Instituto de letras beatriz azevedo da silva jacinta, passos de uma escritora



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A Paladina34 se propunha a “propagar ideias moralizadoras e conhecimentos úteis, indispensáveis às mães de família na tarefa de educar seus filhos”. Assim anunciava o editorial, escrito pela fundadora da revista Amélia Rodrigues, que se incumbe da sua direção de 1910 a 1912. A revista mantinha, ao lado de crônicas e artigos, seções fixas, além de inúmeros artigos de colaboradoras como é o caso de Anna Ribeiro e mesmo de homens, como o poeta Pethion de Villar, João do Rego, Pompílio Cavalcante de Mello, entre outros. Algumas traduções de artigos referentes à causa feminina ou artigos de ordem religiosa e crítica literária completavam a revista. (idem, 1998, p. 41)

Neste primeiro momento, as mulheres que investiam na escrita em periódicos hesitavam assumir suas identidades por conta do forte preconceito que sofriam. Este receio, conforme esclarece a pesquisadora Lizir Alves (1999), ocorria justamente pelo fato de a imprensa brasileira ser bastante masculinizada, as mulheres adentraram a este “terreno” sob o olhar desconfiado daqueles que detinham a credibilidade da escrita, que às mulheres era negada:


Convém assinalar que a fraca participação da mulher na imprensa do século XIX, deve-se, sobretudo, ao fato de muito lhe ter pesado o preconceito existente contra a mulher escritora o que justifica de certo modo a atitude de muitas delas em se utilizarem de pseudônimos. O fenômeno era geral. Nas diversas províncias os periódicos divulgavam textos literários assinados “Por uma pernambucana”, “Por uma maranhense” [...]. (ALVES, 1999, p.36)

A pesquisadora destaca que, no meado século XIX, pouquíssimos nomes femininos aparecem na imprensa baiana. É, segundo a autora, da década de 1870, a fundação de dois jornais que têm entre seus colaboradores, mulheres: são eles o Diário de Notícias (1875) e O Monitor (1876):


Este, no curto período que existiu, até 1881, procurou divulgar matérias que tratavam de interesses femininos, relativos à educação e ao trabalho, transcreveu textos de escritoras de outros locais e publicou, em 1879, o que pode ter sido o primeiro texto de ficção de uma mulher baiana, o conto “O Desterrado” de Anna Autran.

No Diário de Notícias, em sua primeira fase (1875-1887), as mulheres encontraram em seu diretor, Lopes Cardoso, um cúmplice e incentivador para suas atividades literárias. [...]

Em setembro de 1880, o Diário de Notícias publica nota dirigida às senhoras da Bahia, solicitando “suas valiosas produções”, quaisquer que fossem, “em prosa ou verso, logogrifos, charadas, etc., para honrar as páginas do Almanaque. (idem,1999, p. 37-38)

Jacinta Passos faz parte da continuidade da tradição de escritoras que tiveram na imprensa a possibilidade de divulgação de seu trabalho como literata — publicava com frequência seus poemas em jornais e revistas (Cf. anexo K) — O jornal O Imparcial (1918-1947). O que se verifica no conteúdo da “Página Feminina, dirigida por Jacinta Passos, é uma espécie de negociação entre esta pauta habitual — moda, puericultura, cuidados pessoais, receitas culinárias — com os assuntos que normalmente não estavam direcionados às mulheres como a política, a literatura voltada para as questões sociais etc. (Cf. Anexo G)

A intelectual baiana, assim como outras mulheres de seu tempo, fez parte do bojo de brasileiras das camadas médias que se inseriram no universo público em um momento histórico de instabilidade política, quando alguns avanços culturais e comportamentais começavam a acontecer na contramão de toda uma tradição de valores ainda bastante calcados no ideal de família governada pelo poder patriarcal era o locus definido.

