Instituto de letras beatriz azevedo da silva jacinta, passos de uma escritora


A PARTICIPAÇÃO DE JACINTA PASSOS NO JORNALISMO BAIANO



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3 A PARTICIPAÇÃO DE JACINTA PASSOS NO JORNALISMO BAIANO
Edição da Página Feminina, jornal O Imparcial, 26 de março de 1943, Salvador-BA.

Eu sou a humanidade que sofre.

As minhas raízes profundas mergulham no ventre da terra,

o meu espírito como uma antena prodigiosa domina o espaço

e capta todas as vibrações, as mínimas vibrações

trazidas pelos ventos que sopram de todos os lados .

Eu sou a humanidade que sofre

experimento no meu espírito e na minha carne

este instante de dor universal. [....]
Jacinta Passos (1940)

3.1 Um percurso ideológico?
Além de escritora e poetisa, Jacinta Passos teve uma atuação no jornalismo baiano entre os anos de 1942 a 1946, em dois dos principais periódicos da época, o jornal O Imparcial30 (1918-1947) e O Momento31 (1945-1957), este último de propriedade do Partido Comunista Brasileiro. A participação da escritora nestes veículos de comunicação foi marcada pela forma combativa como escrevia seus textos, principalmente os de cunho político e pela criação de um canal de comunicação direta com um público leitor bastante específico: as mulheres da época, através de um suplemento semanal que apresentava conteúdos que buscavam relacionar estas leitoras à vida política e social do Brasil e do mundo.

A proposta desse capítulo é analisar a atuação de Jacinta Passos no jornalismo, sem perder de vista sua posição enquanto militante política comunista. Um ponto de partida importante para a análise aqui pretendida é lançar alguns questionamentos acerca desta passagem da escritora pelo jornalismo em um contexto bastante movimentado do ponto de vista histórico e político. Em que medida é possível entender sua participação na imprensa como uma marca de posicionamento ideológico, político? Quais aspectos presentes nos artigos por ela selecionados para publicação deixam claro seu posicionamento enquanto escritora, jornalista e militante feminista? Jacinta Passos pôde, através do jornalismo, promover a quebra de alguns paradigmas para as mulheres leitoras de seu tempo? E como ela articulou sua prática profissional com a política?

Ainda que esta participação no jornalismo tenha acontecido durante um curto período de tempo em sua vida, esta fase foi bastante produtiva na medida em que a autora trabalhou dois aspectos importantes na sua trajetória como mulher e como escritora: na função de jornalista, pôde desenvolver sua escrita em torno dos assuntos políticos do momento além de lançar um importante olhar sobre a organização de mulheres ao redor do mundo e na inserção destas nos assuntos políticos e no esforço de guerra dos países envolvidos no conflito mundial:
Jacinta participou ativamente desse período. Durante a década de 1940, tornou-se jornalista muito atuante na Bahia, uma figura conhecida, assumindo posições públicas sobre temas como a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, os caminhos para a organização das mulheres, os rumos da política nacional, o papel dos intelectuais nos destinos do país (...) cada vez mais se ligava e se identificava com as ideias, movimentos e intelectuais de esquerda. (AMADO, 2010, p.265)
Jacinta Passos transitou na via dupla da literatura e do jornalismo, fez parte da tradição de escritores brasileiros que também exerceram a função jornalística sem abdicar de seu lado artístico, pois publicava seus poemas em diversos periódicos com bastante regularidade. Nomes como Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Moacyr Scliar, Jorge Amado, Érico Veríssimo são alguns exemplos de escritores que atuaram como jornalistas em algum período de suas carreiras.

A relação entre essas duas práticas no Brasil foi ao longo de muitos anos bastante próxima. Até a década de 1940, os veículos de comunicação constituíam-se basicamente como instrumento político, ora a favor dos governos, ora numa linha de oposição. Conjugando o tripé: literatura, jornalismo e política, muitos escritores lançaram-se no meio jornalístico a partir desta perspectiva, tendo na escrita nos jornais uma forma de inserção na vida social do país e tornando as páginas destes periódicos uma vitrine para a divulgação de sua ideologia política e em muitos casos, uma forma de tornar públicas suas obras.


