José alves dias


  O Plano Nacional de Educação e os debates sobre gênero



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2.3  O Plano Nacional de Educação e os debates sobre gênero 
Para  compreender  esses  e  outros  projetos  em  andamento,  é  preciso  analisar 
como o Plano Nacional de Educação
60
 (PNE) foi construído. Em abril de 2010, ocorreu 
a  Conferência  Nacional  de  Educação  (CONAE)  da  qual  participaram  vários  atores  da 
sociedade  civil  para  a  preparação  da  proposta  do  plano  que  estabelece  as  metas  e 
diretrizes das ações públicas voltadas para a educação. Em novembro do mesmo ano, o 
poder  executivo  federal  preparou  o  plano  já  bem  diferente  do  inicial,  que  chegou  em 
dezembro  à  Câmara  dos  Deputados.  Em  março  de  2011,  foi  criada  uma  comissão 
especial para analisar o plano composta por membros da comissão de educação, cultura, 
direitos humanos e minorias, seguridade social e família e finanças e tributação. O PNE 
recebeu mais de 3 mil emendas, número recorde para um projeto de lei. Em outubro de 
2012, o projeto seguiu para o Senado, onde começou a ser analisado em novembro. Em 
dezembro  de  2013,  o  PNE  foi  finalmente  aprovado  no  Senado  e  retornou  à  Câmara, 
onde suas alterações começaram a ser analisadas em fevereiro de 2014.  
Em junho do mesmo ano, quatro anos depois do início das discussões e três anos 
após  a  data  prevista,  o  plano  finalmente  aprovado  era  bem  diferente  do  proposto 
originalmente. Dentre  as mudanças mais  comentadas,  estavam  o montante destinado à 
educação  que,  de  10%  do  PIB  passou  para  8%;  o  destino  deste  dinheiro,  cuja  redação 
inicial  -  “investimento  em  educação  pública”  -,  passou  para  “investimento  público  em 
                                            
60
 CÂMARA DOS DEPUTADOS. Lei 13.005, de 25/06/2014. Disponível em: 
<
http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2014/lei-13005-25-junho-2014-778970-norma-pl.html>
. Acesso 
em: 28 out. 2016. 


51 
 
 
 
educação”,  incluindo,  assim,  repasse  de  verba  para  instituições  privadas  como  o 
PROUNI; e a retirada do gênero do texto final, como resultado do lobby liderado pelos 
deputados/pastores  Marco  Feliciano  (PSC-SP),  Marcos  Rogério  (PDT-RO)  e  Pastor 
Eurico (PSB-PE). Deputados da ala católica radical também tiveram papel fundamental 
no processo, seguindo o entendimento da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do 
Brasil)  de  que  “a  introdução  dessa  ideologia  na  prática  pedagógica  das  escolas  trará 
consequências desastrosas para a vida das crianças e das famílias”
61
.  
 
 
Enquanto  o  PNE  2001-2011
62
,  por  inúmeras  vezes,  se  refere  a  gênero, 
principalmente no tocante à questão da educação como meio de promoção da igualdade 
de gênero, o PNE aprovado no ano de 2014 só foi aprovado na Câmara dos Deputados 
após a retirada das duas  menções  ao termo. A primeira no inciso  III do artigo 2º, cuja 
redação  inicial  estabelecia  que  “são  diretrizes  do  PNE:  superação  das  desigualdades 
educacionais,  com  ênfase  na  promoção  da  igualdade  racial,  regional,  de  gênero  e  de 
orientação sexual” e foi substituída por “superação das desigualdades educacionais, com 
                                            
61
 CÂMARA DOS DEPUTADOS. Lei 10.172, de 09/01/2011. Disponível em: 
http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2001/lei-10172-9-janeiro-2001-359024-norma-pl.html
. Acesso 
em:: 28/10/2016.  
62
 CÂMARA DOS DEPUTADOS. Lei 10.172, de 09/01/2011. Disponível em: 
http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2001/lei-10172-9-janeiro-2001-359024-norma-pl.html
. Acesso 
em:: 28/10/2016. 


