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para  o  Maracanã  (1998)

,  Gisella  de  Araújo  Moura,  o  Brasil  passava  por  um  momento 

especial,  buscava o progresso e crescimento econômico, e também  investia  na  conquista da 

integração nacional - necessária para obter desenvolvimento. Gisella (1998) também ressalta 

que numa sociedade desigual como a brasileira, em que as leis só são respeitadas por quem 

não está acima delas, obter uma identidade nacional não é tarefa fácil. No Brasil percebe-se 

em manifestações culturais as fontes de identidade nacional, a exemplo do carnaval, festas e 

futebol,  e  não  em  instituições  centrais  da  ordem  (MATTA,  CARVALHO  apud  MOURA 

1998). Um  evento da grandeza de uma Copa do Mundo auxilia os países a consolidar uma 

integração  nacional,  ficando  mais  próximos  dos  símbolos  do  país  -  bandeira,  hino,  cores 

(MOURA, 1998). 

 

 



“No  âmbito  das  relações  internacionais,  é  incontestável  que  as  Copas  do  Mundo, 

realizadas a cada 4 anos, são eventos que já fazem parte de um período estrutural, 

cujas  conjunturas  específicas  determinam  o  país  que  realizará  o  evento  segundo 

interesses  que  na  maior  parte  das  vezes  ultrapassam  o  domínio  esportivo,  sendo 

influenciados  diretamente  por  questões  econômicas,  políticas  e  até  mesmo 

geopolíticas” (CABO, 2008 p. 3).

37

 

 



De acordo com Rosa (2013), a década de 50 foi marcada por grandes mudanças no 

mundo, além de avanços tecnológicos e científicos, culturais e comportamentais, o mundo foi 

marcado,  por  exemplo,  pelo  início  da  Guerra  da  Coreia

38

,  o  Pacto  de  Varsóvia,  o  primeiro 



Campeonato de Fórmula 1, e também no final da década, a Guerra do Vietnã e a Revolução 

Cubana. No Brasil, neste período, a indústria passou a ser o principal alicerce da economia, a 

urbanização e industrialização trouxeram o surgimento de novos produtos e novos hábitos, o 

país criou a Petrobras em outubro 1953, a primeira Bienal Internacional de arte de São Paulo 

ocorreu em 1951, Getúlio Vargas foi encontrado morto em agosto de 1954 após seu suicídio, 

e o país ganhou sua primeira Copa do Mundo em 1958, na Suécia. Além dos fatos já citados, 

a  Era  da  Rádio  dava  espaço  as  transmissões  televisivas,  com  a  inauguração  da  TV  Tupi, 

                                                

37

 Disnponível em: 



<

http://www.contemporanea.uerj.br/pdf/ed_11ex/10_AlvaroCABO_IISeminarioPPGCOM.pdf

> Acesso em: 30 

de out 2015.

 

38

 Teve um início em 25 de junho de 1950 e terminou com o país divido em Coreia do Sul e Coreia do Norte em 



27 de julho de 1953.

 



42 

 

primeiro  canal  de  televisão  da  América  Latina,  em  1950,  houve  uma  grande  mudança  nos 



meios de comunicação, tendo como primeira grande transmissão a Copa do Mundo no Brasil.

 

Embora  o  Brasil  tenha  perdido  para  o  Uruguai  a  disputa  final  no  Maracanã,  a 



imagem que o país imprimiu para o exterior foi de um evento organizado - com a construção 

do  maior  estádio  de  futebol  na  época  -  de  um  povo  civilizado  e  comportado,  além  de  ter 

demonstrado  sua  capacidade  empreendedora  para  aqueles  que  duvidavam  do  potencial 

nacional.

39

 O sentimento de derrota nacional após  a partida contra o Uruguai  foi suavizado 



pelo lucro da competição, que rendeu a cifra de Cr$ 36.577.360,50, enquanto as despesas não 

passaram  de  Cr$  16.000.000,00,  e  embora  tenhamos  perdido  para  os  uruguaios,  o  futebol 

jogado pelo brasileiros somado a civilidade da torcida brasileira encantou o mundo, levando 

