José alves dias


A Renovação Carismática Católica e a Guerra Cultural Católica



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3.5 A Renovação Carismática Católica e a Guerra Cultural Católica 
Talvez mais importante que o crescimento do número de pentecostais em si, seja 
o que Mariano chama de pentecostalização,  
[...]  iniciada  já  na  década  de  [19]60,  de  setores  do  protestantismo  histórico, 
sobretudo  de  batistas  e  metodistas,  e  a  rápida  expansão  da  Renovação 


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Carismática Católica, movimento leigo de linha pentecostal oriundo dos EUA 
que  se  instalou  no  catolicismo  brasileiro  no  começo  dos  anos  70”.  
(MARIANO, 2014, p. 12)  
O  movimento  da  Renovação  Carismática  Católica  (RCC)  surgiu  nos  Estados 
Unidos  em  1967.  Um  grupo  de  cerca  de  30  católicos,  alunos  e  professores  de  uma 
universidade  de  Pittsburg,  estavam  reunidos  em  retiro  espiritual  quando,  durante  uma 
oração,  teria  ocorrido  o  que  eles  chamaram  de  pentecostes  renovado:  alguns  teriam 
começado  a  falar  em  línguas  estranhas  e  outros  teriam  recebido  o  dom  da  profecia. 
Como  pode-se  notar  é,  basicamente,  a  mesma  história  do  surgimento  do 
pentecostalismo  dentro  do  protestantismo,  só  que  em  sua  versão  católica.  Grigoletto 
sublinha que, “a partir daí,  estavam  lançadas as  bases do que viria a ser a Renovação 
Carismática,  um  movimento  pentecostal  que  se  inscreve  na  linha  da  Nova 
Evangelização  da  Igreja,  apregoada  por  João  Paulo  lI,  e  que  visa  reter  os  seus  fiéis  e 
barrar o avanço pentecostal”. (GRIGOLETTO, 2003, p. 28) 
O movimento foi trazido para o Brasil no final da década de 1960 pelos padres 
Eduardo Dougherty e Haroldo Rahn. Foi nesta época que eles criaram o grupo base em 
Campinas (SP), que existe até hoje. Fundaram, em 1981, a Associação do Senhor Jesus 
que  comanda  os  programas  da  Rede  Vida  de  televisão.  A  associação  é  mantida  pela 
contribuição  dos  fiéis  e  pela  venda  de  produtos  como  medalhas  e  CDs,  em  estratégia 
semelhante à empregada pela Igreja Universal do Reino de Deus. A igreja liderada pelo 
bispo Edir Macedo é principal representante do pentecostalismo no Brasil e a principal 
concorrente  da  Renovação  Carismática.  (GRIGOLETTO,  2003)  Sobre  a  concorrência 
entre  a  principal  representante  do  movimento  pentecostal  evangélico  e  a  representante 
do  movimento  pentecostal  católico,  Grigoletto,  citando  uma  reportagem  jornalística 
(SILVA, 1.999), afirma que 
[...]  tanto  a  RCC  quanto  a  IURD  se  valem  de  estratégias  de  marketing 
sofisticadas  e  usam  de  um  proselitismo  agressivo  para  arrebanhar  fiéis. 
Organizadas  segundo  critérios  empresariais,  com  técnicas  de  aliciamento 
próprias da economia de mercado, são religiões “mágicas”, emocionais, cujos 
cultos são baseados no transe coletivo. Feitas estas considerações, parece-nos 
que, na verdade, o que há é uma disputa pela conquista seja de fiéis, seja por 
um espaço na mídia ou na sociedade, que se acirra entre os dois movimentos. 
(GRIGOLETTO, 2003, p. 31) 
Mariano, também referindo-se a disputa por fiéis, explica que 
[...]  resultam  disso  sua  atual  corrida  para  ocupar  mais  espaços  na  TV 
(incentivo  à  criação  e  manutenção  da  Rede  Vida),  maximizar  o  uso 
evangelístico  de  sua  extensa  rede  radiofônica  (de  quase  200  emissoras), 
incrementar  a  participação  dos  leigos  nas  celebrações,  revalorizar  tradições 
populares e as pastorais social e de saúde, renovar ainda mais a liturgia (para 
além  das  inovações  concebidas  no  Concílio  Ecumênico  Vaticano  II),  abrir 