Até a segunda metade do século XX, o jornalismo era considerado um subproduto das belas artes. Alceu Amoroso Lima o definia como “literatura sob pressão”. Muitos jornalistas também eram ficcionistas. Devido à ausência de mercado editorial forte, os escritores tinham que trabalhar em outras ocupações para garantir sua sobrevivência. O jornalismo, como atividade mais próxima- que nesse momento permitia o livre desenvolvimento dos estilos pessoais – era uma escolha natural para muitos deles. (RIBEIRO, 2003, p.147)

Tal qual a relação do jornalismo com a literatura, era a relação da escritora e poetisa Jacinta Passos com o jornalismo e a política. Em sua passagem pelo jornal O Imparcial (1914-1947), por exemplo, publicou artigos cujos temas eram em sua maioria políticos, marcados por reflexões críticas sobre a literatura e sua importância naquele contexto sócio-histórico.

Jacinta Passos começou sua trajetória na política ao participar de diversas manifestações e passeatas na cidade de Salvador entre as décadas de 30 e 40 contra os regimes autoritários com vigência nesta época: no Brasil, a partir de 1937 contra o Estado Novo, e um pouco mais tarde com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, estudantes e intelectuais lançaram-se contra este conflito.

A partir desta aproximação da vida política do país, a autora passou a estudar diversas teorias políticas dentre elas a teoria marxista, o socialismo e o comunismo. O Partido Comunista Brasileiro32 (PCB), fundado em 1922, no I Congresso do partido no país:


Em 25, 26 e 27 de março de 1922, representando grupos de Porto Alegre, Recife e São Paulo, fundaram, no Rio de Janeiro, sob impacto da Revolução Socialista Russa de 1917, o Partido Comunista do Brasil, que se filiou à terceira Internacional. Seu objetivo, publicado no Movimento Comunista, órgão nacional do partido, era “atuar como organização política do proletariado e também lutar e agir pela compreensão mútua internacional dos trabalhadores. O partido da classe operária é organizado com o objetivo de conquistar o poder político pelo proletariado e pela transformação política e econômica da sociedade capitalista em comunista. (KONDER, 2003, p. 47)
A escritora demonstrou, através de muitos de seus poemas e de artigos publicados, um compromisso com as transformações sociais no Brasil, com o fim da guerra e com a construção de um novo papel para a mulher na sociedade, o que, em linhas gerais, acompanhava a ideologia política do PCB, ao qual se filiou em 1945. Estes foram os principais pilares sobre os quais construiu sua trajetória no jornalismo, na política e na literatura.

Sua atividade política não se limitou à escrita nos jornais ou à publicação de poemas cujas temáticas fossem de ordem social e política. Após o término da Segunda Guerra, em 1945, participou juntamente com outros intelectuais e na companhia de seu marido James Amado, que também era comunista, de manifestações pelo fim do regime autoritário do Estado Novo. A relação da escritora com a atividade política tornou-se, em um determinado momento de sua vida, uma diretriz para sua produção intelectual.

Considerando que, para grande parte da população feminina brasileira, durante muitos anos, a conquista do espaço público configurou-se como um grande desafio, as mulheres da classe média da população foram de maneira paulatina inserindo-se no mundo do trabalho ainda que sob a pressão social e familiar. Para as mulheres das camadas sociais mais baixas, o trabalho, ainda que de pouca qualificação, era obrigatório para o sustento de suas famílias, estas, portanto, ingressaram muito antes no mundo do trabalho. Para as oriundas da classe média, adentrar no espaço público só foi possível através de um trabalho persistente feito pelos movimentos e organizações feministas no país.

A luta das mulheres brasileiras para a conquista dos espaços públicos e para fazer parte da vida social e política do país tem seu início, de acordo com a teórica Constância Lima Duarte (2003), no início do século XIX quando estas reivindicam o acesso à educação formal. A autora informa ainda, que é de 1827 a primeira legislação que autorizava a criação de escolas para mulheres no país. O nome destacado pela autora em seu artigo sobre o feminismo e a literatura no Brasil, é o de Nísia Floresta Brasileira Augusta, uma das poucas mulheres que neste período tiveram condição de ter uma “educação diferenciada” e puderam assim “abrir escolas, publicar livros” e inserirem-se, através destas iniciativas isoladas, na vida pública que lhes era negada.