Jules Rimet, presidente da FIFA no momento da Copa, a considerar o Brasil como o campeão 

mundial do cavalheirismo, disciplina e hospitalidade (Moura 1998 apud Santos 2005). Com a 

proximidade da Copa, o discurso de civilidade foi fortemente incentivado, sendo uma grande 

preocupação  o  comportamento  dos  brasileiros  nos  estádios,  o  que  as  demais  delegações 

pensariam  do  nosso  comportamento,  para  tal,  discursos  de  cunho  patriótico  orientavam  o 

público a se comportar de maneira ordeira e civilizada, era a chance de ouro de demonstrar a 

educação do povo (Gazeta do Povo, 22 de  junho de 1950  apud LISE, MOSKO, SANTOS, 

CAPRARO,  2010).  A  Copa  do  Mundo  cumpriu  seu  objetivo  e  compromisso,  tendo 

promovido uma boa imagem do país, logrado êxito financeiro, encantado o mundo com seu 

futebol e hospitalidade, sendo a torcida brasileira elogiada mundialmente e colaborado para a 

imagem de “país do futebol” (SANTOS, 2005). 

 

A  Copa  do  Mundo  de  1950,  sediada  no  Brasil,  ocorreu  num  pós  Guerra  em  que  a 



Europa encontrava-se devastada, já a Copa de 2014, também sediada no país, aconteceu num 

momento  de  crise  do  capitalismo  mundial,  no  qual  a  Europa  sofria  grande  depressão  e 

apreensão geradas pela recessão e desemprego (ROSA, 2013). Durante esse hiato de mais de 

sessenta  anos,  o  Brasil  ganhou  cinco  Copas  do  Mundo  e  desde  1958,  com  a  vitória  da 

primeira  Copa,  tornou-se  mais  confiante  quando  à  superioridade  técnica  do  jogador  e  o 

futebol  brasileiro  atraiu  cada  vez  mais  atenção,  levando  em  1990  à  polêmicas  acerca  dos 

jogadores de futebol que, devido a circulação internacional do futebol globalizado e do perfil 

de emigração presente aos atletas brasileiros, colocava em pauta a crise de identidade nacional 

e da brasilidade no âmbito esportivo (HOLLANDA, 2012). Com o tempo o futebol passou de 

                                                

39

 Segundo o jornalista Mario Filho apud Cabo 2008.



 


43 

 

esporte burguês à objeto de lucro, no livro  História  do futebol brasileiro  de autoria de  Joel 



Rufino dos Santos, o autor aponta:

 

“Os atletas e dirigentes contrários à popularização do esporte recusavam receber e 



pag

ar um centavo que fosse. Temiam a morte do “verdadeiro espírito olímpico”. No 

fundo, defendiam uma posição de classe, eram burgueses, com negócios e empregos, 

ameaçados pela invasão proletária. No seu entender, devia-se jogar unicamente por 

amor á camisa, nunca por dinheiro (p. 47 apud 

DIAS, 2008).”

 

 

Desde  a  década  de  1990,  o  futebol  vem  sendo  usado  como  ferramenta  da  política 



externa  brasileira,  começado  a  ser  praticado  no  fim  do  século  XIX  e  restrito  a  clubes 

elitizados,  o  esporte  conquistou  a  popularidade  na  década  de  1920  e  logo  conquistou  os 

brasileiros de todas as classes, sendo atualmente associado aos esforços de governos de várias 

bandeiras  ideológicas  na  promoção  do  prestígio  internacional  do  país  e  na  consolidação  da 

imagem de potência, no caso brasileiro, em ascensão, afirma o cientista político e professor de 

Relações Internacionais da UERJ, Maurício Santoro (2014). O autor também defende que a 

diplomacia  é  um  campo  de  confronto  e  nem  sempre  as  iniciativas  são  bem  sucedidas,  e 

entender essas iniciativas é um modo de analisar as controvérsias sobre a Copa de 2014.

 

O  presidente  Getúlio  Vargas  sonhava  com  a  vitória  do  Brasil  na  Copa  de  1938  (o 



país  ficou  em  terceiro  lugar),  e  em  sediar  a  Copa  em  1942  -  que  não ocorreu  por  conta  da 

Guerra -, contudo o país realizou a Copa, como já visto, em 1950, sob o controle do sucessor 

de Vargas, o General Eurico Gaspar Dutra. A Copa terminou com a derrota do Brasil para o 

Uruguai  na  final,  mas  serviu  para  a  imprensa  internacional  ressaltar  a  educação  e 

hospitalida

de do povo brasileiro mesmo com a derrota em um jogo considerado “ganho” para 

a seleção brasileira (SANTORO, 2014). Inspirado na derrota de 1950, o jornalista e escritor 

brasileiro  Nelson  Rodrigues  escreveu  sobre  o  trauma,  relatado  na  Manchete  Esportiva  em 

1958, que ficou conhecido como “complexo de vira-lata”: 

 

Eis a verdade, amigos: - desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si 



mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e 

na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente 

nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo 

que nos ficou dos 2 x 1. [...] A pura, a santa verdade é a seguinte: - qualquer jogador 

brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo 

de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma:  - temos 

dons  em  excesso.  E  só  uma  coisa  nos  atrapalha  e,  por  vezes,  invalida  as  nossas 

qualidades.  Quero  aludir  ao  que  eu  poderia  chamar  de  "complexo  de  vira-latas". 

Estou  a  imaginar  o  espanto  do  leitor:  -  "O  que  vem  a  ser  isso?".  Eu  explico.  Por 

"complexo de  vira-latas" entendo eu a inferioridade em que o  brasileiro se coloca, 

voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, 

no futebol. [...] Eu vos digo: - o problema do escrete não é mais de futebol, nem de 

técnica,  nem  de  tática.  Absolutamente.  É  um  problema  de  fé  em  si  mesmo.  O 

brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar 




44 

 

e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso, ponham-no para correr em 



campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: - para 

o escrete, ser ou não ser vira-

latas, eis a questão” (RODRIGUES, 1993, p. 51-52).

 

 



Superando  o  “complexo  de  vira-lata”,  a  seleção  brasileira  conquistou  o  primeiro 

título do Mundial em 1958, em meio ao desenvolvimento e realizações que ocorreram durante 

a presidência de Juscelino Kubitschek, já no decorrer da ditadura militar o futebol foi usado - 

e abusado - como instrumento de propaganda, especialmente após o tricampeonato em 1970, 

no auge da repressão política, sendo a seleção brasileira a  ilustração da potência que o país 

estaria se tornando (SANTOS, 2014). Após o tricampeonato,  a seleção entrou num jejum de 

conquistas, hiato que ocorreu entre a transição da ditadura para a democracia e foi marcada 

por uma crise econômica. A seleção só saiu vitoriosa em 1994, após a hiperinflação ter sido 

combatida, e no século XX, o esporte se tornou um importante - e poderoso - instrumento nas 

políticas de cooperação internacional do governo Lula

40

, inclusive foi criada a “coordenadoria 



da bola”, unidade específica para o futebol (SANTORO, 2014). A  já relatada  força  militar 

brasileira no Haiti, comandada desde 2004 com a finalidade de estabilizar o país, serve bem 

de exemplo de como o futebol age sendo instrumento nas políticas de cooperação e chama a 

atenção da opinião pública para o país. 

 

“Ao longo de boa parte do século XX, o sucesso nos gramados foi fundamental para 



a  construção  de  uma  identidade  nacional,  que  diversos  governos  tentaram  utilizar 

como parte de sua estratégia de política externa” (SANTORO, 2009)

41

 

 



  

A Copa de 2014, ainda de acor

do com Santoro (2014), foi uma decisão “tomada no 

auge da prosperidade econômica da década de 2000”, e o país de lá para cá sofreu uma série 

de  efeitos  da  crise  econômica  mundial  e  uma  onda  de  protestos  internos,  contando  com  a 

Copa  como  um  catalizador  de  descontentamentos,  principalmente  pelo  contraste  entre  os 

serviços oferecidos no país à sua população e o investimento que seria feito para promoção 

internacional.

 

A  trajetória  da  candidatura  do  Brasil  para  sediar  o  evento,  em  2014,  começou  em 



2003  com  a  decisão  do  Comitê  Executivo  da  FIFA  decidindo  que  um  país  da  América 

Latina


42

  sediaria  o  evento,  onze  dias  após  o  anúncio  feito  pela  FIFA  a  CONMEBOL 

(Confederação Sul-Americana de Futebol) decide indicar o Brasil como único candidato, um 

ano após a indicação brasileira o Chile e a Argentina apresentam uma candidatura conjunta, 

                                                

40

 Em 2002, a vitória do Partido dos Trabalhadores levou à presidência Luís Inácio Lula da Silva, notório amante 



de futebol e que assumiu o país em 2003, no ano após a conquista do  pentacampeonato na Copa do Mundo do 

Japão e da Coreia do Sul.