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novos  ministérios,  tornar  os  sacerdotes  mais  disponíveis,  acolhedores  e 
atentos  às  necessidades  dos  fiéis,  conceder  espaço  à  expressividade 
emocional  nos  cultos,  pesquisar  as  “seitas”  para  definir  respostas  pastorais 
adequadas,  evitando,  por  sua  ineficácia,  qualquer  campanha  de  ataques.  
(MARIANO, 2014, p. 14) 
Mas, as semelhanças da RCC com as religiões evangélicas não ficam apenas no 
campo  da  disputa  midiática  e  por  novos  fiéis.  Grigoletto  aponta  como  pontos  de 
convergência  o  “especial  ao  uso  dos  meios  de  comunicação  de  massa”,  a  atuação  do 
Espírito Santo hoje, “a experiência da conversão”, a “auto atribuição de uma missão”, a 
“atribuição  de  poder  ao  leigo”,  a  “prática  religiosa  emocional”,  o  “uso  de  termos 
comuns  como  orar  e  louvar”  e  a  “‘demonização’  do  espiritismo  e  das  religiões  afro-
brasileiras”,  uma  forte  hierarquia,  uma  “manifestação  festiva  da  fé”,  um  projeto  de 
expansão  mundial,  eventos  de  massa,  inclusive  com  “espaços  profanos”  sendo 
“reapropriados”  e,  até  mesmo,  o  lema  dos  movimentos:  “O  lema  da  RCC  é  ‘Brasil 
Cristão’  e  o  do  pentecostalismo  ‘Brasil  para  Cristo’”.  Para  Grigoletto,  “existe  um 
número maior de aspectos que aproximam do que afastam a RCC do pentecostalismo”, 
uma  vez  que  as  principais  divergências  entre  os  dois  movimentos  são  apenas  a 
obediência ao Papa e a devoção à Virgem Maria (GRIGOLETTO, 2003, p. 30). 
Grigoletto  acredita  que  a  RCC  seja  “um  movimento  religioso  que  possui  duas 
dimensões: uma voltada para fora do catolicismo, afrontando o pentecostalismo, e outra 
para dentro do catolicismo, enfrentando os setores mais progressistas” (GRIGOLETTO, 
2003, p. 31).  Ele aponta que o desenvolvimento  do movimento nunca  foi tranquilo na 
Igreja Católica, pois “enquanto alguns párocos e bispos assumiram posições favoráveis, 
outros impediram a sua implantação em suas paróquias e dioceses” (idem). E a própria 
Conferência  Nacional  dos  Bispos  no  Brasil  (CNBB)  teria  relutado  em  adotar  uma 
posição oficial sobre a RCC.   
Apenas  depois  de  mais  de  30  anos  e  muitas  cobranças,  a  CNBB  aceitou  que 
precisava se posicionar. Enviou, então, um questionário para suas dioceses para saber o 
posicionamento  destas  sobre  a  RCC.  Desta  pesquisa  de  opinião  saiu  um  documento 
oficial  que  “reconhece  a  legitimidade  da  RCC,  tecendo-lhe  elogios  e  também 
recomendações sobre o que deve ou não fazer”. Grigoletto destaca, entre os elogios, o 
de que  “entre os vários  movimentos de renovação espiritual  e pastoral  do tempo pós-
conciliar, surgiu  a RCC  que tem trazido  novo dinamismo  e entusiasmo  para  a vida de 
muitos cristãos e comunidades”. E, sobre as recomendações, destaca a de que a RCC se 
posicione frente aos problemas sociais. Nas palavras contidas no documento da CNBB, 
está  o  “empenho  de  uma  presença  na  sociedade  humana,  a  serviço  da  dignidade  da 


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pessoa humana, mediante a participação e solidariedade para construir  condições  mais 
justas e fraternas no seio da sociedade” (GRIGOLETTO, 2003, p. 32). 
 