O nome que se destaca nesse momento é o de Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885), nascida no Rio Grande do Norte, que residiu em Recife, Porto Alegre e Rio de Janeiro, antes de se mudar para a Europa, e que teria sido uma das primeiras mulheres no Brasil a romper os limites do espaço privado e a publicar textos em jornais da chamada “grande” imprensa. (DUARTE, 2003, p.153)

A pesquisadora afirma que é apenas em meados deste mesmo século que começam a surgir jornais dirigidos por mulheres e a crítica a essas publicações se deu de forma bastante acentuada: “Os críticos chegam junto, considerando-a desde sempre uma imprensa secundária, inconsistente e supérflua, pois se destinava ao segundo sexo...” (DUARTE, 2003, p. 155). Ainda que enfrentando estas dificuldades iniciais, este movimento foi de grande importância para a construção e fortalecimento da identidade feminina no país:


Em 1852, o público leitor do Rio de Janeiro deve ter se surpreendido com o lançamento do Jornal das Senhoras, de Joana Paula Manso de Noronha, uma argentina radicada no Rio de Janeiro. O editorial do primeiro número expõe o firme propósito de incentivar as mulheres a se ilustrarem e a buscarem um “melhoramento social e a emancipação moral”. Joana Manso acreditava na inteligência feminina e queria convencer a todos que “Deus deu a mulher uma alma e a fez igual ao homem e sua companheira”. Para ela, a elite brasileira não podia ficar isolada “quando o mundo inteiro marcha ao progresso” e “tende ao aperfeiçoamento moral e material da sociedade”. (idem, 2003, p.155)

A autora cita outra precursora do periodismo feminino no Brasil, a editora Júlia Albuquerque Sandy Aguiar, responsável pela publicação O Belo Sexo, em 1862.


No primeiro número ela declara estar consciente do pioneirismo de sua iniciativa e sua crença inabalável na capacidade intelectual da mulher. A novidade deste periódico é que as colaboradoras eram incentivadas a assinar seus trabalhos e participavam efetivamente do jornal, discutindo entre si os temas a serem publicados. (idem, 2003, p.155)
A reivindicação pela educação e a criação dos primeiros jornais dirigidos por mulheres no Brasil fizeram parte da conhecida primeira onda do feminismo. As poucas mulheres que tiveram acesso à produção intelectual neste período enfrentaram, como visto, adversidades, mas sem dúvida, sedimentaram o caminho para as gerações futuras. A luta era para que as mulheres pudessem ser consideradas como sujeitos, capazes de produzir conhecimento e de intervir em seus próprios destinos.

Mas é por volta de 1870 que surge um número maior de jornais e revistas editados por mulheres. Constância Duarte observa que essa fase é mais jornalística do que literária. A pesquisadora destaca algumas publicações que considera importantes neste período. Dentre eles está O sexo feminino, dirigido por Francisca Senhorinha da Motta Diniz, periódico que segundo a autora teve sucesso e circulou por um longo período, primeiro na cidade de Campanha da Princesa em Minas Gerais e depois no Rio de Janeiro, a partir de 1887. Conforme a autora, nos artigos publicados no jornal, “Francisca Senhorinha alertava as mulheres que o “grande inimigo” era a “ignorância de seus direitos”, que a “ciência dos homens” se encarregava de manter”.

Outros jornais marcaram este momento histórico, a teórica citada aponta o Echo das Damas, dirigido por Amélia Carolina da Silva Couto, periódico que circulou no Rio de Janeiro entre 1875 e 1885 “defendendo a igualdade, o direito da mulher à educação, e divulgando as realizações femininas em outros países” (DUARTE, 2003, p.156). Outros veículos como O domingo, O Jornal das Damas, ambos fundados em 1873 traziam conteúdos relacionados ao ambiente doméstico, mas não anulavam as reivindicações das mulheres em outros campos de suas vidas como o direito ao ensino superior.

A pesquisadora da UFMG cita ainda outra intelectual deste período que teve especial atuação como feminista através do jornal A Família, por ela editado. Josephina Álvares de Azevedo, nascida em Recife, foi também professora e neste periódico deixava claras as suas convicções sobre a emancipação cultural e intelectual das mulheres. Constância Duarte destaca este texto de Josephina Álvares de Azevedo em A Família:


Formem grupos e associações, fundem jornais e revistas, levem de vencida os tirocínios acadêmicos, procurem as mais ilustres e felizes, com sua influência, aviventar a campanha em bem da mulher e seus direitos, no Brasil: e assim terão as nossas virtuosas e dignas compatriotas pelejado, com recato e moderação naturais ao seu delicado sexo, pela bela ideia: “Fazer da brasileira um modelo feminino de educação e cultura espiritual, ativa, distinta e forte”. (DUARTE apud ALVARES, 2003, p. 157).

No início do século XX, os nomes que aparecem no estudo de Constância Duarte são os de Bertha Lutz (1894-1976), intelectual importante na luta pelo direito ao voto, que só foi conquistado em 1932, e pela igualdade entre homens e mulheres no país. Formada em Biologia, Bertha Lutz teve uma voz ativa através da participação em eventos públicos que tratavam dos interesses das mulheres e também publicou textos neste sentido na Revista da Semana.