52 
 
 
 
ênfase na promoção da cidadania e na erradicação de todas as formas de discriminação.” 
E  a  segunda  na  Estratégia  3.12,  que  previa  “implementar  políticas  de  prevenção  à 
evasão  motivada  por  preconceito  e  discriminação  racial,  por  orientação  sexual  ou 
identidade de gênero, criando rede de proteção contra formas associadas de exclusão”, 
sendo  substituída  por  “implementar  políticas  de  prevenção  à  evasão  motivada  por 
preconceito  ou  quaisquer  formas  de  discriminação,  criando  rede  de  proteção  contra 
formas associadas de exclusão”.
63
 
Porém,  o  Ministério  da  Educação  orientou  que  estados  e  municípios 
produzissem seus planos de educação baseados no texto final da Conferência Nacional 
de Educação (CONAE) 2014 e não no Plano Nacional de Educação. O texto final fora 
sistematizado  e  divulgado  pelo  Fórum  Nacional  de  Educação,  criado  pela  portaria  do 
Ministério da Educação n.º 1.407, de 14 de dezembro de 2010, conforme deliberação da 
CONAE 2010.  
Imediatamente, houve reação na Câmara dos Deputados. O Projeto de decreto do 
legislativo nº 122
64
, de 2015, visou “sustar os efeitos da inclusão da ideologia de gênero 
no documento final do CONAE-2014, assinado e apresentado pelo Fórum Nacional de 
Educação”. Segundo o texto do documento, “ficam sustados os efeitos do Documento 
Final do CONAE - 2014, assinado e apresentado pelo Fórum Nacional de Educação, em 
todas  as  suas  disposições  que  contenham  ou  façam  referência  às  expressões  gênero, 
diversidade  ou  orientação  sexual”.  O  projeto,  originalmente  de  autoria  do  deputado 
Flavinho, foi assinado também por quase setenta deputados
65
. Outro projeto de decreto 
legislativo  relacionado  à  questão  do  gênero  foi  o  nº  214,  de  2015
66
,  que  sustou  a 
Portaria  nº  916,  de  9  de  setembro  de  2015,  do  Ministério  da  Educação,  que  “institui 
Comitê  de  Gênero,  de  caráter  consultivo,  no  âmbito  do  Ministério  da  Educação”, 
trazendo  como  texto  de  justificativa  o  mesmo  já  apresentado  no  já  citado,  PL 
                                            
63
 CÂMARA DOS DEPUTADOS. Lei 13.005, de 25/06/2014. Disponível em: 
http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2014/lei-13005-25-junho-2014-778970-norma-pl.html 
64
 CÂMARA DOS DEPUTADOS. PDC 122/2015. Disponível em: 
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=1430832
. Acesso em: 
28/10/2016.
 
65
 Lista completa disponível em: 
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_autores?idProposicao=1430832
. Acesso em:: 
28/10/2016. 
66
 CÂMARA DOS DEPUTADOS. PDC 214/2015. Disponível em: 
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=1724803
. Acesso em: 
28/10/2016. 


53 
 
 
 
1.859/2015. O projeto é de autoria do Pastor Eurico e mais outros quase 50 deputados
67