Entretanto, como o próprio Grigoletto aponta, a recomendação não foi seguida e 
os  problemas  sociais  continuam  a  ser  tratados  como  questões  de  fé  e  não  questões 
políticas, o que, não impediu que a liderança da RCC venha incentivando seus membros 
a  se  filiarem  a  partidos  e  disputarem  as  eleições  para  cargos  no  executivo  e  no 
legislativo.  (Reis  e  Almeida,  2015,  p.  73)  Ao  que  tudo  indica,  apesar  da  crítica  da 
CNBB  com  relação  à  forma  como  a  RCC  trata  as  questões  sociais,  isto  não  é  um 
problema  para  a  Igreja  Católica,  muito  pelo  contrário.  Mariano  citando  Prandi  aponta 
que, 
[...]  estrategicamente  estimulada  pela  bênção  papal,  a  Renovação 
Carismática,  apesar  de  ostentar  feições  teológicas  e  métodos  evangelísticos 
típicos  do  seu  principal  concorrente  na  América  Latina,  tornou-se  a  grande 
arma  do  Vaticano  para  tentar  conter  o  avanço  pentecostal,  combater  a 
Teologia da Libertação e recuperar parte do rebanho desgarrado. [...] Embora 
ambos convertam os segmentos economicamente desprivilegiados, as igrejas 
pentecostais,  mais  concentradas  nas  capitais  e  regiões  metropolitanas, 
arregimentam os estratos mais pobres, menos escolarizados e mais escuros da 
população, enquanto a Renovação Carismática, mais concentrada nas cidades 
do  interior,  angaria  adeptos,  70%  dos  quais  mulheres,  especialmente  na 
classe média baixa. (MARIANO, 2014, p. 12-3) 
Indo  ao  encontro  das  conclusões  de  Mariano,  durante  nossa  pesquisa,  notamos 
que muitos dos propositores dos PL Programa Escola Sem Partido ou similares faziam 
parte  de  uma  frente  parlamentar  religiosa  (evangélica,  católica  ou  ambas)  e  da  frente 
ruralista, como podemos observar na Tabela 2, anexo 6 deste trabalho. Podemos, então, 
inferir  a  ligação  entre  o  rechaço  à  figura  e  a  pedagogia  de  Paulo  Freire  (ARAÚJO, 
2015)  e  o  rechaço  à  teologia  da  libertação  (DOMINI,  2015),  uma  vez  que  existiam 
fortes vínculos entre ambas (BOFF, 2011 e VIEIRA, 2007).   
Segundo  Ferreira,  é  marcante  a  questão  da  prática  libertadora  tanto  na  obra  de 
Paulo Freire como na Teologia da Libertação. Segundo ela, tanto esta pedagogia quanto 
esta teologia “ressaltam a importância do caráter prático e desenvolvimento crítico dos 
sujeitos para alcançarem sua libertação, entendendo-se, portanto, como sujeito histórico 
e  transformador  da  sua  condição  social”  (FERREIRA,  2015,  sem  paginação).  Nas 
palavras da autora
[...]  a  Teologia  da  Libertação  foi,  na  América  Latina,  uma  reflexão  sobre  o 
papel da Igreja católica em um contexto  marcado pelas fortes desigualdades 
sociais. Ancorada em um conjunto de obras e escritos produzidos na década 
de 1970, teólogos e clérigos    passaram a  pensar o evangelho a partir de um 
enfoque  que  ressaltasse  a  situação  social  dos  países  latino-americanos.  A 
Teologia  da  Libertação  surgia  como  resposta  a  uma  sociedade  caracterizada 


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pela  desigualdade  social,  opressão,  cerceamento  das  liberdades  individuais, 
violação dos direitos humanos, etc. A Igreja Católica (na figura de alguns de 
seus  clérigos),  até  então,  indiferente  aos  problemas  sociais  desses  países, 
passa por uma mudança substancial ao refletir sobre as lutas de libertação e, 
principalmente,  sobre  o  abismo  que  havia  entre  a  fé  e  a  prática  libertadora 
dos cristãos. (FERREIRA, 2015) (Sem paginação) 
De fato, uma pedagogia e uma fé que lutam pela emancipação dos sujeitos e por 
justiça  social  não  teriam  como  não  serem  rechaçadas  por  grupos  conservadores 
ideológica e politicamente
96 
que, como já dissemos, são favoráveis a desigualdades e à 
manutenção  das  hierarquias.  Como  veremos,  a  desigualdade  é  naturalizada  e  toda 
tentativa de diminuição desta é apontada nos discursos destes grupos como vinculada ao 
comunismo e, automaticamente, como um ataque à moralidade cristã.  
Freitas  e  Almeida  acompanharam  a  atividade  parlamentar  de  deputados  da 
renovação carismática. Segundo os autores, “das dezenas de projetos investigados, um 
número  significativo  deles  garante  a  presença  católica  e  sua  doutrina  nos  diversos 
setores  da  sociedade  e,  assim,  mantém  a  reprodução  católica  romana  ante  o  mercado 
simbólico  brasileiro”.  São  projetos  que  legislam  sobre  práticas  abortivas,  eutanásia, 
pornografia, pesquisa com células tronco, dentre outros, garantindo que a “ ‘moralidade’ 
da Igreja Católica seja um usufruto da sociedade”. (ALMEIDA E REIS, 2015, p. 87) Os 
pesquisadores,  infelizmente,  não  se  debruçaram  sobre  os  projetos  para  a  educação  e 
acreditamos que nossa pesquisa possa preencher esta lacuna. 
Sobre  a  atividade  parlamentar  dos  membros  da  RCC,  alguns  dos  quais 
mencionados no nosso capítulo anterior, os pesquisadores concluíram, ainda, que 
[...]  os deputados estão diluídos em um  vasto espectro de  partidos políticos. 
Mesmo  nessa  vastidão  de  partidos,  através  das  análises  dos  seus  projetos 
(independente  das  propostas  defendidas  pelos  partidos),  os  congressistas 
vinculados  à  RCC  propõem  projetos  que  beneficiam  o  campo  religioso 
católico. (ALMEIDA e REIS, 2015, p. 87) 
A  Renovação  Carismática  Católica  insere-se  em  um  movimento  que  Silveira 
apresenta como sendo uma Guerra Cultural Católica, articulada entre católicos leigos e 
sacerdotes  conservadores  para  a  defesa  de  seus  valores  na  sociedade,  que  não  ocorre 
apenas  no  Brasil  e  nem  é  um  fenômeno  recente.  O  autor  cita  como  alguns  exemplos 
França,  Espanha,  Estados  Unidos,  Argentina  e  cremos  que  poderíamos,  pelo  já 
mencionado  na  introdução,  acrescentar  a  Colômbia  nesta  lista.  Para  o  autor,  por  trás 
                                            
