Instituto de letras beatriz azevedo da silva jacinta, passos de uma escritora



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O capitão
Cavaleiro que passa a galope

tão veloz no cavalo alazão


o seu nome é Luiz Carlos Prestes

Comandante sem par, Capitão.


Capitão de oitocentos soldados

que mais logo serão mais de mil,


Comandante da marcha e batalhas,

o seu nome guardai, ó Brasil,


bravo jovem de vinte e seis anos

tão veloz no cavalo alazão


o seu nome é Luiz Carlos Prestes

Comandante sem par, Capitão. [...]


A poetisa continua sua saga poética narrando o percurso da coluna, registrando suas batalhas e vitórias em cada ponto em que chegavam os soldados liderados por Prestes. Jacinta Passos traduz em poesia uma eventualidade que ocorreu em um dos encontros da coluna com os soldados legalistas do governo de Artur Bernardes85.

Nestas próximas estrofes, é citada a passagem dos homens liderados por Prestes pela localidade de “Maria Preta” em Santa Catarina, onde, segundo Janaína Amado (2010) os soldados legalistas “agrediram-se mutuamente, no chamado “fogo amigo”. Por se tratar de um evento histórico, cabe-nos aqui registrar esta passagem da Coluna-Prestes por Santa Catarina na descrição feita pela socióloga Alzira Abreu, uma das responsáveis pela publicação do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro:

Em 27 de dezembro de 1924, o núcleo inicial daquela que seria mais tarde denominada Coluna Prestes abandonou São Luís. Os oficiais-comandantes eram os seguintes: major Mário Portela Fagundes (1º Batalhão Ferroviário), substituído após sua morte pelo "major" Osvaldo Cordeiro de Farias; "major" João Alberto (2º Regimento de Cavalaria); "major" João Pedro Gay (3º Regimento de Cavalaria), depois substituído pelo "major" Siqueira Campos. Ao marcharem ao encontro da Divisão São Paulo, as tropas gaúchas atravessaram o rio Uruguai na foz do rio Anta. No local chamado Queimados, perto de Barracão (SC), Prestes empossou Siqueira Campos no comando do 3º Destacamento, enquanto o major João Pedro Gay era destituído por haver argumentado com a inutilidade da revolução, tentando convencer os soldados do seu destacamento a emigrarem. A coluna chegou a Barracão reduzida a oitocentos homens. O coronel Fidêncio de Melo, fazendeiro do Contestado, prometera ao general Isidoro colaborar com a Coluna Prestes. Na prática, contudo, isso não ocorreu, deixando os rebeldes em um momento difícil. Nessa região, os revoltosos enfrentaram as tropas do general Paim e organizaram a defesa de Maria Preta (SC), onde Cordeiro de Farias, com apenas 70 homens do Batalhão Ferroviário, combateu os dois mil homens chefiados por Claudino Nunes Pereira. Lutando contra as forças do general Paim e de Claudino Nunes, Prestes não só abandonou Maria Preta em completa ordem, como também conseguiu enganar os dois adversários e lançá-los um contra o outro. Em seguida uniu suas tropas às do coronel Fidêncio de Melo, abriu uma picada no terreno sem estradas e partiu para a região do Iguaçu, onde estavam as forças de Isidoro e Miguel Costa. Durante esse período de combates, suas qualidades militares e de liderança foram-se afirmando perante seus companheiros. Segundo seu próprio depoimento, essa experiência levou-o a pensar em transformar a guerra de trincheiras, que lhe fora ensinada na Escola Militar, em guerra de movimento. (ABREU, 2009, p.1)

A perspicácia e inteligência de Prestes levou a Coluna a conseguir mais este feito e continuar avançando rumo ao encontro das tropas paulistas de Miguel Costa. E assim Jacinta Passos traduz este acontecimento em seus versos:

— Coluna ao Norte! Marchar!

Atrás de nós, legalistas

são cães de faro na pista.
veio a noite foi o dia

e esses cães na teimosia.


São pagos para matar.

Viva o exército popular!


II

— Tristes novas, Comandante.

— Que seja breve, soldado!

— Inimigo à vista!

à frente! à direita! legalistas!

— Ferroviários avante.

(Por ordem do Comandante)

— Do traçado siga a sina

suba Santa Catarina

até um ponto alcançado

Maria Preta chamando,

neste lugar

combater e retirar,

à boca da noite pelo

lado esquerdo em cotovela

quebrar.
Depois seguir adiante.

Coluna ao Norte! Marchar!
III

Dito e feito. A noite esconde

tropas, tiros. Quem? Aonde?

Dois inimigos. Quem são?

Luta de morte. Escuridão.

Silvos. Balas. Não responde?

Matou. Morreu. Quem? Onde?
Quando em Santa Catarina

a primeira luz ilumina

jazem restos e destroços,

carne, sangue, armas, ossos,

de legalistas.
Legalistas se encontram

e enganados se mataram.


Ó Maria Preta ó sorte

ó curva de engano e morte.

Ao vencer mais este obstáculo, os militares dissidentes conseguem enfim encontrar-se com outros companheiros em igual condição- militares e rebelados- liderados pelo tenente Miguel Costa, um dos responsáveis pela Coluna Paulista.
— Soldados, onde acampamos?

— No oeste do Paraná.

— Soldados, e aquela tropa

que vem para cá?

— Patrulha de segurança

que partiu a volta já

mais ligeiro do que o vento

no oeste do Paraná.


