José alves dias


Religião, Estado e educação após a ditadura militar



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3.2 Religião, Estado e educação após a ditadura militar 
Devido ao tortuoso processo de abertura política, apenas em 1993 a Lei n. 8.663 
(BRASIL, 1993) revogou o Decreto-lei n. 869/69, acabando com a disciplina Educação 
Moral  e  Cívica  e  determinando  que  “a  carga  horária  dessa  disciplina,  ‘bem  como  seu 
objetivo  formador  de  cidadania  e  de  conhecimentos  da  realidade  brasileira’  fossem 
incorporados  às  disciplinas  da  área  de  Ciências  Humanas  e  Sociais,  a  critério  de  cada 
instituição educacional” (CUNHA, 2009, p. 414). Entretanto, mesmo após sua exclusão 
do currículo, “a ideologia subjacente persistiu como uma aspiração dos grupos situados 
à  direita  do  espectro  político-ideológico,  que  pretendem  produzir  a  ordem  social  pela 
educação escolar. Nessa ideologia, a religião ocupa um lugar privilegiado” (Idem). 
Ainda  em  1971,  mesmo  ano  do  parecer  citado  anteriormente,  redigido  pelo 
arcebispo Luciano José Cabral Duarte, sobre a Educação Moral e Cívica, foi publicada a 
segunda  Lei  de  Diretrizes  e  Bases  da  Educação,  Lei  nº  5.692/71  (BRASIL,  1971). 
Dentre os itens, destacamos como relevante o fato desta LDB permitir o uso de recursos 
públicos  no  ensino  religioso.
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A  Constituição  brasileira  de  1988  determinou,  em  seu 
art. 19, que  
[...] é vedado a todas as instâncias do Estado estabelecer cultos religiosos ou 
igrejas,  subvencioná-los,  embaraçar-lhes  o  funcionamento  ou  manter  com 
eles  ou  seus  representantes  relações  de  dependência  ou  aliança,  mantendo  a 
ressalva  da  colaboração  de  interesse  público,  na  forma  da  lei.  (BRASIL, 
1988) 
Todavia,  garantiu  espaço  para  uma  relação  próxima  entre  Estado  e  religiões, 
pelo menos na área da educação, ao colocar em seu texto a obrigatoriedade da oferta do 
ensino  religioso  no  ensino  fundamental  das  redes  públicas,  na  forma  de  disciplina 
facultativa para os alunos, a ser ministrada dentro do horário de aulas. Sabemos que isso 
se  deve  tanto  à  enorme  mobilização  das  instituições  religiosas  hegemônicas  no 
momento da Constituinte quanto por um enorme apoio popular. 
Ana  Maria  Cavaliere  aponta  em  seu  artigo  “Quando  o  Estado  pede  socorro  à 
religião”  (2006), que trata da implantação do Ensino  Religioso  no Rio  de Janeiro com 
base  na  Lei  3.459/2000  (RIO  DE  JANEIRO,  2000),  que,  frente  às  dificuldades 
encontradas  pelos  sistemas  públicos  de  ensino  de  incorporar  as  classes  populares,  o 
                                            
89
 Cunha lembra sempre em seus textos que, geralmente, as motivações dos projetos contra a laicidade 
são ao mesmo tempo de ordem econômica e ideológica. O autor lembra que a Igreja Católica participa do 
mercado educacional em todos os níveis e teve papel destacado “na legitimação dos interesses privatistas, 
não apenas de seus próprios, mas de todo o setor privado, que ainda não tinha força suficiente para 
dispensar o patrocínio que essa instituição religiosa propiciava. ” (CUNHA e FERNANDES, 2012). 


