismo,  por  suas  múltiplas  e  sucessivas  transições; 
como  função  dessa  sociedade,  não  é  um  sistema  fechado  e  pronto,  mas  sim 
um modo de pensar em contínuo processo de desenvolvimento. (Idem)
 
Entretanto, é possível  
[...]  encontrar  alguns  traços  teórico-metodológicos  estruturantes  do 
pensamento  conservador,  derivados  do  problema  central  que  está  em  sua 
origem,  na  Europa  do  século  XVIII:  a  oposição  ao  pensamento  baseado  no 
direito natural. (BOTELHO e FERREIRA, 2010, p. 11) 
Os  conservadores,  segundo  Mannheim,  não  concordariam  com  conceitos  como 
os  de  “contrato  social,  de  direitos  universais  do  homem,  de  soberania  popular”.  
(BOTELHO  e  FERREIRA,  2010,  p.  11-12).  Os  autores  destacam  a  importância  do 
pensamento  conservador
3
  como  um  “componente  da  nossa  tradição  intelectual,  mas 
também  pelo  seu  papel  como  força  político-social  na  sociedade  brasileira”.  E  que  é 
preciso compreendê-lo para entender  
[...]  como  se  constituiu  no  Brasil  uma  cultura  política  que  menospreza  a 
monumental desigualdade que marca a nossa sociedade. E, sobretudo, porque 
avessa à democracia, não acredita na ação coletiva e favorece que o homem 
comum  não  leve  a  sério  os  seus  iguais.  (BOTELHO  e  FERREIRA,  2010, 
p.14) 
                                            
3
  A  avaliação  do  passado  colonial  parece  ser  uma  questão  chave,  e  espinhosa,  que  o  pensamento 
conservador  brasileiro  deve  enfrentar.  Como  valorizar  formas  passadas  de  organização  social  e  política 
em países como o nosso, que só existem enquanto tais justamente a partir do rompimento com o passado, 
por meio da emancipação política? Por outro lado, diferentemente de outros países da América Ibérica, no 
Brasil houve relativa continuidade em relação à situação colonial no pós-independência, tanto em termos 
políticos, com a permanência da monarquia encabeçada pelos Bragança, quanto socioeconômicos, com a 
persistência da escravidão, do latifúndio, da agricultura de exportação. (BOTELHO e FERREIRA, 2010, 
p.13) 
 


16 
 
 
 
De acordo com  BOTELHO e  FERREIRA,  é comum entre os  conservadores  “a 
importância dada à religião; a valorização das associações intermediárias situadas entre 
o Estado e os indivíduos (família, aldeia tradicional, corporação) e a correlata crítica à 
centralização estatal e ao individualismo moderno”, bem como “o apreço às hierarquias 
e a aversão ao igualitarismo em suas várias manifestações; o espectro da desorganização 
social  visto  como  consequência  das  mudanças  vividas  pela  sociedade  ocidental” 
(BOTELHO  e  FERREIRA,  2010,  p.12).  Ao  analisarmos  o  discurso  do  Movimento 
Escola Sem Partido (MESP), seus projetos de lei e leis congêneres, bem como a atuação 
dos parlamentares, podemos verificar seu alinhamento a esses ideais.   
Neste primeiro capítulo, abordaremos também como a discussão de gênero vem 
sendo  retirada  da  legislação  educacional  brasileira.  Faremos  um  breve  histórico  da 
aprovação  do  último  Plano  Nacional  de  Educação,  na  Câmara  dos  Deputados,  apenas 
após  a  retirada  de  todas  as  menções  a  gênero  no  documento,  bem  como  os  principais 
debates  que  se  seguiram  a  fim  de  evitar  a  presença  do  termo  nos  planos  municipais  e 
estaduais.  Por  fim,  identificaremos  os  projetos  em  âmbito  municipal  e  estadual  que 
abordam a questão de gênero bem como o caso específico do estado de Alagoas, onde a 
lei  “Escola  Livre”,  baseado  no  Escola  sem  Partido,  foi  aprovada  pela  assembleia 
estadual, 
tendo 
posteriormente 
recebido 
parecer 
federal 
declarando 
sua 
inconstitucionalidade. 
O segundo capítulo enfocará a relação entre Estado e Religião na elaboração de 
políticas  públicas  para  educação  no  Brasil.  Pretendemos,  com  este  capítulo,  mostrar 
como  a  política  brasileira  para  educação  sofre  e  sempre  sofreu  influência  direta  das 
religiões.  Primeiro,  da  Igreja  Católica  e,  depois,  das  religiões  “evangélicas”.  Faremos 
um breve histórico desde a formação do Estado brasileiro independente em 1822 até a 
concordata  Brasil-Vaticano,  assinada  em  2007,  sublinhando  a  atuação  conjunta  de 
católicos  e  evangélicos  através  da  Frente  Parlamentar  Evangélica  na  questão 
educacional.  A  questão  da  laicidade  na  educação  será  discutida,  bem  como  algumas 
hipóteses sobre o porquê de a intromissão da religião no campo educacional ser aceita e 
mesmo naturalizada, tendo como estudos de caso o ensino religioso nos estados do Rio 
de Janeiro e São Paulo.  
Faz-se  necessário  identificar  o  que  entendemos  por  “evangélico”.  Conceição 
destaca que “há pouco consenso e muita imprecisão entre os pesquisadores brasileiros 
acerca do termo evangélico” (CONCEIÇÃO, 2015, p. 52).  O autor optou,  então, pelo 


17 
 
 
 
caminho seguido pela maioria dos sociólogos da religião no Brasil, que é o de entender 
que,  
[...]  no  contexto  latino-americano,  o  termo  evangélico  cobre  o  campo 
religioso formado pelas denominações cristãs nascidas ou que descendem, de 
alguma maneira, da Reforma Protestante européia do século XVI. Portanto, o 
termo  designa  tanto  as  igrejas  ditas  protestantes  históricas  (Luterana, 
Presbiteriana, Congregacional, Anglicana, Metodista e Batista), mas também 
designa  as  igrejas  justificadamente  chamadas  de  pentecostais  (Congregação 
Cristã  do  Brasil,  Assembleia  de  Deus,  Igreja  do  Evangelho  Quadrangular, 
Igreja  Brasil  Para  Cristo,  Igreja  Deus  é  Amor,  Casa  da  Benção,  Igreja 
Universal  do  Reino  de  Deus  e  outras)  (MARIANO,  2012).  Pode  parecer 
estranho,  mas  o  termo  evangélico  é  facilmente  utilizado  no  Brasil  para 
designar tanto os grupos religiosos legitimados como protestantes, herdeiros 
mais  diretos  do  trono  da  Reforma  Protestante,  mas  também  aqueles  que 
levam  toda  sorte  de  “confusão”  e  “complicação”  ao  campo  religioso 
brasileiro.  Essa  é  a  imagem  projetada  sobre  os  grupos  pentecostais.  [...] 
Temos  um  grande  guarda-chuva  que  abriga  tanto  os  protestantes  de  sangue 
real quanto os protestantes de sangue plebeu. O termo evangélico, em linhas 
gerais, designa cristianismo não católico no Brasil.  (CONCEIÇÃO, 2015, p. 
52 e 53) 
As  informações  sobre  a  origem  do  pentecostalismo
4
  dentro  do  movimento 
protestante  são  variadas.  Parece  haver  concordância  sobre  a  data,  1901,  e  que  teria 
surgido nos Estados Unidos. A localização exata dentro desse país é problemática e há a 
defesa  de  que  teria  surgido  em  vários  locais  simultaneamente,  o  que  seria  mais  uma 
evidência  de  uma  intervenção  divina  no  seu  aparecimento.  Uma  das  versões  mais 
aceitas, porém, localiza o surgimento no colégio bíblico Bethel, fundado por um pastor 
metodista  dissidente,  no  sul  dos  Estados  Unidos.  A  interpretação  religiosa  ali  surgida 
destacava  o  poder  de  cura  do  Espírito  Santo  e  a  capacidade  de  falar  em  línguas. 
Destacamos esta versão para o surgimento do pentecostalismo evangélico por ser muito 
similar  à  história  contada  como  sendo  da  fundação  do  pentecostalismo  católico,  como 
veremos quando falarmos do movimento de renovação carismática. Assim, 
[...] nascido nos Estados Unidos no começo deste século, o pentecostalismo, 
herdeiro  e  descendente  do  metodismo  wesleyano  e  do  movimento  holiness
distingue-se do protestantismo, grosso modo, por pregar, baseado em Atos 2, 
a  contemporaneidade  dos  dons  do  Espírito  Santo,  dos  quais  sobressaem  os 
dons  de  línguas  (glossolalia),  cura  e  discernimento  de  espíritos.  Para 
simplificar,  os  pentecostais,  diferentemente  dos  protestantes  históricos, 
acreditam que Deus, por intermédio do Espírito Santo e em nome de Cristo, 
continua a agir hoje da mesma forma que no cristianismo primitivo, curando 
enfermos,  expulsando  demônios,  distribuindo  bênçãos  e  dons  espirituais, 
realizando  milagres,  dialogando  com  seus  servos,  concedendo  infinitas 
amostras  concretas  de  Seu  supremo  poder  e  inigualável  bondade. 
(MARIANO, 2014, p. 9-10) 
                                            