96
 Cf: MENDONÇA, Sonia. Educação rural e hegemonia norte-americana no Brasil: (1945-1961) In, 
Anais do VIII Simpósio Nacional Estado e Poder. Juazeiro/BA: UNIVASF – ETC, 2014. 


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dessa articulação estariam também grupos católicos internacionais, como a Opus Dei
97
 
(criada na Espanha em 1928), a Comunhão e Libertação
98
 (criada na Itália em 1954) e a 
TFP
99
  -  Sociedade  Brasileira  de  Defesa  da  Tradição,  Família  e  Propriedade  (criada  na 
cidade  de  São  Paulo  em  1960)  -,  dentre  outras.  O  autor  destaca  que  muitas  são 
diretamente  ligadas  ao  Vaticano,  o  que  reduziria  o  poder  dos  bispos  diocesanos  sobre 
elas.  
Silveira  explica  que  a  maioria  destas  organizações  surgiu  entre  1920  e  1970, 
período  em  que  “o  catolicismo  institucional  travou  duros  embates  com  as  novas 
configurações do Estado, do espaço público e das legislações nacionais e internacionais, 
procurando  resistir  às  mudanças  e  articular  reações  políticas  e  sociais  para  frear  ou 
reverter o mainstream cultural”. (SILVEIRA, 2015, p. 14) Segundo o autor, nestes anos 
de  combate  surgiram  novas  organizações  e  atores  que  apropriaram-se  de  “novos 
vocabulários, incorporando ideias advindas de outros contextos culturais nacionais e dos 
debates  acadêmicos  travados  pelos  partidários  de  grupos  direitistas,  nas  ciências 
humanas e na teologia, em universidades e academias católicas” (SILVEIRA, 2015, p 
14). 
O terreno onde a Guerra Cultural  Católica cresceu, de acordo com  Silveira, foi 
nos Estados Unidos dos anos 1970 e 1980, após o “colapso da coalizão do New Deal” e 
a “luta pelos Direitos Civis dos movimentos negro, gay e feminista e com declínio do 
Partido  dos  Democratas”,  que  culminou  na  chegada  ao  poder  do  Partido  Republicano 
com  Ronald  Reagan.  Segundo  Silveira,  Hunter,  sociólogo  norte-americano, 
caracterizaria  essa  nova  configuração  social  norte-americana  como  uma  “virada 
conservadora”, marcada também por uma ascensão do conservadorismo religioso
100
 que 
                                            
