Jardim do Éden revisitado



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Jardim do Éden revisitado

Roque de Barros Laraia

Universidade de Brasília

RESUMO: Análise do mito de Lilith, primeira esposa de Adão, segundo

a tradição judaica, que foi expurgada do texto, hoje conhecido, pela cen-

sura dos editores bíblicos que procuraram adequar o livro sagrado aos va-

lores e padrões morais de suas épocas. O Autor mostra que esses cortes

não foram suficientes para apagar totalmente a figura de Lilith da tradi-

ção oral e, muito menos, de alguns textos rabínicos. No decorrer deste mito

fica claro que, ao consumir o fruto proibido, Adão adquiriu o  conheci-

mento do bem e do mal e não apenas o da sexualidade. Mas, o mais im-

portante é o fato que Lilith representa a primeira reação feminina ao do-

mínio masculino.

PALAVRAS-CHAVE: Mitologia cristã, demônio feminino, livros apócrifos.

Claude Lévi-Strauss cautelosamente evitou a realização de uma aná-

lise estruturalista do Gênesis, sob a alegação de que “a mitologia do

Velho Testamento foi distorcida pelas operações intelectuais dos edi-



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tores bíblicos” (Leach, 1983:74), além do fato de considerar o con-

texto etnográfico como “quase inteiramente ausente” nos referidos

textos. Esta argumentação foi refutada por Leach em seu brilhante

artigo “A Legitimidade de Salomão”(Id., ibid.), no qual demonstrou

a existência na Bíblia de evidências etnográficas passíveis de serem ana-

lisadas pelo método antropológico, além da consideração que a seqüên-

cia cronológica que foi estabelecida pelos “editores” tem, “por si mes-

ma, um significado estrutural”.

Concordamos com Leach sobre a disponibilidade do material bíbli-

co para a análise antropológica e também que os antropólogos, que

utilizam os mitos de outras religiões, devem abandonar o seu “melin-

dre extraordinário com a análise do Cristianismo e do Judaísmo que

são religiões nas quais eles próprios, ou seus amigos próximos, estão

profundamente envolvidos.” (:136). Retomamos, portanto, neste tra-

balho, o texto bíblico do Gênesis, buscando demonstrar que os “edi-

tores bíblicos”, através do tempo, procuraram mediante uma atitude

censorial uma espécie de “pasteurização”

1

 do discurso original, numa



tentativa de adequá-lo aos valores morais e culturais de suas respecti-

vas épocas. Contudo, os trechos que foram objetos de cortes não ti-

veram o seu registro totalmente apagado, continuam disponíveis em

outros textos, principalmente os da religião Judaica. A legitimidade

etnográfica deste material pode ser invocada, pois o Cristianismo é uma

religião derivada do Judaísmo, partilhando com o mesmo o discurso

mítico contido no Velho Testamento.

Ao retomarmos a análise das histórias que têm como cenário o Jar-

dim do Éden seguimos a trilha aberta por Frazer, Freud e principal-

mente o próprio Leach (1970), mas, ao contrário destes autores, pre-

tendemos utilizar os trechos que foram extirpados nas sucessivas

edições do discurso mítico.

No sétimo dia da Criação, Deus criou o homem à sua imagem: “à

imagem de Deus o criou: macho e fêmea os criou.” (Gênesis, 1,27).




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Tal afirmação categórica é uma negação da versão mais difundida: a

de que o homem foi criado antes da mulher. Neste ponto, existem in-

terpretações diferentes. A primeira é a de que Adão seria um ser andró-

gino (macho e fêmea) e que a separação de Eva representaria a cisão

da criatura original andrógina em duas (Unterman, 1992:25). A andro-

ginia de Adão é explicada em alguns textos  rabínicos, como no Sepher

Ha-Zohar, que contêm a afirmação de rabi Abba: “O primeiro homem

era macho e fêmea ao mesmo tempo pois a escritura diz: E Elohim

disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança (Gênesis, 1,26).

