Instituto de letras beatriz azevedo da silva jacinta, passos de uma escritora


Tendências do panorama literário baiano da época



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2.2 Tendências do panorama literário baiano da época
Para refletir sobre a obra da artista, propõe-se, neste primeiro momento, pensar sobre o panorama literário quando a intelectual começa a produzir seus textos.

É importante levar em consideração que o período de maior produtividade na vida literária da autora− as décadas de 30 e 40− foi de grande movimentação política no Brasil e no mundo, a intelectual acompanhou os acontecimentos relacionados à Segunda Guerra Mundial, dedicando-se, através do jornalismo, à luta antifascista através do apoio à entrada do Brasil no conflito externo e também ao rumo da política nacional, com a instauração do regime do Estado Novo3 em 1937. É também deste período seu engajamento em torno da revisão do papel social feminino através de reportagens que procuravam relacionar as mulheres ao trabalho e ao ativismo político naquele conturbado cenário.

Jacinta Passos publicou quatro livros de poemas − Nossos poemas (1942), Canção da partida (1945), Poemas políticos (1951) e A Coluna (1958) − e como poderá ser analisado mais à frente, pode-se inferir que muitos poemas que fazem parte destas coletâneas, aproximam-se da formatação artística concebida na primeira fase do Modernismo brasileiro (1922-1930), ainda que, na Bahia, a ressonância desta concepção estética tenha sido problematizada por críticos e intelectuais locais como o médico, escritor e jornalista Carlos Chiacchio4 (1884-1947), que defendia a ideia de renovação estética literária sem que esta implicasse uma total ruptura com toda a tradição literária criada no Brasil até então.

Este crítico literário encabeçou um grupo de intelectuais que sustentava a noção de que a literatura poderia dialogar com a ideia de “universalidade” sem, no entanto, deixar de voltar-se para suas “raízes” culturais, para o regional. Ívia Alves, em seu estudo sobre o Modernismo na Bahia, a partir da análise da revista mensal Arco & Flexa, idealizada por Carlos Chiacchio com a colaboração intelectuais como Hélio Simões, Manoel Pinto de Aguiar, Agripino de Alcântara, Francelino de Andrade dentre outros, analisa a repercussão da chegada das ideias modernistas no estado, apresentando Chiacchio como um dos líderes desta renovação literária.


[...] o tipo de literatura feita na Bahia ainda estava presa aos moldes parnasianos, especificadamente. As poucas publicações em jornais e revistas da época continuavam a lançar produções de autores de prestígio, porém, presos ainda à temática e ao formal, estruturas do fim do século. (ALVES, 1978, p.15).

Arco & Flexa é um bom exemplo para refletir sobre o panorama artístico, pelo menos no que se refere à literatura na Bahia no final da década de 20 e início da década 30 − período em que Jacinta Passos começa a produzir seus poemas. Segundo Ívia Alves, o manifesto escrito por Chiacchio versa sobre a necessidade de renovação cultural no estado da Bahia centrada na teoria que ele denominara de “tradicionalismo dinâmico”, noção esta que não visa excluir as formas literárias e artísticas presentes na cultura brasileira antes do modernismo, mas que de alguma forma dialoga com as novas tendências estéticas propostas pelos artistas de São Paulo em 1922.

Não haveria, portanto, uma ruptura total com as tradições literárias do passado. Ainda que a literatura brasileira estabelecesse um diálogo com a literatura universal e com as influências europeias, estava claro para o autor de Arco & Flexa, que a literatura produzida aqui deveria ter como ponto principal, o foco na cultura local.

O substrato básico da linha de Carlos Chiacchio insere-se na preocupação com o nacionalismo, na tentativa de solução para uma poética brasileira, baseada na temática de raízes nacionais, que seriam desenvolvidas através do estudo e da pesquisa da cultura brasileira.

O manifesto não tem cunho agressivo, nem propõe a ruptura com o passado. Por isso restringe qualquer tomada de atitude que não contenha equilíbrio em relação ao conceito de modernidade, particularmente devido à responsabilidade mantida pela tradição literária da Bahia de colocar-se numa posição moderada quanto à “novidade”. Este ideário amplo poderá abranger produções dos mais diversos lugares e das mais diversas linhas, tendo como ponto de contato a tentativa de refletir uma temática brasileira [...]. (ALVES, 1978, p. 23-24)

A proposta desses artistas baianos nesta época estava direcionada para o diálogo entre a urgência deste autoconhecimento, de entender e estabelecer conexões com as diversas raízes culturais brasileiras sem a destruição de toda uma gama de conhecimento e de tradições que segundo eles, seriam importantes na construção desta renovação.

O referido manifesto está dividido em cinco partes: “Cultura universalista”, “Sem perder o contato com a terra”, “Contra o primitivismo” e “Arco & Flexa”. Estas são as principais proposições da revista e que tratam, em linhas gerais, diretamente da questão da renovação, da relação que o Brasil mantinha com países da América espanhola como afirma a pesquisadora Ívia Alves. De acordo com a estudiosa, a revista “faz a análise do momento cultural brasileiro, critica certos caminhos assumidos e procura uma solução para a literatura de renovação na Bahia”.

A posição destes intelectuais baianos, portanto, estava centrada neste “tradicionalismo dinâmico” que estabelecia que a literatura baiana deveria pronunciar-se em relação ao movimento nacional de forma equilibrada, não permitindo que esta renovação resultasse em uma aceitação das ideias consideradas “chocantes”.

