José alves dias



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11
 liberal  Instituto 
Millenium,  tendo  sido  por  muito  tempo  articulista  e  depois  um  dos  mantenedores  do 
                                            
10
 Cf. Composição da mesa da Audiência pública “Liberdade de expressão em sala de aula” da Comissão 
de 
Educação, 
Cultura 

Esporte 
do 
Senado 
Federal. 
 
Disponível 
em: 
<
http://legis.senado.leg.br/comissoes/reuniao?reuniao=5325
>.  Acesso  em:  18  out.  2016.  É  interessante 
que o propositor do projeto de lei nesta casa, o senador Magno Malta, não foi convidado para a audiência 
e sim Miguel Nagib como autor do projeto de lei. 
11
  Um  Think-Tank  é  em  geral  um  grupo  de  interesse  ou  uma  instituição  que  investe  em  divulgação  e 
propagação de conhecimento com viés político-ideológico definido e ligado a interesses particulares deste 
grupo, visando transformações na sociedade. 


24 
 
 
 
instituto
12
. O Instituto Milenium é “o principal think tank da direita brasileira, criado em 
2006  e  financiado  por  empresas  nacionais  e  transnacionais,  com  eco  na  linha  editorial 
de parte da grande imprensa e popularizada por jornalistas como Rodrigo Constantino” 
(MIGUEL, 2016, p. 593). 
Ao  buscarmos  mais  informações  sobre  a  Associação  Escola  Sem  Partido,  que 
seria  a  pessoa  jurídica  do  MESP,  acabamos  nos  deparando  com  a  existência  de  uma 
segunda  pessoa  jurídica:  Escola  Sem  Partido  Treinamento  e  Aperfeiçoamento  Eireli  – 
ME.  Esta  seria  uma  Empresa  Individual  de  Responsabilidade  Limitada  de  Natureza 
Empresária do procurador Miguel Nagib e seu ramo de atividade seria treinamento em 
desenvolvimento  profissional  e  gerencial  que  tem  um  capital  de  quase  oitenta  mil 
reais
13
.  Portanto,  a  apresentação  do  MESP  como  apenas  “uma  iniciativa  conjunta  de 
estudantes  e  pais  preocupados  com  o  grau  de  contaminação  político-ideológica  das 
escolas brasileiras” (ESCOLA SEM PARTIDO, 2014-2017), como  consta no site, vai 
de encontro à sua proximidade ideológica com a corrente liberal e o desenvolvimento de 
suas  atividades  empresariais,  que  contradizem  uma  neutralidade  defendida 
publicamente. 
 
No  site,  encontramos  artigos  variados  com  críticas  ao  modelo  de  educação 
(chamado  pelos  autores  de  doutrinação)  defendido  por  Paulo  Freire,  e  uma  área  com 
links  para  informações  sobre  os  livros  recomendados  pelo  movimento,  chamada  de 
“Biblioteca Politicamente Incorreta”. Nesta, são indicados apenas quatro livros: O Guia 
Politicamente Incorreto da História do Brasil (NARLOCH, 2012), o Guia Politicamente 
Incorreto da América Latina (NARLOCH e TEIXEIRA, 2011), O livro Por uma Crítica 
da  Geografia  Crítica  (FILHO,  2013)  e  o  livro  Professor  Não  é  Educador 
(WURMEISTER, 2012)
14
 - este último tem o título sempre repetido pelos defensores do 
projeto.  Também  são  indicados  dois  blogs.  Um  deles  é  o  Tomatadas  (FILHO,  2011-
2017),  do  professor  Luís  Lopes  Diniz  Filho,  do  departamento  de  Geografia  da 
Universidade  Federal  do  Paraná,  autor  do  livro  de  geografia  indicado  na  seção 
“Biblioteca  Politicamente  Incorreta”  e  o  outro  é  o  blog  De  Olho  no  Livro  Didático 
(SILVA, O., 2014-2016), no qual o autor Orley José Silva, professor da rede municipal 
                                            
12
 As ligações do procurador com o Instituto foram investigadas por Aquino em artigo do Blog Liberdade 
para  Ensinar.  Disponível  em:  
Acesso em: 18 out. 2016. 
13
 
De 
acordo 
com 

pesquisa 
no 
website 
ConsultaSocio.com. 
Disponível 
em: 
. Acesso em: 18 out. 2016. 
14
  Para  mais  informações  consultar  o  website  “Professor  não  é  educador”.  Disponível  em: 
<
https://www.facebook.com/Professornaoeeducador>. 
Acesso em: 18 out. 2016. 