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Estado  vem  cedendo  seu  papel  socializador  para  a  religião.  E,  mais  especificamente 
para o cristianismo. Para a autora, 
[...]  com  o  acirramento  da  crise  econômica,  nos  anos  1980,  e  dos  conflitos 
sociais  urbanos,  a  religião  tornou-se  um  tipo  de  panaceia,  que  se  pretende 
ministrar  em  doses  amplas  nas  escolas  públicas,  como  um  mecanismo  de 
controle  individual  e  social  supostamente  capaz  de  acalmar  os 
indisciplinados, de conter o uso de drogas, de evitar a gravidez precoce e as 
doenças  sexualmente  transmissíveis,  capaz  até  mesmo  de  fornecer  a 
presumida  única  base  válida  para  a  ética  e  a  cidadania,  como  se  fosse  uma 
espécie de educação moral e cívica (CAVALIERE, 2006. Sem paginação). 
Em  1996,  o  então  presidente  Fernando  Henrique  Cardoso  assinou  a  Lei  n. 
9.394/96,  a  mais  recente  Lei  de  diretrizes  e  Bases  da  Educação  (BRASIL,  1996),  em 
vigor até hoje, que endossou o dispositivo constitucional do ensino religioso nas escolas 
públicas. A nova LDB conseguiu elevar “o Ensino Religioso a uma posição que ele não 
havia tido até então” (CUNHA, 2014, p. 371) pois 
[...]  foi  incluída  no  texto  da  LDB  a  determinação  absurda  de  que  o  Ensino 
Religioso faria “parte integrante da formação básica do cidadão”. Isso revela 
o  sentimento  de  autorreferência  (para  dizer  o  mínimo)  dos  religiosos 
hegemônicos  no  país,  a  ponto  de  suporem  que  as  crianças  que  não  tiverem 
essa disciplina na escola pública, por impossibilidade de seu oferecimento ou 
por  opção  dos  pais,  ficariam  com  uma  formação  insuficiente  ou  defeituosa. 
(CUNHA, 2009, P. 411) 
Mas, se por um lado foi incluída esta determinação, a LDB ao menos trazia em 
sua redação que esta se daria “sem ônus para os cofres públicos", o que desagradou a 
Igreja Católica. Como explica Mariano
[...]  nossos  parlamentares,  como  se  sabe,  facilmente  se  rendem  ou  se 
acovardam  diante  das  pressões  do  "lobby  da  batina".  Insatisfeita  com  a 
inserção  na  Constituição  de  1988  da  obrigatoriedade  da  oferta  de  ensino 
religioso,  de  matrícula  facultativa,  nas  escolas  públicas  de  primeiro  grau,  a 
Igreja Católica conseguiu, em julho de 1997, oito meses depois de aprovada a 
Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), por meio de pressões difusas 
sobre o governo federal e o Congresso Nacional, retirar do texto original da 
LDB,  por  meio  de  emenda  sancionada  pelo  presidente  Fernando  Henrique 
Cardoso, a expressão [sem ônus para os cofres públicos]. Embora a nova lei 
proibia  o  proselitismo  no  ensino  religioso,  é  inegável  que  a  Igreja  Católica, 
no  momento  mais  bem  preparada  do  que  qualquer  outra  religião  para  esse 
ofício, será a mais beneficiada com esse amplo e anacrônico retrocesso que a 
sanção dessa lei representa na separação da Igreja do Estado e na laicidade do 
ensino fundamental. Seus “professores” poderão, como já o fazem na maioria 
dos  Estados  da  federação,  só  que  a  partir  de  agora  com  o  ônus  do 
contribuinte, socializar entre  crianças e adolescentes concepções  metafísicas 
e valores religiosos. (MARIANO, 2014, p. 14-5) 
Por  outro  lado,  a  LDB  de  1996  previa  uma  maior  flexibilização  curricular, 
inclusive  dos  currículos  do  Ensino  Superior,  onde  estaria  presente  também  o  ensino 
religioso.  Cunha  destaca  o  fato  desta  LDB  determinar  que  o  conteúdo  da  disciplina 
Ensino  Religioso  fosse  estabelecido  pelos  sistemas  de  ensino  (federal,  estaduais  e 


