Instituto de letras beatriz azevedo da silva jacinta, passos de uma escritora



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5 PALAVRAS FINAIS
Esta dissertação analisou poemas e textos jornalísticos publicados sob a supervisão da autora, tendo como principal objetivo investigar como estes textos estão influenciados pela ideologia política comunista que adotou em sua fase adulta e manteve até seus últimos dias. Foram apresentados alguns poemas do que consideramos ser a primeira fase poética da autora, destacando neles os elementos mais recorrentes: a exaltação da natureza, a beleza da vida, a relação que o homem mantém com seu meio e também a força da religiosidade como os principais temas deste primeiro momento.

A partir das análises feitas, identificamos que há uma diferença importante entre as primeiras obras como Momentos de poesia (1942) e Canção da partida, em que há, principalmente no primeiro deles, uma forte presença destes elementos anteriormente citados, com outros livros publicados pouco tempo depois com Poemas políticos e A Coluna, em que ficam evidentes suas escolhas políticas.

Dois exemplos mais evidentes desta transformação pessoal e política da escritora no processo de tradução desta ideologia para os seus textos, são os poemas “Maria” (1937) e “Canção para Maria” (1951). Há uma linha clara que separa a poetisa religiosa e ainda presa a uma poesia mais tradicional, tanto na forma como na temática, já que “Maria” está em forma de soneto e “Canção para Maria” é um poema que apresenta versos livres. Citamos este exemplo no começo de nosso trabalho e o retomamos neste momento para ratificar a importância que a ideologia comunista teve na vida de Jacinta Passos. Primeiro tem-se uma poesia que cantou o mundo e as suas belezas, buscou exaltar a religiosidade através de ícones católicos, como é possível identificar em poemas como “A missão do poeta” (1937), “Cântico do exílio” (1937) “Agonia no horto” (1937), “Contrição” (1938), “Oferenda” (1938), “Consagração” (1938) e “Súplica” (1939).

No segundo momento, identifica-se que as composições da autora voltadas a estas temáticas vão sendo transformadas, principalmente pelo fato de a autora acreditar que a literatura deve estar relacionada à realidade social e política do contexto em que ela foi produzida como explica através de seu artigo “Sentido atual da literatura”, que analisamos no corpo deste trabalho.

Para Jacinta Passos, não haveria possibilidade de se fazer arte e literatura sem refletir sobre a realidade histórica do mundo, que nos anos 40 atravessava uma guerra, evento este que repercutiu em todo o mundo. A intelectual lançou importantes reflexões sobre esta problemática mundial. A crença na criação de um novo mundo após a guerra, na redução das desigualdades entre os homens e mulheres no mundo inteiro, foi uma de suas bandeiras enquanto intelectual engajada.

Através do jornalismo, a escritora assumiu uma posição de vanguarda em relação à divulgação de um novo pensamento para as mulheres em seu tempo. A “Página Feminina”, no jornal O Imparcial, foi uma importante vitrine para a divulgação de um novo pensamento para as leitoras: às mulheres era dado o direito de voz através de entrevistas publicadas no suplemento semanal sobre a atuação de muitas delas no esforço de guerra dos países envolvidos no conflito mundial, as reportagens, matérias e artigos publicados nesta seção do periódico, possibilitavam que as leitoras tivessem acesso a um conteúdo que as colocava num lugar de protagonismo social e político.

Pelo que pode ser observado, “A Página Feminina” tinha o compromisso político com a construção de uma nova imagem das mulheres, a proposta por trás de todos os textos que convidavam as mulheres ao trabalho, à atividade política, à reflexão sobre sua condição social, foi elaborada por Jacinta Passos e sua equipe, formada em sua maior parte por mulheres, foi uma proposta feminista para as leitoras baianas, na medida em que as convoca a construir uma nova história para si mesma e a serem donas de suas vidas, de seus destinos.

Jacinta Passos transformou sua escrita na medida em que se transformou internamente, o lugar que escolheu para estar no mundo, foi em muitos momentos desconfortável, pois como sabemos, as mulheres em sua época ainda estavam sujeitas a uma série de padrões comportamentais, o ambiente doméstico ainda era visto como próprio para elas, que “deveriam” ser, na melhor das hipóteses, excelentes mães responsáveis pela criação dos filhos, cidadãos que deveriam ser bem formados para atuar no campo político.

Ao invés deste pensamento, Jacinta Passos colocou as mulheres no lugar de sujeito pensante, capaz de produzir conhecimento, de refletir sobre o mundo e de se colocar frente aos desafios que aquela sociedade lhes impunha. O seu percurso no jornalismo foi ideológico, na medida em que sua crença na necessidade de revisão do papel social da mulher foi praticada através das propostas de inserção destas no mundo do trabalho e do ativismo social, na criação de um novo mundo em que a justiça social fosse uma realidade e que as diferenças de classes fossem dirimidas e em que o comunismo seria a chave para a resolução da maior parte dos problemas da vida no Brasil e no mundo, como deixou claro em alguns de seus poemas.
A autora não teve tempo de vida suficiente para fazer a revisão do conceito político do comunismo, de fazer um balanço, uma autocrítica desta visão política, mas até onde foi não se pode negar que se manteve fiel às suas convicções, tendo a literatura, a militância política e a militância como feminista como as razões de sua existência, que para ela tinha que ser útil aos demais, assim como, em suas palavras a literatura deveria voltar-se para a realidade cotidiana, assim também fez de sua existência como intelectual, um dever quase cívico, a vida assim acompanharia a arte e arte teria como principal objetivo, ressignificar a vida.




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