A autora apresenta em seu trabalho outras tantas escritoras como as irmãs Revocata Heloísa de Melo e Julieta de Melo Monteiro, editoras de O Corimbo em Porto Alegre, Presciliana Duarte de Almeida com A Mensageira no Rio de Janeiro, já entre 1897 e 1900, e outras tantas brasileiras que foram precursoras no periodismo brasileiro e que em grande medida dialogam com intelectuais contemporâneas que assumiram para si o compromisso de fazer, através da escrita em periódicos, uma vitrine para os anseios, as realizações e reivindicações femininas.

Neste sentido, estas mulheres que atuaram no início do século XIX e também no século XX sedimentaram o caminho para que outras escritoras e jornalistas pudessem mais tarde utilizar os jornais como um espaço em que poderiam problematizar a condição social feminina. Jacinta Passos foi uma dessas mulheres que utilizou um espaço de grande alcance social para construir uma nova imagem de mulher em seu tempo.

As primeiras ações, no início do século XIX, aconteceram de forma isolada, sem que o movimento estivesse de fato organizado, até porque poucas mulheres tinham acesso à educação, mas, com o passar dos anos e com o acesso destas ao mundo letrado, o movimento se fortaleceu e nas primeiras décadas do século XX, o movimento assumiu novas perspectivas de ação, em que algumas ideias e direitos antes levantados como legítimos, foram problematizados e postos em xeque:
A década de 1920 foi particularmente pródiga na movimentação de mulheres. Além do feminismo burguês e bem comportado que logrou ocupar a grande imprensa, com suas inflamadas reivindicações, viu ainda emergir nomes vinculados a um movimento anarco-feminista, que propunham a emancipação da mulher nos diferentes planos da vida social, a instrução da classe operária e uma nova sociedade libertária, mas discordavam quanto a representatividade feminina ou à ideia do voto para a mulher. (idem, 2003, p. 161)

Ainda que não seja nosso objetivo aprofundar estas questões neste trabalho, é possível verificar que o movimento feminista no país, principalmente no que tange às suas reivindicações passou por transformações ideológicas, e a exemplo disto, Constância Duarte aponta a obra Virgindade inútil, novela de uma revoltada (1922), de Ercília Nogueira Cobra (1891-1938) que discutia a exploração sexual e trabalhista da mulher, obra que foi alvo de muitas críticas e discussões na sociedade da época.

As publicações de mulheres produzidas no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, apresentavam reivindicações que ficavam restritas à população de classe média urbana. Além disso, as jornalistas tinham que lidar com as “pautas” voltadas para o público feminino que, geralmente, tratavam de assuntos como moda, arte culinária e outros temas dessa natureza:
Isso [a escolha das pautas que preenchiam as matérias voltadas para o público feminino] acontecia em um país onde mais da metade da população vivia no campo e sua grande maioria era analfabeta. No caso das mulheres, os índices de analfabetismo eram ainda alarmantes, mas mesmo assim os jornais de diferentes tamanhos e alcances tinham importância para divulgar notícias e construir opinião. A presença dessa intensa atividade jornalística deve-se a uma característica da época que pode passar despercebida ao observador atual: a mensagem escrita era a única forma de comunicação de massa.

(PINTO, 2003, p. 31)

Segundo a pesquisadora Nancy Vieira, é no século XIX que circulam as primeiras publicações voltadas para o público feminino na Bahia. O conteúdo das revistas deste período não trazia uma reflexão sobre a condição social feminina:
Na Bahia, as primeiras revistas dedicadas ao “belo sexo” estiveram em circulação entre 1869 e 1887, e foram intituladas A Grinalda, Tríplice Aliança e Ramalhete, escritas por redatores homens, pois ficavam no lisonjeio e nos conselhos para as mulheres. Estas primeiras revistas publicadas no período ainda não traduziam a posição das mulheres baianas acerca da sua condição ou ainda diante das questões feministas que grassavam na Europa e nos Estados Unidos. (VIEIRA, 1998, p.40)

De acordo com a estudiosa, A Paladina33 (1910-1917) aparece como a primeira revista editada por mulheres na Bahia, dirigida pela escritora Amélia Rodrigues (1861-1926), seu corpo editorial era de mulheres católicas pertencentes à Liga Católica das Mulheres Baianas, e era dirigida a outras mulheres, mães de família no intuito de auxiliá-las em sua tarefa de educar seus filhos, mas, sobretudo, como o próprio título sugere, provocar reflexões quanto ao papel feminino para além dos limites que lhes era impostos e lutar para ocupar outros espaços sociais:





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