Ao refletir sobre a questão do sistema de funcionamento de gênero na divisão sexual do trabalho, Ana Alice Costa discorre sobre a as esferas do público e privado como aspectos que criaram dentro das diversas coletividades humanas, uma disparidade entre as atividades produtivas desenvolvidas por homens e mulheres com parâmetros que atribuíram, por exemplo, a atividade política aos homens e os cuidados com os filhos, às mulheres, fazendo com que, durante muitos anos na história, o mundo público fosse fechado à atuação feminina.

Esta realidade foi vigente na sociedade brasileira durante longos anos, e na contemporaneidade muitos paradigmas precisam ser quebrados, de forma que, segundo a autora, durante um longo período na história do pensamento universal “A mulher, principal responsável pela reprodução, ficará isolada na vida doméstica/privada. A ela será negada qualquer forma de participação social. O isolamento doméstico privará da experiência de organizar e planejar suas lutas, uma fonte básica de educação. [...]”. (COSTA, 1998, p.51).

No sentido de compreender o processo de construção histórica da condição social das mulheres, os estudos de gênero vêm demonstrando a importância da revisão desse “lugar” de subalternidade e a construção da concepção do sujeito feminino como político, buscando entender a gênese das desigualdades e a partir deste conhecimento promover a desestabilização do status quo, através de novas formas de representação deste sujeito seja através da literatura, da política ou em qualquer outra instância de produção intelectual.

Entender como este sistema de gênero foi constituído e perpetuado nas sociedades humanas é fundamental para que a desconstrução destes padrões seja feita e que os sujeitos, antes invisibilizados, possam ser colocados como agentes fundamentais na produção de conhecimento, na atuação na esfera pública e da política. No entanto, por um longo período, como foi dito, a esfera pública foi estrategicamente negada às mulheres:
A invisibilidade das mulheres, segundo esta perspectiva, se deve a que a ideologia das esferas separadas as definiu como seres exclusivamente privados, negando assim sua capacidade de participar da vida política. Tão grande tem sido o poder de poder da ideologia que ainda quando trabalhem ou tenham uma atuação política, suas atividades como extraordinárias ou anormais e, por isso, alheias ao âmbito da política autêntica ou séria. A desvalorização das atividades da mulher (como fonte de mão-de-obra barata no mercado e de trabalho livre no lar) desvalorizou também a visão das mulheres como sujeitos históricos e como agentes de mudança. (SCOTT, 1992, p.48)
Na primeira parte deste capítulo, abordaremos a participação de Jacinta Passos no jornal O Imparcial (1918-1947) no qual a poetisa e jornalista começou a escrever em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial. Nos primeiros artigos publicados, os assuntos abordados versam sobre o contexto político do Brasil e dos países diretamente envolvidos na guerra. Estes assuntos são tratados de forma crítica e contundente.

Um exemplo desta postura em relação aos acontecimentos daquele momento é o artigo “A caricatura do Nazismo”35 (Cf. anexo B) em que Jacinta Passos analisa o filme satírico sobre o nazismo “O grande ditador” (1940):


O “grande ditador”, esse filme humaníssimo que Chaplin realizou, vale mais do que apologia contra o nazismo. É um filme que deve ser visto pelas multidões. Ignorantes e cultos, homens, velhos e crianças, qualquer criatura humana o entende e sai de lá com uma compreensão mais lúcida da realidade de nosso mundo. O homem eterno com suas grandezas e misérias, seu heroísmo, seus ridículos e suas esperanças. Compreensão do nosso mundo atual, o processo de renovação histórica que se opera dentro dele, elementos em decomposição que condicionaram o maior fenômeno reacionário da história, e elementos puros, forças intactas do mundo de amanhã. [...]

Somente a caricatura consegue representar com fidelidade tipos como o grande ditador e as personagens que o cercam, tipo de fim de época histórica, espectros de um mundo desaparecido, incoerentes, absurdos, ridículos como moribundos que tentassem resistir à morte. Recriando situações, exagerando os traços marcantes do grande ditador, revelando-o através de sua mímica poderosa, Chaplin nos faz surpreender em sua própria gênese o fenômeno reacionário.

Revela o seu conteúdo irracional, todo esse complexo de contingências biopsicológicas, recalques, instintos reprimidos, taras que a humanidade carrega dentro dela e que dificilmente consegue se libertar. [...]36
Neste texto, a jornalista, ao tecer considerações sobre o filme de Charles Chaplin ressalta sua importância humanística em um momento de descrença por parte da sociedade mundial num desfecho positivo da guerra. Ela aborda o aspecto desestabilizador que a caricatura provoca principalmente pelo fato de se estar tratando da figura de Adolf Hitler, que representava a força do Nazismo no mundo. A autora defende que o filme deve ser assistido pelo maior número de espectadores para que se possa ter uma compreensão do fenômeno do nazismo.

Para ela, o filme tem mais peso do que qualquer outra forma de explicação da realidade social e política no mundo naquele momento, pois o aspecto desconcertante que o cômico provoca possui mais força do que um manifesto ou um tratado sobre os acontecimentos para as pessoas que assistem ao filme. Em todos os seus textos em que a Segunda Guerra Mundial é citada, Jacinta Passos se mostra ferrenhamente contrária ao regime nazista, não economizando críticas ao mesmo.

Em outro artigo, ela opina sobre a criação de um programa para a compreensão do nazismo e seu desenvolvimento histórico.
Um povo, para realizar heroicamente o seu destino histórico, não basta que seja apenas sacudido por grandes emoções. A vibração coletiva abala intensamente, mas às vezes passa rápido como os grandes vendavais. A ideia, essa é que fica quando cria raízes e o tempo amadurece. Ela é a base de toda ação inteligente. A nossa ação, ação organizada e perseverante, depende de uma clara compreensão do fenômeno nazista. Cursos de preparação antinazista, como o que a Legião Acadêmica vai realizar, correspondem a uma profunda necessidade nossa, imediata.

A ideia-centro em torno da qual deve girar um plano de preparação antinazista é a situação do fenômeno nazismo no desenvolvimento histórico da humanidade. [...] O nazismo é uma organização que obedece a um plano concebido. Mas não é uma “nova ordem” porque o nosso mero erro radical continua na base do sistema. E por isso continua a guerra, incluída como elemento no plano de vida. [...] A experiência nazista é uma lição para o nosso pobre mundo burguês, este mundo absurdo do dinheiro que os homens do futuro acharão ridículo, como nós achamos hoje ridículo o mundo da nobreza, o mundo dos senhores barões, condes e viscondes que a Revolução Francesa derrubou. É uma lição para não repetirmos a lição inútil do nazismo. A análise de vários aspectos, econômico, político, cultura, humano do fenômeno nazista sugere perguntas, à espera de respostas: a) Na organização econômica da “nova ordem” há uma distribuição justa ou menos injusta [...] dos materiais necessários à vida humana? [...] c) como a nova ordem resolve o problema da mulher? [...]37

Este é um dos inúmeros artigos em que Jacinta Passos discorre sobre questões políticas. Neste exemplo identificam-se algumas características marcantes na escrita da autora: em um só texto ela conjuga a política humanística, a visão de mundo voltado à ideologia socialista/ comunista e também mostra uma inquietação quanto à condição social feminina no contexto da guerra.

Para a autora, era importante que a sociedade brasileira compreendesse o processo de formação histórica do nazismo e seu estabelecimento como “nova ordem mundial”, entender quais fatores foram favoráveis ao avanço nazista.

Ao longo do texto, nota-se que a jornalista tece considerações críticas ao nazismo e ressalta a importância da criação do curso de preparação antinazista em uma sociedade que carece de informação, de consciência crítica. Mostra-se contrária ao sistema capitalista que vai avançando e criando as disparidades sociais nas diversas coletividades existentes. Em suma, para a autora, a força que o conflito mundial exerce sobre as nações ainda impede que se sonhe com a paz.

Por último, elenca uma série de questionamentos dirigidos à “nova ordem” em que se identifica, além de todos os anseios humanos pelo fim da guerra, uma preocupação com a condição feminina de seu tempo. A jornalista estava a cada artigo publicado, convidando seu leitor a uma reflexão crítica, a pensar sobre a condição humana e política de diversos países do mundo.

Em “Fascismo desesperado”38 (Cf. anexo J), publicado em 1943, quando algumas batalhas são perdidas pelos países do eixo, como é o caso da Batalha de Stalingrado39 em que as tropas de Hitler nesta localidade são derrotadas pelas da antiga URSS:
Hitler, depois que experimentou pela primeira vez a derrota em Stalingrado, vem sucessivamente perdendo suas esperanças de vitória. Em todas as frentes de batalha, os nazistas sofreram derrotas fragorosas. As forças aliadas conquistaram Catânia e em quase toda Sicília tremulam bandeiras das Nações Unidas. [...]

Essas vitórias das forças aliadas abalam vez mais forte e mais profundamente as trincheiras políticas do fascismo na Itália. [...] A revolução popular é hoje uma realidade que o governo de Badóglio tenta em vão, abafar e deter. Nos países ocupados da Europa, o povo paciente antecipa, em pequenas amostras de sabotagem antinazista, a grande revolta dos povos. [...]

Diante dos fatos, como agem os fascistas para conservar o fascismo agonizante? Notícias oficiais da Alemanha, transmitidas pela rádio, já falam em “próximas alterações” no governo alemão. É a repetição do que se vem passando na Itália. Os nazistas preparam um golpe muniquista, preparam a substituição de Hitler, para que o poder continue em suas mãos. E para isso começam a mobilizar os fascistas e seus aliados em todo o mundo.

Mas os acontecimentos desta guerra já esclareceram os povos sobre o fascismo. Os povos sabem que o fascismo é a tirania organizada de um grupo para dominar o povo. Os povos sabem que não lutam contra o povo italiano, nem mesmo contra o povo alemão, que esses povos foram dominados e explorados pelo grupo dos fascistas e que, esclarecidos pela marcha da guerra, serão seus maiores aliados no momento oportuno. [...]

Os povos conhecem bem quem quais são os seus aliados verdadeiros e quais os seus verdadeiros inimigos. [...]

Jacinta Passos escreve com propriedade sobre o desenrolar dos acontecimentos da guerra. Neste artigo vemos que ela aborda com detalhes a estratégia utilizada pelos países do eixo para manter o regime em um período de sucessivas derrotas que vinham sofrendo. Ela ressalta que os povos (os civis) que estavam, involuntariamente, envolvidos no conflito, estão atentos a estas manobras. Faz referências históricas a eventos ocorridos em anos anteriores quando cita o “golpe muniquista” em que Hitler tenta aplicar um golpe de Estado em Munique em 1923 com a propaganda do “nacional-socialismo”, período em que a Alemanha atravessava uma severa crise com milhares de desempregados.

De acordo com Max Altman (2014), o líder nazista acaba preso e condenado a cinco anos de prisão, mas permaneceu apenas nove meses detido, e é a partir de sua prisão que ele cria seu projeto político para a Alemanha, divulgado na obra Mein kampf. Ela fala também da insurgência de grupos isolados contra o regime através da sabotagem e algumas ações isoladas contra as forças militares.

A partir da observação de informações históricas, do acompanhamento dos fatos, Passos foi uma das colaboradoras assíduas no período de guerra no diário O Imparcial a apuração crítica de seus artigos, como é possível acompanhar através dos textos selecionados para este estudo, demonstram o quanto a atividade jornalística foi importante para que ela se mantivesse ligada à política durante toda sua vida e para que fortalecesse sua crença na criação de um mundo e uma sociedade mais comprometida com questões sociais.

Os artigos tratam de questões variadas dentro de uma mesma conjuntura que é a problemática da guerra. No artigo “Os estudantes e a guerra”, o enfoque é sobre a formação da consciência política brasileira através de um congresso voltado para a juventude estudantil da época.
O Congresso de Guerra dos Estudantes, que agora se realiza no Rio, vem sendo orientado por um alto sentido patriótico. Vozes autorizadas como a do ministro Capanema, que falou em nome do presidente Vargas, como a do grande general Manoel Rabelo e, recentemente, do comandante Amaral Peixoto, levaram o apoio do Governo e do Exército aos nossos bravos moços estudantes. É o reconhecimento oficial do trabalho patriótico, da coragem e da bravura dos estudantes do Brasil, pioneiros da luta contra o fascismo.

Quando se escrever a presente história do momento brasileiro, quando se narrar para as gerações futuras as lutas do povo pela independência da pátria ameaçada pelo fascismo estrangeiro e nacional, haverá, com justiça, um capítulo escrito sobre o papel decisivo desempenhado nessa luta pela mocidade e, principalmente, pela mocidade estudantil. O estudante brasileiro sempre teve uma tradição de grandeza intelectual e moral, mas de uma grandeza boêmia desorganizada e desorientada...Os estudantes da atual geração desfizeram essa antiga tradição e demonstraram uma capacidade notável para a ação organizada e eficiente, orientados por uma aguda consciência política.

Foram eles, os estudantes, liderados pelos estudantes baianos, os primeiros que deram o grito de alerta pela unidade interna, contra o trabalho divisionista da quinta-coluna e contra o perigo integralista [...].

Hoje, muitos desses estudantes, veteranos da luta contra o fascismo, estão convocados para o serviço militar e vestem a farda do nosso exército, e se preparam para a luta nos campos de batalha onde a segunda frente dos povos livres exige a participação do Brasil, com a mesma decisão e firmeza com que lutaram nas campanhas civis.40


Em paralelo ao acompanhamento da guerra, a escritora estava atenta aos desdobramentos da política nacional. No artigo, ela cita o Integralismo, que foi uma organização política brasileira de inspiração fascista como esclarece Boris Fausto:
No Brasil, após a formação de pequenos grupos de direita na década de 1920, surgiu a Ação Integralista Brasileira (AIB), em outubro de 1932, sob o comando de Plínio Salgado, jornalista e escritor, nascido no interior de São Paulo. [...] Próxima ao fascismo, com tintas de integralismo católico, a organização se defendia como nacionalista, com um conteúdo mais cultural do que econômico. Seu lema se concentrou em três palavras: Deus, Pátria e Família. O antiliberalismo e o antisemitismo [...]. (FAUSTO, 2013, p. 98)

A jornalista se posicionava de forma clara e contundente contra o Integralismo e outras organizações de ideologia totalitária que não estabelecessem uma relação democrática com a sociedade em geral. No artigo transcrito acima, ela destaca de um lado a coragem dos estudantes em participar de forma ativa da vida política de seu país e, por outro, a coragem de muitos deles ao se alistar para o serviço militar. Destaca também que esta força intelectual e dos jovens estudantes, dando destaque aos baianos, é imprescindível para que o Brasil resista às formas de regime de origem fascista que se desenharam no país, àquela época, como no caso do Integralismo.

Em outro período de sua vida, em 1945, Jacinta Passos colaborou para o jornal O Momento (1945-1957). Neste mesmo ano, se candidata a deputada federal constituinte pela legenda do PCB. Nesta época, a escritora estava bastante envolvida nas atividades partidárias, deixando isto evidente em diversos textos. Pelo que pode ser observado do discurso de Jacinta Passos é que, para ela, a única saída política que poderia resolver os problemas estruturais brasileiros era o comunismo.

No discurso41 transcrito a seguir, quando ela, candidata a um cargo político discursa em um comício na cidade de Salvador em apoio à candidatura à presidência do país de Yeddo Fiúza, que recebeu o apoio do Partido Comunista, a escritora e militante política deixa clara sua visão de mundo e ideologia política:


[...] A guerra contra o fascismo abriu os olhos do povo, e depois da vitória das Nações Unidas, da Carta de São Francisco, da FEB, da anistia, da Constituinte, da candidatura de Yeddo Fiúza, não é mais possível enganar o povo.