É precisamente para que o homem se assemelhasse a Deus que foi

criado macho e fêmea ao mesmo tempo”

2

.



Existe, contudo, uma outra interpretação, que nos parece mais fas-

cinante, a de que, a exemplo do que foi feito com os animais, Deus

teria criado um casal: Adão e uma mulher que antecedeu a Eva. Esta

mulher primordial teria sido Lilith

3

, figura bastante conhecida da anti-



ga tradição judaica. Lilith não se submeteu à dominação masculina. A

sua forma de reivindicar igualdade foi a de recusar a forma de relação

sexual com o homem por cima. Por isso, fugiu para o Mar Vermelho.

Adão queixou-se ao Criador, que enviou três anjos em busca da noi-

va rebelde. Os três anjos eram Sanvi, Sansanvi e Samangelaf

4

. Os



emissários do Senhor tentaram em vão convencer a fujona. Ameaça-

ram afogá-la no mar

5

. Lilith, porém, respondeu: “Deixem-me, não



sabeis que não fui criada em vão e que é meu destino dizimar recém-

nascidos; enquanto é um menino tenho poder sobre ele até o oitavo

dia, se é menina, até o vigésimo. No entanto, ela jurou aos anjos, em

nome do Deus vivo, de que sempre que avistasse as figuras ou apenas

os nomes dos mensageiros de Deus, deixaria a criança em paz. Tam-

bém aceitou o fato de que diariamente iriam perecer cem de seus pró-

prios filhos.” (Gorion, :53). Lilith foi transformada em um demônio

feminino, a rainha da noite, que se tornou a noiva de Samael, o Se-

nhor das forças do mal.



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Segundo uma velha tradição, Lilith seria uma figura sedutora, de

longos cabelos, que voa à noite, como uma coruja, para atacar os ho-

mens que dormem sozinhos. As poluções noturnas masculinas podem

significar um ato de conúbio com a demônia, capaz de gerar filhos

demônios para a mesma. As crianças recém-nascidas são as suas prin-

cipais vítimas. A crença em Lilith, durante muito tempo, serviu para

justificar as mortes inexplicáveis dos recém-nascidos. Uma forma de

proteger as crianças contra a fúria da bela demônia é escrever na por-

ta do quarto os nomes dos três anjos enviados pelo Senhor. Outra ma-

neira é a de afixar no berço do recém-nascido, três fitas, cada uma delas

com um nome dos três anjos. Segundo Unterman, na véspera do Shabat

e da Lua Nova, quando uma criança sorri é porque Lilith está brincando

com ela. Para protegê-la deve se bater três vezes de leve no nariz da

criança, pronunciando uma fórmula de proteção contra Lilith

6

. O mes-


mo Autor afirma que, na Idade Média, era considerado perigoso be-

ber água nos solstícios e equinócios, períodos estes em que o sangue

menstrual de Lilith pinga nos líquidos expostos. Finalmente, uma ou-

tra tradição judaica afirma que a lendária rainha de Sabá que teria vi-

sitado Salomão nada mais era do que Lilith. O sábio rei, contudo,

descobriu o ardil, ao levantar a saia da rainha e constatar que as suas

pernas eram peludas.

Segundo uma lenda judaica, após a expulsão do paraíso, Adão para

se mortificar ficou cento e trinta anos afastado de Eva. Uma ocasião

que estava dormindo sozinho, Lilith o encontrou e deitou-se ao seu

lado e dele concebeu um sem número de demônios. Os que se defron-

tavam com eles eram torturados e mortos

 

(Gorion, :54).