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municipais),  depois  de  ouvidas  entidades  civis  constituídas  pelas  diversas  confissões 
religiosas. Assim, o autor analisa que “pode não haver ‘ensino religioso católico’, nem 
de  confissão  específica  alguma”.  Segundo  ele,  se  esse  conteúdo  será  “de  caráter 
histórico,  sociológico  ou  antropológico”  ou  “um  extrato  das  doutrinas  religiosas 
conveniadas  dependerá  da  composição  política  de  tais  entidades  civis”  (CUNHA, 
2014b,  p. 372).  Cunha alerta que  essa flexibilização curricular é sempre  acompanhada 
de um movimento contrário tentando restringi-la. Como explica o autor, 
[...] começa[m] com um grupo de interesse que mobiliza apoio político  – no 
Executivo ou no Legislativo (municipal, estadual, mas de preferência federal) 
– para conseguir a edição de uma norma que determine a obrigatoriedade da 
inserção  do  elemento  de  seu  interesse  nos  currículos  de  todas  as  escolas;  se 
não  de  todas,  pelo  menos  nas  redes  públicas  de  ensino.  O  interesse  real 
defendido pode ser de ordem econômica, de ordem político-ideológica ou de 
ambas,  o  caso  mais  frequente.  Uma  disciplina  obrigatória  é  a  preferência 
geral. Justificativas diversas procuram fazer crer que esse interesse particular 
é bom para todos. (CUNHA, 2009, p. 403) 
Cunha  identifica  que  essas  demandas  partem  de  “grupos  situados  à  direita  do 
espectro  político-ideológico,  que  pretendem  produzir  a  ordem  social  pela  educação 
escolar” (CUNHA, 2009, p. 414). Análise que, cremos, também se aplica aos projetos 
relacionados  ao  Escola  sem  Partido.  Um  dos  projetos  analisados  por  Amaral,  em  uma 
citação  de  Cunha,  se  mostra  útil  para  evidenciar  que  os  projetos  recentes  relativos  ao 
Escola sem Partido inserem-se em um longo projeto de manutenção da ordem através da 
legislação relativa à educação: 
[...] dentre os projetos examinados, escolhi como exemplo o que me pareceu 
mais  conspícuo.  Trata-se  do  Projeto  de  Lei  n.  722,  apresentado  em 
16/4/2003,  pelo  deputado  Frankembergen  Galvão  da  Costa,  do  Partido 
Trabalhista  Brasileiro  –  PTB/RR.  Bacharel  em  contabilidade,  delegado  de 
polícia  e  pastor  da  Assembleia  de  Deus,  o  deputado  apresentou  projeto  que 
previa  a  inclusão  obrigatória,  nas  escolas  oficiais  de  ensino  fundamental  e 
médio,  da  disciplina  Estudo  para  a  Moral  e  o  Civismo.  Ela  teria,  como 
finalidade,  ...a  difusão  de  valores  fundamentais  ao  interesse  social,  aos 
direitos  e  deveres  dos  cidadãos,  de  respeito  ao  bem  comum  e  à  ordem 
democrática,  através  da  preservação  do  espírito  religioso,  da  dignidade  da 
pessoa humana e do amor à liberdade com responsabilidade, sob a inspiração 
de Deus. Adiantando-se a possíveis críticas, o proponente esclareceu que não 
pretendia a interferência do Estado definindo a religião a ser objeto da nova 
disciplina.  Apenas  a  “diretriz  geral,  o  fundamento  filosófico”  seria 
estabelecido  pela  lei.  Em  seu  projeto,  Deus  teria  sido  citado  de  “maneira 
ecumênica”,  sem  favorecer  uma  religião  específica,  como  se  houvesse 
consenso sobre a divindade. (CUNHA, 2009, p. 415) 
Em  maio  de  2007,  o  então  papa,  Bento  XVI,  visitou  o  país.  Em  novembro  de 
2008, foi firmada uma concordata Brasil-Santa Sé/Vaticano pelo ministro brasileiro das 
Relações Exteriores e pelo secretário de Estado do Vaticano. Após ser homologada pelo 


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Congresso Nacional, foi promulgada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva em 11 de 
fevereiro de 2010, através do Decreto n. 7.107. Segundo Cunha
[...]  tornou-se  realidade  o  que  jamais  acontecera,  nem  mesmo  durante  o 
Império, quando o catolicismo era religião oficial, e parecia impossível desde 
que,  em  1889,  o  regime  republicano  extinguira  o  padroado  imperial:  a 
direção  mundial  da  Igreja  Católica  logrou  que  o  Estado  brasileiro  firmasse 
com ela um tratado que lhe garante privilégios especiais, em termos políticos, 
fiscais, trabalhistas, educacionais e outros. (CUNHA. 2014b, p. 371) 
Em seu artigo 11, a concordata estabelece que o Ensino Religioso católico e de 
outras  confissões  religiosas,  de  matrícula  facultativa,  constitui  disciplina  dos  horários 
normais  das  escolas  públicas  de  ensino  fundamental.  Esse  artigo  contraria  não  só  o 
artigo 33 da LDB-96, que, como já vimos, estabelece que o conteúdo da disciplina seria 
estabelecido  pelos  sistemas  de  ensino  (federal,  estaduais  e  municipais)  depois  de 
ouvidas entidades civis constituídas pelas diversas confissões religiosas, mas, também, a 
própria  Constituição  brasileira,  que  proíbe  alianças  do  Estado  com  instituições 
religiosas.  Nas  palavras  de  Cunha  e  Oliva,  “os  cínicos  dizem  que  o  Vaticano  é  um 
Estado com o qual o Brasil mantém relações diplomáticas, mas omitem o fato de que há 
uma verdadeira simbiose dele com a Santa Sé, a direção mundial da Igreja Católica”
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(CUNHA e OLIVA. 2014, p. 215). Cunha sublinhou ainda que,  
[...] em 2001, o Conselho de Educação do Estado de São Paulo estabeleceu as 
normas  para  o  Ensino  Religioso  nas  escolas  da  rede  estadual  (Deliberação 
n.16/01);  elas  determinavam  o  oferecimento  dessa  disciplina  no  ensino 
fundamental,  como  prescreve  a  Constituição  Federal.  Nas  quatro  primeiras 
séries  (7  a  10  anos),  o  Ensino  Religioso  deveria  ser  ministrado  como  um 
“tema transversal”, pelo próprio docente da classe.  [...] Em consequência, o 
Ensino  Religioso  tornou-se  obrigatório  para  os  alunos  de  7  a  10  anos,  pois, 
desenvolvido como “tema transversal”, não lhes caberia opção. Igualmente, o 
Ensino  Religioso tornou-se obrigatório para os docentes, ao  menos em tese, 
pois  todos  eles  deveriam  desenvolvê-lo  com  os  alunos,  ainda  que  sem  um 
horário próprio para isso. (CUNHA, 2009, p. 409) 
Esta  proposta  pode  ser  considerada  uma  manobra  legal  para  tornar  o  ensino 
religioso  obrigatório,  uma  vez  que  não  haveria  possibilidade  de  escolha  dos  alunos  e 
seus responsáveis legais quanto à sua participação ou não nestas aulas. Assim, o ensino 
religioso que, por leis federais, deveria ser facultativo, foi transformado em obrigatório 
para  professores  e  alunos,  através  do  Decreto  46.802/02  do  governador  do  Estado  de 
                                            
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 Diante do crescimento das igrejas evangélicas e do destaque que líderes evangélicos têm tido, tanto na 
mídia  quanto  nas  diversas  instâncias  do  Poder  Legislativo,  a  Igreja  Católica  tenta  retomar  sua 
predominância na sociedade e no Estado sendo ajudados até por setores laicos que, acreditando no perigo 
do  fundamentalismo  evangélico,  creem  que  os  candidatos  católicos  ou  as  políticas  católicas,  seriam 
menos nocivas por si só ou por equilibrar o jogo de forças. Esquecem–se “que os evangélicos são meros 
aprendizes  quando  comparados  com  os  rivais  [católicos],  veteranos  nos  campos  religioso  e  político.  ” 
(CUNHA e OLIVA. 2014, p. 223-4)  


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São Paulo, Geraldo Alckmin. Apesar deste documento ter assegurado “o caráter supra 
confessional  do  Ensino  Religioso  e  o  condicionamento  de  sua  implementação  à 
audiência  do  Conselho  de  Ensino  Religioso  do  Estado  de  São  Paulo
91
,  pelo  decreto,  o 
Ensino Religioso deveria “assegurar o respeito a Deus, à diversidade cultural e religiosa, 
e fundamentar-se em princípios de cidadania, ética, tolerância e em valores universais, 
presentes em todas as religiões”. (CUNHA, 2009, p. 410), o que se caracteriza em grave 
desrespeito  às  religiões  que  creem  em  mais  de  um  Deus  e  a  todos  aqueles  que  não 
professam fé religiosa. 



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