4 A caracterização de pentecostal atribuído a esses movimentos se dá em referência a Pentecostes bíblica. 
Segundo Silveira, “pentecostes é, segundo a Bíblia, o quinquagésimo dia depois da ressurreição de Jesus 
Cristo, quando os apóstolos foram tomados pelo Espírito Santo e receberam os carismas ou dons de curar, 
falar em outras línguas e perder o medo de pregar”. (GRIGOLETTO, 2003, p. 28) 


18 
 
 
 
Levando  sempre  em  conta  a  definição  de  conservadorismo  já  explicitada, 
dialogamos  com  alguns  autores  do  campo  das  ciências  da  religião,  a  fim  de  tentar 
esclarecer  a  aproximação  entre  católicos  e  evangélicos  para  a  aprovação  das  pautas 
conservadoras,  dentre  elas  o  projeto  Escola  Sem  Partido.  Abordaremos  a  “Guerra 
Cultural  Católica”
5
,  procurando  mostrar  como  ela  engloba  elementos  católicos  e 
elementos  conservadores.  Como  veremos  no  segundo  capítulo,  a  Guerra  Cultural 
Católica caracteriza-se por uma tentativa de barrar o que Cunha (2016?) identifica como 
o  processo  de  laicização  do  Estado  e  secularização  da  sociedade.  Um  dos  principais 
fronts  desta  guerra  é  a  luta  dos  grupos  conservadores  contra  a  chamada  “ideologia  de 
gênero”. Segundo Miguel,  
[...]  a  construção  da  doutrina  católica  contrária  ao  gênero  começou  no 
pontificado  do  papa  Wojtyla  (João Paulo  II),  sob  o  comando  do  prefeito  da 
Congregação  para  a  Doutrina  da  Fé,  cardeal  Ratzinger,  que  em  2005 
sucederia a Wojtyla no papado, adotando o nome de Bento XVI. A partir dos 
anos 2000, delineia-se com clareza o adversário a ser combatido: aquilo que 
no Brasil recebeu o nome de “ideologia de gênero”, mas que na França e na 
Itália  costuma  ser  chamada  de  “teoria  do  gender”  (“théorie  du  gender”, 
teoria del gender”), com o uso do inglês como forma de marcar sua origem 
alienígena.  Embora  se  apoiando  superficialmente  na  literatura  feminista  e 
queer, “trata-se de uma invenção polêmica dos meios conservadores católicos 
que visa caricaturizar e, assim, deslegitimar um campo de estudos”. Também 
na  França,  a  ofensiva  (predominantemente  católica)  levou  a  recuos  e,  em 
alguma  medida,  a  um  veto  informal  à  palavra  “gênero”  (genre)  em 
documentos oficiais (DELAPORTE, 2014 Apud MIGUEL, 2016, p.599) 
Porém, esta discussão não se restringe à Europa. Na América Latina, ela também 
se  faz  presente.  Gostaríamos  de  citar  o  caso  específico  da  Colômbia  devido  às  suas 
várias  similaridades  com  o  que  vem  acontecendo  no  Brasil.  Em  agosto  de  2016, 
circularam nas redes sociais imagens de uma suposta cartilha do ministério da educação 
colombiano  que  poderíamos  comparar  com  o  kit  de  combate  à  homofobia  elaborado 
pelo  ministério  da  educação  brasileiro.  Sem  embargo,  na  Colômbia  como  aqui,  as 
imagens que supostamente apareceram nas redes sociais não correspondiam ao material 
que  estava  de  fato  sendo  desenvolvido.  Mesmo  a  ministra  da  educação  colombiana, 
Gina  Parody,  tendo  desmentido  o  caso  e  denunciado  o  uso  político  do  fato  pelos 
opositores ao governo, a população foi às ruas protestar contra a ‘ideología de género’ e 
pedir a renúncia da ministra. (RONDÓN, 2016) 
 
Rondón destaca algumas questões importantes sobre o caso. Primeiro, relata que 
o  material  começou  a  ser  desenvolvido,  em  agosto  de  2014,  quando  um  jovem  de  17 
anos  se  suicidou  após  ter  sido  vítima  de  homofobia  pela  direção  da  escola  em  que 
                                            
5
  Silveira  (2015)  chama  de  Guerra  Cultural  Católica  a  reação  católica  ao  que  esta  religião  e  segmentos 
conservadores veem como uma Guerra Cultural das esquerdas ou Marxismo Cultural.
 


