José alves dias



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choque  entre  grandes  religiones  [...],  sino  por  el  conflicto  entre  esa  emancipación 
radical  del  hombre  [eliminación  de  referencias  trascendentes]  y  las  grandes  culturas 
históricas” (RATZINGER, 2005 Apud SILVEIRA e MORAES JÚNIOR, 2015). O papa 
Francisco,  apesar  de  ser  apontado  como  mais  progressista,  mantém  basicamente  o 
mesmo discurso de seus antecessores com relação às questões sexuais. O Instrumentum 
                                                                                                                                
armas 
necessárias 
para 
uma 
campanha 
bem 
sucedida. 
Disponível 
em: 
 


91 
 
 
 
Laboris
101
  (Instrumento  de  Trabalho),  do  Sínodo  das  Famílias  convocado  pelo  Papa 
Francisco,  também  utiliza  o  termo  gender  studies  em  um  sentido  negativo  e  reafirma 
que  a  família  compõe-se  da  união  homem-mulher,  apresentando  a  adoção  de  crianças 
por casais homossexuais como um risco. 
 
Nos  Estados  Unidos,  estes  segmentos  conservadores  ligados  à  RCC  defendem 
que existiria um “choque de civilizações intraocidental” que dividiria os EUA em dois 
“partidos’: os “conservadores” que afirmam a visão cristã do mundo e são identificados 
com a tradição cultural e moral judaico-cristã e os “progressistas”, identificados com a 
vida  contemporânea  americana  e  com  movimentos  como  o  feminismo,  o 
multiculturalismo  e  a  causa  LGBT,  por  exemplo.  Estes,  segundo  os  conservadores, 
teriam  uma  visão  de  mundo  “relativista,  hedonista,  liberacionista,  pós-religiosa,  e  que 
alguns chamam de ‘esquerda pós-moderna’”. (SILVEIRA, 2015, p. 17) Seria, então um 
“choque de ortodoxias: a ortodoxia judaico-cristã e a ortodoxia secularista-laicista, em 
conflito  permanente”.  Silveira  destaca  que  ambos  os  grupos  estão  longe  de  serem 
homogêneos, entretanto se veem ou se apresentam como tal.  
Silveira  explica  que  “essas  estratégias  práticas  e  discursivas,  com  impacto 
político,  disseminaram-se  pelo  mundo  católico  ocidental”  incluindo  a  Europa  e  as 
Américas,  “capitaneadas  por  líderes  eclesiásticos,  bispos,  padres  e  grupos  de  leigos 
engajados” e influenciando o pensar teológico e a atuação de grupos católicos junto aos 
agentes  políticos  e  espaços  públicos”.  (SILVEIRA,  2015,  p.  18)  Silveira  apresenta  a 
forma de agir destes grupos em todos os países por onde se expandiram: 
[...]  a  partir  da  reestruturação  do  establishment  conservador  católico  em 
países como os EUA, Argentina, Espanha, França e outros, um amplo leque 
de  ações  sociais  começou  a  ser  organizado  em  três  frentes:  marchas  pela 
família, contra matrimônio igualitário entre pessoas do mesmo sexo, contra o 
aborto e a eutanásia, contra as pesquisa com células-tronco; a fundação, ou o 
relançamento  de  institutos  e  associações  civis,  mas  também  religiosos,  em 
defesa  da  família  cristã  e  do pensamento  liberal-conservador,  assim  como  o 
uso das mídias digitais e das novas tecnologias para mobilizar a sociedade em 
torno de um campo de “batalha” organizado em torno de três eixos: a bioética 
(aborto,  nascimento  e  eutanásia);  a  ética  sexual  cristã  conservadora  e  o 
modelo  de  família  (casamento  homoafetivo);  e  o  lugar  da  religião  na  vida 
pública. (SILVEIRA, 2015, p. 19) 
Silveira explica que essa expansão não aconteceu em um “espaço vazio” e sim 
em 
                                            
101
  Instrumentum  Laboris  é  o  nome  técnico  do  documento  base  elaborado  pela  Secretaria  do  Sínodo 
traduzindo as respostas do episcopado e responsáveis eclesiásticos sobre as questões referentes à família. 
Disponível 
em: 
familia_po.html> 


92 
 
 
 
[...] um cenário marcado por diversas tendências que poderiam favorecê-la ou 
imprimir  mudanças  de  direção,  a  saber:  a  permanência  de  antigos  grupos, 
associações  e  lideranças  católicas  conservadoras  (em  especial,  após  o 
Concílio Vaticano II), o refluxo do catolicismo progressista (da Teologia da 
Libertação,  na  América  Latina,  e  das  Teologias  Liberais,  na  Europa, 
sobretudo após a ascensão do Papa João Paulo II) e a criação de novos grupos 
cristãos  majoritários  e  minoritários,  evangélicos  e  católicos  (movimento 
carismático  católico,  igrejas  neopentecostais,  movimentos  liberalistas  [como 
as  Católicas  pelo  Direito  de  Decidir],  pastorais  sociais  etc.).  (SILVEIRA, 
2015, p. 18) 
Silveira destaca como o termo “‘guerra cultural’ (e toda a rede semântica tecida 
em  torno  dele)”  tem  aparecido  cada  vez  mais  nos  discursos  de  algumas  lideranças 
católicas  brasileiras  ligadas  à  estrutura  eclesiástica  ou  mesmo  leigos,  expandindo  a 
“doxa  tradicionalista”  para  além  das  já  constantes  do  vocabulário  norte-americano. 
Segundo  o  autor,  esse  discurso  conservador  se  estrutura  em  torno  de  duas  questões:  a 
verdade  única  (Deus,  Igreja,  Revelação  e  Sagradas  Escrituras)  e  a  família  “natural” 
(homem,  mulher  e  filhos).  Ainda  segundo  Silveira,  “o  vínculo  entre  esses  dois 
princípios  é  profundo  e  ontológico.  Um  sustenta  e  permite  ao  outro  exercer  domínio 
discursivo dos fatos, fenômenos, grupos e ações sociais, e, com isso, é construída uma 
teia  fechada  de  interpretação”.  (SILVEIRA,  2015,  p.  20)  Analisando  este  discurso,  o 
autor destaca algumas questões:  
A  memória  da  tradição  talmúdico-evangélica  aparece  sem  rupturas,  sem  as 
dobras  e  os  vincos  das  temporalidades  históricas  e  dos  espaços  cultural-
sociais  impressos  ao  longo  de  milênios.  Por  certo,  não  é  apenas  a 
coincidência entre esses dois princípios que nos permite falar da nova carga 
semântica,  mas  o  raio  de  ação  (com  o  intenso  uso  das  mídias  sociais 
eletrônicas),  a  absorção  e  releitura  de  fatos  históricos  (algumas  formas  do 
comunismo  e  marxismo,  por  exemplo)  e  categorias,  como  guerra  e 
hegemonia cultural (absorção seletiva, seguida de reinterpretação catolicizada 
de ideias gramscianas). (Idem) 
Não foi apenas a mensagem que se modernizou, mas o meio de transmissão dela 
também. Às tradicionais formas de pressão católicas, agregou-se o discurso midiatizado 
característico,  como  vimos,  do  movimento  neopentecostal  e  da  RCC.  Dessa  forma, 
segundo Silveira, contra a laicização do Estado e secularização da sociedade,  
[...]  duas  armas  são  usadas:  a  primeira  é  a  pressão  junto  aos  representantes 
eleitos  nas  câmaras,  por  meio  de  conversas  de  gabinete,  entrega  de  abaixo-
assinados,  presença  em  reuniões  legislativas  públicas;  a  segunda,  a 
mobilização pública, por meio de palestras em diversos ambientes internos e 
externos  à  Igreja  Católica,  programas  de  TV  e  rádio,  discursos  falados  e 
escritos, difundidos por jornais e redes eletrônicas. (SILVEIRA, 2015, p. 12) 

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