Instituto de letras beatriz azevedo da silva jacinta, passos de uma escritora


JACINTA, PRIMEIROS PASSOS POÉTICOS



Baixar 9.09 Mb.
Página7/43
Encontro20.06.2021
Tamanho9.09 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   43
2 JACINTA, PRIMEIROS PASSOS POÉTICOS

Jacinta Passos, década de 1940. Arquivo pessoal de Janaína Amado, 2010.

Menina, minha menina,

carocinho de araçá,

cante

estude


reze

case


faça esporte e até discurso

faça tudo o que quiser

menina!

não esqueça que é mulher.


Jacinta Passos, 1944

2.1 Os “Passos” na vida e na obra: a poesia e suas transformações
Retomar alguns momentos da vida da escritora Jacinta Velloso Passos (1914-1973) é importante para compreender o processo de construção de sua carreira literária bem como sua atuação no jornalismo baiano, a adesão à militância política e as transformações verificadas em sua obra a partir de então.

Sua trajetória pessoal acompanha, em grande medida, a forma como seus textos vão sendo, ao longo do tempo, transformados principalmente em relação às temáticas escolhidas para compor seus poemas e artigos de jornal. Estas transformações são identificadas na medida em que a autora passa a ter sua visão de mundo alterada pela participação ativa na política através da militância no Partido Comunista Brasileiro1.

Com o passar dos anos, seus poemas adquiriram um tom de crítica social além do fato de alguns deles refletirem também a ideologia comunista a qual a autora se filiou em sua fase adulta. Por estes fatores questões como a luta de classes e as demandas geradas a partir destas estão presentes em vários de seus textos poéticos.

A partir da análise dos textos de Jacinta Passos, nota-se que a intelectual estava preocupada com as questões políticas e sociais de seu tempo: estava atenta às relações sociais, à situação política do Brasil e do mundo, principalmente por conta da Segunda Guerra Mundial, além de ter dedicado especial atenção à condição das mulheres em seu tempo. Estes foram os principais pilares de sua formação enquanto escritora, feminista2 e militante política. Apostamos, neste trabalho, que a produção literária e jornalística de Jacinta Passos constitui-se como uma importante voz feminina na literatura baiana, se não pela quantidade, mas pela representatividade de seus textos, além de sua condição de intelectual politicamente engajada, que não se absteve de questionar a sociedade e os valores de sua época.

Para uma mulher que foi educada ainda nas primeiras décadas do século XX, formada, portanto, por valores culturais patriarcais, a defesa que faz de suas crenças políticas e humanísticas está além das expectativas para as mulheres que lhe eram contemporâneas, por isto, aventamos no título deste trabalho, a ideia de que Jacinta Passos esteve “à margem”, ou seja, “fora” dos padrões comportamentais da época.

Imaginamos que não se constituiu tarefa fácil tornar-se militante comunista e feminista nos idos dos anos 1940, por isto é que, para os moldes de seu período histórico, sua escrita esteve à frente de seu tempo, na medida em que propunha uma reflexão sobre diversas questões que a inquietavam. De acordo com o levantamento biográfico feito pela pesquisadora Janaína Amado, muitas escolhas feitas pela intelectual lhe foram bastante caras, como o afastamento de sua família, um longo ostracismo além de todas as outras dificuldades que enfrentou em sua trajetória de vida.

Este capítulo não tratará de forma ampla da sua vida pessoal, mas retomará alguns aspectos relevantes para a compreensão da transformação de sua obra. O que torna Jacinta Passos uma escritora além das expectativas paras as mulheres de sua época? Por que somente nas duas últimas décadas sua obra tem sido resgatada e problematizada? Talvez não consigamos dar respostas a todas estas questões, mas buscar-se-á, por meio da análise de seus textos, refletir em que medida sua atuação como intelectual pode ser considerada importante nos dias atuais.

Recentemente, o também poeta e jornalista baiano, Florisvaldo Mattos publicou “Presença do humanismo militante na poesia de Jacinta Passos”, artigo sobre a poesia de Jacinta Passos na Revista da Academia de Letras da Bahia. O intelectual analisa trecho de alguns de seus poemas e lamenta o fato de a escritora não ter uma obra maior, pela qualidade estética e temática de seus textos. O acadêmico destaca aspectos importantes presentes em sua lírica que constituem bandeiras importantes de ser levantadas na atualidade. Ele defende que


A permanência da poesia de Jacinta Passos há de ser analisada pelas virtualidades que antecipa o seu humanismo militante e relação a temas hoje mundialmente disseminados sob rótulos e maneiras diversas em defesa de princípios como cidadania, meio-ambiente e solidariedade internacional, na luta contra a ignorância, a violência e a miséria, por efeito das palavras que usa, para expressar seus estados de alma, na busca de si mesma.

Desta maneira, poemas, versos, timbres e variados ritmos de sua obra, lastimavelmente curta, fazem-na uma precursora de ideias, movimentos e campanhas, hoje agasalhados sob o vasto manto da ação humanista patrocinada por organizações não-governamentais (ONGs), instituições nacionais e internacionais, em vários países, proclamados e consagrados como vias capazes de assegurar ao homem paz e sobrevivência produtiva na terra. (MATTOS, 2011, p.83)


Florisvaldo Mattos reforça a imagem da escritora como intelectual que buscou através das palavras, “escrever sobre o mundo”, de acordo com a ideologia que adotou e manteve durante toda sua vida. Esta observação é pertinente para este trabalho na medida em que acreditamos ser a obra de Jacinta Passos representativa pelo direcionamento político-ideológico que sua lírica assumiu em um contexto sócio-histórico marcado pela ausência de liberdade.



Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   43


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal