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  Comercialização da cultura nacional



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3.4 

Comercialização da cultura nacional 

 

Nos anos 70, com as cidades experimentando ondas de crescimento, os campos e os 



pobres

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 foram empurrados para a periferia, e cada vez mais trabalhadores das obras jogavam 



futebol  em  horas  de  lazer.  Para  o  professor  Martin  (apud  BITTENCOURT,  20

06)  “É  um 

movimento espontâneo, que cria outras relações”, e ao mesmo passo em que os pobres são 

empurrados para as periferias junto com os campos, a classe média passa a frequentar quadras 

de futebol de salão e escolinhas, para o professor “o mais importante é que o futebol provou 

ser  mais  forte  que  a  especulação  imobiliária”  (BITTENCOURT,  2006),  e  como  constatou 

José Carlos Bruni, no Dossiê do Futebol:

 

“Impossível não levar em conta, pelo menos neste momento e neste país, o imenso 



fenômeno denominado futebol. Sua definição estrita, como esporte que utiliza uma 

bola jogada com os pés, mal deixa entrever o universo de significações simbólicas, 

psíquicas,  sociais,  culturais,  históricas,  políticas  e  econômicas  inesgotáveis  que 

envolvem multidões, encontradas no público em geral, nas torcidas organizadas, nos 

jogadores e equipes técnicas e burocráticas, concretadas em torno de um espetáculo 

que empolga sociedades, nações, países, estados, em esfera planetária, mobilizando 

milhões de dólares e conquistando a adesão cada vez maior de pessoas de todas as 

camadas sociais” (BRUNI, 1994, pg 7).

 

 

Nos  anos  90,  momento  em  que  Bruni  constata  que  o  espetáculo  futebol  mobiliza 



além  de  sociedades  e  nações  também  milhões  de  dólares,  é  quando  começa  o  êxodo  dos 

jogadores  brasileiros  e  o  Brasil  vira  um  exportador,  pois  o  estilo  de  jogar  dos  brasileiros 

                                                

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  Com  a  onda  de  crescimento  experimentada  durante  o  milagre  econômico,  prédios  foram  construídos  em 



lugares  bem  localizados,  muitas  vezes  onde  se  encontravam  os  campos,  contribuindo  para  o  afastamento  dos 

campos do centro das cidades, e a aproximação das favelas e bairros de classe baixa.

 



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cham



a  atenção  mundial  e  os  jogadores  brasileiros  são  reconhecidos  como  um  “produto 

brasileiro  de  valor”  que  melhora  o  time  para  o  qual  é  contratado.  O  jogador  passa  a  ser 

negociado  como  mercadoria  e  a  movimentar  bilhões  de  dólares  (FAVERO,  2006),  “Ele  [o 

jogador]  é  um  produto  que traz  rendimento  para o  clube  que  o  contratou.  Assim,  o  futebol 

perde  parte  de  seu  caráter  exclusivo  de  esporte  e  torna-se  também  um  produto  esportivo, 

cultural, econômico e social, oferecido como artigo de consumo [...]” (FAVERO, 2006, pg. 

10).

 

O  Banco  Central  começou  a  contabilizar  os  valores  de  transferências  envolvendo 



jogadores a partir do ano de 1993, e desde então a receita de exportação já superou a marca de 

1 bilhão de dólares já no ano de 2007, sendo aproximadamente 5 bilhões de dólares no final 

de 2014

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. A partir da conquista da Copa do Mundo em 1994 e 2002, os jogadores passaram a 



ser  mais  valorizados  e  negociados,  em  alguns  momentos  rendendo  mais  dólares  ao  país  do 

que  as  vendas  de  frutas  tradicionais  na  pauta  de  exportação,  como  banana,  mamão,  uva  e 

melão. Os valores das negociações entram no Brasil como exportação de serviços e ajudam a 

equilibrar a balança de pagamentos. Algumas contratações, como a do jogador Kaká, vendido 

para o Milan por US$ 8,5 milhões, chamam atenção de grandes políticos, como foi o caso do 

ex-primeiro-

ministro  da  Itália,  Silvio  Berlusconi,  que  disse:  “Foi  a  maior  contratação  da 

história do Milan. E a preço de banana.” (NERY, 2007).

 

Embora  algumas  transações  envolvendo  jogadores  de  futebol  sejam  de  somas 



altíssimas, os clubes por diversas vezes acabam prejudicados pois o dinheiro recebido serve 

para pagar dívidas e não para investir em mais jogadores ou melhorar as categorias de base. O 

gerente  de  crédito  do Itaú  BBA,  Cesar  Grafietti,  constatou  que  “a  receita  com  a  venda  de 

atleta é muito importante porque é um adicional às receitas recorrentes das equipes [...] e que 

deveriam  enxergar  a  receita  com  a  venda  de  atletas  como  uma  fonte  para  comprar  outros 

jogadores  ou  investir  na  base.  A  administração  não  pode  pensar  nesse  dinheiro  como  um 

recurso que vai cobrir a folha de pagamento.” O aumento na exportação de jogadores faz com 

que,  os  melhores  atuem  fora  do  país,  fato  que  reflete  nas  convocações  para  a  Seleção 

Brasileira, que em 1982 apenas dois atletas que disputaram a Copa do Mundo jogavam fora, 

enquanto na Copa de 2006, somente três atletas ainda atuavam no Brasil (FAVERO, 2006). 

Edjar Jabbour (2007), sócio da consultoria Deloitte que coordena trabalhos do estudo “Latin 




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