Instituto de letras beatriz azevedo da silva jacinta, passos de uma escritora



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A guerra28

Eu sou a humanidade que sofre.

As minhas raízes profundas mergulham no ventre da terra,

o meu espírito como uma antena prodigiosa domina o espaço

e capta todas as vibrações, as mínimas vibrações

trazidas pelos ventos que sopram de todos os lados.

Eu sou a humanidade que sofre.

Experimento no meu espírito e na minha carne

este instante de dor universal.

Sinto a realidade sangrenta dos campos de guerra,

o lívido pavor diante da morte

que ronda sinistra nas grandes aves metálicas,

nos monstros de ferro, nos peixes fantásticos do mar.

Clarões que se abrem,

gritos alucinados,

balas que silvam,

explosão de bombas,

corpos que tombam.

É a trágica destruição do homem

pela máquina poderosa que a sua inteligência criou.

Caminho pelas cidades transformadas em trincheiras.

Choro com as mulheres a saudade dos lares vazios,

a perda dos filhos – o próprio ser mutilado.[...]
(1940)
No primeiro verso do poema, o eu lírico já se enuncia como plural. O poema está escrito em primeira pessoa, mas a noção de coletividade permeia toda a fala deste sujeito. É um que se traduz em muitos, para se colocar no lugar das vozes daqueles que sofrem as consequências de uma guerra. A dor universal que esta guerra provoca, atinge àqueles que não estão, literalmente, na linha de fogo do conflito mas que pela sensibilidade e solidariedade, também percebe os danos causados por toda a atrocidade cometida contra a humanidade. Este é um dos muitos poemas em que há um afastamento da subjetividade tão comum em muitos de seus poemas iniciais.

Em “Diálogo em um país qualquer”29, a aproximação da temática voltada à percepção das questões sociais e do cotidiano de pessoas comuns, é bastante evidente, principalmente pela forma como a poetisa utiliza a linguagem:


– Demorei muito, não foi, mulher?

E o menino, como vai o menino?


– Vai assim como Deus quer.

Você arranjou o dinheiro?


– O dinheiro da receita?
– Sim. Coitado de meu filho, ficou sozinho o dia inteiro,

doente como está.

Fui ver se dava um jeito.

Fui na casa do padrinho,

que me deu umas frutas – fruta está tão caro –

para a dieta dele, coitadinho.

E a receita, como é?
– Não arranjei, não.

Ia falar com o gerente

para ver se me adianta algum dinheiro.

Mas estavam todos na reunião.

Sabe que a guerra já esta perto da gente?
– E para que fizeram reunião?
– Foi uma espécie de comício.

O diretor fez um discurso,

disse que a hora é grave, que exige sacrifício.

A pátria está ameaçada.

Cada homem deve dar até a própria vida

para defender o que é nosso,

para defender a pátria estremecida.
– E ele disse o que é pátria?
– Disse que pátria é tudo o que nós temos.

É a nossa terra

e tudo de bom que esse nome encerra.

É o alimento que nos vem do solo,

é o pão,

a água que bebemos,

o fogo que nos aquece,

a casa onde vivemos.


– Pátria é tudo o que nós temos.

Meu filho doente,

sem remédio,

sem alimento,

sem um cobertor para a hora do frio.

Água comprada por três mil réis a lata.

Fogo no candeeiro de gás que a vizinha emprestou.

O dono da casa exigindo o aluguel.

Será que a gente tem mesmo pátria, Manuel?

(1942)
Nesta conversa entre um casal, que enfrenta o drama de ter um filho doente e não ter condições financeiras para comprar o mínimo necessário, há uma importante reflexão sobre o que é ter uma pátria. Ora, se a pátria é tudo o que eles têm, e a pátria lhes nega condições de sobrevivência, a ideia de pertencer a esta pátria, tendo para com ela o sentimento de filiação, não se sustenta.

O diálogo entre o casal está marcado pela linguagem coloquial e este registro demonstra a afinidade da poetisa com as temáticas sociais, neste caso, evidencia-se a vida de pessoas que certamente pertencem às camadas da população economicamente mais afetadas. Nota-se por estes e outros exemplos que a reflexão sobre a realidade social passa a ser o ponto-chave de sua produção literária.

Após a publicação de seu primeiro livro, a autora, ao receber críticas favoráveis, firmou seu nome na cena literária baiana mantendo contato com intelectuais de esquerda tornando-se amiga do escritor comunista Jorge Amado.

Em 1944 a escritora mudou-se para a cidade de São Paulo onde se casou com o também escritor e jornalista James Amado com quem teve a única filha, e intensificou sua participação na política através da luta pelo fim da Segunda Guerra, pelo processo de redemocratização no país. Em São Paulo participou do 1º Congresso Brasileiro de Escritores, evento realizado em janeiro de 1945 reconhecido como o movimento dos intelectuais brasileiros que se opunha ao Estado Novo.

Neste mesmo ano, a autora filiou-se oficialmente ao PCB, que vivia um dos seus momentos de legalização, publicou o livro Canção da partida e foi candidata do partido a deputada federal e estadual, mas não conseguiu eleger-se.

Jacinta Passos passou um curto período de tempo no Rio de Janeiro em 1951 com seu esposo e filha e continuou a atuar de forma intensa no trabalho pelo partido escrevendo seus artigos políticos, atuando no comitê de mulheres, organizando eventos relacionados à participação política feminina na militância apesar de toda a repressão sofrida pelos comunistas neste período. No final deste mesmo ano, a escritora passou a apresentar problemas psicológicos e foi diagnosticada com esquizofrenia paranóide, doença que à época não contava com tratamento adequado.

Entre muitos deslocamentos de cidades que teve, com toda a questão da doença que a acometeu, com a consequente separação do esposo e posteriormente a separação de sua filha, a vida da escritora passou por vários momentos críticos, mas dentre todos estes eventos, ela manteve sua dignidade humana e sua sobriedade tendo em vista a publicação do livro “A Coluna” em 1957, texto este escrito em uma de suas internações psiquiátricas.

A partir da leitura de sua produção poética e de seus artigos publicados em jornal, transparece ao leitor atento a vocação humanística e politicamente engajada que é apresentada através da noção de que a literatura poderia estar comprometida com as questões de seu tempo, de seu lugar, mas também criando relações com os aspectos políticos e históricos universais, como ela defende no seu texto “O sentido atual da literatura” anteriormente analisado.

Neste capítulo foi possível identificar como Jacinta Passos começou sua trajetória poética. Nos textos apresentados, é possível perceber que esta primeira fase de sua poesia está repleta dos temas voltados à exaltação da natureza, ao canto da infância bem vivida por ela, o registro de sua relação com a religiosidade. Mas, em meio às temáticas telúricas e religiosas, é possível perceber que já estava em fase embrionária sua inclinação para a poesia social e política.

A autora faleceu em 23 de fevereiro de 1973, internada na Casa de Saúde Santa Maria, em Aracaju vítima de derrame cerebral. Até esta data a escritora se manteve produtiva escrevendo poemas, contos e outros textos com reflexões sobre política e literatura.




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