 

41

 Em: <



http://revistadehistoria.com.br/secao/artigos/a-diplomacia-dos-gramados

> Acesso em: 4 de nov. 2015

 

42

 Em agosto de 2000 o Comitê Executivo da FIFA implantou o sistema de rodízio de sedes para a Copa.



 


45 

 

mesmo caso que ocorreu no Japão e Coreia do Sul em 2002, os países afirmam ter o apoio de 



Joseph  Blatter,  presidente  da  Fifa.  O  presidente  da  CONMEBOL  afirma  que  a  Copa  será 

realizada  no  Brasil,  e  mesmo  assim  dois  anos  depois,  em    julho  de  2006,  o  presidente  da 

Colômbia  afirma  seu  interesse  em  sediar  a  Copa  -  fato  que  foi  considerado  rumor  e 

desmentido  pelo  presidente  da  CBF,  Ricardo  Teixeira,  ao  afirmar  que  todas  as  federações 

ligadas à CONMEBOL apoiavam a candidatura brasileira  -, e em  novembro do mesmo ano  

Blatter aconselha o Brasil a preparar bem a proposta de candidatura, pois segundo o dirigente, 

o país deveria agir como se não fosse o único na disputa. No final de dezembro o presidente 

da  Colômbia,  Álvaro  Uribe,  formaliza  a  candidatura  colombiana  e  afirma  que  fará  todo  o 

esforço necessário para vencer o Brasil, desistindo logo em seguida, em abril de 2007 sob a 

alegação de que não teria como arcar com os custos de tamanho evento. Em agosto de 2007 a 

Comissão  de  Inspeção  da  FIFA  inicia  as  visitas  às  cidades  que  concorrem  para  receber  os 

jogos e Battler manisfesta descontentamento com a candidatura única do Brasil à Copa, pois 

mesmo o Brasil tendo condições de organizar uma Copa excepcional, nenhum estádio está no 

padrão FIFA. Finalmente em 30 de outubro de 2007 a FIFA oficializa o Brasil como sede da 

Copa de 2014.

 

A  escolha  do  Brasil  como  sede  da  Copa  do  Mundo  de  2014  foi  uma  iniciativa  da 



FIFA de  levar a Copa para outros continentes  que não a Europa. No século XXI a Copa já 

tinha passado por todos os continentes exceto América do Sul e Oceania, onde o futebol não é 

muito popular. A partir da divulgação do Brasil como país-sede, após 64 anos em que recebeu 

a  primeira  Copa,  o  país  teria  então  uma  nova  oportunidade  de  desenvolvimento  e 

modernização tanto dos estádios quanto da infraestrutura dos municípios, e a política externa 

brasileira  tomou  novos  rumos.  O  discurso  do  Presidente  da  República,  Luiz  Inácio  Lula  da 

Silva,  na cerimônia de  anúncio do Brasil como sede da  Copa de 2014,  foi além do tom de 

muita  alegria  e  prestígio  por  tal  feito  conquistado,  foi  também  um  discurso  pautado  em 

demostrar  que  o  Brasil  tinha  noção  da  responsabilidade  que  estava  assumindo,  como 

demonstrado no trecho:

 

“Eu dizia ao presidente Blatter, antes de começar esta reunião, que o fato de o Brasil 



ter sido escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014 era motivo de muita alegria 

e de muita festa mas, sobretudo, era motivo para que nós regressássemos ao Brasil 

sabendo o que está pesando nas nossas costas: muito mais responsabilidade do que 

quando nós chegamos aqui. Realizar uma Copa do Mundo é uma tarefa imensa, é 

uma tarefa, eu diria, incomensurável [...] Eu quero tranqüilizar os dirigentes da Fifa. 

Essa não é uma responsabilidade do atual presidente 

– que já não serei mais em 2014 

–,  não  é  apenas  responsabilidade  do  presidente  da  Confederação,  não  é  apenas 

responsabilidade dos governadores que estão aqui. No fundo, no fundo, nós estamos 

aqui  assumindo  uma  responsabilidade  enquanto  nação,  enquanto  Estado  brasileiro 

para  provar  ao  mundo  que  nós  temos  uma  economia  crescente,  estável,  que  nós 



46 

 

somos um dos países que está com a sua estabilidade conquistada. Somos um país 



que  tem  muitos  problemas,  sim, mas  somos  um  país  com  homens  determinados  a 

resolver esses problemas. [...] Então, eu quero dizer a vocês: estejam certos de que o 

Brasil  saberá,  orgulhosamente,  fazer  a  sua  lição  de  casa,  realizar  uma  Copa  do 

Mundo para argentino nenhum colocar defeito.”