A rebelião de Lilith contra Adão e o Criador levou à necessidade

da criação de Eva, esta formada a partir de uma costela de Adão

(Gênesis, 2, 21). É possível, portanto, imaginar que um corte foi rea-

lizado entre o capítulo 1, versículo 28, e o capítulo 2, versículo 21. É

provável que este corte tenha ocorrido, mesmo em época bastante



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remota, como no quarto século antes de Cristo, quando se supõe que

o texto escrito tomou uma forma aproximada da atual (Leach,

1983:77). O próprio teor do capítulo 1, versículo 28, sustenta esta

hipótese: “E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multi-

plicai-vos, e enchei a terra ...” Como seria possível abençoar a ambos

e recomendar a multiplicação se Eva ainda não estava criada?

Roberto Sicuteri (1986:27)

 

chama a atenção  para um outro deta-



lhe importante: após a criação de Eva, extraída da costela de Adão,

este diz: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne;

esta será chamada varôa, porquanto do varão foi tomada” (Gênesis,

2, 23). Para Sicuteri, esta agora soa como desta vez numa inequívoca

referência a uma mulher anterior.

Eva, porém, à sua maneira, repetiria o gesto de rebelião de sua

antecessora. Deus tinha permitido ao homem comer todas as frutas do

jardim, com apenas uma exceção: “Mas da árvore da ciência do bem

e do mal, d’ela não comerás; porque no dia que d’ela comeres, certa-

mente morrerás.” (Gênesis, 2,17). É exatamente esta interdição que é

rompida por Eva. A versão canônica é que a mulher assim procedeu

tentada pela serpente, sob a alegação de que o consumo da fruta proi-

bida a tornaria tão poderosa como Deus. Acreditando na pérfida ser-

pente, Eva comeu do fruto proibido e convenceu o seu companheiro

a fazer o mesmo. A punição por este ato de desobediência original foi

a perda da imortalidade, a partir de então os homens tornaram-se mor-

tais. Existem outras interpretações para esta história. Os teólogos

modernos acreditam que a serpente foi a forma tomada pelo demônio

para tentar Eva. Existe também a crença de que Lilith teria se trans-

formado em serpente para tentar Eva e se vingar de Adão. Uma ter-

ceira interpretação é a que faz parte de uma tradição judaica: “a ser-

pente bíblica era um animal astucioso, que caminhava ereto sobre as

duas pernas, falava e comia os mesmos alimentos que o homem. Quan-

do viu como os anjos prestigiavam Adão, teve ciúme dele, e a visão




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do primeiro casal tendo relação sexual despertou na serpente o desejo

por Eva. Por instigação de Satã ou Samael, ou, segundo algumas ver-

sões, possuída por ele, a serpente persuadiu Eva a comer o fruto proi-

bido e seduziu-a. Como castigo, suas mãos e pernas foram cortadas e

ela teve de se arrastar sobre o seu ventre, todo alimento que comia sa-

bia a pó, e tornou-se eterna inimiga do homem.(...) Quando teve rela-

ção sexual com Eva, injetou sua peçonha nela e em todos os seus des-

cendentes. Essa peçonha só foi removida do povo de Israel quando

estavam no monte Sinai e receberam o Torá.” (Unterman, 1992:236).

Expulsos do paraíso, Adão e Eva tiveram, segundo a versão canô-

nica, dois filhos: Caim e Abel (Gênesis, 4, 1 e 2). As causas do fratri-

cídio cometido por Caim são bastante conhecidas, por isso passamos

diretamente para uma outra versão:  “num paroxismo de ciúme pela

não aceitação de sua oferenda e por uma irmã gêmea que Abel des-

posara (o grifo é nosso), Caim matou seu irmão.” (Unterman,

1992:54). Chamamos a atenção para um elemento novo que surge

neste momento, a existência de uma irmã gêmea que fora desposada

por Abel. Posteriormente, voltaremos a tratar deste assunto. No mo-

mento, interessa-nos mais a versão de que Caim, de fato, não era fi-

lho de Adão, mas da serpente que tinha seduzido Eva. E mais, quan-

do foi banido para o leste do Éden, Deus lhe atribuiu chifres, para

afugentar os animais que lhe pudessem atacar. A sua punição consis-

tia em perambular pela terra, sem descanso, sem que ninguém o pu-

desse matar. Contudo, foi morto por um seu descendente, Lamech que

o confundiu com um animal selvagem. A versão atual não faz menção

ao “parricídio” de Lamech, mas nos dá indício que neste ponto tam-

bém agiram os editores bíblicos. Vejamos o que diz os versículos 23 e

24 do capítulo 8 do Gênesis: 23. “E disse Lamech as suas mulheres:

Ada e Zilla, ouvi a minha voz; vós, mulheres de Lamech, escutai o meu

dito; porque eu matei um varão por minha ferida, e um mancebo por

minha pisadura”. 24.“Porque sete vezes Caim será castigado, mas



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Lamech setenta vezes sete.” Por que este último versículo atribui uma

maior punição a Lamech? A resposta nos é dada pelo versículo l5 do

mesmo capítulo: “O Senhor porém disse-lhe: Portanto qualquer que

matar a Caim sete vezes será castigado. E pôs o Senhor um sinal em

Caim, para que não o ferisse qualquer que o achasse.” Este versículo

não deixa dúvida sobre quem foi a vítima da flecha de Lamech, além

disto refere-se a um sinal colocado por Deus em Caim, que pode ser

os chifres mencionados na tradição judaica.

O versículo 25 do capítulo 8, também, é bastante significativo: “E

tornou a Adão a conhecer a sua mulher; e ela pariu um filho, e cha-

mou o seu nome Seth; porque disse ela Deus me deu outra semente

em lugar de Abel; porquanto Caim o matou.”  Esta frase de Eva fica-

ria melhor na boca de Adão (não teria sido ele que a proferiu?), por-

que Adão somente considera como a sua descendência a de Seth (desde

que Abel não deixou descendentes). Contudo, os versículos 17 a 22

do capítulo 8 referem-se a grande descendência de Caim. Para se ter

uma idéia de sua dimensão, basta registrar que Lamech era neto de

Mehujael, bisneto de Caim; ou seja, cinco gerações o separava de seu

maldito ancestral. Resta, então, uma dúvida que nos permite formular

duas hipóteses: a primeira, Adão teria repudiado a linhagem de Caim

em função do fratricídio; a segunda é que Adão não considerava a

descendência de Caim, sabedor da infidelidade de Eva.

Em seu artigo “O Gênesis enquanto um mito”, Leach (1983) de-

monstrou as característica míticas das estórias bíblicas. Repetindo os

argumentos desse Autor, podemos analisar o Velho Testamento como

um mito porque existe uma comunidade de pessoas que acreditam no

texto sagrado “quer correspondam aos fatos históricos ou não”. Os

disparates e contradições existentes no discurso bíblico reforçam a sua

definição como mito, porquanto “a não racionalidade do mito é a sua

verdadeira essência, pois a religião exige uma demonstração de fé que

se faz suspendendo-se a dúvida crítica.”



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Utilizando-se da linguagem técnica da comunicação, Leach demons-

tra que uma das características do mito é o da redundância, ou seja,

uma mesma mensagem deve ser repetida várias vezes para melhor atin-

gir os receptores. Assim, no discurso canônico, o homem é criado duas

vezes: (Gênesis 1, 27) “E creou Deus o homem à sua imagem...” e

(Gênesis 2,7) “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra...”.

Além disso, existe ainda um outro momento da criação da humanida-

de a partir da descendência de Noé: (Gênesis 9, 1): “E abençoou Deus

a Noé e a seus filhos, e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei

a terra.” As reincidências das redundâncias visa a superação dos ruí-

dos das interferências que surgem entre o transmissor e os recepto-

res. Os adeptos da Bíblia acreditam na natureza divina do transmis-

sor, mas a maioria deles ignora as interferências provocadas pelos

chamados editores bíblicos. A Antropologia não está interessada na

discussão do caráter divino do transmissor. Os antropólogos acredi-

tam mesmo na existência de diversos transmissores que foram, no

decorrer do tempo, os responsáveis pela criação do mito. Neste tra-

balho, enfatizamos os ruídos que se colocaram entre os emissores

ancestrais e os receptores que continuam a existir. As distorções apon-

tadas por Lévi-Strauss ao invés de nos afugentarem serviram de estí-

mulos para a análise que faremos a seguir.

