José alves dias



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revolução de 1930, o Ensino Religioso foi enxertado no currículo das escolas 
públicas primárias, secundárias e normais. Não foi um ato isolado, mas parte 
de um pacote de um ordenamento imposto à educação nacional pelo Decreto 
n. 19.941, de 30 de abril de 1931. (CUNHA, 2009, p. 407) (Grifo do autor) 
O  então  ministro  do  recém-criado  Ministério  da  Educação  e  Saúde,  Francisco 
Campos, fez uma exposição de motivos em 1931 para justificar o decreto. Estas ideias 
foram atualizadas e aparecem hoje nos discursos do MESP.  Segundo Cunha, Francisco 
Campos 
[...]  partiu  do  princípio  de  que  o  fim  da  escola  implica  a  adoção  de 
proposições  sobre  a  natureza  e  os  destinos  do  homem,  ou  seja,  de  uma 
concepção  ético-religiosa  da  vida,  a  qual  não  pode  ser  ditada  pelo  Estado, 
sem violar o direito natural dos pais à educação dos filhos. Assim, o Estado 
deveria garantir às famílias que seus filhos tivessem o ensino da religião nas 
escolas oficiais, mas deixar a elas a escolha da religião a ser ensinada, assim 
como  a  opção  da  dispensa  desse  ensino.  Para  o  ministro,  essa  era  uma 
conquista  do  catolicismo  contra  o  “dogma  da  liberdade  de  pensamento” 
defendido por liberais, e, provisoriamente, pelos comunistas, interessados em 
“destruir  as  instituições  nacionais”.  Numa  defesa  posterior  daquele  decreto, 
Campos  dizia  que  era  preciso  opor  a  “liberdade  do  ensino  religioso”  à 
“liberdade  de  ensino”  dos  liberais.  Portanto,  esse  ensino  só  poderia  ser 
imposto  por  uma  ditadura.  A  educação  era  considerada  por  Francisco 
Campos  como  um  processo  destinado  a  criar,  conservar  ou  recuperar  os 
valores  que  teriam  sido  perdidos  –  a  religião,  a  família  e  a  pátria  –,  uma 
tríade  semelhante  à  do  integralismo,  forjada  nos  quadros  de  referência  do 
fascismo,  ideologia  à  qual  Francisco  Campos  não  era  avesso.  (CUNHA, 
2009, p. 408) 
Ainda de acordo com Cunha, desde 1931, quando do retorno do ensino religioso
verifica-se a presença  continuada deste nas  escolas  públicas, ao passo  que a Educação 
Moral e Cívica tem ocorrência intermitente desde o início da república. (CUNHA, 2009, 
p.  403).  O  autor  também  destaca  que  seja  através  do  ensino  religioso,  seja  através  da 
moral e cívica, a moralidade católica ou cristã sempre se fez presente na escola pública 
                                            
86
  A  Pontifícia  Universidade  Católica  do  Rio  de  Janeiro  f
oi  fundada  em 
1941
 por  D.  Sebastião  Leme  e 
pelo 
padre
 Leonel  Franca  e  reconhecida  oficialmente  pelo  Decreto  8.681,  de 
15  de  janeiro
 de 
1946
.  Por 
decreto  da  Congregação  dos  Seminários,  de 
20  de  janeiro
 de 
1947
,  a 
universidade
 recebeu  o  título 
de 
pontifícia
.
 


70 
 
 
 
por  força  de  lei.    Como  veremos  mais  à  frente,  a  Igreja  Católica  no  Brasil  buscou 
sempre  atuar,  inclusive  nos  momentos  de  quebra  da  ordem  democrática,  em  benefício 
de seus interesses. 
Em  1933,  o  Cardeal  Leme  criou  a  Liga  Eleitoral  Católica  (LEC),  associação 
civil  de  âmbito  nacional  cujo  objetivo  era  apoiar  candidatos  de  diversos  partidos  que 
concordassem com seu programa nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, 
marcadas  para  aquele  ano.  A  mobilização  política  católica  foi  vitoriosa  de  forma  que 
“todos  os  pontos  de  sua  plataforma  foram  inseridos  na  nova  Carta,  inclusive  a 
obrigatoriedade  do  Ensino  Religioso  nas  escolas  públicas,  em  termos  ainda  mais 
favoráveis do que os do Decreto n. 19.941/31”. E “desde então, todas as Constituições 
brasileiras determinam a oferta do Ensino Religioso nas escolas públicas, aliás a única 
determinação  curricular  nesse  nível  da  legislação”  (CUNHA,  2009,  p.  408-9).  Cunha 
ainda lembra que “a Constituição é, sem dúvida, a meta preferida. Por ser mais difícil de 
ser revertida a norma incluída e por ter maior abrangência, ela constitui o desaguadouro 
de todos os grupos de interesse” (CUNHA, 2009, p. 403). Segundo Silveira
[...] intelectuais, lideranças e grupos religiosos católicos sempre participaram 
das  movimentações  da  Igreja  Católica  pelo  espaço  público  no  Brasil 
Republicano,  organizando  discursos,  campanhas,  passeatas  e  outras  formas 
de pressão e intervenção (como participação e articulações políticas junto às 
autoridades estatais e apelos ao eleitorado com posições próximas à direita).  
(SILVEIRA, 2015, p. 11) 
No  Brasil  do  Estado  Novo,  a  Educação  Moral  e  Cívica  foi  reinserida  nos 
currículos escolares
[...] mas o crescente envolvimento do Brasil na luta contra o Eixo retirou seu 
suporte  político-ideológico.  Isso  não  impediu,  contudo,  que  fossem 
produzidos  livros  didáticos  para  a  Educação  Moral  e  Cívica,  alguns  deles 
publicados  pelo  famigerado  Departamento  de  Imprensa  e  Propaganda. 
(CUNHA, 2009, p. 413) 
Extinta  imediatamente  após  a  deposição  de  Vargas,  durante  o  breve  período 
democrático  que  se  seguiu  ao  Estado  Novo,  de  1946  a  1964,  a  disciplina  Educação 
Moral  e  Cívica  caiu  na  obscuridade.  Além  disso,  em  1961,  o  então  presidente  João 
Goulart assinou a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Prevista desde 
a  Constituição  de  1934,  a  lei  foi  encaminhada  pelo  Poder  Executivo  ao  Legislativo 
ainda  em  1948  e  passou  por  13  anos  de  debates  até  ser  finalmente  aprovada.  Esta 
primeira LDB também vedava o uso de recursos públicos para o Ensino Religioso. 
Para  Cunha,  os  militares  tentaram  reinserir  a  disciplina  nos  currículos 
imediatamente  após  o  golpe,  mas  o  Conselho  Federal  de  Educação  teria  conseguido 


