Instituto de letras beatriz azevedo da silva jacinta, passos de uma escritora



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Campo Limpo9

Quando vejo, ondulando ante os meus olhos,

os teus campos banhados pelo sol

o ardor da seiva rebentando nessa natureza viva,

a doçura do teu céu na hora crepuscular,

a sombra negra das árvores que se alongam como fantasmas quando a noite desce,

a profundeza insondável das tuas noites estreladas,

quando vejo o esplendor de tua beleza

sinto, inesperada, uma estranha alegria,

um pedaço vivo de mim mesma.


Campo Limpo,

as tuas paisagens se identificaram

com todas as vibrações de minha vida amanhecente.

As tuas paisagens parecem humanas.

Parece humano o murmúrio do vento nas tuas árvores seculares

e a branca silhueta da velha casa antiga.

Tuas paisagens revivem a minha vida já morta,

todos os instantes perdidos para sempre

e que eu quisera integrados num momento eterno.

Como a árvore que dá sombra e flor e fruto

esconde as raízes na terra de onde veio,

estão mergulhadas no teu solo

as raízes mais profundas do meu ser.

(1939)
Está expressa nesse poema a forma como o eu lírico relaciona-se com aquele espaço através do saudosismo e da referência aos elementos da natureza do lugar que fizeram parte da sua própria existência. Na segunda estrofe, a voz lírica personifica Campo Limpo, a paisagem bucólica assemelha-se a características humanas como no verso “Parece humano o murmúrio do vento nas tuas árvores seculares”, o poema exprime também uma experiência sensorial, em que eu lírico utiliza-se dos sentidos para perceber como aquele lugar como nos versos: “o ardor da seiva rebentando nessa natureza viva” e em “o ardor da seiva rebentando nessa natureza viva”. Há uma contraposição entre a “vida morta” da voz lírica, com a “natureza viva”, que resplandece naquele lugar. O poema destaca a integração entre o sujeito lírico e as formas da natureza: “Como a árvore que dá sombra, flor e fruto/ esconde as raízes na terra de onde veio/estão mergulhadas no teu solo/ as raízes mais profundas do meu ser”, ali é um lugar de identidade, de aproximação e de afeto.

A afinidade com a temática voltada à subjetividade, à exaltação dos elementos da natureza e o questionamento existencial está evidenciada em diversos poemas publicados no início de sua vida literária da artista, como em “Manhã de sol” (1934), “Crepúsculo” (1935), “O mar” (1935), “Noturno em Palmira” (1941), “Canto da hora presente” (1942), dentre outros. O poema que segue está marcado por esta volta ao “eu”, pelas questões que sempre acompanharam a existência humana:




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