Do ponto de vista antropológico, o Gênesis é um mito de origem

que busca explicar o surgimento do primeiro homem e como tal não

difere muito de outros mitos, integrantes das diferentes cosmologias

existentes, principalmente em dois pontos fundamentais:

1) O mito não visa a explicação do surgimento de toda a humani-

dade – como depois foi sugerido pelos exegetas judaicos e cristãos –

mas, apenas o surgimento de um povo específico, no caso os hebreus.

Tal fato está confirmado pelo versículo 16 do capítulo 4: “E saiu Caim

de diante da face do Senhor, e habitou na terra de Nod, da banda do

oriente do Éden.” O versículo seguinte afirma que “Caim conheceu a

sua mulher e ela concebeu, e pariu Enoch...” Há duas interpretações




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possíveis para estes dois versículos: a primeira é que o conheceu significa

apenas ter relações sexuais e, portanto, Caim teria chegado ao leste do

Éden já com uma companheira. Mas a interpretação mais plausível é que

de fato tenha encontrado um outro povo. Isto é mais condizente com o

estilo dos mitos de origens, marcados fortemente pelo etnocentrismo.

2) O mito narra a história do pecado original. É portanto semelhante

às narrativas que mostram que o homem perdeu a imortalidade em fun-

ção de sua própria culpa. Uma escolha mal feita, um ato de desobedi-

ência (como no Gênesis) ou uma ofensa a um ser sobrenatural. Os Tupi

Guarani seriam imortais se a primeira mulher não tivesse duvidado dos

poderes de Mahíra. O texto bíblico relata a dupla desobediência da

mulher: Lilith não atende a convocação do Senhor para voltar para Adão;

Eva come do fruto proibido e convence Adão a fazer o mesmo.

O pecado original transforma os seres puros, criados por Deus, em

seres impuros. A mulher, a principal responsável pela queda, expres-

sa a sua impureza através da própria biologia. Assim o fluxo menstru-

al é considerado pelos hebreus como uma forma de poluição que exi-

ge rituais de purificação para aqueles que são contaminados. Ao se

relacionar sexualmente com a serpente, Eva foi contaminada pela ter-

rível peçonha da mesma. Tal contaminação é transmitida a toda sua

descendência, tanto aos filhos de Seth como de Caim. Esta peçonha

foi retirada do povo de Israel, no monte Sinai, quando Deus estabele-

ceu um novo pacto com os Hebreus (Êxodo, 34, 10-28), conclamando-

os a uma forte endogamia. O casamento com outros povos possibili-

taria uma nova contaminação com a peçonha de Eva. O etnocentrismo

da religião judaica contrasta, neste ponto, com o caráter universalista

do cristianismo. Maria, a mãe de Jesus, torna-se a mãe de toda huma-

nidade para com a sua pureza livrá-la da contaminação original. O

sacrifício de Cristo seria um novo pacto de Deus com os homens, mas

desta vez uma aliança universal.

Todos os mitos de origem defrontam-se com a questão do incesto. É

comum o caso de um casal de gêmeos que dá origem à espécie huma-




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na. Nestes casos, o mito estabelece uma relação de inversão com as prá-

ticas sociais de seus adeptos. A relação sexual consangüínea é permiti-

da aos ancestrais, que vivem naquele tempo, mas se torna uma prática

abominável para os mortais comuns. O Gênesis não escapa desta carac-

terística. Mesmo se desprezarmos a pouco conhecida irmã gêmea de

Abel, tão cobiçada por Caim

7

, as práticas incestuosas aparecem no



Gênesis. Primeiro, com o próprio Adão e a Eva, filhos de um mesmo

Criador, portanto tecnicamente irmãos, e carne da mesma carne, con-

forme proclamou Adão. Segundo, com Seth que gerou a Enos, prova-

velmente com a parceria de uma mulher, filha de Adão.