43

 

 



A responsabilidade de sediar um evento padrão FIFA começou a ser sentida logo no 

início, já que o Brasil não tinha nenhum estádio condizente com as exigências da Federação, a 

mobilidade  urbana  era  e  ainda  é  um  grande  problema,  a  infra-estrutura  das  cidades-sede 

deveria ser melhorada para atender o fluxo de turistas e mostrar que o país estava em grande 

desenvolvimento  e  a  população  em  geral  não  via  a  Copa  com  bons  olhos.  Quando  a  FIFA 

declarou  que  o  Brasil  seria  o  novo  país  a  sediar  a  Copa,  muitos  brasileiros  não  sabiam  se 

acreditavam que seria uma grande festa

44

 ou um grande prejuízo, manifestações como a que 



ocorreu pela redução das tarifas do transporte público, traziam como críticas à realização da 

Copa - e também dos Jogos Olímpicos que serão realizados no país em 2016 - sob a alegação 

de  que  o  investimento  feito  nestes  megaeventos  poderiam  ser  destinados  à  melhorias  nos 

serviços públicos como educação e saúde, estas e outras críticas foram feitas olhando apenas 

para  o  prisma  de  comparações  mecânicas,  sem  pensar  que  megaeventos  esportivos  estão 

inseridos num contexto de economia política e também de seus impactos em diversos campos 

da sociedade, não somente em ganhos econômicos (ROSA, 2013). 

 

A Copa do Mundo FIFA traz benefícios para algumas pessoas no campo individual - 



principalmente para as que possuem ligação com a entidade máximo do futebol -, mas para o 

país atraí investimentos de toda a ordem para as cidades-sede e envolvidas no processo, por 

isso os políticos comemoram tanto a escolha de suas cidades para receber as delegações, isso 

significa investimentos, dinheiro e visibilidade. O grande argumento usado para trazer a Copa 

ao Brasil foi de que o país atrairia uma quantidade de investimentos

45

 relevante, além de uma 



significativa melhoria nas cidades-sede e um maior desenvolvimento neste locais além de um 

legado  benéfico  à  sua  população,  no  entanto  muitas  obras  no  país  não  foram  realizadas,  a 

maior  parte  dos  investimentos  não  trouxe  o  desenvolvimento  esperado,  a  cada  ano  que 

                                                

43

 Disponível em: <



http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/ex-presidentes/luiz-inacio-lula-da-

silva/discursos/2o-mandato/2007/2o-semestre/30-10-2007-discurso-do-presidente-da-republica-luiz-inacio-lula-

da-silva-na-cerimonia-de-anuncio-do-brasil-como-sede-da-copa-do-mundo-de-2014/

> Acesso em: 3 de out. 2015

 

44

 Muitos brasileiros consideravam e aguardavam o anúncio da escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo 



de 2014, pois o projeto seria importante para o país no processo de desenvolvimento. No Rio de Janeiro réplicas 

gigantes da camiseta da seleção brasileira eram vistas em diversos pontos turísticos da cidade, revivendo o lema 

“a copa do mundo é nossa” e causando euforia na população, que festejava o anúncio como se fosse uma final de 

Copa.


 

45

 Os investimentos representaram uma importante oportunidade para alavancar os negócios do país, que recebeu 



investimento  (principalmente  nas  cidades-sede)  em  transporte  urbano,  segurança  pública,  turismo,  saúde  e 

saneamento básico, além de melhorias em aeroportos, estradas e infraestrutura.

 



47 

 

aumentava o valor gasto na Copa, a população se mostrava irritada e criava uma resistência ao 



maior torneio realizado no país.

 

A  Presidente  da  República,  Dilma  Rousseff,  afirmou  numa  visita  a  Havana,  em 



Cuba, que não perceber a importância da Copa é ter “uma visão muito pequena do Brasil”, a 

declaração foi baseada nas manifestações que ocorriam no país, e quando perguntada sobre os 

gastos  públicos  relacionados  à  construção  dos  estádios,  a  Presidente  afirmou  que  o  número 

gasto  está  dentro  da  média,  e  que  as  estruturas  construídas  a  partir  dos  investimentos 

permanecerão beneficiando a população.