19 
 
 
 
estudava.  A  segunda  questão  é  que  o  ministério  estava  desenvolvendo  o  material  em 
convênio  com  três  agências  da  Organização  das  Nações  Unidas  (ONU).  Por  fim,  ele 
pontura que as manifestações contra o avanço das conquistas das mulheres e Lésbicas, 
Gays,  Bissexuais,  Transexuais,  Travestis  e  Transgêneros  (LGBT)  já  se  faziam  sentir 
antes  desse  episódio  por  conta  de  outros  processos  ou  eventos  tais  como:  a  corte 
colombiana permitiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adoção de crianças 
por  casais  homoafetivos;  duas  mulheres  lésbicas  foram  eleitas  nas  últimas  eleições  e 
duas  outras  mulheres  lésbicas  ocuparam  cargos  importantes  no  governo,  como  a  atual 
ministra  de  educação  e  a  ex-ministra  de  comércio;  algumas  universidades  passaram  a 
adotar    banheiros  sem  distinção  de  gêneros  e  alguns  colégios  também  reviram  suas 
políticas  de  gênero  para  uniformes.  Porém,  para  a  autora,  o  fato  mais  “grave”  foi  o 
reconhecimento,  por  parte  do  governo,  da  população  LGBT  e  das  mulheres  como 
vítimas  do  conflito  armado  com  as  Forças  Armadas  Revolucionários  da  Colômbia. 
Dessa forma, segundo Rondón, o acordo despertou a ira não apenas dos que se opõem a 
uma  saída  política  e  não  militar  do  conflito,  como  também  de  todos  que  se  opõem  ao 
reconhecimento de direitos para a população LGBT e para as mulheres. 
No  terceiro  capítulo,  trataremos,  então,  da  discussão  teórica  sobre  o  Ensino  de 
História  propriamente  dito.  Pretendemos  mostrar  como  a  História  enquanto  disciplina 
escolar  sempre  esteve  vinculada  a  um  projeto  político  que,  em  seus  primórdios, 
relacionava-se com a criação da sensação de pertencimento a uma nação e, após todas 
as  mudanças  sociais  ocorridas  no  século  XXI,  ganha  um  novo  objetivo  vinculado  à 
promoção dos direitos humanos e a vinculação do sujeito a identidades outras que não a 
nacional.  
Abordaremos,  então,  a  teoria  de  gênero  para  fazer  a  desconstrução  da  ideia 
conservadora  de  que  existe  uma  “ideologia  de  gênero”  para  destruir  a  família. 
Discutiremos  a  necessidade  de  inserir  o  debate  sobre  gênero  no  ensino  de  História, 
focando a questão da necessidade de representatividade para a formação de identidades 
com  vistas  à  igualdade  de  gênero  e  o  combate  à  homofobia  e  à  transfobia.  Por  fim, 
sinalizaremos  que  a  história  ensinada  na  escola  é  androcêntrica  e  heteronormativa, 
discutindo possibilidades de inserção da história das mulheres e das relações de gênero 
nos  currículos  atuais.  Pretendemos  mostrar  como  o  apagamento  de  identidades  não 
hegemônicas é um processo antidemocrático e nocivo a toda a sociedade. 
Considerando o caráter pioneiro deste trabalho acadêmico, nossas considerações 
finais vão também no sentido de apontar mais caminhos de pesquisa necessários para a 


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compreensão  do  movimento  Escola  Sem  Partido,  bem  como  apresentar  algumas 
iniciativas  já  existentes  contra  esse  cerceamento  da  liberdade  de  aprender  e  ensinar. 
Para  proceder  com  a  pesquisa  a  qual  nos  propomos,  foi  necessário  o  levantamento  de 
todos  os  projetos  de  lei  do  Programa  Escola  Sem  Partido  e  congêneres  existentes  no 
nível federal, municipal e estadual no Brasil. Com o mesmo intuito de contribuir para a 
realização  de  futuras  pesquisas,  recolhemos  e  disponibilizamos  todas  estas  leis  e  as 
tabelas que  elaboramos  para  esta dissertação  em um  site
6
 criado para este fim.  Assim, 
pretendemos  diminuir  a  distância  entre  a  professora  e  a  pesquisadora,  procedendo  na 
academia  da  mesma  maneira  que  procedemos  em  sala  de  aula,  na  qual  a  produção  de 
conhecimento e a sua divulgação estão intimamente relacionadas. 
                                            
6
 Disponível em: <
https://pesquisandooesp.wordpress.com/>
 

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