Em uma cultura fortemente marcada por oposições binárias, do tipo

bem/mal, mulheres permitidas/mulheres proibidas etc., temos que concor-

dar, mais uma vez, com Leach que as personagens do Gênesis pertencem

a uma terceira categoria de seres, os anômalos ou os mediadores, que são

capazes de praticar atos proibidos ao restante da humanidade.

Discordamos, portanto, de Leach quando estabelece que o consu-

mo do fruto proibido levou o primeiro homem e a primeira mulher ao

conhecimento da sexualidade, quando  diz que “Adão e Eva comem

o fruto proibido e tornam-se conscientes da diferença sexual”. Basea-

mos a nossa discordância tanto na análise dos textos canônicos quan-

to os não canônicos. Quanto a estes últimos, lembramos que Lilith

abandonou Adão porque queria ficar por cima no ato sexual; a serpente

desejou Eva estimulada pela visão da mulher tendo relações sexuais

com o primeiro homem. Quanto aos primeiros, recordamos que o

versículo 28, do capítulo 1, apontado anteriormente neste trabalho

como anterior à Eva, e conseqüentemente antes de sua desobediên-

cia, recomendava ao casal inicial “frutificai e multiplicai-vos e enchei

a terra...” O próprio versículo 27, quando diz “macho e fêmea os

criou”, já sugere a possibilidade do intercurso sexual. Por outro lado,

não existe nenhuma indicação de relacionamento com a sexualidade

nos trechos mais relacionados com a desobediência  original como nos



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versículos 4 e 5, do capítulo 3: 4. “Então a serpente disse à mulher:

Certamente não morrereis.” 5. “Porque Deus sabe que no dia em que

d’ele comerdes se abrirão aos vossos  olhos, e sereis como Deus, sa-

bendo o bem e o mal.” Foram, com certeza, editores bíblicos de um

período mais recente, dominados por uma ética sexual do tipo que hoje

chamamos judaico-cristã, que adaptaram o texto tornando-o mais com-

patível com uma moral sexual mais rígida e estabelecendo uma nova

dicotomia de categorias do bem e do mal. Foram eles que considera-

ram a prática sexual como pecaminosa.

A principal mensagem do conjunto de mitos produzidos por uma

sociedade de pastores e guerreiros nômades, fortemente patriarcal e

patrilinear como demonstram as genealogias do Gênesis, imbuída de

uma ideologia machista, refere-se exatamente à questão da mulher vista

como um ser extremamente perigoso, necessitando portanto ser for-

temente controlada. Esta forma de perigo fica demonstrada, no mito,

pelo comportamento das duas primeiras mulheres, as esposas de Adão.

Lilith recusou ser dominada pelo homem. “Por que devo deitar em-

baixo de você?” – pergunta ela – “Eu também sou feita do pó, e assim

sendo somos iguais”

8

. E nem mesmo a tentativa de Adão de dominá-



la pela força produz resultado; ela invoca o nome de Deus e foge para

o mar Vermelho, uma região abundante em demônios lascivos, com

os quais ela reproduz diariamente uma centena de lilim (demônios,

filhos de Lilith). A sua rebelião a transforma definitivamente em um

ser demoníaco, perpétuo inimigo dos homens e de suas crianças. É

muito significativo que Lilith não ataque as mulheres, com a exceção

apenas das noivas. Eva, denominada por Adão “a mãe de todos os seres

viventes”, e mais fácil de ser subjugada porque não foi feita como ele

do pó, mas de uma parte dele, também demonstrou a sua capacidade

de ser perigosa.  Ao ser seduzida pela serpente, desobedeceu a ordem

de Deus de não comer do fruto proibido e convenceu ao homem a fazer

o mesmo (“Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira,




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ela me deu da árvore, e comi” – Gênesis, 3, 12), condenando toda huma-

nidade a ser exilada do Éden. Estruturalmente, Lilith e Eva cometeram o

mesmo crime, o da desobediência ao Senhor e foram punidas da mesma

forma: Todos os dias, por toda a eternidade, Lilith, “a mãe dos demôni-

os” tem que se conformar com a morte de 100 lilim; da mesma forma, Eva

é a responsável pela morte de todos os seus descendentes que poderiam

ser imortais se continuassem a viver no Paraíso.