— Portadora de notícias?

— De notícias e reforço,

mantimento e montaria.
Portadora que vem lá

mais ligeira que o vento

no oeste do Paraná.
— Às suas ordens, senhor.

— Eram forças inimigas?

— Eram paulistas rebeldes

contra o governo Bernardes,

eram paulistas que o Cinco

de Julho já revoltara,

paulistas que o General

Miguel Costa86 comandara.

Após tomarem São Paulo sob o comando do general Isidoro Dias e com a participação ativa do tenente Miguel Costa, foram obrigadas a se retirar para o Paraná e em 1925, recebera, o apoio das tropas do Rio Grande do Sul. A historiadora Alzira Abreu registra ainda que foi por meio deste encontro que Luiz Carlos Prestes foi alçado ao cargo de chefe do estado-maior da Coluna.

Pode-se inferir que a divulgação desse livro e a posterior recepção dele pelo público leitor da época eram importantes para Jacinta Passos, principalmente porque em 1958 o PCB ainda estava em um período de reformulação interna bastante difícil para o partido que passava por um processo de reestruturação político:


[...] a via pacífica e democrática defendida pela URSS de Krushev87 e adotada na Declaração de Março de 1958 do PCB, alterou a visão comunista brasileira sobre o processo revolucionário.

O PCB passou a defender então reformas democráticas na Constituição nacional e a conquista de um governo nacionalista e democrático a partir da pressão pacífica das massas populares, da vitória da frente única nos pleitos populares e da resistência das massas, evitando assim um derramamento de sangue em uma hipotética insurreição armada ou guerra civil. Na luta constante pela revolução, o partido devia se valer de todos os meios legais, democráticos e institucionais para fazer avançar suas conquistas. (TAFFARELLO, 2009, p. 51)

Voltando-nos novamente à apresentação do poema épico, observamos que a poetisa continuará a fazer a descrição do percurso da Coluna, registrando cada avanço dos soldados pelos treze estados que percorreram nesta incursão militar e política. É possível observar que, ainda que tratando de um tema de tamanha complexidade, a escritora não descuida da forma como utiliza a linguagem. Lapida a palavra, traz poesia a fatos históricos que envolvem a força militar e diversos conflitos armados, mas ainda assim lança mão do lirismo presente em vários de seus poemas. Identifica-se que a escritora estava extremamente comprometida com a criação de uma imagem positiva e heroica da figura do líder Luiz Carlos Prestes e de seus companheiros de luta.
A marcha

Soldados, rumo a São Paulo

Levantar acampamento!-

E a Coluna se levanta

é agora o movimento

de cavalos nas estradas

mulas, éguas e jumentos

que levavam homens e armas

de guerra carregamento.
Burros lerdos, resistentes

que força de marcha fria!

levam no dorso o Segundo

Grupo de Artilharia.

Subindo serra abruptas

de penedo e mataria

lá vai um Grupo de Obuses

lá outro de Infantaria.


Lá vai num grupo de treze

um fuzil metralhadora

e fuzileiro e mais dois

com munição matadora.

É um grupo de combate

lá, corpo metralhadora

pesada em oito seções

de oito peças portadora.


Esse vai do Paraguai

através em destacado

até sul de Mato Grosso

e de aramas carregado

é um grupo de Artilharia comandado

por ser um material de guerra muito pesado.

Paraguai também guardou um general alquebrado.
Isidoro Dias Lopes,

votos de saúde e paz!

Vamos embora Coluna

Comandante e oficiais

neste ano de Vinte e Cinco

nunca esquecido jamais.

Nas estrofes destacadas, a escritora cita o trajeto da “Coluna” em direção a Mato Grosso em que a tropa comandada por Prestes já se encontrava em dificuldades para prosseguir com o movimento. Na penúltima estrofe acima, há o destaque para o estado de Mato Grosso, localização que marcou este evento histórico por diversos fatores como discorre
Mato Grosso teve uma participação importante na marcha realizada pela Coluna. Primeiro porque foi um dos Estados no qual eles mais andaram, dada a sua extensão territorial de então, que incluía os atuais Estados de Mato Grosso do Sul e Rondônia. Foram 2 mil km dos cerca de 25 mil km estimados para a Coluna nos 13 Estados atravessados.

Segundo porque eles passaram por aqui em duas ocasiões. Logo após o encontro em Foz do Iguaçu, no Paraná, da Coluna de Prestes vindo do Rio Grande do Sul e de Miguel Costa de São Paulo. Eles foram em direção ao Paraguai e percorreram boa parte da região sul do “velho Mato Grosso”, partindo em seguida na direção de Goiás. Depois, passaram por aqui na volta, no final de 1926 e começo de 1927, em direção a Bolívia, tanto com a Coluna principal quanto com o chamado “périplo de Siqueira Campos”. (ARAÚJO, 2012, p.1)


Ao descrever o avanço da marcha, o poema mostra seus trajetos, seus heróis e seus feitos, mas mostra-se ainda bastante atenta às questões de gênero inclusive no interior deste movimento predominantemente masculino. Durante o percurso, a adesão popular à marcha não teve um número expressivo, mas da quantidade da população que decidiu acompanhar Prestes e seus comandados, há a presença de mulheres que normalmente não têm sua presença relacionada ao evento nem mesmo na história oficial. No canto sexto do poema intitulado “Os heróis e as feras” essa participação popular é mostrada e é também ressaltada a contribuição de mulheres para o movimento político-militar.



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