 

"É  uma  visão  pequena  do  Brasil,  muito  pequena  do  Brasil  não  perceber  a 



importância que a Copa do Mundo tem para o povo brasileiro e para o país. A Copa 

é um dos eventos culturais mais importantes do nosso país, mobiliza todas as classes 

e está nos nossos corações" disse.

 

 



O  ex-presidente  Lula  mostrou  inconformismo  com  a  perda

46

  de  apoio  popular  à 



realização da Copa, acreditando que o governo tinha perdido a batalha da comunicação, pois 

não  era  isso  que  ele  imaginava  há  oito  anos  quando  liderou  a  candidatura  para  sediar  a 

competição  (COSTA,  2014).  O  argumento  usado  de  que  a  Copa  seria  “prioritariamente 

realizada com recursos privados” caiu por terra quando Ricardo Teixeira, até então presidente 

da  CBF,  deixou  a  presidência  e  o  governo  assumiu  a  responsabilidade  pela  organização  e 

pagamento  da  maior  parte  dos  preparativos  (UOL,  2012)

47

,  gerando  cada  vez  mais 



insatisfação  no  povo  brasileiro  que  via  outras  prioridades  que  não  a  realização  da  Copa  no 

país.


 

Segundo  estudos

48

  realizados  comparando  o  dinheiro  investido  nas  Copas  e  o 



retorno, conclui-se que realizar a Copa não garante crescimento econômico e que pouca coisa 

muda,  de  fato,  nos  países  sede  (que  já  são  países  com  grande  fluxo  de  turistas),  contudo  a 

Copa gera um grande retorno à FIFA e seus patrocinadores, que reverte apenas uma parcela 

de volta ao país, que tem como responsabilidade prover toda a infra-estrututa necessária para 

os  jogos.  O  professor  Stefan  Szymanski,  coordenador  de  Economia  do  Esporte  da 

Universidade de Michigan (apud Dantas 2014), constatou através de dados analisados do PIB 

das  20  maiores  economias  do  mundo  entre  1972  e  2002,  que  a  Copa,  na  verdade,  gera  um 

impacto negativo de menos de 1% no ano seguinte à sua realização, e que não influenciam a 

                                                

46

 A população começou a se mostrar insatisfeita com os gastos referentes à Copa, que só aumentavam, com o 



atrasos nas obras, a precariedade dos serviços públicos prestados à população - destaque para saúde e educação - 

gerando inconformismo e pautas contra a Copa e as Olimpíadas nas manifestações que ocorreram em 2013. 

 

47

 Em: <



http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2012/10/30/cinco-anos-apos-virar-pais-sede-brasil-

organiza-copa-com-ajuda-de-governo-e-verba-publica.htm#fotoNavId=as2139798

> Acesso em: 3 de out. 2015

 

48



 Os estudos foram realizados por professores americanos analisando dados do PIB dos países sede de grandes 

eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas..

 



48 

 

economia local, pois embora grandes eventos possam contribuir para gerar gastos turísticos, o 



custo para realizar tal evento é muito maior

49

.



 

“Em vez de pensar que um mega evento é um investimento que vai gerar um grande 

impacto  econômico,  os  organizadores  deveriam  encará-lo  como  uma  forma  de 

recompensa  pelos  esforços  da  população,  uma  forma  de  consumo  público”, 

(Szymanski apud Dantas 2014).

 

 



No entanto, a imagem do país  muda com a realização de grandes eventos, como o 

caso da Copa da Alemanha, em 2006, que mudou da imagem de um povo eficiente, mas frio, 

para  um  amigável  e  divertido  (KRISTIANSEN,  BR

Ø

DSTED  apud  DANTAS,  2014).  De 



acordo com o ex técnico da Seleção brasileira, Carlos Alberto Parreira (2014), a Copa de 2014 

teve  ótimos  estádios  -  embora  muitos  tenham  sido  entregues  em  cima  da  hora  -,  os  jogos 

foram de qualidade e fora de campo os brasileiros mostraram hospitalidade e alegria, fazendo 

com que os problemas de mobilidade urbana e aeroportos ficassem pra trás. Ainda de acordo 

com Parreira, as dificuldades encontradas na realização da Copa são normais em países que 

não possuem infraestrutura e tem que começar a construção praticamente do zero, diferente de 

países como Alemanha, Inglaterra e Japão, que já possuíam grandes estádios e infraestrutura 

pronta. Para o ex-técnico, houve um pessimismo exagerado, inclusive por parte da imprensa 

brasileira, contribuindo para que o país passasse uma imagem de que a Copa não daria certo, - 

imagem retratada devido a escândalos de corrupção, falta de qualidade nos serviços prestados 

à população, obras em estádios com o dinheiro público, manifestações e economia estagnada. 