97
 Para mais informações consultar a página virtual da Opus Dei. Disponível em: 
 
98
 Para mais informações consultar a página virtual da Comunhão e Libertação. Disponível em: 
 
99
  É  caracterizada  como  "associação  civil  de  caráter  cultural,  cívico,  filantrópico  e  beneficente".  Desde 
sua  fundação,  a  tríade  tradição  (católica),  família  (monogâmica  e  indissolúvel)  e  propriedade  (privada) 
são  as  principais  bandeiras  de  luta  doutrinária  e  cultural  -  embora  outras  temáticas  afins  sejam 
mobilizadas  com  alguma  periodicidade  (contra  a  descriminalização  do  aborto,  o  Plano  Nacional  de 
Direitos Humanos, o desarmamento civil, o casamento homossexual, a eutanásia e outros). (SILVEIRA, 
2015,  p.  14).  Para  mais  informações  consultar  a  página  virtual  da  Sociedade  Brasileira  de  Defesa  da 
Tradição, Família e Propriedade. Disponível em:  
100
  Buscando  o  termo  guerra  cultural  em  títulos  de  livros,  encontramos  um  livro  de  um  padre  norte-
americano.  A  resenha  disponibilizada  no  site  da  livraria  é  a  seguinte:  Em  'Como  Vencer  a  Guerra 
Cultural', Peter Kreeft chama os cristãos para a 'batalha'. O autor defende que cristãos têm de entender a 
verdadeira natureza da guerra cultural - uma guerra entre a cultura da vida e a da morte. Kreeft identifica 
aqueles  que,  em  sua  perspectiva,  são  os  inimigos  reais  que  estão  diante  da  Igreja  e  indica  os  diferentes 
campos  de  disputa.  Finalmente,  procura  traçar  uma  estratégia  para  a  luta  e  equipar  os  cristãos  com  as 


90 
 
 
 
teria  levado  a  uma  “mudança  permanente  na  dinâmica  do  sistema  político  americano, 
substituindo  divisões  clássicas  de  economia  e  de  classe  por  outras  baseadas  em 
desacordos culturais e morais” (SILVEIRA, 2015, p. 15). O autor afirma que
[...]  na  ótica  desses  grupos,  as  estruturas  familiares  e  sociais  defendidas  são 
naturais  e  universais,  porém,  tais  estruturas  vêm  sofrendo  ataques,  sendo 
desmanchadas e desmontadas por uma conspiração liderada pela Organização 
das  Nações  Unidas  (ONU),  somada  aos  partidos  de  esquerda,  organizações 
de direitos humanos (como a Anistia Internacional) e intelectuais defensores 
dos direitos dos homossexuais, das mulheres etc. (SILVEIRA, 2015, p. 13) 
Este  autor  destaca  também  a  problemática  relação  que  a  Igreja,  “entidade  ao 
mesmo  tempo  pré-estatal,  supraestatal  e  multinacional”,  teve  e  tem,  com  os  Estados 
nacionais,  com  as  organizações  internacionais  civis  e  laicas  e  com  a  ONU.  Silveira  e 
Miguel  destacam  que  tanto  o  papa  João  Paulo  II  quanto  o  papa  Bento  XVI  eram 
defensores  da  ideia  da  existência  de  uma  guerra  cultural  (SILVEIRA,  2015).  Segundo 
Miguel, o pontificado de João Paulo  II “foi marcado, desde o início, pela preocupação 
com a posição das mulheres, tema de vários textos e conferências do papa.” (MIGUEL, 
2016, p. 598). Para esse pesquisador,  
[...] em lugar da aversão à mulher, que marcou boa parte da história da Igreja, 
há  a  exaltação  de  seus  papéis  tradicionais.  A  igualdade  pretendida  pelo 
feminismo  representaria  um  rebaixamento  da  mulher,  a  perda  de  sua 
“dignidade  extraordinária”  na  condição  de  “especialista  do  amor”.  A 
complementaridade entre os sexos é explicada pela ideia de que “Deus dotou 
a  mulher  de  um  ‘gênio  feminino’,  acompanhando  sua  função  de  gestadora, 
que se caracteriza por uma propensão e um dom naturais para o cuidado e a 
sensibilidade às necessidades dos outros” que será central na elaboração dos 
pensadores  católicos  contrários  à  “ideologia  de  gênero”.  Trata-se,  portanto, 
de  uma  verdade  fundada  na  fé,  por  mais  que,  nos  debates  públicos 
posteriores, muitas vezes se busque minimizar tal elemento. Por um lado, há 
o  esforço  de  embasar  o  discurso  com  argumentos  científicos,  sejam  eles  de 
base biológica, psicológica ou sociológica. Por outro, tenta-se mostrar que a 
posição  da  Igreja  não  está  “fundada  sobre  uma  crença  religiosa  particular”, 
sendo  antes  “uma  resposta  aos  desafios  éticos  contemporâneos”.  (Miguel, 
2016, p.598-9) 
  
Quanto  a  Bento  XVI,  Silveira  cita  um  discurso  em  que  ele  é  bastante  claro 
acerca da guerra cultural: “Si se llega a un enfrentamiento de culturas, no será por un 



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