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resistir às propostas da Escola Superior de Guerra até 1969. Só neste momento, a junta 
militar  que  ocupou  a  Presidência  da  República  após  a  deposição  do  vice-presidente 
Pedro  Aleixo  determinou,  por  meio  do  Decreto-lei  n.  869/69  (BRASIL,  1969),  a 
implantação  em  caráter  obrigatório  da  disciplina  em  todos  graus  e  modalidades  de 
ensino do país. Assim como os projetos de lei atuais para restringir a autonomia docente 
utilizam  como  argumento  a  defesa  da  democracia  e  dos  direitos  humanos,  também 
durante a ditadura militar esta argumentação foi  utilizada para a defesa da inserção da 
Educação Moral e Cívica não só no Brasil, mas em todos os Estados membros da OEA, 
como encontramos no trecho a seguir: 
Em 1965, no ano seguinte ao do golpe de Estado, a entidade [Movimento de 
Arregimentação  Feminina]  enviou  manifesto  da  delegação  brasileira  à  II 
Conferência  Interamericana,  promovida  pela  Organização  dos  Estados 
Americanos,  cujo  primeiro  ponto  reivindicava  a  “obrigatoriedade  da 
educação  moral  e  cívica  nas  escolas,  desde  as  primeiras  classes,  para  o 
aprimoramento do regime democrático e repulsa às ideologias totalitárias”; e 
o  último  continha  um  apelo  “a  todas  as  entidades  de  classe,  grupos 
voluntários  e  meios  de  comunicação,  para  que  assumam  uma 
responsabilidade  e  criem  um  clima  em  todas  as  Américas,  a  fim  de 
desenvolver  um  programa  de  formação  moral  e  cívica  e  de  fé  ideológica 
democrática,  baseada  nos  direitos  humanos”  (OLIVEIRA  Apud  CUNHA, 
2009, p.369) 
Ainda  que  o  parecer  n.  94/71  do  Conselho  Federal  de  Educação  (CFE)
87
,  que 
normatizou o ensino da disciplina, proclame “que a Educação Moral e Cívica devesse 
ser aconfessional, isto é, não vinculada à religião específica alguma, a incorporação das 
doutrinas  tradicionais  do  catolicismo  e  de  seus  quadros  não  era  sequer  disfarçada”. 
(CUNHA, 2009, p. 414). De acordo com Cunha, 
[...]  o  parecer  proclamava  que  a  religião  é  a  base  da  moral  a  ser  ensinada. 
Para escapar do paradoxo, o arcebispo lançou mão do conceito de  “religião 
natural”,  isto  é,  aquela  que  levaria  ao  conhecimento  de  Deus  pela  luz  da 
razão. Assim, ficavam afastadas várias religiões, inclusive as da matriz afro-
brasileira,  apesar  de  efetivamente  praticadas  por  dezenas  de  milhões  de 
pessoas,  relegadas  à  condição  de  resíduos  de  ignorância  ou  de  curiosidades 
folclóricas.  O  mesmo  acontecia  com  as  crenças  indígenas,  a  despeito  da 
celebração dos índios como os primeiros brasileiros. (CUNHA, 2009, p. 414) 
Na  década  de  1960,  ao  mesmo  tempo  em  que  começou  a  haver  uma  expansão 
das  igrejas  evangélicas  pentecostais,  principalmente  entre  as  camadas  populares
88
,  a 
Igreja Católica enquanto instituição também se dividiu.  Para Cunha
                                            
87
 O relator deste parecer foi o arcebispo Luciano José Cabral Duarte. 
88
 Mariano citando Pierucci e Prandi, “Comparadas às da população em geral, a renda e escolaridade  dos 
pentecostais são muito inferiores. A já citada pesquisa do Datafolha também esquadrinhou o perfil social 
dos  pentecostais  adultos,  só  que  o  fez  em  todo  o  território  nacional.  Verificou  que,  comparados  aos 
adeptos de outras religiões, eles possuíam o maior contingente de analfabetos (11,2%) e o de pessoas que 
cursaram  até  o  primeiro  grau  (68,3%),  o  maior  número  de  trabalhadores  que  recebiam  até  dois  salários 