 

A  imagem  transmitida  ao  mundo,  de  uma  população  insatisfeita  com  os  gastos  da 



Copa, tomou  grande  proporção  com  as  manifestações  ocorridas  em  2013,  ano  da  Copa  das 

Confederações,  também  realizadas  no  país.  As  manifestações

50

  começaram  com  as 



reivindicações da população contra o aumento das passagens do transporte público, anexando 

outras pautas com o decorrer do tempo, sendo a insatisfação com a corrupção o segundo item 

da pauta dos brasileiro, seguido de saúde, gastos com a Copa do Mundo/das Confederações, 

educação, PEC 37

51

, necessidade de mudança na política e contra a repressão policial. Marta 



Ferreira Santos Farah (2015), socióloga e professora de do Departamento de Gestão pública 

da FGV, aponta:

 

                                                



49

 As cidades de Porto-Alegre, Curitiba e Belo Horizonte são as que menos contam com a perspectiva esperada 

pela  Copa,  sendo  os  destinos  já  turísticos  e  ligados  a  natureza  o  que  mais  se  beneficiaram  das  visitas 

estrangeiras. 

 

50

 As manifestações levaram mais de 1 milhão de pessoas às ruas em 130 cidades.



 

51

  A  Proposta  de  Emenda  à  Constituição  (PEC)  37  dá  poder  exclusivo  à  polícia  para  realizar  investigações 



criminais, retirando essa possibilidade do Ministério Público. 

 



49 

 

“Ainda que difusas e multifacetadas, as manifestações foram ouvidas pelos políticos: 



novos temas foram incorporados pela agenda de partidos à direita e à esquerda. Após 

as manifestações, disputaram lugar na mídia programas partidários que procuravam 

incorporar  a  voz  das  ruas  (ou  dela  se  apropriar).  [...]  Os  temas  levantados  pelas 

manifestações repercutiram também na agenda governamental. No nível municipal e 

estadual, em vários pontos do país, foram revogados aumentos de tarifas de ônibus. 

No  nível  federal,  medidas  foram  propostas  em  diversas  áreas  (responsabilidade 

fiscal,  reforma  política,  mobilidade  urbana,  educação  e  saúde),  em  resposta  à 

multifacetada agenda societária.”

 

 

 



A  manifestação ocorrida  no Brasil teve enorme repercussão  internacional, gerando 

incômodos por parte da FIFA com a demora de  um pronunciamento presidencial acerca da 

realização  da  Copa  das  Confederações.  A  entidade  máxima  do  futebol  só  aceitou  manter  o 

torneio no Brasil pois a Presidente Dilma garantiu que se necessário colocaria o exército nas 

ruas para proteger os estádios, e em declarações em rede nacional, a Presidente pediu que o 

povo brasileiro respeitasse os estrangeiros tanto na Copa das Confederações, quanto na Copa 

do  Mundo.  A  FIFA,  no  entanto  avisou:  ou  muita  coisa  muda,  ou  não  há  como  pensar  em 

chegar ao Brasil com 32 seleções e 600 mil turistas estrangeiros (CHADE, 2013).

 

Além da FIFA, diversos países se mostraram preocupados com as manifestações de 



2013  e  a  segurança  oferecida  ao  país  aos    seus  turistas  estrangeiros.  Em  matéria  do  Globo 

Esporte  (2013)  -  telejornal  esportivo  da  maior  emissora  de  televisão  do  Brasil-,  o  jornal 

espanhol  Mundo  Deportivo 

afirmou:  “Brasil  é  um  caos  à  espera  da  Copa  do  Mundo”, 

noticiando  que  o  país  sofre  com  inflação,  corrupção  e  atraso  nas  obras,  destacando  as 

manifestações de junho e o descontentamento do presidente da FIFA, Joseph Blatter. A Itália 

também pegou carona no pronunciamento da vizinha Espanha e estampou no jornal Gazzetta 




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