Introdução Projeto Quilombo das Artes: arte da cidadania 9


- A luta contra a (des)informação midiática



Baixar 96.47 Kb.
Página5/9
Encontro16.06.2020
Tamanho96.47 Kb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9
3 - A luta contra a (des)informação midiática
Além dos objetivos do projeto citados anteriormente, monitores e coordenadores procuram fazer com que os participantes busquem outras informações que não sejam midiáticas. As informações que a maioria dos participantes do projeto recebem são vindas dos meios de comunicação, especialmente da televisão, das rádios e das redes sociais. De forma semelhante, e não diferente do fenômeno de consumo que alcança os diversos segmentos sociais, as músicas mais ouvidas e os filmes mais vistos são aqueles vinculados pela mídia como produtos de moda, de consumo e efêmeros. Dificilmente a arte aí tem vez.

A programação “frequentemente” medíocre da televisão, a crueldade e a mentira muitas vezes expressa nas redes sociais infantiliza a capacidade do pensamento e das escolhas. A cultura do consumo é lançada diariamente por todos os meios de comunicação. Somos o que consumimos. Possivelmente é sobre as populações mais pobres e carentes que as forças midiáticas de consumo lançam suas raízes de desejo.

Essa mesma força midiática reforça estereótipos de pobreza e subtrai os potenciais e a visão de mundo especialmente de quem mora em bairros pobres. Muitas vezes quando a pobreza é mostrada nos meios de comunicação tem como finalidade causar comoção e compaixão, sem questionar a razão de sua existência.

Em um de seus artigos o professor Victor Hugo Adler Pereira questiona a maneira como pobreza tem sido representada:


(...) saltam aos olhos certa despolitização da questão da miséria e uma dificuldade patente nos modos que se vêm tornando canônicos de focalizá-la no cinema brasileiro de suscitar mais do que a solidariedade ou a indignação- poucas vezes provocando a reflexão ou apresentando vertentes desconhecidas dos meandros da exploração e do desrespeito pelos excluídos que grassam no país.

(...) podemos nos perguntar se a maior parte dos trabalhos desse gênero que se vêm divulgando nas telas e nos palcos brasileiros não acaba por reforçar estereótipos sobre uma pretensa identidade dos setores marginalizados nos meios urbanos, aplainando diferenças e ignorando as responsabilidades , os compromissos e a participação no processo de marginalização social de outros setores da sociedade, inclusive da classe média, que constitui o principal contingente da plateia dessas manifestações culturais. (PEREIRA, 2009, p.40)


Esse reforço acaba por acomodar tanto quem vive em comunidades carentes, fazendo com que acreditem e aceitem suas condições, quanto as comunidades de classe média/alta que naturalizam a desigualdade social.

Era difícil encontrar entre os participantes do projeto um que já houvesse assistido a uma peça teatral, no entanto, na ausência de condições de escolha e opções era raro algum participante que não acompanhasse um reality show do momento, que não soubesse a música e a coreografia correspondente da música da moda. O mercado de consumo retira da modernização e da tecnologia aquilo que poderia representar uma melhor qualidade de vida e de pensamento.

Muitas vezes me deparei com adolescentes que se interessavam pelas mesmas músicas e mesmos programas e, alguns, quando questionados do porquê, respondiam: “porque todo mundo gosta!” A formação da identidade3 desses jovens está totalmente ligada ao mercado global. Todavia, esses jovens não conseguem descobrir qual sua identidade no meio de inúmeras mensagens lançadas pelo mercado.

O professor Stuart Hall, em seu livro A identidade cultural na pós modernidade explica que:


Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas -desalojadas- de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem “flutuar livremente”. (HALL, 1999, p.75)
Sem desconsiderar o fenômeno da homogeneização, nos encontros dentro do projeto, procuramos mostrar aos participantes outras músicas, filmes, danças, expressões de artes visuais, além do próprio teatro ao qual poucos têm acesso. A ideia é de que eles pudessem desenvolver a capacidade de escolha e que reconhecessem a importância de ter liberdade e consciência para escolher.

Igualmente, estimulou-se a leitura, o acesso à prosa e à poesia para que as crianças e adolescentes pudessem se aproximar e descobrir outros âmbitos humanos, outras histórias e outros mundos, a beleza da literatura. O hábito da leitura que incentiva o pensamento e a imaginação.

A estratégia pedagógica partiu das músicas e filmes impostos pelo mercado de consumo, para depois, em um segundo momento, introduzimos outras possibilidades de expressão artística. Pouco a pouco, especialmente os adolescentes foram descobrindo e se encantando com âmbitos humanos da arte antes inacessíveis. Ao trocarmos informações artísticas com os participantes, explicávamos a importância de não se focar apenas nas mesmas expressões artísticas que estavam acostumados, que era importante e fácil conhecer outras vias artísticas. Para alguns, o uso da internet era apenas para jogos e redes sociais. Tentamos fazer com que eles usassem a internet para pesquisar além, fosse músicas, filmes ou grupos de teatro e dança.

Essa ampliação de consciência de mundo contribui para a formação da consciência estética, política e cidadã.

Se ampliarmos o conhecimento cultural desses jovens, isso implica em um conhecimento pessoal de cada um e a partir desse conhecimento individual, um reconhecimento como cidadão. É preciso que eles construam suas ideias, seus gostos pessoais e assim se constituam como indivíduos capazes de buscar seus direitos.




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal