Instituto de letras beatriz azevedo da silva jacinta, passos de uma escritora


“A Coluna”: um caminho de terra, outro de palavras



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4.3 “A Coluna”: um caminho de terra, outro de palavras

Ó céus e terras tremei

que a Coluna já partiu

neste ano de Vinte e Quatro

todo o Brasil sacudiu

será Coluna de fogo

que o viajante já viu?

Coluna de vento e areia

dos desertos desafio?

Ó céus e terras, tremei

que a Coluna já partiu.
Jacinta Passos (1953)

Rio de Janeiro, 03 de dezembro de 1958, uma poetisa vende na Central do Brasil alguns poucos exemplares de seu recente trabalho. O poema, editado em um libreto e talvez um de seus últimos escritos, seria levado, naquela fatídica tarde, junto consigo, pela força repressora para a delegacia. O medo de ser presa sempre a perseguiu em seus devaneios mais sombrios foi seu companheiro durante os últimos anos, esteve presente nos versos e nas estrofes produzidas em sua solitária torre, onde jamais desejara ter estado. Seu poema exaltava a Coluna Prestes80, ela recitava para a plateia improvisada da estação de trem seus versos em homenagem ao aniversário do líder comunista Luiz Carlos Prestes, mesmo contra a correnteza dos acontecimentos.

Esta cena inicial faz parte de um dos momentos mais difíceis na vida de Jacinta Passos. Separada da família, em outra cidade do país, a escritora tentava sobreviver dignamente com a venda de seus livros. Após passar por algumas internações psiquiátricas, a escritora buscava construir um novo caminho para sua vida, o que de fato não foi possível por diversos fatores.

No ano de 1958, sob o governo de Juscelino Kubitschek, o Brasil passava por algumas mudanças de caráter estrutural, de fortalecimento das relações econômicas externas e havia um clima de maior liberdade e fluidez, mas o PCB continuou na ilegalidade, tendo permanecido assim até os anos 80, portanto, seus militantes eram vigiados e perseguidos pelas autoridades policiais.

O poema “A Coluna” foi escrito entre os anos de 1953 e 1954 em São Paulo enquanto a escritora encontrava-se hospitalizada. Além deste livro, ela produziu diversos outros textos que não foram publicados. Neste mesmo ano, Jacinta Passos esteve no Rio de Janeiro, e no dia 03 de janeiro, a autora foi detida na estação de trens Central do Brasil, quando tentava vender alguns exemplares do poema.

A escritora neste momento passava por um período de instabilidade financeira e também pessoal provavelmente graças à sua condição de militante política de um partido cuja legalidade estava cassada. A ativista encontrava-se alarmada pelo medo de ser perseguida pela força policial que se apresentava naquele momento histórico de forma repressora para com os militantes do PCB. Ela buscava meios para conseguir publicar e vender suas obras, já que não dispunha de maiores recursos para financiar suas publicações.

O poema épico “A Coluna” (1953-1954) está dividido em 15 cantos, narra a travessia feita por militares sob o comando do capitão do exército Luiz Carlos Prestes e o general Miguel Costa, um dos militares que se rebelou contra o governo paulista em julho de 1924. Em 28 de outubro de 1924, Luiz Carlos Prestes levantou suas tropas em Santo Ângelo no Rio Grande do Sul e se encaminhou para Foz do Iguaçu, juntando-se em 1925, aos militares rebelados de São Paulo, por sua vez liderados por Miguel Costa, havendo assim a fusão com a Coluna Paulista81.

O poema narra os feitos heroicos desta marcha empreendida pelo interior do Brasil e que tinha com um de seus principais objetivos conscientizar as populações mais carentes do país em relação ao governo considerado autoritário do presidente Artur Bernardes, que esteve em vigor de 1922 a 1926:


Do ponto de vista ideológico, a plataforma revolucionária dos tenentes da Coluna Prestes mostrava que eles tinham uma visão mais profunda da realidade brasileira e dos problemas da terra e das gentes com quem mantinham contatos na sua longa pelos sertões do Brasil. Um dos objetivos da Coluna que, que marchou aproximadamente 25.000 quilômetros de Sul a Norte, era conscientizar a população, esclarecê-la sobre as instituições oligárquicas que a esmagavam. (SILVA, 1992, p.235)
Enquanto durou, a “Coluna Prestes” lutou sem perder uma batalha contra o exército regular, mas não obteve êxito em sua proposta de conscientização política da população em relação aos diversos problemas políticos do país, e depois de uma longa jornada de três anos, o movimento desfez-se com o exílio de muitos dos seus componentes para países vizinhos:
Em fevereiro de 1927, um grupo de seiscentos homens esgotados e sem apoio, sem munição e armas para seguir lutando, e consciente do fracasso do seu movimento refugiou-se na Bolívia. Era o fim da Coluna Prestes. Porém não o fim do Tenentismo. (ibidem, 1992, p.236)

Estas informações de cunho histórico são importantes na tentativa de ilustrar o que foi a Coluna Prestes para assim, relacionar este evento que faz parte da história política brasileira e de um que viria a ser um personagem central na vida política de Jacinta Passos, o líder comunista Luiz Carlos Prestes. Buscaremos a partir da análise da estrutura externa do poema citado, identificar como a poetisa e militante política relaciona este evento com sua produção literária.






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