Concluindo, a nossa intenção neste trabalho foi uma reconstrução

de um mito de origem de um grupo de pastores nômades que mais tarde

foram identificados como Hebreus, pertencentes a uma mesma área

cultural, cujos maiores expoentes foram as culturas Babilônica e

Sumeriana. Muito dos mitemas encontrados nos mitos bíblicos tem a

sua origem nas versões mais antigas dos povos da Mesopotâmia. O

processo de canonização do Torá (e conseqüentemente da Bíblia) ini-

ciou-se aproximadamente no ano 400 a.C., durante o governo de Ezra

9

,



um dos chamados editores bíblicos. Não pretendemos reconstituir aqui

todas as modificações sofridas após o livro sagrado dos judeus ter sido

apropriado pelo Cristianismo, apenas daremos uma idéia destas trans-

formações indicando a quantidade de textos que foram considerados

apócrifos

10 


pelos diferentes editores.

Cerca do ano 100 a.C., os rabinos preocupados com a canonização

do Torah consideraram como verdadeiros todos os textos que foram

produzidos antes de 500 a.C., mantendo uma constante discussão sobre

os demais. Este processo culminou entre a queda de Jerusalém (70

a.C.) e o ano de 135, pelos componentes da chamada escola de Yavneh.

A partir desta época nenhum novo livro podia ser acrescentado e re-

jeitado. Tal fato deixou de lado um considerável número de textos em

hebreu ou aramaico, que foram então denominados os livros escondi-

dos ou os apócrifos. Muitos destes textos foram incorporados no

Septuagint, uma versão grega do Velho Testamento, produzida em 270

a.C. e, desta forma, é uma variante mais extensa que a Bíblia judaica.




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A tradição protestante é mais fiel ao texto Hebreu, enquanto a católi-

ca está mais próxima do Septuagint.

São considerados apócrifos nas Igrejas Protestantes e aceitos pela

Igreja Católica os livros de Tobias (escrito em Hebreu e Aramaico, 200

a.C.), Judith (escrito em Hebreu, 200 a.C.), A Sabedoria de Salomão

(composto nos meios helenísticos, 100 a.C.), Baruch ( 100 a.C.), A Carta

de Jeremias, Macabeus I e II ( o primeiro escrito em Hebreu e o segun-

do em Grego, ambos cerca de 200 a.C.), Adições ao livro de Daniel (data

desconhecida), Adições ao livro de Ester (provavelmente 100 a.C.) e A

Sabedoria de Jesus Sirach (escrito em Hebreu, 200 a.C.).

São considerados apócrifos tanto nas Igrejas Protestantes como na

Católica os livros de Macabeus III e IV (100 a.C.), Ezra III e IV (200

a.C.) e a Prece de Manasseh (data incerta).

São considerados apócrifos pela Igreja Católica e pseudografados

pelas Igrejas Protestantes os livros A Carta de Aristea (200 a.C.), Ju-

bileus (escrito em Hebreu no fim do segundo século a.C.), O Testa-

mento dos Doze Patriarcas (escrito em hebreu ou aramaico, entre o

primeiro e o segundo século a.C.), Enoch I (165 a.C.), Salmos de

Salomão (escrito em hebreu, cerca de 50 a.C.), A Assunção de Moisés

(início da era cristã), A Ascensão de Isaias (idem), O Apocalipse de

Baruch ( 50 a.C.), os Livros Sibilinos (inicio da era cristã) e o Docu-

mento de Damasco (200 a.C.).