Outra publicação que tinha como objetivo a formulação de um projeto modernista para as artes na Bahia foi a revista Samba que tinha com alguns de seus colaboradores os escritores Jorge Amado e Pinheiro Viegas. Um dos pontos em comum com a publicação idealizada por Carlos Chiacchio foi a discordância com as ideias defendidas em 1922 pelos intelectuais paulistas. O pesquisador Cid Seixas, em seu estudo sobre a literatura na Bahia e as tensões entre o modernismo e o tradicionalismo, discorre sobre este contexto e a posição dos intelectuais que pensavam a articulação entre o presente e o passado:


Em 1928, dois grupos ou duas revistas de tendências modernas e dessemelhantes escandalizaram o conservadorismo baiano de formação parnasiano-simbolista e retardatária ressurreição romântica. Eram o grupo Arco & Flexa, inicialmente formado por Hélio Simões, Pinto de Aguiar, Carvalho Filho e Eurico Alves, sob a liderança do também médico e crítico literário Carlos Chiacchio; e, do outro lado, o grupo da Academia dos Rebeldes, integrado por Jorge Amado e por outros jovens. Este grupo teve como trincheira a revista Samba, graças a liderança de Pinheiro Viegas, mentor tanto da revista quanto da chamada Academia dos Rebeldes. Observe-se que os dois grupos de jovens que se propunham a construir a modernidade literária foram buscar apoio em dois velhos intelectuais, de formação finissecular já consolidada, o que vejo como uma consequência da natureza esteticamente prudente de ambos. Todos eram jovens, modernos, e...bastante cautelosos. E assim a Bahia se inscreveu, de forma ambígua e, talvez por isso mesmo, pouco estudada, no panorama modernista brasileiro. Para a historiografia literária brasileira, a topada que o modernismo levou na Bahia pesou mais do que os aspectos peculiares da modernidade resultante dos conflitos e contradições locais e nordestinas. [...] Diferentes entre si [...], os dois grupos modernistas baianos tinham um ponto em comum: a discordância com o modernismo paulista. (SEIXAS, 2010, p.5).

No final da década de 20 e início de 30, o cenário literário estava movimentado por conta destas articulações entre uma literatura imersa na tradição poética parnasiana e simbolista. Na área da poesia, Seixas (2010) aponta obras de Sosígenes Costa5, Iararana6 e Obra poética, que, segundo o pesquisador, são marcadas pelos sonetos rigorosamente metrificados, típicos do Parnasianismo7.

Ao ilustrarmos, de forma breve o contexto e as ideias em torno da literatura no período em que a escritora Jacinta Passos começa a produzir seus primeiros textos, não se busca classificar de forma rígida a literatura produzida por ela, ainda que, como mencionado anteriormente, muitos de seus poemas apresentem alguns traços modernistas – “Canção para Maria”, “Diálogo num país qualquer” −, porém, não se está propondo uma leitura de sua obra por este viés.

Jacinta Passos foi uma autora de produção literária diversificada, além dos livros de poemas produziu textos para teatro, contos, minicontos, canções e uma infinidade de outros textos, tendo recebido o reconhecimento de críticos literários como Antonio Candido, Mario de Andrade, José Paulo Paes dentre outros.8

Voltando novamente à escritora em questão, é em 1914, quando se inicia a Primeira Guerra Mundial, que nascia, em 30 de novembro no município baiano de Cruz das Almas, Jacintha Velloso Passos, oriunda de uma família tradicional do lugar, cuja principal atividade econômica era a pecuária, além da atuação de alguns de seus membros na política local.

Filha de Berila Eloy Passos e Manoel Caetano da Rocha Passos, viveu os seus primeiros anos na fazenda Campo Limpo, localizada a seis quilômetros do centro da cidade. Ela revelaria mais tarde através da escrita, uma relação de afetividade com o lugar em que nasceu que foi uma de suas inspirações para compor o poema Canção da partida (1945). O registro desta afetividade com o local de nascimento foi feito também no poema “Campo Limpo”, publicado na coletânea Momentos de poesia, cujo trecho será analisado mais à frente.

Viveu, portanto, o início de sua vida em um lugar pacato, que conservava costumes tradicionais, fortemente ligados aos preceitos religiosos católicos. Além disso, havia na família Passos uma tradição política muito forte. Seu avô paterno, Themistocles da Rocha Passos estabelecera-se na política local no período da Monarquia e no início da República, além de ter sido eleito senador da Província da Bahia em 1889; essa é uma das raízes da tradição política na família da autora.

Seu pai, Manoel Caetano da Rocha Passos, herdou em 1910, a fazenda Campo Limpo, local onde nasceram seus quatro filhos: Maria José, Dulce, Manoel Caetano e Jacinta.

Como na maioria das cidades do interior baiano àquela época, Cruz das Almas tinha suas convenções e regras de comportamento bastante tradicionais além da prática política ainda concentrada nas mãos dos grandes proprietários rurais:
A pacatez da vida ali, baseada em costumes e moral tradicionais- diligentemente conservados pela Igreja e pelos afetuosos e vigilantes laços familiares-,só era rompida durante as espetaculares disputas políticas. Nessas ocasiões, graças às eleições a bico de pena da República Velha e à truculência, os mesmos grupos revezavam-se no poder, garantindo para si o mando do lugar. (AMADO, 2010, p. 341)

A escritora viveu na fazenda até os dez anos de idade, tempo este que serviu de base para suas primeiras observações sobre o contexto social no qual estava inserida. É possível afirmar, a partir da leitura de alguns de seus poemas, como o descrito a seguir, que a vivência nesta localidade proporcionou à escritora as primeiras e importantes impressões sobre a vida, em que pode ir construindo aos poucos, a partir da observação de relações sociais ali estabelecidas, a sua visão de mundo. A fazenda Campo Limpo é recordada de forma afetiva pela poetisa, como é possível identificar no poema homônimo que segue:





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