25 
 
 
 
de  Goiânia  e  mestrando  em  Teologia  pelo  Seminário  Presbiteriano  Renovado  Brasil 
Central  (SPRBC)
15
,    defende  a  ideia  de  que  os  livros  didáticos  e  paradidáticos  são 
material para doutrinação no comunismo ou nas religiões de matriz africana.   
São  inúmeras  as  seções  do  site  do  movimento.  Algumas  delas  são  destinadas 
especificamente  a  tratar  da  “doutrinação”  em  sala  de  aula,  em  livros  didáticos  e  em 
provas de concurso público como as provas do ENEM, provas de vestibular e provas de 
concurso para o ingresso no serviço público. Há também a seção intitulada “Síndrome 
de  Stocolmo”,  destinada  a  relatar  casos  em  que  alunos  defendem  seus  professores 
“doutrinadores”. Segundo a página,  
Vítima  de  um  verdadeiro  “sequestro  intelectual”,  o  estudante  doutrinado 
quase  sempre  desenvolve,  em  relação  ao  professor/doutrinador,  uma  intensa 
ligação  afetiva.  Como  já  se  disse  a  propósito  da  Síndrome  de  Estocolmo, 
dependendo do grau de sua identificação com o sequestrador, a vítima pode 
negar  que  o  sequestrador  esteja  errado,  admitindo  que  os  possíveis 
libertadores  e  sua  insistência  em  punir  o  sequestrador  são,  na  verdade,  os 
responsáveis por sua situação. De modo análogo, muitos estudantes não só se 
recusam  a  admitir  que  estão  sendo  manipulados  por  seus  professores,  como 
saem  furiosos  em  sua  defesa,  quando  alguém  lhes  demonstra  o  que  está 
acontecendo. (ESCOLA SEM PARTIDO, 2016?b)  
Uma  destas  seções  traz  um  modelo  de  notificação  extrajudicial  para  os  pais 
usarem  para  ameaçar
16
  professores  e  direções  de  colégios.  Segundo  Miguel,  “a 
campanha  pelas  notificações  extrajudiciais  contra  escolas  e  contra  docentes  surgiu  às 
margens  do  MESP,  na  direita  católica,  tendo  como  iniciador  o  procurador  Guilherme 
Schelb”  que,  em  vídeo,  chegou  a  citar  a  possibilidade  da  família  “obter  polpudas 
indenizações pecuniárias de professores e colégios” (MIGUEL, 2016, p.602). 
                                            
15
 Cf. Seminário Presbiteriano Renovado Brasil Central. Disponível em: 
http://www.sprbc.com/
. Acesso 
em: 18 out. 2016. 
16
 Na audiência realizada pela Comissão Especial de Educação do Senado Federal no dia 17 de novembro 
de 2016 a procuradora Deborah Duprat voltou a afirmar que estas notificações extra judiciais não 
possuem nenhum efeito legal. Professores contra o Escola Sem Partido. Facebook
®
. 19 nov. 2016. 
Disponível em: 
https://www.facebook.com/contraoescolasempartido/videos/1657157161243260/

Acesso: 10 dez. 2016. 


26 
 
 
 
Figura 1 - Página inicial do Movimento ESP.
 
