Introdução Projeto Quilombo das Artes: arte da cidadania 9



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5. Considerações Finais


Diante de minha experiência e escuta da fala de monitores e participantes do projeto, material para meu TCC, identifiquei o quão necessário pode ser o uso da escuta e do diálogo para um processo de conscientização de cidadania, para que se possa encontrar espaços livres de expressão e aproximação das artes.

Também pude constatar que o uso das artes consegue abranger a escuta e o diálogo, abrindo espaço para aqueles que pouco são ouvidos. O trabalho focado na área do Teatro pode provocar o pensamento e a gestação de ideias, contribuindo com o crescimento individual, da autoconsciência, de consciência social e de respeito ao outro. Mas dentro dessa reflexão surgem questionamentos: Será que as pessoas querem um teatro que faça pensar? Será que os moradores de bairros carentes sentem falta de uma ação transformadora? O teatro deve ser sempre transformador? Perguntas que ainda não encontrei respostas, e talvez nunca as terei.

A partir das entrevistas percebi a transformação que tanto os participantes, quanto os monitores sofreram dentro do projeto. Os participantes afirmam que hoje se relacionam mais no meio social, se expressam e dialogam com outras pessoas sem a vergonha de se expor. Que conseguem ter mais autonomia para expressar suas ideias e já buscam alternativas de vida diferentes para seu futuro. Conseguem ver o Teatro para além da visão estereotipada que o reduz a de decorar um texto e subir ao palco.

Os monitores têm a experiência como um marco em suas vidas, além de uma visão diferenciada sobre Teatro e educação. Conseguem ver o valor que as artes possuem principalmente em áreas de vulnerabilidade social.

O Quilombo das Artes busca a transformação social através das artes, mas também a arte como forma de expressão humana autônoma, de afeto e diálogo. Mas por ser uma extensão da universidade, acontecimentos, como a greve, acabaram se refletindo nas ações no bairro, resultando em diminuição do trabalho em campo e abandono dos participantes. Outro fator que implicou a evasão dos participantes foi saída, por vezes repentina, de monitores. O apego e carinho que os jovens e crianças têm por seus monitores são enormes. Uma saída ou uma troca de monitor sem aviso prévio soa como um abandono. Embora o projeto seja de atuação continuada, a saída de monitores, compromete o andamento das práticas desenvolvidas. Outro fator que é preciso rever é a forma como os monitores e coordenadores agem entre si, e como agem dentro da comunidade. É preciso refletir se há um diálogo e um escuta durante as reuniões, se há compreensão, coleguismo e respeito. Como um monitor pode pensar em formar alguém tendo atitudes contraditórias?

Em cima dessa análise, percebo que além de incentivar os participantes aos estudos e a uma transformação pessoal e social, é preciso que haja um incentivo para a construção de um espaço que possa abranger as artes dentro do bairro, criado pela própria comunidade comprometida. Não seria melhor um período máximo de intervenção de ONGs e projetos dentro dessas comunidades, até o ponto delas criarem uma autonomia? A criação de um espaço, criado por ela mesma, poderá fortificar a ideia de autonomia e capacidade de transformação que essas pessoas podem conquistar. Ao invés de esperar que outros projetos como o Quilombo das Artes continuem atuando na comunidade, é importante que o bairro se apodere da ideia e semeie a transformação.

Revendo minha experiência dentro do projeto e conciliando com meu estágio, me vejo como uma pessoa capaz de multiplicar o conhecimento que construí. Enquanto no curso de teatro - licenciatura, nos primeiros semestres, não estava vinculada a trabalhos de extensão ou de ensino tinha a insegurança de não saber lidar com crianças e adolescentes. Temia não conseguir transpor meus conhecimentos. Quando tive a oportunidade de entrar para o projeto, minha insegurança era de não saber lidar com a pobreza, com a violência e com o descaso das famílias. Pensei que não permaneceria muito tempo no projeto.

Porém, todo o processo do projeto me abalou muito emocionalmente e me fez crescer como pessoa e como profissional. A partir da minha atuação dentro do CRAS, percebi a falta que a arte faz em um local assim. Enquanto essas crianças e adolescentes podem desenvolver atividades que os impulsionem para uma busca de futuro melhor, acabam por se acomodar à maneira como vivem, pois são poucos os profissionais dentro do CRAS que buscam formas través das quais esses participantes possam se desenvolver integralmente como pessoas.

Pelas entrevistas com alguns dos participantes, pude constatar que o projeto foi significativo na vida deles. Que todo o conhecimento construído dentro do projeto foi e é válido. As práticas dialógicas fizeram sentido e modificaram suas maneiras de pensar, de se ver, de ver os outros e de se relacionar. Levaram as ideias, propostas e questionamentos para suas vidas fora do projeto.





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