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[...] enquanto setores da Igreja Católica comprometidos com os movimentos 
populares  e  orientados  pelo  Concílio  Vaticano  II  eram  reprimidos  pela 
ditadura  e  seus  aliados,  não  faltaram  clérigos  que  colaboraram  com  os 
militares  na  luta  contra  o  “comunismo  ateu”.  Na  área  de  educação,  o  mais 
importante deles foi Luciano Cabral Duarte, arcebispo de Aracajú. Em 1964, 
o arcebispo Duarte era já o  mais destacado intelectual da corrente integrista 
da Igreja Católica, que resistia às mudanças induzidas pelo Concílio Vaticano 
II e seus desdobramentos teológicos e pastorais. No CFE, o arcebispo Duarte 
substituiu  o  padre  Helder  Câmara  como  “representante”  da  Igreja  Católica.  
(CUNHA, 2014b, p. 370) 
Desta forma, a disciplina Educação Moral e Cívica era “uma sólida fusão” deste 
“catolicismo conservador” com “a doutrina de segurança nacional, conforme concebida 
pela Escola Superior de Guerra”. (CUNHA, 2009, p. 413). Nas palavras de Cunha
[...]  apoiando-se nas tradições nacionais, essa disciplina  teria por finalidade: 
a.  a  defesa  do  princípio  democrático,  através  da  preservação  do  espírito 
religioso,  da  dignidade  da  pessoa  humana  e  do  amor  à  liberdade  com 
responsabilidade,  sob  a  inspiração  de  Deus;  b.  a  preservação,  o 
fortalecimento e a projeção dos valores espirituais e éticos da nacionalidade; 
c.  o  fortalecimento  da  unidade  nacional  e  do  sentimento  de  solidariedade 
humana; d. o culto à Pátria, aos seus símbolos, tradições, instituições, e aos 
grandes vultos de sua história; e. o aprimoramento do caráter, com apoio na 
moral, na dedicação à família e à comunidade; f. a compreensão dos direitos 
e  deveres  dos  brasileiros  e  o  conhecimento  da  organização  sociopolítico-
econômica  do  País;  g.  o  preparo  do  cidadão  para  o  exercício  das  atividades 
cívicas,  com  fundamento  na  moral,  no  patriotismo  e  na  ação  construtiva 
visando  ao  bem  comum;  h.  o  culto  da  obediência  à  lei,  da  fidelidade  ao 
trabalho e da integração na comunidade. (CUNHA, 2009, p. 413) 
Segundo Cunha, propagava-se na época a ideia de que as “mais caras tradições 
democráticas e cristãs” estavam sendo “ameaçadas pelo materialismo marxista” e que a 
“infiltração  comunista”  foi  a  responsável  pela  “queda  nos  padrões  de  comportamento 
social”.  Por  isso,  precisaria  haver  um  “saneamento  moral  da  sociedade”;  como  bem 
lembra  Cunha,  “a  ideia  da  regeneração  do  indivíduo  é  essencial  para  o  cristianismo 
desde o início” (ARRUDA Apud CUNHA, 2014b, p. 370). Desta forma, Cunha defende 
que  foram  dois  os  legados  da  ditadura  para  a  educação  pública.  O  primeiro  seria  “a 
educação tratada em função da simbiose Estado-capital” e o segundo seria “a educação 
tratada como instrumento de regeneração moral do indivíduo e da sociedade” (CUNHA, 
2014b, p. 361). 
                                                                                                                                
mínimos  (33,3%),  taxa  de  desempregados  acima  da  média  nacional  (8,2%),  a  maior  proporção  de 
ocupados  como  trabalhadores  por  conta  própria  irregulares  (27,2%)  e  taxa  de  pardos  (34,3%)  e  negros 
(11,1%)  inferior  somente  a  dos  cultos  afro-brasileiros”.  (MARIANO,  2014,  p.  12)  Ainda  segundo 
Mariano,  “Com  o  propósito  de  superar  precárias  condições  de  existência,  organizar  a  vida,  encontrar 
sentido, alento e esperança diante de situação tão desesperadora, os estratos mais pobres,  mais sofridos, 
mais  escuros  e  menos  escolarizados  da  população,  isto  é,  os  mais  marginalizados  -  distantes  do 
catolicismo  oficial,  alheios  a  sindicatos,  desconfiados  de  partidos  e  abandonados  à  própria  sorte  pelos 
poderes  públicos  -,  têm  optado  voluntária  e  preferencialmente  pelas  igrejas  pentecostais.  Nelas, 
encontram receptividade, apoio terapêutico-espiritual e, em alguns casos, solidariedade material.” (Idem)
 
 

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