Tal inventário

11

 mostra a quantidade de material que foi retirado das



bíblias atuais e que provavelmente, em muitos casos, contêm uma quan-

tidade razoável de informações míticas à disposição dos estudiosos

preocupados com uma análise antropológica da cosmologia judaica.

De nossa parte, contentamos-nos em ter realizado uma análise que,

seguindo os passos da efetuada por Leach,  parece-nos mais abrangente

e mais fiel às versões mais arcaicas do mito hebreu.




- 162 -

R

OQUE



 L

ARAIA


. J

ARDIM


 

DO

 É



DEN

 

REVISITADO



Notas

1

Utilizamos o verbo pasteurizar no sentido de realizar um processo atra-



vés do qual se extrai o que não é desejável.

2

De Pauly, apud Roberto Sicuteri.



3

“Lilith é usualmente derivado da palavra Babilônica/Assíria Lilitu ‘um

demônio feminino ou um espírito do vento’ – parte de uma tríade menci-

onada nas invocações mágicas babilônicas. Mas aparece mais cedo como

Lilake em uma inscrição Sumeriana do ano 2000 a.C. que contém a len-

da ‘Gilgamesh e o Salgueiro’. É uma demônia vivendo em um tronco de

salgueiro vigiado pela deusa Inanna (Anath) em uma margem do Eufrates.

A etmologia do hebreu popular parece derivar Lilith de layl, noite, e ela

freqüentemente aparece como um monstro noturno peludo no folclore

Árabe.” (Graves e Patai, 1983:68).

4

Robert Graves & Raphael Patai (1983) citam os nomes Senoy,  Sansenoy



e Semangelof, como as palavras que devem ser usadas para afugentar

Lilith. Estes Autores não estão certos que estes sejam os nomes próprios

dos emissários do Senhor.

5

“De acordo com uma lei sumeriana, se uma mulher 'odeia' seu marido e



diz para ele 'Voce não é mais meu marido' ela deve ser lançada no rio”

(Campbell e Freedman, 1970). Provavelmente é numa lei semelhante a

esta que se baseia a ameaça dos anjos.

6

Entre nós existe o costume de dizer que uma criança que está sorrindo



brinca com um anjo. Esta afirmação é da mesma estrutura mítica que a

referida no texto, passando, porém, por uma transformação simples do tipo

“substitua cada elemento por seu oposto binário” (Leach, 1983:81). No

texto, a criança brinca com o demônio, entre nós com o anjo.

7

Casando-se ao leste do Eden, Caim poderia ter se livrado do pecado do inces-



to, mas Leach compara o fratricídio a uma forma homossexual de incesto.


- 163 -

R

EVISTA



 

DE

 A



NTROPOLOGIA

, S


ÃO

 P

AULO



, USP, 1997, 

V

. 40 nº1.



8

Com esta frase, Lilith indica a simultaneidade de sua criação e o fato de

ter sido feita da mesma matéria que Adão. Neste sentido, é bastante

esclarecedor o trecho de Fox, R. (1993:17): “Deus pega um punhado de

terra (“o pó da terra”, em hebraico “adamah”), e molda o homem (“adam”),

como se a semelhança existente entre duas palavras pudesse apontar para

uma verdadeira ligação entre dois objetos.”

9

Ezra foi governador de Judá, a serviço de Artaxerxes I, Rei da Pérsia.



Restaurou os muros da cidade de Jerusalém e procurou dar maior liberda-

de ao povo judeu. A sua principal preocupação foi a de regulamentar os

livros sagrados, sendo Autor de um deles (Musaph-Andriesse, 1982).

10 Este termo era utilizado inicialmente para se referir aos livros excluidos

do  conjunto canônico, tendo mais tarde adquirido um significado pejora-

tivo.


11 As informações sobre o processo de canonização e a relação dos apócrifos

e pseudografados foram extraídas do livro de Musaph-Andriesse.






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