E o que é o povo?

Não é uma palavra vazia que os demagogos gritam mas nela não acreditam. É alguma coisa que existe de verdade, como existe esta rua, esta cidade, com suas condições próprias de vida. O povo é feito de vós que estais aqui, que viestes da Penha, da Barroquinha, do Chame-Chame, da Estrada da Liberdade, das fábricas, das oficinas, das casas, lojas, repartições e escritórios [...]

O povo é feito de vós, dessa gente que forma a maioria, a grande massa da nação brasileira. E como podeis defender os vossos interesses? É com golpes armados, com tiros na rua, é cada qual sozinho gritando contra o patrão, maldizendo o governo e os poderosos? Não, isso é o que os vossos inimigos desejam, para, em seguida gritar contra vós: “Prendam esses desordeiros! ” Já sabeis como lutar. Já ouvistes desde maio a palavra: “Organizai-vos! Organizai-vos”, “Organizai-vos”, de Luiz Carlos Prestes. Isso quer dizer que o meio de cada um lutar é se unir aos outros que têm os mesmos problemas e os mesmos interesses a defender. É entrar para as organizações de classe, para os sindicatos, comitês, associações populares [...]

Vou ler alguns dos pontos que os candidatos do partido do Partido Comunista defenderão na Constituinte: “Luta pela ajuda decisiva do governo, através de medidas práticas, contra a inflação. ” “Luta pela ajuda decisiva do governo à organização sindical do proletariado. ” [...]

Para esses brasileiros honestos, mas que ainda olham o Partido Comunista de longe, desconfiados, quero contar a definição dada por um camponês do interior de São Paulo. [...] No meio duma conversa o camponês falou assim: “Seu moço, esse negócio de comunismo é o mesmo que assombração. A gente vai pela estrada, de noite, e vê o velho longe. O que é, o que não é? Quer voltar, correr, fugir. Mas de repente toma coragem e avança. O companheiro diz: “Não vá homem, é alma penada, é lobisomem, é assombração”. Mas a gente vai mesmo, e quando chega perto, não é assombração nem nada, é o pai da gente”. Para esses que, ainda não se convenceram de que o Partido Comunista é o “pai da gente”, ainda é tempo para uma aproximação leal, para um conhecimento de perto.42

A transcrição do discurso de Jacinta Passos publicada no jornal O Momento é muito importante para a hipótese que foi levantada neste capítulo. A escritora e jornalista e, neste discurso, a candidata à deputada pelo PCB, deixa transparecer a voz da militância política a qual dedicou grande esforço em toda sua vida.

A autora de fato acreditava nas propostas de mudança social defendidas pelo partido e fazia, até mesmo antes de ser candidata, uma propaganda aberta das ideias comunistas nos meios em que circulou, principalmente através dos jornais dos quais foi colaboradora. Não seria exagero afirmar que esta se tornou sua principal missão enquanto intelectual. Quando ela afirma em seu discurso que o “Partido Comunista é o pai da gente”, entende que este seria a principal alavanca de transformação da realidade brasileira nos mais diversos campos, no econômico, social e político.

Jacinta Passos utilizou o espaço nos jornais como plataforma para o desenvolvimento e a divulgação da sua ideologia política, funcionaram também como uma espécie de palanque para a defesa das ideias comunistas e propaganda do partido e em última instância, o caminho no qual seu percurso enquanto ser humano, sujeito político e histórico foi desenhado e no qual pôde, através do trabalho com a palavra estabelecer seu discurso com o mundo.

Neste sentido, é possível ensaiarmos a afirmação de que a jornalista baiana foi mais uma das diversas mulheres brasileiras que encontraram no periodismo uma forma de discutirem questões políticas relevantes e criaram, através de textos sérios, apurados e comprometidos com a realidade social do país e principalmente com sua ideologia, um outro caminho para a prática política que foi e é feita por homens e também por mulheres ao redor do mundo, sendo que estas últimas, tiveram ao longo de todo processo histórico das relações sociais de poder, alijadas da vida política.





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