 
Fonte: http://www.escolasempartido.org/ 
Uma antiga seção do site, intitulada Por uma lei contra o abuso da liberdade de 
ensinar, foi recentemente transformada em um link para uma nova página na qual trata-
se especificamente de assuntos referentes aos projetos de lei Escola Sem Partido. Desde 
um  debate  ocorrido  no  Canal  Futura
17
  entre  Miguel  Nagib  e  o  professor  Fernando 
Penna,  da  Faculdade  de  Educação  da  Universidade  Federal  Fluminense,  em  que  o 
último  problematizou  alguns  pontos  do  projeto  de  lei  contrapondo-os  ao  discurso 
presente no site do MESP, há um  banner com o aviso em letras maiúsculas: “Esta é a 
página  do  Movimento  Escola  sem  Partido.  Para  visitar  a  página  do  anteprojeto  de  lei 
contra  a  doutrinação  nas  escolas, clique  aqui”  em  uma  tentativa  de  desvincular  os 
projetos  de  lei  Programa  Escola  Sem  Partido
18
  do  Movimento  Escola  Sem  Partido 
(MESP). 
                                            
17
 Neste debate “Miguel Nagib, causou espanto ao dizer que o objetivo do método Paulo Freire é recrutar 
jovens  para  o  PT,  aparentemente  desconhecendo  o  fato  de  que  as  principais  contribuições  do  educador 
pernambucano  datam  dos  anos  1960,  isto  é,  muito  antes  do  surgimento  do  partido”.  (MIGUEL,  2016, 
p.601)  “Escola  sem  partido”.  Sala  Debate.  Canal  Futura,  exibido  em  19  jul.  2016.  Disponível  em: 
<
https://www.youtube.com/watch?v=J2v7PA1RNqk>
. Acesso em: 18 out. 2016.  
18
  Programa  Escola  Sem  Partido  é  nome  dos  anteprojetos  de  lei  criados  por  Nagib  e  que  foram  assim 
apresentados em sua maioria em câmaras municipais, assembleias estaduais e no congresso nacional.   


27 
 
 
 
Figura 2 - Banner presente na página do Movimento Escola sem Partido que busca 
desvincular os projetos de lei Programa Escola Sem Partido do Movimento 
 
Fonte: http://www.escolasempartido.org/ 
 
Entretanto, a desvinculação de ambos é impossível. O movimento que surgiu há 
doze anos manteve-se muito tempo sem grande expressividade, encontrando maior eco 
na sociedade em três momentos (PENNA, 2016c). O primeiro momento se deu em 2007 
por  ocasião  da  polêmica  gerada  pela  coluna  no  Jornal  O  Globo  do  jornalista  Ali 
Kamel
19
,  no  qual  ele  fez  duras  críticas  à  coleção  de  livros  didáticos  Nova  História 
Crítica, de Mario Schimidt (KAMEL, 2007);  o segundo momento  foi em 2011, com  a 
querela  gerada  em  torno  do  material  produzido  pelo  Ministério  da  Educação  de 
Combate à Homofobia  (SOARES, 2015), chamado pela mídia de “Kit  Gay”. Segundo 
Miguel, 
[...] o crescimento da importância do MESP no debate público ocorre quando 
seu  projeto  conflui  para  o  de  outra  vertente  da  agenda  conservadora:  o 
combate  à  chamada  “ideologia  de  gênero”.  Antes,  a  ideia  de  uma  “Escola 
Sem Partido” focava sobretudo no temor da “doutrinação marxista”, algo que 
estava  presente  desde  o  período  da  ditadura  militar.  O  receio  da  discussão 
sobre  os  papéis  de  gênero  cresceu  com  iniciativas  para  o  combate  à 
homofobia  e  ao  sexismo  nas  escolas  e  foi  encampado  como  bandeira 
prioritária  pelos  grupos  religiosos  conservadores.  Ao  fundi-lo  à  sua  pauta 
original,  o  MESP  transferiu  a  discussão  para  um  terreno  aparentemente 
“moral”  (em  contraposição  a  “político”)  e  passou  a  enquadrá-la  nos  termos 
de uma disputa entre escolarização e autoridade da família sobre as crianças. 
(MIGUEL, 2016, p.596) 
Segundo  Miguel,  “fica  patente  que  a  oposição  dos  religiosos  conservadores  à 
educação  progressista  nas  questões  de  gênero  é  inteiramente  independente  do 



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