Com  a  análise  dos  proponentes  dos  dois  projetos,  percebemos  que  as  bancadas 
evangélicas  e  católicas  foram  mobilizadas  mais  uma  vez  para  impedir  a  discussão  de 
gênero na educação. 
Ainda  como  reação  à  orientação  do  MEC,  foram  feitos  na  Câmara  dos 
Deputados  dois  requerimentos  específicos:  O  REQ-83/2015
68
,  da  comissão  de 
Educação,  que  foi  arquivado,  e  o  Requerimento  de  Informação  (RIC)  565/2015.  O 
primeiro  requeria  “a  realização  de  Audiência  Pública  na  Comissão  de  Educação  para 
discutir a inclusão da ‘ideologia de gênero e orientação sexual’ nos planos estaduais e 
municipais  de  educação,  apesar  da  retirada  de  tais  temáticas  do  Plano  Nacional  de 
Educação”.  Julgamos  particularmente  importante  destacar  os  autores  desses 
requerimentos,  que  foram  Givaldo  Carimbão  (PROS),  Diego  Garcia  (PHS),  Flavinho 
(PSB)  e  Eros  Biondini  (PTB).  Destacamos  a  autoria  por  esta  ser  composta  apenas  de 
parlamentares  católicos,  incluindo  o  líder  da  frente  católica  e  membros  da 
RCC. Destacamos estes propositores pois observamos, ao longo de toda a pesquisa, que 
a  tentativa  de  impedir  o  debate  de  gênero  não  se  deveu  apenas  aos  segmentos 
evangélicos,  mas  também  aos  católicos.  O  segundo,  o  requerimento  de  informação 
565/15, foi proposto pelo deputado Izalci e mais nove deputados. Neste requeriam  
[...]  ao  Ministro  de  Estado  da  Educação  informações  sobre  o  Documento 
Final  do  Conae-2014,  assinado  e  apresentado  pelo  Fórum  Nacional  de 
Educação, como passo na articulação da educação nacional como política de 
Estado,  no  qual  define,  contrariamente  ao  que  foi  estabelecido  durante  a 
votação  do  PNE  nesta  casa,  a  ideologia  de  gênero  como  diretriz  obrigatória 
para  o  PNE,  o  planejamento  e  as  políticas  educacionais  no  Brasil. 
(CAMARA DOS DEPUTADOS, 2015b) 
Com relação aos propositores do primeiro requerimento, gostaríamos de destacar 
o deputado Flavinho. O deputado do PSB tem, como profissões relatadas na sua página 
no site da Câmara dos Deputados
69
 as de empresário, apresentador de televisão, locutor, 
cantor,  escritor  e  compositor.  Também,  segundo  a  página,  o  deputado  tem  como 
escolaridade apenas o Ensino Fundamental, porém é autor de duas obras O Segredo da 
Vida  Conjugal  (SILVA,  2010)  e  Vencendo  Meus  Medos  (SILVA,  2012).  Novato  na 
                                            
67
 A lista completa pode ser conferida em 
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_autores?idProposicao=1724803
. Acesso em: 
28/10/2016. 
68
 CÂMARA DOS DEPUTADOS. REC 83/2015 CE. Disponível em: 
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=1515623
. Acesso em: 
28/10/2016. 
69
 Cf. CÂMARA DOS DEPUTADOS. Informações deputado Flavinho. Disponível em: 
http://www.camara.leg.br/Internet/Deputado/dep_Detalhe.asp?id=178978
. Acesso em: 28/10/2016. 


54 
 
 
 
carreira  política,  o  cantor  da  Canção  Nova  foi  eleito  com  mais  de  90  mil  votos  tendo 
como pauta principal a luta contra o aborto e a defesa dos interesses católicos (CORRÁ 
e SANTOS, 2014). O deputado mantém um perfil na rede social Facebook® que utiliza 
para se comunicar com seus eleitores e fãs
70

 
Flavinho, em diversas ocasiões, foi membro de comissões importantes como as 
comissões  permanentes  de  Educação  (CE)  e  a  de  Direitos  Humanos  e  Minorias 
(CDHM),  além  das  comissões  especiais  como  a  do  Estatuto  da  Família  (PL  6583/13), 
do  Estatuto  do  Desarmamento  (PL  3722/12),  da  Maioridade  Penal  (PEC  171/93)  e  da 
Liberdade de Opinião e Ensino Religioso (PL 6314/05). Além dos projetos relacionados 
ao Escola Sem Partido já citados, o deputado também é autor de vários projetos de lei 
conservadores,  além  de  projetos  que  beneficiam  diretamente  a  igreja  católica. 
Gostaríamos  de  destacar,  de  autoria  do  deputado,  o  REQ-3935/2016
71
  que  “Requer  a 
aprovação  de  Moção  de  repúdio  à  atuação  do  órgão  de  Direitos  Humanos  da 
Organização das Nações Unidas-ONU por quebra do princípio democrático, com ofensa 
às  liberdades  individuais,  ao  direito  à  vida  e  à  saúde  dos  cidadãos  brasileiros”  pela 
pressão desta entidade à descriminalização do aborto no Brasil. 
Outro  membro  da  Renovação  Carismática  Católica  e  cantor  da  Canção  Nova 
com destaque na Câmara dos Deputados no combate à discussão de gênero na educação 
é  o  deputado  Eros  Biondini.  É  de  sua  autoria  o  Projeto  de  lei  nº  2731,  de  2015,  que 
“altera  a  lei  13.005  de  25  de  junho  de  2014,  que  estabelece  o  plano  nacional  de 
educação – PNE e dá outras providências”. Segundo a nova redação, inclui-se no artigo 
2º o parágrafo único: “É proibida a utilização de qualquer tipo de ideologia na educação 
nacional,  em  especial  o  uso  da  ideologia  de  gênero,  orientação  sexual,  identidade  de 
gênero e seus derivados, sob qualquer pretexto”.  
 
O  texto  do  projeto  também  estabelece  punições.  Aos  estados  e  municípios  que 
incluírem  o debate de  gênero em seus  prazos,  está previsto que isto “impossibilitará o 
repasse  de  recursos  financeiros  federais,  destinados  à  educação,  ao  ente  federativo” 
assim  como  aos  educadores  estabelece-se  que  “o  descumprimento  da  proibição  de 
utilização da ideologia de gênero, orientação sexual e congêneres ou de qualquer outro 
tipo  de  ideologia,  na  educação  nacional,  sujeitará  os  infratores  às  mesmas  penas 
                                            
70
 Perfil do deputado Flavinho no Facebook: 
https://www.facebook.com/Flavinhocn/#. Acesso em: 
28/10/2016.
 
71
 CAMÂRA DOS DEPUTADOS. REQ 3935/2016. Disponível em: 
<
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2077181>
. Acesso em: 28 
out. 2016. 


55 
 
 
 
previstas no artigo 232 da Lei nº 8.069/90 (ECA), além da perda do cargo ou emprego”. 
O citado artigo estabelece a quem “submeter criança ou adolescente sob sua autoridade, 
guarda ou vigilância a vexame ou a constrangimento” a pena de detenção de seis meses 
a dois anos. 
O deputado Eros Biondini do PROS/MG é de Belo Horizonte, Minas Gerais, e é 
médico veterinário e músico. Segundo a página da Câmara dos Deputados, possui pós-
graduação lato sensu em Poder Legislativo pela PUC-BH (2008). Já foi filiado ao PHS 
(2005-2009), ao PTB (2009-2016) e ao PROS (2016 – atual). Foi deputado estadual em 
BH/MG,  (PHS  /  2007-2011)  e  está  em  seu  segundo  mandato  como  deputado  federal 
(PTB-MG/  2011-2015;  2015-2019).  Fez  parte  do  Conselho  Estadual  de  Direitos 
Humanos de Belo Horizonte de 2007 a 2011 e também já foi Presidente da Comunidade 
Canção  Nova  Minas.  Na  Câmara,  foi  membro  das  comissões  especiais  do  Estatuto  da 
Família (PL 6583/13) e de Liberdade de Opinião e Ensino Religioso (PL 6314/05). Na 
votação  pelo  impedimento  da  Presidenta  Dilma  Rousseff,  o  deputado  votou 
favoravelmente  com  um  discurso  bastante  significativo  para  esta  pesquisa  como 
veremos a seguir: 
Sr. Presidente, pelos valores que herdei dos meus pais, e que procuro repassar 
aos meus filhos; pela gratidão que tenho à Renovação Carismática Católica, à 
Canção  Nova  e  aos  demais  movimentos  que  me  ajudaram  a  me  livrar  das 
drogas;  pelos  milhões  de  brasileiros  que  vivem  hoje  nas  drogas  e  não  têm 
ajuda;  para  honrar  os  belorizontinos,  os  mineiros,  os  brasileiros  nesta  Terra 
de  Santa  Cruz,  o  meu  voto  é  "sim".  E  o  voto  do  meu  suplente,  Euclides, 
também seria "sim", Sr. Presidente. (CAMARA DOS DEPUTADOS, 2016a) 
O deputado é ativo nas redes sociais e quase todos os dias deixa em sua página 
no Facebook
®
 um vídeo com a benção do dia a todos seus eleitores e fãs. Em seu perfil, 
também  são  divulgadas  imagens  dos  seus  shows,  de  seus  encontros  com  líderes 
religiosos  católicos,  falando  em  plenário  e  até  recebendo  a  comunhão,  em  uma  missa. 
No dia 27 de maio de 2016, o deputado fez uma postagem comemorando o aniversário 
do grupo de oração Beata Elena Guerra na Câmara dos Deputados (BIONDINI, 2016a), 
que  ocorre  todas  as  quartas  feiras.  E  no  dia  07  de  junho,  o  deputado  postou  sua 


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